Suas forças esvaiam e a ajuda estava longe de chegar. Homens da alta sociedade passavam por ela em suas carruagens luxuosas e fingiam não a ver. Quando um deles queria explorar sua sexualidade a procuravam, mas ao vê-la necessitada a evitavam como se fosse uma leprosa.

Mesmo sendo um beco escuro e mal cheiroso, aquele lugar ainda lhe era mais acolhedor do que a rua principal. Ao menos estava protegida dos olhares de superioridade e repreensão.

Logo a bolsa estourou e, como a mãe estava de pé, o bebê foi apresentado ao mundo com uma queda. A criança chorou com uma pequena ferida que se abriu em sua testa, mas logo parou, pois passou a se distrair com os odores da sarjeta. Ele nunca havia sentido cheiro algum além do líquido amniótico, só queria saber o que eram aqueles novos aromas. Dejetos, gordura derretida impregnada na parede, chorume e urina.

Como qualquer bebê curioso, o recém nascido foi descobrir o mundo com seu paladar. Demonstrando uma habilidade surpreendente para alguém que mal nascera, a criança foi se arrastando até a primeira fonte de sujeira e tentou bebê-la, nutrir-se dela, mas mãos firmes o agarraram antes.

As mãos não eram de sua mãe, cujo a eclampsia levou embora. Mas sim de um homem beirando os trinta, cujas roupas simples, mas não tão deterioradas, o denunciavam como alguém de baixo nascimento. Um mercador, pescador, artesão ou, como no caso, pirata. Ele passou pelo beco por acaso, sendo atraído pelo choro do recém nascido.

Ao acaso ou por destino?

Com um puxão sem nenhum zelo o homem removeu o cordão umbilical do bebê. Este por sua vez só guinchou um pouco, sem chegar a chorar. Mesmo tão novo, com a queda, já fora apresentado à dor e a ela tinha se acostumado. - Esse é forte! - Pensou o pirata.

- Capitão William, deixa esse bastardo aí e vamos embora. A marinha já desconfia da nossa presença.

William chegou a fazer o movimento de colocar o bebê junto ao corpo da mãe onde certamente morreria após uma noite ao relento, mas algo o impediu. Não foi remorso, piedade nem nada do tipo. O capitão pensou naquela sua boa ação mais como um investimento.

- O garoto vai com a gente.

- Mas, senhor?! E quem da tripulação vai aceitar ser babá dessa coisa rosada?

- Não há problema. Eu cuido da criação do menino.

- Se os outros o virem cuidando de um bebê como uma mãe o senhor irá perder o respeito deles. Certamente irão dizer que está se tornando fraco e vão se amotinar!

- Que os sessenta e seis selos de Salomão se abram e seus demônios queimem vivos os amotinados e traidores! - William parou um pouco para recuperar o fôlego após o descontrole emocional. - Não me contrarie, Smith. E o nome dele não será "coisa rosada", nem "bastardo". Será Peter.

XXX

As estrelas acompanhavam o trafegar da embarcação. Na popa do barco, o capitão olhava a linha do horizonte em busca do seu destino. Era uma figura singular aquele capitão. Seu olho esquerdo e seu braço direito eram próteses robóticas. Graças a essas atualizações corporais ele possuía visão digital e acoplado ao braço um canhão de pulso que quando queria usar mandava um comando mental que abria seu antebraço e virava sua mão para dentro dele, trocando o membro pelo canhão.

- Capitão Barracuda! - Gritou um marinheiro, uma figura não convencional para os nossos padrões, assimétrico, se assemelhava a uma gelatina com três olhos. Seu posto era o alto do mastro principal usando uma luneta. - Planeta à vista!

Barracuda mirou seu olho vermelho cibernético para a direção indicada pelo seu subordinado e comemorou de forma tão estrondosa que despertou a todos. O mundo que buscava estava cada vez mais próximo. Aquele planetinha azul seria sua última escala para o seu destino final almejado.

Os marinheiros que dormiam em suas redes desconfortáveis foram até o encontro de seu líder no convés. Era uma tripulação diversificada, pois recebeu membros de cada canto da galáxia. Tinha um ser que era um guaxinim humanoide, um outro que tinha uma cabeça oval e também havia um terceiro que era uma forma de luz sapiente. Mesmo vindo de outras regiões do cosmo, todos eles dividiam algo em comum que parecia existir em todo o universo: eram piratas.

- Timoneiro Immundra, prepare o barco para a entrada na atmosfera do planeta. - O timoneiro do barco voador parecia humano, com exceção de que sua pele era azul.

O barco era feito de madeira e pregos como qualquer um produzido na Terra, mesmo assim desceu no planeta com uma graça que desrespeitou todas as leis da física. A embarcação e sua tripulação não sentiu nenhuma diferença de temperatura, gravidade e pressão. O que estando expostos sem nenhuma proteção tecnologicamente avançada seria impossível. Viajavam pelo universo dependendo de um tipo diferente de ciência, a magia. Uma forma de trapacear as leis da física e fazer o que teoricamente seria impossível.

- É aqui onde O Eleito nascerá? - Perguntou Immundra.

- Sim, se é que já não nasceu. A criança nos guiará ao planeta em que o tempo não passa no centro do universo, assim prevê a profecia.

- Onde estamos? Desculpe perguntar. - Immundra respirou fundo antes de continuar. - A atmosfera daqui é pobre em oxigênio e a gravidade muito baixa para o meu gosto!

- Seus moradores chamam esse planeta de Terra.

O timoneiro fez força para conter o riso. - Que nome horrível, capitão. Por que não chamar de água, pedra ou planta?

XXX

Na mesa da sala do capitão William, onde antes havia vários papéis mercantes e rotas comerciais, agora tinha um pequerrucho que não conseguia nem se limpar sozinho. O capitão colocou um pano limpo sob suas vestes e deixou a criança pronta até que ela resolvesse evacuar novamente. Quando largava Peter, William o via começar a engatinhar e isso o enchia de um orgulho quase paternal.

- Olha, Smith! Ele não tem nem uma semana de vida e já consegue engatinhar!

Smith no passado já assistiu ao seu capitão enforcar um desafeto com suas próprias tripas. Nem tal cena o horrorizou tanto quanto aquela que presenciava. - Isso não vai prestar. - Pensou.

William deixou o bebê aos cuidados do seu segundo em comando e foi verificar a área externa do barco, havia uma aglomeração estranha. O capitão farejou a formação de um motim.

- Chegou o capitão William ou devo dizer a babá William. - Vários riram com a insinuação. O marujo era de baixo escalão, recém adicionado à tripulação. O que não o impedia de ser bem ousado. Veio de terras distantes, sua pele era escura para os padrões europeus e seus dentes foram serrilhados de proposito. Para dar um aspecto mais ameaçador. Tubarão, era como gostava de ser chamado.

- O "tubarão" acha que é ameaçador, pois venha. Garanto que o bebê é mais valente que você.

Contando com a superioridade do seu tamanho e força, Tubarão foi descuidado, agredindo seu oponente sem nem cogitar em armar uma defesa. William deixou ser atingido duas vezes para iludir o adversário, fingindo fraqueza. O capitão deu uma rasteira em Tubarão e o imobilizou no chão prendendo o peito do amotinado com seus joelhos. Aproveitando que Tubarão estava vulnerável, William o castigou furando os olhos dele usando seus polegares. A tripulação ficou em silêncio, foram lembrados porque respeitavam seu capitão. O motim morreu antes de se formar e o poder de comando do barco voltou ao seu dono.

- Ele se diz um tubarão, certo? Então joguem-no ao mar. - Disse o capitão William se referindo ao amotinado agonizante.

Smith, com o bebê no colo, assistiu ao final da luta suspirando aliviado e sorrindo. - Ótimo, o capitão ainda é o capitão.

A luta no convés não foi o único fato inesperado do dia. Durante a noite, Smith e seu capitão foram despertados por um barulhinho incomodo e constante que vinha da sala de comando. Algo que preocupou William, pois Peter dormia lá. Quando chegaram ao berço improvisado o bebê já não estava repousando onde deveria. - Algum bastardo roubou o garoto! - Instintivamente William foi até a janela temendo encontrar o corpo da criança boiando.

- Deus meu! Capitão! - Gritou Smith apontando para o teto. Até mesmo William que não era um homem religioso se benzeu ao presenciar a criança planando no alto de sua sala e batendo a cabecinha no teto. - Eu disse que a gente não devia ter trazido esse garoto para o barco. Ele é mau presságio!

Após o impacto inicial passar William sorriu. - Não seja ignorante, Smith. Esse garoto vale ouro! Imagine só o que um marujo que voa pode fazer! Imagine o poder que teria! Será que há mais como ele?

- Ainda acho o bebê perigoso e que deveríamos jogá-lo no mar. - Disse Smith.

- Sejamos racionais, então. Vamos consultar Zamira.

O plano inicial era interceptar um navio cargueiro da corte holandesa e roubar alguns espólios. Porém, o capitão William mudou de decisão e ordenou que o rumo do barco fosse alterado. Aquela nova rota não traria nenhum beneficio financeiro aos tripulantes, mas ninguém reclamou. Primeiro porque depois da demonstração de brutalidade do capitão contra Tubarão ninguém queria peitá-lo. Segundo porque as visitas à Zamira eram quase que sagradas.

O barco foi ancorado na baia da ilha enquanto William e Smith, com Peter nos braços, viajavam de canoa pelos córregos. A ilha era pequena, pantanosa e inóspita. Um lugar ideal para uma bruxa se esconder, principalmente em época de inquisição.

A casa parecia uma oca, amontoada com tranqueiras e bugigangas que o capitão William não conseguia atribuir valor. A bruxa estava como sempre sentada em sua cadeira de palha, como uma rainha. Apesar de jovem e bonita, a saúde de Zamira era debilitada, o que dava para perceber pelos seus olhos amarelados. Ela previa o futuro bebendo do sangue de seus clientes. Algo que ativava sua clarividência, mas que acabou lhe transmitindo hepatite em uma de suas consultas.

- Como você pode ver. - Disse Zamira ao capitão. - Essa será sua última consulta. Não durarei muito mais tempo.

- Meus pêsames. - Disse William meio desconcertado. - Gostaria de saber sobre esse menino. - O capitão apontou para o bebê nos braços de Smith. - Devo permanecer com ele ou levá-lo ao orfanato ou sei lá? Ele voa.

Zamira riu de incredulidade de início, mas quando percebeu que os dois permaneceram sérios ela simplesmente tirou uma faca de lâmina curva do bolso e entregou ao líder pirata. - Você já sabe o que fazer. - Com o máximo de cuidado William furou um polegar de Peter. Zamira ingeriu do sangue da criança e disse: - Interessante. Esse menino não é humano.

Com menos cuidado, William cortou o próprio dedão ao ponto de fazer com que seu sangue pingasse. A bruxa praticamente engoliu seu dedo e o chupou, fazendo o pirata sentir uma sensação quase erótica. Ele não gostou, achou inapropriado, quando decidiu que já era suficiente o pirata removeu seu dedão da boca da bruxa de modo indelicado.

- Você foi um menino muito levado, William. E você sabe o que acontece com meninos levados no final? - A bruxa apontou com o dedo indicador para o chão. Demorou alguns segundos para Smith entender o que Zamira estava sugerindo e quando compreendeu se benzeu.

William não queria demonstrar, mas estava sentindo o maior medo da sua vida. Não era só seu corpo físico que estava em jogo. - "Tic-Tac", diz o relógio. O seu tempo está acabando, capitão. - A bruxa se levantou da cadeira e assim que o fez um cheiro de mofo subiu na casa. Ela mexeu em algumas tranqueiras até que pegou um relógio dourado de corrente. - Enquanto esses ponteiros estiverem em movimento você ainda terá tempo, quando o relógio parar você também para e então desce. Entendeu? Esse menino é sua salvação, ele irá te ajudar a ir à uma terra onde o tempo não passa e você poderá adiar o seu juízo final indefinidamente.

- O que é esse garoto?

- Filho de uma prostituta com uma fada. Um "fado", por falta de termo melhor.

Smith riu. - Vamos começar a falar de histórias de ninar?

- "Histórias de ninar"?! - Disse a bruxa se sentindo ofendida, afinal aquelas histórias eram a herança do seu povo. - Elfos, fadas, gnomos e orcs dominaram a Irlanda, Escócia, Bretanha e parte da França por séculos! Alguns deles eram tão terríveis e cruéis quanto os seus demônios católicos. Escritores cristãos modernos que os infantilizaram em seus "contos de fada" bobos. Voltando ao assunto, esse garoto que você batizou de Peter irá te levar ao mais próximo de um paraíso que você conseguirá alcançar.

Dado por satisfeito, William foi embora e agradeceu à bruxa. Mas quando estava saindo pela porta Zamira o alertou. - Capitão, últimos lembretes: você terá que enfrentar os inimigos mais perigosos de sua vida antes de partir e assim que a criança levá-lo a essa Terra do Nunca mate-a.

O capitão pegou o bebê da mão do seu segundo em comando e o abraçou forte. - Que coisa absurda! Por que eu faria isso?!

- Por que se não fizer o menino quando crescer irá se tornar o seu maior inimigo. Vocês dois lutarão uma guerra eterna!

No dia seguinte a embarcação do capitão William retomou a rotina de pilhagem. Smith já tinha traçado a rota do próximo alvo quando algo inesperado frustrou os planos de todos. - Marinha! - Gritou o homem em cima do mastro que portava uma luneta. João Mãos Trocadas, um marujo eficiente, que nasceu com a deficiência física de ter a mão direita no braço esquerdo e vice-versa.

Dois barcos da marinha cercaram o navio pirata e exibiram os seus canhões. O capitão William ordenou que fizessem o mesmo, mas enquanto os canhões dos piratas eram simples, os da marinha eram bem avançados. Os canhões inimigos eram pequenos e colocados ao lado um do outro de modo circular. A medida que o atirador ia girando uma manivela os canhões iam também girando e disparando criando assim uma metralhadora rústica.

Vários pedaços do barco do capitão William foram despedaçados e voaram pelos ares. - Peter! - O capitão foi até a sua sala e pegou o bebê do berço, com o próprio corpo o protegeu dos estilhaços. O que fez com que suas costas ficassem feridas, mas que a criança continuasse ilesa.

No convés, o segundo em comando tomou a autoridade de seu líder e gritava ordens para os seus subordinados. Mesmo sem querer admitir, Smith já sabia que era uma batalha perdida. Para piorar um dos barcos da marinha apresentou uma nova arma. Um fole enorme que ao ser pressionado cuspia fogo. Smith por pouco não morreu. Outros dois marinheiros não tiveram a mesma sorte e foram calcinados.

Rendição, era a única maneira de sobreviver.

De joelhos, os piratas sobreviventes foram colocados em linha. Os homens da marinha acharam curioso o capitão pirata se agarrar àquele bebê com tanto afinco. - Só pode ser filho dele. - Cochicharam. E esse fuxico chegou até os ouvidos de um dos capitães dos barcos da marinha. O mais cruel dos dois.

Seu nome de batismo nem ele ou seus subordinados se lembravam, todos o conheciam como capitão Crocodilo. Ele gostava do nome, achava que transmitia temor. O apelido veio dos tempos de infância quando uma doença de pele o deixou cheio de placas.

- O que é isso? A pirataria está dando cria? Não, isso eu não posso permitir. - À força Crocodilo tirou Peter das mãos de William, que por sua vez tentou lutar. Mas foi linchado por militares e voltou ao chão.

- NÃO! - Gritou William ao assistir impotente à Crocodilo arremessar o bebê do barco e gargalhar satisfeito com sua própria crueldade.

- Por que está gritando, escória pirata? Sua dor ainda nem começou. - Dois marujos da marinha inglesa forçaram o capitão William a pôr sua mão direita, que era a sua melhor para esgrima, em cima de uma mesa. Crocodilo pegou um cutelo e fez um movimento tão rápido que o líder pirata nem sentiu dor. Seu grito de agonia adveio de perceber que sua mão já não estava mais colada ao seu braço.

XXX

Toda Londres parou para fitar o céu quando um barco voador surgiu. Alguns curiosos se aproximaram, outros mais medrosos fugiram achando se tratar do fim dos tempos. A embarcação soltou sua âncora que despencou de vinte metros e bateu no chão com estardalhaço, destruindo o calçamento da rua. Pouco a pouco o barco alienígena chegou ao solo e sua tripulação desceu, através de uma ponte de madeira retrátil. Capitão Barracuda ia na frente.

Quando viram o aspecto monstruoso dos tripulantes da caravela, os londrinos em sua maioria dispersaram em pânico. - Levem-nos ao seu líder! - Ordenou Barracuda, em alto e bom som para que todos ouvissem. Porém, ninguém cumpriu sua ordem, ao invés disso homens da guarda apareceram montados em cavalos e armados com mosquetes.

A força militar rapidamente se formou. Duas fileiras, a de trás composta por homens em pé e a da frente de ajoelhados. O mosquete só podia dar um tiro antes de ser recarregado, o que demorava um minuto precioso. Então era preciso haver um revesamento. Enquanto os homens agachados municiavam suas armas, os em pé atiravam e depois trocavam de posição.

- Immundra, cuide deles. - Disse Barracuda.

- Com prazer, senhor.

O alienígena azul partiu em direção dos soldados, os tiros perfuravam sua pele, mas as marcas se fechavam quase que imediatamente. Um tiro acertou seu olho direito, esse fez Immundra titubear um pouco, mas logo o estrago foi curado e seu olho reestabelecido. Quando chegou perto o suficiente de seus inimigos Immundra transformou seus braços em espadas. Os soldados não tiveram chance.

XXX

Com a mão que lhe restara William alisava seu pescoço. Se imaginava na praça principal pendurado em uma corda de enforcamento engasgando até a morte. A morte nem era sua maior preocupação, mas sim o que havia sido reservado para ele depois dela. O capitão William estava preso e acorrentado com os seus colegas de pilhagem em uma masmorra fétida. Todos desanimados esperando o pior acontecer.

William olhou para a mão decepada e deu um sorriso triste. Enquanto se lamentava o capitão pirata ouvia o que achava ser um miado. Ele olhou para a janela gradeada na esperança de que um gato entrasse na cela permitindo que aplacasse a fome que sentia. Ao invés disso viu algo muito melhor. Algo que reacendeu a esperança.

- Peter?! - O bebê voava pela janela fazendo movimentos incertos, as vezes girando feito uma roda ou voando de cabeça para baixo. William deduziu que a criança mágica ainda não havia dominado a "arte do voo". - Garoto, vem com o titio. Vem.

Os outros piratas viram a chegada do bebê voador e ficaram espantados, alguns se benzeram e teve até os que gritaram. - Homens, recomponham-se! - Repreendeu William. - Não importa o que é esse bebê, o importante é que ele é nossa única chance de sair daqui! - Mesmo temerosos, os piratas acataram a ordem do seu líder. Qualquer coisa era melhor do que a forca.

O bebê voador entrou pela janela e foi abraçado por William. - Bom menino! - Em seguida o pirata apontou para um molho de chaves pendurado na parede oposta da cela, bem longe dos braços dos prisioneiros. - Vê a coisa brilhante? Vai pegar para o tio.

Peter era tão pequeno que passava pelas grades com facilidade. O menino voou tão rápido na direção das chaves que bateu a cara na parede de pedra com força e caiu no chão. William se preocupou que a criança tivesse desmaiado, mas ele sozinho voltou a ficar sentado. Parecia bem. O capitão suspirou aliviado até que o bebê-fada começou a chorar com estardalhaço.

- Peter, para! Vai alertar os guardas! Passou! Passou!

- Que confusão é essa?! - O carcereiro voltou à masmorra, um homem obeso e careca. - O que esse bebê faz aqui? - O carcereiro tentou carregar Peter, mas o menino fugiu do seu toque e voou novamente. Em seguida agarrou as chaves e voltou para os braços daquele que era o mais próximo de um pai que conhecia.

O carcereiro fugiu abandonando o seu posto. - Feitiçaria?! Ganho muito pouco para aturar isso!

William entregou Peter à Smith e liderou sua tripulação para a fuga. Não foi difícil encontrar as armas confiscadas, estavam guardadas no andar de cima onde havia pouca guarnição. Somente dois homens distraídos que foram facilmente dominados. Os piratas retomaram seu arsenal e se prepararam para fugir da prisão e voltar à costa, onde o plano seria roubar um novo barco.

Junto das armas apreendidas William encontrou seu relógio dourado e uma outra coisa que chamou sua atenção. - Vão sem mim, preciso resolver algo pendente. Nos encontramos naquele bordel próximo ao estaleiro.

- Mas capitão! - Disse Smith. - Essa masmorra fica na base da marinha. Tem centenas de soldados da coroa por aqui!

- Smith, só faça o que eu digo. - Quando todos foram embora, deixando-o sozinho, o capitão pegou aquela coisa e a viu como um sinal. Um substituto ao membro amputado. William fincou o cabo pontudo da base na sua ferida ainda mal curada. Depois de cinco minutos de dor escruciante o pirata ganhara um novo membro.

Onde antes havia uma mão agora havia um gancho.

Sem se importar com discrição, William andou pelos corredores do quartel arrastando o seu gancho na parede, fazendo uma marca por onde passava. Ele sabia onde deveria chegar, pois o quarto de um capitão sempre era o mais privilegiado. Não importa se militar ou fora da lei, o líder nunca se misturava com os seus comandados.

- Acorda, Crocodilo!

O capitão da marinha levantou desprotegido, vestindo só um camisolão de dormir. Porém, William era orgulhoso demais para executar um adversário sem dar a ele uma chance de defesa. O pirata levara consigo duas espadas. Uma entregou ao seu inimigo. Crocodilo, por sua vez, poderia gritar e pedir apoio. Mas também era orgulhoso demais para evitar uma luta justa.

Aço contra aço, para alguém destro William se saia excepcionalmente bem esgrimando com a mão esquerda. Volta e meia, em algumas investidas de Crocodilo, o capitão se defendia com o gancho. A técnica de combate de Crocodilo era mais certinha, aprendida em acadêmia militar. Já William lutava no modo improvisado das ruelas e becos. O primeiro estilo era superior em um ambiente de competição como torneios ou duelos, já o segundo estilo era bem mais eficiente no mundo real. Onde valia tudo e era cabível interação total com o cenário em volta.

William estourou a lamparina à óleo do quarto com sua espada fazendo com que sua arma ficasse flamejante. - Você foi um menino levado, Crocodilo? Pois o destino de todo menino levado é um lugar onde o fogo queima, mas não consome.

William deu um golpe lateral que mirava a cabeça de Crocodilo. Este por sua vez conseguiu bloquear. Porém, as chamas deixaram sua visão turva. O gancho de William terminou o serviço ao encontrar o pescoço de Crocodilo. Em seu último suspiro de vida, Crocodilo praguejou com ódio. - William!

- William não! Você me transformou em outra coisa, um menino ainda mais levado! Gancho! Capitão Gancho!

XXX

Após uma quantidade substancial de soldados abatidos, a corte aceitou o pedido de audiência dos visitantes do espaço. O rei, um homem gordo e bem pálido até mesmo para um inglês, sentou-se em uma ponta de uma mesa grande e retangular enquanto Barracuda sentava na outra. Empregados serviram chá, os dois bebiam enquanto conversavam.

- Eu usei dez centímetros do sistema nervoso ocular de um dos seus soldados, espero que não se incomode. - O rei cerrou o olhar sem compreender exatamente o que o alienígena queria dizer.

Barracuda mostrou o seu braço mecânico ao rei e continuou: - Você tem ideia de quantas vezes eu já tive que trocar esse membro? Nem eu mais lembro. Não se consegue chegar aos quinze mil anos sem trocar um figado, um estômago, um coração ou parte do cérebro de vez em quando. Cheguei a um ponto que passei a me questionar: "ainda sou eu mesmo?".

- Desculpe, não entendi. - Disse o rei.

- Vou simplificar, para sua mente primitiva poder compreender. Imagine uma vassoura. Primeiro você troca o cabo dela, em seguida troca a parte que limpa. Dá para dizer que continua sendo a mesma vassoura?

O rei revirou os olhos impaciente. - Diga logo o que quer?!

- Parar de mudar e ter uma identidade! E para isso eu preciso chegar ao único ponto do cosmo onde o tempo não passa. O centro do universo. E a chave para chegar até esse planeta é uma criança meio humana meio fada nascida aqui por esses dias.

O rei demorou a conseguir voltar a falar depois de ouvir tanta informação que julgava absurda. - A Terra é o centro do universo e da criação.

Barracuda via o rei como uma criatura incrivelmente obtusa. Por um momento o alienígena perdeu o autocontrole e fez um movimento com as mãos como se estrangulasse um pescoço imaginário.

- Incrível! Já visitei milhares de planetas e todos eles são iguais! Todos se acham especiais e o centro do universo! Esqueça, acredite no que quiser. Só me dê o bebê e deixarei seu planetinha sem graça em paz.

- Você faz ideia de quantos bebês têm em Londres?

- Que voam aposto que só um.

Cartazes de "procura-se" foram espalhados pela capital inglesa prometendo uma farta recompensa por informações. Mas o procurado não era um ladrão ou pirata, como o habitual, mas sim um tal "bebê voador". O rei duvidou que alguém iria trazer alguma informação confiável, mas para sua surpresa um carcereiro gordo se apresentou.

XXX

O barco que os piratas roubaram era da marinha, chamava muita atenção. O novo plano era comprar uma embarcação diferente, mais discreta, em águas distantes como Singapura, Mongólia ou até mesmo China. Depois que William matou um capitão da marinha o oceano se tornou pequeno demais para ele e seus homens se esconderem da força naval britânica.

- Capitão William... - Começou a falar Smith.

- Gancho, Smith. O meu nome agora é Capitão Gancho. Se me chamar pelo meu antigo nome te jogo da prancha.

Smith teve que pegar ar para suportar a nova mania do seu patrão. - Ok, esse negócio que o senhor colocou na mão passa uma mensagem, é assustadora e tal. Mas quando os navios ingleses chegarem eles não vão se intimidar nem um pouco. Por que o senhor tinha que matar um capitão da marinha?!

- Ele me desrespeitou cortando minha mão! - Ao dizer isso William mostrou exasperado seu gancho à Smith. - Está me questionando, segundo em comando? Quer armar um motim?

- Escuta, senhor Wi... Capitão Gancho. Só quero avisar que é melhor fazer esse bebê nos levar logo para essa tal de Terra do Nunca ou estaremos perdidos!

Gancho e Smith olharam para o bebê que estava sentado em seu berço tentando engolir uma das mãos. Gancho o pegou com cuidado, já que a sua mão de aço poderia feri-lo. - Anda, garoto. Faça o que nasceu para fazer.

Um barulho veio de fora, um sinal de alerta, do alto do mastro João Mãos Trocadas gritava como se o mundo fosse acabar. Ele não estava de todo errado. A embarcação do Capitão Gancho estava cercada por barcos da marinha. Dezenas deles, talvez mais. Como se isso já não fosse assustador o bastante, um dos barcos a manter o cerco voava. Esse se aproximou e seu capitão se fez presente com sua voz.

- Entreguem-nos o bebê! - Ordenou Barracuda.

Smith não ficou tão impressionado quanto pensaria que ficaria ao presenciar uma cena dessas. - Depois de ver uma criança voar estou aceitando tudo.

Capitão Gancho respondeu desaforado ao alienígena. - Se quer tanto o bebê por que não vem aqui pegar?

- Immundra, você já sabe o que fazer. - Respondendo ao comando do seu líder, o alienígena azul pulou do barco voador até a embarcação pirata sem precisar da ajuda de corda ou qualquer dispositivo. Assim que seu pé tocou na madeira do navio adversário Immundra transformou seus braços em lâminas e começou a atacar quem estava ao redor. Era uma luta injusta: o atacavam com tiros e cortes de espadas, mas ele se curava de qualquer investida. Já os comandados de Gancho morriam quando atingidos.

Capitão Gancho poderia perder toda sua tripulação se não tivesse arquitetado um plano. De tão inusitada a ideia ele cogitou até se não foi uma inspiração divina. Mas será que meninos levados merecem esse tipo de ajudinha? - Smith, pegue essas dinamites. Tenho um plano. - Falou o capitão ao pegar um mosquete curto de grosso calibre.

No meio da luta de Immundra com os seus marujos o Capitão Gancho chamou a atenção de todos para si. Mantendo sempre o mosquete curto apontado para o etê. - Ei, você azul, olha para mim.

O alienígena tornou suas lâminas em membros normais e abril seus braços em sinal de desdém. - Pode atirar em qualquer parte de mim, capitão, que eu irei me curar.

- Ótimo, conto com isso. - Gancho atirou na barriga do monstro fazendo que um rombo se abrisse. Immundra não demonstrou nenhum sinal de preocupação, pois a ferida já estava curando. Antes dela ser fechada, porém, Smith aproveitou a distração do etê e colocou três dinamites com o pavio aceso dentro dele. Quando o rombo se fechou os explosivos ficaram em seu corpo. Immundra entrou em pânico, mas já era tarde demais para fazer qualquer coisa. Com a explosão pedaços azuis gelatinosos foram espalhados pelo barco.

Com o olho orgânico esbugalhado, Barracuda não acreditou que perdeu seu timoneiro e segundo em comando. Depois do choque inicial, veio a ira. - Atacar! Peguem o bebê!

O Capitão Gancho e seus homens se prepararam desembainhando suas espadas e pistolas ao assistirem uma verdadeira chuva de criaturas estranhas no convés. - Quem morrer com a espada limpa vai se ver comigo no além! - Ordenou Gancho.

Com sua espada ele bloqueava as investidas vindas do lado esquerdo, com o gancho os ataques da direita. Capitão Gancho lutava sem temor contra três adversários ao mesmo tempo. Um sujeito gelatinoso de três olhos, um homem com cabeça oval e um etê que brilhava, feito de luz. A luta foi mais fácil do que o capitão esperava. Logo um inimigo foi acertado no bucho por seu gancho, outro teve o peito trespassado e o gelatinoso sem forma definida foi acertado pela espada por cima.

Assim que o Capitão Gancho derrotou o trio foi atacado por um guaxinim gigante que avançou com a boca escancarada querendo mordê-lo. O alienígena só conseguiu engolir a espada do capitão pela ponta. Gancho chutou o corpo morto do homem animal para longe e limpou o sangue na manga de sua camisa.

João Mãos Trocadas carregava seis pistolas no cinto. A cada tiro certeiro um pirata espacial abatido. Cada arma só podia disparar uma vez, quando todas se esvaziaram ele precisou parar para recarregar. Um trabalho demorado que o deixava exposto. Ele morreria por um ataque de um ser chifrudo se não fosse por Smith.

Ao assistir seus homens perdendo, o capitão Barracuda decidiu deixar o seu barco e entrar no campo de batalha. Ele se jogou na embarcação de Gancho já preparado para a luta, convertendo o seu braço robótico em canhão. Com alguns tiros de plasma o capitão alienígena matou três homens do adversário. - Onde está o bebê? Não irei me repetir!

Todos abriram espaço para Capitão Gancho se aproximar, os dois lideres navais ficaram frente a frente. Nenhum dos subalternos de ambos os lados ousou intervir. Com o canhão mirando o peito de Gancho, a menos de três passos, Barracuda repetiu sua ordem.

- Não vou te dar a criança!- Disse o Capitão Gancho. Em resposta Barracuda atirou, mas o seu oponente conseguiu se jogar para o lado, evitando o tiro e em um ato reflexo arremessou sua espada na arma do etê a atravessando e inutilizando.

- Droga! Eu troquei esse braço não tem nem cem anos.

Usando o gancho como arma o capitão do navio ameaçou. - Você tem cinco segundos para sair do meu barco com seus homens ou eu rasgo seu pescoço.

Barracuda arrancou seu braço robótico destruído com brutalidade e através da carcaça fez uma navalha improvisada. O alienígena pulou em cima de Capitão Gancho e se saiu melhor na luta de armas brancas curtas.

Capitão Gancho foi acertado em um ponto vital. O seu relógio de cordão que guardava em baixo da camisa caiu no chão e começou a andar mais devagar até que parou.

Os piratas de Gancho abriram espaço para Barracuda que entrou na antiga sala do capitão e pegou o bebê em seu berço. A criança chorou ao não gostar daqueles braços que lhe eram estranhos, mesmo assim foi levada a contragosto.

Enquanto o corpo do Capitão Gancho jazia no convés do seu barco, sua consciência trafegava por um outro lugar. Inóspito, escuro. Lá ele reencontrou Zamira que estava agora sentada em um trono muito melhor. Não de palha, mas acolchoado e belo, rico em detalhes, digno de uma rainha das trevas. Seu vestido de saia rodada curta era bem preto. Seus lábios e os olhos sem córnea tinham a cor do piche. Sua pele estava muito mais alva do que outrora e ela exalava uma sensualidade diferente, meio sinistra.

- Oi, menino levado. Como pode ver eu também fui muito levada. Pena que você tenha fracassado em sua jornada. Ao menos faremos companhia um ao outro. Para sempre.

A tripulação alienígena voltou ao barco voador e Barracuda com Peter de refém queria forçá-lo a usar seu dom. - Vamos, coisa nojenta, me leva ao centro do universo! - O etê apertava e sacudia o bebê com sua mão forte tentando de alguma forma aliciá-lo. - Se não pode me ajudar então não me serve para nada! - Barracuda arremessou a criança para longe do seu barco, se arrependendo logo quando a viu voando. - Espera, volta aqui!

Peter voltou até Gancho e com suas mãozinhas diminutas começou a alisar o seu rosto. Ele era muito criança para entender o conceito da morte, mas ao perceber que os olhos daquele que mais amava não se mexiam deduziu que algo não ia bem. Então chorou.

O corpo de Peter começou a ficar rosa e então a ser cercado por um brilho dourado. Smith e os outros piratas de Gancho se afastaram para dar espaço à criança fazer o que deveria ser feito. A energia de Peter tomou o barco de Gancho e o bebê voou mais uma vez, só que desta vez rumo às estrelas. Muito mais rápido do que o mais veloz dos foguetes ou até mesmo do que a luz. A criança mágica levou a embarcação até o centro do universo.

A Terra do Nunca.

A consciência de Capitão Gancho voltou do lugar escuro e o pirata deu um suspiro com vontade, como se fosse resgatado de um afogamento. Ele se levantou e todos os seus subordinados ficaram meio aturdidos. Menos Smith, que sabia da profecia. - Senhor Gancho, conseguimos. Chegamos à Terra do Nunca.

O lugar era um pedaço do Paraíso como a bruxa havia previsto. A água do mar era doce, as plantas eram mais verdes do que as da Terra e as estrelas podiam ser vistas até mesmo de dia. Gancho ainda estava meio bobo por ter a ciência de que havia escapado do destino dos meninos levados. Sua mente só voltou dos devaneios quando Smith lhe entregou Peter no colo.

- Use o seu gancho, mate a criança. Lembre-se da profecia de Zamira.

Gancho chegou a encostar o aço no pescocinho rechonchudo de Peter. - Basta um corte. Ele é tão frágil. - Pensou. Deixando aquela criança com vida ou não, Gancho não prestaria contas dessa ação em nenhum tipo de juízo final. Mas mesmo para um menino levado como o capitão havia coisas mais importantes do que ser recompensado ou não.

Gancho jogou a criança para fora do barco sabendo que ela voaria. Peter tentou retornar aos seus braços, mas o capitão pirata foi bruto. - Saia daqui! - Peter chorou, tentou mais três vezes se reaproximar e após ser repudiado em todas elas desistiu e foi embora.

- Ele será seu maior inimigo. Irão guerrear para sempre. - Lembrou-lhe Smith. - Tem certeza? Ainda podemos...

Gancho esticou as costas enquanto pensava no assunto. - Ao menos espero que nossas batalhas sejam divertidas.

XXX

O maior temor de um capitão é um motim. Quando seus subordinados não estão satisfeitos com sua gestão e se unem para tirá-lo do comando. Os alienígenas ao perceberem que gastaram décadas de suas vidas em uma jornada frustrada lincharam e expulsaram Barracuda do barco enquanto este ainda estava nas alturas. O ex-capitão caiu em meio ao oceano sendo resgatado quase sem vida pela marinha britânica. O etê foi levado à coroa, pois ela demonstrou interesse em estudá-lo.

Século XVIII, cem anos após a era dos piratas.

Um jovem médico de guerra que caiu nas graças do rei por salvar um dos seus parentes em batalha foi convidado a estudar um evento único. O subsolo do palácio real guardava vários segredos, entre eles um certo ex-capitão alienígena.

- Ele é um dos alienígenas da invasão de 1724. - Disse o rei. - Um evento que a maioria das pessoas já esqueceu ou considera uma lenda. Gostamos que continue assim. Mais um sigilo necessário para evitar o pânico.

- Não querendo parecer simplório, vossa alteza, mas eu era uma dessas pessoas. - Disse o médico.

O rei riu com a sinceridade do doutor. - Estude a criatura, descubra como ela funciona. Mesmo nesse estado depois de mais de um século ela ainda está viva.

Barracuda estava preso a uma maca enquanto sem dó seu corpo era vilipendiado, aberto com um bisturi. O alienígena não demonstrava dor. - Talvez seus receptores neurais estejam danificados. - Pensou o médico. - Órgãos de diferentes origens funcionando em um mesmo corpo! Fascinante!

- Tenho certeza de que o doutor conseguirá revolucionar a medicina ao descobrir como essa criatura funciona. - Disse o rei. - O mundo não esquecera o nome do doutor... Meu Deus, que vexame, esqueci seu nome. Como se chama mesmo, perdoe-me?

- Doutor Victor Frankenstein.