~~~~Capítulo Um~~~~

Isabella Swan não podia ler uma única linha do relatório piscando na tela de seu organizador de mão. Uma névoa de medo nublava sua visão, isolando-a da fria eficiência do escritório de sua mãe. Mesmo o som de Renee encerrando uma chamada mal penetrou sua mente anestesiada.

Ela estava apavorada.

Esta manhã, ela acordou para se encontrar se contorcendo na cama, choramingando. Uma Psy normal não chora, não mostra qualquer emoção, não sente. Mas Isabella sabia desde a infância que ela não era normal. Ela havia escondido com sucesso sua falha por vinte e seis anos, mas agora as coisas estavam começando a dar errado. Muito, muito errado.

Sua mente estava se deteriorando em uma taxa tão acelerada que ela começou a experimentar efeitos colaterais físicos, espasmos musculares, tremores, um ritmo cardíaco anormal, e as lágrimas desesperadas após sonhos que não conseguia se lembrar. Logo se tornaria impossível esconder sua psique fraturada.

O resultado da exposição seria o encarceramento no Centro. Claro que ninguém o chamava de prisão. Considerado um "centro de reabilitação", que fornecia uma forma brutalmente eficaz para o Psy, de abater os fracos do rebanho.

Depois que eles estivessem acabados completamente com ela, se tivesse sorte, iria acabar como uma massa babona, sem um resquício de mente inteligente. Se não tivesse tanta sorte, iria manter o suficiente de seus processos de pensamento para se tornar um drone nas vastas redes de negócios do Psy, um robô com neurônios apenas o suficiente para trabalhar no arquivamento de cartas ou varrendo o chão.

A sensação de sua mão apertando o organizador, à trouxe de volta à realidade. Se havia um lugar onde ela nunca poderia entrar em colapso, este lugar era aqui, sentada em frente a sua mãe. Renee Swan podia ser seu sangue, mas ela também era membro do Conselho Psy. Isabella não tinha certeza de que se seu segredo viesse à tona, Renee não sacrificaria a filha para manter seu lugar no órgão mais poderoso do mundo.

Com uma determinação inabalável, ela começou a reforçar as proteções psíquicas que protegiam os corredores secretos de sua mente. Era a única coisa em que ela se superava, e pelo tempo que sua mãe terminou a ligação, Isabella exibia tanta emoção como uma escultura entalhada em gelo ártico.

— Temos um encontro com Edward Cullen em dez minutos. Você está pronta? — Os olhos amendoados de Renee não continham nada além de um frio interesse.

— Claro mãe. — Obrigou-se a encontrar aquele olhar direto, sem titubear, tentando não se perguntar se seu próprio olhar era tão frio quanto. Ajudava que, ao contrário de Renee, ela tinha os olhos como o céu noturno característico de um Psy cardeal — um infinito campo negro salpicado com pontos de um frio fogo branco.

— Cullen é um alfa changeling, então não o subestime. Ele pensa como um Psy. — Renee se virou para abrir a tela do computador, uma tela plana que deslizava para cima e para fora da superfície da sua mesa.

Isabella carregou os dados relevantes em seu organizador. O computador miniaturizado, continha todas as notas que ela poderia precisar para a reunião, e era compacto o suficiente para caber em seu bolso. Se Edward Cullen fazia realmente parte da sociedade, haveria registros disponíveis sobre suas atividades.

De acordo com suas informações, Cullen havia se tornado o único alfa líder do clã leopardo DarkRiver aos vinte e três anos de idade. Nos dez anos desde então, DarkRiver havia consolidado sua liderança em São Francisco e regiões vizinhas, na medida em que eles eram agora os predadores dominantes da área. Changelings de outros territórios que quisessem trabalhar, viver, ou jogar em DarkRiver tinham que receber a sua permissão. Se não, o direito territorial changeling entrava em vigor e o resultado era bárbaro.

O que fez os olhos de Isabella se arregalarem em sua primeira leitura deste material era que DarkRiver tinha negociado um pacto de não agressão mútua com os SnowDancers, a matilha de lobos que controlava o resto da Califórnia. Uma vez que os SnowDancers eram conhecidos por serem cruéis e implacáveis para qualquer um que ousasse ascensão ao poder no seu território, fez com que ela se perguntasse sobre a imagem civilizada que DarkRiver apresentava ao mundo. Ninguém sobrevivia aos lobos sendo bonzinho.

A campainha soou macia.

— Vamos, mãe? — Nada sobre a relação entre Renee e Isabella era, ou já tinha sido, maternal, mas o protocolo afirmava que ela deveria ser dirigida por sua designação da família.

Renee assentiu e pôs-se de pé, uma graciosa mulher de um metro e setenta. Vestida com um terninho preto combinando com uma camisa branca, ela parecia em cada centímetro a mulher bem sucedida que era, com os cabelos cortados pouco abaixo das orelhas num estilo franco que lhe convinha. Ela era linda. E letal.

Isabella sabia que, quando elas caminhavam lado a lado como estavam fazendo agora, ninguém pensaria que eram mãe e filha. Eram da mesma altura, mas a semelhança terminava aí.

Renee tinha herdado os olhos asiáticos, o cabelo liso, e a pele de porcelana de sua mãe meio-japonesa. No momento em que os genes tinham sido transferidos para Isabella, tudo o que havia sobrevivido era um pouco da inclinação nos olhos.

Ao invés dos cintilantes cabelos pretos azulados de Renee, ela tinha cabelos numa rica cor de ébano que absorvia a luz como tinta, e se enrolava tão descontroladamente que ela era forçada a puxá-lo para trás em uma trança severa todas as manhãs. Sua pele era um mel escuro, em vez de marfim, evidência dos genes do pai desconhecido. Os registros do nascimento de Isabella haviam-no incluído como sendo de descendência anglo-indiana.

Ela recuou um pouco à medida que a porta para a sala de reuniões se aproximava. Detestava encontros com changelings, e não por causa da repulsa geral dos Psy pelas suas emoções abertas. Para ela, parecia que eles sabiam. De alguma forma eles podiam perceber que ela não era como os outros, que ela era defeituosa.

— Sr. Cullen.

Ela olhou acima, ouvindo o som da voz da mãe. E encontrou-se cara a cara com o homem mais perigoso que já tinha visto. Não havia outra palavra para descrevê-lo. Bem mais alto que um metro e oitenta, era construído como a máquina de combate que ele era como em sua forma selvagem, puros e longos músculos e força tensa.

Seu cabelo preto roçava os ombros, mas não havia nada macio sobre ele. Em vez disso, sugeria a paixão desenfreada e a fome escura do leopardo embaixo de sua pele. Ela não tinha dúvidas de que estava na presença de um predador.

Então, ele virou a cabeça e viu o lado direito do rosto. Quatro linhas irregulares, lembrando
as marcas de garras de algum animal grande, marcavam sua pele dourada. Seus olhos eram de um verde hipnotizante, mas eram aquelas marcas que prendiam sua atenção. Ela nunca esteve tão perto de um dos caçadores changeling antes.

— Sra. Swan. — Sua voz era baixa e um pouco áspera, como se apanhados à beira de um rosnado.

— Esta é minha filha, Isabella. Ela vai ser o contato para este projeto.

— Um prazer, Isabella. — Ele inclinou a cabeça na direção dela, os olhos persistindo por um segundo, mais do que o necessário.

— O prazer é meu. — Podia ouvir as batidas irregulares do seu pulso? Era verdade que os sentidos dos changeling eram muito superiores aos de qualquer outra raça?

— Por favor. — Ele fez um gesto para que tomassem seus assentos à mesa com tampo de vidro, e ficou em pé até que elas o tivessem feito. Então, escolheu uma cadeira exatamente de frente para Isabella.

Ela se forçou a retornar seu olhar, não se deixando enganar pelo cavalheirismo e baixando sua guarda. Caçadores foram treinados para farejar a presa vulnerável.

— Nós analisamos sua oferta, — ela começou.

— O que você achou? — Seus olhos eram incrivelmente claros, tão calmos como o mais profundo dos oceanos. Mas não havia nada de frio ou prático sobre ele, nada que desmentia sua primeira impressão dele como algo selvagem, mal controlado.

— Você deve saber que as alianças de negócios Psy-changeling raramente funcionam. As prioridades são concorrentes. — A voz de Renee soou totalmente apática em relação a Edward.

Seu sorriso de resposta era tão mau, Isabella não podia desviar o olhar.

— Nesse caso, eu acho que nós temos as mesmas prioridades. Você precisa de ajuda para planejar e executar habitações que sejam atrativas para os changelings. Eu quero participação em novos projetos Psy.

Isabella sabia que aquilo não podia ser tudo. Elas precisavam dele, mas ele não precisava delas, não quando os interesses comerciais das empresas DarkRiver eram grandes o suficiente para rivalizar com os seus próprios. O mundo tinha mudado debaixo do nariz dos Psy, as raças humanas e changeling não se contentavam mais em serem a segunda melhor. Era um ato de arrogância, que a maioria de seu povo continuava a ignorar a lenta mudança no poder.

Sentar-se tão perto da fúria contida que era Edward Cullen, ela se perguntava sobre a cegueira de seus irmãos.

— Se nós lidarmos com você, vamos esperar o mesmo nível de confiabilidade de que iríamos ter se fossemos a uma empresa de design e construção Psy.

Edward olhou para a perfeição gelada de Isabella Swan, e desejou saber o que era sobre ela que o estava incomodando como o diabo. Sua fera estava rosnando e andando inquietamente pela gaiola de sua mente, pronto para atacar e cheirar seu sedoso terninho cinza-escuro.

— É claro, — disse ele, fascinado pelas minúsculas luzes brancas que piscavam em meio a escuridão de seus olhos.

Ele raramente esteve tão perto de um Psy cardeal. Eles eram bastante raros, e não se misturavam com as massas, sendo dados altos cargos no Conselho Psy, logo que chegavam a qualquer tipo de idade adulta. Isabella era jovem, mas não havia nada de inexperiente nela. Ela parecia tão implacável quanto o resto de sua raça, insensível e fria.

Ela poderia ser cúmplice do assassino.

Qualquer um deles poderia ser. Era por isso que DarkRiver estava rondando Psys de alto nível por meses, procurando uma maneira de penetrar em suas defesas. O projeto Swan era uma chance inacreditável. Não só Renee era poderosa em seu próprio direito, ela era um membro do círculo mais íntimo — o Conselho Psy. Uma vez que Edward estava em casa, seria seu trabalho descobrir a identidade do Psy sádico que tinha roubado a vida de uma das mulheres de DarkRiver... e executá-lo.

Sem piedade. Sem perdão.

Na frente dele, Isabella olhou para o fino organizador que segurava.

— Estamos dispostos a oferecer sete milhões.

Ele aceitaria um centavo, se isso o colocasse dentro dos corredores secretos do mundo Psy, mas não poderia deixá-las suspeitar de suas intenções.

— Senhoras. — Encheu a única palavra com a sensualidade que era tão parte dele, como de seu animal. A maioria dos changelings e seres humanos teriam reagido a promessa implícita de prazer em seus tons, mas estas duas permaneceram impassíveis. — Nós sabemos que o contrato não vale menos do que dez milhões. Não vamos perder tempo. — Ele poderia ter jurado que uma luz acendeu nos olhos de céu noturno de Isabella, uma luz que falava de um desafio aceito. A pantera dentro dele resmungou baixo em resposta.

— Oito. E queremos os direitos à aprovação de cada etapa do trabalho, desde a concepção à construção.

— Dez. — Ele manteve seu tom suave e sedoso. — Seu pedido irá causar um atraso considerável. Eu não consigo trabalhar eficientemente se tiver que vir aqui toda vez que eu queira fazer uma pequena alteração. — Talvez várias visitas poderiam lhe permitir recolher algumas informações sobre a fuga do frio assassino, mas era duvidoso. Era pouco provável que Renee deixasse documentos sensíveis do Conselho espalhados por aí.

— Nos dê um momento. — A mulher mais velha olhou para a jovem.

Os minúsculos pêlos na parte de trás do pescoço dele se levantaram. Eles sempre faziam isso na presença de Psys que estavam usando seus poderes ativamente. A telepatia era apenas um de seus muitos talentos, e que ele admitia ser bastante vantajoso durante as negociações comerciais. Mas suas habilidades também as cegavam. Changelings tinham há muito, tempo aprendido a tirar proveito do senso Psy de superioridade.

Quase um minuto depois, Isabella falou com ele.

— É importante para nós ter o controle em cada estágio.

— Seu dinheiro, seu tempo. — Ele colocou as mãos sobre a mesa, e entrelaçou os dedos, observando como que os olhos dela acompanhavam o movimento. Interessante. Em sua experiência, nunca um Psy havia exibido qualquer consciência de linguagem corporal. Era como se eles fossem completamente cerebrais, fechados para o mundo de suas mentes.

— Mas se você insistir nesse nível de envolvimento, não posso prometer que vamos manter o calendário. Na verdade, eu posso garantir que não vamos.

— Nós temos uma contra-proposta para isso. — Olhos de céu noturno se encontraram com os seus.

Ele levantou uma sobrancelha.

— Estou ouvindo. — E a pantera dentro dele também estava. Tanto o homem quanto o animal achavam Isabella Swan cativante, de uma forma que nem conseguia entender. Parte dele queria acariciá-la... e parte dele queria mordê-la.

— Gostaríamos de trabalhar lado a lado com DarkRiver. Para facilitar isso, peço que você me forneça um escritório no seu prédio.

Cada nervo que ele tinha ficou tenso. Acabou de ser concedido o acesso a um Psy cardeal quase vinte quatro horas por dia.

— Você quer ser juntada no quadril comigo, querida? Tudo bem para mim. — Seus sentidos detectaram uma mudança na atmosfera, mas era tão sutil que tinha ido embora antes que ele pudesse identificá-la. — Você tem autoridade para assinar as mudanças?

— Sim. Mesmo se eu tiver que consultar minha mãe, não precisarei sair do local. — Era um lembrete que ela era Psy, um membro de uma raça que havia sacrificado sua humanidade há muito tempo.

— Até que ponto pode enviar um cardeal?

— Longe o suficiente. — Ela apertou alguma coisa em sua tela minúscula. — Então, vamos resolver em oito?

Ele sorriu para a tentativa dela de pegá-lo desprevenido, divertindo-se com a quase astúcia felina.

— Dez ou eu vou embora e vocês terão que se contentar com algo de qualidade inferior.

— Você não é o único especialista no que os changeling gostam e não gostam lá fora. — Inclinou-se um fração.

— Sim. — Intrigado com a Psy que parecia usar seu corpo tanto quanto sua mente, ele repetiu o movimento deliberadamente. — Mas eu sou o melhor.

— Nove.

Ele não podia se dar ao luxo de deixar a Psy pensar nele como fraco — eles respeitavam apenas a mais fria, a mais cruel tipo de força.

— Nove, e a promessa de um milhão se todas as casas forem vendidas até a hora da abertura.

Outro silêncio. Os cabelos em sua nuca se levantaram novamente. Dentro de sua mente a besta batia no ar como se tentasse apanhar as faíscas de energia. A maioria dos changelings não conseguiam sentir as tempestades elétricas geradas pelos Psys, mas era um talento que tinha seus usos.

— Nós concordamos, — disse Isabella. — Eu suponho que você tenha contratos impressos?

— Claro. — Ele abriu uma pasta, e deslizou as cópias do mesmo documento que sem dúvida, elas tinham em suas telas.

Isabella os pegou, e passou para uma mãe.

— Eletrônico seria muito mais conveniente.

Ele já tinha ouvido isto uma centena de vezes de cem Psys diferentes. Parte da razão que changelings não tinham seguido a onda tecnológica era pura teimosia, a outra parte era segurança — sua raça vinha se infiltrado em bancos de dados dos Psy por décadas.

— Eu gosto de algo que eu possa segurar, tocar e cheirar, algo que agrada a todos os meus sentidos.

Era uma sugestão, que ele não tinha dúvidas, que ela tinha compreendido, mas era sua reação que ele estava procurando. Nada. Isabella Swan era uma Psy tão fria quanto qualquer outra que ele já havia conhecido — precisaria descongelá-la o suficiente para obter informações, e saber se o Psy estava abrigando um assassino em série.

Ele encontrava-se estranhamente atraído pela idéia de se meter com esta Psy em particular, embora até aquele momento, a considerasse como nada mais do que máquinas sem sentimentos. Então ela olhou para cima, para encontrar seu olhar e a pantera nele abriu a boca em um rosnado mudo.

A caçada começou. E Isabella Swan era a presa.

Duas horas depois, Isabella fechou a porta de seu apartamento, e fez uma varredura mental das instalações. Nada. Localizado no mesmo prédio de seu escritório, o apartamento tinha excelente segurança, mas ela tinha usado suas habilidades de blindagem para tocar as salas com outro nível de proteção. Gastava muito de sua pequena força psíquica, mas ela precisava para se sentir segura em algum lugar.

Ciente de que o apartamento não tinha sido violado, ela sistematicamente verificou cada uma de suas fechaduras internas, contra a vastidão da rede Psy. Funcionando. Ninguém podia entrar em sua mente sem ela saber.

Só então ela se permitiu cair em uma pilha no tapete de gelo azul, a cor fria a fazia tremer.

— Computador. Aumentar a temperatura em cinco graus.

— Cumprindo ordem. — A voz era sem inflexão, mas aquilo era de se esperar. Não era nada mais que a resposta mecânica do computador poderoso que funcionava neste edifício. As casas que estaria construindo com Edward Cullen não teria tais sistemas informáticos.

Edward.

Sua respiração saiu em um suspiro quando ela permitiu que sua mente se enchesse com todas as emoções que ela teve de enterrar durante a reunião.

Medo.

Divertimento.

Fome.

Tesão.

Desejo.

Necessidade.

Soltando a fivela no final de sua trança, ela enfiou as mãos desfazendo o penteado, antes de puxar o casaco, jogando-o de lado. Seus seios doíam, lutando contra os bojos de seu sutiã. Ela não queria nada mais do que ficar nua, e se esfregar em algo quente, rígido e masculino.

Um gemido escapou de sua garganta, ela fechou os olhos e balançou para trás e para frente, tentando controlar as imagens batendo nela. Isso não deveria acontecer. Não importa o quão longe de controle ela tivesse ficado antes, nunca tinha sido tão ruim, tão sexual. O segundo em que admitiu isso, a avalanche parecia desacelerar, e encontrou força suficiente para empurrá-la para sair do aperto da fome.

Se levantando do chão, ela caminhou até a cozinha e se serviu de um copo de água. Quando engoliu, pegou seu reflexo no espelho ornamental que pendia ao lado de sua geladeira embutida. Tinha sido um presente de um conselheiro changeling em outro projeto, e que ela manteve, apesar da sobrancelha levantada de sua mãe. Sua desculpa foi que ela estava tentando entender a outra raça. Na verdade, ela só gostava do quadro descontroladamente colorido.

No entanto, agora desejava que não o tivesse mantido. Ele mostrava muito claramente o que ela não queria ver. O emaranhado escuro que era seu cabelo falava da paixão e do desejo animal, coisas que um Psy não deveria conhecer. Seu rosto estava vermelho como se estivesse com febre, as bochechas manchadas de rosa, e seus olhos... Senhor, tenha piedade, seus olhos se pareciam com a pura meia-noite.

Ela colocou o copo na bancada e puxou o cabelo para trás, procurando. Mas não tinha cometido um erro. Não havia luz na escuridão de suas pupílas. Isto deveria acontecer apenas quando um Psy estivesse gastando uma grande quantidade de energia psíquica.

Isso nunca havia acontecido com ela.

Os olhos dela poderiam tê-la marcado como uma cardeal, mas seus poderes acessíveis eram humilhantemente fracos. Tão fracos que ela ainda não tinha sido co-optada para as fileiras dos que trabalhavam diretamente para o Conselho.

Sua falta de qualquer poder real vidente, tinha mistificado os instrutores que a tinham treinado. Todos sempre disseram que havia um incrível potencial bruto dentro de sua mente, mais do que suficiente para uma cardeal, mas que nunca tinha manifestado.

Até agora.

Ela balançou a cabeça. Não. Ela não tinha nenhuma energia psíquica, então tinha que ser outra coisa que havia causado a escuridão, algo que outros Psy não sabiam porque não sentiam. Seus olhos flutuaram para o console de comunicação na parede ao lado da cozinha. Uma coisa estava clara, não poderia sair com aquela aparência. Qualquer um que a visse, a enviaria para o centro de reabilitação num piscar de olhos.

Medo apoderou-se dela bem apertado.

Enquanto estivesse do lado de fora, poderia descobrir um dia, uma maneira de escapar, uma maneira de cortar sua ligação com a rede Psy, sem jogar seu corpo em paralisia e morte. Ou ela poderia até descobrir uma maneira de corrigir a falha que a marcava. Mas, no segundo em que fosse internada no Centro, seu mundo se transformaria em trevas. Trevas silenciosas e sem fim.

Com cuidadosas mãos, ela tirou a tampa do console de comunicação e brincou com os circuitos. Só depois que substituiu a capa, foi que apertou o código de Renee. Sua mãe vivia na cobertura vários andares acima. A resposta veio segundos depois.

— Isabella, a tela está desligada.

— Eu não sabia. — Isabella mentiu. — Espere um pouco. — Pausa para o efeito, ela respirou com cuidado. — Eu acho que é um defeito. Vou ter que chamar um técnico para dar uma olhada.

— Por que você me ligou?

— Receio que vou ter que cancelar o jantar. Eu recebi alguns documentos de Edward Cullen que eu gostaria de começar a ler antes de me encontrar com ele novamente.

— Rápido para um changeling. Vejo você amanhã à tarde para compararmos notas. Boa noite.

— Boa noite, mãe. — Ela estava falando sozinha. Independentemente do fato de que Renee agia como uma mãe, tanto quanto o computador que controlava este apartamento, doía. Mas esta noite aquela dor estava enterrada sob emoções muito mais perigosas.

Ela mal começou a relaxar, quando o console indicou uma nova ligação. Uma vez que o identificador de chamadas havia sido desativado junto com a tela, ela não tinha nenhuma maneira de saber quem era.

— Isabella Swan, — disse ela, tentando não entrar em pânico que Renee tinha mudado de idéia.

— Olá, Isabella.

Seus joelhos quase dobraram ao som daquela voz suave como mel, mais um ronronar que um rosnado agora.

— Sr. Cullen.

— Edward. Nós somos colegas, afinal de contas.

— Por que você está ligando? — Dura praticidade era a única maneira que ela poderia lidar com sua montanha-russa de emoções.

— Eu não posso te ver, Isabella.

— É um mau funcionamento da tela.

— Não é muito eficiente. — Era divertimento que ela podia ouvir?

— Eu suponho que você não me ligou para bater papo.

— Eu queria convidá-la para um café da manhã de negócios com a equipe de design amanhã. — Seu tom era seda pura.

Isabella não sabia se Edward sempre soava como um convite ao pecado, ou se estava fazendo isso para desestabilizá-la. Aquele pensamento a deixava inquieta. Se ele mesmo suspeitava que havia algo não muito direito sobre ela, então ela poderia muito bem assinar sua sentença de morte. Internamento no Centro, era nada menos do que uma morte em vida de qualquer forma.

— A que horas? — Ela colocou os braços apertados em torno de suas costelas, e forçou sua voz para que soasse controlada. Os Psys eram muito, muito cuidadosos para que o mundo nunca visse os seus erros, suas falhas. Ninguém nunca tinha enfrentado com sucesso o Conselho depois de ter sido programado para a reabilitação.

— Sete e meia. Está bom para você?

Como ele poderia fazer o mais eficiente dos convites soar como pura tentação? Talvez fosse tudo em sua mente, ela estava finalmente se quebrando.

— Local?

— Meu escritório. Você sabe onde é?

— Claro. — DarkRiver montou seu Campo de negócios perto do caótico centro de Chinatown, ocupando um edifício de escritórios de médio porte. — Eu estarei lá.

— Eu estarei esperando.

Para seus sentidos aguçados, aquilo soava mais como uma ameaça do que uma promessa.