Vendetta

Capítulo 1:

"Eu não posso deixar que nada de mal aconteça a ela. Se puder dar a minha vida para mantê-la segura, eu darei". Era o pensamento que Roxton repetia para si mesmo enquanto caminhava, atordoado, de volta para a casa da árvore. Mal podia acreditar na manhã que tivera. "E logo agora que estávamos ficando mais e mais próximos; que ela finalmente confessou seu amor por mim e resolveu se entregar...". A expressão do homem foi ficando cada vez mais triste enquanto o elevador subia. "Mas o que eu vou inventar para que ela se afaste de mim sem possibilidade de volta?". De repente, a ideia lhe surge. Sórdida, suja, indesculpável; mas o homem não via outra saída. Teria que ser feito.

Verônica preparava o almoço e Malone a ajudava. Enquanto isso, Challenger trabalhava em seu laboratório e Marguerite lia na sala.

– Bom dia, John. – disse ela sorrindo discretamente para o caçador quando o viu sair do elevador.

Desde o dia em que ambos ficaram presos numa caverna por um dia inteiro os demais habitantes da casa da árvore vinham percebendo que a relação entre eles havia mudado: Marguerite saía praticamente todos os dias para acompanhar Roxton em suas caçadas; iam passear de vez em quando numa praia próxima; além das constantes idas dela para o quarto dele durante a noite. A herdeira começou a ter pesadelos estranhos há apenas algumas semanas e a única maneira de voltar a dormir tranqüila era aconchegada nos braços de seu amado. Ela não queria falar nada para ninguém sobre os tais pesadelos (decisão que John soube respeitar) e também achava que ninguém mais havia percebido suas escapadas noturnas.

Ao sair do elevador, John ouviu o cumprimento da herdeira, mas não respondeu. Limitou-se a olhá-la com indiferença e seguir para o quarto. Um banho era tudo o que ele precisava naquele momento.

Marguerite estranhou o comportamento do caçador e vasculhou a própria memória tentando encontrar algo que ela possa ter feito e que pudesse tê-lo deixado com raiva; não encontrando nada deu de ombros e voltou para a leitura esperando que à tarde as coisas melhorassem.

Almoçaram todos juntos, em silêncio quase todo o tempo. O estranho comportamento do caçador havia sido percebido por todos.

Em seguida, cada um buscou uma atividade para passar o tempo: Challenger logo se retirou de volta para o laboratório, Marguerite foi cuidar do jardim e Roxton sentou-se na varanda para limpar suas armas. Verônica conversava aos sussurros com Malone na cozinha.

– Ned, você também percebeu um clima pesado entre Roxton e Marguerite?

– Sim, Verônica... Os dois parecem ter se afastado um do outro. Acho que vou tentar falar com ele mais tarde; saber se há algo em que eu possa ajudar.

– Boa ideia. Falar com Marguerite não vai adiantar de nada, já que ela nunca se abre para qualquer um de nós mesmo.

– O que acha de um pequeno passeio agora, Verônica? Apenas eu e você. – Malone sorria meio sem jeito para a loira.

– Claro, Ned! Que bom que perguntou. – A moça devolve um largo sorriso.

Alguma horas cuidando das plantas fizeram muito bem à Marguerite. Mais calma, ela estava decidida a descobrir o que estaria acontecendo com John. E foi com essa intenção que ela voltou para a casa da árvore tão logo terminou sua tarefa e se dirigiu para a cozinha a fim de preparar o melhor café que pudesse (para os poucos dotes que possuía nessa área).

Roxton, distraído em seus pensamentos mais do que limpando suas armas, não percebeu a movimentação na cozinha e nem tampouco quando a morena se aproximou dele.

– John, trouxe para você – disse ela estendendo uma das xícaras que carregava.

– O que é? – respondeu ele voltando de seus pensamentos e, no entanto, sem tirar os olhos de suas armas.

– Café. Eu mesma preparei. Não é como o seu, mas dá pra tomar. – declarou a mulher com um sorriso no canto da boca e orgulhosa por ter feito algo para agradar seu caçador.

– Obrigado. – foi a seca resposta de Roxton, ignorando completamente o elogio que lhe havia sido feito.

Marguerite sabia o motivo que a havia levado a ir falar com ele; apenas por isso respirou fundo e sentou-se à frente dele. O silêncio era desconcertante.

Ela não sabia como começar e o homem não estava, aparentemente, interessado em conversa.

– Ouça, John. Eu lhe fiz alguma coi...

– Meus amigos, eis a minha mais nova descoberta! – Era um sorridente Challenger que surgia erguendo para eles um pequeno copo onde podia ser visto um ralo líquido verde musgo. O cientista não percebeu que havia acabado de interromper uma conversa.

– O que é isso, George? – perguntou Roxton apenas para tentar fazer com que um novo assunto surgisse.

– Pois muito bem, meu amigo, isso é um ácido poderosíssimo. Capaz de corroer até o mais resistente dos materiais, eu ousaria dizer.

– E você pode nos fazer uma demonstração?

– Mas é claro, John! Esperem um minuto. Eu vou até o laboratório pegar alguma coisa que possa ser usada para um teste.

Nesse momento, ouve-se o barulho do elevador e Verônica e Ned surgem.

– E então, como foi o passeio? – Marguerite finge interesse.

– Muito agradável... Mas o que é isso de cor estranha? – Malone aponta o copo na mesa.

– É um "ácido poderosíssimo". A nova invenção de Challenger. – a resposta veio cheia do sarcasmo habitual da morena. – Eu vou até a cozinha pegar mais café. Você quer que eu pegue mais para você, Roxton? – Marguerite espera a resposta olhando diretamente para o caçador.

– Não, obrigado. – o homem responde simplesmente e o mais distante possível.

Optando por não pressioná-lo, Marguerite se levanta e estende a mão para alcançar a caneca dele. Bem no caminho estava o ácido de Challenger; sem querer Marguerite esbarra no copo fazendo-o balançar e virar, despejando o conteúdo sobre a mesa. Os quatro vêem o líquido escorrer sob um dos um dos rifles de Roxton. A morena sente um nó na garganta com a imprevisibilidade da reação que estava por vir, mas esta não tardou em vir à tona...

– O QUÊ? MARGUERITE, O QUE VOCÊ FEZ? – E pegando o rifle atingido com cuidado o caçador continua a gritar – OLHA O QUE VOCÊ FEZ COM MEU RIFLE! – constatando a situação deplorável em que ficou sua arma, realmente corroída e completamente inutilizada.

– Meu Deus, John, me perdoe! Foi um acidente!

– MENTIRA! VOCÊ FEZ DE PROPÓSITO APENAS PARA CHAMAR MINHA ATENÇÃO! – Ele era tomado pela raiva (mais de sim mesmo que do acidente que acabara de acontecer).

– Mas é claro que não! E eu estragaria uma de suas armas mesmo sabendo o quanto gosta de cada uma delas? – Marguerite estava atônita com tudo aquilo.

– É SEMPRE ASSIM, NÃO É? VOCÊ NUNCA FAZ A COISA CERTA. SEMPRE EGOÍSTA. VOCÊ JAMAIS MUDARÁ!

– Você sabe que não é verdade... Porque está fazendo isso, Roxton? – a voz da herdeira mal saía, as lágrimas começavam a cair e ela odiava não conseguir se manter fria diante de tudo. Além disso, ninguém entendia porque Roxton estava pegando tão pesado.

– Pare, Roxton. Não deixe que a raiva momentânea tome conta e você acabe dizendo coisas das quais possa se arrepender depois. – intervém Verônica que até então se mantinha calada com Ned ao seu lado, ambos assustados com tamanha explosão de John.

Mas o golpe final teria que ser dado e essa era a oportunidade que o Lorde havia enxergado para afastar de vez Marguerite. Ele teria que reviver aquele que um dia fora, mesmo que ele odiasse esta parte de si: o mulherengo famoso em Londres se mostraria uma vez mais. E para sua mais profunda tristeza, com a mulher que mais amou em toda a sua vida. John anda lentamente para a frente de sua amada e, tentando parecer convincente embora não olhasse diretamente nos olhos dela, diz:

– Sabe, Marguerite, você tem razão. Eu não conseguiria apresentar você como minha mulher para toda a sociedade se um dia voltássemos a Londres. Pelo menos o que eu queria de você – ele engole em seco – já consegui – e passa um dedo por sobre a blusa de Marguerite na altura do decote.

A herdeira ficara sem reação. Não conseguia acreditar em seus ouvidos. As lágrimas agora banhavam todo o seu rosto. Aquele não podia ser o John que conhecia. O seu John.