N/A: Harry Potter não me pertence e possuo absolutamente nenhum lucro com isso. Essa história é uma adaptação do livro 'IV Concurso Municipal de Conto', publicado pela prefeitura de Niterói e escrita pelo autor Angêlo Pessoa Martins. Essa é umas das histórias da coletânea.

Primeiro Capítulo - Estação

- Neville? Precisa de mais algum livro? Neville! Tudo bem? – Padma, a bibliotecária, tenta acordar o rapaz de vinte e poucos anos que olha absorto através da janela.
- Neville? – Insiste Padma, que abre a biblioteca todos os dias ás seis horas e dez minutos e sempre encontra o rapaz já sentado no banco da frente, a sua espera.
- Ahn? – E Neville como desperto de um sonho, abre os olhos já acesos.
-Tudo bem?
- Tudo... Acabei de ler um poema tão lindo que me esqueci de 'voltar'.
- Voltar? – Padma sorri.
- É... Às vezes leio poemas tão lindos, que esqueço o que sou e 'vou'!
- Vai? Deve ser bom 'ir'; E quem foi que te 'levou'? Qual poeta nosso que te fez 'ir'?
- Nenhum nosso, foi um brasileiro, Carlos Drummond de Andrade. Já leu?
- Alguma coisa... É bom.
- Padma, ele é perfeito! Deus estava inspirado quando o mandou...
- Qual o poema então? Diga-me...?
- "... e lança um olhar num livro que amas. Começa assim um dia belo e útil".
- Neville, isso não é Drummond. É Brecht... Desista de me testar!
- Eu sei, não é teste Padma, é isso que sinto por esse livro aqui – E levanta "Farewell".
- Este ainda não li todo, mas pelo pouco há uma despedida da vida subliminar, não?
- Isso Padma! Isso... Há uma dissimulada despedida da vida. A obra é póstuma, sabia?
- Não...
- Posso levar?
- Claro!
- Preciso ler mais, e mais, e mais... Quem sabe um dia não estarei no Brasil, num verão, ' á sombra de uma palmeira' saboreando os versos de Drummond?
- Sonho legal, quem sabe? Sua aula vai começar, anda!
- Vou não... Hoje vou voltar pra casa, deitar na sala, ouvir Litz e ler Drummond...
- Combina?
- Sei não, vou experimentar.
- Assista às aulas Neville, depois vá para casa combina-los!
- Não! Hoje ' começa assim um dia... ' - Padma o interrompe e conclui:
- 'Belo e útil'. Então vá Neville, o trem não te espera, são sete e quinze.

O rapaz corre mochila, "Farewell" sacudindo Drummond, repetindo Bretch, deixando um sorriso terno em Padma. A estação Alcalá de Henares não fica tão próxima da universidade. Posto a bordo, Neville, ansiedade, poesia, e um sorriso lindo nos lábios arroxeados pela friagem...

Segundo Capítulo – Estação

'Deveria ter aceitado o convite de Ginny. Velha rabugenta! Agora é acordar cedo, fazer café só para você, ler a bíblia e ficar esperando o dia acabar'. Briga a setuagenária Molly consigo mesma.
" Tudo tem o seu tempo determinado e há tempo para todo o propósito debaixo do céu: Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de guerra e tempo de paz". 'Eclesiastes tem as passagens mais belas da bíblia, sei quase todas de cor'. Conversa consigo mesmo a solitária Molly.

'Hoje irei visita-los sem avisar. James e Alvo virão ao meu encontro. Meus encantos, meus netos. Ginny vai gostar. Darei descanso a ela enquanto distraio as crianças e paro de pensar em Arthur. – Por que foi antes de mim meu velho?'. Conversa a velha com o fantasma do marido, treze anos ausente do banco no qual sentava toda manhã para conversar com ela e fazer planos. Arthur sempre fizera planos, sempre! Não havia velhice que o fizesse parar de planejar viagens, compras, reformas da casa, faculdade para os filhos, os netos, os bisnetos... Era um sonhador embirrento. Nunca pensou no outono da sua vida, nas folhas que caem mortas. No ciclo... Molly encantava-se com o otimismo do velho marido.

'Ainda é cedo. Posso ir depois do almoço... Não! Vou agora! Arrumo qualquer jeito! Sou velha, ninguém vai olhar pra mim. Pego o de sete e meia em Coslada. Isso! Anda velha! Corre! Molly se enche de vontade, e se arruma, ou desarruma nunca se sabe ao certo, nem ela, nem o fantasma de Arthur e nem o espelho descascado de saudade.

Molly anda rapidamente em direção à estação de Coslada. Roupa nada passada. Cabelo amarrado. Bolsa quase vazia, fotos já gastas de tanto beijadas dos netos de Molly. Uma pressa de ver os sorrisos dos netos. Alívio da filha. Pausa de saudade do velho. 'Minha bíblia! Não posso... Pode sim... Na volta você lê! Se voltar correndo não perde o trem. Perde sim! Fanatismo, velha! Ela está aberta em Eclesiastes... Vou de olhos fechados lendo em mente... Até sei o números das paginas'. Molly decide deixar a bíblia que ficou aberta no sofá cor de vinho, em Eclesiastes. O vento que entra peça janela que ela sem saber deixou aberta folheia o sagrado. O tempo parece que vai chover...

Terceiro Capítulo: Estação

- A quimioterapia tá marcada para que horas mesmo amor? – Pergunta Draco de olhos baixos para a jovem esposa de olhar distante, do outro lado da mesa.
- Oito horas. – Responde Hermione sem olhar para o jovem marido. Seria fatal cada um olhar para a dor do outro. Hermione e sua expiação tumor. Draco e sua amargura da possibilidade da mulher venerada. O sonho de adolescente: casar com Hermione. Agora mais que nunca ameaçado por um maldito caroço que aparecera no pescoço da querida. Hermione nunca fumara. Draco também não. Os questionamentos não cabiam nas duas mentes. Hermione olha para o céu. Draco segurando o bolo na garganta e o rio que ameaçava desaguar rosto abaixo.
- Vai dar tudo certo, sabia? – Hermione deixa escapar a fala estável fitando o marido que rodeia com olhos rubros a sala de jantar ricamente decorada, Jovens ricos. Infelizes. O rio transborda. Draco num acesso de ódio puxa a toalha da mesa e quebra toda a louça. Ataque de fúria dos imaturos. Hermione nem se mexe, nem um pio. E o rio nos olhos do jovem marido só lhe traz ódio. O sonho da princesa Hermione: Casar com Draco, ter um casal de filhos. E o médico nem recomendou a quimioterapia. Metástase. O casal que quis! 'Vamos fazer sim! Queira o senhor ou não! Hermione tem esperanças, Draco não e por isso chora amassando o rosto com a tolha suja de café, de leite, de manteiga, de pão, de aflição. Grita desordem a Deus. Hermione se levanta e vai á busca do abraço do jovem marido. De tanto que chora e grita, nem força tem para abraçar. Hermione nem uma lágrima. Há inverno demais na alma (atmosfericamente também) por ver o amado em abundante desesperança. Ela o embala. Ela o levanta. Ela ordena aos gritos que ele se cale. Draco obedece. Hermione diz calmamente:
- Vai dar tudo certo! Repete comigo! Anda Draco! – O marido chorando repete exaustivamente a frase feita com a voz exasperada e instável de Hermione.
- Então vamos. Ajeite-se Draco! – O jovem marido seca as lágrimas. O rosto é inchado, a roupa respingada de chá e outras coisas da manhã.
- Vou esquentar o carro. – Fala o desanimado jovem rico casado.
- Não, hoje vamos de trem. – Decreta Hermione.
- Mas você volta passando mal demais amor... Ir de trem... – Interrompe Hermione:
- Hoje de trem Draco. Como a gente fez no nosso primeiro encontro...

Draco aquiesce. Aceitaria qualquer pedido dela. Sua rainha estava à beira da morte. Era inevitável. Urgia faze-la feliz. Compraria o mundo para ela se lhe pedisse. Sete e quinze. Corre os dois de mãos dadas e apertadas. Os quase Romeu e Julieta para a estação de Santa Eugenia. Para trás ficam as lágrimas que escorrem dos olhos de Draco. Ficam também alguns fios frágeis e castanhos de Hermione. Ficam para trás também a casa ampla, cara, ricamente decorada, os carros na garagem, o inútil quarto de bebê montado, a sala de jantar feita a passagem de furacão, a serviçal fumando e rindo da desgraça dos patrões... A malvada!

Quarto Capitulo: Estação

Não consigo sobreviver com minha arte. Talvez se me tornasse um falsário e vivesse na riqueza. O homem mau caráter, o ruim, o imundo, o ladrão, o sádico e tudo de ruim que possa existir... Esse sim, sempre se dá bem! – Blaise olha as setenta e oito telas amontoadas e encalhadas em seu atelier enquanto fuma desesperadamente seu sexto cigarro. A prestação da casa é urgente, comida também. Theo escuta e observa tudo sentado no único canto vazio. Faz anotações para seu próximo romance. É um escritor pobre, mal sucedido, coleciona alguns prêmios literários e também algumas dividas feito Blaise. Theo dispara:
- Vai atacar Deus agora? Falta esta fala... Hoje não teremos blasfêmia? Nosso senhor ficara intacto a tua ira?
- Deus não existe e, portanto não se importará se eu xinga-lo...
- Claro, se para você Ele não existe, ofende-lo toda manhã é uma forma de me magoar, pois eu acredito Nele!
- Querido Theo, o que sua mãe lhe deixou de herança foi uma casa velha em Pozoblanco e esse seu deu s abstrato, inventado, ideologicamente criado... – Theo interrompe aos gritos:
- Chega! Chega Blaise!
- Ofendido ou com medo de pensar no assunto?
- Não tente atribuir sua falta de sorte aos caos, ao nada, ao acaso! Ele – apontando para o céu – e Sua ira estão plenos em você! Será que não enxerga?
- Agora quem diz chega sou eu Theo! Você fala parecendo um de seus personagens da idade média...
- Não consegue mesmo sustentar uma discussão. Esse é o seu mal, Blaise!
- Se ele existir, você será castigado pela sua homossexualidade, há isso no seu livro sagrado, sabia? Nunca leu?
- Devasso...
- Eu?
- Desregrado! Não sei por que ainda insisto em você?
- Sério! O homossexualismo é um pecado mortal, não sabia? – O deboche de Blaise causa em Theo algo mais forte que repugnância.
- Preciso ficar longe de você... – Theo levanta-se e vai em direção ao portão.
- Levaria esse quadro á galeria de Pansy? Ela prometeu vender... A gente precisa... Você sabe...
- Levo, mas embale rápido, não pretendo perder o de sete e vinte. – Theo volta e observa o quadro sendo rapidamente embalado por Blaise e pergunta:
- Qual o nome?
- Primavera. – Responde um desolado Blaise.
- Eu te odeio, mas o quadro é lindo, - Desabafa Theo. E Blaise ergue a cabeça olhando no fundo dos olhos de Theo e diz:
- E eu te amo, mas odeio o seu deus... – Theo feliz e ofendido suplica rapidez. Corre. Agasalha-se. Volta. Na porta do atelier, há uma 'primavera' embalada. E lá dentro há um artista chorando disfarçadamente pela sua sorte. Pinceladas vermelhas. Fogo. Ódio. Paixão. Theo pensa em dizer alguma coisa melhor, mas melhor não dizer nada.

Correndo com a tela na mão, Theo não repara que o quadro cheio de flores deixa cair à 'primavera'. Há sementes por toda a parte. Algumas morrerão com o frio, outras não. Há sentido e ciclo. O trem se aproxima da estação El Pozo. Já no vagão Theo abraça a obra como se abraçasse o criador. 'Se ele odeia meu Deus, é porque acredita que ele existe! Isso! Ele acredita!' Beija a tela. Paisagens voam através da janela. Há felicidade nos olhos de Theo.

Capitulo – Estação Epilogo

Oito e trinta e sete da manhã de onze de março de dois mil e quatro. Estação de Atocha. Ainda há cheiro de pólvora no ar. Uma bolsa de couro gasta e duas fotos parcialmente queimadas. Fios de cabelos castanhos crespos, parcos num assento. Um pedaço do que foi um belo quadro de copiosas tulipas. E um 'Farewell' sob trilhos retorcidos.