Naquela tarde de outono o parque estava particularmente convidativo para um passeio com sua irmã e seu queridinho. 'Outono', pensou ela 'quando será que poderei retomar a minha história?', refletiu com nostalgia.

O animalzinho aproveitou o momento de distração de sua dona para escapar:

- Ei, volte aqui rapaz! – gritou ela, quando o canino peludo se afastou em uma corrida desesperada.

- Aff! O jeito é ficar por aqui até esse impossível resolver dar o ar de sua graça novamente.

Buscou pela sombra de uma árvore, mas não havia nenhuma nas proximidades. Resolveu tomar lugar no tapete de grama no qual se encontrava. O vento fresco era garantia de que não sentiria calor. Por via das dúvidas, retirou a jaqueta. A camiseta branca e o short jeans seriam suficientes. Apreciava a paisagem a sua frente. Alguns corriam, outros usufruíam de um piquenique improvisado e casais buscavam pela discrição da sombra das árvores. A vibração do celular denunciou-lhe uma mensagem. Olhou a pequena tela que lhe trouxera a confirmação indesejada: a irmã não viria.

- Ah! Que pena! – disse em voz alta antes de enviar a resposta – sinto tanta falta dela!

Enviou a resposta: 'OK. Quem sabe uma próxima vez.'

Deitou-se um pouco, apoiando a cabeça com as mãos, mirando o céu azul.

'Belo passeio. Abandonada por minha irmã e meu filhote. Arg!'

Poucas nuvens brancas passavam vagarosas. Aspirou o ar fresco. Talvez a própria companhia não fosse tão ruim, afinal. Até que de repente, sentiu um peso sobre sua pessoa:

- Ai! – gritou, ao identificar o companheiro canino que retornara – o que é isso, rapaz? – indagou ao ver o pedaço de pano dourado na boca do amiguinho – Do que adianta eu lhe comprar brinquedos caros se você só se diverte com o que encontra por aí?

O cachorro balançava o tecido freneticamente, sem que sua dona compreendesse o que ele realmente queria.

- Calma, filhotinho! O que é isso, afinal?

A jovem segurou o pano, abrindo-o. Parecia uma echarpe.

- De quem você tirou isso, hem? Menino levado!

A moça olhou ao redor. Ninguém parecia estar dando por falta de nada.

- Bom, façamos o seguinte – disse, trazendo bem para perto de si o canino – deixe-me colocar isso em você e por certo o dono verá e reclamará sua propriedade!

O cachorro, já com o adereço no pescoço, pareceu gostar da ideia, pois saiu em disparada, fazendo com que sua dona corresse atrás dele sem demora.

-Ah, não dessa vez! Não vai me deixar aqui sozinha e ficar surrupiando os pertences alheios!

Após uma breve corrida, o canino se aproximou do pequeno lago rodeado de árvores. A jovem, quase sem fôlego, agradeceu quando seu amiguinho de quatro patas parou embaixo de uma árvore, balançando alegremente o rabo.

- E então? – indagou ela – o cansaço finalmente o venceu, criaturinha de Yavanna?

Ela estancou diante da visão que surgira a sua frente. A figura sentada junto à árvore acariciava seu amigo canino, fazendo-lhe perguntas:

- Ei, amiguinho, o que você está fazendo aqui, hem? De onde veio? – inquiriu ao animal, enquanto olhava ao redor.

'Ele é meu.' Ela teve vontade de responder, todavia ver seu cachorro sendo acariciado e lambendo as mãos de Thórin Oakenshield era por demais surreal para que quaisquer palavras fossem produzidas por suas cordas vocais.

O anão buscou com os olhos por mais alguns instantes pela origem do companheiro inesperado, todavia ainda que mirasse em direção à jovem, não conseguia perceber a sua presença.

- Bom, talvez você possa me ajudar a tomar uma decisão, amiguinho – disse, dirigindo-se ao cão – eu preciso dar uma resposta ainda hoje a um certo mago sobre uma certa demanda: Retornar ou não a minha terra natal. A vida aqui em Ered Luin é próspera. Meu povo está feliz, mas em nossos corações há um vazio que não conseguimos preencher. Como se não pertencêssemos a esse lugar.

A jovem olhou ao redor. 'Ered Luin? Do que ele está falando? Será algum louco muito, muito, mas muito parecido mesmo com Richard Armitage?', refletiu, estreitando os olhos, ' Mas... de qualquer forma, ele não é tão alto como o ator, nem tão baixo quanto imaginei um filho de Dúrin: 1,50m talvez... não é tão mais baixo do que ... eu... Mahal! Estou delirando!'

A voz do personagem a tirou de suas reflexões.

- Hem? O que eu faço, pequeno amigo? Alguns querem ir... outros não... a decisão final coube a mim.

'Bem, só há uma forma de descobrir quem ou o que isso é.'Pensou ela.

- Bom dia, senhor – cumprimentou – vejo que encontrou meu filhote!

O pretenso Thórin ignorou completamente a pergunta que lhe fora dirigida.

- Ei! – insistiu ela – não está me ouvindo? – indagou, passando a mão pela frente dos olhos dele.

Nada.

'Por Mahal, ele realmente não consegue me ver ou me ouvir', disse consigo mesma, levando as mãos à boca.

'Mas consegue ver meu bebe! Por que será?'

- De qualquer forma – prosseguiu o anão – o perigo se insinua. Minha cabeça está a prêmio, pelo que me disse o mago. Aqui já não é um lugar seguro para mim. E já estou com quase dois séculos de existência, não possuo filhos e meu coração se inflama cada vez que penso em Erebor, não seria nada mal ter a oportunidade de encarar novamente aquele dragão usurpador!

- Não! – gritou a jovem – não vá! Só encontrará a morte – concluiu, ajoelhando-se junto ao anão e se entregando definitivamente àquele delírio.

Thórin pareceu sentir algo.

- Você ouviu alguma coisa – sussurrou ao cãozinho – como uma vibração do ar?

O cachorro apenas balançava a calda.

A moça refletiu. 'Sentiu a vibração da minha voz? Então ele não me vê, nem me ouve mas... é capaz de sentir?'

Uma vontade arrebatadora tomou conta dela. Quis sorrir, imaginando as possibilidades. Ergueu a mão lentamente, aproximando-a da cabeleira negra. 'Mahal, eu sempre quis saber como seria tocar essa mechas...'

As pontas dos dedos se aproximaram dos fios, sentindo-os inacreditavelmente reais.

O sorriso surgiu na face feminina, radiante! O desejo de avançar queimando-lhe o peito!

' A mecha branca! Preciso tocar nela!'

Os dedos avançaram em direção aos fios desbotados, bem próximos ao rosto. Um descuido milimétrico fez com que a ponta dos dedos tocasse a pele do rosto do anão.

Thórin se virou, buscando de onde poderia ter vindo a sensação inesperada. A moça se assustou, afastando-se.

- Parece que há alguma coisa errada acontecendo aqui – aspirou o ar, parecendo procurar por algo em especial – sente esse cheio? – indagou ao canino – uma fragrância feminina sem dúvida: água de colônia.

'Por Mahal, ele sentiu meu perfume!'

A jovem não se mexia, sentindo o coração disparado no peito e a respiração em um ritmo inacreditável.

- Você trouxe alguma assombração consigo, pequeno amigo? – questionou, erguendo-se e dando alguns passos para trás.

A moça lamentou haver sido tão precipitada, contudo não seria por um perfume que Thórin Oakenshield se deixaria intimidar.

- Nem em mil anos – disse o anão – eu recuaria diante de tão pouco.

Refez os passos, tomando o mesmo lugar de antes.

- Se vai continuar aqui, senhora assombração, saiba que terá que se conformar com minha companhia.

A moça sorriu novamente. Thórin Oakenshield não decepcionava. Todavia, não estava mais distraído como antes, seus sentidos estavam aguçados. Ela estava certa de que ele sentiria até mesmo sua respiração.

'O que eu faço agora, rapaz?' – ela indagou mentalmente ao amigo canino, enquanto lhe acariciava o dorso.

Thórin percebeu o movimento incomum no pelo do animal e numa manobra digna de Dúrin pousou a mão por sobre a dela, segurando-a.

O cão se afastou, deixando que sua dona se entendesse com seu novo 'amigo'.

O anão custou a acreditar que entre seus dedos capturara outros, menores e mais delicados que os dele. 'Dedos femininos.' Pensou.

A jovem tentou escapar a cilada na qual caíra, todavia nem que o fim dos dias fosse iminente, Thórin deixaria que aquela mão lhe escapasse.

- Que bruxaria é essa? – indagou ele, estendendo a mão em busca de mais algum sinal concreto que suas mãos pudessem tocar.

A mulher tentou se esquivar, mas a mão livre do anão conseguiu tocar seu rosto, recuando em seguida.

- Você tem forma – disse ele, aspirando novamente o perfume – e cheiro. Não pode ser um fantasma.

O coração dela estava quase saindo pela garganta e a jovem percebeu que o melhor a fazer seria se render. Permaneceu alguns instantes sem se mover, enquanto Thórin aguçava os sentidos em busca de mais alguma pista.

Mirando a face intrigada do anão, ela não pode mais se conter e ergueu a mão dela lentamente, buscando entrelaçar seus dedos nos dedos da mão masculina que permanecia erguida. Thórin correspondeu, sentindo o tremor que vinha daquele corpo invisível e sorriu discretamente.

- Não precisa ter medo de mim – disse, orgulhoso de haver ele mesmo vencido o próprio medo e dominado a aparição misteriosa – a menos que deseje me fazer algum mal.

'Eu seria incapaz disso.' Ela gostaria de ter respondido, mas não adiantaria, ele não conseguiria ouvir.

Thórin percebeu que ela deixara de lutar e suavizou a força de suas mãos, segurando-as agora com um pouco mais de gentileza enquanto estavam um diante do outro, ajoelhados.

A mulher estava tão hipnotizada pelos olhos azuis que a miravam sem vê-la, sentindo a fragrância amadeirada de Thórin, que quase não percebeu quando ele soltou suas mãos e começou a percorrer seus braços suavemente com a ponta dos dedos. Um arrepio a trouxe de volta do transe, enquanto sentia o inacreditável toque.

Thórin percebeu quando os pelos dos braços dela se eriçaram, encorajando-o a chegar aos ombros, ao pescoço e sentindo uma ausência...

- Onde estão seus cabelos? – indagou ele, sem saber que os mesmos se encontravam presos em um coque improvisado com um lápis.

O anão prosseguiu o trajeto, encontrando o objeto por ele desconhecido.

- Ah! Aqui está – disse Thórin, desfazendo o coque e permitindo que as mechas fossem libertadas de sua prisão.

- Seus cabelos são claros ou escuros? – indagou ele, enquanto as mãos percorriam a cabeleira invisível.

A jovem baixou a cabeça. Thórin sentiu um que de tristeza no gesto e envolveu o rosto dela com suas mãos.

- Por que não me responde? – perguntou, passando o polegar pela bochecha incrivelmente corada.

Uma possibilidade surgiu na mente do anão.

- Você pode falar?

Ela balançou a cabeça em uma afirmativa.

- Por que não fala?

A ausência de resposta dando tempo para que Thórin vislumbrasse outra possibilidade.

- Já sei. Você pode falar, mas eu não posso ouvir, da mesma forma que não posso ver?

Ela balançou a cabeça em uma afirmativa novamente.

- E você pode me ver e ouvir?

Outra resposta afirmativa foi dada.

- Bom, isso é um problema – comentou ele.

Thórin acariciou a face por mais alguns instantes e outra pergunta lhe veio em mente.

- Você tem o rosto liso. O que você é? Uma humana?

A resposta afirmativa novamente.

- E o que veio fazer aqui? Veio em resposta às minhas reflexões sobre Erebor?

Houve uma negativa.

- Sabe do que se trata?

Respondeu afirmativamente.

- Acha que deveria ir?

Nenhum movimento. Thórin refinou a pergunta.

- Deseja que eu vá?

Uma negativa.

- Mas eu devo ir?

Uma afirmativa.

- Então por que não deseja que eu vá? Teme por minha vida?

Mais uma afirmação.

Thórin sentiu algo lhe revolver por dentro ante a afeição invisível que experimentava, desejoso de saber mais sobre ela.

- E então? Seus cabelos são claros?

Balançou a cabeça, confirmando.

O anão tentava formar em sua mente uma imagem que fosse daquela aparição inesperada. Meneou a cabeça. 'Isso é loucura', pensou. Todavia, suas mãos no rosto feminino lhe transmitiam sensações diversas, a situação inusitada atiçando seus sentidos. Queria saber mais. Precisava saber mais.

- Sua pele é clara? – prosseguiu.

A jovem confirmou novamente.

- Hum... vou demorar muito para saber como você é se continuar assim respondendo apenas sim e não – sussurrou, aproximando o rosto ao dela, sentindo mais uma vez a fragrância.

O coração do filho de Dúrin bateu mais forte, imaginando uma possibilidade. A impetuosidade jamais fizera parte de suas qualidades de amante. Sempre fora discreto, quase distante. Fato era que desistira há tempos de encontrar uma companheira, porém, admitia que nos últimos tempos, fosse pelo fogo do dragão que lhe corroia o peito, fosse pela solidão de ser o Rei no Exílio, Thórin sentia ganas de dividir seus pensamentos, seus sentimentos e algo mais, porém jamais encontra alguém capaz de ver além da figura do Senhor do Khazâd...

- Sei que aqui entre minhas mãos há uma boca – sussurrou, esquecendo-se por um segundo de quem era e passando o polegar pelos os lábios femininos – e já que só me resta o sentido do tato...

Thorin aproximou seus lábios dos lábios femininos, sentindo a essência de água de colônia. O toque úmido inevitável fez a moça estremecer. As mãos dela buscaram pelos ombros tão reais quanto o beijo, suave a princípio e intenso após alguns instantes.

Quando ambos necessitavam de fôlego, os lábios se separaram, mas não muito.

- Veio me dar um motivo para ficar? – sussurrou ele.

'Como se você fosse capaz de desistir de Erebor por mim!'

- Sim, eu sei – Ele pareceu ouvir – Sou senhor de meu povo, não poderia desistir dessa jornada por nada nem por ninguém, todavia, Mahal, seria muito mais difícil partir se houvesse alguém – disse, baixando a cabeça – mas não há, nem nunca haverá. Tudo isso dever ser apenas um delírio louco.

A garota estremeceu ante a possibilidade de que ele simplesmente se fosse. Aproximou novamente seus lábios dos dele ofertando um beijo renovado, apaixonado, com sabor de desespero. Thórin a abraçou ainda mais firmemente, garantindo-lhe a permanência.

Ele já não se permitia abrir os olhos, pois o que a visão lhe negava, seus outros sentidos confirmavam. As mãos percorriam o rosto, os cabelos e a pele, enquanto os lábios quentes e úmidos lhe confirmavam que havia alguém em seus braços... como há muito tempo não havia...

' Se isso não é real, então já não sei o que é a realidade.' Refletiu ele.

'Mahal, não permita que esse momento termine!'. Rogou ela.

- Thórin Oakenshield! Onde você está? Preciso de uma resposta!

Eles separaram os lábios ante o chamado do Peregrino Cinzento.

- Não... – Thórin sussurrou – Mahal, não agora! – suplicou, encostando a testa na dela.

A jovem percebeu que o mágico momento se aproximava de seu final e depositou um beijo casto sobre os lábios ainda úmidos, liberando Thórin de seus braços.

O anão, relutantemente acompanhou o gesto.

- Esteja aqui quando eu voltar – sussurrou – talvez no próximo Outono.

Thórin ergueu-se, indo ao encontro do mago, sem, contudo, deixar de olhar ocasionalmente para o lugar onde sabia que ela estava.

- Estou aqui, Gandalf! – cumprimentou com um aceno.

- E então, Thórin? Como ficamos?

- Pode marcar o encontro na casa do Ladrão. Minha resposta é sim.

- Excelente! Sabia que o sangue Dúrin não se negaria!

O anão assentiu.

- E aquele, quem é? – questionou o mago, apontando para o cachorro.

- Não estou certo. Apareceu não sei de onde. Gostaria de saber...

- Gostaria? Por quê? – Gandalf parecia intrigado.

- Por que se eu soubesse de onde ele veio, eu estaria lá – disse – 'Com ela.' Completou mentalmente.

A moça sentiu algo morno em seu peito ante as palavras do herdeiro de Dúrin.

Gandalf coçou a barba, pressentindo algo.

- Vou comunicar aos outros a minha decisão e convocar as famílias dos anões – finalizou o anão, tomando seu caminho. O cheiro da água de colônia ainda o entorpecendo. Olhou para trás.

- O que foi Thórin? Ainda há alguma dúvida sobre sua partida?

O anão fitou Gandalf e o invisível alternamente.

- Thórin?

Oakenshield baixou os olhos.

- Se houver algo aqui que o esteja deixando em dúvida eu preciso saber. Nossa jornada não admitirá que se olhe para trás.

- Eu não estou olhando para trás, mago – retorquiu ele.

- Não? E para onde está olhando, posso saber?

Thórin sorriu.

- Para frente. Para o próximo Outono – finalizou, antes de se retirar.

A jovem não pode evitar que seus olhos marejassem. Não haveria um próximo Outono...

O mago cinzento aproximou-se da árvore onde Thórin havia estado. Mirou o animalzinho e a echarpe em seu pescoço.

A moça observava petrificada. Não se moveria ainda que quisesse.

- Um adereço incomum para uma criaturinha como você, amiguinho – disse, aproximando-se do bichinho e retirando o tecido que cobria o pescoço do pequeno.

Uma árvore de Mallorn adornava o objeto inusitado.

- Galadriel... – sussurrou o mago, voltando a olhar para o bichinho – o que pretende?