Conjuradores

Capítulo 2 – Fogo Purificador

A bola elétrica invocada por energia mística atingiu o seu alvo, uma criança fantasma, espalhando seus elétrons e por consequência fazendo com que desaparecesse. - Mas ele era tão fofinho! - Reclamou uma adolescente de quinze anos que acompanhava o conjurador.

- Aquilo não era uma criança de verdade, você sabe. Era só uma representação. Como uma gravação feita em um...

- Eu sei o que é uma memória na pedra. Não precisa ser tão chato.

A profissão regulamentada de Marcos Mignola era o de investigador particular, mas isso não significava que ele não aceitasse alguns bicos para complementar sua renda quando os atendimentos estavam em baixa. O herdeiro de uma mansão vitoriana queria transformar o imóvel em um hotel, no entanto ele estava repleto de fantasmas. Marcos fora contratado para por fim neles ou ao menos na maioria.

- Um ou outro fantasma circulando os corredores podem dar um ar de mistério ao local. Tem muita gente que ainda acredita que eles são espíritos dos mortos. - lhe disse o contratante.

Marcos e sua parceira estavam passando por corredores compridos e mau iluminados, a cada fantasma avistado o conjurador o despachava com o seu encantamento elétrico. A garota estava maravilhada, pois aquele mundo para ela ainda era uma novidade, já Marcos se sentia entediado. Passar uma noite de sábado despachando uma casa não era o programa de fim de semana que esperava.

Fantasmas não eram entidades perigosas, a não ser que a pessoa fosse impressionável e tivesse problema cardíaco. Marcos acreditava que o trabalho seria rápido e seguro, por isso convidou o que considerava ser sua pupila. Joana Ferreira era uma moça de família rica que se encantou com o oculto desde muito cedo. O interesse e a disposição que Joana tinha pelo mundo da magia lembrava Marcos dele próprio em sua idade. A diferença era que Joana tinha muito mais dinheiro. Através dela Marcos conseguiu vários livros obscuros difíceis de achar. Alguns até proibidos sobre magia negra.

- E então? - Perguntou Marcos entre um e outro fantasma vaporizado. - Quando vai fazer sua primeira tatuagem?

Joana deu um sorriso sem graça, aquele assunto ainda era delicado para ela. - Logo. - Marcos sabia que sua pupila adiava a ocasião ao máximo que podia. Já que era imprevisível o modo de como sua família tradicional reagiria ao fato de ter uma conjuradora entre eles.

O celular do conjurador tocou durante a eletrocussão de um fantasma, algo que poderia ser perigoso já que aquele feitiço tinha o péssimo hábito de danificar aparelhos eletrônicos. Por sorte nada aconteceu.

- Alô. - A pele de Marcos Mignola já era pálida, mas ao ouvir o que lhe contaram se tornou cor de cera. Sua pupila, preocupada, o puxou pela gola da camisa e lhe perguntou "o que aconteceu". Marcos desligou o celular e com o mesmo rosto inexpressivo de quando atendeu a ligação respondeu. Era como se estivesse em choque.

- Eric.

- O que tem Eric?

- Meu mestre esta morto. Queimado vivo.

XXX

Chegava a ser irônico, achava Joana. O ponto de encontro dos conjuradores da cidade ficava em uma catedral abandonada. O local deixou de celebrar missas por causa da aparição de alguns fantasmas. Como os clérigos acreditavam que eles eram espíritos dos mortos acharam por bem rezar em outro canto.

A catedral acabou ficando desleixada, aberta à mendigos e drogados. Quando os conjuradores queriam se reunir todos eles sumiam. Ninguém queria arriscar ser alvo de um feitiço ou, pior, uma maldição.

Os vitrais da igreja, como era de se esperar, continham temas religiosos, mas fora isso não havia nada ali que pudesse enquadrar o lugar como uma "casa de Deus". Ao menos não ao Deus cristão. Os conjuradores de modo geral se diziam seguir a razão, eram ateologos. Mas havia aqueles que celebravam algum panteão, até mesmo alguns poucos que tentavam encaixar a ótica cristã com a pratica da magia.

A catedral estava lotada e Joana se sentia oprimida por provavelmente ser a única não-conjuradora no local. Para diminuir um pouco o sentimento de insegurança de sua pupila, Marcos jogou nela um encantamento de glamour que fez aparecer algumas tatuagens em seu corpo. Ao menos a maioria ali presente seria enganada por esse feitiço, pensava Marcos.

Joana e Marcos sentaram na terceira fileira próximo ao canto esquerdo. Tiveram sorte, pois de tão lotada tinha gente em pé na catedral e alguns até nas paredes. Esses últimos sabiam usar o feitiço de lagartixa.

- Não sabemos nem quem foi o agressor. - Dizia o orador no púlpito, um homem magro ao ponto das bochechas serem ossudas. Suas tatuagens provavelmente escondidas na roupa. - Podia ter sido muito bem outro conjurador de nossa comunidade.

- Nenhum conjurador mataria outro dessa maneira, queimado. - Disse uma mulher da quarta fileira que tinha os cabelos rosa e uma ave tatuada no olho esquerdo. - Isso foi trabalho de um inquisidor.

- Isso é absurdo! Os inquisidores só lidam com conjuradores que abusam da magia, criminosos. Eric tinha reputação ilibada. - Respondeu o orador.

- A moça tem razão. - Abrindo caminho entre os conjuradores que amontoavam o lugar, um homem vestido como se tivesse ainda no século XIX. Metade do seu rosto tatuado. Marcos o conhecia, pois já tinha assistido seu programa de televisão várias vezes.

- Johanes?! - Exclamou Marcos.

- Quem é esse? - Perguntou Joana.

- Simplesmente um dos dez conjuradores mais influentes do mundo.

Johanes andava com a palma da mão para cima enquanto fazia dançar nela o que parecia ser quatro pedaços de metal. - Balas incendiarias, usadas pelos inquisidores. Foi isso que matou nosso amado Eric.

Marcos bateu a mão na cabeça se repreendendo pelo que achava ser uma burrice sua. Com duzentos anos seria lógico supor que Eric teria contatos e amizades importantes. Isso fazia sentido, por isso que o coroa gostava tanto das entrevistas do vitoriano.

- Isso não é bom, né? - Perguntou Joana que, mesmo não sendo sensitiva, percebeu a ira crescente na multidão.

- Se não fizermos nada é provável que presenciemos o início de uma guerra. - Respondeu Marcos.

XXX

- Nenhum dos meus homens seria capaz de agir de tal maneira. - Heitor Sacramento se mostrou indignado e Marcos sabia que a demonstração daquele sentimento não era fingida. Apesar de não gostar do inquisidor capitão, Marcos sabia que ele ao seu modo era um homem honrado.

Um conjurador não poderia conversar com um inquisidor se não fosse na surdina. Do contrário era capaz de serem taxados de traidores por seus grupos. Até mesmo ajeitar um encontro era difícil, já que praticamente toda ruela era monitorada por câmeras de vigilância. Sendo assim, a melhor opção era onírica.

Em um ambiente sem chão, as mentes de Heitor, Marcos e Joana conversavam no plano astral. No plano físico seus corpos dormiam em suas respectivas camas.

- Não sei como Johanes teve acesso ao corpo, já que duvido muito que a polícia local iria deixar um civil tocar em um cadáver que fazia parte de uma cena de crime. Mesmo uma celebridade. O fato é: ele encontrou balas incendiarias no defunto.

- Isso é o que ele diz. Esse tal de Johanes poderia muito bem ter arranjado essas balas e forjado uma prova contra minha instituição.

Marcos entortou o rosto por achar o argumento fraco. - Eu sei que dá para arranjar essas balas no mercado negro, mas a troco de quê ele se daria ao trabalho de fazer esse papel? O que ele ganharia com uma guerra?

O inquisidor e o conjurador ficaram em silêncio procurando uma resposta para aquela pergunta quando ela veio de onde menos esperavam. - Se mostrando como o líder de uma revolução, se tiver muito apoio popular, as ações de suas empresas tendem a subir. - Disse Joana.

- Isso não faz sentido. - Disse Marcos. - Conjuradores são minoria ninguém nos apoiaria.

- Cinco por cento da população não é um número tão desprezível quanto parece. - Disse Joana. - Isso sem contar com os simpatizantes que passam de dez.

- Então como vamos deter esse bruxo? - Perguntou Heitor.

Marcos antes só se preocupava com o poder mágico de Johanes, mas agora se deu conta que o poder do seu carisma poderia ser bem maior. Se quisessem derrotá-lo teriam primeiro que desacreditá-lo. - Temos que descobrir como Eric morreu primeiro.

XXX

Mesmo com o seu feitiço de glamour, que fazia ele e sua aprendiz parecerem policiais, Marcos Mignola não conseguiria ter acesso ao necrotério do distrito se não fosse Heitor a emprestar seu crachá de acesso. Tal empréstimo se deu na madrugada e no beco mais escuro.

Marcos abriu a bandeja mortuária revelando o corpo de alguém que já lhe foi muito próximo, agora irreconhecível por causa da queimadura de quarto grau em seu corpo inteiro.

- Mais um pouco e ele viraria cinzas. - Disse Joana se arrependendo logo depois, ao lembrar que aquele ali era o mestre do seu mestre.

Se estava abalado Marcos não demonstrou. Colocando luvas de plástico nas mãos, como se fosse um legista, ele começou a sondar o cadáver. Não demorou a encontrar as perfurações das balas. Quatro tiros. Marcas só de entrada, não de saída. Como balas incandescentes costumam fazer.

- Temos outro lugar para visitar. - Disse Marcos. Abusando do poder que o crachá de Heitor lhe conferia, o conjurador e sua aprendiz foram até a sala de vídeo vigilância da cidade, que ficava no mesmo prédio. Ao chegarem lá encontraram um policial de plantão, mas foi fácil despistá-lo. Já que o oficial estava de má vontade com o próprio trabalho.

- Você sabe que horas Eric foi morto? Encontrar o momento certo do crime pode durar um tempão. - Falou Joana.

Marcos estava sentado em frente ao computador de dois monitores. Dezessete câmeras eram disponibilizadas e mostravam horários e lugares diferentes. Joana se perguntava como Marcos conseguia se concentrar em tantas imagens até que o mago viu algo que chamou sua atenção.

A câmera que focou Eric sendo fuzilado foi ampliada e tomou as duas telas. O atirador não usava um uniforme de inquisidor, mas sim um capuz para esconder a identidade. Algo que não inocentava a organização a primeira vista. Até que Marcos olhou o agressor mais atentamente.

Marcos se afastou do computador ao ver tal cena. Um ódio elétrico percorreu o seu sangue e foi expelido em seus dedos. - AAAAHHH! - O ódio fez com que seu feitiço elétrico ganhasse o poder de uma bomba eletromagnética que queimou todo aparelho eletrônico naquela sala e nas duas seguintes. Joana se protegeu em baixo de uma mesa e abraçou os joelhos esperando a tempestade criada por seu mestre passar.

Quando o perigo pareceu ter passado Joana foi até Marcos e perguntou: - Você viu alguma coisa?

- O assassino foi um conjurador. Eu vi sua tatuagem e a reconheci.

XXX

No fundo da catedral, no local onde já serviu de abrigo a um padre, um conjurador acostumado a falar para multidões fez residência. Acreditando estar sozinho, o conjurador orador abriu uma gaveta que revelava um revólver e um estojo com espaço para dez balas, sendo que quatro espaços já estavam vazios.

- Como se sente matando sua própria gente? - Com um feitiço que o mesclou as sombras Marcos conseguiu entrar com sua aprendiz no covil inimigo sem ser percebido.

- Marcos?! Você é o aprendiz de Eric?!

- Você vai pagar! Mas antes eu quero saber porquê. - A principio o orador não se sentiu intimidado, até que viu faíscas elétricas saírem dos dedos de Marcos. - Não preciso de balas incendiarias para fazer alguém queimar.

- Eric não era o santo que você pensa! - Disse o orador em um tom que beirava o desespero. - Ele fez muita merda que prejudicou nossa comunidade! Precisava ser parado!

- Isso é mentira.

Preferindo a magia ao invés da argumentação, o orador lançou um feitiço que atingiu a cabeça de Marcos. A magia não lhe causou nenhum mal, serviu apenas para transferir memórias para sua mente. Essas memórias mostravam Eric fazendo brincadeiras perversas com mulheres. Lançando feitiços que as forçavam a se despirem ou a cometerem coisas ainda mais humilhantes em publico.

- Meu mestre não era assim.

- Então você não o conhecia direito. Ele era um tarado! Minha filha não era uma conjuradora, não tinha como se defender. Depois do que ele fez a ela, ela se matou.

Pela natureza daquele feitiço Marcos sabia que o homem falava a verdade e isso lhe doía. Sabendo das razões do assassino, Marcos abriu a guarda e sentou pensativo em um banco crente de que não seria atacado. O que acabou se confirmando. Joana percebendo a inquietação mental do seu mestre alisou seu coro cabeludo para relaxá-lo.

- Seu motivo pode ter sido razoável. - Disse Marcos por fim. - Mas mesmo sem querer você quase provocou uma guerra.

- Há um modo de consertar isso?

- Confesse!

XXX

O castigo escolhido pela comunidade dos conjuradores foi o mais trágico possível. Em um local bem afastado da cidade o orador fora levado e amarrado a um tronco cortado de árvore. Como os conjuradores vitimas da perseguição religiosa de séculos atrás ele seria queimado vivo para servir de exemplo a qualquer outro conjurador que cogitasse a ideia de matar um dos seus.

- Você deveria ter trazido o caso a mim. - Disse Johanes. - Eu puniria Eric de uma maneira que ele nunca esqueceria.

O orador amarrado deu uma risada abafada, dificultada por uma corda que quase pegava seu pescoço. - Ele era um dos seus melhores amigos, você ia acabar dando um jeito de encobertar tudo.

Tal pratica bárbara era ilegal, nenhum grupo poderia se pôr acima da lei para decidir punições de crime capital. Porém os inquisidores e a polícia em geral faziam vista grossa em relação as decisões internas do conselho de conjuradores com medo de algum tipo de guerra mágica. Ou seja: desde que eles não mexessem com outros membros da sociedade, tudo bem.

Joana olhava ao seu redor com nojo. Para ela era impressionante como as pessoas gostavam de assistir a uma tragédia. A plateia que esperava ver a queima na fogueira era ainda maior do que a da reunião na catedral.

Joana não conseguiu ver o corpo do homem ser queimado por causa da multidão na sua frente, mas sentiu o cheiro de carne humana queimada e ouviu os gritos. Os berros do homem em chamas eclipsaram os gritos de Joana que só foram percebidos por seu mestre. Ele a abraçou e tapou seus ouvidos com as mãos. Marcos podia usar um feitiço para acalmá-la, mas ele não queria transformá-la em um robô poupando-a da dor.

Aquele dia a mudaria.

Joana costumava visitar Marcos dois ou três dias por semana, mas depois de assistir a uma pessoa ser queimada viva ela sumiu. Usando um feitiço de glamour, Marcos se passou por um adolescente de quinze anos e foi visitar sua pupila em sua casa. Aquele truque ele sempre usava quando ia para a casa de Joana.

Marcos achava graça do modo como a mãe de Joana o tratava tão bem ao ponto de só faltar querer pô-lo no colo. - Ai se ela soubesse que sou um conjurador.

- Querida, tudo bem? - Como de esperado Marcos encontrou sua aprendiz em seu quarto. Ela estava deitada na cama ouvindo Ipod. Quando percebeu a presença do seu mestre Joana tirou o aparelho do ouvido e se sentou. Marcos sentou ao seu lado.

- Sempre achei o universo da magia muito fascinante por isso ele me atraiu. - Disse Joana. - Mas nessa última semana eu descobri que ele é mais perigoso do que fascinante.

- Isso é um exagero. Você pode morrer atropelado atravessando a rua.

- E incinerado? E com algum feitiço ou magia negra?

Marcos deu um sorriso sem graça e não conseguiu dizer mais nada. Ele sabia que sua aprendiz tinha razão por isso não a desmentiu. Mentalmente Marcos tentou contar quantas vezes em sua profissão quase morreu por causa de algo mágico e perdeu a conta.

- Amor, leve o tempo que for, quando se sentir preparada me procure.

- Mas é isso! Acho que nunca vou ficar "preparada". Talvez não seja meu destino ser conjuradora.

- Bobagem. Quando o dia chegar a magia irá te chamar.

XXX

- José (é esse seu nome?), não é melhor começar com menos e ir adicionando aos poucos. Até mesmo para você ir se acostumando com os poderes. - A tatuadora havia fechado sua tatoo shop, pois apareceu um cliente com um pedido especial. Um desenho que iria cobrir o corpo inteiro, com exceção do pescoço para cima.

- Obrigado pela preocupação. - Disse o rapaz, que já se encontrava sem roupa pronto para ser tatuado. - Eu fiz uma ampla pesquisa e demorei dois anos me decidindo, estou completamente certo que é esse desenho que quero.

- Então tá.

O garoto de quinze anos era magro, mas o seu corpo era torneado a ponto de sua barriga apresentar gomos. Era careca e não possuía sobrancelhas nem qualquer pelo no corpo. Primeiro ele se deitou de barriga para cima para ser desenhado a primeira parte. A operação levou quase o dia inteiro, doze horas de trabalho direto.

- Não é melhor continuarmos outro dia? - Pediu a tatuadora, quase suplicando devido ao cansaço.

- Não. Estou incompleto, termine o que começou. - Domando com maestria poderes que acabara de receber, o garoto careca dominou a mente da tatuadora e a forçou a trabalhar. Agora deitado de costas, o menino relaxou enquanto o resto do desenho era completado. Toda a tatuagem representava a imagem de um monstro, um demônio. Era quase como se o corpo de José fosse substituído, com exceção da cabeça.

Quando o efeito do encanto que a aprisionava passou e a tatuadora viu de forma consciente o que fez ela se deu conta de seu erro. - Esse desenho é a marca de Caim! Magia negra!

- Lindo, não é? Cento e setenta e duas habilidades em um desenho só. O máximo de poder mágico que um corpo humano pode comportar.

- Tanta magia vai te deixar louco, guri.

José deu uma risada escandalosa fazendo que a tatuadora julgasse que a sanidade do seu cliente já havia sido prejudicada. - Louco ou não, eu sou um deus! - José olhou para a tatuadora e se sentiu atraído por ela. Um pensamento então passou por sua mente. - Pega mau alguém tão poderoso como eu ser virgem. - O adolescente estalou os dedos e em resposta as roupas da tatuadora se rasgaram do nada deixando-a nua. Assustada, a moça cobriu sua vagina com as mãos.

José dominou a mente da tatuadora uma segunda vez e sem pedir permissão fez o que desejava com seu corpo.

XXX

Após se lamentar pela perda do seu mestre e de sua aprendiz no mesmo caso, Marcos foi até um beco escuro negociar com um inquisidor. Heitor recebeu de volta o seu crachá enquanto ele dava ao mago uma pasta contendo os casos dos últimos dez anos de estupro na cidade envolvendo conjuradores.

- Deve ser essa facilidade que vocês têm de brincar com nossas mentes. - Disse Heitor. - Não os culpo, acho que qualquer homem com um poder desse ficaria tentado a, por exemplo, forçar uma transa com a vizinha gostosa.

- Credo, Heitor. Não imaginaria ouvir algo assim de alguém que se diz cristão. Poderes mágicos denotam disciplina. Se aproveitar dos outros dessa maneira é inadmissível. - Heitor folheou a pasta e encontrou vários nomes de conjuradores que conhecia. Pelo fichário ficaram detidos apenas poucos meses, no máximo alguns anos.

- Vou levar essa lista a comunidade. A gente vai ficar mais esperto com esses tarados e impedir que eles reincidam.

- Ótimo. Isso facilitará para caralho meu trabalho.

Os dois ex-amigos se separaram, cada um indo para sua respectiva casa. Enquanto lia os relatórios Marcos ia ficando desesperançoso. Alguns conjuradores ali citados eram nomes famosos, a comunidade nunca ficaria contra eles em detrimento de mortais, mesmo vitimas de estupro.

Naquele fim de noite Marcos pegou um vinho barato de sua adega e bebeu até se esquecer o quão ruim o seu mundo a medida que ia o conhecendo havia se tornado.