Capítulo 7 – Mudanças
Sora sentia o seu corpo completamente dolorido. Diversos sons distantes se faziam audíveis, como o bater dos tambores e uma canção que ele não conseguia entender a letra.
Abriu os olhos lentamente e viu que, não muito longe, uma fogueira parecia crepitar, com as labaredas já alcançando uma grande altura, devido a constante alimentação da madeira. Olhou em volta e percebeu que Goofy, Donald e seus sobrinhos estavam amarrados, assim como ele.
Então a memória do que acontecera viera aos poucos em sua mente. Lembrara que fora capturado por nativos daquela ilha, e depois perdeu os sentidos. Não sabia onde estava, e o pior era o fato de não saber o que iria acontecer a ele e seus amigos.
- Ei, Donald! – o rapaz chamou o mago real num sussurro, tentando não chamar a atenção dos outros. – Acorda.
- Hum... – o pato resmungou, enquanto abria os olhos vagarosamente. – O que? Onde estamos? – ele perguntou se sobressaltando.
- Fica quieto, ou vai chamar a atenção deles. – repreendeu o outro, apontando com a cabeça para os dois patos que estavam de sentinela.
- O que acham que vão fazer com a gente? – Donald perguntou temeroso.
- Eu não sei, mas temos que acordar os outros e achar um jeito de cair fora daqui.
- Sabia que vir para cá era uma péssima ideia.
Contudo, já não tinha mais tempo para armar nada, pois os dois sentinelas abriram espaço para outro pato, maior e mais forte, que iria levar os prisioneiros. Sora sentiu seu corpo gelar, já que não saberia o que aconteceria ali.
O nativo pegou as cordas que amarravam os prisioneiros e os arrastaram para fora, jogando-os com força no chão em frente à fogueira. O rapaz olhou em volta e percebeu que todos os outros patos estavam reunidos, como num ritual, onde bradavam constantemente por alguma coisa. Ainda percorrendo o lugar com o olhar, ele viu um bloco trapézico, com uma escada levando ao topo, e lá estava uma enorme estátua enorme e cinzenta, que lembrava a um pato, com enfeites em ouro e safira, entre outras pedras menores.
Porém, o que mais chamara a atenção foi o fato de haver um pato com um olhar superior e sério direcionado a eles. E Sora conhecia aquele olhar. Donald já o exibira uma vez. Para o moreno era assustador a semelhança entre os dois.
- Oh amigos, estamos aqui reunidos – ele começou a falar com autoridade, justamente como o mago real costumava falar. – para punir estes estranhos que ousam ameaçar ao nosso grande espírito guardião – e apontou para a estátua atrás de si. – Shabuhm Shabuhm!
Os nativos bradaram e um deles se aproximou com uma tocha na mão, fazendo com que os prisioneiros tentassem se afastar, cercando-os contra a enorme fogueira.
- Pela ousadia, a sentença é a morte!
- Ei, espere... – Sora tentou se fazer audível, mas o olhar do outro não mudou.
- Maui! – Donald o chamou. – O que diabos você pensa que vai fazer?
Então todos os patos presentes fizeram silêncio. Eles olhavam do mago real para o líder deles, que olhou cuidadosamente para o outro que o chamara. Desceu as escadas e aproximou-se dos prisioneiros. Afastou o pato com a tocha, e continuou os encarando.
- Achei que nunca o veria novamente, meu irmão. – ele disse, já perdendo a pose séria, e desamarrando a corda que os prendia. – Há quanto tempo, hein?
E Donald apenas respondeu com tapa que dera em Maui. Este o olhou perplexo, e partiu pra cima do mago.
- Você enlouqueceu?
- Eu é que pergunto seu idiota. Vai embora assim do nada e depois quer nos mandar para a morte. – o ex-prisioneiro argumentou mal-humorado.
- Esperem ai! – Sora falou chamando a atenção de todos. – O que está acontecendo aqui?
Os dois patos idênticos olharam para o rapaz, parando a briga que estavam travando. Perceberam que os nativos também olhavam com interesse para a confusão que se desenrolava ali.
- Sora, Goofy, meninos... – Donald se pronunciou primeiro. – Este aqui é um dos meus irmãos gêmeos mais novos, Maui Duck.
- Mallard! – Maui o cortou. – Agora é Mallard. Deixei esse sobrenome para trás quando deixei a Academia de Cavaleiros de Disney Castle.
- Espere! – Louie falou, chamando a atenção dos demais. – Você então é o famoso de tio Maui de quem a mamãe costumava falar?
- Sim, mas... – porém, ele pareceu entender alguma coisa. – Vocês são os trigêmeos da Della Thelma?
- Claro! Eu sou Huey, - falou o irmão de vermelho animado. – e esses são Dewey e Louie.
- E Maui, o termo seria "fugiu" e não "deixou" a Academia. – o mago real comentou, ignorando um pouco aquele momento familiar.
- Ok, ok. Eu sei que adoramos a família reunida, - Sora interrompeu o que qualquer um dos patos ali pudesse dizer, olhando os gêmeos, como se ainda tentasse entender algo ali. – mas nós temos que perguntar sobre um pedido de ajuda que chegou a Radiant Garden vindo desse lugar.
- Pedido de ajuda? – questionou Maui ao arquear as sobrancelhas.
- Sim. E falava sobro algo a ver com proteger a essência da humildade, mesmo que a gente não saiba o que signifique. – Goofy comentou pesaroso.
O silêncio predominou nos minutos seguintes, quando o gêmeo mais novo pareceu pensativo. Abriu as bocas diversas vezes, mas nada dizia, pois voltava a pensar novamente.
Por fim, o pato acabou suspirando pesadamente, enquanto fitava o irmão e os sobrinhos.
- Com certeza eu não mandei essa mensagem, e creio que ninguém aqui o fez. – ele concluiu. – Porém, quem tiver feito isso queria muito atrair vocês até aqui e usá-los para capturar a terceira essência.
- Terceira essência? – Sora perguntou. – Mas o que diabos é isso? Primeiro a tal Eva, agora você – disse apontando para Maui. – e eu ainda continuo sem saber o que é isso!
- Eu explicarei tudo o que sei, mas não aqui. Venham.
O grupo caminhou por entre uma aldeia, antes de adentrarem numa tenda maior, e de cores exóticas. Dois nativos faziam a guarda do lugar, que Maui logo os mandou se retirarem para que ficasse de vigília no lado de fora.
O silêncio ainda predominou por mais alguns minutos, antes que o mago real pigarreasse, sinalizando para que o gêmeo começasse a falar. O outro suspirou pesadamente, como se pensasse no que iria dizer.
- Bem, irmão, acho que você deve esta se perguntando como eu vim parar aqui, certo?
- Se você não se importar de me contar como deixou a todos nós em Disney Castle, sim. – Donald assentiu, gesticulando para que ele começasse logo a falar.
- Após eu ter pegado uma nave emprestada do... – Maui começou a dizer, antes de ser interrompido.
- Roubada seria uma definição melhor.
- Você podia ter omitido essa parte, sabia? – disse o gêmeo a contragosto. Suspirou pensativo mais uma vez e voltou a falar. – Após ter deixado Disney Castle, eu vaguei pelo universo, em busca do que eu queria. Acabei parando aqui, e, sabe, não é ruim. Remoto e poucas chances de me encontrarem.
"Assumi aqui a profissão de detetive e mudei meu sobrenome para Mallard. Na época, eu soube que a estátua protetora dos muddrakes, que vocês viram há pouco, havia sido roubada. Nesse tempo, eu ganhei habilidades que nunca pensei que poderia ter. Quando recuperei a estátua de Shabum Shabum, esse mundo mudou de nome, e ela me concedeu as estrelas."
- Quem é ela? – Sora questionou curioso.
- O nome dela é Stella. – Maui respondeu com um olhar perdido. – Há poucas semanas, ela deixou o domínio dos céus para atender aos chamados daqueles que precisavam. Entretanto, ela não voltou. Emboscada por quem quer que seja. Então deixei as estrelas para procurá-la, mas nem sinal dela. Me juntei aos muddrakes para partir em sua busca, porém, sem progresso.
O silêncio predominou por alguns minutos. A tensão podia ser sufocante, mas ninguém presente tinha a intenção de fazer qualquer coisa, por temer que aquilo pudesse piorar de alguma forma.
Contudo, Sora ainda tinha uma dúvida: se Maui não havia mandado o chamado para Radiant Garden... Quem havia sido? Nada em sua mente parecera achar a resposta para aquela pergunta.
- E essa tal de essência... O que é? – o moreno se atreveu a perguntar, sem encarar ninguém em específico.
- A essência simplesmente é algo que nos compõe. Não sei explicar ao certo, mas deve haver várias coisas que faz de nós o que somos. Uma delas é a humildade. E é esta essência que Stella possui.
- Acha que foi por isso que a pegaram? – Goofy perguntou.
- Talvez... Mas não vejo quem possa querer isso. – Maui disse com uma careta, como se aquela possibilidade não havia lhe passado antes. – Suspeitam de alguém?
- É um caso um pouco mais complicado. O rei Mickey e os outros estão investigando isso a fundo. – Donald comentou.
O outro apenas assentiu calado.
Ninguém mais falou nada, pois uma figura apressada adentrara no recinto. Um pato, com roupas de estilo tribal, iguais aos que os outros usavam na quase morte dos visitantes, olhou para o grupo, até localizar, com o olhar, o líder. Respirou fundo, antes de tomar a palavra.
- Nossas sentinelas próximas ao vulcão desapareceram.
- Algum sinal de onde eles foram parar ou do que aconteceu? – o gêmeo mais novo perguntou alarmado.
- Não, senhor. Devo mandar um grupo para averiguar?
- Não. Eu irei pessoalmente, mas coloquem todos em estado de alerta. Ainda é desconhecido com o que nós estamos lidando.
O subordinado assentiu, e se retirou às pressas.
Maui fechou os olhos, e levou uma de suas mãos às têmporas, massageando-as. Virou-se para o pato mais velho, com um olhar preocupado.
- Eu não enviei o pedido de ajuda, - ele começou. – mas eu peço agora por ajuda, Donald.
O mago o encarou, de maneira incerta. Por fim suspirou e olhou para os outros. Sora tomou a frente e pousou a mão sobre o ombro de Maui, e abriu um sorriso solidário para ele.
- Nós vamos achar a Stella, e vocês poderão voltar para as estrelas em paz.
- Então o que iremos fazer? – Dewey perguntou, olhando para todos no recinto.
- Iremos ao vulcão. Se as sentinelas que mandei para vigiar aquela área sumiram, então deve ter alguém lá no topo. – disse o mais novo. – Mas eu gostaria de me preparar antes de ir. Se me derem licença, por favor.
O grupo deixou a tenda, esperando do lado de fora.
Ninguém falou nada, apesar da leve tensão e do ar pensativo de Donald. Não precisaram esperar muito por Maui, que vestia roupas diferentes de antes. Usava uma camisa vermelha, com flores estampadas, e um boné azul. Olhou para o grupo e acenou para que o seguissem.
- Porque está usando essas roupas? – o mago questionou ao gêmeo mais novo.
- Ora, eu as usava antes. Fora que é muito brega sair por ai com aquelas penas e saiote.
Não tardaram a alcançar uma trilha na floresta que rodeava o vilarejo dos muddrakes. O caminho começava a ficar mais íngreme e quente. Em alguns lugares adiante, colunas de fumaças ganhavam o céu escuro.
Porém, os primeiros sinais de que havia algo errado surgiram próximo ao topo. Além do fato de tudo ficar mais quente, assim como a neblina que parecia aumentar a temperatura, eles ouviram ruídos estranhos.
O grupo se aproximou um pouco mais sorrateiro dessa vez, mesmo que o local não fosse a favor deles, visto que não havia locais para se esconderem e observarem. E mesmo se tivesse, a névoa quente não ajudaria em nada na visão.
- O que faremos? – Sora perguntou para Maui, que apenas tentava enxergar mais atentamente.
Um minuto de silêncio, antes que o gêmeo mais novo pudesse responder.
- Definitivamente há alguém aqui, e está fazendo algo em torno do vulcão. – ele comentou com um suspiro preocupado.
Ao terem uma melhor visão do topo, eles se deitaram sobre a areia arroxeada e observaram.
Uma figura se distinguia, segurando um cetro e recitando alguma coisa. Seu olhar parecia estar focado para os céus, enquanto a lava no vulcão parecia se agitar. Não tardou para que outros dois vultos aparecessem, e o grupo pôde ver dois patos, com roupas nativas dos muddrakes.
- Devem ser as duas sentinelas que desapareceram. – Maui ponderou, tentando olhar mais atentamente. – Mas não dá para ouvir o que está sendo recitado.
Então se atreveram a chegar mais próximos, mesmo que fosse arriscado. Protegeram um pouco a boca e o nariz, por causa da fumaça sulfúrica que provinha do magma. E assim eles tiveram uma visão melhor de quem estava ali.
Uma pata de cabelos e vestes negras segurava um báculo, apontando para cima, enquanto falava algo que eles ainda não conseguiam ouvir.
- Eu acho que a conheço de algum lugar. – Dewey falou, tentando olhar mais atentamente, assim como seus tios e irmãos.
- Vocês sabem quem é? – Sora perguntou num sussurro.
- Eu infelizmente sei. – Donald comentou, engolindo em seco, e olhou para o irmão, que assentiu como se confirmasse o que ele pensava.
- E eu também sei quem vocês são. – uma voz feminina, que entoava de maneira fria, disse atrás deles. – Stopga!
E eles não tiveram tempo para se virarem. Ficaram imóveis, ainda encarando o cenário adiante. A figura andou até ficar de frente para eles, olhando-os com um ar superior. Ao ver os irmãos gêmeos, ela sorriu enviesada.
- Vocês de novo. – ela comentou desgostosa. – Mas não se preocupem. Logo, logo eu me livrarei de vocês. Até lá... Sleep!
E em segundos, tudo escureceu para Sora e os outros.
Riku apenas olhava todo o lugar em volta, procurando algo que pudesse ajudá-lo numa fuga. Porém, o arco ganhava mais altitude, e não tardou para que ele se juntasse a outros, que rumavam para a mesma direção.
Ao se aproximarem do que parecia uma arena, o arco se preparava para pousar.
- Não reajam ainda. – o rapaz de cabelos prateados sussurrou para Eva e Sam.
A moça de cabelos róseos fez um muxoxo, apenas fitando o lugar adiante.
Ao pousarem, eles perceberam que três programas aguardavam. Dois deles estavam armados com o que pareciam lanças, enquanto o que estava no meio olhava por através de um capacete.
O programa do meio se aproximou, examinando cada um dos extraviados. Da direita para esquerda, ele começava a dizer alguma coisa da qual o trio não ouviu. Quando se aproximou de um, que anteriormente estava clamando "Os jogos não", ele falou "Jogos". O extraviado parecia entrar em desespero. Os dois guardas pegaram-no e pareciam escoltá-lo para algum lugar. Logo chegou a vez de Sam, que também havia sido "classificado" como jogos, assim como Riku e Eva, que não sabiam como reagir.
O trio se prepararia para uma possível fuga, quando o extraviado À frente de Sam se desvencilhou dos guardas e saiu correndo, talvez para fugir. Contudo, ele pediu para que fosse apagado, e se jogou no que parecia ser um poço, desintegrando-se.
- É nessa parte que eu digo que vamos morrer? – Eva questionou.
O rapaz de cabelos prateados não respondeu, apenas engolindo em seco.
Sam foi escoltado até próximo ao poço, e tentou se soltar se não houvesse parado em uma plataforma, que se iluminou ao pisá-lo. Ele olhou para trás, porém, os outros dois sumiram rapidamente, pois o rapaz pisava sobre um elevador.
Riku foi o próximo. Não resistiu, apenas se limitou a olhar para Eva, que apenas olhava o que acontecia de maneira preocupada, o que ele podia dizer que era loucura vindo dela.
- Relaxa, vai ficar tudo bem. – ele disse a ela, tentando convencer mais a si do que a ela.
E a moça desapareceu de vista.
Ele respirou fundo, enquanto a plataforma descia mais ainda. Ao parar, ele estava em uma sala aparentemente vazia, com quatro casulos brancos, um em cada ponta do lugar, que se abriram quando pousou.
Quatro mulheres, vestidas de branco, pareciam despertar, e caminharam até ele. Riku não disse nada, enquanto olhava o que parecia ser um laser surgindo na ponta de um dos dedos indicadores de cada uma delas.
O rapaz não conseguiu evitar que elas rasgassem as suas roupas, que sumiram em seguida. Em sua pele começou a surgir um tecido preto, cobrindo-o do pescoço aos pés. Os programas se afastaram dele, pegando algo que parecia ser o peitoral de uma armadura. Elas encaixaram a peça em seu peito e em suas costas, e aos poucos, uma "armadura" foi se formando, com uma luz branco-azulada iluminando o que poderia ser sua silhueta de longe.
- Atenção, programa. – uma voz feminina, robótica, que não pertencia a nenhuma das mulheres presentes, soou, enquanto uma delas se dirigia a um compartimento circular, onde havia um disco. – Você receberá um disco de identificação. Tudo o que fizer ou aprender ficará impresso nesse disco. Se perder o disco ou se recusar a obedecer a um comando, estará sujeito a dissolução imediata.
- Bem estimulante. – o rapaz comentou sarcástico, quando sentiu algo ser encaixado em suas costas, e percebeu que sua visão ficara um pouco diferente por alguns segundos, e então, tudo parecia mais nítido.
- Imagem completa. Disco ativado e sincronizado. – disse uma das mulheres-programa para ele. – Prossiga aos jogos.
Depois disso, ninguém mais disse nada, e Riku apenas olhou para as vestes. Contudo, não tardou para que uma porta dupla abrisse, iluminando o local. Caminhou um pouco, antes de ser preso no que parecia ser uma caixa com uma das paredes transparente.
Pode visualizar, mesmo que de longe, Eva um pouco adiante. Seus cabelos não estavam mais róseos, parecendo ter mudado para uma cor entre o azul escuro e o preto. Olhou ao redor mais uma vez, e parecia estar dentro de uma enorme arena.
Mais uma vez, uma voz feminina, robótica, soou.
- Todos os combatentes, preparem-se para a guerra de disco. – disse, com uma multidão agitando.
A caixa que o transportara ali parou em frente à outra, porém totalmente transparente. Sem escolhas, o rapaz pulou para lá, e tentou pensar rapidamente numa maneira de fugir dali. Contudo, um programa parecia estar a sua espera, em outra caixa, com apenas uma plataforma suspensa ligando-a.
Riku estendeu o braço, apenas se preparando, ao mesmo tempo em que o seu adversário retirava o disco que possuía em suas costas. O outro foi mais rápido, atirando o objeto em mãos contra o portador, que se desviou rapidamente pela direita.
Sua keyblade surgiu, e ele a lançou contra o adversário, que foi feito em pedaços. Porém, antes que pudesse aparecer outro combatente, a voz soou mais uma vez.
- Combatente 3, violação. Combatente 10, uso de arma não identificada. Combatente 8, uso de arma não identificada.
Ele olhou para os lados, e viu Eva de relance, com sua gunblade em punho. Mais abaixo, Sam tentava fugir, mas caíra em uma caixa maior, e a voz no alto-falante pronunciou.
- Iniciar rodada final. Combatente 3 contra Rinzler.
E não teve mais tempo de ver nada, pois as outras caixas foram recolhidas para uma parte mais alta da arena. Dois guardas vieram em sua direção, e o rapaz estava pronto para invocar a Way to the Dawn, quando eles foram feitos em pedaços.
- Nós temos que achar Sam e cair fora. – Eva pronunciou, com a arma em mão, e agora apontada para ele.
Riku assentiu, e percebeu que as roupas dela eram um pouco diferente das que ele usava, já que não possuía manga e uma luva protetora que lhe caía até os cotovelos.
Eles andaram apressadamente por alguns corredores, mas nada ali lhes pareciam ser uma saída ou alguma maneira de encontrar o terceiro humano. Entretanto, não tardou para que fossem emboscados.
- Dissolução imediata. – disse o guarda-chefe.
- Não. – interveio outra voz masculina, mas também robótica. – Eles irão para a Batalha de Luz.
A moça olhou de relance para o outro, que não sabia dizer o que se passava ali. Pelo menos não morreriam ainda, dando-lhes mais algum tempo para pensar em alguma maneira de fugir.
Mesmo a contragosto, eles embarcaram em um arco, que levava mais dois programas. Os outros pareciam apreensivos, mas não falaram nada com relação ao casal.
À frente, avistaram outra arena, onde se encontrava em uma depressão. As arquibancadas estavam cheias, e todos pareciam clamar por alguma coisa, que Riku vira quando olhara para o alto, onde um transporte se preparava para pousar. Olhou para Eva e sinalizou para que ela ficasse preparada para qualquer hostilidade que pudesse aparecer ali. Contudo, do transporte surgira Sam Flynn, escoltados por duas sentinelas.
O programa que vinha à frente apenas olhou para o público, antes de começar a falar.
- Saudações, programas! – e o público aplaudia animadamente. – Que grande evento temos diante de nós. Os boatos são reais. Temos de fato, entre nós, um usuário. – e apontou para Sam, o que atraiu várias vaias. – Então o que faremos? O que este usuário merece? – e virou-se para o rapaz. – Posso talvez sugerir o desafio da Grade?
Riku e Eva apenas ficavam olhando, cautelosos. Entre tantas pessoas ali seria difícil uma fuga, então o jeito seria esperar e não ser dissolvido.
- E quem seria o melhor para combater este oponente singular? – o programa questionou para o público. – Talvez alguém com experiência neste assunto. – e do transporte surgiu um homem cuja face estava coberta por um capacete. – O seu libertado! O seu ídolo! – e fogos já explodiam no céu, enquanto o público bradava mais excitado. – Seu líder e criador! Aquele que derrotou a tirania dos usuários há muitos ciclos...
O portador percebeu que o outro jovem olhou para o recém-chegado, e depois se virou para olhá-lo. O rapaz lançou um olhar duvidoso, que o outro apenas respondeu com um aceno negativo.
- CLU!
- Você quer jogar? – Sam perguntou, em bom tom, tentando parecer confiante. – Eu jogo.
O programa que apresentava pegou algo de um dos guardas para apresentar aos dois adiante, enquanto outro se aproximava do casal e de dois outros que estavam com eles, entregando-lhes pequenos bastões.
- O que fazemos com isso? – Eva perguntou num sussurro.
- Não faço ideia, mas talvez isso possa nos ajudar em alguma coisa. – Riku comentou apenas para ela.
Sam se virou para eles, enquanto CLU se afastava sozinho.
- Grade ativada. – a voz feminina robótica de antes anunciou. – Iniciar Batalha de Luz.
- O que ela quis dizer com isso? – a moça questionou, e se virou para o rapaz de cabelos prateados. – Riku?
- Acho que nosso problema maior são eles.
Ela e Sam seguiram o olhar para onde ele apontava. CLU correu e pulou, fazendo uma moto aparecer, e mais quatro o acompanhava, que ia velozmente em direção a eles. Afastaram-se por pouco do caminho traçado por eles.
- Você não tem chance usuário. – um programa falou.
- As motos deles são mais rápidas que as nossas. Use os níveis. - o outro disse, e ambos ativaram as suas motos e as pilotavam para longe.
A jovem de cabelos róseos, que naquele mundo adquirira um tom azulado, correu e ativou a sua moto, assim como o portador, que a seguia. Por último, Sam fez o mesmo. Logo o trio se juntou aos outros dois pilotos mais à frente.
Nas motos alaranjadas à frente surgiram feixes de luz na parte de trás, separando-se e tomando direções diferentes em seguida, e não tardou para que o mesmo processo se repetisse com as azuladas.
Nenhum dos três sabia bem o que fazer ali, até olharem para o subterrâneo, onde um dos programas foi emboscado pelo inimigo, e acabou se dissolvendo.
Eva conseguiu se desviar rapidamente de um feixe alaranjado, distanciando-se quando o piloto iria tentar derrubá-la. Sam, do outro lado, conseguiu dissolver uma das motos, dirigindo-se até o portador.
- Temos que acabar com um de cada vez. – o rapaz falou, e Riku assentiu.
- Vou falar com o outro. Dê suporte a Eva.
E logo os dois se distanciaram. Porém, o jovem de olhos esverdeados não tenha conseguido fazer muito, pois o outro programa fora lançado para longe, em sua direção, da qual ele precisou se desviar rapidamente para que não fosse atingido.
Sam, por outro lado, adentrou o subsolo, postando-se ao lado da moça, que o olhou de relance.
- Vamos ter que detê-los juntos. – ele disse. – É o único jeito.
Os dois olharam para cima, bem no momento em que uma moto alaranjada passava, cujo piloto logo os fitou. Ambos assentiram, e Eva tomou distância, enquanto o adversário seguia em direção de Flynn.
A moto se aproximou de Sam, que desviou para ir mais ao subsolo, enquanto o outro subia para a arena, antes de voltar a descer e ficar a frente do usuário. Contudo, o rapaz desviou, e quando o seu inimigo olhou para frente, a moça de cabelos róseos fechava caminho com um feixe, dissolvendo-o.
- Mais um ali. – e o rapaz apontou para outro que passava acima deles.
Os dois seguiram até saltarem para a arena, e Riku se juntou a eles. Eva reduziu a velocidade, e desviou da rota, deixando com que os dois rapazes dessem conta do inimigo adiante.
Contudo, a moto alaranjada, antes de dissolver, acabara caindo bem em frente ao portador, que não conseguiu desviar, e acabara capotando e soltando o próprio veículo, enquanto ela rodopiava por mais alguns metros, antes de virar um bastão.
Sam deu meia-volta, em direção ao objeto, enquanto a moça ia de encontro ao jovem. Diminuiu a velocidade e estendeu a mão para ele, que a pegou e se acomodou na garupa da moto, segurando sua cintura para não cair.
Ainda restavam dois adversários. Um deles fora ao subsolo, e o outro acabara derrubando Flynn, com a sua moto dissolvendo-se adiante. Eva se dirigiu a ele, para dar apoio, e tentou guiar o veículo com uma mão só, enquanto com a outra fazia sua gunblade materializar.
Contudo, antes que pudesse efetuar um disparo, um carro surgiu em meio à arena, postando-se ao lado de Sam. A porta se abriu e esperava que ele entrasse. O rapaz olhou para o casal de maneira apreensiva, e acenou para que eles o seguissem, antes que entrasse no veículo e este partisse.
- Falha no sistema. – a voz feminina de sempre soou. – Liberar Rinzler.
E foi a última coisa que o casal ouviu.
- Eva, eu não quero pressionar, nem nada... – Riku começou a falar para a moça, que se concentrava no carro à frente. – Mas tem três programas atrás da gente, onde dois deles parecem unsouls robotizados.
- Segura firme! – ela disse, e com uma só mão conduzindo a moto, a moça materializou a gunblade.
O carro dera conta de um, que ela pôde ver de relance a deformidade da criatura, e mirara para a esquerda, apenas esperando que o outro tivesse ao alcance. Não tardou para que disparasse duas balas, que atingiu o inimigo e ele se dissolveu não muito atrás.
O veículo maior atirara contra a parede da arena, abrindo caminho para fora do lugar. Do outro lado, um caminho disforme de pedra se seguia para além da Grade. Contudo, para a moto de luz de Eva, era terrível pilotar por ali, por causa da superfície áspera, enquanto a roda era extremamente livre de imperfeições.
- Invoque a sua keyblade e derreta todo o gelo que será deixado para trás. – a moça falou em bom tom para que o outro ouvisse.
- O que vai fazer?
- Cala a boca e faz logo! – gritou, e materializando o báculo logo em seguida.
Apontou para o trecho que separavam eles do carro, e o gelo começou a se estender a cada vez que eles avançavam, enquanto o rapaz tratava de usar magia de fogo para que derretesse e não deixassem rastros.
Continuaram a seguir por aquelas terras até atravessar um túnel e subirem por uma ladeira não muito larga, fazendo Eva ter que diminuir um pouco da velocidade para que a moto não derrapasse, até voltarem a seguir por uma trilha que não oferecesse mais tanto perigo.
Logo adentraram em uma passagem iluminada. A moça de cabelos róseos fez o báculo desaparecer ao perceber que a superfície era lisa o suficiente para que o gelo já não fizesse mais efeito, dando à moto uma impressão de derrapagem.
O carro parou à frente, e a jovem desacelerou e postou-se ao lado, esperando o que aconteceria a seguir. De lá saiu Sam e um programa feminino de aspecto jovial, de pele pálida e cabelos curtos e negros.
- Quem é você? – perguntou Riku, descendo da garupa.
- Eu sou Quorra. E quem são vocês?
- Eu sou Riku, e esta é Eva. Somos do terminal de Radiant Garden e viemos atender a um chamado de Kevin Flynn. – o rapaz falou.
- Então venham comigo. – a outra disse.
Os três a seguiram até uma plataforma, que se iluminou e subiu até parar em uma sala ampla, com o piso e teto branco, enquanto as paredes eram feitas de pedra escura. Havia uma mesa em um canto e uma passagem do outro lado. À frente tinha o que parecia ser uma janela, cuja vista dava para toda a extensão da Grade.
Contudo, o fato mais curioso foi de haver uma figura adiante, vestida de branco e com um disco cravado nas costas, sentado de costas para eles, como se meditasse. Os três usuários esperaram, a pedido de Quorra, que se dirigiu a ele.
- Quorra, eu sonhei com Tron – o homem falou calmamente, sem parecer notar a presença dos outros. – pela primeira vez em anos. – a programa se ajoelhou ao seu lado, e ele prosseguiu. – É um sinal. Um sinal, minha aprendiz, de uma alma cansada. Temo que algo acontecerá.
- Algo já aconteceu. – ela disse para ele, apoiando a mão no ombro dele. – Temos convidados.
Sam não conseguiu ficar parado, e caminhou em direção às duas figuras à frente, deixando Riku e Eva apenas observando.
- Não há convidados, querida. – ele disse quase que melancolicamente.
Quorra se levantou e, ao lado do homem, ficou de frente para os três, com um pequeno sorriso estampado. O outro se levantou, virando-se para ver do que ela falava, e o local foi iluminado, dando mais visão do lugar.
- Sam. – ele disse, como se não acreditasse. – Há quanto tempo. – e se aproximou do rapaz, que parecia sem reação. – Não faz ideia... Você está aqui! – mesmo hesitante, o homem o abraçou.
- Kevin Flynn. – Riku dissera num sussurro para Eva.
Kevin soltou o filho e se virou para os outros dois.
- Você... – e apontou para o jovem de cabelos prateados. – Amigo de Sora e de Cid. Terminal de Radiant Garden. Riku, não é?
- Sim, senhor. – ele assentiu. – E esta é Eva.
- É um prazer conhecê-lo pessoalmente. – a moça falou, acenando em cumprimento.
O velho voltou à atenção para o filho, admirando-o.
- Você cresceu. – afirmou.
- E você está...
- Velho. – ele completou, sem parecer ofendido com o adjetivo. – Mas como chegou aqui? E vocês? O que vieram fazer aqui?
- Alan veio me visitar. – Sam comentou.
- E nós recebemos uma mensagem sua. – Riku disse.
- Mensagem? – Kevin questionou.
- Sim. Alan a recebeu. – o outro interveio. – Achei seu escritório no porão do fliperama.
- Mensagem... – o homem repetiu para si, voltando a olhar os outros. – Ah...
- CLU os colocou na grade de moto de luz. – Quorra dissera, aproximando-se deles. – Eu intervi.
- O jantar será logo, e então poderemos conversar. – ele disse, e se virou para o casal. – Também estão convidados.
E Kevin se afastou, deixando o filho e os outros. O portador aproximou-se deles, ainda olhando para o velho, que parecia pensativo.
- Ele achou que nunca mais o veria. – Quorra dissera para Sam, que não sabia como reagir ao que acabara de ver.
O rapaz se virou para encarar o cômodo, e a programa começou a explicar sobre uma moto que havia ali. Contudo, os dois visitantes de Radiant Garden pareciam não prestar atenção.
Eva encarou a estante de livros, e passou os dedos, enquanto lia os títulos que havia. Logo se afastou um pouco pensativa, olhando de maneira alheia o ambiente, até fitar a mesa em que logo se sentariam para jantar.
- Algum problema? – Riku perguntara de repente.
- Nada. – ela se apressou em responder. – Apenas...
- Muita coisa em tão pouco tempo, não é?
- É por ai. – disse ao dar de ombros. – Mas há algo aqui... Diferente. – comentou por fim, e se virou para encarar todo o lugar.
- Defina diferente. – o rapaz pediu.
- Uma energia diferente das qual eu já pude sentir. – e a moça percebeu que ele iria questionar novamente, então mostrou as duas marcas que possuía nos dedos da mão esquerda. – Através delas, eu recebo vibrações de energia de cada coisa viva que possa existir ao redor. Elas diferem pelo nível de poder que está armazenado.
- Sério?
- Sim. Você emana uma energia tão poderosa quanto à da keyblade que possuí, assim como daquele seu amigo Sora.
- E nesse caso as vibrações são em que sentido?
- Não tenho muita certeza, mas com certeza é muito mais poderosa do que a arma que você carrega. – respondeu, de maneira pensativa.
Porém, a conversa acabara logo, pois foram chamados para jantar.
Todos se sentaram à mesa, e a refeição se deu, nos primeiros minutos, de forma silenciosa.
- Quantos anos você tem, Sam? – Quorra questionou, quebrando o silêncio.
- Deve ter uns 27. – apostou Kevin.
- Exato...
- E como vai Radiant Garden? – perguntou, virando-se para o rapaz de cabelos prateados. – Cid vai bem? E o sistema que montamos ainda funciona?
- Bem, depois de várias coisas e alguns ataques, até que está tudo bem. Cid ainda continua o mesmo de sempre, mantendo como novo tudo o que vocês fizeram: desde comunicação até segurança.
- Isso parece bem legal. – a programa falou com interesse, sorrindo para eles. – Gostaria muito de conhecer esse lugar.
A conversa continuou, onde as perguntas variavam entre sobre o que Sam fazia em seu mundo e sobre o sistema que regia Radiant Garden, com ocasionais comentários de Kevin sobre como aprimorá-lo ainda mais, e sobre naves gummis.
O silêncio se instalou quase ao final do jantar, quando o velho fitou o filho seriamente, e Quorra olhava de um para o outro de relance.
- Tenho certeza que vocês também têm perguntas. Principalmente você, Sam. – ele falou.
- Na verdade, só uma. – o outro respondeu, olhando o pai.
- Porque nunca voltei para casa. – Kevin afirmara, e se acomodou na cadeira. – Aquelas noites, quando eu ia ao escritório, como sei que deve saber, eu vinha para cá. Um humano no espaço digital. Complicado, mas também tinha você, a ENCOM... Não podia ficar sempre aqui. Precisava de parceiros.
- Tron e CLU. – Riku respondera.
- Exato. Mas é bem mais complicado do que isso. – ele disse, olhando para cada um dos visitantes. – Espero que escutem atentamente.
- Edmundo? – Lilian disse, abrindo um pequeno sorriso e abaixando a keyblade.
- Lil! – e o rapaz a abraçou com força. – É bom revê-la. – ele disse sorrindo, e se virou para o rapaz loiro atrás dela. – Olá Zack.
- Quem está ai, Ed? – a voz, que o casal identificou sendo de Pedro, soou.
- Temos outros visitantes. – o garoto disse se virando para os irmãos.
- Lilian! Zack! – a voz animada de Lúcia veio de trás do moreno, assim, como a pequena figura da caçula, que correu para abraçá-los.
Os outros dois mais velhos se juntaram ao quarteto, e os cumprimentaram. Logo deixaram os arbustos e caminharam pelo meio dos escombros que se fundiam a grama.
- Quem será que viveu aqui? – perguntou a irmã caçula olhando para a praia.
Susana, que caminhava perto dela, achara uma peça de ouro e a analisou.
- Acho que fomos nós.
Os outros se aproximaram para ver do que falavam, e os olhares caíram sobre a peça de ouro que a garota segurava na mão.
- Isso é meu. – Edmundo falou. – Do meu tabuleiro de xadrez.
- Qual tabuleiro? – Pedro perguntou.
- O que é xadrez? – Lilian perguntou num sussurro pra Zack, que apenas falou que explicaria depois.
- Eu não tinha exatamente um com peças de ouro em Finchley, não é? – o garoto mais novo continuou falando.
Lúcia, entretanto, olhava para outro lugar, e soltou uma exclamação, que chamou a atenção dos irmãos, e correu para um altar que havia, com quatro tablados de pedra em cima.
- Não estão vendo? – ela perguntou, e posicionou os irmãos cuidadosamente em frente ao tablado. – Imaginem as paredes, e as colunas ali – Lilian e Zack olharam para trás, tentando imaginar. – e o telhado fechado.
O casal deu um passo à frente e as keyblades surgiram em mãos. Imediatamente eles olharam para um ponto atrás dos irmãos e se deram conta de onde estavam.
- Cair Paravel! – exclamou Pedro.
Lilian e Zack se ajoelharam, com as armas cravadas no chão.
- Majestades... – pronunciaram, olhando para eles.
Eles se levantaram, e as keyblades sumiram. Os seis começaram a andar a procura de algum indício do que acontecera ali, mas nada parecia vir à mente.
Edmundo se ajoelhou ao lado de uma pedra e a analisou, olhando para o lado, em direção ao mar.
- Catapultas. – ele dissera, atraindo um olhar questionador do mais velho. – Isto não aconteceu por acaso. Cair Paravel foi atacado.
Pedro então acabou puxando alguns galhos de uma parede que ainda se mantinha em pé. O outro irmão fora ajudá-lo, assim como Zack, a empurrar, e por detrás se revelara uma porta de madeira antiga, da qual parecia sobreviver com as ações do tempo.
Porém, estava trancada. O rapaz loiro se adiantou e invocou a keyblade, quebrando a madeira o suficiente para que pudesse fazer a porta ceder e deslizar, abrindo passagem para eles.
O irmão mais velho tirara um canivete do bolso da calça e rasgara a barra da camisa branca, enrolando num graveto, virando-se para Lilian.
- Se você puder nos ajudar com o fogo, eu agradeceria. – ele dissera.
- Pra que fogo se podemos usar isto. – Edmundo dissera, retirando uma lanterna da bolsa.
- Podia ter falado um pouco antes. – Pedro repreendeu, mas sorrindo em seguida.
O garoto mais novo fora na frente, iluminando o caminho com o uso da lanterna, enquanto as três garotas seguiram atrás dele, e por último Zack e Pedro completavam a fila em que se seguia. Desceram algumas escadas, antes de pararem num salão redondo e amplo, com baús espalhados a frentes de estátuas.
- Não acredito. – o mais velho dissera. – Ainda está tudo aqui.
Cada um dos irmãos se dirigira a um baú, e abriu-os, revelando utensílios diversos. Lúcia pegara um vestido e o analisara.
- Eu era tão alta. – disse um pouco tristonha.
- Bem, você era mais velha antes. – Susana comentou.
- Velhos? O que aconteceu depois de partirmos? – Lilian perguntou.
- Nós ainda vivemos alguns anos aqui. – Edmundo começara. – Crescemos e reinamos juntos. Mas num dia em que saímos para caçar o Veado Branco, que aparecera em Nárnia, e acabamos voltando para o nosso mundo, voltando a ter as idades de quando entramos aqui da primeira vez.
Pedro parecia um pouco alheio, olhando um escudo coberto de poeira. Olhou para frente e caminhou até o baú que ainda não havia sido aberto.
- O que foi, Su? – Lúcia perguntou, vendo a irmã procurar por algo.
- Minha trompa não está aqui. – a outra respondeu. – Devo ter deixado na cela do cavalo, no dia que voltamos.
- Então não foram vocês. – a garota de cabelos castanhos cor de mel dissera pensativa, atraindo os olhares das irmãs. – Eu havia sonhado com Nárnia, e ouvi a trompa soar. Viemos para cá porque achei que estavam em perigo.
Pedro abriu o último baú, e mexeu em algumas coisas, tirando a espada que ganhara de lá, desembainhando-a e fitando sua lâmina.
- Quando Aslam mostrar os seus dentes, o inverno conhecerá a sua morte. – ele recitara.
- Quando ele balançar sua juba, veremos a primavera. – Lúcia completara em um tom triste. – Todos que conhecíamos... O Sr. Tumnus, os Castores... Todos se foram.
- Acho que está na hora de descobrirmos o que aconteceu. – o mais velho dissera.
- Mas não podemos sair por ai com nossas roupas molhadas e sujas de areia. – Susana disse.
- Que isso não seja um problema. – Edmundo comentou. – Tem roupas aqui. Algumas grandes, é claro. Mas tem que ter algo aqui pra gente.
Eles assentiram, e cada um dos irmãos pegou uma muda de roupas. A caçula entregou para Lilian um vestido que dissera ser da irmã mais velha e que deveria caber nela, e deu para Zack uma muda para que ele se trocasse também.
Em minutos, todos estavam prontos. Contudo, a moça de cabelos castanhos olhou para a saia do vestido, que era longa. Aproximou-se de Pedro e pediu o canivete dele emprestado. Pedindo desculpa para Susana, a moça rasgou a barra do vestido até os joelhos.
- Melhor para a mobilidade. – ela disse, entregando o canivete do mais velho. – Agora para onde vamos?
- Não sei. – Pedro respondeu. – Mas o melhor jeito é andar pelos bosques e vermos o que achamos por ai. Talvez haja alguém que possa nos contar o que aconteceu.
Os outros assentiram e deixaram as ruínas de Cair Paravel, voltando a seguir pela praia até a foz de um rio (que os irmãos disseram pertencer ao Rio Beruna). Caminharam um pouco até avistarem um bote.
- Quem serão eles? – Susana perguntou.
- Eu não sei, mas aquele cara ali precisa de ajuda. – Edmundo disse, apontando para um anão amarrado que estava prestes a ser jogado no rio.
A moça mais velha retirou uma flecha da aljava e a armou no arco adiantando-se na frente, atirando logo em seguida, que atingiu a madeira do barco. Os outros a acompanharam, e os irmãos desembainharam a espada e se prepararam.
- Soltem-no! – ela disse autoritariamente, já preparando outra flecha.
E assim eles fizeram, jogando o anão na água, fazendo os dois irmãos, acompanhados de Zack, correrem para resgatá-lo. Um deles pegara a besta e mirara para os garotos, mas Susana fora mais rápida, atirando outra flecha, que acertou no homem armado, fazendo-o cair do bote. O outro, por medo, também pulara.
Edmundo e Zack trouxera o bote para a margem, enquanto Pedro trazia o anão para junto da areia, enquanto as meninas se aproximavam deles. Lúcia pegou o seu punhal e soltara as cordas que o amarravam.
Depois que o anão tossiu a água pra fora e recuperou fôlego suficiente, ele olhou indignado para os irmãos.
- Soltem-no? – perguntou incrédulo fitando Susana. – É o melhor que conseguiu dizer?
- Um simples obrigado seria o suficiente. – ela retrucou ofendida.
- Eles estavam muito bem conseguindo me afogar sem a sua ajuda.
- Talvez devêssemos ter deixado. – Pedro disse.
- Porque estavam tentando te matar? – Lilian perguntara.
- São telmarinos. – respondeu como se fosse óbvio. – É o que eles fazem.
- Telmarinos? – Edmundo questionou olhando para o irmão. – Em Nárnia?
- Onde vocês estavam nos últimos anos? – o anão perguntou.
- É uma longa história. – Lúcia disse sem jeito.
Pedro olhara para a irmã mais velha, que lhe entregara a espada que ganhara, atraindo o olhar curioso da pequena criatura. Ele os olhou atentamente, como se não acreditassem no que via.
- Vocês só podem estar brincando. – disse como se não quisesse acredita. – São vocês? Os antigos reis e rainhas?
- Eu sou o Grande Rei Pedro, o Magnífico. – o mais velho se apresentara, estendendo a mão para o outro apertar.
- Podia te deixado só a primeira parte. – Susana comentara, e os outros riram.
- Provavelmente. – o anão respondera.
- Poderia ficar surpreso. – e o rapaz desembainhou a espada, apontando para o pequeno.
- Ah, você não quer fazer isso, garoto. – ele disse.
- Eu não. Ele. – e apontou para Edmundo.
E entregou a espada para o anão, que hesitara no primeiro momento, mas logo a pegara e quase a deixara cair no chão por causa do peso. Contudo, aquilo fora um truque, e logo ele atacou com ferocidade o garoto mais novo, que desviava, até ser acertado no olho com areia. Porém, logo ele se recompusera e se afastou, ficando de guarda.
Agora o choque entre os metais já eram constantes, com um sempre desviando quando podia do ataque do outro, até que Edmundo o desarmara e apontara a ponta da espada para ele. O anão não reagira surpreso demais pelo que tinha acabado de acontecer.
- Talvez aquela trompa tenha funcionado, afinal. – ele exclamou, olhando para todos ali presente.
- Qual trompa? – Susana questionou.
- A que o telmarino trouxe com ele. Achei que foi tolice demais quando ele a soprou. – comentou.
- Então foi isso. – Lilian comentou num sussurro. – Mas o que faremos então?
- Ora, vamos usar o barco e remar rio acima. – Pedro disse, andando até o bote e indicando para que as meninas subissem.
Por último, o irmão empurrara o barco para a água de novo, e subiu. Assumiu o remo e conduziu o transporte pelas águas entre duas barreiras.
A viagem fora silenciosa nos primeiros minutos. Lúcia olhava para as altas árvores que bloqueavam a maior parte dos raios solares.
- Como estão quietos. – disse para si, atraindo a atenção do anão.
- São árvores. O que esperava?
- Parecem cansadas. – ela disse.
- Pouco depois de partirem, os telmarinos invadiram e nos atacaram. Os sobreviventes se esconderam no bosque e as árvores desapareceram em um sono profundo da qual não acordaram. – ele explicou, e olhando para as margens ocasionalmente.
- Não entendo. – a caçula falou confusa. – Como Aslam permitiu que acontecesse?
- Aslam? – o outro repetiu incrédulo. – Nos abandonou ao mesmo tempo em que vocês.
O silêncio predominou, e Pedro exibiu um semblante triste, para logo olhar de relance para o anão, que parecia evitar encará-los quando podia.
- Não queríamos abandoná-los, sabe?
- Mas isso não muda as coisas, mudam?
- Leve-nos aos narnianos – o mais velho pediu. – e tudo mudará.
Ninguém falou nada em seguida. Apenas se limitavam a olharem uns para os outros ou para a floresta densa que os cercava.
- Se queremos chegar aos narnianos, não podemos continuar subindo, ou iremos acabar parando em território telmarino. Vamos ter que caminhar. – o anão comentou. – Parem ali – e apontou para uma margem próxima. – e seguiremos a pé.
Pedro assentiu, e redirecionou o barco para a direção apontada. Quando se aproximaram da margem. O homenzinho pulou e fincou a pequena âncora entre as pedras, enquanto os irmãos, Lilian e Zack puxavam a corda e o levavam para mais longe da água.
Lúcia caminhou um pouco, observando tudo em volta, até encontrar um urso de pelagem escura que parecia procurar por alguma coisa.
- Olá. – ela chamou, atraindo a atenção dos outros na margem. – Tudo bem, nós somos amigos. – continuou a dizer para o animal, que parecia se preparar para alguma coisa.
- Não se mexa, majestade! – o anão disse fitando o urso.
A caçula se virou para encará-lo, enquanto o animal corria veloz em direção a ela, que ao perceber o que acontecia, começou a correr em direção aos outros. Susana colocou uma flecha no arco e mirou ao mesmo tempo em que Lúcia tropeçava.
Uma flecha acertara o peito do urso, mas não viera da irmã, e sim do arco que o anão portava. Ignorando os olhares dos irmãos, ele caminhou em direção à caçula.
- Porque não parou? – a irmã mais velha perguntara.
- Acho que estava com fome. – ele retrucou.
Pedro fora amparar a menor, enquanto Edmundo e Lilian mantinham as armas em mãos, esperando que o animal reagisse, caso não estivesse realmente morto.
- Obrigada. – Lúcia dissera ainda nos braços do irmão.
- Era selvagem. – Zack falou, aproximando-se um pouco do urso.
- Acho que enlouqueceu. – Pedro sugeriu.
- Quando te tratam como um animal, você acaba se tornando um. – o homem comentou. – Nárnia é um lugar muito mais selvagem do que se lembram.
Ele tirara uma faca do bolso, e cortou a garganta da criatura, enquanto a caçula chorava silenciosamente, virando-se para não ver a cena.
- Vamos. – o anão disse, por fim. – Ainda temos muito que andar para chegarmos aos narnianos.
Continuaram pelo bosque por várias horas, com Pedro na liderança do grupo, com Zack logo atrás. Contudo, depois de algum tempo, Susana começou a ficar aborrecida e a resmungar.
- Não me lembro desse caminho. – ela disse.
- É o mal das mulheres, - o mais velho disse. – não mantêm mapas na cabeça.
- Deve ser porque já temos coisas demais na cabeça. – Lúcia ironizou.
- Eu mantenho tanta coisa assim? – Lilian perguntou baixinho.
Edmundo ouvira e sorriu levemente.
- Não ligue para o que Pedro fala. Coisas de irmãos, sabe? – ele disse dando de ombros.
A moça apenas riu levemente.
- Queria que escutasse seu "queridinho" de vez em quando. – Susana comentou com a caçula.
- Queridinho? – o garoto mais novo perguntou.
- Seu amiguinho. – a caçula respondeu risonha.
E continuaram na frente. O anão parou, atraindo o olhar de Edmundo e Lilian.
- Isso não é muito gentil, é? – o homenzinho questionou.
Quando alcançaram Pedro, ele parecia tentar se decidir o que fazer e resmungar alguma coisa.
- Admite cara. Estamos perdidos. – Zack comentou num sussurro para o mais velho.
- Não nos perdemos. – o anão interveio. – Apenas estamos seguindo pelo caminho errado.
- O caminho mais rápido é cruzando o rio. – o mais velho disse, fitando-o.
- Mas se estiver enganado, não encontrará uma passagem nesses penhascos. – ele explicou, olhando ao redor.
- Então isso explica. – Pedro disse seriamente. – Você está errado.
Continuaram andando por mais alguns metros, deixando mais a paisagem de pedras para trás e seguindo por entre as árvores, que pela luminosidade que deixava passar, já parecia ser de tarde.
Porém, mais à frente, o grupo acabou chegando à beirada de uma margem alta, onde o rio corria lá embaixo.
- Viu? – Susana se virou para o irmão. – Com o tempo a erosão aumenta, e vai ficando mais profundo...
- Ok, sem mais! – o mais velho a interrompera.
- Tem como descer? – Zack perguntou para o anão.
- Sim, caindo. – respondeu simplesmente.
- Quando nos perdemos? – Pedro questionou.
- Há uma cascata perto de Beruna. Se não se importam em nadar, podemos atravessar para o outro lado. – ele explicou.
- Melhor que caminhar. – a irmã mais velha comentou, bufando.
Entretanto, Lúcia ficou parada, olhando o outro lado atentamente.
- Aslam? – questionou para si, antes de parecer animada. – É Aslam! Bem ali! – apontou para um trecho no outro lado e se virou para os irmãos, que olharam para onde a pequena dizia. – Não vêem, bem... – e sua voz, assim como a animação, morreu.
- Está vendo ele agora? – o anão perguntou cético.
- Não estou louca! Ele estava ali e queria que o seguíssemos. – ela falou aborrecida.
- Garanto que esse bosque está cheio de leões também. Você poderia ter se... – contudo, a caçula cortou o irmão mais velho.
- Acho que sei reconhecer Aslam quando o vejo!
- Olha, se quer saber, eu não vou saltar do precipício por alguém que não existe. – garantiu o homenzinho.
- A última vez que eu não acredite na Lu, eu fiquei como um tonto. – Edmundo falou.
Pedro olhou para o outro lado, esperando ver o grande leão, e depois se virou para a irmã um pouco triste.
- Então porque eu não o vi? – perguntou.
- Talvez não estivesse olhando. – ela respondeu tristemente.
Pedindo perdão à irmã, o mais velho recomeçou a andar. Edmundo apenas a encarava, enquanto ela olhava mais um pouco, na esperança de ver Aslam novamente. Contudo, nada acontecera, então os dois foram se juntar ao grupo.
Quando se aproximavam do lugar indicado pelo anão (que Pedro acabara apelidando de NCA – Nosso Caro Amiguinho – enquanto ele resmungava pelo tempo que perderam), o grupo viu várias pessoas trabalhando em catapultas, cortando árvores e montando o que parecia ser uma ponte.
Observaram um pouco, antes de verem um cavalo se aproximar, e se abaixarem para não serem visíveis.
- Uau! – Lilian conseguiu exclamar sobre o que acabara de ver.
- Talvez tenha sido uma péssima ideia vir por esse caminho. – Susana falou.
E ela olhou mais uma vez, antes de eles voltarem para dentro do bosque, até o local onde Lúcia alegara ter visto o grande leão.
- Então onde você acha que viu Aslam, Lu? – Pedro perguntou para a mais nova, que olhava para o outro lado do rio.
- Queria que parassem de agir como adultos. – ela retrucou chateada. – Eu tenho certeza que o vi. – andou até a beirada e focou o outro lado. – Foi exatamente por...
E sua voz morreu, dando lugar a um grito assustado, pois a terra cedera sob seus pés. Os irmãos correram até ela, e no lugar onde ela caíra dava para uma descida, um pouco íngreme, até o rio.
Aliviados, o grupo começou a descer, com a caçula guiando-os. Ao chegarem na parte mais baixa da margem, aproximaram-se da parte mais rasa da água, onde podiam se equilibrar em algumas pedras para não se molharem.
Lúcia foi à primeira, acompanhada de NCA, que a ajudava a atravessar. Susana foi em seguida. Lilian ia mais atrás, onde às vezes era amparada por Edmundo. Zack e Pedro completavam a fila que se seguia.
Não demorou para que anoitecesse e o grupo parasse para acampar. Os rapazes saíram para pegar alguns galhos secos, para a fogueira, enquanto as meninas buscavam algum suprimento para o jantar, mas nada além de poucas frutas. Os garotos ajeitaram os gravetos e Lilian ajudara na fogueira, produzindo o fogo.
O grupo conversou um pouco sobre como ia à vida em Londres, após voltarem para lá, e coisas aleatórias, antes que o sono começasse a atingir, aos poucos, cada um deles.
- Ficarei de guarda essa noite, para o caso de algum daqueles tais telmarinos aparecerem. – Lilian falou, quando todos se acomodavam na grama.
Zack se levantou e se aproximou dela. Segurou-a pelos ombros e a levou para perto dos irmãos.
- Eu vou primeiro. Estou sem sono mesmo. – o loiro falou. – Por favor, não insista. Eu fico com metade da noite e você com a outra, que tal?
- Tem certeza? – a garota acabou bocejando levemente, o que atraiu um olhar vitorioso do outro. – Você tem razão. Vejo você daqui a pouco.
E por fim, o casal se beijou calorosamente, antes que a moça se deitasse e fechasse os olhos.
O rapaz se sentou de maneira que tivesse uma visão das pessoas ali. Algumas horas se passaram e tudo parecia calmo. Uma vez ele pôde ver que Lúcia e Susana conversavam aos sussurros, mas não as atrapalhou, apenas continuou observando.
Já devia ser tarde, e o sono já começara a cair sobre ele quando ouviu alguma coisa não muito longe. Certificou de que todos estavam já dormindo, e se levantou sorrateiramente, adentrando no bosque, empunhando a keyblade.
Um vulto numa clareira próxima lhe chamou a atenção, fazendo-o ir até lá. Pensou que fosse um telmarino, mas a expressão distraída, a face clara e delicada, e os cabelos negros lhe caindo sobre o ombro o fez ver que nem ao menos era daquele mundo. Quando estudou a figura mais um pouco e percebeu que ela era terrivelmente familiar.
A garota pareceu sair de seu transe, e virou-se calmamente para encarar Zack com uma expressão surpresa, contudo, não pudera deixar de sorrir.
- Lil...? – ele questionou, sua voz morrendo em seguida.
- Engano bastante comum, sabe? – a morena dissera, dando de ombros. – Eu sou Lilith. E você deve ser Zack.
O rapaz continuou com a keyblade em mãos, preparando-se para algum eventual ataque vindo da outra.
- Eu ouvi falar de você. – ele disse desconfiado. – Quebrou a keyblade da Lil e quase a matou! O que faz aqui?
- Não vim para machucá-lo. – ela disse calmamente, e olhou para o céu. – Apenas vim apreciar a noite deste lugar. É bastante bonita.
E Zack seguiu o olhar dela. Sua keyblade sumiu, e ele ficou um pouco pensativo.
- Posso fazer uma pergunta? – Lilith quebrou o silêncio alguns minutos depois, virando-se para encarar o loiro, que apenas assentira. – O que você sente pela Lilian? O que tanto vê nela? – perguntou tristemente.
- Ora, ela é bonita, corajosa e gentil. – o rapaz respondera com um pequeno sorriso. – E eu a amo.
- Mesmo que ela não te ame? – a moça questionou.
- É claro que ela me ama. – Zack disse incrédulo com a pergunta que fizera. – O que a fez pensar algo do tipo?
- Não vê como ela olha para Edmundo ou sorri para ele? Como ele se comporta na presença dela? Tudo isso desde a primeira vez que estiveram aqui. – a morena comentou, aproximando-se do loiro.
De fato, o rapaz sempre desconfiara de que o irmão mais novo tinha uma queda pela sua namorada, mas ela jamais o trairia. Trairia? Ele olhou para a garota de maneira desconfiada.
- Isso é um truque, não é? – perguntou sem alterar a voz.
- Interprete como quiser. – Lilith disse, dando de ombros. – Apenas veja e tire suas próprias conclusões.
A garota se aproximou do garoto. Sua mão roçou na dele, e deslizou delicadamente pelo seu braço, alcançando seu ombro e sentindo a textura de sua pele, até chegar aos fios loiros.
Zack instintivamente deu um passo para trás, ao perceber que a respiração da morena estava próxima. Ele a olhou incrédulo e sua keyblade apareceu mais uma vez.
- Não se preocupe. – ela disse, dando as costas para ele e caminhando até o bosque. – Mas lembre-se do que lhe falei, e sempre que precisar, é só me chamar, que virei imediatamente.
E Lilith se afastou em direção aos arbustos, até sumir ao vento, deixando o loiro sozinho com os próprios pensamentos.
Balançou a cabeça e decidiu voltar para onde todos dormiam, antes que alguém acordasse e desse por sua falta. Quando avistou Lilian, as palavras de sua réplica ecoaram em sua mente. Desviou o olhar e se sentou de costas para o grupo. Fitou o céu estrelado, tentando se acalmar.
- Algum problema? – a voz da namorada soou atrás dele num sussurro.
- Ah, oi Lil... – ele a cumprimentou, forçando um sorriso. – Não é nada, apenas...
- O cansaço, eu sei. – ela disse compreensiva. – Vá dormir. É a minha vez de ficar de vigília.
O rapaz assentiu e a beijou carinhosamente, sendo retribuído da mesma forma. Não importava o que dissessem, ele a amava, e ela também.
Deitou-se onde a moça havia dormido antes e fechou os olhos, enquanto Lilian se encostava a uma árvore e fitava os irmãos serenamente.
Alguns minutos depois, percebeu uma movimentação na grama, e viu que Edmundo acordava assustado. Ele olhou para os lados como se certificasse de que era apenas um pesadelo. Logo após a confirmação, ele relaxou e viu alguém parado ao lado dele.
- Você está bem? – o garoto viu Lilian ao seu lado e apenas se limitou a assentir. – Tem certeza mesmo? Não parece ter sonhado com algo bom. – ela comentou, sentando-se de frente para ele.
- É que... – e ele suspirou, certificando-se de que os irmãos estavam realmente dormindo. – Ela continua me atormentando. Desde o período que eu reinei aqui. Quando voltei para a Inglaterra, eu achei que não teria mais que lidar com isso. Mas, mesmo lá, ela ainda me persegue.
- A Feiticeira Branca?
Ele assentiu.
- Nunca contei para os meus irmãos. Não queria preocupá-los. Muito menos a Lu. – o garoto disse pesaroso.
O silêncio pairou mais uma vez. Edmundo parecia refletir sobre alguma coisa, antes de se virar para encarar a garota à sua frente, que fitava o céu. Desviou o olhar, e observou as árvores distraidamente.
- Desculpa. – ele falou, despertando Lilian de seu transe.
- Pelo que? – ela perguntou.
- Da primeira vez que estivemos aqui, eu fui bem chato. – o rapaz explicou, sorrindo tristemente. – E mesmo assim você se arriscou pra me salvar.
- Ah, não foi nada. Nem precisa agradecer. Era o meu trabalho proteger vocês e eu quase falhei. Sou eu quem deve pedir desculpa. – a moça disse sorrindo. – Mas e então, como foi governar Nárnia após eu e Zack termos partido?
Edmundo começou a contar diversas histórias sobre Arquelândia e Calormânia, os países ao sul, e sobre as Ilhas que ficavam no mar oriental. Porém, em algum momento, o rapaz bocejou quando contavam sobre o dia em que eles voltaram.
- Você tem que ir descansar. Daqui a pouco vai amanhecer e teremos mais caminhada pela frente. – Lilian comentou.
- Mas...
- Sem "mas". – ela o cortou, e ele se deu por vencido, acomodando-se da melhor maneira que podia na grama.
As horas passaram, e o sol dava os primeiros sinais de vida, onde os raios invadiam cada fresta que encontrava entre as folhas.
Não muito longe, ela ouviu alguns galhos secos se quebrando. Olhou para os irmãos rapidamente, decidindo não acordá-los sem motivo. Ainda. Virou-se para uma trilha e andou o mais sorrateiramente que pôde.
Escondeu-se por trás de uma pedra grande e alta, espiando quem estava ali. Viu um minotauro de pelagem escura fazendo patrulha. Com certeza não tardaria para que encontrasse o acampamento, que não estava muito distante.
O mais sorrateiramente possível, Lilian voltou para os irmãos, ainda adormecidos, mas algo a fez gelar. Lúcia não estava ali.
Acordou o mais velho do grupo, alertando do ocorrido, e quando conseguiu se dar conta do que a moça dissera, ele se levantou. Pedro seguiu por alguns arbustos, enquanto Susana e Zack recolhiam os pertences do grupo.
- O que faremos? – a mais velha perguntou, olhando para o casal.
- Eu não sei. – a moça de cabelos castanhos conseguiu dizer. – Não sei onde estão, e pode haver muitos. Temos que nos apressar.
E foi nesse momento que um ressoar de espadas não muito longínquo se fez audível.
- Aparentemente nos encontraram. – o anão informou.
O grupo correu para a direção do som, e ao se aproximarem, puderam vislumbrar o irmão mais velho contra outro rapaz, mais alto, com cabelos castanhos que lhe caíam até os ombros. Não foi o desconhecido que atraiu o olhar temeroso da jovem portadora, e sim o grupo que o cercava.
Lilian, assim como Zack, pegou seu pingente, que logo fez a keyblade materializar, e fez ambos correrem em direção a Lúcia, que apenas via o ocorrido. Susana chamara o irmão mais velho, atraindo o olhar de todos.
- Grande Rei Pedro. – o rapaz desconhecido dissera, olhando da espada que tinha em mãos para o mais velho dos Pevensie.
- Acho que nos chamou. – ele dissera.
- Sim, mas... Achei que fosse mais velho.
- Bem, se preferir, nós voltamos daqui a alguns anos...
- Não! – o estranho o interrompera, lançando um rápido olhar aos outros. – Tudo bem. É que não é exatamente o que eu esperava.
- Espere. – Lilian conseguiu falar, olhando para todos. – Então você é o tal cara do meu sonho que fez a trompa soar. O tal telmarino. Caspian, não é?
- Você sonhou... – o rapaz começou, mas Zack o interrompera.
- Longa história.
- Esperávamos ansiosos pelo seu regresso. – um rato, pouco maior do que o normal, e que andava sobre as patas traseiras, falou, aproximando-se. – Nossos corações e almas estão ao seu serviço.
- Devemos regressar. Batedores podem nos localizar aqui. – um centauro dissera, e todos assentiram.
O grupo caminhou pelo bosque até um campo aberto, onde mais adiante se encontrava uma construção de pedra meio escondida por arbustos e árvores, além das plantas que surgiam por entre as fendas nas pedras.
Ao se aproximarem da entrada, vários centauros saudaram os visitantes, com as espadas em punho, em respeito aos reis que regressavam. Os irmãos Pevensie foram à frente, seguidos não muito atrás por Lilian e Zack, ladeados por Caspian, e com o resto dos narnianos vindo mais atrás.
A construção, por dentro, se mostrara o abrigo de todas as criaturas que povoavam Nárnia séculos atrás. Eles forjavam armas, cozinhavam, entre outras tarefas para ajudá-los a manter o lugar a salvo.
- Talvez não seja o que estavam acostumados, - Caspian disse. – mas é seguro.
- Pedro, venha ver isso. – Susana o chamou, e seguindo por um corredor.
O grupo continuou a seguir por um corredor, cujas paredes continham pinturas, em sua maioria cenas do que haviam acontecido no passado.
- Somos nós. – a mais velha disse para os irmãos.
- Todos nós. – Lilian comentou, aproximando-se e tocando em um dos desenhos, onde um casal segurava duas armas semelhantes a uma chave.
- O que é este lugar? – Lúcia perguntou.
- Vocês não sabem?
E todos negaram.
Caspian pegou uma tocha, e continuou a caminhar, abrindo caminho entre a escuridão, sendo seguidos pelos outros. Quando pararam, o telmarino acendeu um braseiro, que tratou de fazer as chamas correrem para iluminar todo o lugar.
Ali haviam estátuas esculpidas na parede, e no lado oposto do salão, estava figura imponente de Aslam. No centro do lugar, encontrava-se uma mesa quadrada de pedra, quebrada, com inscrições em uma linguagem antiga na borda.
- Devem saber o que fazem. – Lúcia disse, aproximando-se e tocando na estrutura, e depois virou seu olhar para ver a todos.
- Acho que depende de nós. – Zack comentou. – Temos que muito a fazer.
Os outros assentiram.
Mais tarde, os seis visitantes foram chamados para jantar com Caspian e os outros narnianos. Descobriram que o rato que viram na floresta se chamava Ripchip, enquanto o anão que eles encontraram tinha o nome de Trumpkin.
- Nosso Caro Amiguinho era um nome mais legal. – Edmundo comentou num sussurro com Lilian e Lúcia, que riram.
Em seguida, foram mostrados a eles os aposentos que ficariam. Era improvisado, mas bastava para uma noite de descanso após um dia turbulento.
Ninguém ficou acordado por muito tempo, caindo num sono quase que instantaneamente.
No dia seguinte, todos foram acordados cedo por um fauno que estava de sentinela. Dizia sobre ter visto um batedor telmarino. Com certeza não demorariam a atacar os narnianos.
- Homens e máquinas de guerra estão a caminho. – Pedro disse, lembrando-se do que tinha visto na margem do rio. – Significa que esses mesmos homens não estão protegendo seu castelo.
- O que propõe, Majestade? – Ripchip perguntou.
- Devemos... – e foi interrompido, pois Caspian também havia falado na mesma hora, porém, ele ficou calado, fazendo com que o Pevensie mais velho continuasse. – Nossa única esperança é atacar antes que nos ataquem.
- Loucura! Ninguém nunca tomou o castelo. – Caspian dissera.
- Sempre há uma primeira vez. – o outro rebateu.
- E temos um elemento surpresa. – Trumpkin falou, olhando para os seis visitantes.
- Mas a vantagem está aqui.
- Sob a terra, poderíamos detê-los. – Susana comentou, postando-se ao lado do telmarino.
- Agradeço tudo o que fez. – Pedro começou. – Mas isso aqui é uma tumba, não uma fortaleza. Não vai aguentar para sempre.
- Sim, e se montarem um cerco, irão nos matar de fome. – Zack disse.
- É um plano arriscado. Para conseguirmos assaltar o castelo, teríamos que levar quase toda a força que temos aqui. Teríamos que ser os mais sorrateiros possíveis. – Lilian comentou. – Pense nas vidas que estaríamos perdendo. Já não somos muitos.
Pedro parou por um momento, refletindo o que fora dito. Era difícil, ele sabia, e Lilian tinha razão, mas não podiam ficar parados, ou morreriam de fome em breve, tal como Zack dissera.
Ele lançou um olhar a todos, até que caiu sobre um centauro.
- Se chegar às tropas, se encarregaria dos guardas?
- Ou morrerei tentando. – ele disse.
Lilian lançou um olhar de lamento para todos, mas fora Lúcia que tomou a palavra.
- Esse é o problema. Só estão considerando duas opções: morrer aqui ou morrer lá.
- Lu, parece que você não está escutando. – o rapaz disse a caçula, que o cortou.
- Não, você é quem não está escutando. Parece que já se esqueceu de quem derrotou a Feiticeira Branca, Pedro.
- Acho que já esperamos Aslam o suficiente. – e deu as costas para a irmã. – Partiremos ao anoitecer. Iremos atacar enquanto todos dormem.

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