A gripe.

Capítulo 3 ~ Recuperação.

"Já é de manhã?"

Kagome deixa os olhos semicerrados, com preguiça de abri-los totalmente e ter que abandonar a cama, tão convidativa. Porém, a claridade solar que entrava pela janela não a deixava continuar sua soneca. Mesmo que ela protestasse furiosamente e até, veja você, xingasse o Sol.

A primeira coisa que fez foi passar os olhos pelo aposento. Procurava pela figura tranqüilizadora (o que o amor não faz com uma pessoa) de Inuyasha, permanecendo ainda deitada. Espreguiçando-se lentamente, olhou para o canto onde ele costuma dormir. Não lhe impressionou muito o fato de que ele não estava lá. Devia ter ido importunar Miroku, só para não quebrar o velho hábito de todas as manhãs.

Pensou em dormir mais, afinal, não era como se ela estivesse no Japão moderno, aonde existiam mãe, avô, irmão, Hojo-kun e gato, que pareciam estar colocados ali especialmente para acorda-la.

Entretanto, de súbito, lembrou-se de que aquela não era mais uma simples manhã de domingo: Kagome estava cuidando de Rin-chan - a mando de Sesshomaru - que esteve doente. Não "só" doente, ela estava muito doente. A menina havia passado uma parte considerável da noite acordada, até finalmente relaxar e pegar no sono. Kagome levantou-se num pulo, procurando com olhos atentos a pequena. Ela deveria estar ao seu lado, já que da última vez que a vira desperta, Rin estava lá. Olhou para a direita, olhou para a esquerda. Nada! Ela também não estava aonde devia. E se tinha uma coisa que irritava Kagome era quando as coisas não estavam em seus devidos lugares.

- Rin-chan? Cadê você?

Se Rin não estava ali, onde mais poderia estar? Ela poderia muito bem ter ido procurar por Sesshomaru, mesmo que ainda não estivesse boa. Kagome perguntou-se qual era o segredo daquele cara para atrair tanta gente aos seus pés. Cogitou que podia ser a aparência e tudo mais, porém, com aquele rosto gelado dele... Quer dizer, como alguém se sentiria bem olhando para ele? Sesshomaru transmitia, no mínimo, medo. No máximo, insegurança e aflição. E se ele não era capaz nem de cuidar de um monstrinho verde e esquisito, imagine de uma criança humana, com necessidades especiais, que ele certamente nunca entenderia.

Se Rin não estava ali, com certeza estava com ele. Mesmo cheio de defeitos, Sesshomaru era melhor do que um youkai carnívoro devorador de humanos. Lógico, sem sombra de dúvida. Mas, e se não estivesse? Aí sim, Kagome estaria muito, mas muito encrencada. Sabia que o irmão de Inuyasha estimava aquela menininha demais, mesmo que não demonstrasse. Podia ver naqueles olhos dourados, assim como os de seu amado, um carinho considerável por Rin.

Kagome começava a beirar o desespero, digamos.

- Ai meu Deus, Rin! Onde você está!

Mesmo que ela olhasse para todas as direções, a criança não aparecia de jeito nenhum. Será que ela treinava invisibilidade ou tele-transporte secretamente?

- OI-Ê! – grita uma fina vozinha infantil, que parecia ter brotado daquele chão de madeira.

- AH!

Kagome encolhe-se num lado, de tamanho susto. Rin estava escondida atrás da enorme mochila amarela dela. Tão óbvio que a colegial nem havia notado. A pequena ri alguns segundos da outra, mas logo vê que Kagome ainda estava chocada. – Desculpa, Rin não fez por mal. – e sorriu, meio sem graça.

- Tudo bem, Rin-chan. – diz Kagome, aliviada por encontra-la – Parece que você está bem melhor hoje, não?

Rin dá um largo sorriso e consente com a cabeça. Ela nem de longe lembrava aquela menina doente que havia chegado ontem, nos braços de Sesshomaru. Parecia totalmente revigorada e ativa, como uma criança normal de sua idade.

- Eu ainda não sei como a moça se chama. Qual o seu nome? – ela pergunta, inocentemente.

- Eu sou a Kagome Higurashi. – Kagome sorri, seguida de Rin. – Você quer comer alguma coisa, Rin-chan?

A menina faz que não e dispensa, educadamente. – O moço de cabelos prateados já deu comida pra Rin-chan.

"Inuyasha?". Kagome não consegue evitar um risinho, que abafa com a mão. Nunca, em toda a sua existência, tinha visto Inuyasha ajudar alguém a não ser ele mesmo. Nem parecia que ele gostava de crianças, ao menos! Pelo jeito, havia muitas coisas sobre ele que Kagome desconhecia. Inuyasha já estaria treinando para quando tiver seus próprios filhos? Pensar nisso era bastante estranho, bem como cheio de sentidos. "Filhos com quem, posso saber?"

Talvez fosse melhor parar por aqui. Kagome já estava ficando mais vermelha do que a blusa de Rin, que Sango havia pegado das coisas de Kagome – a pedido da própria – para que Rin pudesse vestir, quando acordasse.

- Já que é assim, que tal a gente ir lá pra fora?

- Sim. Mas Kagome-chan não pode dizer a Rin-chan aonde Sesshomaru-sama foi?

Infelizmente, agora chegara a parte difícil. Kagome sabia que cedo ou tarde ela iria perguntar por seu "responsável", mas mesmo assim... Não dava pra pular, só esta? – Sesshomaru saiu, - e Kagome pôde testemunhar a cara mais infeliz de Rin, até o presente momento – mas volta logo!

Rin calou-se por alguns segundos, como se pensasse no que ia dizer. - Kagome-chan acha que Sesshomaru-sama se importa com Rin-chan? - ela indagou, de cabeça baixa. "Ah, Sesshomaru. Você é odioso", Kagome pensou. – Que isso – a garota balança a cabeça - Tenho certeza de que ele adora você, Rin.

Naquele exato momento, a feição de Rin mudou do triste para o alegre, como num passe de mágica. – Se Kagome-chan diz isso, eu acredito!

- Então, - prosseguiu Kagome, na tentativa de mudar o assunto – vamos logo!

A hora do almoço era a melhor parte do dia, pensavam Inuyasha e Shippo. Contudo, naquele momento pouco importava a Inuyasha se Kagome tinha ou não trazido seu miojo de sempre, como costumava fazer. Ele estava mais preocupado com uma certa menina, deixada ali sem nenhuma consideração por seu amado irmão. Sesshomaru havia dito que voltaria no dia seguinte, precisamente na metade do dia. E só Deus sabe o quanto ele é pontual.

Inuyasha não tinha nenhuma certeza do que se passava na cabeça dele, mas, na ocasião, pensou que ele falava sério. Sesshomaru mentiu, então...? A frase, que latejava na cabeça do hanyou, era uma espécie de afirmação puxada para o lado da pergunta. O horário combinado estava aí. Só faltava mesmo o próprio aparecer. Inuyasha tinha consciência de que Sesshomaru sabia muito bem levar alguém no papo, facilmente. O youkai conseguia persuadir os outros como ninguém, total e completamente diferente de Inuyasha, que nem sequer convencia Shippo a lhe entregar seus pirulitos giratórios. Ou seja, nem pirulito de criança dava pra ele. Seria este o cúmulo da burrice ou da gentileza?

- Inuyasha, me passa o arroz?

Cadê aquele Sesshomaru... Ele está atrasado, pensava Inuyasha. Normalmente, o youkai que gozava, e conseqüentemente repreendia, dos outros por serem tão lentos.

Repentinamente, um pensamento inteligente e maduro alcança a mente complexa de Inuyasha. "HÁ! Vou tirar sarro da cara dele a vida toda!"

- Inuyasha, passa o arroz pra mim?

"Muahuahua! Ele que me espere! Vai aprender a nunca mais mexer com Inuyasha-sama". Inuyasha levanta as mãos, que estavam sob a mesinha baixa, e fecha os punhos em sinal de vitória. Todos começaram a olhar para ele de modo muito estranho, como se o amigo estivesse ficando louco. Não tinham nem idéia dos geniosos planos que um meio youkai pode ter.

- Inuyasha, seu mal educado! Owsur – Sango corre para tapar a boca de Kagome, antes que ela tivesse a chance de continuar a famosa palavra.

- Kagome-chan, se você sentar o Inuyasha aqui, todo o almoço que preparamos vai por água a baixo!

De repente, algo, ou melhor, alguém solta uma risada divertida. Rin, sentada e até então quieta num lado qualquer da mesa, parecia achar aquela situação toda muito engraçada. Ficou bem claro que não era sempre que ela ria daquele jeito.

Foi então que Kagome teve uma idéia um tanto quanto peculiar. Fez sinal com as mãos para Sango e Miroku se aproximarem, enquanto falava – Sango-chan, Miroku-sama, - ela sussurrou – riam também.

- O que? – disse Miroku, em mesmo tom.

- Riam também; pode ajudar na recuperação dela.

- Ta. – concordou Sango, ainda falando baixo.

- Eu tenho uma pergunta.

- Fala Miroku. – respondeu Kagome.

- Por que estamos sussurrando?

Sango não consegue se controlar e dá um soco leve na cara de Miroku. "Bobão, você é muito burro mesmo", ela gritou. Isso tudo, claro, no pensamento. Miroku não entendeu nem um pouco o porquê daquela reação tão violenta; apenas tinha feito uma perguntinha inocente. Tão inocente quanto seu ato de apalpação involuntária, ele pensava, com certa indignação. 'Isso é um vício! Por acaso censurariam uma pessoa doente?', o grupo escutara de Miroku uma vez, logo após ele ser criticado por passar - outra vez - a mão em Sango. Diretamente da coleção "As pérolas do monge pervertido".

Então, os três gênios começam a rir junto com Rin. Mas eles riam com tamanha histeria que os moradores vizinhos à casa de Kaede deviam estar pensando que ali havia virado um sanatório. Shippo e Inuyasha, como sempre, ficaram na ignorância. Olharam um para o outro e também para os amigos, como se dissessem "vocês são cheios de problemas".

- É, a comida tava boa, - disse Kagome, levantando-se da mesa - modéstia à parte, mas eu tenho que ir estudar.

- Eu também. - disse Inuyasha, levantando-se da mesa.

Shippo grudou os olhos em Inuyasha, espantado – Você vai estudar, Inuyasha?

- Não, sua anta! - ele esbravejou, esbanjando sua delicadeza - Eu tenho coisas a fazer também.

- Você vai atrás do Sesshom – Sango dá um tapa na boca, vendo que tocava num assunto levemente delicado para um dos presentes. Por sorte, Rin não havia notado. Caso contrário, certamente começaria a fazer perguntas que o grupo não saberia ao certo responder.

- Claro que não! – e Inuyasha retirou-se do aposento, batendo a porta sem cerimônias. Ninguém protestou quanto à sua grosseria: já estavam acostumados.

- Sesshomaru... doko ni iru...

Inuyasha sentou-se no chão, um pouco afastado do lugar onde ficava a cabana de Kaede. Na verdade, inicialmente ele pensou em ir procurar por Sesshomaru, exatamente como Sango havia dito. Porém, pensando melhor agora, isso não mesmo iria fazer muita diferença. Se ele não quisesse vir, não havia meios de arrasta-lo até a vila.

- Não entendo, não entendo. – ele repetia baixinho para si.

Sesshomaru parecia realmente que se importava com a menina. E, de repente, não aparecia. Se ele fosse tão irresponsável assim, esse, definitivamente, não era o meio irmão que Inuyasha conhecia. Ele era mau e tudo, mas parecia ter algum juízo metido naquela cabeça assassina.

Bem, agora não era hora de reflexão. E, além disso, Inuyasha não tinha moral nenhum para contestar Sesshomaru.

Eis que, no momento exato em que ia embora do local, quem aparece? Aquela silhueta metida e cheia de si, como Inuyasha definia, era fácil de se reconhecer mesmo que passassem cem anos. Como se adivinhasse os pensamentos não só de Inuyasha, mas de todos as novas "babás" de Rin, Sesshomaru surgia caminhando pelo gramado, serenamente. O mais sinistro era que o hanyou sentia que o capim quase que se curvava perante ele. Como o youkai conseguia todo aquele prestigio fazendo absolutamente nada era um dos grandes mistérios da vida.

- Sesshomaru! – berrou Inuyasha, que achou que o irmão ao menos explicaria a razão de seu atraso.

No entanto, Sesshomaru nem se dignou a parar. Apenas dirigiu-se calado até a cabana de Kaede, um pouco à frente. Inuyasha fraziu a sobrancelha, meio irritado, e fez bico.

- Metido.

- Kagome, Kagome no naka no tori wa...

- ... itsu itsu deyaru. Yoake to ban ni.

- Tsuru to kame to subetta. Ushiro no shoumen...

- DARE!

Uma criança, que estava no meio da roda, grita – é a Kagome!

Kagome ri divertida e assume o lugar da outra, agachando-se de olhos fechados no centro da roda. Era interessante ver como Rin se enturmava fácil com as pessoas. Só foi sair um pouco, conversar um pouco, e ela já estava brincando com as crianças do vilarejo. Pode até parecer estranho, devido às procedências da menina, mas ela gostava demasiadamente de falar. Conversava pelos cotovelos! Kagome quase não conseguia acompanhar o seu ritmo.

Eles estavam brincando de uma brincadeira que a colegial havia trazido de seu tempo. Kagome aprendera a jogar dela quando ainda era uma garotinha de seis anos, e não imaginava que o faria de novo. Especialmente porque seu irmãozinho não mostrava nenhum interesse nela. A turma fazia uma roda, segurando uns nas mãos dos outros e cantava a simpática cantiga infantil enquanto giravam em volta de uma pessoa escolhida. Esta, que ficava no meio, deveria adivinhar quem havia parado atrás de si, ao final da musiquinha. E, por alguma razão não revelada, Kagome perdia em quase todas as partidas! As crianças nem faziam muito esforço para pensar quem estava atrás delas: se considerarmos fatos matemáticos, em 99,97% das vezes era Kagome.

- Assim não dá, Kagome-chan! – fala um menino pequeno, entre risadas.

- É verdade! – concordou uma das meninas do grupo, da mesma idade de Rin.

- Vai ver eu não nasci pra ganhar todas! – Kagome replica, tentando explicar com bom humor suas derrotas consecutivas. Entretanto, nem dá muito tempo para ela respirar. A garota logo interrompe a fala e arregala os olhos, surpresa.

- O que foi, Kagome-chan...? – a pequena Rin pergunta. Curiosa para ver o que estava acontecendo com a colega, Rin, que estava de frente para Kagome, se vira e olha na direção do olhar dela. E lá estava Sesshomaru.

Os olhos de Rin pareciam estar prestes a derramar lágrimas, de tanta alegria. A menininha abre um sorriso de orelha a orelha e vai ao encontro dele, deixando para trás todos os novos amigos e Kagome, como se os esquecesse por um minuto. Estava feliz como nunca!

- Sesshomaru-saaaamaa! – diz, enquanto corre para tentar abraça-lo. Mas, como era bem mais baixa que ele, só consegue abranger as longas pernas do rapaz.

As crianças que brincavam com Rin não pareciam estar tão contentes como a mesma. Começaram a se distanciar assustadas desde que Sesshomaru havia se aproximado, e ficaram pasmas ao ver que sua amiga Rin, tão pequena e frágil, se relacionava com aquele moço. Um youkai. Youkais são sempre perigosos, já diziam seus pais. Então, por que diabos ela não tinha medo dele?

- Rin, você está melhor? – perguntou Sesshomaru, indiferente ao fato de que Rin estava agarrada – e não parecia ter muitas intenções de soltar – às suas pernas.

Vendo assim, até dava a impressão de ele estava realmente se importando com ela. Mas ele não demonstrava nenhuma emoção ao proferir as palavras, deixando parecer que as dizia por pura obrigação. Rin, ao contrário, respondeu animada:

- Sim, sim! Rin está muito melhor, graças a Kagome-chan!

Sesshomaru lança um olhar de canto de olho para Kagome, que sorria sem graça sentada ao chão junto às crianças espantadas. Pelo visto, estava bem satisfeito com os cuidados que a garota havia dispensado a Rin.

- Rin.

- Sim, Sesshomaru-sama!

- Eu quero andar.

- Ih, – Rin ri divertida e passa a mão pelos cabelos. Bem que queria ter ficado abraçada a ele para sempre, mas já que Sesshomaru insistia... – desculpa Sesshomaru-sama!

N/A: Terceirão! Demorou, mas saiu. Caramba, nesse capítulo foi um tal de "chan", "sama", "chan", "sama" que me deixou tontinha. A frase do Inuyasha, "doko ni iru", significa português "aonde você foi?". Eu não faço a mínima idéia de porque a usei! Tsc, frescura mesmo ^_^x Continua o mesmo esquema de sempre: sugestões serão bem vindas, assim com as críticas ^o^ (obs: a canção que coloquei é a famosa música do nome da Kagome, – Kagome, Kagome – que descobri numa fita aqui em casa. Eu a coloquei porque não conhecia nenhuma outra música de criança em japonês... ^_^u)

Diana Lua: Pois é, esse é um dos meus problemas. Sabe que é meio involuntário essa coisa de mostrar os pensamentos? Eu ainda tenho muuuito a aprender ^_^ Mas, mesmo assim, que bom que você gostou!

Naki : Adorei seu email ^.^ O nosso fic sai ou não sai?

Camila: Nossa, lindo o desenho dele que você me mostrou! Sinto muito Mila, mas o futuro da solteirice do Sessho ainda é incerto XD quem sabe se eu jogar cara ou coroa, pra decidir...

Kiki-chan (sessh/kag? ^_~'), Laís, Kamyle, Madam Spooky e Misaozinha: Valeu o apoio ^_^V

Sayo (jessicasatie .br). ICQ: 207392453 (vou tentar aparecer por lá... "XD)