Capítulo 18 – Fotografia.

O HÓSPEDE

Depois da aula de educação física - que eu havia matado - tive mais duas aulas antes que o sinal tocasse. Nesse tempo que estive na aula, minha mente estava em outro lugar, especificamente em como eu iria agir em minha investigação. Qualquer coisa já serviria para tentar desvendar um pouco sobre Patch e entender os motivos de tantos segredos.

Terminei de arrumar minhas coisas na mochila e saí da sala. Encontrei Vee no corredor, ela ia em direção oposta à minha, completamente estava indo para a sala do Ezine. Ela me viu e apenas piscou para mim, fazendo um gesto com as mãos, indicando que depois me ligaria. Apenas assenti com a cabeça, concordando, e voltei minha atenção para frente.

Em seguida, senti um braço pousar sobre os meus ombros, me fazendo erguer minha cabeça para cima e ver Patch ao meu lado.

- Pronta para ir para casa? - ele perguntou, naquele tom neutro, seus olhos em mim fazia com que um frio subisse em meu estômago.

- Não vejo a hora de chegar em casa. - até por que, eu estava ansiosa para colocar o meu plano em prática.

O canto de sua boca ergueu-se minimamente para cima, naquele sorriso torto de lado que eu definitivamente achava charmoso.

Meu braço rodeou sua cintura por trás e meus dedos engancharam na reata de sua calça, gesto que soava totalmente íntimo. Nós ainda éramos alvos de olhares curiosos, mas eu não me importava. Estávamos oficializados, em partes, pois meu pai não sabia ainda, e eu nem imagino como será a sua reação quando ficar sabendo que eu estava namorando o seu hóspede.

- Está afim de fazer algo legal hoje? - ele propôs, me fazendo voltar a fitá-lo, agora um pouco ansiosa no que ele estava tramando.

- Tipo o quê?

O brilho que estava em seus olhos contrastando com o sorriso sacana e totalmente malicioso que estava em sua boca, fez com que o meu sangue corresse mais rápido. Ele estava pensando coisas... impróprias.

Depois que papai resolveu dar uma chance a Scott em trabalhar no Borderline - depois de eu ter dado a minha palavra de que ele iria cumprir as responsabilidades com o restaurante - a carga horária de trabalho de Patch havia diminuído. Ele trabalhava agora três dias por semana, o que sobrava mais tempo para ele "estudar" - segundo papai sugeriu - e mais tempo para passarmos juntos.

Mordi o lábio e voltei minha atenção para frente, agora com teorias sobre sua proposta em namorar escondido, se agarrar pelos cantos e ficar em nossa bolha secreta proibida.

Até que não era tão ruim assim.

Saímos do prédio e fomos em direção a sua motocicleta no estacionamento. Me soltei dele, dando espaço para que ele ajeitasse a motocicleta, quando escutamos uma voz chamando o seu nome:

- Patch.

Nós dois olhamos para o lado ao mesmo tempo, em direção a saída do estacionamento, e vimos uma garota vindo em nossa direção. Era alta, loira, suas roupas eram legais, e ela parecia que havia saído de alguma capa daquelas revistas de grife que Vee tinha no quarto.

Quem era ela?

- O que faz aqui? - a voz de Patch soou fria, mas eu não o fitei para ver como era sua expressão, meus olhos estavam na garota loira que se aproximava mais - desfilando - enquanto sorria, mostrando dentes perfeitos.

- Estou com saudades. - ela disse, num tom manhoso que me deixou em alerta.

Num ato totalmente rápido demais para eu poder captar, ela havia chegado até ele, como uma leoa, e agarrado seu rosto com as duas mãos e o beijando na boca.

Eu fiquei estática, ali, ao lado deles, parada como uma idiota olhando os dois se beijando como se eu não fosse ninguém. Meus batimentos cardíacos haviam parado. Parecia que o tempo havia parado, e que eu estava no meu pior pesadelo.

Eu não conseguia esboçar nenhuma reação. Eu não tinha mais chão. E nem conseguia entender como minhas pernas ainda mantinham equilíbrio, já que eu não sentia nenhuma partícula do meu corpo.

As mãos de Patch foram até os ombros dela, e a empurrou para trás com força, se desvencilhando do beijo.

- Você está louca? - ele disse, num misto de raiva na voz que eu ignorei.

Não consegui mais ficar ali, saí correndo daquele estacionamento, sentindo-me anestesiada.

- Nora! - a voz de Patch me chamando ficava cada vez mais longe a medida que eu me afastava.

Eu não ousei olhar para trás, e muito menos esperar que ele me alcançasse, continuei correndo.

Burra! Era tudo que eu conseguia me definir naquele momento. Eu estava me sentindo uma idiota, uma otária por ter confiado naquele canalha. Sentia meus olhos enchendo-se de lágrimas, mas eu me recusava a derramá-las. Não valia a pena chorar por algo que não prestava. Patch não prestava e eu não iria chorar.

- Nora! - a voz dele soou novamente, ao som do motor da motocicleta.

Eu ignorei mais uma vez, assim como eu ignorava algumas pessoas na rua que me olhava correndo como se eu fosse uma louca.

O som da motocicleta ficou mais alto e ela passou por mim e subiu na calçada em seguida e freando, ficando atravessada, bloqueando a minha passagem. Conforme eu corria eu tentei frear os meus passos, voltando para trás, e isso me fez perder o equilíbrio e quase caí no chão.

Ergui meu olhar para Patch na moto, ele não estava de capacete e me olhava sério.

- Você ficou louco?! - minha voz saiu esganiçada, eu queria matá-lo, só para aliviar um pouco a raiva que eu estava sentindo dele naquele momento.

- Sobe. - ele fez um movimento com a cabeça para sua garupa.

Sorri quase que incrédula.

- Não, obrigada. - dei um passo para trás e alfinetei: - Mas pergunta para a sua amiguinha platinada, completamente ela irá aceitar.

Ele apertou os olhos.

- Aquilo não é nada do que você está pensando.

Soltei uma risada debochada, cruzando os braços e olhando para o lado, depois voltei a fitá-lo com aquela cara de sonso.

- Essa é a pior resposta que eu já ouvi, sabe por quê? Por que eu vi!

- Então viu errado. - ele saltou da moto. - Eu estou tão surpreso como você.

Mesmo que os fatos apontassem para ele sendo o culpado, Patch não perdia aquela pose calma e isso era o que mais me irritava.

- Ah, faça mil favor. - olhei para o lado, ignorando que estávamos sendo uma atração para os curiosos de plantão.

- É sério, Anjo. - ele avançou um passo. - Vamos para casa resolver isso.

Voltei minha atenção para ele, meus lábios estavam crispados.

- Não vou a lugar algum com você.

Descruzei os braços e fiz menção de deixá-lo lá e voltar meu caminho, mas ele foi mais rápido e agarrou o meu braço, me impedindo.

- Me solta! - meu tom saiu entredentes, eu estava furiosa.

- Vamos para casa agora, ou você quer chamar mais atenção do que já está chamando? - seu tom de voz saiu baixo, com um misto de autoridade.

Franzi mais o cenho e permiti-me dar uma olhada ao redor, confirmando às pessoas ali, e vários alunos da escola.

Droga, eu tinha absoluta certeza de que eu seria alvo das fofocas amanhã.

- Eu vou sozinha. - tentei me soltar dele, mas sem sucesso.

- Não faça isso se tornar mais difícil.

- Eu quero que você vai para o inferno.

Meus olhos fitavam os seus negros e intensos com um brilho diferente - apesar de sua expressão seria -, sem algum vestígio de humor, ou deboche.

Eu poderia estar sendo dura com ele ou até mesmo sendo injusta por não o deixar se explicar. Mas o fato era que, eu ainda estava sobre o efeito daquela imagem dele beijando outra garota. Ele beijou outra garota! E não era eu ali. Eu estava me sentido traída, não só por ele, mas comigo mesmo, por ter confiado nele, por ter dado uma chance...

Eu precisava ficar longe dele, para pelo menos me acalmar e colocar a cabeça no lugar, avaliar os fatos com cuidado, para depois tomar a decisão certa.

- Me solta! - minha voz saiu baixa, meus olhos não desviavam dos seus.

- Volta comigo.

- Me deixa sozinha pelo amor de Deus.

- Nora...

- Eu vou começar a gritar se você não me soltar, e garanto que não vai pegar muito bem para você. - ameacei, minha voz saindo entredentes.

Seus olhos negros avaliaram meu rosto com cautela, e dois segundos depois a sua mão afrouxou o aperto. Puxei o meu braço de uma vez e me afastei dele rapidamente, fazendo o contorno de sua moto mal estacionada, e segui em direção à minha casa com passos rápidos.

Sentia meu corpo sofrendo a pressão da adrenalina, meu coração ainda batia desenfreado, e as imagens de Patch com a garota não saía da minha mente.

Inferno!

Eu era uma burra, tola.

Demorei vinte minutos para chegar ao Borderline, olhei pelo vidro do restaurante a movimentação lá dentro e vi meu pai atender algumas mesas. Passei direto e fui em direção a garagem subterrânea, aberta.

Já em casa fui direto para o meu quarto, batendo a porta com força. Deixei a minha mochila no chão e me joguei de cara no colchão. Apertei meus olhos com força, meus lábios tremiam e logo sentia aquelas malditas lágrimas traidoras, escorrerem pelo canto dos meus olhos.

Estava perfeito demais para ser verdade. As coisas ruins sempre acontece quando menos imaginamos, e parece que não tinha como não ignorar isso.

Por mais que eu tentasse ignorar aquela cena nojenta do estacionamento, eu não conseguia. Era mais forte do que eu. E o pior, era que eu sentia que aquilo poderia ser a ponta de um iceberg do que é Patch, e seu passado obscuro.

Eu não podia mais adiar em descobrir quem ele era de verdade. O que diabos era de tão ruim para que ele camuflasse por debaixo do tapete?

Virei meu corpo para cima, e me sentei na cama. Passei as costas da mão nos olhos, enxugando as lágrimas, e meu nariz fungou.

Chorar não iria resolver nada, esperar uma explicação de Patch não iria adiantar de nada. Pois mesmo que aquilo pudesse ser um mal-entendido, eu duvidava que ele iria dizer algo a mais que pudesse o expor.

Levantei-me da cama, e tirei meus tênis dos pés e os deixei em um canto. Caminhei até o guarda-roupa e peguei uma roupa confortável, e em seguida me troquei.

Saí do quarto, encontrando a casa toda vazia. Patch não havia chegado, e eu tentava ignorar a possibilidade de ele ter ido atrás da loira.

Entrei na cozinha, encontrando dois pratos feitos e tampados com papel-laminado em cima da mesa. Papai havia preparado o meu almoço e o de Patch. Peguei o meu e me sentei na cadeira e comi, sentindo a comida descer com um gosto ruim, mas não era a comida, e sim eu mesma.

Depois de comer e de ter lavado o meu prato, voltei para o quarto decidida a colocar o meu plano em prática. Liguei meu notebook, e depois de esperar o processo de inicialização, comecei minha busca pelo Google. Fiquei mais de meia hora procurando alguma rede social de Patch, facebook, twitter, Instagram, e-mail, mas nada. Não havia nada. Era como se ele não existisse, nenhum tipo de registro de conta, absolutamente nada. Eu estava na estaca zero.

- Droga!

Suspirei, zangada, deixando o notebook de lado e me levantando da cadeira. Aquilo estava mais difícil do que eu imaginei, não era atoa que Patch pareceu tão calmo quando mencionei que iria investigar o passado dele. Ele sabia que eu não iria encontrar nada, mas eu não iria desistir. E só tinha um lugar que não procurei, e que eu pudesse arrumar pistas.

Saí do quarto e logo saí da casa, desci as escadas e em seguida cheguei no restaurante. O movimento ainda estava intenso.

- E aí, Grey.

Ergui meus olhos para Scott, que se postou ao meu lado. Estava com o avental preto com o logotipo do restaurante e segurava a bandeja vazia na mão.

- O Patch apareceu por aqui? - perguntei, tentando fingir desinteresse.

- Não. - ele uniu as sobrancelhas, e depois sorriu debochado. - Pensei que soubesse aonde seu namorado anda, ele se soltou da coleira?

Revirei os olhos.

- Idiota. - dei as costas e voltei para as escadas com passos rápidos e logo já estava em casa novamente.

Eu tinha que ser rápida, não tinha a mínima ideia de onde Patch havia se metido, mas chutava que ele devesse está no fliperama do Bo, alimentando seu vício jogando sinuca. Eu torcia para ele estar lá, ele tinha que está...

Caminhei até o corredor e parei na porta que ficava de frente para minha. Levei minha mão a maçaneta e torci internamente para que ela não estivesse trancada, enquanto eu a girava. E para a minha surpresa, a porta se abriu.

Era a primeira vez que eu entrava naquele quarto depois que Patch passou a morar aqui. E diferente de antes, que só tinha coisas do restaurante que papai guardava, agora estava parecendo um quarto de verdade.

As paredes estavam agora pintadas de um cinza esverdeado, uma cama de solteiro estava perto da janela com piscianas fechadas, uma mesinha feita de madeira reciclada ao lado. Em frente a cama tinha uma pequena cômoda de quatro gavetas, e um guarda-roupa de duas portas ao lado onde fica a porta onde eu estava.

O cheiro de Patch estava impregnado por todo o quarto, e que eu tinha que admitir, era mais organizado que o meu. Fechei meus olhos, permitindo sentir mais daquele cheiro que me deixava entorpecida, e isso só fazia me odiar mais por eu gostar tanto daquele filho da mãe.

Balancei minha cabeça para os lados, afastando aquela onda de sentimentos que me invadia. Não podia perder tempo, eu tinha que recomeçar a minha investigação. Iria fazer algo que nunca fiz antes, mexer nas coisas dos outros.

Tomei impulso e comecei a fuçar as coisas de Patch. Comecei pelo guarda-roupa, e assustei-me quando abri, eu vi suas roupas quase todas pretas e arrumadas impecavelmente nos cabides. Tive até certo receio de tocar e algo sair fora do padrão, mas tentei ignorar novamente aquilo e voltei a minha caçada.

Não havia dada de suspeito ali, assim como nas gavetas da cômoda que também eram arrumadas. Nada que pudesse o incriminar, ou que me desse alguma pista. O quarto era todo normal.

Suspirei, erguendo meu corpo para cima, olhei para os lados, daquele minúsculo quarto, do mesmo tamanho do meu.

Agachei-me no chão e dei uma olhada debaixo da cama. Não havia nada, a não ser alguns tênis e outro par de botas daqueles que ele usava frequentemente. Abaixei o lençol que eu havia levantado e foquei na mesinha reciclada. Havia algumas coisas espalhadas, como os livros da escola, alguns objetos pessoais e uma caneca vazia.

Abri a única gaveta, encontrando pequenos papéis verdes amassados, peguei um e o abri. Era um tikts pago de entrada do fliperama do Bo, e era da semana passada. Os outros papeizinhos também eram de semanas anteriores. Revirei mais um pouco a gaveta, encontrando canetas, tabletinhos de chicletes e... camisinhas.

Minha mão voltou para mim rapidamente quando toquei numa das embalagens, e mesmo sozinha naquele quarto eu me senti constrangida. Parecia que eu havia achado algo proibido.

Naquela hora percebi um pequeno caderno no fundo da gaveta. Levei minha mão e a peguei. Era uma agenda preta e fina de espiral, comecei a folheá-la rapidamente, encontrando nada de interessante a não ser anotações de bebidas e preços, aquilo parecia coisa do restaurante de papai. Mas no meio das páginas que eu passava, algo caiu da agenda no chão.

Peguei o pedaço de papel encardido retangular, havia algo escrito:

O meu amor por você vai durar para sempre.

Charlotte Campbell.

Franzi o cenho e virei aquele pedaço de papel quadrado, e meu coração falhou nas batidas e minha respiração ficou presa na garganta.

Arregalei meus olhos para àquela imagem. Era fotografia de uma garota, o rosto era fino, os olhos redondos e escuros, os cabelos eram ondulados...

- Mas que diabos... - minha voz falhou com tamanha incredulidade no que eu via.

Pela imagem preto e branco, num tom amarelado encardido, deduzi que àquela fotografia era muito antiga. Antiga demais para o tempo atual em que eu vivia. Mas o que me surpreendeu não era o fato da foto ser antiga e sim a garota.

Aquela era eu.