CAPÍTULO UM

Park Jimin provara do medo diversas vezes em seus 28 anos de vida, mas essa vez colocou as outras no chinelo. Ele sabia que seu trabalho poderia ser perigoso, já que tudo tinha algum risco ultimamente. Dirigir na estrada poderia ser perigoso; alguém atravessando a rua poderia ser atropelado por um carro; e até limpar janelas poderia ser arriscado. Afinal, alguém, em algum lugar, acidentalmente quebrara uma janela e se machucara feio, e então sangrara até a morte enquanto trabalhava.

Merda acontece. Isso tinha se tornado seu lema de vida. Ele apenas nunca acreditara que seu trabalho poderia ser tão traiçoeiro. Não mesmo. O que poderia acontecer de ruim servindo bebidas e comidas?

Ele fez uma lista mentalmente: poderia escorregar e cair ou, ainda, se queimar se derramasse algum alimento quente. A pior das hipóteses que tinha imaginado era, talvez, ser baleado caso servisse comida em uma festa da máfia, mas as chances de a máfia estar em uma pequena cidade no norte da coreia do sul eram quase zero. Ainda assim… aqui ele enfrentara o tipo de terror que jamais imaginaria experimentar na vida real. Nem de longe Jimin esperaria por esse tipo de situação, nem com toda imaginação do mundo.

Ele parou, congelado, não importando o quão alto gritasse por dentro para que seu corpo se movesse e corresse para salvar sua vida. Não. Não pode ser. Seu corpo se recusava a responder. Todos os seus elaborados planos de ser firme, de estar preparado para qualquer coisa, o abandonaram junto à sua coragem. Ele não era tão forte quanto uma super-herói. Ele mais parecia uma estátua de jardim ou um mímico travado de terror.

Sua boca estava aberta, mas o grito não saía. Ele não conseguia nem emitir um gemido. Nada. Seu coração batia tão rápido que ele se perguntou se ele poderia pular do peito, e ainda assim nenhum som saía pela boca. Ele não podia nem respirar, mas realmente precisava de ar. Talvez inalar algum ar produziria um grito, mas… não. Que droga!

Ele sempre escutara que toda a vida de uma pessoa se passa como um filme em sua cabeça quando ela está prestes a morrer. Jimin não estava vendo flashes de seu passado. Não. Seus olhos bem abertos continuavam fixos no gigante homem-animal que rosnava para ele.

Ele era um homem, mas não exatamente, já que nenhum cara normal tinha dentes afiados ou poderia assustá-lo de tal forma com aquele som horrível que ressoava do fundo da garganta, imitando um animal perverso. Ele parecia tanto lindo quanto feroz.

Se um cara usasse esteroides, teria alguma semelhança com o homem que o aterrorizava. Ele tinha pelo menos um metro e noventa e oito de altura. Os braços eram extremamente musculosos, e o peito largo a fazia se lembrar de uma montanha. A pele era bronzeada em um tom dourado, no entanto, era o cabelo que o deixava tão bonito. Ele tinha a cor das folhas do outono – um laranja-avermelhado com mechas largas e loiras –, na altura dos ombros e levemente jogado de lado em seu rosto.

Uma parte muito assustadora dele era seu rosto, porque ele quase parecia humano, mas não exatamente.

Os olhos eram da cor de ouro derretido e tinham o formato de olhos de gatos, porém, com cílios muito longos. O nariz era largo e mais achatado que o de qualquer pessoa que ela já tivera visto. As bochechas eram proeminentes e dominavam a face, mas elas complementavam o queixo forte e quadrado. Isso chamou a atenção dela para os lábios carnudos que, naquele momento, estavam entreabertos, revelando alguns dentes extremamente brancos e pontiagudos. Mais uma vez, não o tipo de dentes que uma pessoa normal teria.

– Venha para trás, Jimin – Era seu chefe, Kim Yoshiaki, quem gritava com ele. – Não faça nenhum movimento brusco e venha na minha direção. Faça isso agora.

Ir para trás? Ele espera que eu me mova? Ele se deu conta de que começara a respirar novamente quando seus pulmões pararam de doer por falta de oxigênio. Ele tinha vontade de virar a cabeça e olhar para Yoshiaki com aquele olhar de "você só pode estar de brincadeira", mas não conseguia. E também não conseguia forçar seu olhar aterrorizado para o outro lado que não para o homem-animal que, de maneira vagarosa, aproximava-se e o encarava com aqueles grandes olhos felinos estranhamente bonitos. Ele parecia assustado e zangado, além disso, rosnava.

– Droga, Jimin. Venha agora para trás bem devagar. Apenas olhe para o chão e venha até mim. Você consegue.

Ele queria que isso fosse verdade, mas seu corpo ainda se recusava a obedecê-lo enquanto gritava silenciosamente para que ele seguisse suas instruções. Nada se movia além de seu peito conforme seu coração batia fortemente e o ar passava entre seus lábios entreabertos. Ele piscou, o que era um sinal de progresso, mas foi só isso.

– Jungkook! – outro homem gritou. – Acalme-se e saia de perto do pequeno macho. Ele não está te provocando. Ele só está se borrando de medo. – A nova voz tinha um tom grave, forte e soava nervosa.

O homem-animal rosnou de novo quando deu mais um passo em direção à Jimin. Ele queria correr, contudo, suas pernas pareciam estar enraizadas no chão. Tentou desviar o olhar dos olhos dourados que o encaravam, mas simplesmente não conseguia quebrar aquela conexão.

Todos haviam escutado sobre as Novas Espécies. Era preciso nunca ter lido um jornal ou nunca assistido à televisão para não saber que eles eram humanos usados, de maneira secreta, como experimentos para as Indústrias Mercile, uma farmacêutica que manteve um centro de testes secreto por décadas para desenvolver pesquisas bizarras, supostamente feitas para encontrar a cura de doenças. A história veio à tona quando um grupo sobrevivente desses centros foi libertado.

Merda, ele pensou. Ele é das Novas Espécies, com certeza. Jimin sabia que eles haviam se nomeado assim, aquelas mulheres e homens sobreviventes que foram fisicamente alterados com DNA animal.

O homem-animal que a observava tão de perto era, sem dúvidas, um deles, e os cientistas tinham feito muitas modificações. Jimin nunca vira nada parecido e não queria ver algo assim de novo. Ele parecia um homem… Mas não muito. Aquilo o fez se perguntar quantos traços animais ele tinha.

– Alguém pegue uma arma tranquilizadora. – Era uma mulher e soava assustada. – Agora! Vá!

– Jungkook? – perguntava o homem novamente com sua voz grave. – Me escute, cara. Ele não quis entrar em seu território. Ele se perdeu quando alguém fez merda com os mapas e chegou aqui sem querer. Você sabe que Namjoon está dando uma festa e contratou um bufê. Ele é apenas um macho aterrorizado que veio até aqui para servir comida. Não é uma provocação. Ele não consegue olhar para outra coisa que não seja você nem sair daqui, porque está congelado de medo. Acalme-se e saia de perto. Ele poderá se afastar assim que você fizer isso.

Kim Namjoon era o líder escolhido da Organização Nova Espécie. Ele havia comprado o antigo resort que estava fechado e todas as terras ao redor para seu povo e as transformara no reduto da Nova Espécie, chamado de Reserva. Também era o porta-voz que fazia todas as entrevistas para a televisão. Ele contratara o Bufê de Yoshiaki para cuidar da sua primeira festa na Reserva, e foi assim que Jimin acabou no lugar errado.

Ele respirou, agradecido por sua mente ainda funcionar e saber todas aquelas informações, assim, pelo menos poderia acompanhar a conversa da qual sua vida dependeria. Caso contrário, esse poderia ser seu último trabalho para Yoshiaki. Caramba, poderia ser o meu último dia mesmo, fazendo qualquer coisa.

– Você está me ouvindo, Jungkook? Você sabe como Namjoon ficará bravo se souber que você maltratou alguém que ele contratou? Devíamos oferecer esse jantar para fazer as pessoas na cidade se sentirem confortáveis com a nossa presença. Todos vão se alarmar se você atacar um deles – o homem de voz grave suspirou. – Deixe-me pegá-lo. Tudo bem, cara? Posso entrar no seu quintal e tirá-lo daqui?

– Não – rosnou o homem-animal. Ele virou sua cabeça e um rugido de doer os ouvidos fez a área do bosque vibrar.

Jimin enfim se moveu, mas não na direção que queria: seria em direção à sua van de trabalho e mais perto da ajuda que tinha chegado para tentar salvá-lo, no outro lado do portão pelo qual ela havia entrado. Seus joelhos amoleceram. Ele caiu de joelhos na grama e permaneceu ali.

Ele tinha de ser algum tipo de leão ou tigre, pois Jimin reconheceu o som que ele fez e era um rugido bem distinto. Ele estudou o colorido de seu corpo, seu nariz largo e finalmente aqueles dentes pontiagudos. Merda. Ele é definitivamente algum tipo de mistura com um gato grande. Ele chutou um leão. Jimin olhou fixamente para ele e se perguntou se iria fazer xixi nas calças, de tanto terror. No fim das contas isso não seria uma surpresa. Não era como se seu dia ainda pudesse piorar.

– Fique calmo – ordenou o homem de voz grave. – Não vou entrar. Fale comigo, Jungkook. Senão, alguém vai usar um tranquilizador em você, e você sabe muito bem o quanto isso te incomoda.

O homem-animal tinha um nome. Que também não era humano, ou normal, mas Jimin entendeu e aceitou que aquele era o nome dele. Que tipo de nome é Jungkook? Ele sabia que significava corajoso, algo que ele definitivamente não era naquele momento, e desejou com todas as forças que não estivesse ali, olhando fixamente nos olhos do seu, jamais imaginado, pior pesadelo.

Jungkook desviou o foco de seu olhar feroz de Jimin para alguém atrás dele, logo à esquerda:

– Não atire em mim. – O tom ameaçador de sua voz era alto e claro. Ouviu-se um suspiro profundo.

– Deixe o pequeno macho ir embora. Qual é o seu problema, hein? Ele falou alguma coisa antes de passar pelo portão? Ele não sabia que essa era a sua casa e não o salão do bar. Deram o mapa errado a ele. Me parece que a única coisa que ele fez antes de você alcançá-lo foi sair da van e andar em direção à sua porta da frente. Ele te irritou?

– Ela está aqui, Chanyoel. É o suficiente – resmungou Jungkook.

– E foi um acidente. – Chanyoel tentou ser lógico. – Algum dos nossos fez besteira, mas foi nosso erro. Não tínhamos entendido o que havia acontecido até que ele apareceu. Ele foi o primeiro a chegar, depois do cara responsável pelo bufê. Esse aqui é Kim Yoshiaki. Ele já esteve aqui algumas vezes e percebeu que o mapa estava errado quando o viu. Nós contatamos a portaria imediatamente, mas me informaram que a van dele já tinha entrado. Agora aqui estamos todos. Vamos lá, Jungkook, você já o aterrorizou o suficiente. O que Namjoon disse sobre tentar se adaptar? Lembra daquela conversa? Deus sabe que eu me lembro. Não é educado matar os humanos do coração.

– Ele não vai machucá-lo de verdade, vai? – Yoshiaki soou um pouco nervoso. O que significava muita coisa, porque seu chefe sempre ficava tranquilo sob pressão. – Quer dizer... Caramba! Isso foi uma piada?

Chanyeol falou um palavrão baixinho.

– Tenho certeza de que eu estava brincando – Seu tom de voz não soou nada convincente para Jimin.

– Então o que você diz, Jungkook? Ele pode se acalmar um pouco e sair se você der espaço. Você consideraria novamente a possibilidade de eu entrar e pegá-lo? Não levaria nem um minuto. Eu corro até aí, pego o moço e pulo para fora.

Jungkook rosnou mais uma vez, retornando seu olhar a Jimin que engoliu em seco. Piscou. Respirou regularmente de novo e se deu conta de todas aquelas funções do corpo que estavam sob seu controle, mas seus membros ainda não respondiam. O homem-animal parou a mais ou menos dois metros dele, no entanto, ele o agradeceu por ter parado de avançar para, simplesmente, encará-lo. Isso é um progresso, certo? Meu Deus, espero que sim.

Ele moveu sua boca e conseguiu abri-la. Tentou pedir desculpas por invadir a propriedade dele, contudo, nenhum som saiu. Droga. Ele sempre pensou que reagiria diferente sob pressão, afinal, é um garoto esperto desde pequeno, com uma resposta para tudo. Ele ganhara reputação por ser bocudo independentemente do quão amedrontado estivesse, sob qualquer circunstância. Obviamente, eu estava errado, admitiu. Mesmo nas piores situações possíveis, nunca imaginara um homem-animal rosnando com dentes afiados ou olhos de gato.

– Fique para trás – ameaçou Jungkook. Ele inspirou de maneira vagarosa, com o olhar ainda travado em Jimin, e deu mais um passo em direção a ele.

– Jungkook! – Chanyoel, o homem com a voz grave, gritou. – Pare agora. Não chegue mais perto dele. Merda, não faça isso.

Jungkook virou a cabeça para olhar alguém a quem mostrou seus dentes pontiagudos e rosnou ameaçadoramente. Ele soou muito perverso antes de se focar novamente em Jimin.

– Vá pegá-la – Yoshiaki ordenou. – Você é quase tão grande quanto ele. Salve-o.

Chanyoel pensou em um palavrão.

– Não posso. Ele me mataria em um piscar de olhos, porque é um dos filhos da puta mais desprezíveis que temos na Reserva. É por isso que ele está aqui e por isso que Namjoon comprou esse lugar. Existem alguns dos nossos que não são tão amigáveis com pessoas. Se eu entrar, só vou piorar as coisas, porque ele poderá matar duas pessoas em vez de só uma.

– Atire nele – uma mulher sussurrou, mas sua voz foi levada para longe.

– Não posso – um homem explicou. – Eles ainda não nos deram as armas com tranquilizantes.

– Use a arma que está no seu coldre – ordenou a mulher, falando mais alto. – Não permita que ele o mate. Meu Deus! Você pode imaginar o que isso causaria nas relações públicas?

– Ninguém vai atirar nele – reforçou Chanyeol. –Jungkook? – ele pausou. – Me fale por que você está tão nervoso com esse macho. Ele é uma coisinha pequena. É por isso? Você está lutando contra seus instintos porque você está o vendo como uma presa? Pense bem, Jungkook. Esse é um macho humano inocente que não teve intenção de insultá-lo ou de invadir seu espaço. Fale comigo, caramba. Só me fale o que está passando pela sua cabeça.

Jungkook virou a cabeça, tirando seu intenso olhar de Jimin outra vez. Ele fechou seus olhos e respirou fundo. Seus olhos se abriram subitamente. Ele olhou para alguém atrás do ombro esquerdo de Jimin.

– Não vou matá-lo.

– Graças a Deus – falou Yoshiaki enquanto suspirava..

– Você só quer assustá-lo? – O alívio na voz de Chanyoel era evidente. – Bem, você fez um ótimo trabalho. Ele pode ir agora?

O olhar exótico de Jungkook se voltou para Jimin enquanto ele respirava mais uma vez. Ele roncou de maneira baixa e olhou para longe dele para ver Chanyoel.

– Não. Ele fica. Você vai.

– Você sabe que não podemos fazer isso – explicou Chanyeol calmamente. – O que acontece, cara? Qual o problema?

Jungkook rosnou de novo. Ele deu mais um passo e depois outro, em direção a Jimin. Ele parou de respirar. Aqueles olhos de gato estavam de volta mirando-o. Subitamente ficou de quatro, cheirou-o mais uma vez e fez um som que ela nunca escutara. Não era, de fato, um rosnado, era mais como um ronronar ríspido, porém, assustador. Ele parou nessa posição frente a ele.

– Ah, merda – Chanyoel falou um palavrão. – Jungkook? Não faça isso, cara.

Jungkook levantou a cabeça para lançar um outro olhar ameaçador na direção de Chanyoel, que estava perto o suficiente para que ele notasse algo muito bom no cheiro masculino e selvagem dele. Ele inspirou uma vez e continuou respirando, já que ele não estava olhando.

Baixou seu olhar para ele e decidiu que ele era grande até mesmo de quatro diante dele. Ele vestia calça jeans e uma camiseta, mas não calçava sapatos. O cara tinha mãos e pés gigantes. Ele chegara perto o suficiente para que ele pudesse tocá-lo se apenas movesse sua mão por alguns centímetros, mas ele não o fez, ainda congelado de joelhos.

– O que ele está fazendo agora? – Yoshiaki parecia em pânico de novo.

– Não pergunte – reforçou Chanyeol. – Jungkook, vamos lá, cara. O que você está fazendo? Você sabe que não dá, se você estiver pensando o que eu suspeito que está. Ele é uma pequena coisinha humana, e você não quer tentar isso.

Jungkook piscou.

– Ele está no cio.

– Ah, puta que o pariu – xingou Chanyoel.

Jungkook rosnou.

– Filho da puta! – Chanyoel xingou mais alto. – Yoshiaki, falei para você ter certeza de que nenhuma das Mulheres e pequenos ger's estivesse ovulando. Nós falamos sobre isso, droga. É por isso que ele está agindo que nem um doido.

– Como raios eu saberia? – Yoshiaki perguntou em tom de reclamação. – Você tem ideia de quantos processos por assédio sexual eu estaria enfrentando se perguntasse às mulheres e ger's que trabalham para mim se esse é um certo período do mês? Vamos combinar. E como assim alguém saberia disso, Chanyoel? Como?

Chanyoel xingou novamente.

– Nós saberíamos, Yoshiaki. Eu te falei que podemos sentir seus cheiros a um quilômetro de distância e te falei que alguns dos nossos homens reagiriam mal a isso. Estou na direção contrária ao vento, mas ele não. Se ele diz que ele está ovulando – e acredite em mim, ele está –, isso é um problema. Eis a razão de ele estar agindo assim. – O homem pausou. – Quem estava na guarda quando o deixaram entrar?

– Smiley – disse uma tênue voz masculina. – Ele é um primata e seu sentido de olfato não é tão apurado. Ele, com certeza, deixou o cheiro dele passar.

– O que significa ele estar ovulando? É por isso que ele quer matá–lo? – Era a mulher falando. – É como se fosse um tubarão ficando louco ao sentir cheiro de sangue?.

Chanyoel ficou em silêncio por alguns longos segundos.

– Ele não está sangrando. Como mulher, você deveria saber a diferença entre menstruação e ovulação. Ele está ovulando. Ele não quer matá-lo, quer acasalar com ele.

– Ainda bem – riu a mulher. – Pensei que ele faria dele um brinquedo e o cortaria em pedaços.

– Marcy! – gritou Yoshiaki. – Como você pode rir dessa situação? Não é engraçado. Estamos todos aliviados por ele não estar pensando em matá-lo, mas você entendeu o que Chanyoel quis dizer? Temos de tirá-lo de lá.

–Ele é casado? – perguntou Chanyeol.

– Não – Yoshiaki hesitou em responder. – Agora, espere um pouco. Não reaja aliviado como se algo fosse acontecer entre eles. Tire-o de lá.

Jimin mirou o perfil da Nova Espécie. Ele não queria acabar com sua vida. Queria acasalar com ele, que ainda estava em choque. Ele deixou seu olhar desviar para o gigante homem-animal da cabeça aos pés e estremeceu. Sempre foi péssimo em matemática na escola, mas sabia a matemática dessa situação.

O homem parecia ter quase duas vezes seu mero tamanho, e não havia forma de uma relação física entre eles ser possível. E, além disso, o que raios estou pensando? Ele queria gritar por ajuda novamente, mas nenhum som saiu de sua boca. Estou fodido! NÃO! Não diga isso. Encontre outra expressão. Eu estou na merda. Sim. Assim é melhor. Nem pense em nada de fodido ou de foder.

– Eu não posso – Chanyoel explicou. – Ele vai protegê-lo se algum de nós tentar se aproximar. Pense em um animal realmente vil protegendo seu brinquedo favorito. Bem, é isso que temos aqui.

Chanyeol permaneceu em silêncio por um minuto. Ninguém falou nada. Ele enfim tinha decidido encarar as coisas de outra maneira quando começou a falar de novo.

– Jungkook? Posso encontrar alguém disposto a substituí-lo. Você tem que deixá-la ir. Ele não é Espécie, ele é humano, e você o quebraria. Veja como ele é pequeno. É franzino, um macho miúdo, e você não o quer. Entendo que ele tem um cheiro muito bom para você e percebi logo de cara que ele é atraente, mas, de novo, ele é humano. Nós tomamos algumas bebidas juntos algumas semanas atrás e discutimos como eles são frágeis e delicados. Não fazemos sexo com eles, lembra? Somente vá para trás e chamarei nossas fêmeas. Uma delas adoraria a ideia de vir substituí-lo se você estiver com fogo. Certo, cara?Colabore comigo.

– Meu– rosnou Jungkook.

– Porra – Chanyoel resmungou. – Onde está a arma tranquilizadora? Nós vamos precisar dela, e rápido.

– Estou indo aí, Jimin! - Yoshiaki gritou.

– Não – gritou Chanyeol. – Ele vai te quebrar ao meio.

– Bom, faça alguma coisa – Yoshiaki ordenou. – Não vou ficar aqui parado vendo-o ser estuprado por aquele… aquela… pessoa.

Jungkook virou a cabeça. Seu rosto estava a trinta centímetros de Jimin. Ele olhava no fundo de seus olhos. De perto, eram incrivelmente bonitos. Ele viu espirais de cores que pareciam ouro derretido. Os cílios eram muito grossos e longos, de cor laranja-avermelhado. Apoiado em suas mãos e joelhos, ele ficava da altura dos olhos de Jimin. Sua boca estava fechada e seus dentes afiados, escondidos enquanto ele respirava mais uma vez. Um som suave veio de sua garganta: um grave ronronar. Ele piscou para ele enquanto se aproximava.

Mexa-se, droga. Ele dava ordens para que seu corpo se movesse para trás, fizesse alguma coisa, mas ele não a escutava. Jungkook esticou os braços para cima com suas grandes mãos, e ele viu suas unhas.

Eram mais grossas que o normal, quase pontudas, mas de tamanho normal, como as de humanos. Ele se moveu devagar enquanto os dedos quase felinos escovavam o cabelo de Jimin para trás de suas bochechas. Seus dedos, cujas pontas eram calejadas, acariciaram a face dele. Sua pele ficou arrepiada, e o sentimento era estranho, porém bom. As mãos dele tiraram todo o cabelo do seu rosto antes de se moverem para baixo para segurarem seu quadril.

– Lindo – ele falou suavemente. – Tão lindo.

Ele engoliu saliva.

– Obrig… – a voz dele falhou. – Obrigado – conseguiu sussurrar.

Ele não tinha certeza do que ele achara atrativo nele. Era seu cabelo comprido ou seu rosto? Ele já escutara que tinha lindos olhos azuis. Seja lá o que ele tivesse achado atraente, ele só estava agradecido de finalmente haver encontrado sua voz. Não era muito, visto que parecia ser capaz de dizer só algumas palavras, mas esperava que tivesse funcionado. Ele poderia conseguir dar um grito de doer os ouvidos se houvesse a necessidade, e tinha um sentimento ruim de que essa necessidade estaria próxima se aquele cara quisesse fazer sexo com ele.

Ele fechou os olhos e respirou fundo.

– Você cheira tão bem. Morangos e mel. Adoro morangos e mel. – Ele fez um ronronar suave bem no fundo da garganta. Seus olhos se abriram. – Não tenha medo. Eu jamais te machucaria, Jimin. – Ele moveu o corpo para mais perto dele.

Com o coração martelando, Jimin fechou os olhos quando o cabelo dele alisou seu rosto e paralisou quando a bochecha dele roçou a sua. Ele podia sentir o calor da pele dele e a respiração quente que passava pelo seu pescoço, que ele havia deixado à mostra quando arrumara seu cabelo.

O que ele está fazendo agora? Alguns de seus medos haviam ido embora já que ele jurara não o machucar e, até então, cumprira a promessa. Me assustou demais, sim, mas ele não tinha feito nada doloroso. Ele deu um pulinho quando ele o lambeu no ponto de encontro entre seu pescoço e ombro.

– Ui. – Ele deixou escapar, mas logo se calou. Aquela sensação não era como algo que já tivesse sentido. A língua dele tinha uma leve textura arenosa, mas não áspera ou abrasiva. Ele teve calafrios pelo corpo todo e, de alguma forma, isso pareceu estranhamente erótico. Em seguida, os dentes pontiagudos roçaram levemente sua pele, criando outra sensação estranhamente sedutora.

– Shiu! – ele cochichou, enquanto sua língua e seus dentes o deixavam. – Não vou machucá-lo.

– O que ele está fazendo com ele? – Yoshiaki aumentou a voz como um alarme. – Faça-o parar.

– Onde está a arma tranquilizadora? – Marcy perguntou.

– Todos vocês, calem a boca – Chanyoel ordenou. – Ele não o está machucando e vamos deixá-lo nervoso. Só está encostando nele, então apenas fiquem quietos.

O barulho de um veículo se aproximando quebrou o silêncio, e um rosnar rasgou os lábios próximos ao pescoço de Jimin. O som fez com que ele arregalasse os olhos e soluçasse, observando os dentes pontiagudos que ele havia deixado à mostra quando virou sua cabeça em direção à fonte do barulho. A mão segurando a cintura dele apertou, sem machucar.

Ele arfou de súbito quando o outro braço o envolveu. Em um carrossel de emoções, ele parou, arrastou com facilidade Jimin para perto de si e o segurou contra seu corpo, mantendo seu braço em volta dele.

Jimin fitou o homem muito mais alto que o segurava com o braço forte. Suas pernas amoleceram, entrando em colapso, mas ele o estava segurando forte o suficiente para mantê-lo travado contra seu grande e sólido corpo. O cara era assustadoramente poderoso.

Jungkook olhou para algo por cima da cabeça dele. Ele tinha uma expressão de nervosismo e subitamente outro rugido saiu de sua boca, alto o suficiente para machucar os ouvidos dele. Jimin viu seus brancos e pontiagudos dentes aparecerem novamente quando ele rosnou e o levantou contra seu peito, tirando-o completamente do chão. Ele o segurou ali, o corpo dele pendente sob o chão, e saiu do quintal.

Meu. Esse pensamento não saía da cabeça de Jungkook. Repetia-se de novo e de novo. Meu. Meu. Meu. Ele se moveu mais rápido para levá-lo a algum lugar privativo, longe dos outros, dentro de sua casa. Eles não o levariam embora. Ele lutaria até a morte para mantê-lo e mataria qualquer um que tentasse tirá-lo de seus braços. O cheiro dele inundou suas narinas, fez seu corpo doer de necessidade e nada mais importava.

Ele é humano. Ele não é o que eu tinha em mente ou o que eu pensei que queria. As coisas mudam. Não importa. Ele é todo meu. Ele olhou para Chanyeol, para os dois Espécies machos que estavam com ele e para os dois humanos para garantir que não invadiriam o seu território.

O homem humano tinha um rosto avermelhado e agarrou a cerca, parecendo estar pronto para pulá-la, e a mulher humana estava boquiaberta, como se quisesse gritar. Ele sabia que os havia assustado, mas não dava a mínima para isso. Eles não eram uma ameaça, mas talvez tivesse que lutar com os Espécies caso o atacassem. Ele faria isso para não deixar aquele homem ir embora.

Meu!

Seus braços apertaram aquele glorioso homem que ele segurava, com cuidado para não o quebrar, e agradecidos por ele não lutar. Jimin quase parecia dócil sob seu cuidado, como se soubesse tanto quanto ele que ele lhe pertencia. Ele tinha esperanças de que ele o quisesse tanto quanto ele o queria.

Você não está agindo de maneira sã, ele admitiu em silêncio, mas isso não importava. Ele tinha um cheiro maravilhoso, seus traços delicados eram algo que ele queria observar para sempre, e segurá-lo em seus braços fazia crescer o desejo de possuí-lo. A ideia de esparramá-lo em sua cama e rasgar suas roupas para explorar cada milímetro de seu corpo fazia seu pau doer.

Ele será alguém com quem conversar, alguém para eu abraçar e vou convencê-lo de que nós seremos felizes juntos. Eu posso fazer isso. Ele vai querer ficar. Ele tem de querer. Meu. Meu. Meu. O lugar dele é comigo.

Ele não tinha nenhuma ideia de como fazer isso acontecer, mas era um homem forte, determinado e qualquer coisa era possível agora que estava livre. Depois de ter passado uma eternidade trancado em uma cela fria e úmida, machucado a maior parte do tempo, e sempre tão sozinho, a ideia de ter um companheiro, alguém para conhecer, para dividir a vida, havia se tornado seu maior sonho.

Ele o segurou mais suavemente, prometendo protegê-lo com sua vida e não permitindo que ninguém o levasse embora. Não tinha que fazer sentido. Ele estava em seus braços, ele o reivindicou e não estava disposto a soltá-lo. De algum jeito, de alguma forma, ele o convenceria de que era o macho feito para ele.

Certa vez ele sonhara viver fora das paredes de concreto e aquilo enfim tinha acontecido. Tudo era possível. Ele inalou o maravilhoso cheiro delicado dele, seus braços o seguraram mais forte contra seu corpo e uma palavra se repetia em sua cabeça.

Meu!