Saudações, queridos leitores e leitoras. Depois de uma longa espera... Mellon está de volta.

Sigo na esperança de que agora não haverá maiores interrupções.

E para tanto, conto com o carinho de vocês.

E confesso que algumas reviews podem ajudar. ;)

Um forte abraço.


Do capítulo anterior...

- Aprendi da pior maneira que ódio atrai ódio, que sangue atrai sangue… meu pai viu isso em mim… tentou me impedir… sentiu o que iria acontecer… ele sempre sentiu… sempre sente…

Legolas quase sussurrava e Thórin precisou aguçar a audição a fim de conseguir compreender o que ele dizia.

O elfo silenciou novamente. Thórin sabia que deveria esperar. No entanto, a agonia que Legolas parecia reviver já o alcançava e o anão queria por fim a ela.

- O que ele tentou impedir, Legolas? - indagou cuidadosamente.

O eldar suspirou profundamente. As palavras teimando em não serem pronunciadas. Contudo, Legolas encarou Thórin e disse em tom sombrio.

- Que eu sentenciasse minha mãe a morte…

Thórin prendeu a respiração. Nem em seus sonhos poderia imaginar uma revelação de tal monta.

Legolas riu um riso triste.

- Se pudesse se ver agora, Thórin de Erebor… sim, é exatamente isso que você ouviu. O elfo perfeito contra o qual você se enfureceu dias atrás não passa de um…

As palavras de Legolas ficaram presas na garganta. Thórin não se atrevia a mover sequer um músculo de sua face.

- Acho que você não está preparado para ouvir minhas lamúrias… - Legolas suspirou. - Tampouco cabe a você tal obrigação.

Uma montanha de constrangimento pareceu erguer-se entre eles… uma montanha diante da qual Thórin recusava-se a capitular.

- Preparado ou não – o anão disse com voz quase solene. - Eu estou aqui para ouvi-lo, certo de que não serão lamúrias que escutarei.

Legolas fitou o anão. O elfo poderia jurar que dentre todas as vezes que o vira, aquela era a expressão mais verdadeira com a qual Thórin o havia encarado. Ele sentiu uma estranha confiança surgir e resolveu prosseguir.

- Havia sido uma ronda perigosa, próximo a Gundabad – o elfo principiou. - Uma das minhas primeiras rondas distante da segurança da Floresta élfica… Eu estava longe de possuir a habilidade e a maturidade que tenho agora, mas me considerava invencível. Mais da metade da companhia havia sido dizimada em uma emboscada. Eu não conseguia me conformar. Retornamos ao palácio de meu pai com a derrota nas mãos. Eu estava tão… envergonhado… tão enfurecido e cego pelo ódio...

- Entendo…

- Entende? - Legolas quis confirmar. - Está certo disso, Thórin?

- Derrota? Vergonha? Sim… sei bem do que você está falando...

- Então não se surpreenderá quando eu lhe disser que desejava retornar ao antro daquelas criaturas e vingar cada gota de sangue élfico que elas haviam derramado.

Thórin assentiu.

- Meu pai viu em meus olhos o que eu pretendia fazer e me ordenou, como pai e como rei, que aguardasse pela sabedoria que apenas o tempo é capaz de trazer, pois um ataque temerário como o que eu desejava traria apenas mais dor e tristeza ao nosso povo.

Legolas riu de si mesmo.

- Mas você acha, Thórin, que aquele garoto tolo deu ouvidos a sabedoria de seu pai. Ham? Não. Eu só pensava em decepar cabeças de orcs naqueles dias.

O elfo calou-se por um instante, antes de prosseguir.

- E então, depois de aguardar alguns dias, alimentando a vingança em vez de deixar que a sabedoria se acercasse, organizei um assalto com jovens tão ou mais imprudentes do que eu e parti em uma busca fadada ao fracasso.

- E Thranduil não percebeu?

- Não a tempo. Mas minha mãe, sim. Ela viu quando deixamos a fronteira. Sempre amiga da floresta, passava mais tempo entre as árvores do que dentro da caverna. Ela tentou nos deter, mas eu não dei ouvidos.

Thórin engoliu seco. Sua mente já era capaz de imaginar o que devia ter acontecido.

- Ela enviou um mensageiro para avisar o rei e tomou a decisão insana de nos seguir, na esperança de que sua presença pudesse fazer com que eu mudasse de ideia…

A voz de Legolas começou a ficar embargada e as lágrimas brilhavam nos olhos élficos.

- Quando saímos da segurança da floresta, não percebemos que, aos poucos, uma emboscada era armada ao nosso redor. Horas depois, vimo-nos cercados por orcs vindos de todas as direções. Nossas espadas e arcos foram suficientes para garantir a nossa segurança, mas…

Legolas quase não conseguia mais articular as palavras.

Thórin sentiu o peito doer. Mesmo para um anão, uma história como aquela era muito difícil de ser suportada. Ele pôs a mão no ombro do elfo.

- Não precisa dizer mais nada, Legolas.

O elfo sentiu o calor da mão do anão em seu ombro e balançou a cabeça.

- Eles a lavaram – ele prosseguiu com voz rouca. - Meu pai liderou comitivas... Vasculhamos tudo…

- E você nunca conseguiu se perdoar… - o anão completou.

- Não. Nunca. Mas o que mais me pune, Thórin – ele prosseguiu, fitando o anão. - É que eu jamais senti da parte de meu pai um traço sequer de acusação. Tristeza, sim. Meus pais se amavam muito, mas ele…

- Por isso você o defende tanto…

- Sim. Meu pai possui seus defeitos, com qualquer criatura em Arda, no entanto, suas virtudes são muitos superiores a eles.

Thórin assentiu.

Legolas permaneceu por um tempo mirando o vazio, como se as recordações que haviam sido evocadas recentemente, aos poucos retornassem às cavernas de onde tinham saído. Gradativamente, a expressão no rosto do elfo deixou de transparecer a tristeza que até bem pouco tempo era tão evidente.

- Bem – Legolas disse, levantando-se e tentando retornar a normalidade. - É melhor nos prepararmos para partir. A viagem de amanhã será longa.

Thórin também se levantou e, para surpresa do elfo, estendeu a mão a ele.

- Nos veremos no jantar.

Legolas mirou a mão ofertada do anão e aceitou-a, estendendo a sua em resposta.

- Nem amigos, nem inimigos, não é? - ele disse, referindo-se a última vez que, naquela mesma torre, aquele gesto havia sido realizado.

- Inimigos com certeza, não – Thórin concordou, dizendo mais com os olhos do que com as palavras.

- Está aprendendo a arte élfica dos enigmas comigo, Thórin?

Eles desfizeram o aperto de mão e Thórin começou a se retirar, porém, quando já estava à porta, olhou para trás.

- A Pedra que Brunir deu a Amras…

Legolas estranhou a lembrança.

- O que tem ela?

- A runa que Brunir entalhou e que se traduz como 'amigo' na língua comum…

- Sim? - Legolas estava curioso diante do suspense das palavras do anão.

- Em nosso idioma, aquela runa também significa 'confidente'… aquele a quem se confia um segredo… Para os anões, há apenas uma palavra para 'amigo' e 'confidente'.

Legolas baixou os olhos, deixando que o significado por trás das palavras assentasse em sua mente, mas ao reerguê-los, Thórin não estava mais lá...