Ela e ele

#1: Aquela do apartamento dele

Kagome sentia como se tivesse passado por um moedor de carne.

Caminhava pelo aeroporto de Tóquio arrastando sua enorme mala e pedia, pelo amor dos deuses, por alguém que pudesse lhe arrastar até em casa. Mas, aparentemente, os deuses eram grandes babacas, ou simplesmente não se importavam com sua pequena causa, já que nenhuma alma viva (ou morta) aparecera para lhe ajudar naquela fria noite de inverno.

Ela passara a semana inspecionando um dos hotéis de seu pai nos Estados Unidos, desde o porteiro até as melhores suítes disponíveis. Os americanos eram sempre uma dor de cabeça: precisavam de alguém para lhes gritar ordens vinte e quatro horas por dia para que tudo pudesse funcionar como deveria e, deuses, como gostavam de falar mal uns dos outros.

(Em certa ocasião, precisou buscar inspiração na Sra. Norbury para que pudesse resolver as tramas da equipe do hotel. Nunca pensou que decorar o script de Mean Girls fosse realmente valer a pena).

Além disso, os voos de mais de trinta horas não lhe agradavam nem um pouco: o medo de desenvolver trombose nunca ficava tão grande.

Ao chegar à calçada, Kagome sorriu aliviada quando viu um táxi vago logo a sua frente. O motorista era um senhorzinho simpático que se ofereceu para colocar a bagagem no porta-malas enquanto ela embarcava. O interior do carro estava quentinho e aconchegante, e Kagome se encolheu, encostando a cabeça no vidro da janela.

"Para onde vamos, senhorita?"

Ela suspirou e olhou para fora da janela. Sua casa ficava a quarenta minutos de distância. Podia sentir a água quente do chuveiro em sua pele, o toque de seu roupão felpudo e o cheiro dos cobertores dos quais tanto sentira falta. Kagome piscou duas vezes quando viu um carro prateado do outro lado da rua e deu um meio sorriso.

"Senhorita?" o motorista insistiu, olhando pelo retrovisor.

"Desculpe", ela sorriu, abanando a mão em sinal de descaso enquanto passava o endereço para o senhor. "Acorde-me quando chegarmos lá, sim?"

Kagome voltou a se recostar e cruzou os braços sobre sua barriga. Logo poderia descansar.


Sesshoumaru odiava pessoas que não eram bem-vindas em seu apartamento. Na verdade, odiava pessoas em seu apartamento. Na verdade verdade, ele odiava pessoas, mas desde que seu pai deixara claro que se isolar em um casebre na Noruega não era uma opção, ele desistira de reclamar.

Isso não impedia o youkai de ficar extremamente irritado quando ouvia uma pessoa adentrar sua residência sorrateiramente no meio da madrugada. Sesshoumaru acordara assim que ouvira a porta se abrir e aguardava mais movimentos por parte do invasor.

O (único) movimento seguinte emitiu um som parecido com o de alguém se jogando no sofá. Foi assim que soube quem era, antes mesmo do cheiro dela atingir suas narinas. Ele se levantou e vestiu o moletom cinza que deixara no criado mudo ao lado da cama antes de sair do quarto, pronto para pegar a garota pela gola do casaco e jogá-la para fora.

Sesshoumaru não pode deixar de rolar os olhos quando viu a cena que lhe esperava.

Havia uma mala enorme caída no chão e ele suspeitou que fosse essa a razão da mesa de centro da sala já não estar mais no centro. Kagome, esparramada sobre seu sofá, usava um casaco azul escuro como cobertor e tinha o cachecol vermelho enrolado na cabeça, provavelmente uma tentativa de se proteger do vento lá fora. O youkai estreitou os olhos quando percebeu as botas da mulher, ainda calçadas, que sujavam de terra as almofadas.

Ele caminhou até o sofá e a observou por alguns segundos.

Então, a cutucou com o joelho.

"Como entrou aqui?"

Kagome resmungou algo que nem mesmo suas orelhas sensíveis puderam entender e se encolheu, abraçando o casaco. Sesshoumaru a cutucou outra vez, irritado. "Kagome," seu tom de voz estava mais alto e ele percebeu que conseguira a atenção da humana quando ela tentou (e falhou em) lhe estapear. "Como entrou aqui?"

"Chave," ela respondeu, a testa franzida e os olhos ainda fechados.

Certo. A chave. Sesshoumaru se lembrava de entregar uma cópia da chave do apartamento para Kagome alguns meses antes, quando precisara viajar para a Europa por duas semanas. Ele lhe entregara a chave por três motivos: 1) precisava de alguém para se livrar da comida na geladeira; 2) ela era a única que não invadiria seu espaço pessoal; e 3) Kagome não seria estúpida de usar a chave para algo que não fosse atender ao motivo 1).

Aparentemente, ele estava errado. Nunca subestime a estupidez dos humanos, ele repetiu mentalmente, ao segurar o pulso de Kagome que novamente tentava lhe acertar um tapa.

"Da última vez que a vi, ainda tinha uma casa."

"Muito. Longe" ela sussurrou entre bocejos, puxando o braço com força para se libertar. Kagome virou de costas. "Você é mais perto. E o sofa é fofiiiinho…" ela sorriu como se ainda tivesse cinco anos (Sesshomaru suspeitava que era essa a idade mental de Kagome) e abraçou uma almofada.

Estava apagada.

O youkai fitou a cabeça da humana. Poderia pegá-la no colo e a colocar para dormir no meio do corredor, é claro. Ele duvidava que ela fosse sequer acordar. Mas estranhamente não se sentia tentado a fazê-lo e de repente começou a se perguntar quando foi que a deixara entrar em sua vida daquela maneira. Não conseguia se lembrar e decidiu que não se importava. Era tarde demais para tais questionamentos e precisaria acordar cedo para trabalhar.

Sesshoumaru deixou a sala, lançando um último olhar para o sofá antes de voltar para o quarto.


Kagome acordou assustada com o barulho do vento batendo na janela. Demorou alguns segundos para perceber que não estava em sua casa e então se lembrou da ideia ousada que tivera algumas horas antes. Dera sorte em acordar ainda no sofá e não dentro da sua própria mala a caminho de sabe-se lá onde. Sesshoumaru podia ser bem criativo quando quisesse.

Logo, a mulher percebeu algo diferente e olhou para baixo, confusa. Havia um cobertor felpudo sobre si e ela pode ver, quando inspecionou ao seu redor, seu casaco e cachecol dobrados sobre a mala, ao lado das botas sujas.

Kagome sorriu e voltou a se encolher, puxando o cobertor para mais perto. Aquela fora, de fato, uma ótima noite de sono.


Oie, tô viva.

É isso mesmo.

Beijos!