Capítulo 4 – Amigo Confuso.

AMIGOS, AMIGOS, AMORES A PARTE

O sinal do término das aulas havia tocado. Ajuntei as minhas coisas na mochila e saí da sala, dando de cara com Patch. Ele estava de braços cruzados, com as costas encostadas na parede e fitando o chão.

Ele sempre me esperava para irmos para casa juntos, pois eu precisava de sua carona. Mas ao invés de me esperar no carro - como todos dos dias ele fazia -, ele resolveu em esperar ao lado da minha sala. Acho que é devido por eu estar brigada com ele.

Revirei os olhos e continuei caminhando, pude perceber que ele havia me notado. Patch não disse nada, apenas me seguiu em direção à saída do prédio até o estacionamento, onde estava o seu Jeep Commander. Escutei o som do bip e as portas destravaram. Abri a porta e sentei no banco do passageiro, logo Patch sentou-se ao meu lado, jogando sua mochila no banco de trás.

Não demorou para que eu fosse alvo de seus olhos negros.

— Vai ficar sem falar comigo até quando? - sua voz soou pelo carro, quebrando aquele silêncio tenso que havia entre a gente.

Não respondi.

Ainda estava irritada com a canalhice dele. Sei que não era da minha conta o que ele faz ou deixa de fazer, mas alguma coisa dentro de mim se remexia incomodada. E aquilo era irritante.

Ele suspirou.

— Sobre hoje mais cedo...

— Não quero saber disso. - o interrompi, e fitei-o rapidamente. - A vida é sua, e você faz dela o que bem entender.

— Então por que você está irritada desse jeito? - senti uma leve irritação em sua voz.

— Eu estou com dor de cabeça, e tudo que eu quero é chegar logo em casa, pode ser? - minha voz alterou-se mais do que devia. Realmente estava com um pouquinho de dor de cabeça e isso era consequência de minha irritação.

Patch não disse mais nada, mas escutei um resmungado antes de ligar o carro como; estar de TPM. Apenas ignorei e virei meu rosto para o lado da janela.

Não demorou para que o carro tomasse a avenida, e pouco tempo depois entrar em nossa rua e parar em frente à minha casa. Tirei o cinto, abri a porta e saí sem dizer nada. Patch também não fez questão de puxar assunto e arrancou o carro para sua casa.

Parei em frente à porta da minha casa e comecei a revirar os bolsos da minha mochila a procura das minhas chaves, e logo as encontrei, enfiei na fechadura. Estranhei quando percebi que a porta estava destrancada. Levei minhas mãos até a maçaneta e a abri.

Assim quando pus os pés dentro de casa escutei um barulho que vinha da cozinha. Franzi o cenho, jogando a mochila no sofá da sala e caminhei até o local, e para o meu alívio e surpresa, encontrei minha mãe tirando coisas de dentro da geladeira.

— Mãe?

Ela ergueu seu corpo para cima e me fitou, para logo depois um sorriso surgir em seus lábios.

— Oi querida.

Sorri e fui até ela e abracei. Eu sentia falta dela quando estava ausente.

— Não sabia que chegaria tão cedo. - falei quando nos separamos.

— Houve alguns imprevistos e adiantamos algumas coisas, e consegui uns dias a mais para ficar em casa.

Sorri mais.

— Isso é muito bom.

Peguei a jarra de água que estava encima da mesa e derramei o líquido no copo.

— Como vai à aula. - ela quis saber, levando alguns legumes até a pia para lavá-los.

— Foi bem, a mesma coisa de sempre. - respondi depois que tomei um bom gole de água, escorando meu quadril na mesa. - Apresentei um trabalho hoje e deu tudo certo.

— Que bom, minha filha. - ela respondeu sem me olhar.

— Quer uma ajuda?

Ela virou sua cabeça um pouco para trás e sorriu.

— Não, está tudo sob controle.

— Chegou que horas?

— Umas dez da manhã.

— Deu tudo certo no leilão?

— Sim, graças a Deus. - ela olhou para mim por um segundo. - Faturamos mais do que o esperado.

— Que bom. - sorri comprimido. - Então, já que não quer minha ajuda eu vou subir e tomar um banho.

— Vá sim, daqui a pouco o almoço está pronto.

Apenas assenti e saí da cozinha. Peguei minha mochila que estava na sala e subi para o meu quarto.

À tarde até que passou rápido depois que tomei o banho e almocei. Fiquei um tempo com minha mãe na sala escutando ela dizendo sobre o trabalho e me ouvido relatar como tinha sido a minha semana. Fiz meus deveres de casa e falei com Vee pelo telefone. Ela estava irritada, pois um garoto bateu na traseira no Neon dela quando ela estava indo para casa.

Quando era por voltas das oito da noite resolvi arrumar meu guarda-roupas que estava uma bagunça. Eu podia escutar as risadas da minha mãe no telefone enquanto passava pelo corredor, completamente falando com suas amigas.

Tirei todas as minhas roupas e as joguei em cima da cama e logo comecei a arrumar àquela bagunça. Encabidei minhas roupas novas em ordem de cor, eu tinha esse tipo de mania. Separei algumas roupas que eu não queria para doação, e dobrei outras para colocar dentro da gaveta.

Eu estava tão entretida no que eu estava fazendo que não percebi o movimento lá fora, e a única coisa que lembro foi o barulho na minha janela, me fazendo dar um pulo de susto. Levei minha mão no coração que batia forte quando virei meu corpo todo para trás, podendo ver Patch entrando pela minha janela.

Arregalei meus olhos e minha boca se entreabriu enquanto via ergui seu corpo, já no meu quarto e depois me fitar.

— Patch? - minha voz havia saído surpresa, mas logo a minha expressão se fechou, franzi o cenho. – Cara, qual é o seu problema? Por que você não usa a porta? Quer me matar do coração aparecendo desse jeito?

— Percebi que a sua mãe está em casa, e está um pouco tarde, não quis incomodá-la. - ele disse com um tom totalmente despreocupado e aquele maldito sorriso malicioso nos lábios começou a me irritar. - Aliás, eu gosto de renovar minhas entradas.

Apenas revirei meus olhos, e o folgado se jogou na minha cama. Aquilo era comum entre a gente, também fazia a mesma coisa quando entrava no seu quarto, claro que eu não pulava a janela como ele fazia.

Dei as costas para ele e continuei a arrumar o guarda-roupas.

— Ainda está zangada? - ele quis saber.

— Não. - respondi sem o olhar, arrumando as roupas na gaveta. - Sua mãe já chegou do encontro?

— Chegou hoje à tarde e trouxe o cara à tira colo. - escutei ele bufar baixinho. - Saí de lá antes que eu veja coisa que eu não queria.

Olhei para ele e sorri ironicamente.

— Está com ciúmes?

— Fala sério. - ele revirou os olhos. - Só acho o cara um babaca.

— Então me fale qual namorado da sua mãe que você não ache um babaca?

Ele colocou as duas mãos atrás de sua cabeça e fitou o teto.

— Eu só não quero que ela saia machucada no final. - ele murmurou, mas consegui escutar.

Virei todo o meu corpo em direção a ele e não pude deixar de sorrir. Mesmo que Patch não demonstre muito ou finja não está nem aí pelos namorados da senhora Cipriano, ele só estava sendo o que todo filho é com uma mãe solteira, protetor.

— Mas você vai estar com ela a consolando se isso acontecer. Eu sei que você vai.

Seus olhos desviaram para mim, negros e intensos, e por um segundo me senti diferente. Mas antes que eu desviasse o olhar, Patch desviou o seu primeiro, ficando sentado na minha cama e trazendo em suas mãos a minha calcinha.

Aquele momento parecia ter ficado em câmera lenta, quando ele fitou o que tinha em suas mãos, pegando a outra ponta, fazendo com que a calcinha ficasse esticada, mostrando a estampa do logo do Super-Homem no meio.

— Isso aqui que é sexy. - a voz debochada de Patch entrou pelos meus ouvidos

Antes que o ataque cerebral me atingisse, eu corri e arranquei minha calcinha de suas mãos.

— Me dê isso!

Senti meu rosto quente de vergonha, enquanto dava as costas para ele e marchava até a minha cômoda, jogando a maldita calcinha lá dentro. Eu pude escutar a gargalhada nojenta de dele, me fazendo ficar mais irritada.

— Idiota. - ralhei, tentando ignorar aquele ser que havia se jogado mais uma vez de costas na minha cama enquanto ria.

Peguei o meu tênis que estava no chão e não pensei duas vezes e joguei nele. Patch segurou antes que acertasse seu rosto.

— Uou. - ele sentou na cama, jogando o tênis no chão. - Você está muito agressiva, Nora.

— Patch, vai embora!

Ele se pôs de pé e veio até mim, parando a minha frente.

— Você está me expulsando? - ele disse com aquele tom seduzente, passando o polegar no meu queixo.

— Tô. - dei um tapa em sua mão e me afastei, mas Patch segurou meu pulso e me puxou contra o seu corpo.

Meu inconsciente entrou em alerta.

— Patch eu não gosto desse tipo de brincadeira. - minha voz saiu rápida enquanto pousava minha mão em seu peito e o empurrava para trás, sem sucesso.

Ele aproximou seu rosto do meu.

Perto demais.

— Tem medo de mim, Nora? - seu tom era baixo, porém firme, seus olhos negros fitavam os meus.

— Eu não tenho medo de você. - consegui fazer com que minha voz saísse firme. - Eu só não quero que me confunda com uma de suas vadias.

Seu cenho franziu.

— Eu nunca pensei que você fosse uma.

— Então por que você toma esse tipo de atitude de me agarrar como se eu fosse uma? Eu não gosto desse tipo de brincadeira.

— Nem tudo é brincadeira. - ele declarou com a voz firme e séria.

Senti minha garganta secar, e prendi a respiração por um segundo.

— E então o que é? - sussurrei.

Eu estava me sentindo estranha, era difícil tentar ignorar aquela sensação diferente quando ele ficava próximo. Patch fazia com que meu controle psicológico se esvaísse como um vento, e eu detestava perder o controle.

Seus olhos ficaram mais negros, podia sentir sua mão direita segurando firme o meu quadril, me impedindo de escapar. Meu coração estava descontrolado e o cheiro de menta com o toque amadeirado contribuía para que minha mente desse sinal de falha.

Eu não entendia Patch, realmente não o entendia.

Senti o aperto de sua mão de meu quadril se afrouxar, assim como no meu pulso. Ele se afastou de mim, dando as costas e se aproximando da janela.

— Deixa para lá. - ele murmurou. - Nos vemos amanhã.

Sem nem ao menos me olhar, ele colocou o pé na janela e pulou para baixo, me deixando com uma cara de taxo e curiosa para saber sua resposta.