Capítulo 1 - Umbral

- Está muito quente!

- Está muito frio!

O homem estava preso a um poste enquanto um pendulo fazia um movimento de zigue-zague por onde por ora encostava uma ponta e por ora outra. Uma delas era quente fervendo a outra frio congelante.

Ele viu aquela cena e se benzeu. Não era essa a sua fé, mas o medo foi um grande motivador. Com quase quarenta anos de idade, Timóteo aparentava estar eternamente nos trinta anos. Tudo isso era fruto de um treino árduo militar.

Timóteo estava armado com uma escopeta, uma pistola e um facão. Balas de prata é claro, benzidas em três religiões diferentes só para garantir.

O Umbral, o local onde a missão se desenrolava, era similar ao plano terreno em muitos aspectos. Tinha apartamentos, ruas e centros comerciais correspondentes. A maior diferença era o clima carregado de energia negativa e os condenados. Os pobres coitados que espiavam seus pecados sofrendo por um período de tempo.

Não era eterno, mas eles não sabiam disso.

Timóteo entrou em uma construção e subiu até o segundo andar. O andar estava cheio de gente ao contrário do térreo e do primeiro andar. Timóteo até tirou a pistola do coldre esperando um ataque demoníaco quando ele percebeu o que realmente era tudo aquilo.

A adolescente que não vestia nada da cintura para baixo tentava se compor sentada no sofá da festa esticando sua blusa para baixo. Em dado momento pegaram seu braço e a convidaram a se levantar. Timóteo não conseguiu assistir mais àquele abuso. Ela não era sua missão. Não podia fazer nada para deter o tormento que era para ela, sendo assim Timóteo continuou.

- Bleargh!

No quinto andar Timóteo assistiu a um enjoo sem fim. Um homem com cinetose acorrentado a um carrossel gigante que girava um pouco rápido demais para o tripulante. Um vômito por volta. Um estômago normal não conseguiria possuir tanto liquido. Era uma nojeira sem fim.

Ainda não era ali. Sua missão era em outro lugar. Timóteo subiu mais dois andares quando chegou ao topo do prédio. O demônio já esperava por ele. O mago era dono de toda aquela região umbralina. Um ser das trevas. Um condenado entre os condenados. Do ponto de vista cármico a situação dele estava muito pior do que todos os que sofriam ali. Ele foi o sofredor que pagou para não sofrer e que com isso ganhou mais tempo de sofrimento na conta.

- Eu a quero, Azalom. - Disse Timóteo. - Deixe Renata ir.

Azalom, o mago das trevas, era uma figura repugnante. Sua pele era escamosa e o pouco do seu rosto que era descoberto pelo capuz dava para ver que era reptiliano.

- Ela está pagando pelos seus pecados como qualquer um.

- Quanto carma você quer? Quanto carma precisa para liberá-la?

O mago das trevas respirou fundo e quando fez isso seus pulmões chiaram. - Todas as pessoas, criminosas ou santas, quando morrem vem para o umbral. Se os crimes contra o universo foram poucos a estadia será pouca se não será muita.

- A sua deve ser enorme, escória nojenta! - Ao dizer isso Timóteo cuspiu no chão para deixar claro o quanto repudiava aquele homem.

- Saia daqui, guardião. Antes que eu perca a paciência.

Timóteo sacou sua pistola. - Dou todos os carmas que tenho para vê-la livre, é minha única oferta.

Azalom olhou para o guardião e fez aparecer em sua mão uma espada. - Se deseja assim.

Timóteo deu três disparos enquanto corria pelas laterais do andar. O mago com sua espada rebatia cada tiro. O guardião se aproximou e descarregou o pente. De nada adiantou, Azalom rebateu os tiros novamente.

Timóteo estava prestes a recarregar a pistola quando o mago a tirou de sua mão com uma espadada. Timóteo pegou a escopeta e começou a atirar feito um desvairado. O mago desviava feito um endemoniado. Nenhum disparo o pegava.

Sabendo que não tinha como ganhar, Timóteo pegou o seu facão e começou um ataque desesperado.

- Arestum Momentum! - A magia fez com que Timóteo desmaiasse e quando acordasse estivesse no mundo dos vivos.

XXX

- Você não deveria ter feito isso.

- Nunca vou desistir do meu amor verdadeiro.

- Tenha santa paciência, Timóteo. Esse tipo de coisa não é para pessoas como a gente.

O homem parecia um modelo. Sua pele era de uma clareza perfeita e sua barriga era lisa. Como um manequim. Era tão apegado a um arquétipo de beleza que parecia estranho. Esse era George, o diretor do Boreal.

Nos Estados Unidos nos anos quarenta uma série de eventos criou uma agência responsável por coibir toda ameaça que tenha qualquer viés sobrenatural, essa agência, a BPRD, fez filiais ao redor dor mundo, a O Boreal é a brasileira. Uma organização governamental com ajuda externa. Em suma, um serviço publico melhorzinho. Para entrar nele, como qualquer serviço publico, há a necessidade de um concurso publico. Uma prova e a analise de qualificação.

- Oi Maria, como vai. - Disse Timóteo ao encontrar uma conhecida nos corredores.

- Oi, querido.

Maria tem um dom peculiar. Ela tem o poder de manipular a água. Poucos sabem, mas assim como os deuses gregos e nórdicos, os africanos também tem seus filhos com os mortais. Um evento muito mais raro deve-se salientar. Maria é filha de Iemanjá com um pescador. A menina tem apenas dezesseis anos e um futuro todo promissor como agente.

Naquela tarde Timóteo foi convocado por um superior para exercer uma tarefa bem desagradável. Mil vezes ir ao umbral enfrentar um mago das trevas.

- Timóteo, você vai ser fiscal de prova.

- Porra, Bruno. Você não sabe que sou homem de ação?

- Pois bem, essa é sua ação agora.

Timóteo se sentia meio incomodado próximo a Bruno. Por mais que lutasse contra sua homofobia Timóteo não se sentia a vontade próximo a um colega gay. Tanto que evitava missões de campo com ele. Bruno é médium. De baixo nível, nunca viu um fantasma na vida, mas tem sonhos premonitórios certeiros as vezes.

No dia seguinte, oito horas da manhã, estava Timóteo tomando conta de prova. Quarenta e cinco cabeças em sua sala. Pelo jeito que respondiam a prova Timóteo já intuía qual deles passaria na parte teórica. Desses muitos Timóteo duvidava que passaria da parte prática, do exame físico.

Em um passar de olhar pelos concorrentes Timóteo se fixou em uma. Alguma coisa nela sugava sua mente como um buraco negro. - Será possível? - Ele se perguntou. - Essa candidata é uma anomalia.

O nome pode soar pejorativo, mas ninguém achou nenhum outro que soasse melhor. Anomalia é qualquer pessoa, excetuando os médiuns, que possua alguma habilidade sobrenatural.

Timóteo foi até a porta e chamou o fiscal de corredor. - Fica em meu lugar que preciso falar com alguém.

George não estava muito receptivo aquele dia. - Você acha que ela é algum tipo de telepata? Sei.

- E é assim que você me responde?! Isso é incrível! Uma anomalia que vem até nós ao invés de nos matamos de trabalhar só para chegarmos nela.

- Ok, Timóteo. Ficamos felizes com sua descoberta. Agora volte para casa. Tire o dia de folga.

- Mas e o resto do meu trabalho?

- Não se preocupe, O Boreal tem 2.567 agentes temos operacional para tanto.

XXX

Renata dirigia sozinha quando a colisão lateral ceifou sua vida. Assim que soube do ocorrido Timóteo largou o trabalho e foi até o hospital, mas já era tarde demais.

- Para pessoas normais coisas assim são definitivas, mas para pessoas como nós não. - Disse Timóteo.

- O que está sugerindo? - Perguntou George preocupado.

- Vou ressuscitá-la ou trazê-la de volta como espírito.

- Não. Pelo amor dos deuses. Há um motivo para a ressuscitação dos mortos ser um tabu.

Sem ouvir o conselho do seu amigo Timóteo continuou em sua saga de reaver sua esposa. Primeiramente ele pesquisou onde a alma de sua esposa estaria. Na sua mente ela estaria no Orum ou em outro paraíso qualquer. Mas o espírito de luz trouxe outra informação. Umbral.

- Por que meu amor foi cair no Umbral?! Isso é injusto!

- Todos os seres de carne pagam um preço momentâneo por suas vidas. - Disse o espírito de luz.

- Quem é o mago das trevas chefe da região do umbral onde ela está?

O espírito de luz respondeu. - Azalom

Em sua casa Timóteo usou seu conhecimento de ocultismo para chamar o mago das trevas daquele setor onde sua amada sofria. Azalom apareceu. Como já não bastasse sua feição monstruosa ele aparentava estar irritado.

- Quem me chamou? Sou um um mago ocupado.

Timóteo ficou tão perplexo que demorou a responder.

- Não vai dizer nada?! Então que venha ao Umbral e sinta na pele.

- Não! Não! Por favor. Só quero saber como salvar minha esposa. Quanto carma eu devo dar?

Azalom olhou para Timóteo com interesse. - O carma de uma vida.

- Feito.

O acordo havia sido selado e o monstro já estava prestes a reivindicar o seu prêmio. A mão reptiliana tocou no peito de Timóteo, mas reagindo ao toque uma luz dourada cegante afugentou o mago.

- Você é protegido pelos espíritos superiores. Maldito. Três vezes maldito.

- Eu não posso ter o seu carma, mas não vou deixar por isso mesmo. Você não quer tanto ver sua esposa. Pois veja.

- Amor! Nãoo!

Decoração, o umbral é cruel em seus castigos. Em vida Renata apreciava certas ideias feministas como, por exemplo, a da mulher objeto. O umbral é um lugar que usa o que você acredita e gosta contra você. Renata estava despida no ponto mais visível de uma praça pública. Uma estátua, sem poder se mover além dos olhos.

Quando o mago foi embora ficou o desespero.

- Eu vou te salvar meu amor! Eu prometo!