Cap 01 – Espada e Planeta.

No sistema solar de Ayreon existem doze planetas, sendo que aqueles mais quentes ficam mais próximos do sol. O mundo de Agbaye era o terceiro mais próximo e por isso tinha verões rigorosos e duradouros. Agbaye era uma imensa floresta, uma savana, com grandes planícies e árvores esparsas. Composto por sociedades tribais, aquele planeta era dividido entre quatro povos principais. Sendo que só um deles alcançou a industrialização e por isso dominou os outros. Sardo, um garoto de quatorze anos, vivia na tribo mais atrasada de Agbaye, a Mawe. Eles nem dominaram a fundação do ferro e a sua maior fonte de riqueza eram as peças tecnológicas adquiridas através de escambo com os povos extraplanetários.

Em uma tarde qualquer, Sardo se afastou de sua tribo para assistir aos barcos britânicos se afastarem da superfície e ganharem o céu. Sardo se perguntava como transportes feitos de madeira conseguiam sair da atmosfera e vencer os rigores do espaço. - Desista, Sardo. Você nunca vai sair desse planeta. - Shishi tinha a mesma idade de Sardo. Ela tinha uma beleza única aos olhos daquele jovem, porém, ele sabia que sua família nunca permitiria que se casassem. Shishi era filha de mãe mawe e pai britânico, uma mestiça. Por isso, ela era rejeitada pela maioria das pessoas de sua tribo. Sua pele clara era um lembrete de que ela não era uma "Mawe de sangue puro".

- A gente podia se livrar das regras da tribo e fugir juntos em uma dessas embarcações. - Disse Sardo.

- Isso nunca vai acontecer. - Disse Shishi olhando para o chão. - Por que não escolhe como noiva Eldalie? Ela só falta te comer com os olhos.

- Não faz o meu tipo.

- E qual "tipo" seria o seu? Garotas pálidas que mal aguentam o calor do sol?

Sardo continuaria contemplando os barcos voadores, mas uma fumaça vinda ao longe chamou a sua atenção. A fumaça vinha na direção de sua tribo e isso o deixou preocupado. Sorrateiramente, ele e Shishi foram investigar o que estava acontecendo. Do alto da copa de uma das árvores da região eles viram o seu povo sendo atacado por uma tribo beligerante. Muitos mawe morreram tentando proteger o seu povo, os que sobreviveram provavelmente desejariam o mesmo destino. - São os Escravagistas. - Disse Sardo. - Bem que meu avô previu que isso um dia aconteceria. Mas ninguém escuta o que ele diz.

- Sardo, agora não. - A voz de Shishi estava engasgada, ela lutava contra o reflexo de chorar. - Temos que salvar o nosso povo.

- Mas somos só dois caçadores ruins contra um batalhão Escravagista. - O povo que dominava Agbaye tinha vários nomes, Escravagista era um deles. Sardo tinha razão de temê-los, pois eram guerreiros implacáveis. Montados em suas hienas gigantes, eles guerreavam com seus rifles lasers e suas armaduras tecnológicas que protegiam os seus corpos quase que por inteiro. - Já sei. Vamos pedir ajuda aos britânicos. Nós negociamos com eles por anos. Aquela gente nos deve.

A recepção recebida por Sardo e Shishi não foi tão calorosa quanto eles imaginaram. Quando os britânicos procuravam por pedras preciosas eles eram educados e gentis com os povos nativos. Mas, quando não precisavam deles, exibiam arrogância e desprezo. O casal guerreiro perdeu uma tarde inteira de caminhada para alcançar o porto do planeta. Era de lá que os barcos voadores decolavam e atracavam. - Você tem certeza que pedir ajuda a alienígenas é uma boa ideia? - Perguntou Shishi.

- É a única ideia que tenho. Se tiver melhor...- A dupla procurava por alguém que pudesse ajudá-los, alguém com porte de guerreiro, porém, seus olhos só encontraram bêbados e trabalhadores de má vontade. Sem saber do risco que corriam ali, Sardo e Shishi foram encurralados por um grupo de homens fortes e mal encarados.

- O que uma britânica está fazendo travestida de local? - Perguntou um homem com uma pança enorme.

- Não queremos confusão. - Disse Sardo. - Só queremos pedir ajuda.

- É mesmo? - Perguntou um outro. O grupo de valentões estava preparado para atacar o casal quando uma força invisível os derrubou. - É o maldito bruxo!

O homem com poderes estava vestido todo de branco e tinha uma espada prateada na bainha do cinto, o que revelava que era um guerreiro. A pele do estrangeiro era escura como as dos nativos, porém, havia alguma coisa nele que denunciava que ele era de outro planeta. - O que uma mestiça e um guerreiro inexperiente procuram por aqui? Não parecem serem negociantes.

- Nosso povo foi atacado há pouco. - Disse Shishi. - Procuramos guerreiros hábeis para nos ajudar.

O bruxo guerreiro deu uma risada tão exagerada que dava a impressão que ele a estava forçando. - Aqui não há guerreiros, só mercadores e comerciantes.

- Mas o senhor tem uma espada. - Argumentou Sardo.

- Sim, me chamo Betserai, um segurança a serviço da corte britânica. Minha missão é proteger os carregamentos, não tenho interesse em me intrometer nas brigas locais. - Sardo tentou convencer Betserai mais algumas vezes, a última com suborno, mas não obteve sucesso. Mesmo sabendo que a missão era impossível, ele e Shishi decidiram invadir a fortaleza Escravagista e libertar os Mawe mesmo sem ajuda de ninguém. Antes de irem até o inimigo, o casal voltou ao território de seu povo e, dos destroços das casas, pegaram tantas armas quanto encontraram. Lanças de pedra lascada, flechas etéreas, espadas prateadas e pistolas lasers.

O casal esperou o anoitecer, pois acreditavam que o sol revelaria a posição deles. O território inimigo era vasto, tão grande quanto uma metrópole das nações exteriores. Sardo respirou fundo e passou a agir como se os seus atos fizessem diferença na libertação dos Mawe. Entrar não era difícil, havia apenas dois guerreiros fazendo a segurança e eles não pareciam ser grande coisa. Shishi os distraiu apelando para a sua sensualidade. Assim que os guardas ficaram babando por ela, Sardo os surpreendeu atirando com uma pistola laser nas partes desguarnecidas de suas armaduras.

Esgueirando pelas sombras, o casal procurou pelo seu povo. - Eles devem estar sendo mantidos cativos em algum lugar. - Sardo se lembrou das histórias que seu avô lhe contava sobre como eram tratados os escravos nos doze reinos e tremeu. O medo de ser capturado de Sardo aumentou quando ele sentiu o calor de um disparo laser que passou muito perto de seu rosto.

- Parados aí! - Gritou o Escravagista montado em uma hiena. O guerreiro a medida que ia se aproximando, disparava com sua arma na direção do casal. De modo instintivo, Sardo sacou a espada de sua bainha e começou a rebater os tiros. Um dos disparos recocheteados atingiu o Escravagista em um ponto vital fazendo com que ele caísse morto de sua montaria.

- Como você fez isso?! - Perguntou Shishi.

- Fiz o quê? - Respondeu Sardo, com outra pergunta.

- Nunca vi ninguém ser tão rápido. - A conversa do casal foi interrompida quando um grupo de Escravagistas saíram das sombras. Eram pelo menos vinte deles, o que tornava a opção de enfrentá-los inviável. Mesmo assim, Sardo fez a finta segurando a espada. Ele planejava morrer tentando. Mas o seu sacrifício não seria necessário. Um guerreiro muito mais habilidoso se revelou, também saído da escuridão. Com sua espada prateada, o guerreiro vestido de branco acertou os seus inimigos com uma velocidade impressionante. Mais rápido do que achava ser possível, Sardo viu um homem solitário derrotar um bando. O guerreiro salvador era Betserai. - O que está fazendo aqui? - Perguntou Shishi, logo antes de ser cutucada no ombro pelo seu par.

- Assim que vocês apareceram no porto eu senti o poder mágico desse garoto. Quando o vi rebatendo tiros com uma espada tive certeza.- Betserai falava apontando para Sardo. - A república precisa de cada mago disponível.

- Eu só saio daqui depois de libertar minha gente! - Declarou Sardo, em um tom imperativo.

- E você planeja fazer isso como?! - Respondeu Betserai. - Acha que eu posso sair por aí destruindo impérios só por brandir uma espada prateada?! - Sardo abaixou a cabeça, no fundo ele sabia que o mago tinha razão.

- Então, o que devo fazer?

- O melhor a ser feito é ir até o planeta Britânia e pedir ajuda da coroa. Se voltarmos com um pequeno exército, talvez possamos subjugar os Escravagistas. Enquanto isso você será meu discípulo.

- Tudo bem, mas eu não saio do planeta sem ela. - Horas depois, o trio havia abandonado Agbaye em uma das embarcações voadoras do porto do planeta. Pela primeira vez Sardo ficou tão próximo das estrelas. Porém, a experiência não lhe pareceu tão boa quanto ele imaginou que seria. Shishi estava ao seu lado e, para lhe passar confiança, segurou em sua mão por quase toda viagem.

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O planeta Britânia é o nono planeta do sistema solar Ayreon. Apesar de ser considerado pequeno se comparado aos seus vizinhos, ele foi escolhido para ser a capital dos Doze Mundos. Britânia faz comércio com quase todos os outros planetas-nações, com exceção de Umbra. Seu céu é cinza, como se o planeta não saísse do estado nublado. Chuvas são uma constante. Britânia tem poucas áreas naturais, pois, os seus metros quadrados foram tomados pela metrópole.

- Nós devemos estudar a magia em todos os seus aspectos, não só nesse ponto de vista fechado proposto pela ordem. - A maioria dos magos dos Doze Mundos são levados para estudar na acadêmia Aether. Sendo que o maior foco dessa escola de magia e feitiçaria era para o uso militar.

- Skurk, magia negra é instável e difícil de controlar. Esse assunto está acabado. - Após seu discurso falhar em convencer os anciões a enveredarem pela magia negra, Skurk decidiu por fazer isso por conta própria. Julgando que a acadêmia Aether não tinha mais nada a lhe ensinar, o mago pagou por um transporte só de ida para o mundo de Umbra.

Umbra era o planeta mais próximo do sol, o que fazia seu clima ser quente ao ponto de ser quase insuportável. Porém, não era aquela peculiaridade que o tornava mais famoso. Umbra por muito tempo foi usado como planeta prisão, era onde os criminosos mais notórios dos Doze Mundos eram despejados para viverem ali até morrer. Além de estar cheio de fantasmas, o planeta era perigoso por causa das kiumbas.

Seres de diversas formas e tamanhos, perigosos por causa de suas presas e dentes, as kiumbas eram o resultado de animais que tiveram sua essência modificada por magia negra. Um grupo delas foi atraído pelo barco atracando e atacaram Skurk com ferocidade. Os marinheiros, por medo, deixaram o mago para trás e fugiram dali.

Tirando sua espada prateada da bainha (uma arma que um mago deve sempre carregar), Skurk desviou dos primeiros ataques e aproveitou os momentos em que os monstros abriam a guarda para desferir golpes mortais. Depois que terminou com as kiumbas, Skurk se guiou pelo mapa que roubou da acadêmia para encontrar um castelo. O castelo era torto, com suas torres envergadas para dentro. Pelo que Skurk estudou aquela era uma nave dos povos antigos, anteriores a formação dos Doze Mundos. Os livros se referiam a ele pelo nome de Castelo Elétrico.

O castelo pelo lado de dentro era só escombros. De interessante havia um caixão de pedra no salão principal. - Não sinto medo em você. - Disse uma voz gutural vinda de onde devia estar um morto.

- Pratiquei magia negra por anos. - Disse Skurk, nem um pouco abalado. - Vai precisar mais do que um fantasma para me assustar.

- Se você estudou magia negra então deve saber que eu sou mais do que um fantasma comum.

- Você é lorde Bauglin, o necromante que conseguiu dominar os Doze Mundos. Li muito sobre você.

- Se sabe de tanta coisa, o que veio fazer aqui?

- Quero que você me ensine o caminho da escuridão. Quero aprender a ser um mago tão poderoso quanto você já foi. Quero dominar as estrelas.