Capítulo 1 – Um Imaginário Novo Mundo.

Mesmo sabendo que ela não reagiria, Marcos se ajoelhou no chão da sala e abraçou sua esposa. A resposta de Helena ao seu gesto de amor desesperado foi um olhar frio e vazio. Após ele se acostumar com o pavor inicial, Marcos vasculhou a sua casa com o olhar em busca do assassino de sua amada. Sem se preocupar em se esconder, uma figura sinistra sorriu de modo debochado, fazendo pouco-caso do sofrimento do policial. Os olhos do monstro brilhavam no escuro e, pra piorar, ele possuía grandes presas e garras. Aquele ser não era humano, mais parecia um demônio. Marcos sacou o revólver de seu coldre e disparou vezes o suficiente para esgotar sua munição. O policial ainda tentou perseguir a fera. Porém, ela desapareceu na escuridão depois que pulou da janela mais próxima, que era do quinto andar.

- Senhor Mignola? Marcos Mignola? - Chamou o juiz. - Está ciente da acusação que recai em seus ombros? - Alguns dias depois, Marcos foi levado a julgamento. As chances dele ser inocentado pendiam para o seu lado. O júri havia engolido a conversa da defesa, fazendo com que os votos por inocência fossem quase unânimes. Marcos, porém, estava alheio ao que acontecia ao seu redor. Parecia que ele não se importava em ser sentenciado. No seu acento de acusado, ele revisitava várias vezes o momento em que viu sua esposa morta.

- Meritíssimo, para ele o choque de encontrar a esposa naquele estado foi muito grande. Choque esse que foi agravado com uma acusação de feminicídio injustificada. - Disse eloquentemente o advogado de defesa. - Não há motivação e nem arma do crime. Fora isso o horário da morte da vítima, calculado pelos legistas, não bate com o horário em que o réu saiu da delegacia.

Marcos manteve a versão de que encontrou um suspeito ao chegar em casa. E ele não poupou detalhes. Garras e presas inumanas foram incluídas na descrição. Em outras circunstâncias os seus colegas ririam de sua cara, mas tal atitude não era adequada naquele momento. Marcos foi declarado inocente, porém, o juiz exigiu uma ressalva. - Claramente o réu se encontra em um estado de perturbação mental. Sendo assim, recomendo uma estadia de, pelo menos, três semanas na instituição Santa Efigênia.

O Santa Efigênia era um hospital psiquiátrico publico que era, até certo ponto, respeitável. Constava com funcionários dedicados e instalações salubres. O seu único ponto negativo era a aparição de uma senhora que percorria os corredores da instituição a noite. Muitos testemunharam o caminhar da fantasma, porém, os gestores do hospital desacreditavam daquelas histórias. Alegavam ser apenas surtos temporários, mesmo que entre as testemunhas fosse encontrado não só pacientes, mas também enfermeiros e médicos.

- Cara, se você continuar com essa história de monstro, você não vai sair daqui nunca. - Vestindo algo que parecia ser um pijama, Marcos estava sentado em um banco que lembrava aqueles encontrados em praças. Sentado ao seu lado se encontrava um homem de meia idade que parecia ser muito experiente no que dizia respeito a loucura e manicômios. Seu nome era Heitor.

- Eu não sou louco, eu sei o que vi.

- Calma, cara. Eu acredito em sua história, já ouvi muita coisa fodida aqui. Só estou querendo te alertar que a melhor opção é fazer com que as pessoas o considerem são. Nem que para isso você tenha que mentir um pouquinho.

Uma vez por semana os internos conversavam com seus respectivos psiquiatras. Naquela vez, Marcos foi mais sabido e seguiu o conselho do seu colega. - Não sei o que vi ao certo, acho que estava muito nervoso.

- Eu fico feliz por ter finalmente compreendido. - Disse o psiquiatra. - Acredito que na próxima semana você já possa receber sua alta.

Era uma segunda-feira e a alta de Marcos era na quinta. Ele contava os minutos pra se ver logo livre daquele lugar. Para fazer o tempo correr mais depressa, Marcos decidiu dormir o máximo que conseguia. Durante o café da manhã e almoço ele bebia, se disponível, vários litros de suco de maracujá. Durante a noite da terça, Marcos esperava cair nos braços de Morfeu cedo, mas seu colega, Heitor, tinha outros planos. - Cara, você precisa ver isso. - Disse Heitor enquanto balançava o corpo sonolento de Marcos.

- Agora não. Já tá tarde. - Disse Marcos enquanto se virava para o outro lado.

- Tarde?! Não é nem nove horas direito, seu preguiçoso! - Devido à insistência de Heitor, Marcos decidiu atender ao seu chamado e seguiu com ele até um ponto do sanatório não muito explorado. O lugar era escuro, isolado e tinha fama de ser mal-assombrado. - Você já deve ter ouvido a história do fantasma do Santa Efigênia, né? Olha ela ali, cara. - A aparição não tinha forma muito definida, era meio etérea, mas estava ali sem sombra de dúvidas. O pânico que Marcos sentiu ao ver aquele fantasma foi equivalente a quando viu o monstro que assassinou a sua esposa. O homem gritou, mas o som do seu pânico foi abafado pela mão do seu colega. - Calma, cara! Você não vai querer prejudicar a sua alta!

Alguns minutos depois, com Marcos mais calmo, Heitor o levou até o pátio principal e foi ter com ele uma conversa. - O que foi aquilo?! Um fantasma?! Fantasmas existem?!

- Desde que entrou nesse sanatório estou tentando te dizer que monstros existem, cara. E que é preciso ter muito cuidado com eles. - Nos minutos que se seguiram, Heitor explicou a Marcos tudo o que sabia sobre o Véu da Realidade. Uma membrana mística que separava tudo aquilo que era natural do que era mágico. Tal membrana era rompida sempre que um ser sobrenatural fazia alguma ação no plano físico. Quanto mais contato uma pessoa tinha com uma ruptura de membrana, mais ela ficava suscetível a testemunhar criaturas sobrenaturais. - Cara, enxergar um fantasma é uma habilidade razoavelmente comum, mas um vampiro… Isso te faz especial. - Heitor retirou do bolso de seu pijama de interno um cartão e o entregou a Marcos. - Você pode continuar a sua vida ignorando o sobrenatural ou fazer a diferença lutando contra ele. Esse endereço é dos Guardiões do Véu. Uma puta equipe de guerreiros que é especializada em fazer qualquer monstro se mijar de medo.

- O fantasma? Foi algum tipo de teste, certo? Deixa isso pra lá. Você já convidou quantos malucos para fazer parte desse "clube"?

- Sendo bem sincero, você foi o primeiro e único. Estou aqui há anos esperando só pela pessoa certa.

- Você guardou esse cartão por todo esse tempo?!

- É, cara, acho que obstinação pode ser considerada um tipo de loucura.

Apesar do seu nome sugerir algo mais bucólico, Riacho Doce era uma cidade razoavelmente grande. Boa parte de sua extensão era banhada pelo mar, fazendo dela um bom lugar para o turismo. Isso sem contar com os seus museus, pontos históricos e vida noturna. Resumindo, até mesmo aqueles que não eram muito fãs de praia podiam se divertir ali. Riacho Doce foi uma cidade planejada. De modo que o centro foi reservado para aqueles com mais poder aquisitivo e a periferia ficasse geograficamente a margem. Para se ter uma ideia da diferença de tratamento recebido pelas camadas sociais, os bancos de praça encontrados no centro foram construídos com um design que tornava desconfortável o ato de deitar nelas. Sem poder dormir na praça, os mendigos procuravam outra parada.

- Esse prédio não estava aqui antes. - Nada segurava Marcos, já que ele se encontrava afastado da polícia. Ele não queria ficar parado, mesmo recebendo um bom valor pela sua aposentadoria compulsória. O cartão que Heitor entregou para ele dava em um terreno baldio usado pela comunidade para despejar lixo. Isso foi na primeira vista, após fazer uma segunda ronda no local, Marcos encontrou um prédio onde antes havia o terreno abandonado. A porta principal estava entreaberta e não havia nenhum tipo de sistema de segurança visível. Sem pensar muito, o ex-policial entrou.

- Que demora! Pensei que você não vinha mais. - O prédio do lado de dentro mais parecia uma oficina, sendo que nas paredes haviam armas no lugar das ferramentas. O homem que recepcionou Marcos estava vestido de padre. Mas, se ele fosse um padre de verdade, ele não era nada ortodoxo. Apesar de aparentar ter uns sessenta anos, o clérigo tinha o corpo de um fisiculturista.

Duas semanas depois. Após muito treinamento.

Kleber sentiu uma fisgada no joelho esquerdo. Ele achava que isso era devido a sua última queda do quinto andar. Ao contrário do que a maioria das pessoas acreditam, vampiros não queimam em contato com a luz do sol. Pelo menos não quando estão do outro lado do Véu. O corpo de Kleber estava servindo como hospedeiro para o vampiro. Ou seja, a criatura sobrenatural estava usando-o para sugar sangue e interagir com o mundo real. Para agir no mundo material, o vampiro tinha que romper o Véu da Realidade. Em qualquer outro momento Kleber era só um humano qualquer.

Era uma zona comercial movimentada de Riacho Doce, as ruas estavam lotadas de compradores e camelôs. Kleber, como pedinte, andava distraído pela rua. O homem se preocupava apenas com a sua próxima refeição, uma normal para o lado humano e outra de sangue para o seu eu vampiro. Ele, de início, nem percebeu que em seu encalço havia um viúvo vingativo que só esperava pelo melhor momento para usar a sua arma.

Mesmo sem Kleber ter quebrado o Véu, Marcos conseguiu ver a entidade entrelaçada a ele. - Lembre-se, não mate o hospedeiro. - Disse a voz que saía do comunicador auricular. - A alma humana do assassino ainda pode ser salva. - No estado atual de Marcos a última coisa com a qual ele estava preocupado era com a redenção do assassino de sua esposa. Kleber entrou em um beco bem isolado e Marcos o seguiu. O ex-policial estava tão tomado pelo ódio que nem percebeu que a atitude do suspeito era conveniente demais. Os prédios que formavam o beco criaram uma zona de sombra muito oportuna para qualquer entidade que não gostasse do sol. Marcos empunhou sua arma assim que viu Kleber se transformar em um vampiro em carne e osso. O monstro havia rompido o Véu.

Marcos deu dois disparos na criatura, mas esta conseguiu desviar e chegar perto do oficial o suficiente para jogá-lo contra a parede oposta. A dor que Marcos sentiu na coluna com a colisão o fez ficar sem ar por um instante. Kleber tentou usar as suas garras, mas Marcos o abraçou e correu com ele até a rua principal, que era banhada pelo sol. O monstro guinchou enquanto o seu corpo virava cinzas. A luta havia terminado, ou assim Marcos esperava. O lado humano de Kleber ainda estava vivo. O ex-policial mirou sua arma no mendigo e pensou em matá-lo. Porém, o seu lado ético o impediu. Marcos nunca havia executado alguém antes.

Marcos podia deixar o caso como resolvido, já que os Guardiões do Véu não se intrometiam em situações mundanas. Mas, ao invés disso, ele resolveu ligar para a polícia do seu celular e alegar uma acusação inusitada. - É esse aí. O filho da puta que matou Helena. - Os dois policiais que foram atender ao chamado ficaram desconfiados, afinal Marcos havia acabado de sair de um sanatório. Mas o histórico limpo do ex-policial falou mais alto e, além disso, o homem acusado confessou o crime.

- Sabe, mais cedo ou mais tarde a gente acaba enfrentando algo mais pesado do que podemos aguentar. - Disse um dos policiais enquanto o outro levava Kleber algemado para a viatura. - Se quiser a gente pode mexer alguns pauzinhos. A maioria dos nossos superiores ainda quer você de volta. - Marcos ficou tentado a aceitar a proposta do oficial, mas, por ele ter visto o que há de pior e mais estranho no mundo, ele não conseguiu voltar atrás. Não muito longe dali, o líder dos Guardiões do Véu se sentiu realizado pela prova de lealdade mostrada pelo seu novo recruta. Marcos esqueceu de desligar o seu comunicador auricular e deixou de conhecimento publico sua vontade de permanecer no grupo.