Capítulo 3 – O bom, o mau e os piores.

O menino estava preso do lado de fora da casa e tentava de todas as maneiras entrar de volta. O problema era que o garoto estava pelado e não queria passar pelo vexame de ser pego assim. No final das contas ele era sempre pego. Um tio, uma tia, alguém da família. - O que você está fazendo assim, rapaz? - Reclamavam. O garoto, cobrindo suas partes, tentava responder, mas ninguém parecia querer entender. E a cena se repetia e se repetia.

- Não podemos fazer nada por esses pobres desgraçados? Quer dizer, quem merece isso? - Perguntou Maria.

- Todo mundo. - Respondeu Bruno. - E se prepare para quando chegar a sua hora.

- Não, mas eu não passarei por isso.

- É. Talvez não, você sendo filha de quem é. Mas para o resto dos pobres mortais...

- Acabou o descanso. Temos um trabalho a fazer, homens. - Disse Timóteo com veemência.

O quinteto seguiu por ruas carregadas de energia negativa, em alguns lugares era possível ver espíritos obsessores vagando esperando só por uma oportunidade de entrar no mundo material e obsediar alguém

Aquele setor do Umbral era rico em espíritos sofredores. Deveria ser por isso que Azalom era um mago das trevas tão poderoso. Timóteo refletiu sobre suas aulas na acadêmia sobre o mundo espiritual e tentou se lembrar da cadeia de comando de lugares assim. Se Azalom já era um mago tão poderoso imagina o seu mestre? Timóteo tentou não pensar nisso depois que fez uma breve prece para que não houvesse a necessidade desse embate.

Aquele bairro era conhecido. Timóteo e sua trupe entraram pelo prédio mais alto e passaram pela menina envergonhada na festa e mais tarde pelo enjoado do carrossel. Após esses andares, ele. Azalom. Mas não.

A mesa retangular lembrava um conto do rei Arthur. Em cada ponto dessa mesa um mago das trevas. Sendo que no topo deveria ser o líder. Líder esse que não era Azalom. Muito pelo contrário, aquele mago ocupava apenas o segundo lugar de doze.

Cada figura sentada na mesa representava os maiores medos e sentimentos negativos da humanidade. Nem todas eram asquerosas, mas nenhuma daquelas figuras deixava de ser perigosa.

O líder deles até pareceria um espírito de luz devido a sua beleza. Ele trajava uma armadura medieval estilizada dourada. Sua pele era morena e seu cabelo raspado nas laterais era cumprido.

- Sou Elariel. É um prazer encontrar alguém com tanta determinação quanto você, Timóteo. Mas, infelizmente a sua garra está atrapalhando nos meus negócios.

O quinteto se entreolhou enquanto pensavam no que diriam. Maria balbuciou para que falassem o mínimo possível. Bruno disse em bom tom para que não firmassem acordo nenhum. Matias concordou com ele. Já Pedrosa foi do contra.

- Garoto essa é sua grande oportunidade de salvar sua mulher. Faça um pacto. Foi assim que consegui minha varinha.

- Não escute ele! Pactuar com criaturas das trevas é burrice! O Preço é alto demais! - Disse Bruno.

- Cinquenta anos nem é tanto tempo assim. - Comentou Maria, baixo demais para ser ouvida.

- Calem a boca. Preciso pensar. - Disse Timóteo.

Elariel sentava de um jeito bem despojado. Colocava os cotovelos na mesa e apoiava o queixo com as mãos. Sua expressão era quase desinteressada. - Eu posso amenizar o sofrimento dela. Fazer com que possa caminhar pelo parque.

- Um parque cheio de pervertidos?

- "Cheio"? Eu só contei três, as outras pessoas eram transeuntes que sofriam por outras causas. Timóteo, saiba negociar. Entenda que você não terá tudo e Renata não irá sair daqui antes do tempo.

Timóteo ponderou e por fim consentiu. Ao menos ela não seria uma estátua.

- Deem roupas a ela

- Aí você já quer demais. - Disse Elariel

- Um biquini ao menos

O espírito das trevas pensou um pouco e chegou a um veredito. - Tudo bem. Caso encerrado. E Timóteo, eu não quero vê-lo no Umbral antes do seu tempo estamos entendidos?

O quinteto saiu do prédio com o ânimo de missão fracassada. Timóteo mais do que qualquer um. Durante sua jornada ele acabou se afastando dos outros e foi encontrar um certo mago negro. Azalom

- Essa reunião não tem nenhuma relação com Renata, é pessoal.

O mago riu, mas não podia esconder o interesse pela tática que o guardião utilizaria para derrotá-lo.

Primeiro Timóteo pegou sua pistola e sua escopeta e as jogou no chão. O mago viu aquilo e só fez aumentar sua curiosidade. Por último Timóteo tirou a lâmina do seu facão e jogou no chão. Azalom começou a rir como um desvairado. - Vai me matar com um facão sem lâmina?

Azalom fez aparecer sua espada e praticamente voou por sobre Timóteo, mas esse surpreendeu com uma luz dourada.

O mago das trevas fora atingido antes de ter percebido. - O que é isso?

De onde deveria estar a lâmina do facão, agora residia uma espada de luz dourada.

Sangue esvaia da ferida de onde o mago havia sido atingido. Sem forças, ele ajoelhou.

- Você deveria ter devolvido minha Renata. - A decapitação deu um fim a luta.

XXX

A mente de Timóteo escorria para um canto sombrio de seu cérebro. A mera presença daquela mulher tinha um efeito devastador em sua psique. - O que será isso? Ela é algum tipo de demônia?

Os dois se encontraram em um dos corredores. O encontro foi fortuito. Timóteo tentou abrir a boca para balbuciar palavras, mas de nada adiantava. A pressão em sua mente fez com que perdesse o equilíbrio das pernas e caísse perigosamente no chão. Sua cabeça só não se impactou, porque ele se escorou com o ombro esquerdo.

A mulher tinha trinta anos recém feitos, seu corpo seria de modelo se ela fosse mais jovem. Seu cabelo era louro e comprido. Seus olhos agateados eram verdes. Ela olhava para Timóteo ciente do que estava fazendo quando de repente...

Quando de repente acabou.

Timóteo já não sentia mais a dor na mente. Seu corpo respondia com a precisão de um lince. - O reque foi tudo isso? Quem é você?

- Me chamo Lidia. Sou uma agourenta, eu me alimento de mau presságio. E você está cheio. Ao menos estava.

- Devo agradecer então?

- Faça o que bem entender.

XXX

- Que nome mais século XIX. - Disse Timóteo.

- Mas pagam o triplo do que você tá ganhando. Pense nisso. - Respondeu Renata.

O casal se beijou em um selinho e se separaram, enquanto cada um ia para uma direção suas mãos se tocavam como que para fazer com que o momento em que ficaram juntos durasse mais.

Ao chegar em sua casa que compartilhava com sua mãe, Timóteo pôs a papelada da inscrição em cima da estante da sala. Depois foi se distrair comendo os cooks que havia comprado de manhã cedo e havia guardado na cozinha.

- Nem pensar. - Dizia sua mãe. - Você não vai se inscrever para esse trabalho.

- E por que não, mamasita? Você já viu o quanto pagam.

- O salário é gordo porque o perigo é muito.

- E ser policial por acaso não é uma profissão perigosa.

- Tenha paciência como seu pai, sua carreira tem progressão.

Nada mais foi dito, pareceu que Timóteo havia sido derrotado na discussão. Porém, mais tarde, durante a madrugada, Timóteo lia e relia aquele papel de inscrição. Aquele papel, mas parecia um convite à uma honraria. Bem como Timóteo já havia dito antes. Tudo era muito século XIX. Inclusive o nome do local.

Os dias foram se passando, Timóteo fez o teste escrito e passou, mais tarde o físico e também obteve êxito. Não demorou muito para que se tornasse o mais novo funcionário da instituição. O mais novo agente do Boreal.

Sua mãe, é claro, não gostava nada disso.

A mãe de Timóteo é carola de igreja e todo domingo comparece a uma missa. No final delas, as vezes, conversava com amigas. Algumas delas tendo línguas ferinas.

- O Boreal trabalha com vampirologia, ocultismo e demonologia. É o pior lugar possível para se trabalhar. Ainda digo mais: um cristão verdadeiro não trabalha dentro daquelas paredes.

Timóteo já estava trabalhando três meses no Boreal quando teve uma discussão com a mãe. Ele sabia que as acusações dela procediam, mas não podia dar o braço a torcer mesmo estando o errado na conversa.

- Não existe esse negócio de ocultismo, mãe. Nós só trabalhamos com criminosos mais perigosos.

- E que criminosos mais perigosos são esses?

- Os que aparecem na tevê. Os grandões.

- Já existe polícia federal para isso. Menino, não me enrola.

A conversa foi calorosa, mas logo teve um fim. Não demorou muito também para que a mãe parasse de dar ouvidos a terceiros e confiasse no seu filho.

Dois anos depois, por razões que em nada tenham a ver com o Boreal, a mãe de Timóteo morreu. Só quando ela morreu foi que ele finalmente contou a verdade. No cemitério, no velório, baixinho para que só ele e sua mãe escutassem.

- Desculpe, mãe. A senhora estava certa. O Boreal é o lugar mais endiabrado do mundo.