Parte 1

- Bolivar, quero que saiba que a apreciação do chá vai muito além do prazer gastronômico. É o momento em que nós, homens respeitáveis, decidimos o destino dos menos favorecidos. - Do outro lado da mesa retangular, o menino de oito anos acenava positivamente apesar de não compreender totalmente as palavras do pai. O senhor Richard Wilson era portador de um traje impecável e isso fascinava o seu filho que o idolatrava. Não havia um fio solto em sua lapela e sua cartola… A cartola era o objeto de desejo de Bolivar, o símbolo de um homem respeitável. O seu cano era comprido, elegante para os padrões do final do século XIX.

Pai e filho sorveram do líquido quente e reconfortante da xícara enquanto conversavam sobre política e entretenimento erudito, como alta literatura e ópera. Novamente Bolivar fingia compreender mais do que realmente sabia. - Hoje iremos ver uma peça de Shakespeare. A arte é importantíssima para elevarmos nossas almas. - Em seu âmago, Bolivar achava aquelas peças enfadonhas, mas fingia apreciá-las para não contrariar o seu pai. Além disso, sonhava em se tornar como ele, um homem respeitável.

Oriundos de uma linhagem nobre, os Wilson tinham condição financeira para arcar com uma carruagem de luxo e um cocheiro. A esposa de Richard sentava ao seu lado, ela só saia de casa para eventos sociais acompanhada do marido. Falava pouco, era uma lady educada. Uma senhora respeitável. Bolivar sentava a frente dos dois e mais parecia um homenzinho do jeito que fora vestido.

A peça encenada fora a tragédia de Macbeth. O inglês rebuscado e a poesia falada de maneira rápida fizeram com que Bolivar se perdesse na história, mas ele fingiu compreendê-la para não desagradar o seu pai. Assim que o espetáculo terminou, a família saiu por uma viela em direção ao cocheiro. O estilo de vida opulento dos Wilson chamou a atenção de um marginal que usava de pretexto a falta do que comer para exercitar sua crueldade. - Passe a joias, rameira! - Gritou o meliante. Bolivar nem sabia o que tal palavra significava por isso não se ofendeu, já o seu pai...

Richard praticava boxe, por isso se achava apto para lidar com bandidos comuns. Estava enganado, ele nunca lutou na rua, na vida real. Ele e sua família pagaram caro por sua arrogância. A faca atingiu um órgão vital do pugilista amador e em seguida o coração de sua esposa. As joias foram tomadas e o menino deixado a própria sorte. O bandido ao menos teve a hombridade de não ferir uma criança.

- Pai? - Bolivar tentou despertar Richard, mas não obteve sucesso. Na tentativa suas mãos ficaram vermelhas em um tom que nunca vira antes e que achou bonito. Seu estilo de vida super protegido cobrou o seu preço. Em seguida, se aproveitando da situação, Bolivar pegou a cartola do pai e a colocou na cabeça. Suas mãos sujas e tremulas fizeram com que ela se transformasse em uma coisa manchada e deformada. - Veja, pai. Sou um homem respeitável. - Disse Bolivar com um sorriso de orelha a orelha enquanto um filete de lágrimas escorria de seu olho direito.

Parte 2

O juizado de menores britânico não podia deixar que um garoto de oito anos arcasse com a responsabilidade de gerir os bens de sua família, sendo assim sua guarda foi passada para o seu tio, o senhor Gilbert Wilson. Assim que avistou o homem a qual iria conviver o choque foi tremendo. Ele em nada tinha a ver com seu finado pai. Era gordo, sujo e fedia a queijo azedo. Os seus dentes amarelos já davam sinal de podridão. O choque foi maior quando Bolivar foi apresentado a casa onde iria passar a viver pelo menos até atingir a maioridade. - Isso é uma casa ou um chiqueiro? - O comentário saiu quase que sem querer, de forma bem natural, mas rendeu a Bolivar um tapa que rachou os seus lábios. Seria o primeiro de muitos.

- Escuta aqui, pivete. - Disse Gilbert com sua voz cavernosa. - Você vai me respeitar!

Em poucas semanas, os hematomas que se seguiram devido as agressões tornaram Bolivar um garoto mais assustado e obediente. Ele não ousava desrespeitar um mandado do seu tio, mas não por respeitá-lo, mas sim por temê-lo. O único consolo da criança era um coelho de pelúcia velho que encontrou por acaso no quintal da casa, onde havia um entulho.

- A hora do chá não é o momento de simples apreciação culinária, senhor Coelho. É o momento em que os homens respeitáveis decidem o destino dos menos afortunados. - Substituindo a cartola, Bolivar usava uma panela na cabeça e ao invés de chá ele bebia água em um copo. Sua brincadeira que levava a sério acontecia sempre que seu tio não estava em casa, o que para sua sorte era por volta das cinco horas. - Como devemos proceder, senhor Coelho? O quê? Fazer que nem o bandido que matou meu pai?! Isso nunca, não é algo que um homem respeitável faria. - O convívio com Richard fez com que Bolivar aprendesse a falar utilizando termos difíceis para a sua idade. "Sabe o relógio de bolso que seu tio não larga? Traga-o para mim" Disse o coelho à Bolivar ou ele imaginou ouvir. - Mas aí ele vai me cobrir de porrada. - "Não se você me entregar a tempo".

Naquela tarde Gilbert voltou mais cedo do trabalho, ver o seu sobrinho com a panela na cabeça foi a motivação que encontrou para descontar suas frustrações. - Você está enchendo de sebo a panela com que eu faço nossa comida, menino porco! - Bolivar foi colocado de bruços na cama e, para sua humilhação, teve suas calças arriadas. O espancamento com cinto veio logo a seguir.

Parte 3

Gilbert roncava que nem um trator, mas tinha sono leve, o que fazia a missão de Bolivar se tornar extremamente perigosa. Era madrugada e o garoto achava que era o momento perfeito. Com os pés descalços fazendo o mínimo de barulho possível, quase sem respirar, Bolivar abriu a gaveta da escrivaninha e tomou o objeto desejado de assalto. Com o relógio em mãos, Bolivar largou toda a cautela e desatou a correr, foi o seu erro. - BOLIVAR! - O homem rosnava, mais parecia um animal, um monstro.

Bolivar trancou a porta do seu quarto usando uma cadeira como calço e deu o relógio ao coelho. que subitamente ficou mudo. O menino começou a chorar. - Anda, senhor Coelho se não ele vai me matar! - De tanto forçar a porta Gilbert conseguiu entrar, mas desta vez ele não usaria o cinto, mas sim suas próprias mãos. O homem truculento já se preparava para esganar o garoto quando algo mágico aconteceu. O coelho de pelúcia deixou de ser de pelúcia. Ele virou um coelho humanoide branco. - Você tinha um tesouro nas mãos e só usava para ostentação! - O coelho girou o objeto mágico criando um vórtice azul atrás de Gilbert que foi sugado por ele aos berros.

- Ele foi para onde?

- Para onde vão os meninos levados.

Subitamente Bolivar ficou assustado, o seu encantamento pela magia foi suplantado pelo medo. - Será que eu fui um menino bom? - Se perguntava. - Será que eu mereço ir para onde vão os meninos levados?

- É quase cinco horas, a hora do chá, se quiser vir terá que ser agora. - Disse o coelho abrindo outro portal.

- Mas eu vou para onde?

- Isso você terá que ver para crer. Nós não aceitamos membros medrosos no Clube dos Homens Respeitáveis. - Quando ouviu a palavra "respeitáveis" sair da boca do coelho todas as suas duvidas caíram por terra. Mais do que tudo ele queria ser respeitável e para ele valeria o risco de cair na Terra dos Meninos Levados.