Os pais do pequeno Marcos achavam que o excesso de contato com entretenimento eletrônico pudesse prejudicá-lo. Por isso em suas férias o levaram à fazenda. Sem seus brinquedos cotidianos, Marcos precisou usar da sua imaginação para fazer o tempo passar. O menino de sete anos pegou um graveto do chão e limpou suas folhas. - Encantarem! - Agora o graveto em sua mente havia se tornado uma varinha e de sua boca saíam palavras em latim de faz de conta que simulavam feitiços.

- O que é isso, Marcos?! - Assim que notou a brincadeira, o pai de Marcos pegou a "varinha" da mão do filho e a jogou longe. Em seguida se ajoelhou para que seu olhar ficasse de frente ao do menino. - Magia e feitiçaria não são coisas de Deus. - Em seguida o pai o abraçou esperando que sua lição tivesse sido aprendida.

Anos depois o menino cresceu e transformou o que era uma brincadeira em ofício, Marcos alcançou a antítese do que seus familiares almejavam para o seu futuro. Agora com trinta e poucos anos, seus braços estavam cobertos por tatuagens que não deixavam nenhuma parte de pele original exposta, nem mesmo nas mãos, nos dedos e nem nas falanges. Desenhos místicos variados, uma colcha de retalho cultural que não fazia sentido para a maioria.

Andando pelos corredores do motel, Marcos atraia olhares. Não tanto pelas roupa exagerada de grife que vestia, mas por seu significado. Se vestia todo de preto com exceção da gravata vermelha e do pano dobrado da mesma cor no bolso do paletó.

- Senhor Mignola. Então você que é o feiticeiro? - Perguntou o dono do motel, que esperava o seu prestador de serviço na frente do quarto onde ocorrera o incidente.

- Esse nome é um tanto quanto pejorativo. Preferimos o nome de conjurador.

- Que se foda. Se você resolver esse perrengue te chamo até de Jesus Cristo.

A porta do quarto foi aberta revelando uma cena inusitada até para o conjurador. Ao levantar o lençol da cama Marcos viu um garoto, que não deveria ter mais de vinte anos, deitado por cima de uma mulher mais madura. Ambos grudados onde deveriam estar suas genitálias. Uma bizarra forma de siameses.

Marcos se aproximou para examinar o caso. Quando a mulher o percebeu, seu rosto se contorceu em uma expressão de vergonha e humilhação. - Por favor faça isso parar. Não posso ficar assim para sempre.

- E não irá, madame. Posso garantir. - Marcos Mignola ficou meio minuto com os olhos fechados passando as palmas das mãos alguns centímetros acima dos corpos das vítimas. - Isso é uma maldição, só o conjurador responsável por ela pode revertê-la com um contrafeitiço... - Marcos fez uma pausa ponderando se devia revelar esse detalhe. - Ou com sua morte.

- Até conhecê-lo nunca havia falado com um conjurador na minha vida. - Disse a mulher, ainda mais encabulada. - Por que fizeram isso com a gente?

- Bem eu... - Começou o jovem.

- Se quer dizer algo é melhor dizer agora. - Advertiu Marcos.

- Minha ex tinha tatuagens por todo o braço direito. Eu pensei que fosse por ela ser uma artista, uma pintora, mas agora...

O dialogo foi interrompido por um tapa. - Como pôde se envolver com essa gente?! Se estamos assim é por sua causa!

Por tudo o que já ouviu na vida desde que fez sua primeira tatuagem e se tornou um conjurador Marcos não se sentiu ofendido com aquela opinião preconceituosa. - Só me diga como ela é, seu endereço, se tem familiares...

XXX

Marcos ficou incomodado por não poder resolver o problema do casal de imediato. Infelizmente a única ação que podia fazer de útil era procurar essa tal de Sofia, a ex-mulher conjuradora problemática.

Vassouras eram consideradas medievais e até mesmo ridículas. A moda entre os conjuradores era usar animais alados como dragões e cavalos de asas. Marcos, que mal ganhava para pagar seu aluguel, tinha que andar como qualquer mortal: de metrô.

Enquanto o transporte não chegava na estação Marcos olhava para as pichações nas paredes. Uma delas chamou sua atenção: "Os feiticeiros não herdarão o reino dos céus". Esse lembrete indesejado fez com que Marcos lembrasse do que motivou a cisão de sua família.

Como de costume o metrô veio lotado. E para piorar Marcos foi de pé e sua cabeça ficou embaixo do braço de um skunk ape cabeludo e mal cheiroso. Na cidade de Edwina setenta e dois por cento dos cidadãos eram "pessoas normais", o restante eram conjuradores e outros tipos de criaturas místicas como luppercus, cabbits e baccanalians.

Assim que saiu da estação e pôs os pés na rua, Marcos foi recebido por uma ovada disparada por um carro em movimento. - Satânico! - Gritou o homem sentado no carona. O monza azul já estava dando a volta na rua quando sem motivo aparente seus pneus incharam e estouraram todos de uma vez. O veículo chegou a patinar alguns metros, saltando faíscas e assustando o motorista a ponto de fazê-lo se urinar.

Enquanto o acidente atraia uma multidão de curiosos, Marcos procurava uma explicação para o ocorrido. Ela veio na forma de um homem magro com tatuagens que cobriam cada centímetro do corpo, inclusive o rosto e a parte de cima da cabeça que era raspada. Alguns conjuradores eram autossuficientes o bastante para enfrentar a sociedade se tatuando por completo em troca de poder místico.

- Você deveria usar menos preto. - Disse o homem completamente tatuado. - Ou usar luvas para cobrir as tatuagens das mãos. Por muito tempo lutei pela convivência pacifica entre nós e os sem-magia, para que nossa gente não precisasse se esconder. Infelizmente desisti. Agora acho que revidar é a melhor resposta. Desculpe, não me apresentei. Meu nome é Eriberto.

Marcos apertou a mão de Eriberto por educação. Não queria se aproximar muito de um militante pró-conjuradores extremista. - Obrigado pela ajuda, mas agora tenho que ir. Preciso trabalhar, você sabe.

- Claro. - Quando Marcos já estava longe o suficiente para não ser ouvido, Eriberto bodejou. - Vá conjuradorzinho. Vá ajudar os sem-magia como um bom cãozinho.

XXX

Após um trajeto com alguns percalços, Marcos chegou no endereço de Sofia cedido pelo jovem amaldiçoado. Primeiramente, querendo ser educado e respeitador da lei, ele apertou a campainha. Após dez minutos sem ninguém responder Marcos soltou um feitiço simples de destrancar fechadura. Ele esperava que o feitiço não desse certo, mas funcionou. Qualquer conjurador meia boca conseguiria proteger sua casa contra uma magia tão simples. Isso não condizia com alguém capaz de realizar uma maldição tão complexa quanto a dos "amantes siameses".

A casa era mal arrumada com quadros espalhados sem muita organização. Como lhe disseram que Sofia era pintora isso sinalizou que havia chegado no lugar certo. As pinturas tinham como temas a natureza e a vida selvagem, mas eram tão enfadonhas que até Marcos não sendo especialista em arte conseguiu perceber que não eram boas obras.

Marcos fechou os olhos e ergueu suas mãos para frente, iria usar sua magia. A medida que o encanto ia fazendo seu trabalho mais e mais fantasmas apareciam na casa atraídos pela força mística. Conjuradores, de modo geral, não acreditavam em vida após a morte. Para eles a mente de qualquer ser vivo não resiste sem um suporte biológico.

Os fantasmas eram vistos pelos conjuradores como "memórias da pedra". Para um conjurador de crença padrão os fantasmas não passavam de informação gravada em um determinado lugar. Como a música gravada em um disco de vinil. Falavam, andavam e alguns até moviam objetos, mas não possuíam um pingo de consciência.

- Serei eternamente grata, mestre. - Da boca de Marcos saiam palavras que não eram suas. Seu corpo funcionando como uma "vitrola" que emitia o som do que estava gravado no "disco de vinil". - Eu não me importo de usar magia negra. Só quero que ele pague por tudo o que me fez sofrer!

- Mestre?! - Agora já dono de sua voz com a cessação do feitiço, Marcos chegou a conclusão de que seu caso talvez pudesse ser um pouco mais complexo. Um segundo suspeito envolvido? Marcos tentaria outra sessão mediúnica após descansar uns dois minutos se a dona da casa não aparecesse. Ela portava um revólver e o apontava para Marcos. Uma mulher ruiva e de corpo mirrado. Era Sofia.

- Saia daqui ou eu chamo a polícia! - Sua descrição foi exagerada, Sofia não tinha "tatuagens por todo o braço direito". Só mesmo um pentagrama estilizado que mal tomava o ombro. Alguns conjuradores achavam que com apenas uma tatuagem simples já poderiam se tornar mestres da magia.

Marcos Mignola tentou não ser esnobe e não diminuir sua oponente, o que era difícil. - Credo! Ela é tão boba que acha que pentagrama é magia.

A mais de quatro metros de distância, só com um movimento de sua mão direita, Marcos conseguiu fazer com que Sofia fosse desarmada por telecinesia. Em seguida ele conjurou um encantamento que transformou o tapete da sala numa espécie de areia movediça. A medida que ia afundando Sofia entrava em desespero.

- Me tira daqui!

- Desfaça a maldição que jogou no seu ex antes.

- Mas não fui eu que o amaldiçoei.

- Resposta errada. Confie em mim, você não vai gostar de saber onde esse meu feitiço leva.

Sofia estava já mergulhada na altura dos seios. Seu medo fez com que começasse a falar coisas sem muito nexo até que disparasse uma resposta valida. - Foi a meu pedido, confesso! O responsável foi o meu mestre.

- Quem é ele e onde posso encontrá-lo.

Sofia estava agora pelo pescoço. - Eriberto! Não sei o resto do seu nome e nem onde mora! Mas sei onde pode encontrá-lo! Pelo amor de Deus me tira daqui!

Marcos desfez o feitiço fazendo com que o tapete voltasse a se manter em cima de um piso solido. Sofia ficou jogada no chão, ofegante e suando frio. Após ela lhe ceder um endereço o conjurador se aproximou dela e tocou em sua testa, com uma magia mental ele fez com que a moça desmaiasse. Quando acordasse ela iria esquecer o encontro.

XXX

Após o abraço caloroso, o pai do pequeno Marcos chegou a conclusão de que a criança precisava de uma companhia da mesma idade. Um amiguinho que o mantivesse ocupado e longe de ideias perniciosas. A família da propriedade vizinha foi convidada a passar uma tarde com os Mignola, pois eles tinham um menino da idade de Marcos, Heitor Sacramento. O entrosamento dos dois não custou a se consolidar e durou até mesmo quando cresceram e tomaram rumos diferentes na vida. Enquanto Marcos se tornara um conjurador, Heitor escolheu a vida sacerdotal. Mas ele não era um pastor convencional, nem mesmo em seu mundo. Ele era um policial inquisidor.

Mesmo não vendo problema em conversar com Marcos, Heitor só aceitou encontrá-lo em um beco escuro longe de qualquer olhar indiscreto ou câmera de vigilância. No estágio em que sua carreira profissional se encontrava confabular com um conjurador poderia prejudicá-lo.

Heitor estava vestido como inquisidor, seu uniforme militar totalmente branco que carregava um símbolo no peito: uma cruz em cima de uma cruz invertida um pouco menor. A imagem representava o bem sobre o mau e era o simbolo da igreja Verdade Onipresente. Tal religião era venerada por oitenta e seis por cento dos sem-magia e eleita a oficial de Edwina.

Marcos abraçou Heitor assim que o viu. Ele era seu amigo, nada mais importava. Nem mesmo o fato de que ele fazia parte de uma organização criada para caçar, prender e as vezes até mesmo matar conjuradores. - Só os maus. - Dizia Marcos a si mesmo para se convencer. Porém, lá no fundo ele sabia que na prática não era bem assim.

- Então, amigo, quais as boas novas? - Perguntou Heitor.

- Nenhuma, infelizmente. Tem um conjurador novo na cidade, ele amaldiçoou um casal que ainda está sob seu feitiço. O suspeito tem tatuagem pelo corpo inteiro inclusive no rosto, ele é muito perigoso. Seu nome é Eriberto. Eu já sei onde achá-lo. Só preciso de seu suporte militar, já que não tenho poder suficiente para enfrentar a ele e aos seus asseclas.

Imediatamente Heitor mandou uma mensagem do seu celular para a central. O nome do suspeito, seu crime e onde encontrá-lo.

- Você sabe como isso pode terminar, né? Talvez o seu suspeito tenha que ser contido a bala e seja cremado. Está preparado para essa responsabilidade? - Os inquisidores em suas armas usam balas incendiárias. Devido a um contexto cultural o fogo há séculos era usado para deter conjuradores. Desde a época em que os eles eram queimados em fogueiras.

- Bom, eu temo que esse seja o único jeito de parar um conjurador desse porte. No pouco contato que tivemos ele não me pareceu do tipo que se renderia fácil.

Assim que saiu da casa de Sofia, Marcos conjurou vários feitiços de proteção e ocultamento. Medidas profiláticas que achou necessárias já que deduziu que o encontro com Eriberto na saída da estação de metrô não havia sido mera coincidência. Será que o conjurador responsável pela maldição do casal sabia de seu envolvimento no caso desde o início? Parecia que sim.

Parecia também que toda a magia empregada por Marcos para se manter incógnito havia sido gasta em vão. O agressor anônimo se ocultou nos tetos dos edifícios do beco. Mesmo com a péssima iluminação ele conseguiu avistar e atingir o seu alvo. Uma bola de energia explosiva fora lançada. Escombros, dor, sangue e morte. Quando a poeira abaixou e Marcos conseguiu se levantar ele percebeu que os olhos do seu amigo caído se encontravam abertos e imóveis.

Mesmo sabendo que era inútil Marcos tentou ressuscitar Heitor com massagens cardíacas reforçadas com magia. Não havia mágica que ressuscitasse os mortos. A morte é definitiva até para os conjuradores.

XXX

Se não fosse pelas janelas e seus vitrais aquele lugar pouco lembraria uma igreja da Verdade Onipresente. Devido a aparição de alguns fantasmas o local foi abandonado pelos seus antigos donos, já que eles acreditavam se tratar de almas penadas e que o lugar era assombrado, logo inapto para o sagrado.

Por ser uma igreja abandonada ela era muito usada por drogados e indigentes, com exceção de certos dias onde conjuradores se reuniam para ter suas reuniões secretas. Nesses dias nenhum mendigo se atrevia a se entrometer já que todos eles temiam um feitiço ou uma maldição.

No púlpito não se encontrava um pastor, mas sim um homem coberto por tatuagens. Um homem que Marcos Mignola teve o desprazer de conhecer e se tornou o alvo do seu ódio.

A missão seria difícil, haviam ali a maior reunião de conjuradores que Marcos já tinha visto na vida. Cento e poucos? Duzentos? Talvez um pouco mais. Aproveitando que seu inimigo acreditava que estava morto, Marcos se intrometeu na multidão. Ele levava embaixo do seu paletó escondido um revolver com balas incendiárias do amigo falecido que esperava usar para vingá-lo.

Aos poucos Marcos ia se aproximando da frente, driblando os conjuradores que ouviam o discurso de ódio aos sem-magia de Eriberto. Marcos pouco se importava com o que ele dizia, só queria terminar o que veio fazer ali. Assim que ficou a uma distância que sabia ser impossível errar o tiro Marcos revelou a arma mirando-a em Eriberto.

Marcos tentou puxar o gatilho, mas ele sentiu uma força invisível impedindo o seu dedo de fazer o movimento. Ele sabia com certeza que algum conjurador presente estava tentando proteger seu alvo. Marcos desistiu da arma e concentrou com a outra mão uma magia para evocar uma bola de energia mística. Ele a arremessou em Eriberto e por um instante se achou vitorioso devido a pequena explosão que fez subir poeira, tijolos e madeira carcomida.

Quando tudo ficou claro veio a frustração. Eriberto estava intacto. Será que com tanta tatuagem mística no corpo ele conseguiu atingir a imortalidade? Marcos tratou logo de abandonar aquela ideia afinal "tudo o que é vivo pode morrer", já dizia seu pai.

- Traidor. - Disse Eriberto, com tanto ódio que chegou a tremer os lábios.

- Você é que é o traidor aqui. - Contra-argumentou Marcos. - Você usou magia negra em pessoas que nunca fizeram mau a nossa comunidade nos expondo ao escrutínio.

- Pacifista sonhador! Temos que tomar o poder à força!

- Acho que tanta magia no corpo prejudicou seu discernimento. Mesmo tendo poderes ainda somos quatro milhões e eles sete bilhões. Faça as contas.

Diante dos simples argumentos de Marcos a plateia ficou dividida. Mesmo assim só isso não garantiria sua segurança ali, afinal ele tentou matar o líder dos presentes. Por isso Marcos antes de entrar na igreja calculou o momento em que o seu apoio militar entraria em cena.

- E você mandou alguém matar a mim e a meu amigo. O que me obrigou a usar de medidas desesperadas.

Os vitrais das janelas estouraram dando passagem à policiais inquisidores. Eles já chegaram atirando com suas balas incandescentes pondo fim a conjuradores que morreram com fogo e gritos. Porém os invasores não saíram incólumes da operação. Alguns perderam a vida com feitiços elétricos, incendiários ou pelas mais variadas maldições. Entre as maldições havia uma que fechava todas as aberturas naturais do corpo como boca e nariz levando a asfixia. Outra fazia o amaldiçoado se autoflagelar até morrer.

Sem usar itens ou animais mágicos, o que era impressionante até mesmo para um conjurador, Eriberto começou a voar rumo ao teto e quando chegou alto o bastante destruiu a cobertura da igreja. Conjuradores e inquisidores pararam sua batalha para assistir aquele feito que deveria demandar uma quantidade de magia impressionante. Como se não bastasse Eriberto apontou para alguém na multidão e essa pessoa foi atraída à ele como o metal é pelo imã.

Marcos se debatia no ar com o seu algoz diante de seus olhos. Ele sentia seu sangue ferver de maneira não natural. Eriberto provavelmente já estava preparando o seu fim e não deveria ser nada bom.

- Quanto desperdício. - Disse Eriberto. - A maioria dos conjuradores que me acompanham não valem um grão de magia. Não possuem culhões nem para pintar um braço por inteiro. Se não fosse por seu apresso pelos sem-magia você poderia ter sido o meu melhor discípulo. Mas agora você será nada.

- Não preciso de mestres, sempre fui autodidata. E o bom de ser autodidata é que se aprende um truque ou dois que não estão no manual.

Eriberto esperava que Marcos tentasse algum feitiço desesperado em uma tentativa pífia de se salvar, ao invés disso ele se concentrou em algo que parecia ajudar o seu oponente. As tatuagens do braço direito de Marcos começaram a ficar mais fracas, como se a tinta desbotasse. Enquanto isso as tatuagens no rosto de Eriberto ficavam cada vez mais coloridas.

- O que você está fazendo? Me cedendo magia? Hahahaha! Se espera que vou poupá-lo por esse agrado está muito enganado.

- Como pensei, um conjurador louco por magia ao ponto de tatuar o próprio rosto não se daria ao trabalho de fechar o corpo contra a entrada de magia alheia não autorizada.

- E pra quê eu faria isso? Quanto mais magia melhor.

- Bonitão, o corpo humano não aguenta magia infinita. Sinto muito. - Quando as tatuagens no braço direito de Marcos desapareceram a cabeça de Eriberto sofreu uma explosão mais colorida do que a de fogos de artificio. As cores eram todas da magia, algumas nem pertenciam ao nosso espectro visual.

Marcos despencou da altura de trinta metros. Ele tentou conjurar um feitiço que amenizasse sua queda, mas não foi tão eficaz quanto deveria. Demorou alguns segundos para Marcos entender que o preço de ter vencido a batalha foi a perda de metade do seu poder mágico.

Com o espetáculo os conjuradores fugiram e os inquisidores se recolheram. Aquele dia não seria o início de uma nova guerra santa.

XXX

A maldição acabou, os "amantes siameses" foram desgrudados. Ao que parecia definitivamente já que um não queria ver mais a cara do outro. Marcos recebeu seu pagamento pelo serviço. Algo que pagaria o aluguel desse mês e algumas dividas, mas que não pagaria pela sua magia perdida.

Sentado no sofá de seu apartamento Marcos olhava seu braço esquerdo pintado e seu direito em branco. Se sentia "meio-conjurador" com a situação. Ele zapeava a televisão sem muito interesse pelo que passava. Programas religiosos que pregavam contra a feitiçaria, filmes de ação com péssimo roteiro, programas de auditório sem graça...

- Oi, amigo. - Marcos olhou para o seu lado e viu a aparição do fantasma de Heitor. Seus olhos marejaram e ele sentiu uma forte alegria.

- Oi, cara. Bom te ver.

- Oi, amigo.

A felicidade de Marcos feneceu quando ele se deu conta de que aquele não era seu amigo. Heitor havia morrido, tal evento era só uma "memória da pedra" sem consciência. Provavelmente estava reproduzindo alguma ocasião em que o inquisidor esteve por ali.

- Sinto muito. Eu não deveria ter te metido nos meus problemas.

- Oi, amigo.

Marcos começou a chorar e a desejar não ter o conhecimento que possuía e permanecer com as crenças da sua família. Nesses momentos ele se questionava se a ignorância não era o melhor acalento.