Capítulo 11 – Hora Decisiva.

Há muito tempo que Heitor não via a Casa dos Mistérios, por causa disso uma gota de lágrima brotou de um dos seus olhos. O corpo de Heitor mudou muito durante os últimos dias, tanto que ele achava que havia perdido a capacidade de chorar. Fios e transistores foram implantados onde antes haviam veias e sangue. Os seus órgãos, tantos os internos quanto a sua pele, ganharam uma durabilidade impossível. Heitor nem se via mais como um ser humano. Ele se achava mais máquina do que ser vivo. Pelo menos fisicamente falando, isso não estava errado. Pouquíssimas partes orgânicas foram reaproveitadas. No caso apenas o cérebro e os pulmões.

Apesar de haver muito pouco do antigo Heitor, ele ainda era agraciado por ter sido convidado a fazer parte dos Guardiões do Véu. Aproveitando-se do convite que recebera anos atrás, o ciborgue entrou na mansão sem encontrar resistência. Assim que passou pela porta, Heitor reencontrou antigos colegas e viu muitos rostos novos. - Heitor?! Como conseguiu sair do Santa Efigênia? - Perguntou O Padre.

- Não por ajuda sua. - Um silêncio constrangedor se instaurou no lugar. O Padre queria achar uma resposta valida para aquela acusação, mas o seu pensamento estava travado. - O livro, me dê o livro e eu vou embora.

- Que…? Está falando do…?

- É, Ali Kassim! Estou falando do Veritas Simplex!

- Você sabe que o tomo não pode sair da proteção dessas paredes.

- Mentira! - Executando um chute circular alto, Heitor acertou a cabeça do Padre em cheio com o seu pé metálico. O clérigo perdeu os sentidos com o golpe. Por terem assistido aquela cena, os guardiões que portavam alguma arma dispararam contra Heitor. Enquanto isso aqueles que estavam desarmados procuravam por algo que pudessem usar para se proteger.

Lídia, que estava presente na cena, pegou sua arma sniper e apontou para a cabeça do seu adversário. Talvez Heitor sobrevivesse mesmo sendo atingido, porém, aquela dúvida não seria sanada. Percebendo que era o alvo da garota, o ciborgue se moveu em uma velocidade absurda e atingiu Lídia no abdômen. Ela ficou se contorcendo no chão com dificuldade para respirar.

De tão absorto na sua luta contra os atiradores, Heitor não percebeu que pequenos insetos, em uma quantidade anormal, entraram na parte interna do seu corpo através de suas dobras de articulação. - Que tipo de feitiçaria é essa?!

Um guardião se destacou entre os outros agentes que formavam uma pequena multidão. - Meu nome é Francisco. - Disse o homem. - Saia daqui e nunca mais volte ou meus amiguinhos vão te comer vivo.

- Ora seu…

- Heitor! - Marcos Mignola, que era outro dos agentes que alvejaram Heitor, pediu a palavra. - O que você está fazendo? Não parece em nada com o homem que me aconselhou no Santa Efigênia.

- Eu, eu… - Heitor parecia que ia ceder. Seu olhar ficou sofrido, mostrando que estava prestes a chorar, mas, antes que pudesse exibir qualquer emoção, o seu corpo foi partido ao meio de cima a baixo com o corte de uma espada espiritual. Espada essa que pertencia ao Padre.

- Você o matou a sangue frio! Precisava realmente disso?! - Perguntou Marcos.

- Se eu o deixasse livre ele voltaria ainda mais forte. Sim, Marcos. Precisava sim.

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-Espero que saiba o que está fazendo. - Em uma mochila grande, daquelas de viagem, Marcos guardou o Veritas Simplex. Como da última vez que Marcos tentou roubar o livro, Lídia percebeu a intenção dele antes que agisse.

- O livro não pode mais ficar aqui. Com certeza Heitor não será o último inumano que virá atrás dele. Enfim, veio aqui para me impedir?

- Não. Ordens do Padre, lembra? Só quero que saiba que o destino do mundo está em suas mãos.

Marcos sentiu o "peso de sua responsabilidade" em suas costas, mas evitou conversa simplesmente deixando o lugar. O agente passou pela porta de saída da mansão surpreso por mais ninguém ter tentado detê-lo e se dirigiu até o seu carro. Ele sentou no banco do motorista e repousou a mochila com o livro no acento ao lado. O trajeto não era muito distante, vinte minutos em média. O agente achou que sua trajetória até o Wolfram & Hart seria fácil, porém, haviam muitos interesses em jogo. Na metade do caminho, Marcos sentiu o seu carro engasgar. Para o seu espanto alguém agarrou a parte de trás do seu automóvel e o ergueu até que ficasse inclinado. Como o carro não tinha tração nas quatro rodas, ele ficou imóvel. Imóvel até o ciborgue o largar de maneira ríspida. Como Marcos estava com o pé pisando fundo no acelerador, o veículo seguiu veloz em direção a um muro com a força de uma bala.

- Entregue o livro!

Marcos podia se considerar um sujeito sortudo. Com apenas danos superficiais, o agente pegou sua mochila com o Veritas Simplex e se esgueirou até sair do seu carro. O veículo, por outro lado, deu perda total. - Homem de lata, você ainda raciocina ou já se tornou uma marionete?

- Homem de lata não. Eu sou Danny, o lutador aprimorado! - Daniel, ou Danny como era conhecido nos círculos de MMA, passou por uma experiência cibernética que o transformou em um ciborgue. Utilizando de seus instintos e força aprimorados, Danny resolveu acabar com Marcos com as próprias mãos. Porém, o agente não estava totalmente indefeso. Com o seu treinamento nos Guardiões do Véu, Marcos aprendeu que por mais forte que seu oponente fosse, as suas articulações ainda eram frágeis. Acertando pontos de pressão, Marcos fez com que o ciborgue ficasse com o braço esquerdo mole e o joelho direito fora de lugar.

- Meu joelho! - Com o ataque perpetrado por Marcos, Daniel se lembrou do quanto ele havia sofrido quando era manco. O fato de seu joelho o impedir de lutar não era nem o pior. O pior foram as coisas que ele se submeteu a fazer para ter o joelho saudável de volta. Quase matou uma garota por revanche e machucou outros tantos por causa do seu vício em lutas. - Vá embora, jovem! Dane-se esse maldito livro.

Marcos não conhecia Daniel e por causa disso não entendeu sua reação. Primeiro ele achou que era um truque, mas, como o ciborgue não se colocava em posição de batalha, ele aceitou a desistência. Correndo enquanto abraçava sua mochila, Marcos chegou a Wolfram & Hart praticamente sem fôlego. Ainda na rua, antes até mesmo de passar pela portaria, o agente viu um ser alado com asas negras descer do prédio. Marcos não podia dizer com certeza, mas ele acreditava que aquela aparição era invisível aos mundanos não iniciados.

- Preciosa essa carga que transporta. - Disse o ser alado.

- Quem é você?

- Me chame de Dauntain. Sou o responsável pela Wolfram & Hart. - Assim que o homem de asas negras revelou a sua identidade, Marcos saltou a mochila que carregava e a deixou cair no chão. O livro era pesado, o agente sentia como se um grande fardo fosse tirado de suas costas.

- Eu não pedi para ser responsável pelo futuro da humanidade. Mas, como sou eu que decido, prefiro que o mundo seja dominado por criaturas feéricas do que por robôs sem alma.

- Você escolheu bem. - Disse o dauntain enquanto esticava suas mãos para pegar o seu prêmio. Porém, antes que seus dedos tocassem na mochila, um shuriken vindo de longe o acertou. - Miserável!

- Marcos, não desista ainda!

- Lars?! - Marcos estava de mente aberta para acolher algumas surpresas naquela noite. Mesmo assim ele não estava preparado para ver um antigo colega de missão fazendo cosplay do Volcano Man no meio de uma batalha. - Porque está vestido assim?!

- Ainda não me reconheceu?! Sou o Volcano Man!

- Ele é só mais um ser místico incorporado em uma carcaça humana.- Disse Dauntain.- Você já despachou vários desses para o outro lado do Véu. - O ser alado retirou o shuriken de sua mão ferida e novamente tentou pegar o livro. Ele chegou a tirar o volume da mochila quando Volcano Man desembainhou uma grande espada medieval de suas costas.

- Você não passará! - Com a lâmina em chamas, Lars atacou Dauntain com um corte que mirava o seu rosto. O golpe não surtiu efeito porque Dauntain se protegeu com suas asas. Como contragolpe, o monstro enrijeceu suas penas até elas ganharem a dureza de metal e atirou algumas delas no seu rival. Lars caiu ajoelhado no chão quando uma delas acertou o seu peito. A pena mostrou-se ser mais forte do que a armadura que o Volcano Man usava. - Marcos, você ainda é aquele que fará a escolha. - Disse Volcano Man enquanto usava o que lhe restava de energia para arremessar sua espada na direção de Marcos.

Dauntain abriu o livro na página que desejava e já estava entoando um encantamento. A língua que ele usava parecia latim, mas Marcos não tinha certeza. Quando o monstro ainda estava na metade do ritual, o agente arriscou tudo em um golpe final. O Véu da Realidade já estava enfraquecendo, no caminho de ser rompido, quando Marcos usando a espada de Lars acertou Dauntain no rosto. O ritual foi interrompido por uns cinco minutos, foi o suficiente para que desse errado.

- Seu primata! Tem noção do que fez?!

- Não escolhi a Banalidade e fiz com que a Wolfram & Harts falhasse. Pra mim é um baita saldo positivo.

- Não dá pra saber como o Véu da Realidade responderá! Eu ainda posso ter sucesso.

- Ou eu posso ter fechado a porta pros monstros pra sempre. - Dauntain eriçou suas penas para atacar o agente quando Volcano Man aproveitou sua distração para abraçá-lo por trás e queimar a ambos utilizando o seu poder.

- Saia daqui, Marcos. - Disse Volcano Man. - Eu cuido dele. - Marcos já estava longe quando olhou para trás e viu uma explosão que reverberou no bairro.

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De volta a sala de itens na Casa dos Mistérios, O Padre alisava o Veritas Simplex um pouco antes de guardá-lo de volta em seu lugar. - Tudo fica bem quando acaba bem, não é? - Não ter mais que decidir o futuro do planeta fez com que o humor de Marcos melhorasse. Alegria essa que não era compartilhada pelo seu chefe.

- Você sabe que a sua aventura na noite passada teve repercussões, certo? O Véu da Realidade está mais fino do que há muitos séculos. Isso significa o dobro de monstros.

- Também significa o dobro de guardiões. Eu andei estudando. É melhor ter metade do copo cheio do que não ter nenhum. - Enquanto Marcos falava, O Padre notou que ele carregava em suas costas uma espada grande. - Essa é uma espada mística. - Disse Marcos. - Além de ser incrivelmente leve, é invisível para olhos mundanos.

- Espero que ela te ajude em sua próxima função. - Marcos reagiu a fala do Padre com uma expressão de estranhamento. - Você atuará como líder de uma equipe.

- Equipe? Tipo de super-heróis? - Perguntou Marcos se achando bobo por ter falado sem pensar.

- É. Pode se dizer que sim.

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Na principal sala de reuniões da Wolfram & Hart, os acionistas discutiam quais seriam os rumos tomados pela empresa depois da morte de seu grande líder. Após fazer com que todos se calassem depois de um grito, Dimitri deu seu parecer. - Não é obvio? Eu tenho a maior parte das ações da empresa e, além disso, sou o ser mais poderoso do conselho.

- Dauntain o tratava como uma piada! Você é um vampiro risível. - Mesmo a distância, o vampiro Dimitri conseguiu fazer com que o homem que o confrontou sufocasse. Ele não cedeu até que o homem inoportuno falecesse engasgado em seu próprio sangue.

- Mais alguém quer se pronunciar? - A resposta obtida por Dimitri foi o silêncio. - Muito bom. Temos muito o que fazer.