Brasil, Bahia, Salvador. Durante a noite, nas imediações do Farol da Barra, um velho pescador tentava com seu anzol puxar algum peixe das águas. Sua pescaria demonstrava que seria infrutífera, horas perdidas em vão. Aquela noite o vovô não iria pescar nem mesmo uma tainha, porém, a visão que teve fez com que seu tempo gasto valesse a pena.

A mulher emergiu das águas trajada com um longo vestido azul e uma tiara branca, seu tamanho e imponência demonstravam o poder do seu reino. A rainha das águas media facilmente trinta metros. No primeiro momento o velhinho teve medo, mas quando percebeu quem era a entidade apenas a saudou com um: - Odoyá, minha mãe.

O corpo da mulher gigante se transformou em água do mar, ela encolheu em seguida, mudando de roupa e forma. Ainda preservando suas cores favoritas, o azul claro e o branco, ela se tornou uma jovem beirando os trinta de pele escura e cabelos crespos presos em um coque. Short jeans curto e uma blusa regata com uma estampa qualquer. Não atrairia suspeitas a deusa disfarçada de gente.

Encostado na beirada da orla da praia, como um mortal qualquer, uma entidade superior contemplava o céu nublado se sentindo indignado. - Me mandou chamar, Xangô? - Perguntou a Rainha do Mar ao se aproximar do seu colega. Ele estava disfarçado como um homem louro, vestido todo elegante de terno e gravata.

- Percebe, Iemanjá? O céu está nublado, mas não há o som de trovões nem de raios.

- As vezes acontece, o que isso tem de mais?

Xangô socou a mureta da beirada e mesmo com sua força reduzida nessa forma conseguiu abrir várias rachaduras. - Eu estou furioso! Os céus deveriam acompanhar minha ira, mas não o fazem. Sabe por quê? Roubaram meu machado!

- E quem poderia roubar a arma de um orixá?

- Você bem sabe a resposta à essa pergunta.

- O que está insinuando?

- Seu filho. Ouvi de fonte segura que ele tem minha arma em posse ou sabe onde achá-la.

- É um absurdo! O menino tem fé no nosso mundo, mas não o conhece.

- Não quero saber, se em quinze dias eu não tiver minha arma de volta, até o Orun irá tremer e seu garoto será o primeiro a sofrer.

XXX

- Você é macumbeiro? - Perguntou o colega de classe, achando que o discurso do outro era brincadeira.

- Sim, por quê? - Respondeu Pedro, um garoto de quinze anos, em um surto de sinceridade.

Ao ouvir aquela resposta, o garoto cristão ortodoxo fez uma expressão de medo como se tivesse ouvido do colega que ele era seguidor de Satanás. - Mas por que, cara? O que você ganha nessa religião? Jesus se sacrificou por nós, que sacrifício esses seus orixás fizeram por você?

Pedro desconversou, ele teve melhorias em sua vida ao entrar no candomblé, mas não se sentia a vontade em revelá-las a qualquer um. Primeiramente porque a maioria das pessoas não entenderia e depois porque em seu terreiro sempre lhe ensinaram a não revelar à pessoas que não eram de total confiança suas bençãos.

Voltando do seu colégio público à sua casa, Pedro Jaquison contou a sua mãe a experiência ruim que teve. Apesar de não ter sido abertamente ofendido, ele se sentiu chateado com a conversa. - Filho, não se deve revelar nossa vida particular a qualquer um. Muita gente não entende nossa fé então chega a ser perigoso ficar ostentando ela. Lembra da sua tia? Ela nem do candomblé é, mesmo assim evita conversar sobre religião.

Pedro ficou indignado e deu um tapa forte na mesa onde estava sentado almoçando. Ele perdera a fome. - Na porcaria desse país você é obrigado a ser católico ou evangélico. Merda, até parece que a gente ainda não saiu da idade média. Sim, eu acredito em vários deuses e mato algumas galinhas de vez em quando! Caralho, isso é algum crime? Ninguém liga para a galinha morta no churrascão de domingo ou no mcdonalds, mas já em um ritual sagrado as pessoas simplesmente surtam e de repente passam a considerar a vida da galinha valiosa.

Pisando duro, Pedro foi até o seu quarto terminar de engolir suas frustrações com um celular na mão e um fone nos ouvidos. Nada como um pouco de Death Metal para esquecer dos problemas.

XXX

Praia do Forte, Castelo Garcia D'avila. Pedro visitava o ponto turístico por causa de uma excursão escolar. Durante a viagem Pedro tentou conversar com o rapaz a qual ele confessou sua religiosidade, mas acabou descobrindo que havia perdido sua amizade. - Ele nunca foi seu amigo de verdade. - Uma voz se fez presente nos ouvidos do menino mulato, mas ele ignorou, atribuindo a um pensamento corriqueiro.

Os estudantes se espalharam entre o castelo em si e a área anterior, uma construção bela por ser rústica que tinha sala de vídeo, que passava sempre o mesmo documentário contando a história do lugar, uma lanchonete e uma outra sala onde havia ossuários e ferramentas antigas já enferrujadas pela passagem dos séculos. Ao redor das construções muito verde e ar puro.

O tempo foi inclemente com o castelo, as partes de rocha, mais resistentes, perduraram, mas as partes de madeira a maioria cederam. Escadas e pisos de ferro que substituíam o andar de cima derrubado permitiam aos visitantes olharem a bela vista do segundo andar. Em um momento que estava sozinho, uma professora o chamou. - Pedro, você poderia me dar uma ajuda?

- Claro, professora.

O cérebro do garoto demorou a assimilar o que veio a seguir. As roupas, a pele e a carne da professora eclodiram dando vasão a uma criatura escura, com um olhar avermelhado e aspecto ameaçador. De tão assustado Pedro não conseguiu gritar, o monstro possuidor de assas o agarrou pelos ombros e o levou para bem alto. Por algum motivo ninguém viu o evento fantástico.

- Me dê o machado! - Gritou o monstro alado que antes era uma professora de dócil temperamento.

Subitamente Pedro recuperou a voz. - Que machado? - Várias coisas rondaram a mente daquele jovem. Um monstro sugador de almas, um demônio... Todos esses pensamentos tinham origem mais nos filmes de terror e nos jogos de RPG que gostava do que em qualquer fé.

- Largue o garoto! - Para a surpresa de Pedro um segundo professor tinha a habilidade de voar, mas esse pelo menos não precisou se transformar em um monstro. O professor apontou sua mão para a entidade das trevas e dela saiu uma luz cegante. A criatura fugiu e o menino foi resgatado. Sendo levado ao chão pelos braços por seu salvador.

- O que era aquilo, professor Anselmo?! - Perguntou Pedro elevando o tom devido ao assombro.

- Uma quiumba. Credo! Xangô deve estar realmente desesperado pelo seu machado ao ponto de pedir ajuda a criaturas tão inferiores.

- Você voou!

- Menino, fale baixo. Quer que todo mundo escute?

- O que diabos é você?

Anselmo deu um sorriso de nervoso, pois não sabia como proceder com aquela conversa e continuar com sua credibilidade. - Sabe aqueles orixás que você e sua mãe prestam oferenda? Bem, não há forma fácil de se dizer isso: eu sou um deles.

- O quê?!

- Agora que você já sabe o que eu realmente sou, pode me chamar de Oxaguian.

XXX

A descoberta de que o seu professor de história era um orixá nem foi a mais estranha do dia. O pior foi descobrir que sua mãe já sabia. Pedro não voltou à escola depois do passeio escolar, foi trazido para sua casa pessoalmente por Anselmo, ou Oxaguian, em seu corvette 66.

- Você é filho de Iemanjá. - Disse sua mãe.

- Sim, isso eu sei desde que rasparam minha cabeça. E daí?

- Não, você não entendeu. Você não é apenas um humano com as características do orixá na frente da sua cabeça. Você é filho carnal da Rainha do Mar. Ela o pariu.

- Então você não é minha mãe?

Ao ouvir aquela pergunta a mulher sentiu um aperto no peito. Lágrimas quase rolaram do seu rosto. Ela só conseguiu acenar positivamente com a cabeça.

- E meu pai, quem é? Outro orixá?

- Não! - Sua mãe de criação respondeu de uma maneira tão enérgica que o adolescente tremeu. - Seu pai é o seu pai.

O pai de Pedro havia morrido há quatro anos, vitima de um acidente automobilístico. Apesar de estar envolto a uma situação séria, Pedro não conseguiu deixar de pensar naquilo. - Porra, meu pai era tão foda que catou até uma entidade.

- Se despesca da sua mãe. Tenho que levá-lo a um lugar seguro. - Pedro Jaquison se negou a acompanhar o seu professor, mas ele o advertiu que se continuasse morando naquela casa colocaria a sua vida e a de sua mãe de coração em perigo. - Xangô está puto com sua cara, por algum motivo ele acha que você roubou seu machado. Aquela quiumba foi só uma amostra, coisas muito piores virão.

XXX

- A situação de professor está tão ruim assim? Você não poderia comprar um carro mais novo?

- Você não sabe de nada, moleque. Esse é um clássico.

Seguindo pela avenida Dom João VI e a Mario Leal Ferreira, professor e aluno chegaram ao Dique do Tororó. Um lago artificial adornado com figuras feitas à ferro dos principais orixás. Os da terra ficavam na área em que os cidadãos se exercitavam em caminhadas e corridas. Os da água ficavam no meio da lagoa, só sendo vistos mais de perto através de canoas. Alguns adeptos inclusive pagavam para usar uma delas para entregar oferendas.

- O Dique do Tororó é o "lugar seguro"? Até que foi previsível.

- Não garoto, o lugar seguro não é aqui. - Riu Anselmo só de imaginar a expressão de fascínio do garoto ao se deparar com o lugar onde estavam indo, um pedacinho do Orun na Terra.

Como já era de madrugada, as ruas estavam desertas, ninguém além de Pedro, seu professor orixá e um mendigo bêbado viram a chegada do monstro. Quatro metros de altura, peludo e só tinha um olho enorme na cara. Sua boca ficava no meio da barriga. - Um mapinguari! - Quando Anselmo viu o monstro acelerou o corvette 66, mas os braços fortes da criatura o alcançaram e fizeram o carro capotar. Pedro ficou tonto e um pouco ferido, seu professor ficou em estado pior, perdendo os sentidos.

- Anda, senhor Anselmo. - Disse Pedro balançando o corpo desacordado do homem. - Oxaguian, você é um orixá! Como pode desmaiar? - O monstro continuou a agredir o carro. Se continuassem ali não duraria muito para que fossem esmagados. - Odoyá, minha mãe. Se a senhora se preocupa com seu filho, a hora de provar é agora.

- Água. - A voz em sua mente de novo. Dessa vez o adolescente duvidava que ela vinha de sua cabeça e não de uma fonte externa. O menino pediu perdão ao seu professor por abandoná-lo e saiu se arrastando do carro. O mapinguari assim que o viu correndo, se esqueceu de Oxaguian e foi seguir o seu alvo. O monstro quase o pegou, mas no último instante Pedro conseguiu se jogar na água.

O contato com seu elemento curou suas feridas e o deixou com a certeza de que poderia ganhar. Pedro não era bom nadador e até tinha medo de se afogar, mas agora parecia exercer total domínio sobre a água. O adolescente saiu do lago com uma facilidade que ele não achava ser possível. Chamou a atenção do monstro e seguiu o que seu sangue divino lhe dizia. Ele apontou a mão direita para o mapinguari como se ela fosse uma arma e respondendo ao seu comando a água da lagoa se revoltou. Uma tromba d´água se ergueu com fúria e engoliu o monstro. Com mais um movimento de mãos Pedro conseguiu que o mapinguari fosse tragado pela lagoa.

Esgotado, Pedro estava prestes a desmaiar, quando ouviu um aplauso. Era Anselmo. - Não, você não fez isso! Você se fingiu de desmaiado?!

- Tudo deu certo, não deu? E você precisava dessa lição para aprender a se virar sozinho. Não irei guiá-lo por toda sua vida.

XXX

Ao lado do dique, em um canto muito discreto, há um parquinho abandonado que não é usado por ninguém. Gaiolas vazias empoeiradas indicavam que aquele lugar já havia recebido visitas e que pássaros eram criados. Hoje em dia se tornou apenas um esconderijo para drogados alimentarem seus vícios. Anselmo deu um pontapé no pequeno portão de ferro, fazendo com que ele abrisse em um ranger incomodo.

- Então? - Perguntou Pedro. - É aqui?

- Não exatamente. - O orixá fez uma mágica que abriu um portal. A grande porta de luz aberta revelava que do outro lado havia uma paisagem cheia de verde e belas casas de madeira. Haviam muitas pessoas também, vestidas das maneiras mais diversas possíveis. Eram homens, mulheres e crianças de toda parte do mundo. Do Brasil aos EUA, África e até mesmo Europa e Japão.

- Que lugar é esse?

- Nós estamos no Aiye, o mundo material, esse portal abre uma passagem ao Orun, o mundo espiritual. Não todo ele, só uma parte. Foi criado para refugiar os de sangue divino que se encontram em perigo.

- Mas são tantos!

- Você não faz nem ideia. Entre eles há músicos famosos, artistas renomados, grandes empresários e inclusive políticos.

- Sério? Me diga um.

Anselmo ignorou a pergunta de Pedro e o puxou para dentro do portal, assim que passaram ele se fechou.

Como Oxaguian havia previsto, Pedro ficou besta ao ver aquele mundo que era ao mesmo tempo estranho e familiar a ele. Oferendas eram colocadas em lugares organizados e ninguém sentia receio em passar por perto delas. Mulheres se embelezavam com torsos e homens usavam batas não importando qual era sua origem étnica. Todos pareciam trabalhar e conviver em paz numa versão idealizada de vida interiorana de décadas atrás.

Mas nem tudo naquele pedacinho do Orun era paz e amor, haviam também os treinos físicos e de luta que alguns com aptidão para a tarefa se prontificavam. O que não faltava eram orixás guerreiros e eles assim faziam sua influência.

De tantos jovens que treinavam, uma mulher atraiu seu olhar. Ela era asiática, mas seu corpo era muito voluptuoso, cheio de curvas. Algo que dava para perceber mesmo estando vestida com aquela roupa que mais parecia saído do seriado Xena. - Seu nome é Nakamura. - Disse Oxaguian. - Filha de Ogun. Se quiser tentar a sorte com ela se prepara. A moça é braba. - Assim que o orixá terminou de falar Pedro assistiu à garota desarmar seu adversário e golpeá-lo com a base da espada no nariz fazendo-o sangrar.

XXX

- Esse lugar é lindo, não dá para negar. - Disse Pedro à Oxaguian. - Mas eu não posso ficar aqui para sempre, tenho uma vida lá fora. Isso sem contar com minha mãe, ela deve estar morrendo de saudades.

- Seja paciente, espere pelo menos quinze dias, até lá tenho certeza de que sua outra mãe irá dar um jeito de acalmar Xangô.

Ao ouvir Oxaguian mencionar a palavra "outra mãe", Pedro entendeu que ele se referia a sua biológica. - Como ela é? Quer dizer, minha mãe orixá?

- Linda. Daquele tipo de pessoa que costuma ser bem serena, mas que quando perde a calma é melhor os outros saírem do caminho. - Pedro se viu um pouco naquela descrição.

- Por que ela nunca apareceu para mim, assim como você está fazendo agora?

- Os orixás podem ter quantos filhos quiserem com os mortais, porém não podem conviver com eles. Uma lei do nosso grande líder Olorun que eu nunca vou compreender. Ainda bem que nunca tive filhos.

A conversa foi interrompida quando Pedro recebeu tapinhas nas costas que deveriam ser cordiais, mas que foram muito fortes para tanto. - Se o novato ficar o dia todo sem fazer nada vai engordar. - Ele beirava os vinte e cinco e era portador de uma disposição irritante. Era atlético, bonito, comunicativo e se gabava por ter muitas namoradas. - Meu nome é Ferreirinha, sou filho do grande Olorun. - Por ser filho do principal orixá, Ferreirinha era detentor dos poderes e das graças de todos os demais. Algo assim não deixava ninguém humilde.

À Pedro foi entregue uma espada de combate, já iria começar a treinar esgrima com uma arma afiada. Para a surpresa até mesmo do garoto, ele se saiu excepcionalmente bem no treino. Ele digladiou com uma guerreira experiente e mesmo assim conseguiu ferir o seu franco. - Desculpa. - Pediu Pedro por não estar acostumado a machucar uma mulher.

- É, você tem o lado guerreiro de sua mãe. Não se preocupe, com um pouco de axé isso cura.

- Como assim?

A garota demonstrou a cura pelo axé ao levar Pedro até uma das oferendas. - Consegue sentir? - Perguntou a moça.

- Sentir o quê?

- A energia que sai desse prato de barro com farinha amarela, carne de galinha e verduras.

- Não.

- Então observe. - A garota pôs as mãos sobre a oferenda e pareceu entrar em um estado de transe, no mesmo instante as comidas no prato feneceram ao ponto de se tornarem pó. Geralmente Pedro se sentiria envergonhado por tocar na barriga de uma menina a qual não era intimo, mas ele tinha que se certificar com mais provas do que seus olhos podiam proporcionar.

- Você está curada! Como?!

- Aqui no Orun as energias espirituais são mais radicais do que no Aiye. Nossos poderes também ficam mais afiados. Cuidado, isso tem seu lado bom, mas também pode ser perigoso.

- Menina, muito obrigado por me mostrar essa magia. Qual o seu nome?

- Odara, sou filha de Omolu, o que tem poder sob as doenças e as curas.

XXX

Dia de São Cosme, uma festividade que era comemorada entre os mortais e os meio mortais. Enquanto o caruru era distribuído e pessoas comiam vorazmente, o portal que ligava o Aiye àquele pedaço do Orun se abriu. O primeiro pensamento da maioria era que se tratava de um mestiço novo, mas estavam enganados. Era um orixá de sangue puro e muito idolatrado. Xangô. E ele estava irritado. - Meu machado! Pedro Jaquison, me devolva!

- Cansou de mandar seus bichinhos de estimação e resolveu cuidar do assunto como homem? - Provocou Oxaguian, o único orixá puro presente fora o invasor.

- Você não cansa de ser o cãozinho da Rainha das Águas? - Xangô deu um soco em Oxaguian forte o suficiente para fazer com que fosse arremessado a uma velocidade estupida e destruísse uma casa com seu impacto. - Se ainda estivesse com meu machado eu o cortaria ao meio.

Oxaguian voou em direção ao orixá dos trovões e o puxou para cima, levando aquela batalha para os céus com o intuito de proteger os civis. Socos e chutes foram trocados e os estrondos dos golpes mais pareciam trovões. A batalha entre dois deuses era impressionante de assistir. No meio dela, Xangô deu um soco para baixo que fez com que seu oponente despencasse tal como um foguete. Uma cratera se abriu e a onda de impacto derrubou grande parte dos presentes.

Pedro Jaquison desobedeceu a ordem de seus colegas de sangue mestiço e se aproximou do seu professor abatido. Dessa vez seu desmaio era genuíno.

Xangô desceu do céu e ficou cara a cara com o adolescente. O orixá o pegou pela garganta e repetiu sua ladainha. - Meu machado! - O aperto era forte o suficiente até mesmo para matar alguém agraciado com sangue divino, mas Pedro foi salvo por duas pessoas que ele não esperava. Mesmo sabendo que não tinham chance contra um deus, as duas meninas o golpearam no braço e pelas costas. Nem mesmo um arranhão.

Odara e Nakamura, a primeira se tornou amiga de Pedro e a segunda o admirava por enfrentar um orixá de forma destemida. Xangô riu com a atitude das meninas. - Garoto, você deve ter herdado o sangue doce de sua mãe. Duas de uma vez?

- Ele não roubou seu machado. - Disse Odara.

- Então quem foi?

- E eu sei lá. - Respondeu Pedro. - O machado é seu, a responsabilidade é sua. - A resposta desaforada fez com que Xangô sentisse vontade de esganá-lo novamente, mas antes que tomasse qualquer decisão, Oxaguian acordou e saiu voando de sua cratera. Ele derrubou seu oponente no chão, o imobilizando. A sequência de socos foi tão rápida que impressionou a todos. O grande guerreiro dos trovões ficou mole com tanta porrada e apagou. Quando acordou estava preso em correntes com uma magia forte o suficiente para deter divindades.

- Isso não vai ficar assim! - Gritou Xangô a ouvidos mudos de dentro de sua cela improvisada.

XXX

- Ele é imortal, não podemos deixá-lo preso para sempre. - Disse Oxaguian. - Infelizmente vamos ter que procurar esse bendito machado.

- Por onde começamos? - Perguntou Pedro.

A dupla se arrumava para a viagem, quando o adolescente foi abordado pelas duas garotas. - Também iremos. - Era um sonho juvenil se realizando, duas beldades tendo algum interesse, mesmo que não fosse sexual, por ele.

- Mas essa luta não é de vocês, o acusado sou só eu.

- Eu decido quais lutas serão minhas ou não, quem disser o contrário quebrarei o braço. - Falou Nakamura, deixando evidente seu sangue de Ogun.

Oxaguian levou o grupo de jovens a outro ponto da cidade que quase ninguém sabia ter um segredo. Na Avenida Sete Portas, perto de um ponto de ônibus que atrás é cercado por consultórios odontológicos, há uma cartomante. Essa cartomante, porém, não é normal.

O trio de adolescentes não ficou nem um pouco impressionado com a decoração, o lugar não parecia ser nem um pouco mágico. Mas essa era a sua graça. A cartomante sentava atrás de uma mesa coberta por um pano vermelho, havia uma cesta com búzios e até uma bola de cristal. Mas tais instrumentos eram só para impressionar os humanos normais, ela não precisava disso para exercer seu poder.

- Ia Mi Oxorongá, precisamos de sua ajuda. - Ao ouvir o seu nome real, a cartomante subitamente mudou de expressão.

- O que um orixá e três mestiços desejam saber? O garoto filho das águas é danadinho. Sonha em levar as duas para a cama.

Pedro arregalou os olhos e enrubesceu ao ponto de ser perceptível mesmo com sua pele mulata. Durante alguns segundos ele não ousou se virar para encarar nenhuma das duas. Odara também se sentiu envergonhada. Já Nakamura, que pouco conheceu esse sentimento em sua vida, achou graça da ideia e até já começara a cogitar em uma "brincadeira" à três.

- O machado de Xangô foi roubado. Queremos recuperá-lo.

- Para vocês é sempre assim. Basta ter um problema que não conseguem solucionar e veem a mim. Nem se preocupam em queimar um pouco a mufa para resolvê-lo. Eu já vi esse machado sendo roubado e o momento em que ele será devolvido. Do contrário eu não seria uma boa vidente. Vocês encontrarão o machado, mas vivos ou mortos vocês não retornarão dessa jornada os mesmos. Inclusive você, senhor imortal.

- Só nos diga o nome do ladrão e onde encontrá-lo.

XXX

A embarcação era um pouco maior do que uma canoa de porte médio, ela trafegava não em um rio ou no mar, simplesmente voava. Tal acontecimento mágico geralmente só podia acontecer no Orun. Aquele lugar, no entanto, era um pedaço do mundo espiritual que nem mesmo Oxaguian com tantos milênios de existência conhecia. O céu ao redor daquele lugar tinha um tom alaranjado e, para o desespero de todos os quatro, olhando para baixo não dava para enxergar nenhuma menção de chão. Para onde uma queda ali ia dar?

- Tem certeza de que o ladrão do machado de Xangô está por aqui? - Perguntou Pedro, quase tremendo devido ao seu medo de altura. Nakamura percebeu sua fobia e se enojou com aquilo que achou uma demonstração de fraqueza.

- As Ia Mi Oxorongá nem sempre são confiáveis, mas nunca mentem em suas previsões. Se uma delas diz que encontraremos o bandido aqui então isso é um fato.

A conversa foi interrompida pela aparição de um verdadeiro exército de criaturas voadoras, mas etéreas do que físicas. Cheiravam a gente morta, o que de fato é o que eram. - Eguns sem luz! - Gritou o orixá. Os espíritos ruins tentavam derrubar os tripulantes da embarcação. Odara afastava os que se aproximavam com feitiços enquanto Nakamura eliminava aqueles que estavam ao alcance de sua espada. Pedro tentou ajudar, mas seu medo de altura o prejudicou, tornando-o só um peso morto na batalha. No fim ele se resumiu a ficar encolhido em um canto, torcendo para que a canoa não virasse.

Oxaguian não deixou a proteção da embarcação, pois não sabia como seus poderes de voo operariam ali. Se os eguns faziam tanta questão de trazer até mesmo ele, um orixá, para fora da canoa, muito provavelmente isso significava que ele não conseguiria voar. Apesar disso Oxaguian era o que mais derrotava eguns, as luzes emanadas de suas mãos afugentavam os espíritos as dezenas.

XXX

O destino da viagem era uma casa que se mantinha fixa no céu, algo assim só podia ter sido feito por intermédio de uma magia poderosa. Sem ter o mínimo de zelo, Oxaguian fez questão de aportar a canoa da pior maneira imaginável. O orixá jogou a embarcação contra a parede da casa atravessando-a. Ele não queria ter um pingo de consideração por nada que fosse do bandido que causou todo esse transtorno.

A casa se resumia a um quarto suntuoso com direito a banheiro privativo, televisão de setenta polegadas e uma prateleira cheia de filmes que ainda nem foram filmados. Ser filho de alguém que está acima do tempo e do espaço tinha suas regalias. O que deixou Oxaguian indignado foi o fato da arma de Xangô estar sendo usada como um objeto de decoração qualquer. Isso sem contar com a petulância do ladrão, que descansava seu marasmo deitado em uma cama luxuosa literalmente coçando o saco.

- Ferreirinha, foi você?! - Gritou o orixá.

Como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo, Ferreirinha respondeu com indiferença. - O que vocês fizeram com minha parede? Olorun, meu pai, não vai gostar.

- Ele não irá gostar é de saber que seu filho é um ladrão! - Frente a acusação, Ferreirinha se levantou e se preparou para uma batalha. Com as duas mãos apontadas para Oxaguian lançou sua magia. O orixá a defendeu com um contra-ataque, os raios místicos se encontraram e uma guerra de poderes teve início. - Você é só um mestiço, garoto. Eu sou uma divindade.

- Não sou "só um mestiço". Não se esqueça de quem é o meu pai. - Ferreirinha aumentou a potência de sua magia, o que pegou Oxaguian desprevenido. O orixá foi atingido em cheio pela força do ataque e jogado para fora da casa. Como ele havia presumido, a mágica que circulava aquele ambiente impedia seu voo. Oxaguian caiu e sumiu de vista. Os três adolescentes se entreolharam com medo, inclusive Nakamura.

Como era a mais proativa do grupo, Nakamura foi a primeira a tomar uma atitude. Mesmo sabendo que não tinha muita chance, seu sangue guerreiro a impeliu à luta. As várias investidas de sua espada eram defendidas por Ferreirinha com os seus braços nus. Nem uma gota de sangue do semi-orixá foi derramada. Para finalizar, ele deu um tapa com as costas da mão direita na menina tão forte que ela saiu voando, se chocou contra uma parede e perdeu os sentidos.

Em defesa da honra de sua amiga, Odara lançou um feitiço no seu adversário. Ferreirinha ficou com o rosto e os braços cheios de bolhas de pus e pústulas, mas não por muito tempo. Ele se curou da doença lhe passada incrivelmente rápido. - Uma filha de Omolu? Me pergunto como aquele homem todo cheio de cicatrizes consegue paquerar uma mulher. Será que ele vai na tora? - Ferreirinha devolveu a magia usada contra ele. Só que a constituição de Odara não era nem de perto igual a dele. Ela perdeu os sentidos e ficou as portas da morte.

Ele era o último a se manter de pé. Pedro apontava sua espada para Ferreirinha, mas suas mãos tremulas fizeram com que o ladrão achasse graça. - Sendo filho de quem eu sou, assim que contei a Xangô sobre quem deveria saber sobre o roubo do seu machado, ele acreditou sem nem pensar duas vezes. - Ferreirinha apontou para o machado fazendo com que ele voasse magicamente até sua mão. - Agora irei decapitá-lo, entregá-lo como ladrão, e cairei nas graças de mais um orixá.

O machado desceu em Pedro que se apoiou com um joelho no chão e usou sua espada como escudo. Aquela arma simples não deveria durar muito, mas de repente ela se tornou mais nobre e ganhou um tom azulado. - Minha mãe? - Pensou Pedro. Ao mesmo instante, uma água vinda sabe-se lá da onde começou a invadir o quarto. Para a surpresa de Ferreirinha, Pedro estava conseguindo enfrentá-lo de igual para igual com aquela espada. E nisso a água ia subindo.

- Você é só um semi-orixá qualquer! - Gritou Ferreirinha, não acreditando que estava começando a ser superado.

- Posso não ser filho do orixá mais poderoso, mas você não deveria ter irritado mainha. - Uma tromba d´água colossal invadiu o quarto atendendo ao comando de Pedro. Com um apontar de sua espada, a água entendeu quem era o inimigo. Ferreirinha, como era detentor dos poderes de todos os orixás, acreditou que poderia controlar aquele turbilhão. Estava enganado, nada é mais violento do que o mar em fúria. A água salgada engolfou o filho de Olorun ao ponto de fazê-lo se afogar. Mas ele não morreu, seu castigo seria outro.

XXX

De volta ao pedacinho do Orun situado próximo ao Dique do Tororó. Era estranho para Pedro receber um abraço tão forte e caloroso daquele homem que há poucos dias queria arrancar sua pele. - De agora em diante, do que depender de mim, seus caminhos estarão sempre abertos. - Com seu machado de volta à suas mãos, Xangô parecia um menino grande. O orixá saiu voando e disparou raios e trovões em celebração.

Nem tudo era alegria. Isolada em uma das casas, Odara era mantida em quarentena enquanto rezas eram feitas para salvá-la de sua condição. Deitada em uma esteira em cima de uma cama de folhas, a menina estava muito fraca e seu rosto cheio de cicatrizes. Culpa do feitiço de Ferreirinha. Quando Pedro lembrou-se disso sentiu um ódio daquele rapaz como nunca achou possível sentir por alguém. O garoto chorava pelo estado de sua amiga e por se sentir culpado.

- Não se entristeça. Pelo menos eu fiquei mais parecida com o meu pai. - Se isso foi dito para ser um consolo não adiantou, pois só fez com que Pedro se sentisse pior.

Mais tarde, no Aiye, mais precisamente no Dique do Tororó, Pedro sentado na grama próximo à aguá apontava sua mão na direção do lago e fazia força. Pegando-o desprevenido Nakamura sentou ao seu lado. - O que está fazendo? - Perguntou a nisei.

- Todas as vezes que dominei a aguá foi por impulso. Se eu controlasse o meu poder talvez Oxaguian ainda estivesse vivo e Odara não tivesse se ferido daquele jeito.

- Oxaguian é uma divindade, não morre assim tão fácil. Daqui a pouco ele reaparece. Quanto a Odara, sinto pena dela também. Mas ela é uma guerreira e sabia dos riscos, não foi sua responsabilidade. Esqueça um pouco esse lado mãezona de sua personalidade.

Pedro continuou tentando fazer com que a água se dobrasse a sua vontade, mas por mais que tentasse nada acontecia. Nakamura achava suas tentativas engraçadas. - Deixa isso para lá e vamos dar uma volta. - O sangue do seu pai falava novamente, ela sempre tinha que tomar a iniciativa em tudo. Já Pedro, era o mais devagar para esses assuntos. Numa inversão de papéis, Nakamura estava o cortejando ou, como não podia ser mais direta, facilitando o máximo possível para Pedro tomar uma atitude. Era quase que como, espiritualmente, Pedro fosse a mulher da relação e Nakamura o homem. A noite chegou e mesmo assim se passaram horas até que Pedro largasse a sua passividade e um beijo saísse desse encontro.

- Porra, Pedro, mas que demora. Bem que me disseram que vocês de Iemanjá são meio moles.

XXX

Enquanto isso, na casa do ex-amigo de Pedro:

Depois de ter essa conversa, o garoto não irá saber dizer se ela foi real ou se não passou de um sonho. Nos primeiros dias seguintes o adolescente ficará assustado, mas com pouco tempo irá esquecê-la. Era uma tarde qualquer, sentado na cama de seu quarto ele assistia um filme de super herói onde o galã louro e musculoso usava um martelo para enfrentar seus inimigos enquanto invocava raios e trovões. O longa era uma versão afrescalhada e comercial do mito nórdico Thor.

- O filme tá bom, menino? - O sujeito se materializou do nada ao seu lado, o garoto olhou para ele com estranheza. - Como havia chegado ali? - Se perguntava. - Será um ladrão? - O menino ficou quieto enquanto o invasor continuava.

- Já imaginou se o personagem fosse um pouquinho diferente? - O suposto ladrão apontou para a tevê e com uma magia mudou a imagem do herói principal. De europeu nórdico segurando um martelo, se tornou um africano portando um machado. O garoto fez uma oração ao perceber que a figura havia se tornado um orixá.

- Ah, quer dizer que deus preto do trovão é do mau, já branquelo é do bem. - Ao dizer essas palavras Xangô bateu no ombro do menino e continuou. - Quando seu tempo acabar e você voltar, na sua próxima vida não se preocupe que vou dar um jeito de te deixar bem, mas beeeem branquinho mesmo.

XXX

Não era noite, mas o céu estava escuro. Naquele lugar a luz de nenhum sol chegava. O ambiente era rochoso, desértico e a água bem escassa, só sendo encontrada em poças. Ferreirinha sentia fome e no desespero comeu a primeira coisa viva que encontrou pelo caminho, algo próximo a um ratinho. - Há quanto tempo estou aqui? - Perguntou o filho de Olorun. Ele tentou um dos seus poderes, mas nenhuma de suas magias funcionaram. Sem que percebesse, próximo a ele havia alguém assistindo à sua frustração. Uma risada aguda e exagerada o anunciou.

- Quem é? - Perguntou Ferreirinha.

- Você sendo filho de quem é, era o que mais deveria saber. Sou o primeiro a receber oferendas. O escravo, aquele que é responsável pela comunicação entre os mundos.

Demonstrando o seu desdém Ferreirinha deu uma cusparada. - Exu.

- Você pode até não gostar de mim, mas sou o único que conhece os caminhos de entrada e saída de todos os mundos. Só estou aqui para avisá-lo: seu pai decidiu mantê-lo aqui para pagar pelo seu crime.

- Por quanto tempo tenho que ficar nesse plano?

- Tempo indeterminado. A conversa foi boa, mas agora tenho outros afazeres. - A figura vestida de preto e vermelho e portadora de uma grande cartola se escondeu atrás de uma pedra e sumiu em seguida.

- Se pensam que podem me deter aqui, estão muito enganados. - Ferreirinha se concentrou novamente em sua magia, aquele plano foi projetado para inibir qualquer tipo de feitiço, mas subitamente as rochas e o chão começaram a tremer.