Disclaimer: Todos os personagem pertecem à Kōhei Horikoshi


Ruínas

"Hoje, eu escalo a montanha mais alta que já escalei

E eu virei para olhar para ruínas que eu tinha deixado para trás

E você, onde você estava tão longe de qualquer verdade

Eu te perdi, não foi?

Primeiro, acho que me perdi " ー "Ruins", First Aid Kit


Estava se tornando quase parte da sua rotina acordar no meio da madrugada, não conseguindo mais dormir. Não era algo que acontecia sempre, era sempre quando estava sozinha, fazendo-a acordar assustada, com o coração a mil. Era uma sensação quase primitiva de estar sendo observada que a deixava em estado de alerta instantaneamente, porém quando levantava e vistoriava o apartamento de um quarto apenas, podia constatar que estava sozinha, mas em seu coração sentia que não estava. Quando ela e seu noivo se mudaram para esse prédio, cerca de um ano atrás, eles haviam tomado cuidado com as medidas de proteção, afinal eram dois heróis do top 10 do ranking que iriam morar ali. Para tentar desanuviar sua mente da possibilidade de ser um vilão astuto que estava tentando atacá-la, Ochako seguia com aquele ritual, amarrando seus longos cabelos castanhos e seguindo para a cozinha afim de fazer um chocolate quente, um apelo final para seu sistema se acalmar e lhe dar algumas horas de sono até o amanhecer.

Em dias que isso acontecia ela trabalhava em modo automático, preenchendo por instinto seus inúmeros relatórios e fazendo suas rondas, ora com Nejire, ora com Asui, de maneira inconsciente. Suas amigas já haviam percebido que isso estava acontecendo, mas tentavam abstrair e culpar o estresse pré-casamento pelo qual a jovem Uraraka estava mergulhada. Não era mentira, mas também não condizia totalmente com a realidade ela perder o sono somente por isso, era algo mais profundo que a fazia acordar, senso de sobrevivência ou algo do tipo.

- Você vai comer ou só olhar pra comida? - A voz de Midoriya tirou Ochako de seu estupor.

Se não fosse pelo herói de cabelos verdes, ela não perceberia que estava dormindo de olhos abertos… De novo. Ela e seus amigos almoçavam juntos uma vez por semana, haviam institucionalizado esta questão após saírem da UA, porém esta tarde somente Ochako e Izuku haviam conseguido comparecer.

- Desculpa, eu… Não sei o que está acontecendo comigo. - Ela confessou colocando as mãos no rosto, esfregando levemente seus olhos, cansada. - Desde que o Shinsou viajou não estou conseguindo dormir, fazem três dias que acordo no meio da madrugada e não consigo dormir mais.

- Nervosismo? Eu quase não dormia direito nos dias que antecederam o meu casamento com o Shoto. - Midoriya comentou corando levemente.

Faltava uma semana para o casamento dela, mas ela não se sentia nervosa por isso, não ainda.

- Não sei ao certo. - Ela focou seus olhos castanhos em seu amigo - Sinto que alguém está me observando Deku. Todos os dias, no mesmo horário.

Midoriya passou alguns segundos olhando fixamente para Ochako, como se ela houvesse perdido a cabeça, seus olhos verdes se movendo rapidamente, imaginando cenários, ela supôs.

- Um vilão? - Ele perguntou, por fim.

- Não sei, de verdade não sei. - Ela suspirou - Eu ia para Mei esse final de semana para visitar os meus pais, mas fiquei com medo de ser seguida caso seja mesmo um vilão. Pensei em ficar acordada esperando para me defender, já pensei várias coisas.

Midoriya colocou a mão sobre a dela, carinhosamente.

- Durma conosco hoje. Shoto instalou um sistema de segurança super moderno justamente por ter medo que algo aconteça com Yuki na ausência de um de nós. - Os olhos dele sempre brilhavam de orgulho quando falava de seu marido ou de sua filha.

- É uma boa ideia, pelo menos vou saber se é algo só da minha cabeça ou se alguém está me seguindo. - A morena concordou.

O assunto foi finalizado e eles continuaram a conversar sobre amenidades enquanto comiam. No final de seu turno, Ochako pegou sua bolsa de emergência, com roupas extras e material de higiene pessoal, que ela achou apropriado manter no escritório e seguiu para pegar o trem que a levaria até o subúrbio onde os Midoriya residiam.

Assim que Izuku abriu a porta, sua filha Yuki se jogou nos braços de Ochako, quase derrubando-as no chão.

- Meu deus, você está tão grande! - Parte por conta do trabalho e parte por estar organizando seu casamento, Ochako não tinha tempo para visitar seus amigos.

- E rebelde. - Shoto acrescentou acenando com uma espátula do balcão da cozinha.

A pequena menina de quatro anos ficou com parte dos cabelos de Shoto ( ex-Todoroki, hoje em dia Midoriya), ruivos.

- Foi um acidente. - Yuki falou com um fio de voz.

- Shoto descobriu uma das plantas dele queimadas no jardim e está fazendo a menina se culpar desde então. - Izuku retorquiu descontente. - Ela ainda está aprendendo como controlar a individualidade dela.

Ochako riu, passando a mão pelos cabelos da criança;

- Logo ela aprende, pare de ser chato Shoto.

- Ok, ok, uma gangue contra mim, estou derrotado. - Shoto levantou as duas mãos em rendição - Vamos jantar.

Ochako gostava de ver como os Midoriya eram domésticos e, mesmo morando há um ano com Shinsou, ela se perguntava se eles seriam felizes e serenos daquela forma. Ela esperava que sim, pois de drama ela já tinha preenchido toda a sua cota em seu relacionamento anterior, com Bakugo.

- E o segundo bebê de vocês? - Ochako perguntou quando Yuki já estava na cama e os adultos já estavam com uma taça de vinho largados nos confortáveis sofás da sala.

- Estamos no terceiro mês de gravidez. - Izuku respondeu como se ele mesmo estivesse gerando a criança.

O casal Midoriya haviam optado por ter filhos por intermédio de uma barriga de aluguel e a mesma mulher que gerou Yuki estava gerando o segundo bebê deles. Dentro da roleta russa genética a primogênita deles herdou em maioria traços de Shoto e até o momento ela havia demonstrado capacidade de criar bolas de fogo, deixando Shoto parcialmente descontente, ele desejava que Yuki tivesse herdado a parte de gelo dele.

- Esperamos que nosso segundo bebê tenha os olhos de Izuku, os cabelos dele… as sardas. - Shoto falava deixando transparecer o alto nível de veneração que tinha por seu marido.

- E se ele nascer sem poderes? - Esse medo de Izuku é latente desde Yuki.

Ochako sabia sobre a origem dos poderes de Deku, ele havia contado para ela depois de ter casado com Shoto. Ele precisava ter pessoas de confiança ao seu lado caso algo desse errado. A primeira pessoa a saber seu segredo havia sido Bakugou, mas o herói explosivo não era no momento a primeira escolha de Izuku.

- Às vezes eu queria ter nascido sem poderes. - Os olhos coloridos de Shoto se perderam dentro da taça de vinho. - Mas se esse for o caso, assim como Yuki, ele ou ela vai poder ser o que bem entender.

Esse tipo de paz, complementação, Ochako esperava sempre ter com Shinsou.

- Você está bem com os preparativos do casamento? Precisando de alguma ajuda? - Shoto focou em Ochako, deixando-a um pouco surpresa com a mudança brusca de assunto - Nervosa? Izuku me ligava chorando todas as noites.

Ochako riu, pois ela se lembrava de estar ao lado do jovem de cabelos verdes o consolando, repetindo que Shoto não iria largá-lo no altar.

- Estou um pouco ansiosa na verdade. Está tudo pronto. Preciso pegar o vestido na sexta; Por conta dessa merda de missão de última hora, o Shinsou só vai chegar na véspera da cerimônia, então, se algo der errado, ficarei lá esperando por ele igual a porra de uma planta. - Ela falou rápido, como uma arma automática.

- Ele jamais a deixaria esperando Ochako. - Shoto foi incisivo - Ele não é o Bakugou.

O final da frase chocou um pouco Ochako. Sempre que possível ela tentava esquecer que Bakugou fez parte da vida amorosa dela, pois ela não foi importante para ele como ele foi para ela.

- Shoto! - Midoriya o advertiu.

- Ele deu sorte de estarmos longe quando ele fez aquilo, filha da puta.

Shoto sempre antipatizou com Bakugou, mas o respeitava por causa de Ochako. Quando o relacionamento deles acabou da forma polêmica que havia sido, fazendo a morena, a quem Shoto considera como uma irmã sua, sofrer tanto pelos sentimentos hostis de Bakugou, quanto através da mídia ferina, foi como se o loiro explosivo tivesse arrancado os dois braços de Shoto.

- Já faz muito tempo Shoto, já superamos isso. Pelo menos eu segui com a minha vida. - Ochako tentou remediar a situação. - E ele seguiu a dele, do jeito dele.

- Ele deu sorte de Izuku e eu termos determinado um tempo para a nossa família, caso contrário ele nunca chegaria ao primeiro lugar, eu garantiria isso. - O ódio vindo de Shoto era latente e todos naquela sala sabiam que ele estava falando sério.

- Agora ele conseguiu! É o número um há dois anos consecutivos e espero que ele esteja feliz com isso. Pois eu tenho uma vida feliz e sei que vocês também. Deixem Bakugou no passado, onde ele merece ficar. - Ochako se levantou, era necessário acabar com aquela discussão antes que ela se machucasse mais. - Eu estou muito cansada, boa noite para vocês.

Izuku se levantou, se oferecendo para acompanhar Ochako até o quarto de hospedes onde ela havia deixado suas coisas no começo da noite. A cabeça dela estava aérea, devido a privação de sono e o vinho.

- Me desculpe Ocha, ele sempre detestou o Kachan e depois de tudo que aconteceu entre vocês… Ele se sente responsável por você, eu também me sinto e queremos que você seja feliz.

Midoriya parecia estar sofrendo com algo que ele precisava falar, mas não conseguia encontrar as palavras corretas para colocar em uma frase.

- Eu estou feliz Deku. - Ochako sorriu para o amigo.

Ele mordeu o lábio inferior.

- Sei que você está, mas parece que falta algo, sabe? - Midoriya finalmente falou - Como se você tivesse um brilho especial e ele sumiu para nunca mais voltar.

- Eu estou feliz Deku. - Ela repetiu - Boa noite.

Ela fechou a porta atrás de si e se jogou na cama. Ochako sabia do que Midoriya estava falando, ela sentia isso também, mas… Ela nunca mais sentiria isso. Ela colocou as mãos na cabeça, recordando de seu passado, de como ela e Bakugou costumavam ser parceiros de treino na UA, até que se beijaram e daí foi ladeira abaixo. Ela gostava de ficar com Katsuki, ele era forte, determinado, esforçado e naquele momento foi crucial estar com alguém desse jeito, ela se tornou uma heroína melhor ao treinar duro igual ele.

- Você já era capaz de quebrar a minha cara antes, não fiz nada demais. - Katsuki falava para ela sempre que ele perdia para ela em uma sessão de treino.

Depois que se formaram e cada um começou a trabalhar como ajudante para agências distintas, ele na agência de Endeavour e ela na agência de Ryukyu. Foi um começo difícil para ambos e todas as noites ela o ajudava nas bandagens; Assim que começaram a subir no ranking, Bakugou decidiu trocar de agência, indo para a agência especializada de Gang Orca enquanto Ochako permaneceu onde estava, pois Nejire e Ryukyu sempre a ajudavam com o que era necessário, era um ambiente bom para ela.

Eles decidirem morar juntos foi natural com o tempo, pois devido as escalas desgastantes de trabalho e o fato de morarem em pontos equidistante na cidade, estava ficando cada vez mais difícil eles se verem em seus tempos livres. O casal escolheu um apartamento modesto no meio do caminho para ambas as agências. Foi excelente, pois Katsuki cozinhava e Ochako limpava, quando chegavam do trabalho podiam ficar juntos pelo menos meia hora antes de caírem no sono, cansados.

Olhando para o passado, as coisas não estavam boas naquela época, eles mal se viam, ela não conseguia definir o que sentia além de cansaço o tempo todo. E foi nesse momento já azedo que o acidente aconteceu. Katsuki foi gravemente ferido por um vilão, e seu braço esquerdo era o que estava em estado crítico. Ele ficou entre a vida e a morte, em coma, na UTI por quase duas semanas e Ochako estava em frangalhos com aquela situação. Mitsuki e Massaru, pais de Katsuki, revezavam com Ochako acompanhar o loiro desacordado no hospital, assim como Izuku e Shoto tentavam auxiliá-la em meio aos cuidados com Yuki, com poucos meses de vida. Os outros heróis da antiga turma 1A visitavam Katsuki todos os dias, mas Ochako nunca se deixava chorar na frente de todos eles, apenas de Tsuyu e Izuku.

Quando Katsuki saiu do coma induzido ele ainda estava muito ferido e tinha baixa mobilidade de seu braço esquerdo. Toda a irritação e frustração que ele havia demonstrado na adolescência não foram páreo para o nível de drama que ele alcançou em seu estado ferido. Ochako aguentou os gritos dele, os ataques de histeria e frustração toda vez que ele voltava da fisioterapia. Certa vez Mitsuki entrou no quarto em um dos ataques de fúria de Katsuki e a briga deles foi colossal. Foi preciso Massaru mediar a situação e as enfermeiras tiveram que sedar os dois, mãe e filho, enquanto Ochako observava tudo atônita.

Ela pensava que o problema era o hospital, mas quando Katsuki finalmente foi liberado, depois de um mês, para ir para casa os episódios de irritação e frustração ainda eram presentes. Os Bakugo, ao visitarem o filho no mês seguinte, notaram que Ochako tremia de medo de Katsuki, portanto decidiram levá-lo novamente para o psiquiatra de controle de raiva que ele havia feito o tratamento quando adolescente.

Katsuki tinha a rotina de tomar os remédios para seu braço e os reguladores de humor, assim como fazer a fisioterapia e treinos leves para voltar a sua antiga forma. Foram meses de angústia para Ochako até ele voltar a trabalhar e as coisas parecerem parcialmente normais.

Graças aos reguladores de humor ele já não tinha mais crises graves e tratava Ochako com amor e respeito, novamente. Mesmo ela já não sentindo por ele a mesma coisa de antes. Ela estava esperando ele melhorar para decidir se ela deveria permanecer ali ou ir embora. Porém, algo permanecia fora do eixo, Ochako estava com enjoos constantes e sono excessivo em momentos impróprios, Nejire observando-a assim fez o que qualquer mulher sensata faria, colocou na mesa de Ochako um teste para gravidez, assustando a heroína anti-gravidade.

- Você está estranha há dias Chaco-Chaco, faça isso por nós ok? ok?

Nejire estava dando pequenos saltos à frente da mesa de Ochako, fazendo seus longos cabelos azulados balançarem às suas costas. Um pouco atrás dela estavam Ryukyu e Asui, ansiosas. Nejire estava mais animada com a perspectiva do teste ser positivo do que a própria Ochako.

Ao sair do banheiro, pálida, Ochako deu para elas a confirmação das suspeitas. Ryukyu deu o dia por encerrado, levando-as para jantar e comemorar, mesmo que Ochako estivesse ainda em choque e tenha vomitado o jantar no banheiro do restaurante, foi uma boa comemoração. Ao chegar em casa a morena encontrou Bakugou assistindo ao noticiário, de braços cruzados, extremamente sério ao que Ochako percebeu e pensou, que uma boa notícia o animaria.

- Katsuki… Tenho algo bom pra te contar. - Ela sentou no sofá ao lado dele.

O loiro estava olhando para ela, esperando-a prosseguir.

- Eu...hm… Estou grávida. - Ela falou sorrindo.

O rosto dele anuviou instantaneamente.

- Você está brincando Ochako?

Diante da reação totalmente contrária à notícia, o sorriso de Ochako foi morrendo e ela sentiu uma pressão em seu peito, a ansiedade crescente. Não que ela esperasse saltos de alegria, mas um pouco de compreensão seria bom pra começar.

- E-Eu fiz o teste hoje.

- Ochako, um bebê não faz parte dos meus planos para ser o herói numero um, você sabia disso! Sabia e mesmo assim ficou grávida! Não quero isso. - As palavras dele eram como facas sendo enfiadas no coração dela.

- Katsuki…

- Eu não quero isso Ochako. - Ele repetiu enfaticamente. - Você está estragando a porra dos meus planos igual o maldito acidente! Porra Ochako!

Ochako estava estática, sem conseguir ter uma sinapse completa para colocá-la em movimento, mesmo que seu cérebro gritasse "fuja! Fuja! Fuja!"

- Acabou. Nós… Acabou. - Ele falou e Ochako sentiu a sua cabeça leve e sua visão turva.

- O bebê… Katsuki… - Ela balbuciava.

Ela havia pensado em dar uma segunda chance para eles, por conta do bebê, enquanto caminhava de volta para casa. Ela sabia agora que havia majestosamente pensado errado agora olhando para o pai de seu bebê gritando e gesticulando raivosamente à sua frente.

- Eu não me importo com o que você pretende fazer Ochako, eu não quero fazer parte da vida dessa criança. Você está tentando fuder os meus planos.

Os gritos de Katsuki fizeram com que os vizinhos chamassem a polícia e assim que eles chegaram Ochako já estava com algumas de suas coisas em uma bolsa, os policiais a escoltaram até o apartamento de Tsuyu que já havia sido avisada da chegada da amiga e estava nervosa a esperando. Ochako e Bakugou foram namorados por 6 anos, sendo ele o primeiro e único homem em sua vida desde os seus 16 anos e agora, no auge de seus 22 anos, ela se via desamparada e abandonada pelo seu primeiro amor. A morena chorou a noite inteira enrolada em sua amiga, que tentava consolá-la da melhor forma possível.

Ryukyu, ao saber através de Asui do que havia acontecido, deu uma semana de folga para Ochako pensar sobre o que queria fazer, se ela manteria o bebê ou faria um aborto. As duas possibilidades estavam deixando Uraraka arrasada. O dekusquad (exceto Shoto que estava viajando em missão) se reuniu na casa de Asui para consolar Ochako e reafirmar que estariam sempre a apoiando e ajudando independente da decisão que ela tomasse.

Mitsuki tentou procurá-la e deixou várias mensagens de voz, sendo que algumas Ochako ouviu. "Ele parou de tomar os reguladores de humor, mas agora ele está se tratando de novo", "O idiota se arrepende de ter falado como falou", "Ochako, ele me falou e...por favor me diga se vai manter o bebê, por favor" era o resumo das várias mensagens. Ela apagou todas, não queria lidar com aquela família maluca nunca mais em sua vida. Essa constatação facilitou sua decisão final, não deixando de ser dolorosa.

Quando ela voltou para trabalhar na segunda-feira, seus colegas não falaram nada sobre o fim do relacionamento dela com Bakugou, muito menos sobre o bebê (aqueles que sabiam disso). Os noticiários de fofoca fizeram matérias especiais sobre o fim do relacionamento do casal mais fofo do Japão, em algumas matérias acusavam Uravity de ser uma vadia sem coração que havia deixado o coitado do Ground Zero no momento em que ele mais precisava dela, outras matérias diziam que era melhor para a imagem de herói dele ter se livrado de Uravity. A unanimidade era que ela era a vilã da situação aos olhos da mídia e a assessoria de imprensa dela estava tendo dificuldades em contatar a assessoria de Bakugou para que ele ajudasse a expôr a verdade e melhorar a imagem de Ochako.

Conforme os meses foram se passando, essa história foi enterrada pelo tempo, sendo substituídas pelas boas ações que Uravity se empenhava em fazer no seu tempo livre ou as várias matérias sobre Bakugo ter sido avistado com uma mulher diferente todas as noites. Assim como as matérias sobre eles subindo no ranking de heróis.

Ochako começou a frequentar a terapia para lidar com tudo que havia passado e estava passando, em conjunto com essa decisão ela instituiu que nunca mais iria se relacionar com ninguém, nunca mais novamente com um herói. E assim ela seguiu a sua vida, se curando dia após dia, até que ver notícias sobre o ascendente Ground Zero já não a incomodassem mais.

O relacionamento de Bakugou e Ochako já havia acabado há dois quando Ochako aceitou um encontro com Shinsou (que já a chamava para sair há meses), o herói MK Ultra era um homem inteligente, interessante e (por que não?) atraente. Já com 24 anos e quase nenhuma experiência com encontros, Ochako estava nervosa em ter um jantar com alguém, quebrando de uma só vez duas de suas promessas capitais, pois ele era uma perspectiva de relacionamento e não obstante, um Herói. Porém, talvez pela familiaridade trazida do período em que estudaram juntos na UA, o encontro foi satisfatório e divertido.

O herói de cabelos roxos soube lidar com o nervosismo deles em diversas etapas do relacionamento deles, principalmente com as inseguranças de Ochako. Pouco mais de dois meses depois eles já estavam namorando e Shinsou usava todas as oportunidades do mundo para demonstrar o quão devotado à Ochako ele era. Ela se sentia tranquila com ele, se sentia segura. Com um ano de relacionamento, já morando juntos há três meses, ele a pediu em casamento (ele a pediu cerca de uma semana depois do ranking dos heróis onde Katsuki conquistou seu pódio pela primeira vez) e foi super romântico, no restaurante preferido deles dois. Tudo que Ochako sempre sonhou ou havia um dia sonhado… Não importa.

Aqueles foram os últimos dias de paz como heróis deles, devido um atentado no centro de Tóquio eles passaram meses ocupados a fim de solucionar e prender todos por trás daquele massacre em grande escala. Assim que as investigações foram finalizadas, Ochako começou a organizar o casamento e com a divulgação do ranking dos heróis, onde Bakugo manteve seu primeiro lugar no pódio, ela percebeu que já estava noiva há um ano e namorava tranquilamente com Shinsou há dois. Por mais que sua terapeuta lhe dissesse que o presente era a única coisa com a qual ela deveria se preocupar (e os preparativos do casamento, claro), Ochako não conseguia se esquecer das marcas que seu relacionamento anterior haviam lhe causado.

As coisas estava voltando a normal calmaria, até essa maldita interrupção do sono a deixar irritada com qualquer coisa e seu humor saiu de "eternamente solar" para "não mexa comigo pelo amor de Deus"

Imersa em uma profusão de pensamentos Ochako adormeceu, sendo acordada apenas pelas batidas na porta e a voz de Izuku informando que o café da manhã já seria servido. O problema era na casa dela então ou o vinho facilitou a escala de sono dela. Ela sentia falta de Shinsou, de dormir abraçada nele… Talvez fosse isso. Tudo era possível.

Depois da noite que ela passou na casa de seus amigos ela não teve mais seu sono interrompido no meio da noite, a semana passou quase em um piscar de olhos devido às várias questões que ela deveria finalizar antes do casamento. Ela, Nejire e Tsuyu foram buscar o vestido de noiva dela e o de madrinha das outras duas. Nejire seguia fazendo festa a cada segundo na loja, que as mimou com taças de champanhe a vontade. Ochako estava rindo a toa quando o táxi a deixou em seu prédio com seu vestido bem embalado em uma caixa branca, ela se casaria em dois dias, em dois dias! Já não aguentava mais a saudade a consumindo, queria poder sentir novamente o cheiro de Shinsou, o toque, o amor dele… Amor com ele. Ela realmente sentia saudade do sexo. Ela estava sem ele há muito tempo e fatalmente havia se acostumado a dormir e acordar entrelaçada nos braços musculosos dele, dos beijos carinhosos no pescoço dela quando estava com preguiça. As horas que eles gastavam por telefone não eram suficientes para ela.

Ochako balançou a cabeça tentando se esquecer momentaneamente que sentia de seu noivo, a morena deixou a caixa sobre a cama e seguiu para o banheiro, precisava de um banho longo e relaxante. Assim que saiu do banheiro foi até a cozinha pegar um copo de água, percebendo de soslaio que a porta da sacada estava aberta, pois as cortinas estavam balançando conforme o vento soprava. Foram segundos até ela ficar em estado de alerta. Ela estava praguejando em pensamento por ter que lidar com um vilão em sua sacada somente de roupão. Porém ao puxar a cortina se surpreendeu em encontrar o herói número um do Japão apoiado na amurada, a observando.

- O que faz aqui? - Ela perguntou exasperada.

Ele sorriu levemente, olhando-a da cabeça aos pés, por fim suspirando.

- Faz alguns dias que venho aqui, planejo te pedir desculpas de mil jeitos diferentes, mas...Não existe um jeito certo não é? - A voz dele soou profunda, ele realmente estava se esforçando para colocar as palavras certas em uma frase.

Então era ele quem estava indo no meio da noite, ele quem a acordava. Inferno.

- Por que você não marcou uma reunião ou me ligou, como pessoas normais fazem invés de me fazer imaginar que eu estava sendo perseguida por um vilão que me mataria no meio da madrugada… - Ela sentiu o próprio corpo tremer levemente, involuntariamente, estava nervosa com aquele encontro, não conseguia negar.

-Desculpa cheeks, não era a intenção eu só não sabia como te chamar para uma reunião ou encontro já que você é uma heroína difícil agora. - Ele desceu da amurada, se aproximando lentamente dela.

- Vir na minha casa no meio da noite não é o melhor jeito! - Ela gesticulava enquanto falava.

- Você vai ficar muito bonita de noiva, Ochako. - ele falou por fim.

Ochako ficou estática, sem compreender qual o motivo daquele encontro surpresa.

- Você o ama? Ele te faz feliz? - O loiro perguntou, deixando transparecer o quão cansado ele realmente estava.

-Sim. - Ela respondeu.

Katsuki estreitou os olhos, se aproximando mais, surpreendendo Ochako que deu um passo para trás.

- Sim você o ama ou sim ele a faz feliz? Você foi meio vaga round face. - Aquele jogo de gato e rato novamente, filha da puta.

- Ele me faz feliz Katsuki - Ochako arrumou a sua postura, desafiando-o - Ele me respeita, me trata bem. Talvez eu o ame por essas coisas que mesmo tão triviais se tornam gigantes com o passar do tempo. Eu nunca o amarei como amei você, se é o que quer saber. Amar você foi o meu auge, mas também foi a minha desolação. A forma como você me amou me machucou e magoou de maneiras que espero que nunca Shinsou me magoe ou me machuque. Para todos os outros você é o herói numero um, o dourado Ground Zero, mas para mim Katsuki, você foi o pior vilão que já passou na minha vida.

Falar aquelas coisas, segredos e pensamentos que ela só dividia com sua terapeuta, para quem a machucou retirava de seu coração um enorme peso. Ela o observou mexer em seus cabelos loiros soltando uma breve risada.

- Eu fui um filha da puta sem escrúpulos com você e… Me pego pensando as vezes sabe, se eu não tivesse agido daquela forma, se eu tivesse sido racional. Imagino como ela seria sabe, e seria uma menina… Minha mochi. - Ele esboçou um sorriso triste.

Ochako se recusava a pensar ou sequer falar sobre isso. Era o ponto de fissura da vida dela, foi onde ela mais se sentiu violada e pouco heróica. Ela havia chorado dias inteiros por conta disso e quando contou para Shinsou que havia passado por um aborto ele foi muito compreensivo e aguentou firme a crise de depressão dela que veio com essa revelação.

- Cale a sua boca! - Ochako se limitou a falar. - Cale a porra da sua boca! Você estragou a minha vida Katsuki! Você tirou de mim meu único raio de felicidade naquele momento! Você me destruiu! Essa sua hipotética Mochi teria hoje quatro anos, seríamos uma família de comercial de margarina e a paz mundial seria uma realidade. Esse mundo não existe, você fez questão de garantir isso para mim.

Ochako balançou a cabeça rindo como forma de mascarar sua dor e ódio.

- O que você quer aqui Katsuki? Que eu largue meu noivo nas vésperas do nosso casamento para viver um romance tórrido com você? Para andar em ovos quanto ao seu temperamento volátil? Para, caso tenha um filho com você, rezar para que você não seja um idiota de marca maior com ele? - Ela disparava dando socos no peito dele, que os aceitava sem reação.

- Eu te amo Ochako. - Ele segurou as mãos dela - Se quiser que eu repare isso por toda uma vida, assim o farei. Conquistei tudo que eu queria, mas ao olhar para o lado eu estava sozinho. A mulher que eu amo já não olha mais no meu rosto e está quase casada com um idiota apagador de mentes. Eu arruinei tudo.

Katsuki soltou as mãos de Ochako que suspirou lentamente, ao se aproximar dele novamente segurou o rosto dele com as duas mãos, sem tocar os dedinhos mindinhos nele, ele fechou os olhos ao toque frio dela.

- Você foi o amor da minha vida Katsuki - Ela falou baixinho - Mas te amar era trabalhoso, pois você nunca me amou mais do que amou a si mesmo. Por muitas noites depois do fim pensei como tudo poderia ter sido se você tivesse reagido diferente e isso só me machucou, pois era uma ilusão, uma fantasia. Estamos agora no fim da linha e entre você ou eu, prefiro me escolher. Estar sozinho no topo foi uma escolha sua, inteiramente sua Katsuki. Portanto, cabe a você escolher uma mulher para amar e ter uma família com ela. Eu segui a minha vida, siga a sua. O que nós tínhamos, você fudeu com tudo. Não existe volta.

Ochako deixou suas mãos caírem ao lado de seu corpo enquanto ele abria os olhos lentamente.

- Vá embora e nunca mais me procure. - Ochako finalizou aquela conversa, entrando novamente em sua casa e fechando a porta de correr atrás de si.

Ela sentia seu coração mais leve por ter encarado Katsuki e ter sobrevivido. Voltou para o banheiro, precisava de um novo banho, pois o cheiro dele estava em suas mãos e a deixando incomodada.

Shinsou chegou junto com o amanhecer, acordando Ochako com um beijo e café da manhã na cama. Ela jamais pensaria em deixar aquele homem ir, ele era tudo que ela precisava.

O casamento foi lindo e seus amigos os parabenizaram na recepção. Os cabelos de Ochako presos em um coque estilizado como véu pendente. Shinsou também estava elegante em seu terno preto, os cabelos roxos recém cortados e penteados para trás com gel. Ochako o observou falando com Izuku e sorriu. Quando o herói de cabelos verdes foi parabenizá-la percebeu que ela estava quase chorando.

- Você está bem? Quer ir para outro lugar? - ele perguntou, preocupado.

- Não Deku, eu estou exatamente onde eu deveria estar. - Ochako sorriu ao seu amigo.

Ela estava realmente feliz. Shinsou veio em sua direção, era a hora da primeira dança deles como Sr. e Sra. Hiroshi.


N/A: Ando fissurada por Kachako ultimamente e essa história me veio à mente faz um tempo.

Não esqueci minhas outra fics, só preciso de um tempo, pois a vida anda muito tumultuada.

Inclusive vou postar essa mesma Fic no AO3 em inglês sob o pseudônimo Sonne Queen.

beijos, beijos.