Capítulo 9

"Ó! Divino Gilgamesh, que todo o viu
Eu te farei conhecer em todas as terras.
Eu ensinarei sobre (aquele) que experimentou todas as coisas.

Dois terços dele são divinos, um terço é humano.
A grande deusa Aruru fez o modelo do seu corpo,
ela preparou sua forma."

Trecho da "Epopéia de Gilgamesh"

- Inanna!

A voz incansável de Dumuzi reverberava a chamar a consorte, e mesmo assim ela não vinha. Será que a tinha perdido? Onde estava?

- Inanna!

Já estava há dias assim, quando enfim um dos servidores que o acompanhava declarou que encontrara a Inanna ferida encostada em uma árvore num bosque não muito longe dali.

Dumuzi se apressou e foi até onde o servidor lhe propunha. E de fato lá estava ela, fatigada e ferida, mal lembrando a bela rainha das estrelas, a qual ganhara grande poder dentre os deuses nos últimos tempos.

- Inanna, o que aconteceu?

- Sarpanit... e Marduk.

- O que fizeram com você?

- Sarpanit... foi dotada de poder sobre-humano. Ela se tornou tão grande quanto nós, e tão digna da glória dos deuses quanto nós.

Tendo dito isso, ela perdeu os sentidos. Inconformado, Dumuzi a levou nosbraços para a fortaleza que lhe pertencia, seguido por diversos servidores. Lá, ela fora tratada e suas feridas mitigadas. Mas pela primeira vez, Dumuzi sentia que Inanna poderia ser tirada de si, uma vez que nunca a vira ferida daquele modo. Ele fora preso e agredido no passado, mas ela não. Ela ficara para cuidar de suas coisas e seus servos. Agora via como era mau ser assim visado.

Deitou-a na cama e instou para que ela descansasse; mas ela, ainda em voz fraca, o chamou.

- Fique comigo, por favor. Não quero dormir sozinha.

Compadecido, ele se deitou ao lado dela e Inanna, por sua vez, encostou a cabeça em seu peito, e ali ficou, como se a presença dele a consolasse mais que tudo.

Após algum tempo, ao saber do que o casal fizera com o cinto, Inanna perguntou porque ele não o reavera. Dumuzi simplesmente respondeu:

- Em face de ter você ferida ou capturada pelos demais dingir, que importância um cinto tinha? Não mais lembrei dele até encontrá-la e vê-la a convalescer.

Inanna sorriu, e assim viu que seu amor era plenamente correspondido.

-x-

Após o casamento bem sucedido de Marduk e Sarpanit, outros dingirquiseram seguir a seu exemplo. Casaram-se com humanas, e até mesmo algumas dingir mulheres quiseram contrair matrimônio com homens. No entanto, aquilo não seria fácil, pois se Enki colocara aquele critério de aceitar o casamento somente se Sarpanit se mostrasse merecedora e, assim, dar-lhe a imortalidade, com os demais casais híbridos a situação seria mais complicada. A imortalidade não poderia ser distribuída a todos os humanos que viessem a se casar com dingir; portanto, seus filhos nasceriam híbridos e mortais.

Com o tempo e as gerações de homens passando, todos esqueceram que Sarpanit e Ziusudra haviam ganho a imortalidade dos deuses; portanto, todosdas gerações posteriores pensavam que eles eram deuses desde o início. Apenas os dingir e alguns poucos versados nas tradições se lembravam da verdadeira origem deles, bem como da já extensa prole de Marduk.

Um dos filhos de união híbrida fora um rei chamado Gilgamesh, o qual ficaria muito famoso nos anos vindouros por conta de sua sede de independência e poder. Isso lembrou a Dumuzi de seu começo, e tanto ele quanto Inanna simpatizaram com ele. Mas os demais dingir temiam que ele sozinho conseguisse descobrir os segredos da imortalidade. Portanto convocaram a Aruru, uma das dingir, para fazer a um inimigo à altura contra esse rei. A deusa recebeu instruções de Enki e Damkina, fazendo assim a um novo ser humano à completa imagem de Anu, o deus do céu. Seu nome era Enkidu.

Enkidu era forte, belo e gostava de se ocupar dos trabalhos da terra. Além de pastorear, construía, arava e fazia todo o tipo de trabalho útil. Mas quando enfim chegou seu tempo de ir se encontrar com Gilgamesh a fim de batalhar, Inanna o chamou em um de seus templos e o apresentou a uma de suas lindas sacerdotisas. Em seguida disse a ele:

- Enkidu, você conhece o vigor dos homens, a sabedoria dos deuses, a força da juventude. Poderia você conhecer também o poder do amor?

Ele, ainda não sabendo do que se tratava aquilo, viu então a sacerdotisa, a qual despiu o véu do rosto e se revelou a ele, seminua. Cresceu, então, a ereção de Enkidu, como se pela primeira vez reparasse que há mulher no mundo.

- Ela é sua. Aproveite-a bem, ame e regozije-se no poder que os deuses deram a si.

Assim sendo, Inanna sorriu e os deixou a sós em seu templo. Lá, Enkidu provou dos lábios de mel da moça, e da maciez de seus seios, e do calor de sua vulva. Lá, eles fizeram amor por dias a fio.

Enquanto isso, Aruru e os demais dingir ficaram perplexos, pois Enkidu já devia estar guerreando com Gilgamesh. Quando souberam do embuste de Inanna, se enraiveceram.

- Alguém tem de avisar a Enkidu que não deve ficar se entretendo com as mulheres dos templos de Inanna e deve, sim, cumprir com seu dever! - exclamou Aruru, a qual o criara.

Mas Damkina, a sábia esposa de Enki, replicou dizendo:

- Aruru, sabemos como o amor tem seu efeito nos homens. Inanna também sabe, ela que enfeitiçou a Dumuzi, o fez tirar o luto e fazer dela sua esposa. Deu ela a Enkidu uma de suas mais lindas mulheres, e portanto ele não vai largar dela tão cedo. Eles só sairão de lá juntos.

Foi assim que se criou a ideia de, clandestinamente, invadir o templo de Inanna e subornar a sacerdotisa com incenso, perfume, joias e belas roupas, a fim de que ela o levasse até Gilgamesh. A mulher, a qual nada sabia sobre a intenção de Inanna de não fazer com que Enkidu se encontrasse com o rei, concordou. Assim ela rumou, junto de Enkidu, para o reino no qual ambosfatalmente se encontrariam.

Ao ultrapassar as muralhas de Uruk, a cidade na qual Gilgamesh reinava, clamou ele pelo rei, dizendo:

- Que Gilgamesh possa me vencer, caso seja capaz!

Três vezes clamou assim, e três vezes o rei o ignorou. Até que seus própriosconcidadãos disseram que, caso continuasse a ignorar o chamado dele, seria malfalado em sua própria cidade e tido como covarde. O rei então aprontou suas armas e foi.

No centro da cidade, diante de uma enorme multidão vinda de todos os lados, ambos se bateram. Gilgamesh era forte, filho de deuses que era; Enkidu também, feito à semelhança de Anu. Mas quando a batalha se tornava ainda mais acirrada, chegou Inanna, a qual assim que soube do suborno da sua sacerdotisa, a repreendeu de maneira severa, a enviou de volta aos templos e resolveu cuidar do caso por si mesma. Escondeu seu esplendor de deusa e rainha das estrelas num manto que trazia consigo e utilizou mais uma vez do amor para conquistar a Enkidu. Mas dessa vez não seria amor lúbrico.

Sem que ninguém mais percebesse, ela lançou um feitiço nos olhos do rei e de Enkidu. Na mesma hora, ambos pararam de se ver como inimigos, e passaram a sentir simpatia um pelo outro como se irmãos fossem. Portanto, suspenderam a luta e travaram amizade ali mesmo, no meio da contenda.

Todos os habitantes da cidade viram e mal acreditaram, porém aceitaram, pois nada parecia poder demover a Gilgamesh da recém-adquirida amizade com Enkidu.

Após a concórdia, ambos os amigos saíram a caçar monstros fora das muralhas da cidade, alguns deles causados anteriormente por pensamentos de ódio e terror vindos dos próprios dingir. Derrotaram a um gigante selvagem a quem denominavam de Humbaba, e ao voltarem para casa após essa vitória foram muito louvados dentre os seus.

Inanna assistia tudo aquilo com satisfação, uma vez que ela conseguira, duas vezes, através da concórdia e do amor, unir o que os demais dingir queriam separar. Mas esses mesmos dingir não ficaram em silêncio nem em ociosidade. Anu convocou aos demais e disse a eles que, caso tudo continuasse daquela forma, Enkidu, o homem criado por Aruru com poderes extraordinários, junto de Gilgamesh conseguiria a supremacia sobre os deuses e faria com que oshomens assim conseguissem um poder que não era próprio deles mesmos.

- Lembremos também - continuou o deus do céu - que Gilgamesh era um tirano e pode voltar a ficar assim. Portanto, não é bom que ele tenha poder em demasia.

Todos os dingir assentiram. Anu enviou, portanto, a um ser de proporções terríveis, o qual chamou de Touro do Céu, para derrotar a ambos os amigos. Pois apenas uma força equivalente à de Enkidu poderia derrotar a ele próprio.

Um dia ambos os amigos estavam a cuidar de seus afazeres, risonhos e contentes, quando o tal monstro os surpreendeu sem que pudessem se defender propriamente. Enkidu, em nome da grande amizade que tinha por Gilgamesh, colocou-se no lugar dele e lutou com o grande touro. Após muito esforço, ele o venceu porém expirou logo em seguida.

Consternado, Gilgamesh o chamou diversas vezes mas ele nunca mais o responderia. Em luto, jogou cinzas sobre os cabelos e sobre as barbas e cobriu o corpo de betume. Por dias a fio lamentou àquele que foi a si como a um irmão, mas logo em seguida se sentiu mal por saber que, sendo filho de humanos, também morreria.

- Eu também morrerei. Também terei de expirar!

Falou isso de si para si, com revolta, com dor, pois ele também se recordava de sua origem divina e portanto sentia-se no direito de ser imortal. Passou então a peregrinar atrás da imortalidade, e por muito tempo sua busca foi infrutífera.

Foi nesse tempo que Dumuzi, já se considerando livre das ameaças dosdemais deuses, sem esperar sofreu um ataque vindo das hostes de Ereshkigal. A deusa vinha, terrível em sua face mais sinistra, trazer ao deus para o submundo. E foi com olhar feroz que o atacou, e o desfez de seu corpo, e prendeu a sua alma com encantamentos especiais. Ele, enfraquecido por espalhar seu poder pelas propriedades e terras, não pôde reagir e sucumbiu. Foi levado ao submundo e lá aprisionado, dessa vez sem chance de escapar. Fora dessa forma que Ereshkigal vingara, ainda que tardiamente, a humilhação sofrida em seu casamento.

Nergal também o recebeu com júbilo, não o vendo com bons olhos após o que fizera a Marduk. Já não confiavam mais nele e pretendiam deixar a seu espírito preso no submundo por tempo indeterminado.

E foi assim que, voltando de uma viagem com suas servas e sacerdotisas, Inanna adentrou as principais propriedades suas e do marido e viu o corpo inerte e morto de Dumuzi no salão principal. E por ele chorou dias e dias sem conta, também colocando cinzas no cabelo, também untando o corpo com betume, também amaldiçoando a morte; morte esta que não fora talhada para os deuses.

Por muito tempo as donzelas e sacerdotisas, moças e senhoras, choraram a morte de Dumuzi junto com Inanna.

Foi assim que, ao mesmo tempo que Gilgamesh, Inanna conhecera a dor do luto e da inexorabilidade da morte.

Continua no segundo livro