Ela e ele

#7: Aquela depois do primeiro primeiro encontro

Quando Kagome chegou em casa após cinco dias fora, pensou que poderia ter um pouco de paz e silêncio para descansar. Agora, ao servir café para Kouga e Sango, que brigavam para ver quem teria mais espaço na mesa de centro de sua sala, ela não podia deixar de lembrar que a vida era realmente uma vadia sem coração.

Kagome os amava. De verdade. Mas se havia algo que os dois tinham em comum, era a famosa falta de semancol.

(Horas mais tarde, quando parou para pensar, a Higurashi percebeu que aquele era um traço comum em todos os seus amigos e começou a se perguntar se o problema não era ela mesma. Chegou a conclusão de que a culpa era de seus pais por não a terem ensinado melhor).

"Você parece nervosa", Kouga comentou em um tom (nada) inocente.

Kagome se refreou o máximo que pode para não cair do sofá e olhar para Sesshoumaru, sentado em uma poltrona lendo algum documento tedioso, e manter sua melhor poker face.

Nervosa. Era claro que estava nervosa. Beijar um de seus melhores amigos e depois sumir por uma semana em uma viagem de trabalho como se o estivesse evitando certamente a deixara, no mínimo, nervosa. Conversara com Sesshoumaru por mensagens de texto, é claro, mas nenhum dos dois mencionara o jantar; ela, por covardia, e ele, bem, Sesshoumaru não parecia o tipo de pessoa que manda uma mensagem no dia seguinte dizendo o quão boa fora a noite antes do meio-irmão chegar para arruinar tudo. O youkai provavelmente viera até a casa para que os dois pudessem falar sobre o acontecido pessoalmente e agora estavam nessa situação extremamente embaraçosa (para ela, pelo menos).

Piscando algumas vezes quando percebeu que ainda não rebatera o comentário de Kouga — e depois se chutando mentalmente por perceber que a melhor resposta seria o silêncio—, Kagome eloquentemente respondeu:

"Eu não estou nervosa, você está nervoso".

(Se Sesshoumaru fosse o tipo de pessoa que fizesse um facepalm, Kagome imaginou que ele o teria feito).

Kouga riu abertamente e Sango levou a xícara aos lábios, um brilho divertido nos grandes olhos castanhos. "Acho que ela está apaixonada", o lobo sussurrou no ouvido de Sango.

Aquele assunto estava ficando perigoso demais. Kagome claramente não dominava o truque de esconder suas emoções com uma expressão inabalável, então ela fez o que fazia de melhor e pulou do sofá, arrancando a xícara das mãos de Kouga logo em seguida, fazendo o amigo reclamar. "Hey! Isso aí é meu!"

"Não mais. Você perdeu seus privilégios de café sob o meu teto", jogando os cabelos por cima do ombro, ela lhe deu as costas e caminhou em direção a cozinha.

"Estou sendo privado de café por causa de uma piada? Você é uma tirana! Sesshoumaru, você está vendo isso?!"

Kagome riu quando a resposta do taiyoukai foi um belo e redondo nada. Kouga devia estar realmente desesperado por café se estava apelando para Sesshoumaru. Sango, no entanto, interveio.

"Deixa ela, Kouga. Kagome fez uma viagem cansativa e nós estamos abusando da boa vontade dela aparecendo aqui do nada. Você devia ser mais compreensivo…" Sango sorriu. "...antes que eu enfie meu punho na sua cara".

Kagome riu e agradeceu aos deuses por terem lhe enviado Sango, afinal, alguém precisava salvá-la das próprias respostas vergonhosas. As duas chegaram na cozinha ouvindo Kouga reclamar enquanto enfiava alguns papéis dentro da mochila.

"Obrigada, Sango."

"Tudo bem. Kouga precisa ser ameaçado por alguém quando Inuyasha não está por perto".

"E você adora ser esse alguém, não é?"

"Com certeza", a morena fez sinal de joinhajuntando o dedão e o indicador. Logo, sua expressão mudou para uma de preocupação. "Mas sério, você parece nervosa. Está tudo bem?"

Kagome queria contar sobre Sesshoumaru. Muito. Mas achava que não era a hora de alguém do grupo saber e a última coisa em que queria pensar era na reação de Inuyasha ao ficar a par dos acontecimentos. Além disso, nem ela fazia ideia da resposta para a pergunta da amiga, então decidiu adiar o momento.

"Está, eu acho. Não me sinto confortável para falar sobre isso, por enquanto".

Sabia que Sango entenderia. Eram melhores amigas e se contavam tudo, mas entendiam que às vezes precisavam de um tempo para processar as informações antes de compartilhá-las.

"Certo", Sango sorriu. "Estou aqui se quiser conversar".

Elas se abraçaram por um tempo antes de Sango voltar para sala. Kagome largou as xícaras dentro da pia e começou a esfregá-las com uma esponja. Quando estava enxaguando a última, quase teve um ataque cardíaco.

"Você parece nervosa."

Sesshoumaru estava bem ao seu lado e ela nem o ouvira se aproximar. Ele tinha as mãos nos bolsos da calça social e estava encostado no balcão, e Kagome não pode deixar de notar o tom acusador de suas palavras (depois de chegar muito perto de perder uma xícara, é claro. E o coração).

"Merda, Sesshoumaru. Não me assuste desse jeito. Pelo menos use sapatos barulhentos, droga!"

"Não fique nervosa."

Kagome às vezes esquecia que não podia passar a perna em Seshoumaru mudando de assunto.

"Eu não estou…" ela se interrompeu quando o viu semicerrar os olhos. "Tá bom, tá bom, eu estou nervosa. Não conversamos sobre a noite no seu apartamento e eu pensei que… bem, não sei o que eu pensei. A verdade é que eu não sei bem onde estamos, entende? E se você responder que estamos na minha cozinha vou ser obrigada a jogar esta xícara na sua cara."

Sesshoumaru se aproximou lentamente e pegou a mão de Kagome, virando-a para si para que pudesse encará-la (e aproveitou o movimento para tirar a xícara de seu alcance).

"O que você disse sobre nos afastarmos?"

Naquele momento, ocorreu a Kagome o quão hipócrita estava sendo. Praticamente garantira a Sesshoumaru que nada ficaria estranho e que eles não se afastariam, e lá estava ela evitando tocar no assunto durante dias e se escondendo na cozinha para evitar uma conversa. Não fizera de propósito, é claro. Apenas ficara levemente paranoica com a possibilidade de ter estragado uma amizade tão importante (possibilidade que só existia em sua sua cabeça delirante, aparentemente).

A morena suspirou e entrelaçou os dedos com os de Sesshoumaru.

"Não ficarei nervosa."

O youkai assentiu e a apertou sua mão como se para tranquilizá-la antes de se afastar.

Quase que imediatamente, Kouga entrou na cozinha.

"Quero meu café!"

Kagome rolou os olhos e avistou a xícara em cima do balcão. Sesshoumaru pareceu perceber suas intenções, pois voltou para a sala onde estava Sango. A morena sorriu maliciosamente e pegou o objeto branco, prestes a descobrir o quão rápidos seriam os reflexos do youkai lobo.


Em minha defesa, a faculdade é uma vaca.