Saudações, queridos leitores e leitoras.

Estou iniciando hoje uma nova jornada e agradeço imensamente àqueles que se dispuserem a me acompanhar.

Nesta nova história resolvi dar asas a imaginação, explorando um tema que me intrigou desde que vi o filme.

Poderia ter sido possível uma amizade entre Thórin e Legolas? Algumas cenas no filme sugerem isso. Tratei desse tema por alto em Filhos de Aulë e agora resolvi aprofundá-lo.

Portanto, como não poderia deixar de ser diferente, o tema principal desta fic será amizade. Contudo, podem esperar uma boa dose de romance também, afinal, estamos falando de Thórin Escudo de Carvalho!

Obrigada pela atenção!

Lourdiana.

Obs.: Lembrando sempre que reviews são muuuuuuuito bem vindas!


O anão errou o alvo pela terceira vez. Legolas havia insistido para que ele se aproximasse mais um pouco, contudo o Filho de Dúrin estava irredutível. Se o elfo era capaz de acertar daquela distância, por que ele, Gimli, filho de Glóin, também não poderia ser? Pegou outra flecha dentre as que estavam espetadas no chão a seus pés e armou o arco, mirando cuidadosamente. Todavia, mais uma vez seu esforço foi em vão. O objeto pontudo voou longe, irritando o anão que atirou o arco no chão.

- Calma, Mellon! – Legolas se aproximou – A cada dia que passa, suas flechas se aproximam mais do alvo! Um dia hão de acertá-lo! – brincou o elfo.

- Diverte-se às minhas custas, cria da floresta? Pois agora é a sua vez. Vamos ver do que esses bracinhos são capazes!

Gimli caminhou em direção ao local onde havia largado suas armas e retornou com um machado em cada mão, oferecendo um deles à Legolas que declinou do convite, balançando as mãos.

- De forma alguma, Gimli! Eu não ousaria ultrajar a herança de seu povo! Um eldar empunhando um machado? O que diria Glóin?

- Está com medo, pequeno elfo? – o anão provocou – Vamos! Não precisa inventar desculpas! Tente! Ele não pesa tanto quanto parece! – disse, oferecendo novamente a arma.

Legolas estreitou os olhos, pois sabia que o Filho de Dúrin não desistiria tão facilmente de alfinetá-lo. Maldita teimosia dos anões!

- Está bem, então. – concordou, tomando o machado nas mãos – O que propõe?

- Acertar o alvo daqui de onde estamos.

- Atirar o machado? – Legolas estranhou.

- Acha que não consegue?

- Duvido que você consiga! Não se trata de uma flecha e sim de ferro forjado. Além da considerável distância. – retorquiu o eldar.

Gimli riu daquele jeito que apenas o Povo de Aulë consegue rir diante de um desafio, segurou firmemente o machado, moveu o braço para trás e o atirou com a força de Dúrin. A arma voou de suas mãos, executando movimentos circulares até atingir o alvo de forma precisa, fixando-se no mesmo.

O anão esfregou uma mão na outra como se estivesse limpando a poeira das mesmas.

- Sua vez, mestre elfo, faça as honras!

Legolas segurou o machado, testando seu peso e imitou o anão, preparando-se para atirá-lo. A risada de Gimli ainda em seus ouvidos.

- Sua mira é boa, pequeno elfo! – O anão provocou – Vamos por à prova a força de seu braço...

O eldar apertou o machado com a mão, direcionando a ele toda sua determinação e o lançou. A trajetória da arma foi acompanhada pelos olhos élficos e khazâd*. O machado passou perto do alvo. Bem mais perto do que as flechas de Gimli. O anão se aproximou, dando um tapa nas costas do amigo.

- Muito bem, mellon! Pensei que não chegaria nem na metade do caminho. Mais um pouco de treino e poderá rachar a cabeça de orcs desgarrados com a mesma facilidade com a qual lhes perfura o peito com suas flechas!

Legolas o olhou intrigado. Onde estava a zombaria que ele julgara como certa? O olhar de Gimli não tinha nem uma gota de escárnio ou pilhéria. Ao contrário, ele lhe sorria amigavelmente com aquela expressão bonachona que o elfo aprendera a apreciar. Valar! Ele gostava mesmo da companhia do amigo. Quem diria que as farpas iniciais que cercaram suas primeiras interações seriam substituídas por aquele companheirismo a toda prova? 'Os anões compreendem a devoção aos amigos' **, dizia Gandalf. 'E eram firmes tanto na amizade quanto na inimizade'***, contavam os relatos antigos. Legolas agora via de perto quão verdadeiras eram essas palavras.

Recentemente haviam vencido o Senhor do Escuro, Sauron. E o Um anel fora destruído graças à coragem dos pequenos. No entanto, não havia sido a primeira guerra que Legolas enfrentara. O elfo baixou os olhos, recordando-se de outros dias. Anos atrás, quando o servo de Morgoth começara a recuperar suas forças, outra batalha havia sido travada. A Batalha dos Cinco Exércitos, aos portões de Erebor. O eldar recordou-se então de outro filho de Dúrin que havia cruzado seu caminho, ainda antes de Smaug trazer a desgraça a Valle e Erebor.

- Você está dormindo em pé, Legolas?

- O que você disse?

- Perguntei se está dormindo, pois não responde quando falo!

- Por favor, me desculpe, Gimli, acho que me distraí.

- Nesse caso, deixe sua distração para lá e me ajude a recolher tudo aqui. Aragorn deve estar nos esperando no palácio. Já abusamos demais da folga que ele nos deu.

- Você está certo, meu amigo. – disse, pondo a mão no ombro do anão e saboreando a palavra.

Gimli sentiu o tom e olhou sério para o eldar.

- Por que usou a língua comum, em vez de seu costumeiro 'mellon'? – Indagou o anão.

Legolas sorriu.

- Não sei como se diz amigo em khuzdûl, a língua secreta dos anões, e gostaria que ouvisse essa palavra em uma língua mais próxima a sua realidade, Gimli. Sei que o valor que dão a ela não é pequeno. Espero ser digno de tal.

O anão baixou os olhos por um momento e se permitiu falar o que sentia. Legolas estava certo. A amizade era considerada sagrada pelo Povo de Dúrin.

- Tantas coisas o tempo nos leva e estranhos presentes a vida nos trás. Dentre eles, a amizade de Legolas do Reino da Floresta é aquele pelo qual mais sou grato.

O eldar, que não esperava uma resposta de tal monta, fixou o olhar no anão.

- Você mudou muito, Gimli – disse o elfo – Ou sou eu quem nunca havia tomado conhecimento de sua habilidade com as palavras?

- Somos um povo reservado, Legolas. E o melhor de nós permanece bem guardado, pois o compartilhamos somente com os nossos. Mahal nos fez assim, sabe-se lá por que. Não nos importamos muito com a opinião dos outros povos a nosso respeito, por isso não nos preocupamos em exibir qualidades aos de fora. Contudo temos lá nossas virtudes.

- E posso testemunhar que não são poucas! – comentou, apertando um pouco mais a mão pousada no ombro do amigo.

- Todavia já é hora de parar com essa conversa açucarada. – Gimli decretou – Porque não temos, nem nunca teremos, a sensibilidade élfica em grande conta!

Legolas riu abertamente e fez sinal para que prosseguissem em direção ao Palácio, onde Elessar aguardava pela ajuda deles.

Enquanto caminhavam, o príncipe olhou para trás, em direção ao alvo que os havia entretido. Seus pensamentos retornaram ao passado novamente. Gimli não havia sido o primeiro anão com o qual ele compartilhara um arco. Thórin Escudo de Carvalho tinha uma mira precisa, para um anão. O elfo pode comprovar mais de uma vez.

Durante o episódio da fuga nos barris, após sua Companhia haver permanecido prisioneira de seu pai em Mirkwood, foi a mira precisa de Thórin que salvou Legolas de um orc que se aproximava, ao atirar seu machado em direção a criatura hedionda. E, pelo que havia escutado, antes da batalha por Erebor, quando seu pai conduziu até a Montanha Solitária, com os homens de Esgaroth, Thórin, se quisesse, poderia ter acertado uma flecha bem no meio dos olhos do Rei Élfico.

Legolas não pode evitar o sorriso. Aquele anão era realmente insolente, contudo, como havia dito Gimli, tinha lá suas virtudes, que foram e ainda eram cantadas em canções. Thórin Escudo de Carvalho havia se tornado uma lenda afinal.

Antigamente dizia-se entre os elfos na Terra-Média que os anões, ao morrer, voltavam para a terra e a pedra da qual eram feitos; no entanto não é esta a crença entre eles próprios. Pois dizem que Aulë os acolhe em Mandos em palácios separados; e que declarou a seus antigos Pais que Ilúvatar os abençoará e lhes dará um lugar entre os Filhos no Final. Então seu papel será servir a Aulë e auxiliá-lo na reconstrução de Arda depois da Última Batalha.****

Legolas olhou em direção ao Oeste. Sim, depois de conviver com Gimli e presenciar a lealdade do anão, o elfo passou a acreditar que a justiça de Ilúvatar não estaria completa se seus filhos adotivos também não tivessem um lugar entre os Primogênitos e os Sucessores. O elfo sentiu em seu coração que Thórin deveria estar lá, aguardando pela reconstrução do mundo. Ele merecia estar lá, depois de tudo pelo qual havia passado.

- Você está realmente esquisito hoje, Legolas – comentou o anão, mirando o rosto distraído do eldar.

- Estou apenas recordando o passado – explicou o elfo.

- Pensar demais no passado deixa meu povo doente. – revelou Gimli – Por isso preferimos olhar para o futuro.

- Deixa seu povo doente? – Estranhou Legolas.

- É uma maneira de falar, pois é realmente difícil que um anão fique doente. E quando acontece, na maioria das vezes, se deve mais a um espírito quebrantado pela tristeza do que por algum mal que tenha atingido o corpo.

- E como sabe que estou pensando em tristezas? Não poderiam ser alegrias?

- Não, de modo algum. Haja vista o pesar que vejo em seu rosto. Uma caneca de cerveja pelo que está pensando, pequeno elfo.

Legolas suspirou.

- Estou pensando nas encruzilhadas da vida, Gimli.

- Por que não me conta? Não somos amigos?

O elfo sorriu.

- Isso mesmo, mellon. Eu estava pensando exatamente sobre amizade.

- Lembrando-se de algum amigo em especial?

- Sim, acho que poderia chamá-lo assim.

- E quem seria esse elfo abençoado que foi honrado com a tamanha graça de sua amizade? – o anão retomou o tom brincalhão.

Legolas sorriu novamente.

- Você não acreditaria se eu lhe contasse.

- Por que não tenta?

O elfo manteve o suspense por mais alguns instantes e somente quando a expressão de Gimli se tornou quase ameaçadora, ele cedeu.

- Thórin.

O queixo do filho de Glóin quase atingiu o chão.

- Escudo de Carvalho?

- O próprio.

Gimli permaneceu em silêncio por alguns instantes, antes de externar em palavras sua perplexidade.

- Como? Quando?

Legolas suspirou. Sabia que Gimli não desistiria. A teimosia dos anões não tinha limites.

- Nem teria como imaginar, mellon. Aconteceu antes da vinda de Smaug e foi uma amizade que não teve tempo para ser cultivada. Thórin era jovem e eu ainda estava imbuído dos preconceitos que meu povo, principalmente meu pai, nutriam para com os anões. E confesso que ainda era repleto deles, antes de conhecer você.

Legolas fez uma pausa, dando um sorriso triste. Gimli sorriu de volta.

- Aos poucos, - o elfo prosseguiu – em conversas e encontros ocasionais, Escudo de Carvalho me mostrou, mesmo que não fosse essa sua intenção, o que os Filhos de Aulë são capazes de fazer pelos amigos. E, apesar de manter uma boa dose de reservas, passei a crer no quanto vocês prezam tal relacionamento com a mesma firmeza com a qual nunca desonram a palavra empenhada.

- Como assim?

- Após o ataque do Dragão, meu pai negou ajuda ao povo de Erebor. Thórin nunca perdoou os elfos por isso. Antes dele partir para o exílio, tivemos uma conversa muito tensa. Ele era representante de seu povo, como eu era do meu. Não houve nada que pudéssemos fazer. Minha lealdade estava com meu pai e a dele, com seu avô.

Gimli assentiu.

- Nós nunca demos a entender a ninguém que uma amizade havia se insinuado entre nós. Traria mais problemas do que soluções. Thranduil e Thrór não se entendiam por nada. E nem estavam dispostos a tentar qualquer aproximação. Tudo o que podíamos fazer era fingir. Em público, as farpas costumeiras. Quando tínhamos a oportunidade de nos encontramos a sós, era quase agradável conversar com ele... – disse com um sorriso triste.

- Depois de muitos anos, nos encontramos novamente. Thórin e um punhado de seu povo, incluindo seu pai, empreendiam uma tentativa de retornar a Erebor e quiseram os Valar que seu caminho incluísse o Reino da Floresta. Quando nos reencontramos, mesmo depois de tantos anos, continuei agindo da mesma forma. Eu o tratei como um bandido que havia invadido nossas terras. Ele estava tão diferente do jovem anão que eu conheci. O sofrimento havia deixado muitas marcas e eu percebi cada uma delas quando mirei em seus olhos enquanto lhe apontava uma flecha. Todavia não consegui ler em sua face nada sobre nossa amizade.

- Você parece se culpar.

- Ele não reagiu. Nem poderia, estavam cercados. Eram prisioneiros de meu pai. Eu não pude fazer muita coisa. Thórin trazia ódio demais no coração, motivado por um desejo de vingança. Se estivesse apenas buscando por justiça, sua busca poderia ter sido menos árdua, contudo todo o sofrimento pelo qual passou e pelo qual viu seu povo passar parecia haver marcado seu coração,endurecendo-o e impedindo-o de ver claramente. E vi a maldade do Dragão que lutava dentro dele contra a dignidade que eu sabia escondida eu algum lugar. Ele recusou o acordo que meu pai ofereceu e pelas palavras de fúria que Thórin dirigiu a ele, eu tive a certeza de que nossa amizade não havia sobrevivido ao fogo de Smaug... até que...

- Até que...

- Eles haviam conseguido escapar dos calabouços onde foram presos e escaparam pela adega, dentro de barris.

- Eu sempre gostei dessa parte da história! – animou-se o anão – Meu pai a conta ainda hoje!

- Durante essa fuga, um bando de orcs, que estavam perseguindo a companhia, invadiu nossas terras. Nós os enfrentamos juntos. Em um determinado momento da batalha eu não havia percebido um orc que se aproximava de mim pelas costas. A criatura já estava próxima quando Thórin atirou um machado da mesma forma que você fez há pouco. Então eu percebi que ele não havia esquecido... jurei a mim mesmo que honraria aquela amizade, porém no silêncio, como sempre havia sido.

- E você conseguiu?

Legolas ficou pensativo.

- Eu tentei. Embora não tenha podido evitar o pior.

- E quando foi?

- Durante a batalha dos cinco exércitos, Thórin enfrentava um contingente de orcs de Gundabad que Azog covardemente havia lançado contra ele. Seu parente estava em franca desvantagem. Quando percebi isso, subi em uma torre próxima e minhas flechas deram cabo de muitos deles. Contudo não pude ficar lá por muito tempo. Tauriel estava em perigo e fui ajudá-la contra Bolg e deixei Thórin sozinho.

O elfo silenciou por um momento. Gimli percebeu novamente que havia sentimento de culpa onde não deveria haver.

- Pelo que conheço de sua mira, Legolas, e por tudo o que já ouvi sobre essa batalha, sei que todos aqueles que lutaram e morreram nela se superaram de várias formas. E você está entre eles.

- Em um certo momento da batalha, – o elfo prosseguiu – vi Thórin encurralado e desarmado por um orc de Gundabad. Ele teria sido morto se eu não tivesse atirado a Orcrist no peito daquela criatura hedionda, devolvendo a Thórin a arma que dele eu havia tomado na floresta.

- Sem dúvida é uma história e tanto, Legolas.

- Depois disso ele lutou contra Azog e, apesar de haver dado cabo de seu inimigo, foi ferido mortalmente e seguiu seu caminho para os palácios de Aulë. Eu nunca consegui me despedir e rezo a Yavanna para que ele, onde quer que esteja...

Gimli colocou a mão no ombro do amigo.

- Pelo que sei, com suas últimas palavras ele honrou a amizade dele com Bilbo. Estou certo de que também honrou a sua.

- Eu sei. Bilbo me contou.

- Contou? Chegou a conhecer Bilbo?

- Sim. Mas essa história ficará para depois.

Legolas parecia cansado, porém continuou.

- Com Thórin eu aprendi que ser amigo de um anão é bem diferente de ser amigo de alguém do meu próprio povo. Eu tentei me despir de meus preconceitos, pelo menos parte deles. Acho que foi por isso que, após algumas alfinetadas iniciais, você e eu até que nos demos bem.

- Mesmo as alfinetadas foram divertidas. Admita!

- É verdade. – Legolas reconheceu, sorrindo.

- Minha responsabilidade cresceu. Terei que fazer frente a Escudo de Carvalho!

O elfo olhou o anão.

- Você já faz, Gimli, filho de Glóin. Fato é que, ao menos nesse quesito, você já o ultrapassou.

- Ao menos nesse quesito? – o anão franziu o cenho.

- Exato, afinal de contas – disse, referindo-se ao alvo – a mira dele superava a sua de longe!

Gimli percebeu na brincadeira uma tentativa de Legolas em superar a tristeza e se calou.

- Aposto que você lhe deu boas dicas. – disse depois de um tempo.

Legolas não conseguiu dizer mais nada, não sabia exatamente o que sentir. Com Thórin aprendera que uma amizade entre um anão e um elfo não deixava de ser viável. Com Gimli comprovou que além de viável poderia ser plena. E lamentou pelo que sua amizade com Thórin poderia ter sido e não foi. Tudo por causa do brilho do ouro nos olhos de Thrór e da prata nos de Thranduil. Tesouros que tinham o poder de deixar os Reis mais cegos do que as chamas de Smaug jamais seriam capazes.


*khazâd – anões em khuzdûl, a língua secreta dos anões.

**Contos Inacabados.

***Silmarillion.

****Silmarillion