Notas:

Oi, querides! Como estão? Espero que bem, seguros, em casa e saudáveis. Antes de mais nada, quero agradecer por cada pessoa que está lendo, acompanhando e principalmente comentando a fic - isso sempre alegra o meu dia e me dá uma super motivação pra continuar! Eu acabei demorando para atualizar novamente por conta de umas novas empreitadas que estão rolando na minha vida - mas, enfim, finalmente consegui traduzir mais um capítulo e publicar aqui para vocês!
Este capítulo é, confesso, um dos mais emocionantes e eu chorei muito (quando li, quando traduzi, quando transcrevi e quando revisei, chorei todas as vezes) e eu espero que gostem! Agora, sem mais delongas, desejo uma boa leitura e até a próxima! ;*


Capítulo 71: A Promessa

Eles arranjaram o encontro na casa de um conhecido mútuo que requeria alguém que temesse a ambos o suficiente para garantir discrição igualitária. Erwin podia ser o Imperador, mas Mikasa guardava um tesouro de segredos que podia arruinar a reputação até do mais virtuoso nobre de Trost, então isto não se mostrou muito difícil. A casa à qual chegaram pertencia a um mercador de tecidos importados afortunado e se esticava até um lago não natural que era um círculo perfeito refletindo o céu da noite como um espelho. A casa em si tinha um desenho ostentoso e chamativo que se situava no topo de um píer que terminava em uma vista panorâmica e desobstruída da água parada em uma sala de estar aberta debaixo de uma cobertura suave. Cortinas finas e transparentes esvoaçavam em volta dos móveis de madeira polida estofados com almofadas de bordados brilhantes. Seu anfitrião havia acendido lanternas por todo o cais até a área de estar e deixado pratos de guloseimas e chás como se Mikasa ou Erwin tivessem vindo para aproveitar o ar noturno. Quaisquer ilusões que ele tivesse de que isso poderia ser algum tipo de encontro romântico ilícito entre o Imperador e uma Madame de bordel devem ter sido rapidamente dispersadas quando ambas as partes chegaram com os rostos sérios e prontos para os negócios. Levi podia ver as formas de figuras distantes já posicionadas na área de estar e sabia que Erwin chegara primeiro.

— Chique. — murmurou Levi, avaliando a estrutura espalhafatosa com sobrancelhas levantadas enquanto Mikasa descia de sua carruagem. Armin agarrou seu pescoço enquanto a esperava ajeitar suas saias e arrumar seu cabelo. Levi devolveu a criança a seus braços e encontrou seu olhar. — Você está bem?

— Estou. — Mikasa exalou tremidamente e lhe ofereceu um sorriso pequeno. — Queria que Eren estivesse aqui.

— Você poderia tê-lo trazido.

— Eu sei. — Ela olhou para ele com gratidão. — Mas você vai ter que servir.

Ambos se viraram para encarar a casa do lago ao som alto de cumprimentos.

— Madame!

Um homem careca em um robe esvoaçante de cetim deu uma meia-corridinha até eles, um sorriso largo e falso esticado por suas feições bulbosas. Seus braços moviam-se como se estivesse correndo rápido e quando finalmente os alcançou, levou um momento para recuperar o fôlego. Levi assumiu que esse devia ser Mestre Kaushan, o dono da casa. Ele se abaixou em uma reverência leve para Mikasa, algo que Levi sabia que ele nunca se dignaria a fazer se não soubesse que ela estava prestes a se encontrar com o Imperador. O homem então olhou para Levi e, para seu crédito, só hesitou rapidamente antes de fazer uma reverência a ele também. Ele não possuía sobrancelhas, só uns pelinhos proeminentes brilhando com suor nervoso e abaixo deles um par de olhos escuros e fundos que viajavam pelo rosto de Mikasa como se estivesse ansioso para agradá-la. Levi se perguntou impassivelmente o que diabos Mikasa sabia sobre o homem para deixá-lo tão nervoso.

— É ele ali? — Mikasa acenou com a cabeça para o salão ao ar livre, alheia à observação agitada de Kaushan. Ele pareceu chocado com o modo casual de Mikasa referir-se ao homem.

— O Imperador, minha Senhora. Sim, é Ele.

— Quer que eu vá na frente? — perguntou Levi. Ele se virou, colocando-se de forma que suas costas ficaram viradas para Kaushan em um pedido de privacidade nada sutil. O homem suado deve ter fungado por dentro ao ser dispensado em sua própria casa por duas pessoas que certamente via como inferiores. Pensar nisso era gratificante.

Mikasa olhou por cima do ombro, os olhos ainda fixados nervosamente nas figuras distantes.

— Talvez só para dizer a seus homens para dispersar. Eu quero o menor número de pessoas possível lá.

— Claro.

Levi cutucou o nariz de Armin e sorriu quando o bebê levantou a mão para agarrar seu dedo. Armin fez um som que Levi sabia que era o balbucio mais próximo de seu nome que conseguia fazer nesse estágio.

— Você fique bem, homenzinho.

— Obrigada, Levi. Por concordar em vir. — Mikasa envolveu sua mão na de Armin, segurando a de Levi firmemente e apertando. — Por estar sempre aqui por nós. Por todos nós.

Levi sabia que ela quis dizer sobre mais do que o aqui e o agora. Ele sabia que ela sabia sobre Eren, o que seria apenas uma questão de tempo, mas ainda o fizera ansioso mesmo assim. Independente de suas inseguranças, a parte racional de seu cérebro sabia que Mikasa gostava dele e que ela respeitava e confiava em Eren o bastante para respeitar suas decisões. Nunca houvera muita chance dela pirar sobre essas notícias, mas quando se tratava de Eren, a parte racional e objetiva de seu cérebro nunca tinha muita chance de se manifestar. Então ele estivera nervoso sobre vê-la hoje, mas encontrar seu olhar firme e ver a forma como ela sorria para ele acabou com quaisquer temores que ele pudesse ter tido sobre como ela iria reagir.

— Fique por perto, por favor. Até parecer que está indo tudo bem. Faria eu me sentir melhor saber que você está por perto.

— É claro. — disse, sua voz mais baixa agora. Ela apertou sua mão de novo e ele assentiu antes de se virar, passando por Mestre Kaushan na direção do contingente de Erwin.

Mikasa sabia que ele era próximo de Erwin. Sabia que, se alguma coisa ameaçasse a dar errado, ele era sua melhor chance de ganhar algum terreno. Erwin iria ouvi-lo e dar atenção a suas observações, então ele era uma peça de xadrez valiosa para se ter no tabuleiro. Então, sim, Levi ponderou se isso fazia parte de uma estratégia maior dela. Estava bem no meio de um jogo de poder entre duas das pessoas mais manipuladoras da cidade; seria ingênuo da parte dele não considerar este ângulo.

Levi sorriu para Erwin enquanto vinha pelo cais de madeira que ligava o ambiente ao ar livre à casa principal e fez uma reverência de uma maneira tão exagerada que não podia ser nada além de uma atuação. O nobre loiro assentiu levemente a seus guardas que silenciosamente voltaram à casa com o sinal. Então, ele voltou-se a Levi para encará-lo com acusação divertida.

— Então, de qual lado você está hoje?

É claro que Erwin também viu; eles eram criaturas de mentes parecidas e reconheceriam instantaneamente as linhas tênues de estratagemas quando as vissem. Levi deu de ombros, entendendo perfeitamente sua posição.

— O que estiver ganhando.

— O que faria no pior cenário possível, Levi? Se a coisa ficar feia.

Levi olhou por cima do ombro para a Guarda Real uniformizada marchando para longe.

— Assegurar uma luta justa, eu suponho.

Erwin riu.

— Não vou fazer mais perguntas cujas respostas não quero ouvir. Contanto que se lembre acima de tudo que você serve à Coroa.

— É claro. — Levi pôde ouvir o leve som de madeira rangendo atrás dele e sabia que seria Mikasa se aproximando. Fez outra reverência. — Ambos ao pai e ao filho.

Ele não esperou para ver o que Erwin achara desse comentário. Ao passar por Mikasa, sorriu para ela e tocou seu cotovelo gentilmente como encorajamento. Ela assentiu e levantou o queixo, caminhando com passos inabaláveis.


Os olhos de Erwin não desgrudaram da criança em seus braços. Este homem que retinha sua máscara de compostura e propriedade mesmo no auge do prazer não conseguia lembrar sequer de cumprimentá-la agora. Era um bom sinal, decidiu Mikasa. Se ele continuasse a ficar ofuscado só pela visão do próprio filho, talvez essa negociação corresse mais facilmente.

— Armin.

Erwin disse a palavra experimentalmente, reverentemente. Associando o nome ao rosto e sua expressão suavizando agora que ele finalmente podia. Armin, por sua vez, estava muito ocupado admirando a vista. Apontou um dedo redondo ao lago que refletia os tons frios do céu do crepúsculo.

— Banho. — disse, confiante.

Erwin riu. Suas sobrancelhas se levantaram no meio como se puxadas por um fio. Era um riso genuíno, não o arranjo atrativo calculado de feições que ele geralmente sobrepunha. Levantou-se do sofá e ficou do lado oposto a ela da mesa de café, as mãos entrelaçadas à sua frente como uma criança tentando parecer comportada e esperando uma recompensa caso fosse convincente o bastante.

— Eu não irei agradecê-lo pelo que fez. — disse Mikasa. Os olhos de Erwin voaram para seu rosto, como se acabasse de lembrar que ela também estava aqui. — Por aquelas reformas com relação à máfia.

— Eu não esperava que o fizesse.

— Estão décadas atrasados. Gerações atrasados.

A expressão de Erwin ficou mais sombria. Olhos azuis viajaram de volta para Armin, contemplando o peso de suas palavras.

— É verdade.

— Não deveria ter precisado de razões pessoais para promulgar leis e tomar tais medidas. — Erwin abaixou a cabeça em silêncio, reconhecendo que ao menos uma vez palavras vazias fariam o contrários de aplacar uma situação tão objetiva. — Você deveria sentir vergonha por isso. Pode se parabenizar por ter sido o único a agir em uma longa linhagem de governantes negligentes, mas não negue os motivos egoístas que impulsionaram sua ação.

— Eu vi mães e bebês demais morrerem para me sentir grata. Tenho muito sangue nas mãos para me sentir de qualquer jeito que não seja furiosa. Foi tão difícil assim? Quais desculpas seus antepassados poderiam ter para nunca terem agido?

— Nenhuma.

— Melhore. — Mikasa engoliu quando sua voz começou a tremer. Armin se esticou para ver o rosto de sua mãe com a mudança de entonação. — Seja vigilante, seja justo, seja atencioso, seja indiscriminado. Nós somos o seu povo também, você nos serve também; melhore.

Erwin a encarou seriamente.

— Mil desculpas não seriam suficie...

Mikasa bufou.

— Não. Não seriam.

Ela respirou fundo para se recompor. Olhou para Armin e lhe deu um sorriso oscilante e reafirmador, então foi até Erwin. Parou a um passo dele, mudando a posição de Armin em seus braços para que ficasse de frente para ele.

— Você quer segurá-lo?

— Sim. — Erwin disse, a palavra apenas um suspiro.

Armin nunca tinha vergonha de estranhos. Foi nos braços de Erwin sem reclamar. Encarou seu pai com olhos grandes e azuis, inclinando-se para trás em seus braços a fim de observá-lo apropriadamente. Dedos pequeninos apertaram a frente de seu casaco para se equilibrar. Erwin riu sob o olhar avaliador.

— Ele faz isso com cada pessoa nova que conhece. — Mikasa sorriu afetuosamente. — Levi disse que foi isso que o desmascarou: o modo como observa parecendo que está planejando alguma coisa. Como você.

— Ele se parece comigo. — Seu cabelo era mais cacheado, embora o de Erwin também tenha sido assim quando era criança. Cachos dourados emolduravam suas bochechas rosadas e olhos azuis arregalados. Era como se tivesse saído de uma pintura.

— Ele se parece com meu pai. — disse Mikasa em voz baixa. Erwin olhou para cima abruptamente, surpreso pelo fragmento de informação inesperado. — Lhe dei esse nome por causa dele. Significa protetor, ou soldado. — Ela sorriu levemente para si mesma. — Pensei que seria bom para ele ter um nome forte. Achei que iria precisar.

Erwin murmurou o nome de novo e Armin olhou para ele. Grandes olhos azuis o encararam questionadoramente.

— É um bom nome. — Armin se contorceu em seus braços, impaciente e entediado. Sem ser afetado e alheio ao peso daquele momento. — É perfeito.


A nova casa tinha dois andares com quartos separados e uma sala de estar grande que tinha vista para o jardim da frente. Ficava numa boa vizinhança, perto o bastante de Muralha Rose para viagens regulares, mas ainda longe o suficiente para ser considerada respeitável. Todos os vizinhos pareciam se conhecer o bastante para se cumprimentar pelo nome, mas fora isso cada um cuidava de sua vida.

Não era nada sofisticado, na verdade. Limpo, arrumado e novo, mas nada demais. Tiveram que dizer aos vizinhos que o marido de Mikasa morrera no mar para evitar se tornarem o alvo de fofocas desagradáveis locais, mas tirando isso todos pareceram acolhedores à jovem família. Na primeira noite em que passaram lá, Mikasa e Eren dormiram sorrindo largamente um para o outro por cima da cabeça de Armin, seus colchões e lençóis a única mobília numa casa ainda vazia.

Eles compraram sofás e armários e mesas logo depois, incapazes de aguentar a visão dos quartos desguarnecidos por muito tempo. Jean e Reiner ajudaram Eren a montar as camas e Berthold ficou encarregado de costurar algumas cortinas para as janelas nuas. Sasha e Marco ajudaram Mikasa a estocar a despensa, enquanto Ymir e Christa se encarregaram de enfeitar o lugar com aqueles tipos de ornamentos e bugigangas dos quais Eren não entendia qual a necessidade se não tinham nenhum valor sentimental. Connie, por sua vez, oferecia uma narração de tudo o que estava acontecendo e Annie oferecia uma ajuda ocasional quando solicitada, fora isso ficando com a tarefa de cuidar de Armin enquanto todos se ocupavam com seus trabalhos.

No dia do jantar, o lugar estava uma zona. Mikasa estava frenética, mas focada, dando ordens e direções da cozinha onde se encontrava na labuta com Marco no fogão. Eren limpou a casa dos pés à cabeça e enviou Jean para comprar quaisquer necessidades de última hora no mercado. Os convidados começaram a chegar perto do pôr do sol. Eren não percebera a quantidade de amigos que tinham até que estivessem todos reunidos sob o mesmo teto. Isabel e Mikasa se deram bem como se fossem velhas amigas e não demorou muito para que a cozinha estivesse interditada para qualquer um com exceção de Marco e Farlan.

Eren também convidara o pelotão de Levi, que na verdade eram o seu também a essa altura, bem como Hanji, Mike e Nanaba. Era estranho vê-los se dando bem com seu bando de delinquentes desajustados que, por sua vez, desviavam deles cautelosamente. Eles eram soldados e isso não era algo que podiam esconder mesmo sem uniformes, mas encontraram um consenso entre os ladrões, trapaceiros e bandidos que ele chamava de amigos. A casa logo estava cheia e a folia estava transbordando para toda a casa e quintal. Eren passou com várias rodadas de pratos de aperitivos, enchendo copos vazios e assegurando que todos estivessem sendo bem servidos. Parecia com um turno em Muralha Rose, ziguezagueando entre os corpos amontoados, esquivando-se de gestos bêbados e rindo de piadas que ele mal conseguia ouvir com todo o barulho. Mikasa tentou dar um grau de sofisticação e estrutura, mas não durou muito. Era uma casa cheia de criminosos patéticos e soldados de folga, então assim que a comida ficou pronta, qualquer esperança de uma refeição ordenada em volta da nova mesa de jantar foi atirada pela janela. Mas não era ruim. Era tudo menos ruim. Era normal, e isso era exatamente o que eles queriam para hoje; uma casa cheia de familiaridade e conversa animada fazia parecer mais com um lar. Os cantos e corredores desconhecidos sendo invadidos pelo tipo de acidentes memoráveis que deixavam rachaduras e marcas no gesso para serem lembradas com carinho depois.

Mikasa colocou Armin para dormir em seu quarto no andar de baixo e fechou a porta silenciosamente ao sair. Espiou por todos os cômodos, verificando se tudo estava bem, pegando copos e limpando pequenas bagunças por onde as encontrava. Ela procurou por Eren e o encontrou conversando sem parar e numa linguagem indecifrável com Isabel, ambos gesticulando tanto que era impossível dizer se estavam discutindo ou apenas muito entusiasmados sobre o assunto. Auruo e Jean estavam adormecidos no sofá da sala e Marco sorriu sonolento para ela do assento da janela, dando tapinhas gentis nas costas de Ambu enquanto ela dormia em seu colo, o punho enfiado firmemente na boca. Christa, Ymir, Sasha e Petra estavam conversando animadamente no corredor. Mike parecia engajado em um debate acalorado com Hanji enquanto Nanaba, Annie e Farlan assistiam com sorrisos irônicos e cabeças balançando. Lá fora, o ar estava muito mais fresco e Mikasa encontrou Reiner e Bert com Gunther e Erd, segurando seus copos e conversando baixinho entre eles. Ela acenou para eles com a cabeça e continuou pela parede de fora até o quintal da frente, procurando pelo último membro de sua trupe.

Levi estava sentado no banco de pedra rachada que Eren havia saqueado do bazar e colocado debaixo da grande e velha árvore de jasmim-manga que dominava seu jardim da frente em toda a sua glória retorcida e ramificada. Ele segurava uma xícara de chá entre as mãos enquanto se inclinava para trás para encarar o céu noturno entre os galhos entrelaçados, virando a cabeça para encará-la ao ouvir sua aproximação. Ele lhe deu um sorriso cansado, as sombras dos galhos por causa da luz da lua desenhando lindas sombras em seu rosto.

— Precisava de um pouco de silêncio? — Mikasa limpou flores do banco ao lado dele e se sentou.

— Não me leve a mal, é uma ótima festa. De verdade, você se superou.

Mikasa balançou a cabeça e se recostou também. Havia uma brisa maravilhosa passando, fazendo as folhas das árvores se agitarem e sua doce fragrância viajar pelo ar da noite.

— Sem problemas. Fica um pouco demais depois de um tempo para mim também.

— Eren está bem à vontade.

Mikasa riu.

— Eren pode fazer isso por horas. Consegue ir de um longo turno em Muralha Rose direto para beber com os amigos sem derramar uma gota de suor.

— Mas isso foi bacana. Ver todo mundo junto. Estou feliz por você ter conhecido minha família.

Eles compartilharam um momento de quietude. Depois de um longo silêncio, Mikasa respirou fundo e se preparou.

— Você sabe a história de como eu... Me juntei à família de Eren?

Houve um ruído quando a cabeça de Levi girou em seus ombros para olhar para ela. Ela podia sentir o peso de seu olhar em seu perfil.

— Não.

Mikasa assentiu, reunindo seus pensamentos.

— Ele nunca lhe contaria. Não sem ter certeza de que estaria tudo bem por mim, então eu vou poupá-lo de todo esse tormento.

A voz de Levi estava baixa quando ele respondeu.

— Você não precisa fazer isso.

— Eu sei. — Mikasa virou-se para encontrar seu olhar e sorriu gentilmente. — Não é uma história feliz. — avisou, e então mexeu o braço para gesticular para a casa e todos dentro. — Mas tem um final feliz.

— Minha mãe e eu fomos trazidas para Trost em um navio de escravos quando eu tinha cerca de seis ou sete anos. Meu pai foi morto quando nossa vila de pescadores fora saqueada e todas as mulheres e crianças foram levadas para serem vendidas a prostíbulos e haréns. — Ela levantou as mãos à sua frente, gesticulando de forma que sua pele clara captasse a fraca luz da lua. Anéis e pulseiras brilhavam e piscavam. — Éramos uma mercadoria exótica. Havia centenas de nós naquele navio, apertadas e amontoadas como gado. O chão era escorregadio com vômito e excremento e o ar era pungente e velho. Só víamos a luz do sol através das frestas no deque acima de nós. Então realmente não foi nenhuma surpresa quando doenças nos atingiram. Era uma jornada de cinco semanas, e no meio da quinta semana, a apenas três dias de aportarmos, doenças se espalharam pelo navio inteiro. Pela tripulação. — Mikasa sorriu penosamente. — A carga. Ninguém foi poupado. Não havia para onde escapar exceto o alto mar. Nós chegamos à doca, mas fomos recusados. Lançamos âncora a várias centenas de quilômetros do porto e ficamos em quarentena. O médico do navio foi um dos primeiros a sucumbir, então não tínhamos ninguém que podia sequer adivinhar o que era, muito menos saber como deter. Foi então que o pai de Eren entrou na história.

— Grisha Jaeger, um dos melhores médicos na cidade. Ele poderia ter sido grande, poderia ter servido ao próprio Imperador, de tão brilhante que era. Mas foi expulso porque se casou com uma paāvaena. — Mikasa olhou apreensiva para Levi. — Ele trabalhava na periferia de Shiganshina, onde vivia com Eren e Carla. Cuidava das pessoas mais pobres, viajando só ocasionalmente para Sina quando um nobre estava desesperado o bastante para chamá-lo. Quando ouviu sobre o navio com praga, ele foi um dos primeiros a se voluntariar. Ele era esse tipo de homem. Eu não lembro direito já que foi há muito tempo, mas ele descobriu, o que quer que fosse. Levou um tempo e quando ele descobriu, muitos de nós tínhamos morrido. Minha mãe tinha morrido também, mas ele me salvou. Eu fui a única criança que sobreviveu. Quando os escravagistas vieram recolher o que sobrara de sua carga — Mikasa ironizou a palavra —, Grisha disse que me queria. Ao invés do pagamento, ele queria a mim. Meninas são uma mercadoria valiosa, mas eles concordaram. Ele tinha feito um trabalho ótimo que ninguém conseguira, então eles não tinham muito argumento.

— E ele te acolheu?

Mikasa assentiu.

— Eu nem sequer falava seu idioma. Eu era magrela, faminta e desconfiada. Era uma menininha que tinha visto ambos os pais morrerem, mais ou menos selvagem àquela altura, e esse homem estranho simplesmente me levou direto para casa e para sua esposa e filho pequeno, e eles nem sequer piscaram o olho. Era esse tipo de homem que ele era. Esse tipo de pessoa que a família de Eren era.

Ela estava chorando. Não havia chorado até ali, mesmo descrevendo os horrores que tivera de encarar a bordo do navio, mas falar sobre a bondade da família de Eren fez lágrimas silenciosas caírem por suas bochechas enquanto seus lábios tremiam no meio das palavras. Levi se esticou e pegou sua mão na dele e apertou.

— Eles eram maravilhosos. Carla, minha mãe. Minha nova mãe, era maravilhosa. Ela era linda e calorosa e paciente. Toda noite eu acordava chorando e assustada, gritando por minha própria mãe, e ela vinha. Me aninhava e cantava para mim em uma língua que eu nem sequer compreendia. Aconchegava-se ao meu lado se eu não conseguia dormir, e era o mais seguro que eu me sentira em semanas. — Mikasa soluçou uma risada. — E então Eren sentia-se abandonado e se aninhava também, é claro. Ele ficava com tanto ciúme da atenção que eu estava recebendo. Ele me chutava quando sua mãe adormecia. Era um pirralho. Eu o amo. — Seus ombros chacoalharam com risada silenciosa. — Ele é a pessoa mais gentil, corajosa, forte que eu já conheci. Nunca serei capaz de retribuir a ele por toda a felicidade que já me deu. Nem em mil vidas.

Levi esticou o braço e puxou Mikasa para si. Ela apoiou a cabeça em seu ombro e fechou os olhos.

— Faça-o o garoto mais feliz do mundo, Levi. — Ela sussurrou. — Eu não consigo sozinha.

— Kasa?

Eren estava parado na varanda, assistindo-os com olhos arregalados.

— Por quê...? — Ele desceu as escadas correndo e olhou freneticamente para Levi, sua expressão assustada e preocupada. — O que aconteceu?

Quando ele se aproximou de sua irmã, ela o puxou. Trouxe-o para o banco ao lado dela, envolvendo os braços em seus ombros e pressionando os lábios em sua cabeça.

— Só estava contando a Levi algumas coisas. Sobre como nos conhecemos. — Ela murmurou em seu cabelo, balançando-o tão gentilmente como se fosse ele quem precisasse ser confortado.

— Oh.

A voz de Eren era um som pequeno e abafado de onde seu rosto estava enterrado no xale de sua irmã. Levi começou a se afastar para dar um pouco de privacidade aos dois, mas sentiu algo agarrar sua manga e olhou para baixo para ver os dedos de Eren atados ao tecido, ancorando-o perto. Ele resistiu às tentativas de Levi de soltar sua mão, cedendo somente quando Levi entrelaçou seus dedos ao dele e levou suas mãos aos lábios, deixando um beijo nos dedos de Eren.

— ... Eu prometo.

Mikasa suspirou e ele sabia que ela tinha entendido.