Outro cavaleiro de Padilha, seus ataques frequentes já se tornavam cansativos. Esse era uma figura diferente, até mesmo para os do seu meio. Sua armadura lembrava a roupa de um bobo da corte, com direito a guizos pendurados na cabeça. O lado esquerdo de sua armadura era negro, o lado direito rubro. Não havendo assim interseção de tons entre os dois lados. Pedro o encarava trajando sua armadura de Iemanjá. Confiante por ter destruído uma barreira que nem mesmo um orixá puro conseguiu destruir, o adolescente já contava com uma vitória fácil.

- Sou considerado pelos meus compatriotas como o mestre dos sonhos. Meu nome de batismo é Nícolas, mas eu adotei a alcunha de Morfeu por causa da mitologia grega e...

- Dane-se, não preciso saber. - O mesmo ataque que usou contra a porta do castelo de Olokun, Pedro utilizou em Morfeu. O soco energizado atingiu bem no peito do adversário, no lado do coração, abrindo várias rachaduras, mas não perfurando.

- Moleque! - Morfeu tocou seus indicadores na sua testa e fez uma magia mental. O corpo físico de Pedro permaneceu intacto, mas sua mente ficou perdida em devaneios. Era um sonho a qual qualquer adolescente queria ser inserido. Em uma grande cama redonda de motel, Pedro encontrou deitadas nuas e sorrindo para ele: Nakamura, Sheila, dois amores platônicos do colégio, uma antiga professora que ele achava gostosa, uma atriz famosa que frequentou alguns dos seus sonhos eróticos e uma mulher mais velha do terreiro que frequentava.

Era como atrair um rato para a ratoeira com o queijo, mas Pedro era esperto demais para cair nessa. - Esse palhaço mongoloide deve achar que sou estupido. - O filho de Iemanjá fechou os olhos, concentrou seu próprio poder mental e voltou à consciência.

- Como é que pode?! - Se indagou Morfeu. - Ninguém escapa dos meus mundos dos sonhos. - O próximo soco energizado de Pedro não mirou uma parte protegida da armadura do seu adversário, mas sim seu rosto. Literalmente a cara do cavaleiro rubro afundou. Pedro provocava sua segunda morte. Estava se acostumando com isso.

Mais tarde, em um encontro com Oxaguian ele relatou o ocorrido com uma naturalidade que incomodou o orixá. - Pedro, esse caminho por qual está andando é perigoso. A cada alma que você desencarna à força, você abre uma divida com ela.

- Como assim?

- Essa sua vida é só mais uma entre centenas. Você não é Pedro Jaquison, você está Pedro Jaquison. A influência das pessoas que você ama, assim como a de sua mãe Iemanjá estarão sempre com você, não importa a forma que assuma. Mas nem sempre você voltará como um semi-orixá. Talvez, sua relação com sua mãe orixá na próxima encarnação seja só a de um pescador mortal, por exemplo.

- Sim, e o que as mortes tem a ver com...

- O futuro aos deuses pertencem, mas imaginemos que, por exemplo, esse cavaleiro que você matou na sua próxima existência se torne o seu filho e ele venha a ter problemas graves, como autismo elevado ou paraplegia.

- O que você espera que eu faça?

Oxaguian levantou voo e deixou um último conselho como resposta. - Você não precisa de uma entidade mística para saber o que fazer a seguir. Pergunte a sua mãe de criação ou a sua mãe de santo.

Horas depois, no terreiro a qual raspou a cabeça. - Você se envolveu com o tráfico? - Era difícil explicar sua situação sem contar sobre as idas ao plano do Orun e as batalhas contra cavaleiros eguns e da Padilha. - Filho, esse caminho geralmente não tem volta. O que quer que eu faça por você? Se meu marido fica sabendo dessa história ele nem te deixaria continuar a frequentar essa casa.

- Mas meus santos estão assentados aqui.

Não precisou de magia, nem nada extraordinário. Começou com uma limpeza de corpo. Um ritual onde vários legumes, arroz, ovos e pipoca eram passados na pessoa para livrá-las das más influências. Enquanto fazia seu trabalho a mãe de santo entoava cânticos. Pedro se sentiu culpado, pois preocupado só com magia e orixás de carne e osso se esqueceu de estudar sua religião. Não sabia cantar uma música que seja, não falava uma palavra em iorubá. Após a limpeza, Pedro tomou um banho. Primeiro com água do chuveiro e sabão de coco. Depois com uma água de ervas. Seu corpo não podia ser enxugado por toalha, a água tinha que secar no corpo. Terminado tudo ele saiu do banheiro e foi ter com sua mãe de santo.

- Essa oferenda será entregue à Nanã. Que a senhora da morte consiga apaziguar os espíritos das pessoas que você matou e fazer com que não voltem como eguns revoltados.

Pedro se deitou, colocou seu corpo para o lado direito, depois para o esquerdo. Com as mãos na frente da teste bateu a cabeça três vezes. Em seguida se levantou e pediu a benção a sua mãe de santo. - Vá e nunca mais faça uma coisa dessas.

Depois de sair do terreiro, Pedro teve a ideia de passar por uma igreja católica. Ele não visitava muitas delas, pois achava os discursos dos padres chatos. Ou simplesmente discordava deles. Na imagem central da igreja havia um cristo crucificado. A imagem mudou de forma e se revelou para o filho de Iemanjá como Oxalá, o orixá da paz e da fé. Nunca se encontraria um filho carnal desse orixá ou muito menos um cavaleiro guerreiro que respondesse ao seu nome. Não ligando para o sincretismo religioso, Pedro orou e a leveza que lhe foi passado em seu terreiro foi reforçado ali.

XXX

"Você não devia ter saído do claustro a qual o submeti sem minha permissão". A voz invadiu a mente de Ferreirinha e o deixou apavorado, era o seu pai. - Por favor, grande Olorun, me perdoa. Com uma fúria que excedia à misericórdia, o rei dos orixás invocou o seu filho a sua revelia. Ferreirinha foi sugado por um vórtice e forçado a ficar diante de sua presença.

O trono de Olorun era o mais suntuoso de todos os orixás. Ele era como um Zeus, de cabelo e barba cheia, a diferença era o seu biótipo bem africano. Aquele orixá era o criador do Aiye, do Orun e do universo desconhecido. Era a mais importante divindade do panteão africano.

- Se você não compartilhasse do meu sangue eu o eliminaria com um estalar de dedos. A começar, por que roubou o machado de Xangô?

Ajoelhado, com a cabeça colada ao chão, Ferreirinha suplicava. - Por favor, perdoe-me. Foi só uma brincadeira inconsequente.

- E sua mania de perseguição com o filho de Iemanjá? Os cavaleiros eguns e os de Padilha? Foi outra brincadeira?

- Eu irei até me mudar de cidade. Esquecerei Pedro Jaquison e qualquer coisa relacionada a esse menino.

- Eu sinto a mentira saindo dos seus lábios. Mas enquanto Pedro se torna cada vez mais forte eu irei garantir que você se enfraqueça. - Olorun apontou a mão direita para Ferreirinha com a palma para cima. Uma energia mágica fluiu do garoto para o seu pai. - Eu estou removendo os seus poderes. Você continua tendo sangue orixá, mas não terá poder sobre nenhum dos seus elementos. Para todos os efeitos você será um mortal como outro qualquer. Talvez, se você descobrir o valor da humildade, eu os devolva.

- Não, pai! - Ferreirinha preferia a morte do que ter seus poderes arrancados. Nada de magia, nada de viagens ao Orun. Porém, seu pai ainda não tinha terminado, lhe preparou uma última desagradável surpresa.

- Mudar de cidade talvez não seja suficiente, melhor seria se mudasse de país e de continente. - Com um gesto Olorun enviou o seu filho de volta para o Aiye. O frio a qual não estava acostumado denunciou que aquelas paragens não eram brasileiras. Neve, sol gelado, frio seco. Ferreirinha tremeu devido à baixa temperatura e caiu de joelhos. A hipotermia o levaria embora. Mas o seu pai não era tão cruel ao ponto de fazer com que seu único filho morresse de hipotermia. Um casal encontrou o adolescente agonizante e o resgatou. Já esperavam por ele.

A cabana no meio do nada não tinha eletricidade e muito menos aquecedor elétrico. Ferreirinha foi colocado em cima de uma cama e coberto por vários lençóis pesados feitos com pele de animal. O garoto semi-orixá não sabia nem em que país estava. Ele ouvia a conversa das outras pessoas na casa e não conseguia identificar nem que idioma usavam. Ao seu lado, perto de sua cama, havia uma vela branca iluminando o ambiente. Ferreirinha pôs sua mão para fora dos cobertores e mirou as chamas. Tentou uma magia simples para intensificar aquele fogo. Nada.

XXX

- Devo confessar, eu também matei um homem. - Disse Nakamura ao seu namorado, se referindo ao homem que responsabilizava pela morte do seu pai adotivo.

- O que sentiu? - Perguntou Pedro.

- No início uma satisfação mórbida, mas depois um vazio. Matar por vingança não traz alegria.

- A primeira vez que matei alguém fiquei arrasado de culpa. Mas aí Oxaguian me disse que em uma guerra a morte é uma constante.

A nisei passou seu braço pelo ombro de seu querido e o beijou na bochecha. - Vou repetir o que eu lhe disse naquela ocasião. Você não é um assassino.

- Será? Só porque tenho super poderes e meus inimigos também? Matar uma pessoa é assassinato não importa o motivo.

- Vamos assistir alguma coisa? Acho que você está precisando desanuviar a cabeça.

- Tudo bem, mas escolha o filme. Não estou com espírito para ver trocas de tiro ou heróis trocando socos.

- Milagre! Você aceita assistir a uma das minhas comédias românticas favoritas?

- Por você assisto até Crepúsculo.

XXX

- O que uma figura tão ilustre faz em meus domínios? - Desta vez, Padilha estava trajando a imagem de uma loura de olhos verdes. Como sempre, o seu traje de realeza era apenas sua calcinha.

Olorun, o criador do Olun, do Aiye e do universo desconhecido apareceu no reino da Senhora dos Amantes pela primeira vez em muito tempo. - Você só tem o domínio desse reino porque eu assim o permito, lembre-se disso.

- Por onde quer prosseguir com essa conversa?

- Soube que meu filho utilizou os seus cavaleiros de modo imprudente e que contraiu dividas com você. Perdoe os seus débitos, é uma ordem.

O rosto de Padilha que sempre expressava um sorriso malicioso, se fechou. Ela não gostou da ideia de ter seu poder desafiado no seu próprio reino. - E como é que eu ficou? No prejuízo? Perdi três guerreiros.

- Você tem todo um exército à disposição. Além do que, no Aiye o que não faltam são amantes para você recrutar. - Olorun já estava deixando o reino da Senhora dos Amantes quando teve uma ideia. - Esses desafetos do meu filho são excepcionais. Mesmo sendo apenas semi-orixás conseguiram feitos incríveis. Um libertou Olokun de sua prisão milenar e o outro derrotou um dos seus cavaleiros escarlates mais poderosos.

- Nem me lembre disso. - Falou Padilha se referindo à perda de seu soldado. - Ele estava entre os meus cem melhores.

- Não mate-os, nem os fira gravemente. Só quero que teste até onde vai a força deles. Sei que eles não representarão ameaça à você, uma entidade tão cultuada. Mas estou curioso para descobrir até onde eles chegariam em uma luta direta.

- Quer que eu lute com esses adolescentes diretamente?! Absurdo!

- Não foi um pedido. - Maria Padilha se levantou do seu trono, seu corpo deslumbrante ficou ainda mais exposto quando ela removeu a única veste que possuía. - Enfim, a Senhora dos Amantes, a Rainha dos Desejos, vai mostrar do que é capaz.

Sua armadura mais parecia uma roupa de praia. A proteção da parte intima mais parecia um biquíni e a do peitoral um sutiã. Havia ombreiras e proteção nos antebraços e na parte inferior da perna, mas, tendo em vista tanta exposição, se não fosse uma armadura mágica ela seria inútil.

XXX

"Esse mundo de semi-orixá é estranho, cheio de perigos constantes". Pedro se lembrou de mais um ensinamento de Oxaguian. A ideia de ter poderes mágicos pode fascinar, mas agora que ele os possui, as vezes é tentado pelo desejo de voltar a ser um simples humano. A ignorância pode ser uma benção. Se ele não soubesse que possuía sangue divino não teria enfrentado tantos problemas e continuaria vivendo como um colegial normal que de tempos em tempos fazia algum trabalho no terreiro onde era filho de santo.

Sentado no dique, na grama próximo à água, Pedro gostava de pensar na vida. Nakamura estava resolvendo algum problema pessoal em outro lugar e o adolescente se sentiu aliviado. Queria ficar sozinho. Porém, sua tarde reflexiva não iria durar muito. Nem mesmo ali ele teria direito a um descanso.

A mulher seminua se aproximou vestindo uma armadura escarlate, assim que Pedro a viu se levantou assustado. Primeiramente porque ela parecia uma versão mais madura e, pasmem, ainda mais bonita de Nakamura.

- Que droga! Outro cavaleiro da Padilha? Vocês não cansam?

Com um biquinho sedutor e um balançar de dedo negativando, a mulher falou. - Eu não respondo a ninguém. Sou a própria Maria Padilha, aquela a qual você homenageia todo mês em sua casa de fé.

- A senhora quer mesmo brigar comigo? Por quê? O que foi que eu lhe fiz?

- Não gosto de brigas. Só vim realizar seus anseios. Sonhos íntimos que não admitiria nem para si mesmo - Com um balançar de dedos, Padilha fez com que uma nuvem vermelha, transparente e muito discreta voasse de sua mão e entrasse pelos ouvidos do jovem. O poder era similar ao do cavaleiro Morfeu, mas infinitamente mais poderoso. Pedro perdeu os sentidos, mas para as pessoas que passavam por ele em suas caminhadas, o garoto estava apenas dormindo.

XXX

Sonhos não refletem a realidade, são surreais e misturam fatos vividos de uma pessoa que no mundo real são desconexos. Algo assim nunca aconteceria em um terreiro do Aiye ou em qualquer outro plano, mas Pedro sonhou com isso. Algumas filhas de santo que conheceu eram bem atraentes. As roupas que usavam, o traje branco e o torso, se tornaram um tipo de fetiche.

- Mãe? - Dessa vez Pedro não se referia nem a sua mãe de criação e nem a orixá, mas sim a sua mãe de santo. Pela fisionomia dava para perceber que era ela, mas estava muito mais bonita e jovem. A mulher que se tornara uma mulata cadeiruda e atraente jogou os búzios e veio com uma resposta estapafúrdia.

- Você andou vendo muito filme de putaria escondido. - Disse a mãe de santo. - As entidades dizem que você merece um puxão de orelha. - Sem pedir licença, a mulher arriou a calça branca de ração e em seguida removeu a camisa do garoto. Por último o deixou sem cueca.

Ele não se sentia envergonhado em se expor na sua presença, pois a considerava como uma outra mãe, mas sua atitude lhe era estranha. - O que está fazendo? - A mãe de santo amarrou uma corda de palha entrelaçada na sua cintura e na parte de cima de seus braços. Eram os contreguns.

- Isso é tudo o que você irá vestir hoje no trabalho na roça.

- Mas mãe, as filhas de santo podem me ver!

A mulher riu. - Você não entendeu, todos os filhos de santo da casa foram dispensados. O único varão presente é você. Quanto as filhas de santo, chamei todas, inclusive as de outros terreiros.

A casa maior era propriedade da mãe de santo, o terreno à volta era onde os rituais geralmente aconteciam. Haviam pequenos quartos separados ao ar livre que serviam para guardar os santos e suas quartinhas. Para o desespero de Pedro, ele foi instruído a ficar do lado de fora, expondo sua figura. Enquanto isso as meninas não paravam de chegar. Ao percebê-lo elas davam sorrisinhos e seus olhares se concentravam na região da cintura para baixo.

Uma garota bem bonita que Pedro desconhecia o abraçou de frente, parecia ser muito desinibida. - Homem para mim tem que ficar assim, peladinho. - Uma segunda mulher, igualmente tentadora, se aproximou por trás e segurou com força sua parte intima. - Será que o rapaz já sabe fazer? - A terceira chegou pelo lado direito e mordiscou uma orelha. - Se não souber, a gente ensina.

- Isso não é real! - Exclamou Pedro. - É só uma ilusão!

- E isso faz alguma diferença? - Perguntou uma das três. - Quando você se aliviava no banheiro imaginando suas coleguinhas de classe nuas também não era.

O trio de tentações puxaram Pedro até o outro lado do terreiro, durante o percurso uma delas apalpou seu bumbum enquanto o elogiava. Ao chegar no destino, uma surpresa. Pedro encontrou uma garota que estava no mesmo estado que ele, vestindo só os contreguns. Agachada, ela recebia um banho de outra mulher que jogava canecas de água em seu corpo nu.

Vinte e poucos anos, pele cor de ébano, cabelo rastafári, meio cheiinha, mas muito atraente.

- Nós não somos reais, mas ela é. - Disse uma das três, a que segurava seu sexo. - Vocês jovens acham que o primeiro amor será sempre o definitivo, mas aí envelhecem e acabam se separando. Aquela que você acha ser seu amor verdadeiro irá te largar, então você a substituirá por outra e depois outra e mais uma.

- Parabéns. Se vocês quiseram acabar com o meu dia conseguiram.

- Não fique triste, depois que você largar a japonesa dias melhores virão.

Pedro acordou com o cheiro da terra a impregnar as suas narinas. Estava de volta ao Aiye, ao mundo material e desperto. Ele procurou por Padilha e a encontrou parada ao seu lado. O menino então começou a chorar ao lembrar que perderia a menina que amava. - Se quiser me matar faça logo. Não estou com o menor espírito para lutar agora.

Maria Padilha sentou ao seu lado, os humanos que passavam por ela não a enxergavam. Nem mesmo aqueles que eram médiuns.

- Você é uma pessoa de bom coração, Pedro. Mesmo que uma porta se feche outras irão se abrir para você. Isso é um fato que rege o universo, não há nem necessidade de orixás para tanto.

Sem se preocupar com o fato dela estar seminua, Pedro encostou sua cabeça em seu ombro e continuou a chorar. Não havia malícia em seu gesto, ele só precisava de um apoio para desabafar. A Rainha dos Desejos, não se recusaria a realizar um tão puro. Maria Padilha usou sua magia novamente e fez com que o sonho que projetou na mente do menino se perdesse em sua memória, restando apenas fragmentos e o reduzindo a um sonho erótico qualquer.

- As vezes é melhor saber qual será nosso futuro quando ele chegar.

XXX

Nakamura dormia na casa de uma tia, a irmã do seu pai adotivo. A relação familiar não demonstrava que seria fácil, pois a mulher recebeu a sobrinha com pouco carinho. Como se recebesse uma obrigação, não uma filha. Fora isso, seus primos a incomodavam babando atrás dela por onde passava. A nisei se sentia um pernil ambulante.

Inconsciente, a semi-orixá não percebeu Maria Padilha flutuando de frente para ela. - Vamos ver se você tem a mesma fibra moral de seu namorado. - A mesma nuvem vermelha e discreta se fez presente, só que dessa vez invadiu a mente de Nakamura entrando em seus ouvidos.

Em uma cidadezinha do interior, Nakamura andava de bicicleta quando foi parada por seu namorado. Não era Pedro, mas o anterior, aquele com a qual ela perdera a virgindade. A nisei usava uma camisa que deixava sua barriga de fora e um short de acadêmia curto. O seu companheiro não gostou nem um pouco de vê-la vestida daquele jeito.

- O que eu falei com você sobre as roupas que usa?! Não te proibi de sair de casa vestida como uma puta?!

- Me respeite! E eu não sou sua propriedade!

Sem seus poderes divinos, Nakamura era apenas uma garota normal. Não tinha chances contra aquele rato de acadêmia. - Se você quer se vestir desse jeito, fique nua logo de uma vez.

- O quê?! Está maluco?! - Os gritos da japonesinha pediam socorro, mas ninguém ouviu ou se importou. Pior, alguns, homens e mulheres, queriam ver até onde o barraco terminaria. O homem violento rasgou o short, depois inutilizou sua camisa. A roupa de baixo foi sua próxima vítima.

Nakamura acabou sentada no asfalto da rua nua em pelo. A violência sexual sofrida a fez chorar enquanto vários pensamentos correram por sua mente, alguns suicidas. - Impressionada com o que os desejos da menina revelaram, Padilha cessou sua magia. Libertando a menina do sofrimento de reviver aquele dia.

- Quem diria que uma menina tão alegre passou por tanto sofrimento? - Padilha se apiedou da menina e lhe preparou novas magias. - Irei ajudar a abrir seus caminhos. Não se preocupe, mesmo quando você se separar do seu amor não estará desamparada.