Capítulo 1 – Intruso.

O HÓSPEDE

Sempre me considerei uma garota comum, com uma vida comum, que mora numa cidade comum e numa casa comum. Nada nessa minha rotina pacata e sem graça acontecia de diferente e eu até achava bom, pois a situação sempre se mantinha no meu controle. Eu moro com meu pai, Harrison Grey numa casa de sete cômodos que ficava localizado acima do restaurante mexicano que papai havia herdado do vovô.

O nosso relacionamento era ótimo, papai sempre fazia o possível para me ver bem. E isso foi atribuído depois que minha mãe nos abandonou quando eu tinha seis anos. Não sei quais foram seus motivos que a levou a abandonar meu pai e principalmente eu. A magoa ainda reside em meu peito, contribuindo com aquela sensação irritante de rejeição. E isso só me mostrou que nunca se deve confiar cegamente nas pessoas, principalmente as desconhecidas, pois elas sempre acabam nos decepcionando no final.

Mas mesmo com essa minha dificuldade de confiar no desconhecido, havia uma pessoa que era exceção. Vee Sky, a minha melhor amiga. Éramos como se fossemos almas gêmeas, nossa amizade ia além de uma amizade comum. E mesmo com seus defeitos de ser chata, tagarela, preguiçosa, intrometida de totalmente sem noção, o nível de compatibilidade que nós temos era alta o suficiente para conseguir aturar todos os seus defeitos.

Minha amiga Vee era loira voluptuosa que ostenta em 1.82 de altura e olhos verdes. Apesar dela sempre brigar com a balança, Vee não era gorda, apenas curvilínea com aquele estilo boazuda, que devo admitir, causa uma certa inveja em mim. Eu não tinha um corpo curvilíneo que nem Vee, eu era bem mais magra e mais baixa, mesmo com minha altura acima da média, 1.70. Meus cabelos eram acobreados, cacheados e volumosos - o meu pior inimigo todas as manhãs -, e meus olhos cinzas que contrasta com a minha pele pálida. A única coisa boa que eu podia me gabar eram as minhas pernas longas e definidas.

Eu havia completado 17 anos bem recentemente, uns três dias atrás. E como presente de aniversário adiantado, papai me presenteou com uma viagem de férias de verão para Roma. Foram os quinze dias melhores de minha vida, só eu e Vee sozinhas com uma Roma toda para nós podermos explorar, e posso dizer que fizemos isso muito bem feito. Claro que houve os, porém antes da viagem. Vee fez de tudo para que pudesse ir também, usou todo o seu dinheiro economizado - por um milagre - e umas estorquizaçãozinha dos pais, bônus por ela ter passado de ano sem nenhuma dependência nas costas. E mesmo sentindo aquela dorzinha no coração por não ter escolhido a outra opção que papai havia me proporcionado - o tão sonhado carro - gostei da viagem. A minha primeira viagem sem a companhia de um adulto. Mas como tudo que é bom não dura para sempre, o dia de voltar para casa havia chegado.

- Estou com uma vontade enorme de comer um donut. - disse Vee assim que pegamos as nossas malas e íamos para o portão de desembarque. - Um donut bem açucarado. Meu corpo precisa de um pouco de açúcar no sangue.

- Você se empanturrou de doces no avião. - minha atenção estava em meu celular. Eu tentava encontrar algum sinal para que pudesse ligar para meu pai, enquanto puxava a mala com a outra mão.

- Ah, mas isso não conta. Nada se compara com um donut delicioso.

Ergui meus olhos e a fitei, ela andava ao meu lado.

- E a sua dieta de shake?

- E isso importa? - bufou, voltando a olhar para frente. - Você sabe mesmo como acabar com o meu animo.

Apenas revirei os olhos e atravessamos o portão de desembarque, e não demorou para que víssemos o sr. e a sra. Sky ali nos esperando.

- Pai! Mãe! - Vee saiu em disparada e agarrou seus pais de uma vez, naquele abraço coletivo. - Que saudades.

- Também sentimos saudades suas, minha filha. - A sra. Sky afastou-se um pouco da filha para poder vê-la melhor.

- Bem que a senhorita poderia ter ligado mais vezes para nos dar notícias. - Brigou o sr. Sky, a voz soando chateada, totalmente fingida. Em seguida seus olhos pousaram em mim enquanto veio me abraçar. - E você, Nora? Senti saudades suas.

- Também senti saudades suas, sr. Sky. - o abracei e em seguida abracei a sra. Sky.

O Volkswagen Fox cinza dos pais de Vee fazia seu trajeto pelas rodovias principais de Seattle até Coldwater. O fato de ser sábado o transito estava bom, diferente dos engarrafamentos que acontecia no meio da semana. Eu e Vee estávamos sentadas no banco de trás, e enquanto minha amiga tagarelava para os pais os lugares de Roma em que visitamos, aproveitei aquela brecha e liguei para o meu pai.

- Nora?

- Oi, pai. Estou ligando para avisar que já desembarquei e estou no carro do sr. Sky a caminho de casa.

- Que bom, filha. Ocorreu tudo bem?

- Sim. - fitei a paisagem de prédios que passavam pelo vidro do carro.

- Me desculpe por não ter ido ao aeroporto te buscar. - soltou um suspiro cansado. - O restaurante está lotado hoje. Final de semana, você sabe como fica as coisas por aqui.

- Sei sim, pai, não se preocupe com isso. - desviei meus olhos para a mochila que estava em meu colo. - Entendo perfeitamente como é a correria daí. Daqui a pouco estou chegando.

Ouvi ele sorrir.

- Estou com muitas saudades de você.

- Eu também...

- Filha, tenho que desligar. Um cliente esbarrou acidentalmente em um dos garçons que estava com uma bandeja em mãos, e espalhou tudo belo chão. Está uma maior zona.

- Nossa, mas está tudo bem aí?

- Vai ficar. Agora vou ter que desligar. Até daqui a pouco.

- Até.

Depois que encerrei a ligação e verificar as horas, guardei o celular na mochila. Voltei minha atenção para a janela do carro, o vidro estava cheio de gotículas da chuva que começava a cair. O clima melancólico havia despertado mais saudade de casa, do meu pai, saudades da minha cama, e por incrível que pareça, eu sentia saudades de Scott.

O Fox cinza estacionou em frente ao Borderline, e em cima podia ver minha casa. A fachada verde que ficava ao meio entre a casa e o restaurante, havia o logotipo com duas pimentas uma em cada lado do nome: BORDERLINE - LANCHES, COMIDA E BAR.

- Obrigada por me trazer, sr. e sra. Sky. - eu disse enquanto abria a porta do carro.

- De nada, querida, mande um abraço para o Harrison. - disse a sra. Sky com a metade do corpo virada para trás, enquanto o sr. Sky saía do carro.

Sorri.

- Darei sim.

- Te ligo depois quando chegar em casa. - disse Vee enquanto colocava o pé para fora do carro.

Apenas assenti e saí do carro de uma vez, fechando a porta em seguida e sentindo a garoa fina que caía do céu. O senhor Sky abriu o porta malas e tirou minha mala.

- Tchau, Nora. Nos vermos em breve.

- Obrigada sr. Sky. Até.

Ele sorriu comprimido e voltou para o carro. Ainda dei o último aceno para Vee antes de agarrar minha mala e a puxar para dentro do restaurante. O local estava quentinho, e o cheiro da comida despertava minha fome. As pessoas que haviam ali estavam preocupadas o suficiente com suas companhias e pratos para perceber uma garota que passava pelo canto enquanto puxava uma mala enorme, e eu até que achei bom. Papai estava detrás do balcão do bar enquanto secava alguns copos de drinks, e não demorou para que ele notasse minha presença e um sorriso aberto se abrisse em seu rosto.

- Nora! - ele saiu detrás do balcão e veio até mim e me abraçou apertado.

- Oi pai. - ele estava um pouco suado e cheirava tempero.

- Que saudades. - ele afastou-se um pouco para poder me enxergar, os olhos brilhando contente por me ver. - Está linda como sempre.

- Obrigada. - sorri. – O senhor também não está nada mal.

Ele soltou uma risadinha, e me puxou para um canto, perto do corredor que levava as escadas que dava para a nossa casa.

- E como foi a viagem? - ele quis saber. - Se comportou bem? Não fez nenhuma besteira não, né?

- Pai, o senhor sabe que não sou de aprontar. - fiz biquinho. - Mas respondendo a sua primeira pergunta, a viagem foi maravilhosa. Roma é um lugar mais lindo do mundo. Você devia ir da próxima vez.

- Juro que pensarei no assunto.

E quando abri a boca para responde-lo, fui interrompida por um dos garçons:

- Harrison - papai desviou sua atenção para ele que parava a nossa frente. - Estamos com problemas com um cliente da mesa dez. - em seguida sua atenção voltou-se para mim, a expressão um pouco surpresa. - Nora? Já voltou de viagem?

- Olá Dante, como vai? Acabei de chegar. - sorri comprimido.

Dante começou a trabalhar para papai como ajudante de garçom quando estava no colegial, a uns três anos atrás. A um ano e meio ele havia conseguido o cargo de garçom oficial, a parte da manhã até o início tarde quando ele ia para a faculdade. Ele era legal, sabia pouco de sua vida, mas dava para perceber que ele era bem discreto e simpático. E apesar de sua simpatia de bom moço, eu sentia algo de estranho nele, algo que não me desse. Talvez seja coisa de minha cabeça, já que pelo que vi de Dante ele parecia inofensivo. Mas ainda assim, aquela cisma me deixava um pouco com o pé atrás com ele.

- Seja bem-vinda de volta. - ele sorriu, simpático como sempre.

- Obrigada.

- Filha, desculpe não poder te ajudar com a mala, mas...

O interrompi.

- Pai, relaxa. Está ok. – sorri. - Vai lá resolver seu problema, não se preocupe comigo.

- Quando as coisas ficarem um pouco mais amenas por aqui, eu subo para nós podermos conversar. Ah, e tenho que te comunicar uma coisa.

- Tá.

Puxei minha mala pelo corredor, e posso dizer que tive dificuldades de subir as escadas com ela, a mala estava bem pesada. E depois de vários lances de escadas que haviam sido cansativos e torturosos, finalmente eu pude respirar aliviada quando cheguei no anda de cima. Naquele corredor havia apenas uma porta, que era a porta da minha casa. Peguei a minha chave que estava na mochila e a coloquei na fechadura e a girei. A porta não estava trancada. Achei estranho aquela porta aberta, já que papai sempre a trancava quando estava no restaurante quando não havia ninguém em casa.

Ignorei esse pequeno detalhe e adentrei em casa, sentindo o aconchego do meu lar. Atravessei a sala, e fui em direção ao corredor que dava para três quartos e um banheiro. Abri a porta do meu quarto e entrei, percebendo que estava do mesmo jeito que eu havia deixado antes de viajar.

As paredes eram pintadas de cor-de-rosa, a minha cama de solteiro era encostada a parede com uma colcha de patchwork forrada, com três travesseiros e dois ursinhos de pelúcia para decorá-la. A janela estava fechada e com a cortina de renda branca, havia uma prateleira de madeira marfim na parede acima da cama com alguns objetos de decoração e uns livros de literatura. Ao lado da cama havia uma mesinha com abajur e uns caderninhos de anotações e bloquinho de folhas coloridas destacáveis. De frente para cama havia um guarda-roupa de quatro portas e espelho, e ao lado da porta uma escrivaninha com o meu notebook e coisas da escola.

Fechei a porta, deixei a mala ao lado, tirei a mochila e a deixei no chão e me joguei em minha cama. Que saudades que eu sentia do meu cafofo. Segunda-feira começava as aulas, e só de imaginar voltar àquela rotina acadêmica me batia uma preguiça desanimadora. Mas por outro lado, esse era o meu último ano de colegial.

Sentei-me na cama, fechei os olhos e suspirei, cansada. Eu precisava de um banho relaxante, comer a comida deliciosa de papai e finalmente dormir aquele resto do dia, pois estava exausta da viagem. E com isso em mente levantei-me da cama, tirei as sapatilhas e meu gorro da cabeça e o casaco de lã, os jogando em cima da cama. Fui até o guarda-roupa, peguei uma blusa branca de mangas compridas com detalhes de ursinhos e florzinha, um short curto cinza de algodão, minhas calcinhas e uma toalha. Enrolei a roupa na toalha e saí do quarto, marchando para o banheiro, a última porta daquele corredor. E como papai tinha seu próprio banheiro no quarto, aquele banheiro era só meu.

Levei a mão na maçaneta e abri a porta do banheiro e...

- Aaaaahh!

Meu grito ecoava por todo o banheiro enquanto meu coração batia com força, fazendo o cara virar seu corpo para trás e me fitar surpreso. Ele terminava de subir a cueca e estava com os cabelos pingando, mas não havia prestado muito a atenção. Eu estava assustada e surpresa com aquele estranho no meu banheiro.

NO MEU BANHEIRO.

Bati a porta do banheiro e saí correndo pela casa, jogando minhas roupas enroladas na toalha em cima do sofá e logo já estava descendo as escadas que liga a casa com o restaurante. Meu coração estava praticamente em minha garganta, não conseguia formular muito bem minhas ideias. A única coisa que estava em minha mente era o cara quase pelado – PELADO – no meu banheiro.

Quem poderia ser? Um assaltante? Um maníaco louco estuprador? Ele estava pelado... quase pelado... mas mesmo assim era um desconhecido quase pelado no meu banheiro.

- Nora? – virei meu rosto e vi Dante me fitando com as sobrancelhas erguidas. – Aconteceu alguma coisa?

Desci o último degrau e fiquei a sua frente.

- Cadê o meu pai?

- Ele está na cozinha... aconteceu alguma coisa...

Apenas o ignorei e corri para a cozinha, e logo encontrei meu pai mexendo algumas panelas enquanto auxiliava dois cozinheiros ao seu lado.

- Pai!

Ele olhou para mim e franziu o cenho, deu uma última orientação ao cozinheiro e veio até mim, agarrando o meu braço e me levando embora da cozinha até o corredor de ligava a nossa casa.

- O que foi Nora? Aconteceu algo para que você surgisse assim de repente na cozinha?

- Tem um cara... um cara estranho no meu banheiro. – minha voz soava esganiçada, eu estava histérica. – Acho que era um assaltante! Pai acho que é um tarado...

- Nora – ele agarrou os meus ombros, fitando os meus olhos. –, se acalme. – em seguida soltou um suspiro.

Podia sentir as minhas mãos tremerem.

- Pai...

- Eu posso explicar. – ele me interrompeu.

Explicar?

- Acho que houve um mal-entendido, Harrison. – uma voz rouca e grossa soou junto ao som de passos descendo as escadas atrás de mim.

Virei meu rosto para trás e senti meus olhos arregalando quando vi o cara que havia invadido o meu banheiro, se aproximando.

- É ele, pai! O tarado que estava no meu banheiro! - dei alguns passos para trás, ficando atrás de papai.

Papai virou-se para mim novamente, a expressão era calma. Como ele poderia ficar calmo numa situação como aquela, em que eu era vítima de um atentado quase sexual?

- Nora, fiquei calma. Não há nenhum tarado aqui. – em seguida deu pequenas risadinhas. – Patch é nosso hóspede agora.

Precisei de alguns segundos para processar aquela informação bombástica que papai estava jogando em mim.

- O quê... como assim, hóspede?

Não pude evitar fitar o intruso que havia terminado de descer as escadas e agora estava parado ao lado de papai. Seus olhos eram negros, e me fitavam no fundo dos meus olhos. Só naquele momento eu havia percebido o quanto aquele cara era lindo. E naquele momento senti meu coração falhar uma batida, pois eu havia percebido o quanto seus olhos negros pareciam sombrios.