Notas:

Olá! Esta é minha primeira história publicada aqui e trata-se de uma tradução da fic Street Brat, de Monsoon (publicada originalmente no Archive of Our Own com mesmo nome, infelizmente não consigo colocar o link aqui, mas visitem o original e suportem a maravilhosa autora).

Shingeki no Kyojin e seus personagens não me pertencem, bem como a fanfic Street Brat. Essa é uma publicação sem fins lucrativos cujo único propósito é contribuir para o fandom (afinal, essa fanfic é maravilhosa e precisamos de mais Ereri por aqui!). Por favor, verifiquem as tags antes de iniciar a leitura.

Esta tradução é postada também no Wattpad e AO3.

No mais, espero que gostem!


Capítulo 1: O Encontro nas Catapultas

Eles planavam pelo ar, ziguezagueando entre varais de roupas e se esquivando de barracas que casualmente se alinhavam às laterais das ruas, deixando para trás um coro de pedestres assustados e mendigos gritando ao despertarem. A fumaça de churrasco, temperos e o sufocante cheiro de tabaco cumprimentavam seus sentidos enquanto eles navegavam no ar, meros observadores do bazar barulhento e cheio de atividade abaixo. Esta era a hora favorita do dia para Eren.

Era divertido ver a cidade de cima. Quando era jovem, sonhava em viver nas altas torres dos nobres nos distritos mais luxuosos como o de Sina, onde eles podiam observar toda a cidade se alastrando abaixo. Isso foi até ele ver a Tropa de Exploração pela primeira vez. Ele via a Polícia Militar com frequência, batendo em bêbados nos becos sem saída e debochando de camponeses quando passavam por Shiganshina em alguma missão sancionada pelo Imperador. Via as estranhas engenhocas inutilmente amarradas às suas cinturas, mais para mostrar do que realmente usar, mas não foi até que ele teve um vislumbre das Tropas de Exploração em ação que percebeu o que elas realmente eram. Dispositivos de Manobra Tridimensionais, ou DMT, é como aprendeu que se chamavam. Como um garoto de, provavelmente, não mais do que dez anos na época, ele assistiu hipnotizado enquanto homens e mulheres em mantos verdes se lançavam das costas de suas montarias, se agarrando a cabos que eram atirados dos mecanismos em seus quadris e repentinamente estavam sendo transportados no ar. Seus mantos esvoaçavam em suas costas, o azul e branco do emblema das Asas da Liberdade brilhando no sol laranja do meio-dia. Ele havia decidido ali e então que se juntaria às Tropas de Exploração apenas para poder voar como eles.

— Eren! À sua esquerda! — Eren voltou sua atenção ao presente quando Reiner gritou com ele à frente. No último segundo, conseguiu mudar o curso e se esquivar por pouco de uma parede a que estava se dirigindo em alta velocidade, e então seguiu Reiner e Berthold, que direcionavam-se à entrada da cidade. — Vê se não fica viajando assim! Algum dia desses a gente vai ter que limpar e recolher seus restos mortais de uma parede e trazer pra Mikasa em um pote. Eu não quero ser a pessoa a explicar o seu fim nada glamouroso a ela. — Reiner o repreendeu de onde estava, adiante. Eren se voltou à Annie que estava ao seu lado e deu de ombros timidamente, mas ela somente revirou os olhos em resposta. Ele não podia ver a parte de baixo do rosto dela debaixo da máscara, mas não teria feito a menor diferença; sem dúvida estaria com a mesma expressão entediada de sempre.

Eles já haviam terminado por hoje e estavam voltando ao seu lugar costumeiro para beber algumas rodadas e espairecer de toda a adrenalina do dia. E, claro, para fazer a contagem do que conseguiram e distribuir entre eles. Hoje foi um dia bom; emboscaram três oficiais da Polícia Militar na saída de vários bordéis e bares pela cidade e conseguiram ganhar bastante com isso. Tudo bem, então talvez ele nunca tenha realizado seu nobre sonho de infância de entrar para as Tropas de Exploração, mas a vida acontece e as coisas nem sempre ocorrem como o seu eu jovem, otimista e com lentes cor-de-rosa planeja. Há vários anos ele tinha a intenção de ser um defensor da justiça a essa altura da vida, não o membro de uma gangue de rua. Ainda assim, estava bem familiarizado com a lei, ainda que do lado errado dela. Além do mais, ele tinha seu DMT e isso era tudo o que importava no fim das contas.

Estavam chegando ao portão de entrada da cidade agora. Ele podia ver os dois pináculos dourados que marcavam a entrada, altos e suntuosos em contraste à arquitetura mais baixa dos prédios ao seu redor. Não haviam muitas estruturas elevadas próximas ao portão, já que isso tornaria complicada a circulação do mar de mercadores e turistas que entravam e saíam da cidade todos os dias. Trost era uma das maiores cidades do mundo; sua posição estratégica comandando as rotas de comércio entre as nações vizinhas a tornou um centro comercial conveniente e um ponto de parada chave para os navios que por ali fazem sua rota. Mas, à medida que sua economia floreava, o mesmo acontecia com a criminalidade. Nesta cidade, ou você tem sorte ou você não tem, e Eren, bem... Você não entra para uma gangue de rua se estiver bem de vida.

Esta área era a mais difícil de circular utilizando o DMT. Levou um mês de prática e uma boa quantidade de quedas embaraçosas em frente de grandes audiências e até alguns ossos quebrados e fraturados até que ele dominasse a arte de cruzar a vazia extensão da entrada da cidade. O truque era pegar impulso na última estrutura alta o bastante e então se lançar, soltando os ganchos e utilizando uma explosão de gás para, literalmente, voar através do espaço vazio de cinquenta metros em um grande arco; a manobra foi apelidada de 'a Catapulta' por razões óbvias. Era perigoso, claro. Tudo devia ser cronometrado, calculado e executado com precisão. Se soltasse os ganchos tarde demais, sua trajetória sairia do eixo e você seria lançado diretamente a algum prédio. Se os soltasse cedo demais, não conseguiria cobrir a distância necessária. O mesmo valia para a quantidade de gás. Mas valia a pena. Valia muito a pena, a sensação de estar planando no ar. Já era estimulante poder usar o DMT, mas aquele momento em que você não está preso a nada; em que você está navegando pela cidade literalmente voando e tendo abandonado todo o controle; Eren nunca se cansaria disso.

Reiner foi primeiro; ele estava sempre no comando. Afinal, era o líder de seu pequeno bando de desajustados. Eren foi em seguida, ultrapassando Berthold em sua avidez. O garoto mais alto nunca compartilhou do mesmo entusiasmo de Eren pela Catapulta e, enquanto passava por ele, Eren pôde reparar no suor descendo por sua têmpora devido ao nervosismo. Annie era a última como sempre, protegendo a retaguarda com uma confiável resignação. Sua expressão nunca demonstrava nada, mas Eren sentia que ela amava a Catapulta tanto quanto ele.

O vento açoitava os cabelos e roupas de Eren à medida que sua velocidade aumentava. No último segundo, ele soltou os ganchos do DMT e de repente estava planando. Eren gritou e deu um largo sorriso, abrindo seus braços para sentir o vento ondular sua camisa e aliviar o suor agarrado em sua testa. Seu coração saltou para sua garganta e seu estômago caiu em direção ao chão; ambas as sensações emocionantes e vertiginosas. Em meio à sua euforia, ouviu o distinto som de Reiner praguejando à sua frente e percebeu que a atenção do loiro estava voltada a algo abaixo deles. Franzindo o cenho, ele seguiu a direção do olhar do garoto maior e sentiu seu coração apertar com algo completamente não relacionado ao voo.

Um exército de mantos verde-escuro se acumulava abaixo deles; as Asas da Liberdade embutidas em suas costas. Mesmo agora, enquanto olhava aterrorizado para baixo, múltiplos pares de olhos estavam voltados para o céu, mapeando cuidadosamente seu trajeto enquanto eles voavam acima de suas cabeças. Ele se sentiu como um filhote de gnu abandonado apanhado no campo de visão de uma leoa faminta; olhando fixamente nos olhos de um predador, incapacitado de correr ou lutar.

A Polícia Militar era preguiçosa e corrupta; normalmente participantes ativos do crime e portanto dificilmente dispostos a colocar um fim nisso. Por outro lado, a Tropa de Exploração era o completo oposto; eles perseguiam ativa e implacavelmente mafiosos, gangues e outros criminosos e nunca deixavam de debandá-los e prendê-los, não importa o quão influentes, poderosos ou conhecidos fossem. Era a razão pela qual Eren os admirava, mesmo sendo tecnicamente seus inimigos. A única coisa sobre as Tropas de Exploração era que, apesar de serem significantemente melhores e mais efetivos no cumprimento da lei, eles não eram uma presença constante em Trost. Com frequência eram enviados em uma expedição fora da cidade e, durante esses meses, o submundo do crime prosperava novamente e reinava livre e sem obstáculos.

Mas agora eles haviam retornado, e Eren e seus amigos literalmente se lançaram direto ao alcance de seu alvo.


O sol tinha acabado de se pôr no horizonte e o céu ainda estava inundado com a ardente coloração laranja e vermelha se chocando com a escuridão da noite que começava a aparecer quando a Tropa de Exploração finalmente cavalgava para dentro de Trost.

— Você poderia se mostrar um pouco mais animado, Levi. Estamos em casa! — Hanji praticamente pulava no assento de sua sela. Como conseguia ter tanta energia até no final do dia nunca deixava de surpreender o homem de olhos acinzentados. Um mistério ainda maior era como conseguia suportar ficar dançando na sela depois de tantas horas de montaria; o traseiro de Levi já doía com qualquer mudança de posição.

— Eu venho cavalgando por três horas sem descanso. Estarei contente quando me livrar dessas roupas imundas e me afundar num banho quente.

— Aproveite enquanto pode. Ouvi dizer que a atividade das gangues está no auge agora. Tem trabalho esperando por você. — Hanji continuou, indiferente ao tom de voz cortante de Levi. Ele cedeu energia suficiente para produzir uma careta enquanto considerava. Levi ganhou uma reputação de soldado implacável com uma lista de prisões de alto escalão em seu currículo. As pessoas também diziam que ele era diretamente responsável por dispersar várias gangues proeminentes e sindicatos de crime organizado na cidade. Elas o conferiam títulos absurdos; o Pitbull, o Limpador e, mais frequentemente, o Soldado Mais Forte da Humanidade. Os membros de seu pelotão gostavam especialmente do segundo título, era um nome adequado para ele por razões que o público que o deu nem imaginam. Levi bufou em tom de deboche. Ele deixou a cidade por um enorme total de três meses e aparentemente as gangues já estavam de volta à ativa? Analisou friamente a aglomeração de pessoas que se acumulou nas calçadas para recebê-los; sem dúvidas elas esperavam que ele limpasse a bagunça que fizeram outra vez. Estava ficando velho demais pra isso.

Um movimento cortante em sua visão periférica o fez levantar seu olhar diretamente para o céu. Quatro figuras navegavam no alto, impulsionadas pelo DMT amarrado às suas cinturas. Ele pensou num primeiro momento que fossem membros da Polícia Militar, já que não podiam ser membros da Tropa de Exploração, e pensou que era incomum encontrá-los em um ato de esforço físico que não incluísse bater em cidadãos comuns ou foder prostitutas. Suas finas sobrancelhas se comprimiram em um franzir quando ele percebeu que nenhum deles portava uniformes. Estavam vestidos com roupas comuns, tons escuros indefinidos e botas de caça. Uma gangue. Como eles conseguiram tomar posse de DMTs, cacete? Esquece; com certeza era por causa da incompetência da Polícia Militar. A metade de baixo de cada um de seus rostos estava coberta por máscaras em que cada um pintou formas de narizes e bocas deformadas e grotescas, como se a pele tivesse sido retirada da metade de baixo de suas faces, deixando apenas os músculos e dentes expostos. Uma das figuras, uma entre três masculinas e uma feminina, soltou um grito exaltado enquanto voava acima de todos, claramente muito apegado à emoção do voo para perceber sua audiência. Seu líder era aparentemente menos descuidado, Levi o ouviu praguejando quando notou o perigo com o qual eles inadvertidamente se depararam, um pouco tarde demais para tomar qualquer providência. Seu subordinado desatento finalmente pareceu perceber também; o tempo pareceu quase ficar mais devagar enquanto ele finalmente tomava consciência da situação. Levi viu a compreensão surgir em seus olhos - ele estava usando um tapa-olho além da máscara, o que deve ter tornado o uso do equipamento muito difícil - e eles se arregalaram com medo enquanto examinavam o que havia abaixo. Por um brevíssimo momento seus olhares se encontraram e Levi se surpreendeu ao ver que o jovem tinha brilhantes olhos dourados. Uma característica notável, que dificilmente esqueceria. Mas o momento passou e o quarteto desapareceu tão rápido quanto veio, os ganchos de seus DMTs sendo atirados e prendendo na parede de argila da torre do relógio no lado mais distante do portão de entrada, e então se balançaram até sumirem de vista.

Houve um momento de silêncio atordoado depois que eles desapareceram em que todos os membros da Tropa pareceram segurar a respiração. Aquilo realmente acabou de acontecer? Uma gangue realmente acabou de passar por eles voando, praticamente os insultando com DMTs roubados? Era como se estivessem pedindo para serem presos.

— Bem, essa foi uma festa de boas-vindas inesperada... — Hanji piscou atrás de seus grossos óculos, olhar ainda travado na direção em que a gangue desapareceu, mesmo eles já tendo ido faz tempo. — Mas suas técnicas com os dispositivos eram bem impressionantes, até. Melhor do que muitos membros das Tropas. Isso precisa de bastante perícia, eu suponho. — Só Hanji mesmo para se ligar nesse detalhe.

— É o dia de sorte deles — Levi diz, induzindo sua égua a um trote lento. Os membros da Tropa aos poucos seguiram o exemplo, apesar de confusos sobre o porquê de Levi não lançar-se imediatamente em perseguição aos criminosos. —, estou muito cansado pra me importar com essa merda.

Se os idiotas eram estúpidos o suficiente para voar logo acima dele com uma flagrante ostentação de tão ingênua invencibilidade com menos de cinco minutos após eles terem colocado os pés dentro da cidade, sem dúvidas eles seriam encurralados e presos ainda naquela semana. Deixe-os aproveitar os últimos dias de liberdade; isso seria o mais compassivo que ele poderia ser.