- Ele é puro? - Perguntou o cego.

- Não. O encontrei nos braços de sua mãe humana morta. Ela morreu congelada, não aguentou a temperatura do próprio filho. - Respondeu um pupilo, que oferecia a criança ao seu mestre com o joelho esquerdo colado ao chão em sinal mais de submissão do que de respeito. O recém nascido mesmo diante de tantas faces alienígenas não demonstrava medo ou vontade de chorar.

O mestre pegou o bebê no braço sem demonstrar carinho, ele o via não como uma criança que precisava de cuidado, mas como uma arma a ser moldada para suas guerras particulares. O mestre não tinha olhos para ver, eram vendados por um lenço. Até mesmo para os seus homens, que eram acostumados ao sobrenatural, ele transmitia uma aura sinistra. Seu manto negro que lembrava algo sacerdotal era adornado por um lenço azul que cobria os ombros e descia quase até o pé. Azul, a cor do seu clã.

- Eu pedi por um puro, não foi?

- Os cryomancers estão à beira da extinção desde que Shao Kahn dominou seu reino. Encontrar esse mestiço custou dois anos da minha vida.

De costas para o ninja que trouxe o rebento, o mestre fez um alerta que soou em tom de ameaça. - Cyrax, é bom que esse menino valha a pena ou você pagará pelo fracasso dele com sua vida.

Cyrax era um associado aos Lin Kuei atípico. Enquanto os outros eram em sua maioria de origem asiática, principalmente chinesa, ele era jamaicano. De pele bem escura e cabelo à moda dread. Como qualquer um com características físicas e culturais diferentes, o ninja sofreu preconceito. Seus treinos eram mais puxados do que o dos demais, pois muitos queriam vê-lo fora do clã. Porém, a ação dos puristas só o tornaram mais forte. Para demarcar que era melhor do que seus colegas, Cyrax teve a rebeldia de trajar o amarelo ao invés do azul. Algo que o mestre não repreendeu. Desde que Cyrax fosse eficiente, principalmente na arte de matar, ele podia vestir a cor que desejasse.

Por sofrer com uma repulsa similar, no seu caso por ser malaio, Sektor se aproximou de Cyrax e ambos se tornaram amigos, praticamente irmãos. Seguindo o exemplo de Cyrax, Sektor decidiu se rebelar usando a cor vermelha.

Doze anos se passaram.

O templo Lin Kuei era considerado avançado na época em que foi edificado, mas para olhares modernos ele era extremamente rústico. Com paredes de pedra das montanhas e suportes de madeira, o local foi projetado para ser prático. Não possuía nenhum entalhe de embelezamento tão comuns em templos religiosos orientais. O único símbolo enaltecido era a marca do clã. Um triângulo intercortado por um shuriken estilizado.

Em uma arena de luta, um garoto de cabelo raspado e que já apresentava definição nos braços, lutava contra três ninjas que tinham o dobro de sua idade. Era para ser um treino, mas parecia um espancamento. O garoto tentava acertar um adversário com uma voadora, mas outro vinha por trás, o pegava pelos ombros e em seguida arremessava suas costas com brutalidade no chão. Um soco frustrado do menino recebeu a devolutiva de uma porrada que o fez cuspir sangue. Seu olho esquerdo já não abria de tão inchado.

Irritado, o menino apelou para a única vantagem que tinha. Um dos seus oponentes já preparava um ataque, quando o jovem criou uma bola azulada com suas mãos e a arremessou nele. Fez-se então uma estátua de gelo que se espatifou e cobriu a arena deixando-a molhada. Imediatamente os outros dois ninjas se afastaram.

Cyrax olhou para o aprendiz com orgulho, ele e o mestre Lin Kuei assistiam à batalha em um ponto elevado que não permitia aos competidores vê-los. O semblante do mestre foi de preocupação, Cyrax não entendeu o porquê. - Se Bi-Han só depender de seus poderes ele não servirá para mim. Olha só a bagunça que fez. Um ninja poderoso não basta, ele precisa ser antes de tudo furtivo. - Após um longo minuto de silêncio, o mestre mudou abruptamente de assunto. - O garoto já escolheu o seu novo nome?

- Ele quer ser chamado de Sub-Zero.

- Sinto falta dos antigos aprendizes, eles ao menos tinham noção de ridículo.

Alguns dias se passaram até que Cyrax chamou seu pupilo para uma conversa privada. - Você tem potencial, mas quando usa seus poderes mais parece um oni desgovernado.

- O que quer dizer, mestre? - Perguntou Bi-Han que já estava quase que totalmente recuperado da surra que levara. Seu metabolismo cryomancer herdado do pai era muito bom.

- Você precisa usar os seus poderes com mais criatividade e isso é uma coisa que não tenho como ensiná-lo.

Cyrax apresentou ao seu pupilo uma situação, um templo similar ao dos Lin Kuei só que pertencente à um clã rival, os Tengu. O símbolo deles lembrava a garra de uma águia, sua cor era o laranja. - Um ninja desse clã desrespeitou o nosso mestre, sua missão é matá-lo. - O pequeno Bi-Han sinalizou positivamente com a cabeça enquanto via a foto do seu alvo que Cyrax lhe mostrava. - Se você aparecer congelando tudo o que encontrar pela frente não irá passar nem pela entrada. Eles têm trezentos ninjas, um contingente maior até que o nosso. Você pode ter sangue cryomancer, mas ainda é mortal. - Naquela mesma noite, Bi-Han viajou rumo à sua missão. Sem falar isso com ninguém, para não demonstrar fraqueza, Cyrax ficou preocupado com a vida.

A necessidade fez com que Bi-Han descobrisse habilidades que não sabia possuir. Para enganar os guardas da entrada, o pequeno ninja se cobriu com gelo se tornando um boneco de neve. Como a região era gelada, a neve do ambiente se confundia com o seu corpo e ele se tornou invisível. Assim que os guardas se distraíram, Bi-Han largou seu esconderijo e correu porta à dentro. Tal truque agora não mais funcionaria. Pois o interior do templo, assim como o dos Lin Kuei, era pedra e madeira.

Enquanto tentava localizar a sua vítima, Bi-Han se impressionava com o fato de como a organização daquele lugar lhe era familiar. Tirando o fato de usarem o laranja ao invés do azul não havia muitas diferenças. Os mais jovens também eram submetidos à lutas desiguais, os treinos beiravam o impossível, havia uma hierarquia rigorosa cujo desrespeito podia resultar em morte...

- Se somos tão iguais por que brigamos?

- Por poder, garoto. - Bi-Han acreditou ter sido descoberto. Porém, o homem que apareceu para ele não se assemelhava em nada com um Tengu. Sua roupa era carregada de preto e sua pele pálida chegava a ser sinistra. Careca, seus olhos possuíam sombras negras e nas ombreiras e nos antebraços do seu uniforme haviam espetos grandes como facas.

- Você não tem medo de se machucar nessa roupa?

O homem pálido riu da pergunta do garoto, que julgou inocente. - Você é um dos lutadores mais poderosos do planeta, mas lá no fundo ainda é só um menino. E não, eu não me machucaria com minha própria roupa. Eu seria um feiticeiro bem estúpido se fizesse isso.

- Se você não é um Tengu o que quer de mim?

- Complete sua tarefa, depois conversaremos. - O feiticeiro sumiu em uma fumaça verde. Ignorando sua passagem estranha, Bi-Han voltou sua mente em terminar a missão.

Com seus pés pequenos, Bi-Han conseguia se equilibrar nas estruturas mais altas e passear pelo templo por cima, longe da vista de todos. Como Cyrax o advertira certa vez, um ninja deve dar preferência a lugares escuros e evitar pontos de luminosidade. Como era noite, o garoto podia andar mais livremente. Em certas passagens a estrutura do local não tinha continuidade. Com seu poder, Bi-Han nessas ocasiões construía pontes de gelo e andava sobre elas com o cuidado redobrado para não escorregar e cair.

Depois de uma hora procurando, Bi-Han avistou o seu alvo, que dormia em seus aposentos. O homem era músculo puro. Um pré-adolescente não podia com ele a menos que estivesse armado. Bi-Han ficou ao seu lado na cama e tentou algo inédito. Ele congelou as vias respiratórias do seu alvo, impedindo os pulmões de funcionarem. Uma morte silenciosa, demorada e bastante dolorosa.

O outro invasor do templo se felicitou com o sucesso do garoto. O feiticeiro tinha planos para Bi-Han. - Agora, não. - Disse o bruxo mais para si do que para o garoto, que nem sabia de sua presença. - Daqui há alguns anos voltaremos a nos encontrar.

O tempo se passou, aos vinte e cinco anos Bi-Han se tornou um homem tão temido em seu próprio clã que seus colegas abaixavam a vista ao passar por ele. Os únicos que não o temiam eram o mestre supremo e Cyrax. O garoto magro se tornou um homem com músculos definidos e ombros largos. Qualquer um interessado no sexo masculino o acharia atraente, porém, sexo não era uma das suas prioridades. Bi-Han, ou Sub-Zero como desejou ser chamado, só se preocupava com os assuntos dos Lin Kuei. Naquela manhã o mestre havia convocado-o para uma reunião em seus aposentos.

Sub-Zero tomou um susto, sentimento a qual não estava acostumado, ao ver quem acompanhava o seu mestre na sala. O mestre estava em seu trono enquanto o seu convidado portava-se ao seu lado, de pé. Bi-Han reconheceu o feiticeiro pálido daquela noite. Não envelhecera um dia mesmo depois da passagem de mais de uma década. - Sub-Zero, esse é o nosso novo contratante. Quan-Chi.

- Aponte o alvo e eu mato. - Sub-Zero aderiu ao azul do seu clã, porém seu uniforme era estilizado, tinha um tom mais vivido. Para um ninja isso era contraproducente já que chamava mais atenção do que uma cor mais sóbria. Porém, Bi-Han se achava muito capaz para ser influenciado por esse tipo de detalhe.

- Shirai Ryu. - Disse Quan-Chi.

- Mas esse clã já não foi massacrado? Li isso nos registros.

- O Shirai Ryu é simbolizado por um escorpião, como o animal que os representa eles são uma praga. Há um sobrevivente. - Disse o mestre. - Se deixarmos o clã irá crescer novamente. É do interesse do nosso cliente e do nosso que você elimine Hanzo Hasashi e sua família. - O feiticeiro disse ao assassino onde ele poderia encontrar o seu alvo e este o saldou e a seu mestre com um gesto conhecido por praticantes de artes marciais. Coluna um pouco inclinada para frente e punho fechado sendo agarrado pela outra mão junto ao peito.

Bi-Han se tornou tão confiante que passou a negligenciar a furtividade. Durante sua maioridade ele nunca encontrou ninguém a sua altura, o que o tornou negligente. A casa onde Hanzo se escondia mais parecia uma cabana perdida na floresta. Provavelmente ele vivia da caça e da pesca, atividades que não rendiam muito dinheiro.

O ninja entrou na casa estranhando o fato dela já estar aberta. Foi então que o sentimento que costumava não o afligir o atingiu pela segunda vez no mesmo dia. Hanzo e toda a sua família já estavam mortos. Isso por si só não o incomodaria, porém todos eles estavam cobertos com uma camada de gelo. Bi-Han sabia reconhecer gelo sobrenatural, ele viveu boa parte de sua vida conjurando-o. - Mas eu sou o único!

Bi-Han negligenciou a furtividade, seu inimigo não. O raio congelante o atingiu pelas costas. Pela primeira vez ele sentiu como era a dor de ser congelado. O jato de água fria se solidificando a medida que invadia sua pele como lâminas. Ele só não morreu devido ao seu sangue cryomancer. Bi-Han destruiu a camada de gelo que o aprisionava com sua força de vontade e se voltou ao seu inimigo. Ele usava um uniforme Lin Kuei muito semelhante ao de Bi-Han, só mudando alguns detalhes.

- Quem é você?! - Perguntou Bi-Han, incomodado por se deparar com o que parecia ser uma cópia sua.

- O clã só precisa de um cryomancer. Vou me apresentar, pois quero que vá ao mundo dos mortos sabendo quem o matou. Sou Kuai Liang.

- Me matar?! Você é só um moleque atrevido! - Enquanto Bi-Han tinha vinte e cinco anos, Kuai Liang tinha dezessete incompletos. Eles achavam que dividirem o mesmo poder era só coincidência. O que não sabiam é que eram filhos do mesmo pai. Fato que o mestre Lin Kuei estava ciente. Seus olhos que não viam podiam enxergar a distância. De longe, no conforto de seu trono, ele podia ver o desenrolar da luta dos irmãos.

- Muito bom, Sektor. Cheguei a pensar que só Cyrax sabia cumprir ordens.

- Esse cryomancer que visitou nosso mundo, seja lá quem ele for, parece gostar de nossas mulheres.

- Você está sugerindo que ele gerou mais filhos?

- Soube de uma menina de quatro anos que quase foi espancada até a morte por pensarem ser um espírito ruim. Pelo que ouvi falar dos meus contatos ela tem cabelos prateados e pode congelar as coisas.

- O que está esperando?! Atrás dela! - Sektor fez uma saudação e partiu rumo à garota de cabelos prateados.

Enquanto isso, na casa do finado Hanzo, os dois ninjas azuis trocavam socos. Apesar da diferença de idade, a habilidade de ambos era emparelhada. Cada soco era respondido com um bloqueio, cada chute com um desvio. No meio da batalha, Kuai Liang invocou seu poder para criar uma espada de gelo. Bi-Han sentiu raiva e inveja. Ele nunca havia pensado em usar seu poder daquela maneira. Kuai Liang tentou acertar o pescoço do seu oponente, mas esse era muito rápido. As investidas seguintes miravam o torso e os braços, mas também não deram certo. Após poucos minutos a magia que mantinha a espada sólida cedeu e a arma liquefez. - Magia não dura para sempre, moleque. Gasta energia. Esse seu truque é um erro, uma bobagem.

- Fica quieto, vovô. - Bi-Han preparou sua magia, mas por saber que ela seria ineficaz se usada diretamente contra o seu oponente, ele mirou o chão. Como em uma comédia pastelão, o piso escorregadio fez com que Kuai Liang despencasse ao ponto de ficar alguns segundos no ar com as pernas para cima. Com a guarda do adversário totalmente aberta, foi fácil para Bi-Han pisar em seu peito. Costelas se quebraram e o ninja adolescente perdeu toda a sua força de luta. Bi-Han já estava se preparando para finalizá-lo, mas antes removeu sua máscara. O rosto de Kuai Liang era parecido demais com o seu próprio para ignorar.

- Kuai Liang, certo? Já que você se apresentou acho justo que eu faça o mesmo. - Após remover a própria máscara ele continuou. - Eu sou Bi-Han, irmão.

- "Irmão"?!

- É muita coincidência sermos tão parecidos e compartilharmos o mesmo poder, não acha? Sempre soube que o Lin Kuei era manipulador, mas não imaginava o quanto.

- Minha mãe não me falou de nenhum irmão. - Disse Kuai Liang ainda desconfiado.

- Estúpido! Você conheceu o seu pai por acaso?! - Sinalizando com uma expressão facial, Kuai Liang passou a dar crédito ao recém descoberto irmão.

- E quem é nosso pai então?

- Está disposto a investigar?

Ninjas não são treinados para serem detetives, mas seguir uma trilha de gelo cuja origem é considerada misteriosa pelos nativos não é algo que demandava muito raciocínio. Quanto mais próximos do seu alvo, mais Bi-Han se preocupava. Ele conseguia sentir a qualidade do gelo sobrenatural que seu suposto pai produzia. A magia dele era muito superior a dos dois ninjas. - Tomara que não tenhamos que enfrentá-lo. - Pensou Bi-Han. Seu tempo de arrogância havia passado.

- Foi um demônio da neve! Juro que é verdade, mas ninguém acredita. Ele tomou minhas três filhas à força.

Kuai Liang perguntou ao idoso. - Como era esse demônio da neve?

- Seu toque era tão gelado que quase matou minhas meninas! Por que os deuses o enviaram à minha casa? Eu os desrespeitei sem perceber?

Após se afastarem da casa do velho, mas ainda no vilarejo, os dois irmãos conversaram. - Não entendo. - Disse Bi-Han. - Por que um cryomancer sairia por aí estuprando garotas?

- Por ser um tarado?

- Isso não combina com um cryomancer. Ao menos não pelo que eu li nos registros do clã. Os membros dessa raça são frios não só fisicamente, mas também emocionalmente. Não fazem nada que não seja premeditado ou calculado. - Kuai Liang olhou para o irmão e riu embaixo da máscara. Dos dois ele considerava que essa característica quem herdara do pai fora Bi-Han. - Não há nada racional no estupro.

A resposta que veio à mente de Kuai Liang surpreendeu até mesmo à ele. - Os cryomancers estão em extinção! Ele quer salvar a espécie!

- Mas que maneira estúpida de se fazer isso!

- Você mesmo disse, eles são pura razão. Não estão nem aí para delicadeza ou sofrimento alheio.

Ainda em seu trono, o mestre acompanhava os jovens mentalmente. Ele ficou frustrado com o desfecho da luta dos irmãos e não ver morte. Porém, o rumo que a dupla decidiu seguir o deixou animado. Quan Chi estava ao seu lado e através do que o mestre supremo lhe dizia ele ficava a par de tudo. - Eles se uniram à procura do pai.

- Vão morrer. Um cryomancer puro é demais para eles.

- Poder não é tudo, feiticeiro. Se eles se mostrarem valiosos terminarei o dia com dois Sub-Zeros ao invés de um. É, até que esse nome não é tão ruim.

Após a conversa com o velho cujo as filhas foram violentadas, não foi difícil encontrar o tal "demônio da neve". Facilitava o fato de sua roupa não ser nem discreta. Prateada com detalhes azuis brilhantes como neon e um sobretudo preto. Apesar de ter vindo de outro mundo, sua fisionomia se assemelhava à asiática e, por incrível que pareça, sua pele era um pouco bronzeada. Distraído, ele não percebeu o jato de gelo até atingi-lo. De qualquer forma o golpe não serviu nem para molhá-lo.

- Tarado, lute com quem possa revidar. - Disse Kuai Liang.

- Vocês são meus filhos! Reconheço meu sangue em qualquer lugar. Eu os presenteei com a vida. Estão irritados com o quê?

Enquanto Kuai Liang apostou na magia, Bi-Han atacou com chutes e socos na esperança de que seu pai fosse poderoso com magia, mas ruim em um combate físico. Estava enganado. O homem bloqueava todas as suas investidas e aquelas que não conseguia bloquear não faziam nele efeito significativo.

- Essa luta é sem sentido. Somos iguais.

- Não, não somos. - Disse Kuai Liang que tentou um chute circular alto na intenção de acertar a cabeça do pai. O cryomancer desviou inclinando o corpo para trás e contra-atacou fazendo de sua mão lâmina. Kuai Liang foi acertado no olho direito e por pouco não perdeu a visão dele. Apesar de não provocar tal estrago, o golpe o marcou com uma cicatriz.

Tentando dar suporte ao seu irmão, Bi-Han pegou o braço direito do seu pai e tentou congelá-lo. Assim que pôs em prática sua ideia ele percebeu o quanto ela era estúpida. O gelo ao invés de obedecê-lo se voltou contra ele e Bi-Han ficou com o braço dormente. Em seguida o ninja recebeu um chute no estômago que o fez voar longe e acertar uma árvore com as costas.

- Nós eramos milhões, agora somos apenas poucas dezenas. - Disse o pai da dupla. - Não podemos nos deveríamos nos matar. Mas se preferem assim. - O "demônio de gelo" começou a invocar uma bola de energia similar a usada pelos dois Sub-Zeros, porém essa era muito mais agressiva. Se lançada não iria atingir apenas um alvo ou dois, mas sim uma área considerável. Bi-Han tinha que pensar rápido se não quisesse morrer. Aquele tipo de congelamento seria demais até mesmo para ele e seu irmão suportarem.

- Kuai Liang, faça aquela bobagem. - A luta sincronizou suas mentes, Kuai Liang entendeu o que Bi-Han quis dizer mesmo ele não tendo sido claro. O Sub-Zero caçula invocou sua espada de gelo enquanto seu irmão mais velho congelou o chão e fez dele pista de patinação para impulsionar uma rasteira exagerada. Apesar de poderoso, sem o apoio dos pés, o "demônio de gelo" tombou de frente indo em direção à espada de Kuai Liang. A arma congelada acertou a cabeça do adversário em cheio, separando-a do seu corpo e arremessando-a para longe. Enquanto ainda estava no ar, Bi-Han lançou um raio na cabeça congelando-a. O som de vidro quebrado anunciou a morte definitiva do cryomancer.

- Brutalidade! - Comentou Kuai Liang.

O adestramento psicológico desde a mais tenra idade faz com que até mesmo os mais poderosos se curvem aos desejos dos menos capazes. Ajoelhados e sem ousar olhá-lo de frente, Bi-Han e Kuai Liang saudavam o mestre Lin-Kuei. Mesmo eles sendo capazes de tomar o clã para si facilmente.

- Bi-Han, você participará de um torneio de artes marciais para defender nossa honra.

- Mas, mestre, essas disputas não são frívolas? - Perguntou Bi-Han.

- Não essa. O mundo está uma bagunça, chegou a hora dos humanos saírem do comando e darem a vez para mãos mais capazes.

- E enquanto a mim? Participarei desse torneio também? - Indagou Kuai Liang.

- Só é permitido um lutador por clã. Para você tenho outro plano. - O mestre supremo deixou Bi-Han de lado por um momento enquanto levou Kuai Liang até um outro aposento do templo. O quarto foi adornado para receber uma criança, um cuidado estranho ali. Cheio de brinquedos e bichinhos de pelúcia fofos. A maioria deles, porém, já estragados pelo gelo. Sentadinha no meio do quarto, uma menina rechonchuda de quatro anos brincava criando cristais de gelo e os fazendo voar pelo quarto.

- Ela é uma...?

- É.

- Minha irmã?

- Não, ela é pura. Vê os seus cabelos prateados? Seu pai tarado não foi o único de sua espécie a se refugiar nesse mundo. Onde foram parar os pais da criança, no entanto, é um mistério. Podem inclusive estarem por aí procurando sua cria.

- Duvido. - Disse Kuai Liang motivado pelo que aprendeu a respeito da empatia cryomancer. Sobre a garota, o que mais o surpreendia era que brincando ela conseguia produzir mais frio do que ele, seu irmão e seu pai juntos. - Ela tem nome?

- Não que eu saiba.

- Não a ofenda batizando-a com um nome humano. Ela precisa de um nome a sua altura, de uma verdadeira deusa do gelo. Frost.

- Apesar de poderosa, como qualquer guerreiro(a), ela precisará de um mestre.

- Ficarei honrado.