Disclaimer: Sakura Cardcaptor e seus personagens pertencem ao CLAMP


O Último Reino Antes do Fim

Escrito por: Cherry_hi

Ato 16 - A Hime e a entrada para Kehasai.

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- Glow! - A Hime esqueceu os Yōkai, os medos que sentia e ignorou completamente a criatura que acabara de descobrir ser um Conselheiro ao ver Glow (parecendo ter sido maltratada, mas inteira) correr para lhe abraçar. - Ai, Glow! Você está bem! Graças aos céus!

- Sim, estou bem, Hime-sama! E vocês? Kero-chan, está tudo certo? Cadê os outros?

Como se invocados pela pergunta da menina, Flower apareceu entre as árvores e deu um grito de alegria ao ver Glow.

- Glow! Que bom que te encontramos! E… ué, Jump?! - Ela parecia muito surpresa de ver o Conselheiro, que continuava olhando para a Hime com hostilidade.

- O Jump me salvou! Se não fosse por ele... - A pequena Conselheira parecia horrorizada e a Hime sentiu suas mãos tremerem.

- Afinal, o que foi que aconteceu? - Perguntou Kero, voando pro ombro dela.

- Eu… tinha alguma coisa no fogo… eu fui olhar e então, teve um clarão e eu senti toda minha força de vontade desaparecer… Eu segui aquela coisinha pela floresta até cair dentro de uma caverna… aí uma mulher… - Ela visivelmente empalideceu enquanto falava. Engoliu em seco e fez um esforço para continuar: - Bem… ela disse que ia me ajudar e eu a segui e ela… era um… um…

- Um Yōkai? - Completou a Hime, suavemente.

- S-sim… acho que sim… ela tinha cabelos que se mexiam, que me prenderam... e… uma… boca…

Os olhos dela se encheram de água e ela abraçou a Hime com mais força.

- Você está segura, agora. - Kero deu uns tapinhas nas costas da menina.

- E o que aconteceu depois? - Perguntou a Hime, olhando para Jump, que pulava ao redor de Flower - Você disse que Jump te salvou?

- Sim… Aquela… coisa… ia me devorar, mas então o Jump saltou nela e a derrubou. Acho que ela deve ter desmaiado porque afrouxou os cabelos e eu consegui me soltar. A gente fugiu. Eu estava tentando encontrar o caminho de volta.

- E Por que você não usou a pulseira? - Flower perguntou, parecendo aborrecida. - Se tivesse usado, eu saberia onde você estava!

- Mas eu tentei! - Ela respondeu, impetuosamente. - Mas aquela coisa que me prendeu deve ter danificado a magia! Olha só…

Ela puxou do bolso as pulseirinha de flores, que estava amassada e murcha.

- Caramba! Nunca ficou assim! - As sobrancelhas de Flower foram quase no meio de sua testa tamanha sua surpresa. - Deve ter sido uma criatura com muito poder pra ter feito isso! Acho que sugou a magia da pulseira.

- Bom, o que interessa é que Glow está bem… e que encontramos outro Conselheiro - A Hime se aproximou de Jump, sorrindo. - Desculpe, amiguinho, mas eu não lembrava de você.

Mas, para a sua surpresa, a expressão de hostilidade na criatura pareceu se intensificar.

- O que-?

- Antes de mais nada. - Flower interrompeu a Hime, parecendo urgente. - Vamos sair daqui logo! A coisa que prendeu Glow pode estar procurando por ela e acho que ninguém tem energia suficiente para mais uma rodada de Yōkai.

- Como assim mais uma rodada?! - Glow imediatamente arregalou os olhos, em pânico. - Vocês foram atacados… por que eu saí?!

- Não, não! Fique tranquila que não foi nada disso! - A Hime tratou logo de acalmá-la. - Flower tem razão! precisamos sair daqui, sair da Floresta. Depois contamos o que aconteceu.

Mas, ainda assim, Glow pareceu apreensiva.

- Onde está Watery e Tomoyo? - Perguntou Kero.

- Ficaram um pouco pra trás por causa de… uhm… - Flower visivelmente hesitou, mas a Hime e o guardião entenderam que Watery era o motivo. - Bom, Elas ficaram para trás. Vim atrás da Hime.

- Vamos voltar, então.

Fizeram o curto caminho em silêncio e, olhando para a expressão de Glow, a Hime sabia que o coraçãozinho da menina devia estar queimando de culpa. Antes que pudesse falar qualquer coisa, elas alcançaram Watery e Tomoyo, que ficaram muito felizes e aliviadas de verem Glow bem. Entretanto, A Conselheira da Água parecia bem mal e Glow ficou bem mais pálida ao vê-la.

- Jump! - Watery exclamou de alegria quando o coelho pulou em cima dela. - O que você está fazendo aqui?

- Era ele quem estava seguindo a gente. Lembra, Tomoyo-chan? - Glow apressou a explicar: - Você havia dito que achava que estava sendo seguida…

- Gente, vamos deixar para contar as histórias quando tivermos seguros e fora dessa Floresta? - Cortou Flower, olhando de soslaio para Sword.

Nesse momento, um dos Kodamas voou alegremente ao redor da Hime e Glow soltou um gritinho assustado:

- Hime-sama, cuidado! Foi essa coisa que me hipnotizou!

- Não foi não, Glow-chan. - A Hime respondeu. - Mas foi algo parecido com isso.

- Vocês conseguem nos levar para a entrada de Kehasai? - Perguntou Flower, com urgência na voz.

Em resposta, o Kodama piscou rapidamente sua luz dourada e disparou pela floresta. O grupo não perdeu tempo, indo logo atrás, andando o mais rápido que conseguiam. Vagamente, a Hime percebeu que fazia o caminho de volta até a clareira de ossos porque estava concentrada no grupo. Sentia-se aliviada ao ver Glow bem, apesar da roupa rasgada e suja e um curativo na perna. Conversava com Tomoyo e Watery, enquanto Flower prestava atenção no caminho, sendo seguida de perto por Jump. Aquela estranha criatura, que eles diziam ser Conselheiro, de vez em quando lançava olhares ameaçadores em sua direção. Não entendia por que de tanta hostilidade.

- Glow… o Jump contou por que ele estava aqui na Floresta do Silêncio?

- Bom, Hime-sama… - Começou a menina, parecendo escolher as palavras. - Ele estava fugindo de uma pessoa que o perseguia. E ele foi encurralado entre a morte e a Floresta… então veio parar aqui.

- Faz tempo isso?

- Uns quatro ou cinco dias. Ele tentou sair da Floresta mais ao norte, mas não aguentou o calor do deserto sozinho. Ele também anda saindo da floresta de vez em quando, por pouco tempo, contudo, estava com muito medo de decidiu ficar aqui.

- Por que ele estava saindo?

- Para se curar. - Glow mordeu os lábios, aflita, e continuou: - Ele foi ferido e precisa da magia para sarar o ferimento. Então, ele passa uma ou duas horas foras para se recuperar e volta a entrar aqui com medo.

- E quem foi que o feriu? - a Hime viu claramente Glow parecer ficar mais preocupada.

- Bom…

- Ah!

A Exclamação aliviada de Watery chamou a atenção delas e a Hime viu que estavam de volta ao limiar dos Jardins dos Kodamas.

- Se estamos de volta significa que estamos perto da entrada de Kehasai. - Flower falou, mais animada. Voltou-se para o grupo e falou: - Agora prestem atenção. Aqui é um local sagrado. Temos que ter muito respeito com essas árvores. Então nada de sair por aí arrancando folhas ou frutos. - Ela olhou insistentemente para Kero ao falar essa última palavra.

- Ei! - O Guardião ficou ofendido, mas sua barriga escolheu aquele segundo para roncar.

O Kodama que os guiava começou a piscar e fazer barulhinhos agudos, voando ao redor de Glow. A menina arregalou os olhos.

- Ele tá falando comigo! Disse que que não tem problema o Kerberus comer as frutas. Ou qualquer um de nós. E que precisaremos pegar bastante antes de irmos para Kehasai.

- Você entende o que ele fala? - Perguntou a Hime, admirada.

- Ah, sim. A Glow entende qualquer animal ou criatura. - Esclareceu Flower. Ela olhou para Jump. - Dá para entender algumas coisas que o Jump, Thunder e Fly falam quando estão em suas formas animais, mas só Glow entende tudo.

- Olha só. Não sabia. - Falou Tomoyo, sorrindo. - Que fantástico, Glow-san!

- Ah, não é nada… - Ela parou de falar ao ver o Kodama piscar de novo e empalideceu, voltando-se para a Hime: - Por que vocês não me falaram que Sword está sem magia?! Precisamos sair da Floresta AGORA!

- Mas e a frutinhas? - Kero perguntou, inocente.

- Kerberus, deixe para se preocupar com seu estômago depois! - Watery visivelmente suava muito e parecia pior. - Vamos… logo!

O Kodama não esperou mais e saiu em disparada, entre as árvores enfeitadas com Shimenawa, guiando o grupo através daquele pedaço da floresta. Vagamente, a Hime reparou que naquele ponto a floresta honrava seu nome, com os sons invisíveis sendo quase nulos e o silêncio reinava numa atmosfera de absoluta paz. Ali, as árvores eram mais esparsas e altas, de troncos muito grossos e enrugados, como se fossem os anciãos daquele lugar. Muitos Kodamas flutuavam ao redor do arvoredo, como se dançassem uma valsa lenta. Não era a toa que Flower pediu respeito. Era o que aquele pedaço da Floresta inspirava em todos. Então, mesmo andando o mais depressa que podiam, o faziam com o máximo de silêncio.

Depois de uns 15 minutos de caminhada, o arvoredo mudou outra vez: as árvores voltaram a serem abundantes e juntas, com troncos finos, longos e lisos, que acabavam em centenas de galhos longos, quase sem folhas, que se espalhavam como teias de aranhas acima e ao longo da estradinha. Quanto mais avançavam, mais essas árvores se agrupavam e mais esses galho se entremeavam, até que chegou um ponto que elas formavam uma parede maciça de troncos e galhos, que seguiam ladeando o caminho de terra a uma certa distância. Curiosa, a Hime se aproximou e tocou a parede. Parecia pedra lisa cinza e não árvores.

- Que estranho… - Kero falou o que a Hime estava pensando.

- Estamos muito perto. Essa já é parede que separa a Floresta da Entrada de Kehasai! - Flower olhou nervosamente para Watery, que começara a suar muito. - Vamos continuar!

A Hime percebeu vagamente que a estradinha fazia uma curva muito suave, acompanhando a parede, até que finalmente eles viram uma abertura quadrada do tamanho de uma porta surgir na parede de galhos. Elas apressaram o passo e entraram numa clareira clara, perfeitamente circular, cheia de plantas com folhagens verdes e grama e, ao mesmo tempo, circundada por aquela estranha parede de troncos cinza. E, bem no meio do clareira, havia um pórtico. O mais estranho era que os galhos pareciam vir das paredes e se entremeavam como uma rede até o meio da clareira, formando o pórtico com o acúmulo de galhos. Alguns galhos eram grossos como dedos e outros tão finos que pareciam invisíveis, dando a impressão que aqueles mais robustos estavam flutuando no ar.

- É isso aí? - Perguntou Tomoyo, incerta.

Watery não esperou resposta. Tonteando, ela se desvencilhou da morena e de Flower e caminhou, ávida, até o pórtico. A Hime, que estava esperando uma coisa completamente diferente, ficou ainda mais perplexa ao ver a Conselheira atravessar o pórtico e nada aparentemente acontecer. Mas segundos depois eles viram claramente a cor voltar a suas faces, ela se aprumar e brilhar muito forte, para explodir em torrentes de água na sua forma elemental.

- Finalmente! - Glow gritou alegre e também passou correndo por elas, seguida de perto por Jump passando pelo pórtico e dessa vez a Hime pode ver um leve ondular no ar assim que eles passaram, como se houvesse uma cortina de água muito fina. Ela viu claramente Glow brilhar mais do que nunca e diminuir de tamanho enquanto Jump pulava muito alto e rápido, como se feito de borracha.

A Hime colocou a mão em Sword, com o cabo mais gelado que nunca e correu pelo pórtico também. Quando entrara na Floresta tivera a sensação de atravessar uma cortina de água fria. Agora, era como se estivesse entrando em um lugar cheio de calor e leveza. Sentiu que estava completa de novo, revigorada, cheia de energia, com sua magia correndo pelas veias outra vez. Porém, voltou a ficar preocupada ao por a mão em Sword e ainda sentir a arma fria e inerte.

- Sword?! - ela falou, retirando a arma da bainha e olhando fixamente para a arma. - Sword?!

- Hime-sama, no caso dele vai ser preciso mais que simplesmente sairmos da Floresta. - Flower falou, também passando pelo pórtico e recuperando a cor em suas bochechas e sardas. - Faça a abstração e focalize seu poder nele.

Sem perder tempo com perguntas, a Hime fincou Sword no chão e fechou os olhos, buscando fazer exatamente como Flower sugeria. Fez a magia correr mais rápido dentro de si e concentrou-se no Conselheiro. A princípio, Sword lhe apareceu no infinito negro e parecia apenas uma espada normal, sem consciência ou magia. A Hime quase se desesperou, mas forçou-se a ficar calma e a procurar mais fundo, no âmago daquele objeto aparentemente comum. Finalmente localizou uma pequenina centelha quase se apagando e, ergueu o braço para tocá-la.

Foi como acender faíscas num monte de gravetos secos. A magia explodiu e ela pode sentir Sword voltar numa torrente incontrolável de energia e calor, que passavam por ela e quase a machucavam. E não era apenas magia. Ela viu algumas imagens coloridas que se formava e desmanchavam muito rápido, que ela inquiriu que talvez pudessem ser lembranças. Algumas dessas imagens se repetiam constantemente, como a de um homem alto de cabelos escuros, que ela achou que poderia ser o Ou-sama. Havia outras que lembravam ela própria, só que mais nova, segurando um bastão comprido… e havia um outro homem, alto, de pele morena e cabelos claros e compridos, prateados, que tinha um sorriso matreiro e olhos azuis escuros muito penetrantes… mas tão rápido como a energia explodiu, ela pareceu implodir para dentro de Sword, que agora estava banhado com uma saudável luz dourada.

- Obrigada, Hime-sama. - Ele agradeceu e foi bom ouvir sua voz branda e profunda.

- O que era… aquilo que eu vi? - Ela perguntou, confusa.

- Lembranças de uma outra vida, Hime-sama. Que, no momento, são menos interessantes que nos recuperarmos e entrarmos em Kehasai. - E ela entendeu com isso que ele não gostaria de falar sobre o que havia acabado de presenciar.

- Certo. Eu… estou feliz que você esteja bem. - Ela sorriu.

- Graças a você.

Ela voltou a abrir os olhos, vendo que todos a observavam e se sentindo estranhamente tímida. Ela arrancou Sword do chão e o fez voltar a sua forma de broche, pendurando-o em sua roupa.

- Estão todos bem?

- Sim, embora… - Watery voltou a sua forma normal, olhando para o braço que estava machucado enquanto fazia uma careta - Seria muito bom se você me ajudasse com isso.

- E como posso fazer isso?

- Usando Abstração, é claro. Concentre-se na ferida e faça com que ela se feche, usando sua magia. - Explicou Flower. - Esse tipo de ferida vai se curar com o tempo, mas se você quiser, pode fazer isso agora.

- Claro.

Embora não estivesse bem certa do que deveria fazer, ela fechou os olhos e confiou na sua magia. Na escuridão da Abstração, ela visualizou a aura azul brilhante da conselheira da água e viu um risco branco no braço. Simplesmente direcionou suas energias para aquele ponto e imaginou a linha branca se afinando, até se tornar um risco e depois desaparecendo. Foi exatamente o que aconteceu.

- Isso aí! Me sinto muito melhor agora. - Falou Watery alegremente, testando mexer o braço.

- Hime-sama, será que você pode me ajudar também? - Glow desenfaixou a perna e mostrou um corte semelhante, mas menor, abaixo do joelho. - Me feri quando aquela… coisa… estava me hipnotizando.

Alguns segundos de Abstração depois, a perna de Glow estava inteira. A Hime então se virou para Jump e, enfrentando o olhar mal encarado dele, falou:

- A Glow me falou que você se machucou também, né? Me deixa te ajud-

A voz da Hime foi interrompida por uma série de guinchos raivosos e pulos frenéticos.

- Ei! EI! Jump! Calma! - Watery pediu, assustada. - O que ele tá falando, Glow?

- Hã… - O rosto da Conselheira do Brilho estava muito vermelho e ela parecia constrangida. - Ele… está… falando… bem… ele está… zangado. - ela corou mais ainda depois de uma série de guinchos particularmente raivosos - Com… a Hime.

- Ué, mas por que? - Kero perguntou, olhando soslaio para a criatura.

- Deve ter sido porque eu quase ataquei ele. - A Hime observou, parecendo acanhada, olhando para Jump.

O Conselheiro voltou a guinchar e a pular, parecendo enfurecido.

- O que que ele tá falando, Glow? - Flower parecia preocupada.

- Hum… er… - A pequena Conselheira parecia sem jeito, enquanto Jump continuava guinchando.

- Será que ele é um dos Conselheiros que se virou contra a Hime? - Perguntou Kero, desconfiado.

Ao ouvir o guardião, Jump olhou muito feio para ele e recomeçou a gritar.

- O que ele está dizendo, Glow? - Watery estava perdendo a paciência.

- Bom… falou que… está do nosso lado. - Ela disse, mas obviamante havia outras coisas que ela omitira.

Pareceu que Jump chegou no seu limite. Ele se sacudiu com força, fez um barulho de bombinha estourando e sumiu no meio de uma fumaça rosa densa. Quando ela se dissipou, havia um menino gorduchinho, menor que Glow, loirinho com as pontas dos cabelos lisos rosadas. com as bochechas eram ligeiramente coradas e grandes, vestindo uma calça e suspensórios cor de rosa. Seus olhos amarelos, embora fossem grandes e infantis, eram bastante profundos e mostravam uma expressão furiosa.

- Glow, vo-você não está di-di-zendo tu-tu-tudo! - A voz era aguda e era impossível deixar de notar que ele era gago. - Eu fa-falei muitas o-outras coisas-

- AAAAIIIN, QUE FOFINHO! - Ele foi interrompido por Flower, que foi toda empolgada até ele e o menino não conseguiu escapar de um abraço esmagador da Conselheira. - Sempre esqueço como você é lindinho na sua forma humana, Jump! Oxiiii…!

- Ai, AI! Pa-pa-para, Flower! - Ele lutou para se desvencilhar e, se torcendo todo, conseguiu dar um salto muito alto e longo, parando do outro lado da clareira. Ele olhou feio para a Hime. - G-Glow dis-disse que era im-im-im-impossível, mas te-tenho cer-cer-cer-teza do que eu vi-vi!

- Do que você está falando, Jump? - Watery perguntou, intrigada.

- Glow, eu já te falei, ela estava com a gente nessa época! Deve ter sido impressão sua. - Glow tentou argumentar, um tanto nervosa, mas o garoto soltou um grunhido e bateu um dos pés no chão, criando um estrondo desproporcional a seu tamanho.

- Eu se-sei muito bem o q-q-que eu vi, G-g-g-low! N-não im-im-importa o que você di-di-diga! - Ele apontou para a Hime e soltou, gritando: - ELA T-T-TENTOU ME MA-MA-MA-MA-TAR!

Caiu um profundo silêncio aturdido na clareira. A Hime via a raiva e a mágoa escancarada nos olhos grandes amarelos, mas sua extrema confusão a impedia de falar qualquer coisa.

- Você tá maluco, Jump?! - Watery foi a primeira a se recuperar, parecendo muito zangada. - É lógico que não!

- P-p-p-pois eu d-d-d-digo que sim! - Ele volveu, igualmente enfurecido. - E-e-la me ata-ata-atacou em I-ich-igo!

- Quando foi isso? - Perguntou Flower, de cenho franzido.

- Segundo ele, há um pouco mais de uma semana. - Glow respondeu enquanto o garoto ficava vermelho de raiva.

- Estávamos em Seitomura quando isso aconteceu. - Respondeu Watery, ainda aborrecida. - É impossível!

- E-Era E-E-Ela! - Jump apontou para a Hime outra vez. - Me at-at-ata-cou com S-S-S-S-S…

- Com Sword. - Completou Glow por ele, tentando ajudá-lo.

- Pois estamos te dizendo, Jump, que ela esteve conosco o tempo inteiro. - Volveu Flower, intrigada.

- Vo-vo-cês não a-a-a-acreditam em mi-mi-mim! - rebateu o pequeno Conselheiro, parecendo mais magoado que aborrecido.

- Calma, Jump. Só estamos dizendo que talvez você tenha se enganado. - Disse Kero.

- Será que… - Tomoyo começou hesitante e todos olharam para ela.

- O que, Tomoyo-chan? - Glow a encorajou.

- Me pergunto se não foi algum outro Conselheiro disfarçado que o perseguiu e o machucou. Tipo o Shadow.

- Sim, pode ser-

- Não! - Jump cortou Glow, com muita intensidade. - Foi e-e-ela!

- Jump, você está sendo muito teimoso! Já falamos que não foi ela! - Flower começou a perder a paciência também.

- Mas N-não foi Sha-sha-dow! N-não foi ele! Ele t-teria que r-r-roubar a sombra d-d-dela pra poder se trasnfor-mar na H-h-h-ime! A Sombra d-dela está bem no l-l-l-lugar!

- Mas então… pode ter sido Mirror…

- Eu -v-vou PROVAR que f-f-foi ela! Ela me f-f-f-ez isso há m-m-mais de uma se-se-semana! - Ele gritou de repente, virando-se de costas. Por um segundo, a Hime pensou que ele ia mostrar a bunda para o grupo, mas ele apenas abaixou o cós o suficiente para eles verem um longo corte reto que ia do meio das costas e descia pela sua lateral direita. Brilhava um pouco e ao redor estava inchado e meio esverdeado.

Glow e Tomoyo gritaram de surpresa e Watery ficou olhando de boca aberta.

- Não… mas não é… possível. - Balbuciou Flower, aturdida.

- O que? O que… foi? - A Hime finalmente conseguiu falar alguma coisa, olhando assustada para aquele feio corte.

- É que… só tem uma pessoa que pode fazer um ferimento assim, permanente e profundo, nos Conselheiros, Hime-sama. - Flower olhou-a, preocupada. - Você.

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Era tarde da noite e a Hime estava de vigia. Ganhara esse direito depois de protestar muito e argumentar que estavam todos cansados da luta contra os Yōkai e que ela estava em melhores condições de fazer a vigia, junto com Tomoyo e Flower. As Conselheiras tiveram que engolir seus protestos.

Tomoyo e Glow ficaram encarregadas de voltar pela Floresta do Silêncio e conseguir catar o máximo de frutinhas que pudessem no Jardim dos Kodamas. Fizeram um jantar até bem lauto, embora não falassem muito. A Hime, cansada das lutas e extremamente preocupada por causa de Jump, era a mais silenciosa.

Quando Tomoyo a acordou gentilmente para que pudesse fazer seu turno de vigia, vira Jump se remexer e ficar olhando para ela, extremamente desconfiado. Havia voltado a sua forma animal e seus olhos amarelados grandes, quase sem piscar, ficaram fixos nela por quase meia hora antes dele finalmente sucumbir ao sono e dormir. Quando se virou para se acomodar melhor no chão, a Hime viu claramente o corte esverdeado e brilhante, pulsando em sua direção. Ela gemeu, lembrando-se do que Flower lhe dissera um pouco antes do jantar...

"- Watery e Glow se machucaram na Floresta do Silêncio. Você viu. Mas são ferimentos normais, que sangrariam se nós fossemos humanos. E podemos nos curar usando nossa própria magia. É claro que se você usar a Abstração é muito mais fácil, mas com o tempo, esses ferimentos normais se curariam. Porém… - Ela olhou de soslaio para Jump. - Quando você nos machuca, é diferente. Não conseguimos curar nossos ferimentos, por mais magia que usemos.

- Mas… é normal ficar assim, esverdeado e… tão feio? - Ela perguntou, num fio de voz.

- Não sei responder isso. Nunca vimos acontecer. Talvez sim, afinal, é uma ferida que não se cura. Talvez, como nos humanos, ela infeccione se ficar exposta tanto tempo.

- E não tem como ele se curar?

- Na verdade, tem… - A Conselheira das Flores olhou mais uma vez para Jump. - Mas duvido que ele vá aceitar.

- O que é?

- Que você o cure. Usando uma Abstração especial.

- Ah."

- Jump realmente não vai deixar. Ele me odeia. - De volta ao presente, a Hime murmurou, com tristeza.

- Não fique assim, Hime-sama.

A Hime quase sentiu o coração saltar pela boca de susto, mas era só Glow, que parecia preocupada. A pequena Conselheira se levantou e com cuidado para não acordar mais ninguém e foi se sentar ao lado da Hime

- Você não deve se preocupar com Jump. - Ela atalhou, sorrindo um pouco. - Ele é cabeça-dura, mas vamos conseguir convencê-lo que você não teve nada a ver com o que aconteceu a ele.

- Eu não entendo… - A Hime murmurou, olhando fixamente para o pequeno Conselheiro. - Eu nunca faria isso a não ser… - Ela hesitou, engolindo em seco, lembrando-se de uma coisa. - A não ser que me atacassem. Eu… feri Firey e Thunder com Sword. Desde então, não os vi mais.

Glow murmurou algo que a Hime não entendeu, mas seu semblante claramente se entristeceu.

- O que foi? - A Conselheira pareceu despertar de pensamentos profundos e sorriu sem graça.

- Nada. Só estava pensando em… deixa pra lá. - Ela claramente desconversou, encabulada. Voltou a ficar séria e disse: - Não sei como foi sua luta com Firey, mas pelo menos Thunder vai ficar algum tempo fora de circulação. Você o pegou de jeito.

- Se eu soubesse que o machucaria tão profundamente, não teria usado Sword.

- Não creio que ele vá morrer por causa daquilo. Mas aquela ferida vai demorar bastante para sarar…

- Em Firey foi apenas um corte do rosto. - A Hime falou, franzindo a testa. - Quando eu conheci Flower, soube que ele já estava nos caçando outra vez. Felizmente, não o encontramos de novo.

- No rosto? - Admirou-se Glow. - Ele não deve ter ficado nada feliz…

- Por que?

- Ele é… hã… bem zeloso em relação a aparência… - A Conselheira corou ligeiramente ao dizer: - Se acha muito bonito.

- Entendo… isso explica a raiva que ele ficou. - A Hime estremeceu um pouco, lembrando-se do episódio. - Ainda bem que Watery interviu.

As duas ficaram em silêncio por um tempo e então a Hime perguntou:

- Você deveria tentar dormir um pouco. Não está com sono?

- Não. - Glow olhou de relance pela clareira, estremecendo de leve. - Ainda penso… no que aconteceu ontem.

- Deve ter sido muito assustador.

- Foi sim… eu… eu… - As faces da garota ficaram pálidas. - Eu nunca… tinha visto… um Yōkai de perto… e…

- Ah… não pense mais nisso. - A Hime falou com delicadeza. - Foi uma experiência ruim pra todo mundo.

- Mas eu não consigo. - Repentinamente, os olhos grandes de Glow se encheram de lágrimas. - Quando eu penso que… por causa da minha curiosidade… eu quase morri… e o pior… que você teve que lutar, Hime-sama… eu… eu sou uma tapada!

- Não! Não! - Impulsivamente, a Hime a abraçou bem apertado. - Não foi culpa sua, Glow.

- M-mas… se eu não tivesse seguido… aquela… coisa…

- Eu acho que aquela coisinha prateada nos atacaria de qualquer jeito. - Rebateu a Hime, passando mais confiança na voz do que realmente sentia. - Ela só esperou um momento em que estávamos mais vulneráveis.

- Mas… mas… por que ela não se mostrou pra Flower ou Watery? Foi logo para mim! - As lágrimas se intensificaram e o rosto da garota se contorceu em tristeza. - É porque eu sou fraca… FRACA!

- Eu sei que você está triste, Glow, mas tente falar mais baixo, está bem? - A Hime relanceou o olhar pelo acampamento improvisado para ver se alguém havia acordado com as palavras exaltadas de Glow, mas aparentemente todos continuaram a dormir. - E você não é fraca! - Sua voz estava firme. - Qualquer um podia ter sido vítima daquela luz. Eu com certeza teria sido, do jeito que sou curiosa!

Glow ficou algum tempo calada, mas então disse:

- Eu… queria ser mais forte.

A Hime se desvencilhou delicadamente do abraço e a olhou muito seriamente.

- Você é forte, Glow. Muito mais do que você pensa. - A Conselheira abriu a boca para contestar, mas a Hime foi mais rápida: - Lembra quando nos conhecemos? Eu não teria conseguido derrotar todos aqueles soldados de Phobos sem a sua ajuda.

- Mas… se eu fosse forte como Light… poderia ter feito muito mais!

- Mas você não é a Light… Sua magia é ótima do jeito que é! - Contra argumentou a Hime, com firmeza. - Se você usar sua criatividade, vai ver que ela é muito mais incrível do que parece.

- Criatividade? - Balbuciou Glow, incerta.

- Sim… como em Seitomura, lembra? Usando seus poderes com os de Watery, criamos algo muito poderoso que deteu Shadow! Tenho certeza que, se você pensar bem, vai achar maneiras maravilhosas de me ajudar com seus poderes.

- Você… acha mesmo?

O olhar inocente e cheio de esperança de Glow eterneceu a Hime, que a abraçou de novo.

- Tenho certeza, Glow-chan. Você é muito mais forte do que parece.

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A Hime acordou com a claridade do dia queimando sobre seus olhos. Não tinha certeza que horas eram, mas vira que Glow era a única que continuava a dormir. Não havia sinal de Flower ou Watery.

- Bom dia, Hime-sama - Kero veio voando, parecendo animado. - Dormiu bem?

- Sim. Onde estão Flower e Watery? E Jump? - Acrescentou, a não ver o Conselheiro carrancudo.

- Foram até o Jardim dos Kodamas catar mais frutinhas. Estamos praticamente vivendo de maçãs e amoras. - Disse o guardião, suspirando.

- Melhor que morrer de fome, né? - A Hime se levantou, espreguiçando-se. - Cadê a Tomoyo-chan?

- Estou aqui, Hanako-chan.

A Hime se virou e viu Tomoyo abaixada perto do portal. Parecia estar observando algo com muito interesse.

- Você está bem? - A morena perguntou, quando a Hime se aproximou.

- Sim. Ótima. O que você está fazendo?

- Estava pensando em como vamos fazer para entrar em Kehasai. Aqui tem um portal e não uma porta propriamente dita. Estive procurando pelos arredores para encontrá-la mas não vi nada que servisse como porta. Então vim investigar o pórtico em si… e achei isso.

Ela apontou para uma placa grande de metal cinza parcialmente coberta por poeira e cinzas, encravada em um dos lados do pórtico. Podia se ver que haviam letras esculpidas no metal, mas era tanta sujeira que era impossível ler. Haviam letras maiores na parte superior da placa Tomoyo pegou um lenço de dentro do bolso e limpou delicadamente.

- O que vocês estão fazendo aí? - Kero se aproximou, curioso.

Elas não responderam, concentradas nas letras que se revelavam lentamente ao passo que o lenço branco se tornava cinza de tanta fim, conseguiram ler…

- "O Fim"? - Kero recitou, intrigado.

- Talvez isso nos dê uma pista para como vamos conseguir chegar em Kehasai… - Tomoyo falou. Depois murmurou, como se estivesse pensando alto: - "O Fim"... Me pergunto se…

- O que? - Incentivou a Hime, ao vê-la hesitar.

- Lembra que eu falei sobre a "Canção do Fim" que cantei na escola? Talvez tenha relação com isso. É uma música muito antiga e misteriosa, que fala sobre a morte e paraíso.

- Também menciona Kehasai, não? - A Hime perguntou, lembrando-se da noite em que Tomoyo cantara para ela.

- Sim… - A morena fechou os olhos longamente, como se tentasse se lembrar de algo. - O Sensei nos falou algo sobre essa música… se não me engano, a música foi baseada em um antigo poema. Mas não tenho 100% de certeza.

- Bom… já é algo. - Kero falou, voando para perto da placa. Ele tentou limpar um pouco mais da sujeira, mas tudo o que conseguiu foi ficar com as mãos peludas marrons de poeira. - Vamos esperar Watery voltar. Ela pode usar água para limpar.

As garotas concordaram e eles se puseram a esperar, pacientemente, por Watery. Nesse meio tempo, Glow acordou, meio grogue, mas parecendo melhor. Elas estavam contando sobre a placa quando Watery e Flower apareceram pelo pórtico, as mãos carregadas de frutinhas. Jump veio atrás, pulando e, assim que viu a Hime, seu rosto se fechou. A moça, suspirou, mas havia outros assuntos mais urgentes a tratar

- Watery! Precisamos que você use seus poderes para limpar uma coisa!

Watery pareceu confusa, mas, enquanto a Hime a empurrava para o pórtico, Tomoyo explicou brevemente o que elas precisavam.

- Para trás! - A Conselheira da Água disse, estalando os dedos. - Vou tentar espalhar água o mínimo possível, mas ainda assim vai fazer sujeira.

Todos se afastaram até o limiar da clareira, ficando com as costas coladas nos galhos duros. Watery respirou fundo e estendeu as mãos para frente, como se quisesse segurar algo um pouco além do seu alcance. Imediatamente, um jato de água muito forte e concentrado se precipitou com força em direção da placa. Quando atingiu o metal, a água espalhou-se para todos os lados, mas começou a limpar a sujeira, embora muito lentamente. A Hime sentia apenas uma leve névoa gelada de água de onde ela estava, mas o chão perto do pórtico estava completamente molhado e começando a fazer lama. Ela reparou que a água que escorria pelo chão em direção ao portal parecia parar na parede invísivel que dividia a clareira da Floresta do Silêncio.

Depois de uns 10 minutos, Watery se deu por satisfeita e parou de projetar água, arfando lentamente.

- Devia ter algum tipo de magia nesse negócio, porque nunca vi uma poeira ser tão teimosa para sair com um jato de água concentrado. - Ela resmungou.

Com um movimento, ela fez a água enlameada do chão secar para que todos pudessem andar sem sujar os sapatos. A hime se aproximou com os outros. Agora a placa estava limpa, levemente brilhante, embora as esculpidas em baixo relevo ainda estivessem pretas por causa da sujeira em vários pontos. Ainda assim, Tomoyo recitou com sua voz melodiosa e clara:

O Fim

Nas Terras Ermas do leste,

Há o Abismo do Fim

Lá que abre a ponte

para quem da morte ouviu o sim

O destino é O Lugar Eterno

Onde o descanso final os aguarda

As ações em vida

definirão a última morada

Se foi bom para os outros

A Glória será o paraíso

Se o próximo fez sofrer

sangue e dor serão o martírio

Se sabe que a vida é preciosa

e resolve tirá-la mesmo assim

O destino não será outro

a não ser cair no Abismo do Fim

Se a própria vida tira

por não aguentar viver

A alma se congela

para nunca mais sofrer

Para aqueles que morrem pelos outros

A Glória é sem igual

Um paraíso de alegria

além dos sonhos de qualquer mortal

Estas são as regras

muito antes determinadas

Mas as vezes o caminho

Se desvia da última morada

Se não vai ao Lugar Eterno

Mas do corpo a alma se esvai

Só há um refúgio possível

Dentro dos muros de Kehasai

A cidade dos espíritos

Construída há muitos milênios

Além de muros invisíveis

E da Floresta do Silêncio

Não há ódio ou amor

tristeza ou alegria

Apenas as lembranças

De uma eterna melancolia

Para aqueles que não se conformam

Com a morada que lhes foi negada

Existe apenas a esperança

De deixar essa existência espelhada

Aos vivos que ficam

Só restam as condolências

mas há aqueles inconformados

Conhecidos por sua persistência

Arriscam-se para saber

O que depois da morte lhes resta

E tem suas vidas ceifadas

Na entranhas da perigosa floresta

Só a um jeito de garantir

Passagem ao mero mortal

Se o governante do Reino

Der sua Permissão Real

A porta invisível se abrirá

as escadas ao céu se ascenderão

Não deve olhar para baixo

Senão voltará ao chão

E lá nada deve comer

Nem beber nem sonhar

Se uma dessas coisas fizer

Ali sua morada final será

Só um louco se arriscaria

A brincar com a morte

Fica então o aviso

esteja a sua própria sorte

E as Terras Ermas do leste,

Que fiquem longe de mim;

Ainda não quero por os pés

No Último Reino Antes do Fim

Houve um silêncio significativo assim que ela terminou de ler. Eles escutaram um POP e de repente Jump estavam em sua forma humana, se afastando do pórtico como se este tivesse virado um Yōkai.

- N-n-nem pensar que v-v-vou entrar nesse lu-lu-lugar!

- Como assim não podemos comer nem beber em Kehasai?! - Kero estava positivamente horrorizado.

- E nem dormir, pelo visto. - Watery complementou, com o cenho franzido.

- Mas, pelo menos, agora sabemos como abrir a passagem. - Flower falou tentando ser positiva, mas havia preocupação no seu olhar. Ela se voltou para a Hime: - É só você nos permitir entrar.

- Eu já-já disse…

- Você não precisa ir, Jump! - Cortou Watery, impaciente. Ela também olhou para a Hime - Tente abrir a passagem, por favor, Hime-sama.

- Hã… - A hime se sentiu corar ligeiramente com todos olhando para ela. Ela tinha a forte impressão que não seria tão fácil assim como Flower e Watery imaginavam. Contudo, ela limpou a garganta e disse, no tom mais majestoso que conseguiu imprimir a sua voz: - Eu, a Princesa do Reino das Flores de Cerejeira, dou permissão para que entremos em Kehasai.

Nada aconteceu.

- Tente ser mais autoritária. - Sugeriu Kero, Incerto.

- Eu ordeno que a passagem para Kehasai se abra!

- Hum… quem sabe… se você pedir com gentileza, mas firmemente. - Tomoyo opinou

- Eu gostaria que a passagem se abrisse, por favor!

Um vento soprou mais forte na clareira, mas o pórtico continuava igual.

- Que estranho… - Flower estava passava os olhos verdes febrilmente pelo poema, como se tentasse encontrar algo que tivesse deixado passar. - De que outra forma seria? Talvez com magia?

- Pode ser! - Exclamou Tomoyo, animada. - Se Hanako-chan fizer a abstração talvez dê certo.

Todos voltaram seus olhares outra vez para Hime. Até mesmo Jump, que estava mais longe, olhou levemente interessado. Ela fechou os olhos, concentrando-se na sua magia. Não demorou para o círculo mágico surgir aos seus pés e o vento levantar seus cabelos. Ela procurou sentir a presença de alguma magia do pórtico, concentrando-se ao máximo. Mas tudo o que sentiu foi uma poderosíssima barreira mágica, que certamente fazia a fronteira entre a Floresta do Silêncio e aquela pequena clareira. Ela fechou as mãos com força, tentando força sua magia e ver além daquilo. Contudo…

- Nada. - Ela finalmente falou, após alguns momentos. Sua voz transparecia sua decepção. - Não há nada aí.

- Talvez o poema esteja se referindo a algo não tão literal. - Tomoyo falou, pensativa. - Ou algo físico que não vimos ainda. Vamos procurar pela clareira.

Embora não soubessem exatamente o que estavam procurando, todos se espalharam e começaram a esmiuçar cada pedacinho. Até mesmo Jump, embora estivesse num canto de braços cruzados, lançava olhares esquadrinhando ao seu redor. A Hime examinou a placa, tentando retirar a sujeira onde Watery não conseguiram, tentando encontrar alguma coisa…

- Ah! - Tomoyo exclamou, chamando a atenção de todos.

- Encontrou algo, Tomoyo-chan? - Perguntou Watery, ansiosa.

A garota estava do outro lado do pórtico e atravessou-o, olhando com muito interesse para um dos lados. Como tudo ali, era feito de galhos duros, mas nas traves que faziam parte do pórtico os galhos se entrelaçavam em padrões mais ordenados e simétricos, formando pequenos arabescos em cada lado. E a do lado esquerdo tinha…

- Como eu suspeitava! - Tomoyo falou, alegre. - Uma fechadura!

A Hime se aproximou e viu que a morena tinha razão. Galhos quase tão finos como fios de cabelo faziam um intricado adorno que tinha a forma exata de um buraco de fechadura.

- Então… será que…? - A Hime meteu a mão nas vestes e tirou sua chave mágica. Tomoyo concordou com a cabeça, sorrindo.

- Não custa tentar. - Falou Flower.

Muito devagar, a Hime meteu a chave na fechadura, que encaixou perfeitamente. Sem perder tempo, ela girou. Ouviu-se um "clique" bem característico de uma porta se abrindo e então…

- AHH! - A Hime exclamou, se afastando quando o pórtico brilhou em uma luz azul intensa e fria. Quando reabriu os olhos, viu o sopé de uma escada de pedra cinza suspensa no ar pelo nada.

Ela colocou a cabeça para além do pórtico e olhou para cima, engasgando. A escada subia em uma suave espiral, ficando cada vez menor a medida que alçava para o céu, sumindo numa luz fria em algum ponto do firmamento.

- Uau! - Exclamou Watery, olhando para cima, empalidecendo e soltando um palavrão muito feio. - Nós vamos realmente morrer antes de conseguirmos subir isso tudo!

A Hime deu espaço para Flower, Tomoyo e Kero olharem, sentando-se no chão, aturdida. Tinha que concordar com Watery: essa escada parecia impossível.

- Bom… - Falou Flower, suspirando. - Imaginei que não seria fácil chegar em Kehasai.

Jump veio desconfiado e também olhou pelo pórtico.

- B-boa sor-te pra vo-vo-vocês! - E, com um pulo final, voltou a se transformar no coelho cor de rosa.

- Eu não acho uma boa ideia ele ficar aqui sozinho. - Falou a Hime, olhando preocupada para o pequeno Conselheiro. Ele lhe respondeu fazendo uma careta muito mal criada.

- Jump! - Exclamaram Watery e Glow ao mesmo tempo, mas a Hime fez um sinal para elas ficarem quietas.

- Glow-chan… você poderia ficar ele, por favor? - Os olhos da pequena Conselheira se encheram de lágrimas e a Hime se apressou levantar e caminahr até ela sussurrando para que só ela ouvisse. - Não pense que te acho fraca ou algo do tipo. Mas eu tenho a impressão que você vai conseguir conversar com Jump e advogar ao meu favor. Sabe… tentar convencê-lo que não fui eu quem o machucou.

- Ah… - A Conselheira ainda parecia decepcionada, mas não magoada.

- Também acho perigosos ele ficar sozinho aqui. - Ela acrescentou ainda mais baixo. - Ele é muito criança e está ferido. Você consegue cuidar dele?

- Claro, Hime-sama! - Glow endireitou-se e a olhou muito séria para a Hime. - Vou protegê-lo, com certeza!

- Se vocês não se importarem. - Tomoyo falou, de repente. - Acho que também vou ficar. Acho que não aguento essa subida. Posso ficar com vocês?

- Claro, Tomoyo-chan! - Glow respondeu, sorrindo.

A Hime olhou agradecida para Tomoyo, pois sabia que a morena se oferecera para ficar com o intuito de cuidar de Glow e de Jump. Tomoyo sorriu de volta.

- Eu continuo preocupado… - Kero falou, pálido. - Com essa história de não poder comer, beber e dormir na cidade!

- Acho, Kero-chan, que você não pode comer nada da cidade em si. Mas pode levar coisas de fora. - Tomoyo falou, sabiamente.

- Menos mal! Se não eu também ficaria aq… er… - Watery lançou um olhar tão feio para Kero que sua voz morreu no meio da frase.

- Mas é um ponto a se pensar… - Disse Flower, apreensiva, se preparando para sair. - Precisamos levar ao menos comida daqui. Watery pode nos dar água, mas… se não podemos dormir em Kehasai, isso significa que não podemos ficar muito tempo na cidade. Precisamos achar esse espelho o mais rápido possível.

- Sim. - A Hime concordou, séria, enquanto colocava a mochila nas costas. - Eu tenho a esperança que não seja tão difícil de encontrar… ou que ao menos existam pistas para nós.

- Só saberemos quando encontrarmos.

- Se ao menos Fly ou Windy estivessem conosco… - Suspirou Watery. - Poderíamos ter o tempo que quiséssemos pois seria fácil voltar pra cá e dormir.

- Mas não temos. - disse Flower, com firmeza. - E quanto mais cedo formos, mais cedo voltamos também. Hime-sama… veja se existe um buraco da fechadura do outro lado. Senão teremos que deixar a passagem aberta e Glow, Tomoyo e Jump não poderão passar para colher mais frutinhas.

- Verdade, deixe-me ver…

A Hime tirou a chave da fechadura e atravessou a passagem. Kero, que voou ao seu lado, logo viu o buraco de fechadura do outro lado e apontou para a Hime.

- Está aqui. Vou fechar.

Encaixou a chave e girou para o lado contrário. Ela escutou o barulho de um porta se fechando e um brilho dourado cegou-os momentaneamente. Então, eles viram que estavam na frente de uma parede de pedra cinza, com um pórtico de metal preto, do exato tamanho do pórtico na clareira.

- Eles vão conseguir colher frutinhas. Fico feliz… - A Hime parou de falar, pois sua voz sai estranhamente ecoada e etérea

- Que esquisito. - A voz de Kero parecia ainda mais aguda.

- Bom… vamos abrir a passagem para que Flower e Watery…

Novamente a Hime se interrompeu, mas dessa vez porque sentiu seu sangue gelar e as palavras evaporarem de sua mente…

Ela havia girado a chave para abrir a passagem, mas não houve clique, nem luz. Nada havia acontecido. A passagem não se abriu outra vez...

(continua)


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Olá, pessoas lindas!

Peço milhões de desculpas pelo atraso. Eu estou naquela fase que quero abraçar o mundo, mas não tenho tempo pra fazer quase nada. Como eu gostaria que o dia tivesse umas 36 horas… XD

Enfim, demorei, mas escrevi e, embora não tenha tido muita ação, teve algumas revelações importantes e lançou mais algumas perguntas…

Aliás, sobre perguntas… em breve várias serão respondidas. Esse encontro com o Ou-sama deve esclarecer alguns pontos, mas não prometo que tudo será explicado. Embora tenhamos passado da metade da primeira parte da fic, ainda tem um chãozinho aí.

Quando vai sair o próximo capítulo? Boa pergunta… não vou prometer nada, pois ando bastante ocupada com serviço e reaprendendo a desenhar. Mas vou escrever o mais rápido que puder.

Obrigada a todos que acompanham a fic e em especial a Ana Pri-chan pelo review.

Um grande beijo e até o próximo capítulo.

Cherry_hi