Thomas cruzou a porta do quarto e olhou em direção ao laptop sobre a escrivaninha. Ele permanecia fechado. Uma leve camada de poeira havia começado a se formar. Sinal indubitável de que já não era utilizado há vários dias. Marcela estava junto à janela com o olhar perdido. Ele aproximou-se por trás, envolvendo-a com seus braços e sussurrando em seu ouvido.

- Parece que teremos que passar mais uma noite sem leituras…

Ela fechou os olhos e suspirou. Ele percebeu.

- Não foi uma cobrança, Soi. Toda construção precisa de inspiração… sei disso. Não me casei com você porque você é amante da leitura, me casei com você, 'apesar disso'…

Marcela começou a rir. A princípio, uma risada contida e inocente, seguida de uma quase gargalhada. Fato era que durante muitas noites, antes de se recordar de que era Thórin Escudo de Carvalho, Thomas havia adormecido ao som das leituras de Soi. Fossem as histórias do mestre ou as suas, seu marido era gentilmente obrigado a ouvi-las, no entanto, por vezes o sono vencia o amor e ela interrompia a leitura ao ouvir o ressonar do marido.

Ela virou-se e o abraçou.

- Sei que não há cobrança em suas palavras, Thomas. Mas sei também do brilho em seus olhos quando viajamos juntos de volta a Terra-Média, quando você pode voltar a ser Thórin Escudo de Carvalho.

- Apenas porque você está lá comigo – ele completou, segurando a mão da esposa. - Kibil Nala tornou-se parte da história, tanto quanto qualquer outro personagem, pelo menos para mim. Era o verso que faltava – concluiu, beijando a mão dela.

- O Suspiro de Dúrin… - ela disse, substituindo o sorriso por uma expressão melancólica.

- O que houve? - ele preocupou-se.

- Não consigo, Thomas – ela virou-se, tornando a mirar através da janela e abraçando a si própria. - Não consigo ir adiante. É como se você…

Thomas colocou as mãos nos ombros de Soi, em uma solicitação muda de que ela concluísse seu pensamento.

- É como se você… como se Thórin precisasse morrer… já dei mil voltas e não encontro uma forma convincente de salvá-lo.

- Thórin sempre poderá retornar, Soi. Eu sempre poderei retornar.

- Relendo a história… eu sei, Thomas, mas…

- Nada é mais humano do que o medo da morte e a hesitação em aceitar sua inevitabilidade.

Soi virou o rosto e fitou o marido.

- Inevitabilidade?

Thomas sorriu.

- Ano após ano dormindo ao som de suas leituras enriqueceram meu vocabulário, querida. Não sou mais aquele operário ignorante que você conheceu.

Marcela virou-se por completo e passou a mão no rosto do marido.

- Nunca o vi desse jeito. Nunca me julguei superior a você…

Thomas pegou a mão dela e beijou-a novamente.

- Sei disso, meu amor.

O sorriso dele deu a ela a certeza de que não havia mal entendidos.

- Mas acho que se sentiria muito melhor se limpasse a poeira daquele laptop e escrevesse aquilo que está preso em seu peito. Você me ensinou que as histórias são como crianças. Já nascem quase prontas. Cabe a nós apenas orientar seu desenvolvimento. Algumas são mais temperamentais, outras mais tranquilas. O fato é que não podemos impedir que cresçam e sigam seu caminho, Soi. Em alguns aspectos são como esperávamos. Em outros, precisamos aceitar o que são ou o que escolheram ser.

Ela baixou a cabeça.

- Nossa… se eu tivesse aprendido a fazer cálculos como você aprendeu a usar as palavras, já estaria projetando prédios…

Ele riu do comentário da esposa.

- Façamos o seguinte – ele disse, antes de depositar um beijo nos lábios da esposa. - Este filho de Dúrin aqui está suspirando por sua esposa nesse momento – ele deu mais um beijo. - Então aproveitando que você está encantada com minhas palavras – Thomas segurou-a pela cintura - vamos sussurrar travessuras no ouvido um do outro – ele beijou o pescoço dela – e talvez quando você estiver segura de minha vitalidade quase infinita, você se disponha a escrever – ele finalizou com um beijo intenso e apaixonado. Com a paixão dos filhos de Dúrin.

Naquela noite a Terra Média se fez presente sem a ajuda das histórias de Soi.