A HERANÇA DO CÁRCERE - OS FILHOS DO INQUISIDOR

EPÍLOGO

Assim como no epílogo de "A mulher do inquisidor", não sei direito o que escrever, porém vou tentar.

Posso dizer, seguramente, que tanto "A mulher do inquisidor" quanto "A herança do cárcere" foram as obras (escritas por mim) que mais marcaram a minha vida até hoje. Não sei ainda se um dia escreverei algo o qual seja de tamanha intensidade, porém agora é o que sinto acerca disso.

Como dito nas notas anteriores, "A mulher do inquisidor" para mim foi mais uma obra introspectiva, que narra como se sentem tanto os abusadores extremos como as pessoas que são dependentes emocionais. Já "A herança do cárcere" [e uma obra mais voltada para a ação: temos Blimunda e o drama de seu julgamento; temos o casamento forçado de Teodora; temos Timóteo tendo de aturar aos desmandos do pai mesmo que já seja homem adulto; e temos ainda, como pano de fundo, Violante ainda a sofrer os desmandos de Expedito mesmo após mais de vinte anos de convivência.

Ah, e também eu poderia ter colocado a Teodora a casar com um homem completamente abusivo, pois é o que acontece com quem é fruto dessas relações. Na verdade, com as relações hoje em dia não sendo mais intermediadas por membros das famílias, creio que de forma inconsciente as pessoas que sofreram relações disfuncionais nas famílias acabem por encontrar pessoas disfuncionais também para namorar ou mesmo viver junto. Como foi o caso da Violante com o Expedito, pois a deles, excepcionalmente, não havia sido intermediada e arranjada pelos pais de nenhum dos dois (ambos já eram órfãos na época em que se conheceram).

Já a Teodora teve o casamento arranjado e justamente por isso teria "escapado" de inconscientemente se unir a um homem ruim como o pai dela - embora, paradoxalmente, o pai tenha sido quem escolheu o noivo.

Assim como "A mulher do inquisidor", "A herança do cárcere" também tem momentos autobiográficos. Não exatamente de mim, porém ao passar muito tempo lendo e recebendo relatos de relação abusiva, percebi que muitas mães e pais com traços de abuso gostavam de ver os filhos namorando pessoas ruins, e até mesmo se uniam às "maldades" que os genros ou noras faziam; e sabotavam a relação quando ela começava a dar certo com uma pessoa boa.

A questão dos filhos também é real: muitos pais abusivos tentam obter inclusive a guarda de seus netos, dizendo que o filho, verdadeiro pai da criança, não é capaz de cuidar do mesmo. Já vi mais de um caso assim também. Agora imagine isso num tempo em que as leis eram completamente diferentes, a igreja ainda tinha um poder bem maior sobre o estado e os filhos costumavam morar junto com os pais mesmo após o casamento. A escravidão de Teodora estaria praticamente declarada.

Os personagens reais também são muitos: a realeza, o Marquês de Pombal, as freiras namoradeiras do convento de Odivelas, tudo isso existiu de fato. Assim como a inquisição sofreu sua derrocada mais ou menos nessa mesma época. "Amarrar" todos esses elementos deu trabalho, mas foi extremamente gratificante.

Sobre a parte espiritual: como dito em 'A mulher do inquisidor", sou reencarnacionista. Para mim não existe somente céu ou inferno, e sim locais onde as pessoas vão após morrer por afinidade. Afinidade de pensamentos, de energia, de como se sentem, etc. No caso da Violante e do Expedito, eles teriam ido a um local de "rezas" com "penitências", como eles estavam acostumados com esse ambiente enquanto vivos; mas a penitência desta vez teria se voltado contra eles próprios. Rs.

Também penso que: pensar muito numa pessoa, orar muito por ela, dedicar-se a ela por muito tempo, e mesmo fazer sexo com ela, criam ligações energéticas muito difíceis de romper. Por isso Violante teria se ligado muito mais a Expedito, que era mestre em escravizar pessoas, que em João Fernandes ou mesmo Amadeu. Se na novela ela já ficava daquele jeito pelo contratador, imagine após viver vinte e nove anos com o Morcego...

Ah sim, e ainda segundo as minhas crenças, eles não ficariam ali naquele local "para sempre", ficariam por anos, décadas talvez, porém um dia viriam a reencarnar - e caso não corrigissem seus comportamentos ou vibrações, voltariam a repetir tudo de novo e de novo nas próximas vidas. Terrível, né?

Teodora (a tia do Morcego) teria se ligado a Damásio porque a obsessão dela por ele foi bem mais longa, embora eles jamais tenham tido um relacionamento de fato - os noivados naquele tempo eram "pró forma" e muitas vezes somente envolviam visitas esporádicas, mas não havia convívio e muitas vezes nem beijos.

E uma coisa que percebi acerca das histórias - ambas - foi que muitas das situações, as quais eu não havia vivido - a violência física em meu caso não foi o forte e sim a psicológica - aconteceram de forma quase idêntica em algumas histórias que eu recebi. Em algumas era tão igual, que eu me surpreendia em ver como era semelhante e como eu havia escrito sobre aquilo sem sequer ter vivido daquela maneira ou mesmo ter sabido da história da pessoa antes. A gente acaba por acessar arquétipos e comportamentos muito semelhantes entre uns e outros abusadores. A melhor parte de fazer essas histórias foi justamente ter acesso à prova de que as pessoas, feliz ou infelizmente, são regidas por paradigmas - incluindo aí os abusadores e os dependentes emocionais. A parte boa disso é que dá para mudar esses padrões, porém é um trabalho árduo e longo, muitas vezes com quedas e recuos. A persistência em se curar é o mais importante num caso desses.

E para finalizar este epílogo: o tema de abuso em relações de casal é amplamente tratado e divulgado hoje em dia, porém o tema de abuso entre pais e filhos, como foi o tema central desta segunda parte, ainda não é tão bem divulgado e nem lidado. As pessoas não gostam de pensar em pais abusivos, a nossa sociedade praticamente sacraliza a maternidade e a paternidade, e ainda se crê que um filho deve toda a devoção aos pais, mesmo que eles sejam tóxicos.

Ainda se crê e apregoa que os pais sempre querem o bem dos filhos, não importa o que façam. Este paradigma também está a ser cada vez mais questionado nos últimos anos, pois se existem pais bons e dignos de respeito e amor, também existem aqueles que fazem mal pros filhos. E muitas vezes, infelizmente, a única forma de se obter paz num caso desses é se afastar dos pais quando já se é adulto. Por causa de muitos mecanismos, infelizmente fica difícil se tornar independente de pais tóxicos mesmo na fase adulta - vide o sofrimento que Teodora passou para enfim sair da casa dos pais. Por mais que hoje as convenções não sejam tão fortes, ainda há essa dificuldade muito presente.

Gostaria de agradecer a todos aqueles que leram esta fic até o final. Pretendo transformá-la em livro e publicar na amazon, alguém compraria? Rsrsrsrs. Mas aí terei de revisá-lo todo e trocar os nomes e as situações.

Abraços a todos que acompanharam e até alguma outra história a qual eu possa vir a escrever! Caso queiram indicar as suas histórias também, podem indicar! Lerei na medida do possível.