A gripe.

Capítulo 4 ~ Você.

Quando Sesshomaru havia chegado na cabana de Kaede, batera educadamente na porta, mostrando a tona toda a sua polidez, e esperara alguma alma boa atende-lo. O interessante era que essa "alma boa" tinha nome: Rin. Esperava que ela viesse correndo em sua direção, mais do que feliz por encontra-lo, que começasse a dizer o bando de bobagens sentimentais que ela sempre dizia. Sim, isso o deixaria satisfeito. Muito embora não tivesse pensado ainda se iria retribuir o gesto ou não.

Provavelmente ela o abraçaria também. Um daqueles abraços de mamãe urso, bem apertados, que se ele não fosse anos mais velho, com certeza o levaria ao chão. Preparou-se para isso também. E esperou. Esperou... Malditos. Será que ninguém vivia naquela residência?

Esperou até que, finalmente, algum ser vivo apareceu. Sesshomaru viu a cabeça de Sango surgir para o lado de fora, parecendo bem sonolenta. A garota devia estar dormindo ou coisa assim, porque encontrar cara mais amassada que aquela parecia impossível. Ela perguntou se ele queria saber de Rin. Lá com seus botões, Sesshomaru pensou em como aquela pergunta era estúpida. Suspirou com desdém e respondeu que sim. Claro, era mais que óbvio que ele viera ali para ver Rin. Senão, para que ele teria sacrificado suas energias indo até aquele antro de humanos? Para fazer turismo, é que não.

A moça respondeu que a menina estava brincando. Onde e com quem, Sesshomaru teve vontade de perguntar. Porém, não o fez. Sango apenas acrescentou, parecendo adivinhar o que Sesshomaru pensava, que era com as crianças da vila e que Rin se encontrava um pouco mais à frente. Apontou, logo em seguida. E Sesshomaru seguiu para o tal lugar. Pelo jeito, era evidente o seu apreço pela criança.

Isso não era nada bom. Não para Sesshomaru e sua reputação.

Antes de atingir a vila, o youkai tinha a intenção de levar Rin embora assim que a visse. Quem sabe, se mantivesse o bom humor, até agradeceria a Inuyasha e cia. Essa noite que passara sem ela, apenas com a prazerosa companhia de Jaken, fora aterrorizante. Jaken ficara a noite inteira enchendo sua paciência com conversas inúteis, só para ver se aumentava a sua cotação com Sesshomaru. Só lhe restava então suspirar, desejar que a pequena humana voltasse o mais rápido possível, e rezar para que Jaken calasse a boca. Apesar de viver somente com o monstrinho antigamente, já havia se acostumado com a presença da criança. E, porque não dizer, se viciado.

Tudo ficava imensamente sem graça sem ela por perto. As flores, o céu e a grama pareciam assumir uma cor cinza. Chata, feia e sem nenhuma vida. Lembrava-se dela correndo atrás das libélulas, ato que ainda não conseguiu compreender a razão. Lembrava-se de que elas sempre fugiam da menina, como se ela fosse alguém altamente ameaçador. Provavelmente, aqueles seres ignorantes cuja única vantagem no reino animal era serem dotados de longas asas não sabiam o quanto a companhia de Rin era prazerosa. Não tinham consciência do quanto ela era gentil e carinhosa com todos.

Já que tocamos no assunto, Sesshomaru também não a tinha. Até a terrível noite passada.

A exterminadora tinha razão. Até que Sesshomaru achou a distância que o separava de Rin curta. E lá estava ela, de pé sobre o gramado. Ou deveriamos dizer "eles"? Rin estava acompanhada por mais algumas cinco crianças. Suas risadas gostosas atingiram até o ouvido exigente de Sesshomaru, que parecia escutar somente o que desejava. Ela estava se virando muito bem... sem ele.

Deixe-me matar Inuyasha, só um pouco... pensava Sesshomaru. Apenas assim gastaria toda aquela tensão por sentir-se, pela primeira vez, excluído da vida da menina.

Rin o viu, largou a todos e abraçou-o, exatamente como havia planejado. Agora sim, tudo estava bem.

Na hora, o frio Sesshomaru quase sorriu. Um riso de lado, satisfeito. Talvez por comprovar o quão previsível eram os humanos, talvez por outras razões. Porém, isso não eliminava o fato de que seus lábios experimentavam contrair-se pela primeira vez em um sorriso não-sarcástico.

Sesshomaru sente um olhar quente pousar sobre o seu ombro. Profundamente incomodado, olhou de lado para ver quem era. Era Kagome, a humana do Inuyasha. O que aquela garota fazia olhando-o? A colegial, vendo-se descoberta, apenas sorriu sem jeito.

- Crianças, – disse ela, levantando-se – os seus pais devem estar preocupados, acho melhor encerrarmos a brincadeira por hoje.

Um sonoro "ahh" de decepção toma o lugar dos sorrisos das crianças. Uma delas chegou a comentar que a razão por trás de concluir a brincadeira daquele dia eram as perdas de Kagome no jogo... Mas nada disso pareceu convencê-la.

- Até amanhã! Tchau Akemi-chan! Tchau Yoichi-chan! – Rin despediu-se de todos os amigos, mesmo não sabendo se os iria encontrar no dia seguinte.

- Ahhh, até que enfim as dondocas resolveram chegar!

Inuyasha, só para variar, resmungava como nunca da demora dos outros. Ficava ainda mais irritado quando, no grupo dos atrasados, se encaixava Kagome. Até parece que ele nunca se atrasou na vida, pensava Kagome, revoltada.

Kagome e Rin entraram na cabana, ainda achando graça da recepção calorosa de Inuyasha, aonde o próprio tinha as duas mãos na cintura, lembrando uma esposa ciumenta recebendo o marido após o trabalho.

E os mesmos olhos dourados brilhantes que já fitaram Kagome com carinho toparam com Sesshomaru, que passou por sua frente sem nenhuma cerimônia. Sem ao menos cumprimentá-lo. Sem ao menos desculpar-se por tê-lo feito esperar. Ah, aquilo era o fim da picada!

O olhar arregalado e as mãos quase trêmulas delatavam que Inuyasha havia sido surpreendido, e não gostava nada nada do que via. "Ele ainda não foi embora...!"

- Bem, eu gostaria de ir embora agora. – disse Sesshomaru, seco como sempre.

- Embora? Ah, não... ú.ù

Sesshomaru olha para Rin. Que trajes eram aqueles que ela estava usando? Uma coisa estranha, de cor vermelha, com algumas palavras incompreensíveis gravadas no tecido... Certamente, não era o quimono que ELE havia dado à ela, como um presente de boas vindas. O quimono era muito mais bonito!

- Rin-chan não quer ir embora agora...

- Escute, nós precisamos ir agor -

- Deixe ela ficar mais um pouco, Sesshomaru. – pede Kagome, calmamente.

A humana o havia interrompido. Ninguém, além de Rin, havia ousado fazer isso antes; nem mesmo Inuyasha, o que mais fazia questão de mostrar que era forte. Todos o temiam, mas a humana não...! Se não estivesse tão grato pela boa recuperação de Rin, a cortaria em mil pedaços, só para a mulher aprender a respeitar um youkai.

- ... não.

Rin faz cara de choro e puxa a manga de Sesshomaru. – Por favor?

- A resposta já foi dada.

Um vento gélido circula entre o ambiente, remexendo a folha das árvores e levantando a poeira do chão. O céu, antes preenchido por um azul vivo e brilhante, assume aos poucos um tom levemente acinzentado, e as nuvens que pairavam acima das cabeças de Kagome, Inuyasha, Rin e Sesshomaru são quase negras.

- Isso é você de novo, Sesshomaru? – diz Inuyasha, ironicamente.

O som de passos guia as atenções de Kagome e Rin para outro lado. Sango e Miroku aparecem do nada, correndo da chuva como dois criminosos correm da polícia. Inuyasha e Kagome acham graça na cena: Miroku, com o braço passado pelos ombros de Sango. Eis uma situação digna de suspeita.

- O que estão fazendo por aqui ainda? – Miroku resmunga, notando que nenhum dos amigos se moveu. – Entrem, entrem! Vai cair o maior toró!

- Eu também ainda não sei o que vocês estão fazendo aqui fora. – fala Sango, nem um pouco desconfiada da malícia dos outros dois.

- Ei gente, cadê o Shippo-chan? – pergunta Kagome.

A pergunta age como um estalo em Miroku e Sango – É MESMO! – gritam eles, ao mesmo tempo. As primeiras gotas de chuva começam a cair e nada de ninguém entrar na cabana.

- Feh! Não me digam que estavam muito "ocupados" e esqueceram do filhote de raposa!

BRUM! Um trovão dá o alarme de que a chuva iria engrossar.

- Ai meu deus do céu todo misericordioso! É o fim! Socorro, Inuyasha!

- Por deus, Kagome, pare de gritar! – repreende Inuyasha, com as mãos protegendo os ouvidos.

- Depois eu que sou a criança. Olha só pra vocês!

A vozinha esganiçada e zombeteira era bem familiar. Só podia ser...

- Shippo! Não me diga que você tava aí esse tempo todo!

A raposa, que já se encontrava dentro da cabana de Kaede, apenas ria da zona em que os amigos estavam metidos. Shippo ainda não sabia ao certo porque aceitara o convite de ir passear com Miroku e Sango... os dois não deram a mínima para ele durante todo o trajeto! Estava tão chato e meloso que a engenhosa raposinha resolveu dar um "susto" no pessoal e se esconder na cabanda. Pelo jeito, o plano saiu impecável.

E foi naquele momento em que todos lembraram de que Sesshomaru e Rin estavam com eles. Os dois, ignorados por todos, ficaram num canto até que finalmente foram notados.

- Pra mim chega de baixaria; eu vou sair daqui já. – disse Sesshomaru, pegando na mão de Rin e puxando-a para seu lado.

- Mas não vai mesmo. – indaga Kagome, se enfiando no caminho de Sesshomaru – Você quer que a Rin-chan pegue chuva e fique gripada de novo? Vá por mim, é melhor ficar aqui até a chuva passar.

- É, Sesshomaru-sama!

Todos estavam contra ele. Pensou em dizer não, mas também pensou na cara que Rin provavelmente faria. E, com a expressão mais imparcial do mundo, Sesshomaru, pela primeira vez na vida, perdia uma batalha - ... até a chuva passar, então.

N/A: Bléé, esse capitulo, definitivamente, não adicionou nadinha mesmo. Mas sabe como é, eu não podia deixar o fic com teias de aranha, que nem faço sempre... Antes um pássaro na mão do que dois voando! :P *sorrisinho amarelo* Juro que o próximo vai ser bem melhor u.u (Importante: eu não vou mais ter prova!)

Sayo, que agradece a todos os reviw caridosos deixados por aqui ^_^