Uma sombra surge ao longe... os Fanfic readers olham ,esperançosos... e se perguntam... será ela com a continuação da fic?

A sombra se transforma em vulto, a medida em que se aproxima e o vulto se transforma na silhueta de uma pessoa... era ela? Era ela?! É ELA! Mas...

Quando a autora se aproxima o suficiente, todos percebem que ela está usando uma armadura medieval... todos olham-na, assombrados... O.ò

Levantando o elmo para falar: Olá, pessoas!

Depois de convalescer em um hospital por três meses por causa da impaciência de vocês, eu resolvi que, tendo me atrasado um pouquinho do prazo que estipulei anteriormente (até o natal, lembrem-se!), era bem possível que vocês quisessem me matar de vez... ¬¬... então resolvi me precaver e importei essa maravilha de armadura direto da idade média (não me perguntem como!) por uma pechincha (também não me perguntem quanto foi!)

Já faz um tempinho que eu terminei esse capítulo, só não postei antes por que estava tentando vestir a armadura ( o manual de instruções estava em inglês arcaico, aí tive que importar um dicionário também)... Mas, enfim, aqui estou eu, com mais um cap...

Antes que a autora terminasse de falar, os readers, que já estavam de saco cheio de tanto esperar, avançaram, querendo realmente ler o capítulo. Ela só teve tempo de abaixar o elmo e se segurar como pudesse, tentando dizer, sendo arrastada e pisoteada...

Ai... o disclaimer... ui... SOCORRO!

Só para informar: CCS, Pierce Brosnan, "Celtic Night" e Matrix não pertence a autora... ela só pegou emprestado.

¬¬"

Capítulo 22 – Breathe...

Escrito por: Cherry hi

Revisado por: Yoruki Hiiragizawa

'

Can you help me unravel my latest mistake

Você poderia me ajudar a solucionar meu ultimo erro?

CRASH

Sakura havia deixado a xícara cheia de chá cair. Devagar, o líquido quente foi se espalhando pelo chão, mas os dois nem repararam na sujeira que ela havia feito. Contudo, o barulho pareceu acordá-los de uma espécie de transe. Shaoran olhava-a com um misto de confusão e impotência, como se fosse alguém que criara muita coragem para fazer algo e, agora que começara, não sabia mais o que fazer. Sakura o fitava assustada e ofegante. Repentinamente, ela bateu a porta, com força, na cara dele.

A moça respirou fundo, tentando se controlar, tentando acalmar o coração que parecia bater a mil. Seu primeiro impulso foi fugir, mas para onde? Estava na única porta que dava acesso a sua casa e era justamente ele quem estava do outro lado, no corredor...

Desejou que ele fosse embora, desejou que ele desaparecesse, por tudo o que ele a havia feito passar... mas desejou também abraçá-lo, beijá-lo e perguntar a ele por quê?! Por que ele havia ido embora e a deixado sozinha, sofrendo, abandonada? Aí quis dar-lhe um tapa e então chorar, apenas chorar...

Tudo se misturou dentro dela e ela abaixou o olhar, encostando a testa na porta. Olhou para o próprio ventre e subitamente lhe ocorreu que estava grávida e que aparecera na frente dele! Perguntou-se, alarmada, se ele havia notado alguma coisa... talvez não, afinal, estava usando uma suéter bem folgada. Esperava, do fundo do coração, que ele não tivesse percebido nada, pois seria algo que teria que explicar a ele... e enfrentá-lo era última coisa que queria.

- Sakura, abre essa porta! - veio a voz dele, abafada, mas bem próxima, como se ele também estivesse encostado do outro lado - Nós precisamos conversar!

Sakura esqueceu-se de tudo: da conversa com Yelan, da nova opinião de Meiling sobre o rapaz. Dentro dela, era como tivesse sido ontem o dia em que ele dissera que tudo havia acabado. A dor sufocou a pequena brasa de esperança que havia nascido em sua alma. Percebeu que não estava preparada para vê-lo... talvez nunca estivesse! E, por isso, ela gritou, com a voz esganiçada, esforçando-se para não chorar:

- Vai embora! Não temos nada o que falar!

- Temos sim! Você sabe que sim! - ele volveu, com a voz transparecendo um pouco de irritação - Por favor, Sakura, abre essa porta!

- Você deixou bem claro o que pensava oito meses atrás, se me lembro bem! Não quero ver você nunca mais!

Ela escutou um muxoxo, seguido pelo rugido furioso:

- Sakura, se você não me deixa entrar eu... eu...

- O quê?! Vai assoprar até a casa derrubar?! - a moça disse, sarcástica.

- Certamente que não, minha cara, mas obrigado por me dar a idéia! Vou derrubar a porta se você não me deixar entrar!

- Quero ver você tentar!

O que se seguiu foi um instante de silêncio e, então, ela escutou passos se distanciando. Com uma sensação de tristeza inexplicável, ela pensou que ele havia desistido, mas... o que houve foi um estrondo tão forte que quase a derrubara. Uma das dobradiças da porta cedeu um pouco do batente.

- O que você está fazendo?! - gritou ela, assustada.

- Derrubando a porta! E pode crer que eu o farei, mas seria muito melhor se simplesmente me deixasse entrar!

Sakura ainda cogitou seriamente a idéia de deixá-lo arrombar mesmo a porta, porque duvidou por um instante que seria realmente capaz de fazê-lo, mas um outro estrondo forte a convenceu que ele REALMENTE estava falando sério. Contrariada e respirando muito fundo, ela abriu a porta e, logo em seguida, afastou-se, como se o rapaz estivesse com alguma doença contagiosa, ficando de costas para ele. Ela o escutou fechar a porta e, devagar, aproximar-se. A cada passo que ele dava, sua respiração tornava-se mais acelerada. Sentiu os dedos trêmulos e amaldiçoou-se por estar tão nervosa.

Ele parou um pouco distante dela e, por alguns momentos, ficou em silêncio, apenas olhando-a, admirando-lhe a silhueta. Parecia que havia engordado um pouquinho, mas quem se importava? Continuava tão linda quanto... quanto naquela época, em que vivera os dias mais perfeitos de sua vida... e simplesmente jogara tudo pelo lixo... tinha que tê-la de volta! Ou, ao menos, fazê-la compreender os motivos dele! Reunindo toda a sua coragem, ele falou:

- Sakura... por favor... olhe pra mim... quero falar com você olhando-a nos olhos...

- Eu já disse a você que não temos nada o que conversar! - ela retrucou, ainda de costas.

- Então... por que me deixou entrar? - perguntou ele, com um sorrisinho.

- Porque você iria mesmo derrubar a porta se não deixasse... mas isso não significa que eu tenha algo a falar com você!

- Você está mentindo!

- Não estou!

- Mas é claro que está! Tenho certeza que está no mínimo curiosa para saber o que eu vim fazer aqui, depois de tanto tempo... e eu também tenho certeza que, se você sente por mim o mesmo que eu sinto por você, está ao menos um pouquinho feliz de me ver! - ela nada respondeu e ele desanimou-se, falando tristemente - Sakura... eu... eu preciso que você entenda os meus motivos... o porquê eu fiz tudo isso!

Sakura virou-se, de uma vez só e falou, sarcástica:

- Você veio para me falar o quê? Que fez o que fez só pra me proteger da sua família? Por quê? Será que eu não era suficientemente boa para ficar a altura daquele clã de velhos gagás?! E o que eu tenho agora que me torna diferente de oito meses antes?!

Só então ela percebeu que ele não prestava a mínima atenção ao que ela dizia. Ele a olhava, com uma expressão, que chegava a ser cômica, de surpresa para o seu ventre avantajado. Sakura percebeu logo que aquela não foi a melhor maneira de "dizer" a ele que estava grávida, ainda mais quando ele levantou o olhar chocado, incapaz de dizer uma só palavra. E ela acabou virando de costas outra vez. Depois de muito tempo, ouviu o rapaz balbuciar:

- Sakura... o que... você...

Parecia ter perdido a capacidade de juntar palavras para fazer uma frase inteira, então ela resolveu ajudar, embora de maneira cortante:

- É... estou grávida sim! Mas isso não vem ao caso!

Ele pareceu subitamente recompor-se, pois logo em seguida ela sentiu um puxão em seu braço e o encarou, desafiadora, enquanto ele dizia, irritado:

- Você por acaso enlouqueceu?! É claro que isso vem ao caso! Você esperando um filho meu! - ele parou por uns momentos e Sakura, adiantando a pergunta que se formulava no rosto dele, indagou-se se ele realmente teria coragem de perguntar. Ele teve. - Sakura... o filho que você está esperando é meu, não é?

- Não! É do Pierce Brosnan! - ela respondeu, sarcástica, com a voz estridente, ao mesmo tempo que se esquivava do toque dele e sentava-se no sofá - É claro que é seu! Não fiquei exatamente a fim de ter relacionamentos com qualquer homem depois que você me largou!

Ele pareceu não prestar atenção nessa última parte. Parecia estar atordoado, como se tivesse acordado com um balde de água gelada, olhando fixamente para o tapete. Por alguns segundo, Sakura apenas o observou, com um olhar zangado, mas, por mais que tentasse se manter impassível, ela não deixou de registrar que ele parecia mais magro que o normal... o cabelo parecia não ser cortado há muito tempo... e, talvez, nem penteado também. Havia uma sombra bem rala de barba por fazer que, embora não fosse de todo desagradável (chegava a até a ser atraente), dava um aspecto de descuido... por um momento, ela baixou a guarda e perguntou-se se aquele não seria um sinal de que ele também sentira o impacto de se separarem, mas logo se refez: sentisse o que estivesse sentindo, fora ele quem quisera terminar tudo! Pensando dessa maneira, ela conseguiu acalmar um pouco o coração e continuou a fitá-lo, com frieza.

Se ela estava confusa, não poderia sequer imaginar o verdadeiro caos em que se encontrava o rapaz. Durante todos aqueles meses longe, ele tentara desesperadamente esquecer o sorriso, o olhar, a voz, o calor do corpo dela... tentava negar para si próprio, mas sempre soubera que seria impossível. Seu amor estava marcado a fogo no peito. E... depois da discussão que tivera com Meiling em Hong Kong, sabendo que as coisas não saíram do jeito que ele esperava, demorara todos aqueles dias para ir falar com ela, reunindo toda a sua coragem para vê-la, cara a cara, mas... para quê? Para lhe pedir perdão? Implorar para que eles voltassem, pois ela era única pessoa que realmente o entendia e o amava por ele mesmo?! Ou viera para pedir que ela o esquecesse de vez? Fazê-la entender o porquê de ter acabado com tudo...

Mas agora...

Tudo estava ainda mais complicado. Porque ia ser pai!

Só de pensar que a mulher que amava estava carregando um filho seu fazia seu coração bater de uma maneira completamente diferente de tudo que já sentira antes, em um misto de excitação, nervosismo, expectativa, como ondas num vai e vem contínuo de sentimentos estranhos, mas que não eram, de forma alguma, ruins...

Com uma voz muito distante, ele perguntou:

- Para quando... quero dizer... quando é que o bebê vai nascer?

- Hoje, amanhã, daqui a uma semana... - Sakura deu de os ombros, indiferente - Já estou com nove meses, embora fosse de se esperar que você se lembrasse de quando aconteceu!

Ele nem ligou para a indireta sarcástica, apenas repetindo, suavemente:

- É... nove meses.

Shaoran estava estático. Um sorriso formou-se quase involuntariamente em seu rosto, um sorriso de incredulidade e alegria. Passou as mãos pelos cabelos, os olhos fixo no ventre avantajado dela. Ia MESMO ser pai! Iria realizar o sonho de carregar uma crianças em seus braços! Sua criança! Seu e dela!

A felicidade que sentia foi, então, repentinamente varrida de seu corpo por uma terrível constatação. O sorriso desapareceu de seu rosto e sua expressão asseverou-se, as sobrancelhas tão juntas que pareciam uma só. Pela primeira vez, desde que haviam se reencontrado, ele pareceu aquele mesmo Shaoran-chefe-carrasco de outrora. Ele perguntou então, com a voz carregada de aborrecimento:

- Espera um momento... e quando a senhorita iria me dizer isso?

- Isso o quê? - fez-se de desentendida, olhando para as unhas com indiferença calculada.

- Ora, o que mais, Sakura - ela sentiu a pele se arrepiar à menção do seu nome, mas não deixou transparecer. - Eu quero saber quando você iria me contar que vamos ter um bebê!

- Mesmo que eu fosse lhe contar, coisa que não ia fazer, eu nunca poderia adivinhar onde encontrá-lo para deixar um recado na sua secretária eletrônica e dizer "estou esperando um bebê! Volte para o Japão e me traga um chaveirinho da Alemanha!"

- Como assim "não me pretendia me contar"?! - ele exclamou, atônito - Pretendia criar nosso filho sozinha?!

- Ai, Shaoran, você é tão antiquado! - ela falou, rolando os olhos. Só então reparou que, pela primeira vez em oito meses, ela falava o nome dele. Aquilo baixou sua guarda e, quando seus olhares se encontraram, ela pode sentir aquela mágica que os unia renascer timidamente. Antes que um dos dois pudesse tomar alguma atitude impensada, ela desviou o olhar e continuou - Eu posso muito bem cuidar da minha filha, sem a ajuda de ninguém.

- NOSSA FILHA! - ele a corrigiu, enfático. Só então, ele se tocou, parecendo que havia levado um soco. Então... gaguejando, ele quis confirmar - Filha... m-menina? Vamos ter... u-uma menina?!

A expressão de surpresa dele era tão cômica que Sakura acabou por sorrir contra vontade. Ela olhou para o ventre avantajado e pousou a mão ali, dizendo:

- Sim... será uma menina.

Como se soubesse que estavam falando dela, a criança se moveu e Sakura sentiu uma dorzinha perto das costelas. Ela já estava completamente virada de ponta cabeça, na posição ideal de parto, conforme Eriol lhe dissera e, de vez em quando sentia ela chutar forte contra sua pele , causando uma pequena dor que não era nada ante a alegria que a menina lhe trazia...

A mão dele cobriu a sua. Estivera tão imersa em seus próprios pensamentos que não percebeu que ele aproximara. Onde ele tocara estremeceu, percorrendo como uma onda elétrica o resto do seu corpo, acelerando o coração e enchendo seus olhos de lágrimas. Ela levantou o rosto para ele, pronta para pedir que ele se afastasse, mas não pôde: ele não olhava para seu rosto e sim para seu ventre, como se hipnotizado, distraído, arrebatado. Lentamente, ele se abaixou, tocando os joelhos no chão. Ela o assistia silenciosa, porque embora sua razão mandasse que ela se afastasse, as palavras não encontravam o caminho dos lábios. Ela o viu e sentiu apertar a sua mão suavemente e dali tocar seu abdômen, causando novas avalanches de emoções contraditórias. A mão dele deslizou por toda a extensão do ventre, quase como se quisesse atravessá-lo e tocar na filha. Devagar, ele diminuiu a distância e encostou o rosto ali, fechando longamente os olhos, com uma expressão de indescritível felicidade. Ela, por sua vez, sentiu todas as suas defesas caírem e, embora tivesse prometido a si mesma que não choraria mais, as lágrimas há muito rolavam pela sua face, caindo quentes nos cabelos rebeldes dele, enquanto a abraçava, com força.

Here in town you can tell he's been down for while

Aqui na cidade, você pode perceber que ele esteve triste

But my God it's so beautiful when the boy smiles

Mas, meu deus, é tão bonito quando o garoto sorri,

Wanna hold him but maybe I'll just sing about it

Quero abraçá-lo, mas talvez eu apenas cante sobre isso

Uma chuva suave começou a cair, ficando mais forte a cada gota que batia no vidro da janela, transformando-se em uma torrente constante. Mas os dois nem perceberam, presos naquele momento. Quanto tempo ficaram ali? Poderia ser um minuto ou um século, presos um ao outro por uma força invisível, tão... poderosa quanto irresistível. As lágrimas corriam pelo rosto da moça, enquanto uma sensação de indescritível arrebatamento tomara conta de seu coração, empurrando as dúvidas, a mágoa, tudo para bem longe dela, nem que fosse somente naquele instante. Por que tinha que amá-lo tanto?! Por quê?! Inconscientemente, suas mãos se moveram, ansiosas, para tocá-lo. Quando já estavam muito próximas dele, pararam... mas como poderia perdoá-lo?!... Seu coração implorava que o perdoasse, mas a razão lhe dizia que era melhor não. E o medo de ser magoada profundamente outra vez reforçava o conselho de sua consciência. Juntando todas as suas forças, conseguiu dizer:

- Shaoran... por favor... me largue.

Ele pareceu despertar de um longo sono. Por alguns segundos, ele não se mexeu, e então, vagarosamente, ele se desvencilhou dela, mas não se afastou. Eles se fitaram durante um longo tempo. Os olhos dele expressavam uma série de emoções que ele não conseguia conter... e era óbvio o quanto ele sofrera pela distância e o quanto ainda sofria... Sakura captou o desejo entre essas emoções e ele pareceu perceber isso. Devagar, ele começou a diminuir a distância entre seu rosto e o dela... ela entrou em um estranho estupor. Era isso que queria... era isso que tanto desejava... sentir os lábios dele sobre os seus... o calor do toque, do abraços. Ela queria tanto...

Mas não podia deixar!

Embaraçada e reunindo o que restava de sua força de vontade, ela desviou o rosto, fechando os olhos. Mesmo não podendo ver, ela sentiu a frustração dele e o ouviu afastar-se dela e só então achou seguro reabrir seus olhos. Uma lágrima teimosa escorreu pelo rosto e deu-se conta que estava chorando novamente quando prometera a si que NÃO MAIS choraria por ele. Começou a enxugar a face, esfregando com força o dorso da mão. Ele somente a observava, atento a cada detalhe. A dado momento, perguntou, no tom que lembrava alguém que havia sido derrotado em uma batalha:

- Você... realmente não iria me contar, Sakura?

Ainda sem fitá-lo, ela falou:

- Já lhe disse que não... mesmo se eu pudesse... se eu soubesse... onde você estava.

- Mas... por quê?

- Quer mesmo que eu diga com todas as letras? Você me abandonou, Shaoran! Me deixou! Não me quis mais!... Será que precisarei repetir de outras maneiras ou já ficou claro para você?

Não falara com ímpeto ou mesmo raiva, pelo contrário, sua voz estava apática, vazia de sentimento e, ouvir aquelas palavras, ditas daquela maneira, causou nele uma terrível inquietação. Falando rápido, ele disse:

- Não, Sakura! Eu não te abandonei!

Ela o olhou, incrédula, sem poder acreditar que ele a contradizia com tamanha cara de pau. Sarcástica, ela perguntou:

- Então, o que você chama aquilo que você me fez?! Uma retirada temporária estratégica?! Ou existe algum outro termo para isso?! E mais: eu nem comecei a falar daquilo que você me fez sentir! - ela cruzou os braços e o encarou, furiosa - Pensa que eu não sei o que você andou aprontado nesses últimos meses?! Meiling andou me contando algumas de suas histórias! Como você ousa achar que eu simplesmente abriria meus braços e me jogaria a seus pés depois de tudo isso?!

Inesperadamente, ele abriu um sorriso e perguntou, com ternura:

- Isso por acaso é ciúme?

Ela piscou os olhos, surpresa, e, mais uma vez, percebera que sua boca falara demais. Desviou o olhar e passou a fitar os próprios joelhos. Depois de um minuto de silêncio, ela falou, com tristeza:

- É... é ciúme sim. É ciúme porque, mesmo depois de tudo o que você me fez... eu não consigo... deixar de te amar.

As últimas palavras foram ditas num sussurro.

- Sakura...

Ela recusou-se a fitá-lo. Sabia que, se o fizesse, choraria ou se entregaria de vez. Ele lhe chamara pelo nome e, na sua voz havia um misto de desespero, tristeza e carinho. Não soube como pudera distinguir tantas emoções e nem quis saber como. Rápida, antes que ele pudesse falar mais alguma coisa, ela tratou de completar:

- Mas entenda que, mesmo te amando tanto, é impossível para mim perdoá-lo... só de pensar que você pode me magoar de novo... é... é muito doloroso! Não posso viver com isso! Não posso.

Ele se sentou, olhando-a com uma intensidade desesperada. Por três vezes, ele pareceu articular alguma coisa, mas o som não saia do seus lábios. Finalmente, ele conseguiu se expressar:

- Eu... nunca... nunca quis que você sofresse tanto! Sakura... você não tem idéia do quanto foi terrivelmente doloroso pra mim... te deixar... saber que nunca mais iria te beijar, te abraçar, ouvir sua voz ou olhar em seus olhos... mas eu... eu... Céus... quero tanto que você entenda.

"É você quem não entende!"

Aquela odiosa frase, dita naquele dia terrível, voltou à tona na cabeça de Sakura, fazendo-a lembrar de todo o sofrimento que passara naquele dia, fazendo-a sentir uma raiva repentina e irracional. Ela levantou-se tão rápido que quase se desequilibrou. Surpreso, ele também se levantou e quis apará-la, mas ela gritou:

- Não ouse me tocar! Nunca mais! - ela o fuzilou com o olhar - Você diz que quer que eu entenda, mas é impossível. O que você fez foi imperdoável para mim! Shaoran, eu te amava tanto! Era louca por você, faria qualquer coisa por você... E como você retribuiu a minha... "devoção"?! Indo embora! Não confiando em mim! Achando que seria fácil pra mim...

Parou no meio da frase. O que adiantaria discutir? O que adiantaria ficar com raiva? Voltou a sentar-se. respirou fundo e disse:

- Eu... quero que você vá embora, Shaoran!

- Eu não vou embora! - ele retrucou, com uma firmeza repentina - Não posso Sakura... você precisa... compreender que eu tentei fazer o que achava que era certo... o que era melhor para você.

Sakura sustentou o olhar, disposta agora a não fraquejar. Os olhos dele estavam confusos, tristes. Subitamente, ela lhe perguntou, com vagar:

- Shaoran... o que teria acontecido se você tivesse descoberto que eu estava grávida... antes... de ter partido?

Pela expressão que viu em seu rosto, ela entendeu que ele nunca havia pensado nessa possibilidade. Por muito tempo, ele ficou calado, mas, a dado momento, começou a andar de um lado para o outro, como se fosse incapaz de ficar parado. Por fim, ele falou, com a voz fraca:

- Eu... teria... ficado.

Sakura baixou a cabeça, sentindo as lágrimas chegarem a seus olhos e permitindo-se chorar, porque era muito doloroso escutá-lo falar aquilo.

- Então... você ficaria pelo bebê... e não por mim, é isso?! - ela falou amarga, sacundindo os ombros - Por mim, você não ficaria... mas por ela... - apontou para o ventre - você ficaria!

Shaoran pôs as mãos na cabeça:

- Sakura, tente entender, por favor! É muito complicado! A questão não é ter ficado por você ou por nosso bebê. Tudo muda quando uma criança está no meio do jogo! Ela não teve nada a ver com o que aconteceu. Seria justo, se eu nunca tivesse voltado, que ela crescesse sem o pai? - Sakura deu uma fungada forte, mas nada falou, limitando-se a fitá-lo com um olhar raivoso - E quando ela crescesse e perguntasse por mim, o que você diria? Não, seria muito injusto para a nossa filha!

- Quem é você para falar de injustiça, Shaoran! Veja o que você está dizendo! Você fala que ficaria, assumiria tudo pelo bebê, mas por mim você iria embora!

Ele balançou a cabeça, como se não acreditasse que ela pudesse ser tão obtusa, o que somente fez com que ela ficasse com mais raiva ainda. Ela gritou - Você diz que queria me proteger, mas você já pensou no escândalo que seria quando descobrissem que você engravidou a secretária?! Seria o furo do ano! E nossa filha cresceria escutando a história sórdida que provavelmente inventariam!

- E o que você queria que eu tivesse feito então?! - gritou ele, exasperado.

- TINHA QUE TER FICADO COMIGO! CASADO COMIGO! EU NÃO TERIA ME IMPORTADO, NOSSO BEBÊ NÃO TERIA SE IMPORTADO, SE O PAI TIVESSE SIDO CORAJOSO O SUFICIENTE PARA TER ME APOIADO... COM OU SEM PÉROLA! - berrou a moça, furiosa.

Ela colocou as mãos no rosto e chorou. Depois de um longo e profundo silêncio, escutou a voz dele, vinda de muito longe:

- Sakura, você sabe por que eu voltei?

- Não, Shaoran, eu não sei... e quer saber? Eu não estou interessada - ela respondeu, cansada - Por muito tempo, eu imaginei como seria se você voltasse e... eu pensei que teria forças para lhe dizer o que tivesse que dizer... mas não é nada assim... é doloroso demais! Você... me faz mais mal do que bem.

- Sakura...

- Só... vá embora! - ela o cortou, com a voz subitamente sumida. Era doloroso estar com ele... mas era ainda pior mandá-lo embora. Sentiu uma pontada dentro do seu ventre, mas não podia deixar-se abater. Sobrevivera a uma tempestade, poderia sobreviver a outra.

- Eu não posso, Sakura! Não dá... - falou o rapaz, desesperado - Não posso virar as costas simplesmente e deixar você assim!

- Assim como?! Miseravelmente infeliz ou grávida? - perguntou, tendo a intenção de ser sarcástica, mas tendo a voz tomada pela tristeza e amargura.

- Os dois, Sakura! Eu queria que você me odiasse... muito ... me odiasse por tê-la deixado! Tanto que você me esquecesse! Era isso o que eu realmente queria. - falou, segurando-a pelos ombros, completamente abalado - Mas não você não fez isso!

- Difícil, quando você me deixou como lembrança permanente essa bola de basquete na barriga! - dessa vez, ela conseguiu ser sarcástica

- Por isso eu digo que o bebê mudou tudo! Se eu tivesse sabido antes...

- Mas você não soube! E, assim, eu pude ver como você realmente era! - ela falou, levantando-se, ignorando uma outra pontada de dor, indo até a porta e abrindo-a - Agora eu não quero mais nada! Eu abri a porta, te dei uma chance, quando você não merecia e você não soube aproveitar! Vá embora!

Ele foi até ela, mas não saiu. Ao contrário, ele fechou a porta e a encarou, cruzando os braços:

- Não vou a lugar algum! Você só pode estar ficando realmente louca se pensa que eu vou simplesmente ir embora e deixar você e o nosso bebê sozinhos!

- Você acha que eu não dou conta, não é?! - ela perguntou, num tom muito perigoso, de quem se prepara para gritar na próxima palavra.

- Eu não acho, eu tenho certeza! - ele falou, um tanto debochado.

- POIS VOCÊ É UM IDIOTA MACHISTA! NÃO TIVE NENHUMA AJUDA SUA ATÉ O MOMENTO, POR QUE PRECISARIA AGOR-... AAAAAAH!

Ei! Aquilo estava totalmente fora de contexto, pensou Shaoran, confuso. Viu-a curvar-se, levando as duas mãos na barriga. Ele se abaixou, muito preocupado e obrigou-a a encará-lo, embora ela lutasse contra. Ela deu outro grito agudo e sua respiração ofegou. Então ele viu, escorrendo pelo chão e misturando-se ao chá, que continuava derramado perto da porta, o líquido transparente e quente. A bolsa dela tinha rompido. Estava na hora.

- Pelo visto, agora você está precisando mais do que nunca de mim! - ele volveu, meio sarcástico, meio confuso, meio apreensivo...

"

Cause you can't jump the track

Porque você não pode sair dos trilhos

We're like cars on a cable

nós somos como carros num cabo

and life's like an hourglass glued to the table,

e a vida é como uma ampulheta colada na mesa

No one can find the rewind button girl

Ninguém consegue achar o botão para voltar garota...

Tomoyo olhou para o relógio pela segunda vez em cinco minutos. Quem foi que falou que todos os britânicos são pontuais? Olhou mais uma vez para a porta: nem, sinal dele. A moça soltou um muxoxo e olhou em volta: o café estava consideravelmente vazio para uma sexta a noite. Talvez se devesse a chuvarada que caia lá fora, com direito a raios e trovoes, que quase não deixavam as poucas pessoas conversarem ou curtirem a música que saia e duns alto falantes antigos. Tomoyo ainda ligou, quando viu as primeira gotas caírem, se ele realmente ainda queria se encontrar com ela, porém ele dissera que iriam se encontrar, de qualquer maneira... e há quase trinta minutos ela o esperava.

Ela deu um puxão no avental do garçom que passava ao lado de sua mesa. O rapaz se voltou, sorrindo divertido, dizendo antes que ela pudesse abrir a boca:

- Não, srta. Daidouji. Ele ainda não passou pela porta. Ou seja, ainda não chegou.

Ela deu uma espécie de suspiro de frustração. Então falou:

- Ai ai... tudo bem. Então me traz mais um café extra forte, Hitoshi.

O rapaz loiro levantou uma sobrancelha

- Outro?! Mas é o terceiro! Você vai ter insônia hoje à noite.

- Não interessa! Aproveita e batiza com um pouco um pouquinho de uísque.

- Você... bebendo?! - espantou-se Hitoshi, realmente surpreso, balançando a cabeça logo depois - O dia deve ter sido bem ruim, não?

- Os dias! - enfatizou, pensando na prima. Ela olhou casualmente para a porta e então exclamou - Finalmente, ele chegou!

Eriol vinha circundando as mesas, pingando água do guarda-chuva, do sobretudo e dos cabelos negros. Parecia ter acabado de sair de uma piscina. Esbarrou em uma, duas cadeiras e era de se admirar que tivessem sido somente duas, dado o estado em que se encontravam seus óculos. Depois de procurar (franzindo horrivelmente a testa), ele localizou Tomoyo sentada na mesinha que ficava meio escondida, atrás de um arbusto, encostada na parede. Encaminhou-se até ela, tirou o sobretudo ensopado e jogou-o no encosto da cadeira de Tomoyo, fazendo-a se aborrecer um pouco. Depois sentou-se no sofazinho que ficava em frente a cadeira da moça, fazendo ares de grande cansaço. Depois disse:

- Desculpe, Tomoyo. Sei que estou fazendo má figura diante da fama britânica de pontualidade, mas eu fui chamado para fazer um parto de emergência. Nem deu tempo de avisar-lhe que iria me atrasar... ainda bem que não demorou muito.

- Hunf! Só vou perdoá-lo porque foi uma emergência. - a Morena, falou, cruzando os braços e fazendo biquinho.

- Você já comeu alguma coisa?

- Só uma rosquinha.

Nsse momento, Hitoshi voltava com o café irlandês de Tomoyo e virou-se para Eriol:

- Vai querer algo, Hiiragizawa?

- Chá inglês e...

- Torradas com geléia de framboesa. - Completaram juntos Tomoyo e Hitoshi. Eriol levantou uma sobrancelha.

- Sou tão previsível assim?

- Você só pede isso! - Tomoyo rolou os olhos. Hitoshi deu uma risadinha e saiu para atender o pedido.

Eriol espreguiçou-se e encostou-se no sofá, alisando os cabelos com uma das mãos. Com a outra, ele retirou os óculos do rosto. Sem uma palavra, Tomoyo os pegou e os enxugou com um guardanapo. Cenas desse tipo eram comuns para eles. Durante todos aqueles meses em que se conheciam, havia nascido e crescido uma forte amizade que os ligava de uma maneira muito intensa. Eriol, apesar do jeito sério e fleumático, podia ser incrivelmente criança, às vezes. Continuava sendo um conquistador incorrigível, e seus relacionamentos continuavam a ser tão rápidos como no começo da amizade. Tomoyo os chamava simplesmente de "estações" e era a moça, com seu jeito meigo e sensato, que tinha que colocar um pouco de juízo na cabeça dele. Embora, algumas vezes, o caso simplesmente se invertesse: muito sonhadora, principalmente em relação às suas "paixões arrebatadoras", era constantemente chamada a Terra pelo rapaz... pareciam o oposto completo, a água e o vento, o sol e a lua... mas alguma coisa neles os unia.

Ela devolveu os óculos a ele depois tomou um gole de seu café, fazendo uma caretinha. Só então falou:

- E então por que você estava tão ansioso para me encontrar? Não me diga que tem algo a ver com a "estação" Minako?!

- Minako Kanam? Eu a dispensei três dias atrás, Tomoyo! - a moça rolou os olhos, mas ele não notou. Ele abriu um sorriso ansioso e despejou - Eu fiquei sabendo que sua mãe chegou de viagem hoje, então... ela conseguiu?

Mais uma vez, Tomoyo revirou os olhos, mas procurou alguma coisa dentro da bolsa. Depois de algum tempo de puro suspense, ela estendeu a ele uma revista científica que o rapaz pegou com certa reverência, os olhos brilhantes de excitação. Tomoyo explicou:

- Minha mãe disse que foi muito difícil conseguir esta e que teve ir atrás na editora. Ela está feliz com o meu "súbito interesse na ciência"... suspeitando, mas feliz.

Aquela era mais uma cena comum entre eles. Desde que Eriol descobrira que a Sra. Daidouji empregava freqüentes viagens para a Europa, ele sempre pedia, por intermédio de Tomoyo, claro, algum periódico sobre ciência, tecnologia ou medicina, tradicionais do país visitado. A Sra. Daidouji nem desconfiava a origem dos pedidos estranhos e achava mesmo que a filha estava se tornando uma pessoa mais madura.

Eriol folheava a revista, rindo baixinho, mais do que nunca parecendo uma criança. Tomoyo deu um muxoxo. O rapaz percebeu e falou, recuperando um pouco mais a compostura:

- Tomoyo, My dear, eu sei que você não é muito chegada a mapeamento genético, mas tente entender que esse assunto muito me interessa e faz muito tempo que eu estou desejando essa revista!

- Se é assim, você deveria ter pedido a sua mãe. Teria sido muito mais rápido!

Eriol estremeceu involuntariamente e retrucou, muito sério:

- Só se eu quisesse uma passagem direto para a Inglaterra! - ele enrolou a revista e apontou para ela - Você sabe muito bem como minha mãe é insistente! Ela me telefona a cada dois dias, manda cartas toda semana... sem falar nas inúmeras contas de e-mail que tive que apagar, porque ela mandava mensagens diariamente... não sei como a mulher descobre meus e-mails... deve ter algum informante, acho...

- Oras, Eriol, tenho certeza que ela faz isso por que quer seu bem! - Tomoyo tentou amenizar a situação. Eriol olhou para ela, incrédulo e ela emendou, rápida - Você é filho único! É natural que exista essa super proteção.

- Tomoyo, ela é uma controladora psicologicamente perturbada! - respondeu ele, alterado - Além disso, acho que você está se esquecendo daquele telefonema de três meses atrás.

Foi a vez da moça estremecer. Realmente, esquecera-se do telefonema que atendera sem querer. Para falar a verdade, talvez tenha até bloqueado da sua mente o episódio, de tão traumatizante que fora. Fora uma coisa boba: Eriol estava na casa de Sakura, que havia se sentido mal, e estava ocupado examinando-a quando seu celular tocou. Sem ver o número de destino, ele pediu para Tomoyo, que estava no apartamento também, para atender. A moça, na maior inocência, atendeu animadamente. O que se seguiu foi uma enxurrada de perguntas, ditas em inglês fleumático, numa voz feminina. "quem é você?", "O que faz com o celular do meu little Eriol?" e "Como ousa falar comigo nesse tom de voz insolente?" foram algumas das perguntas que a moça conseguira distinguir. Ela ainda tentara explicar, mas mulher do outro lado da linha não deu trégua e começou a insultar Tomoyo utilizando-se de palavras de baixo calão que ela, com seu inglês fluente, infelizmente conseguiu entender.

Perplexa e trêmula, ela estendeu o celular para Eriol, que a observava, com certeza surpreso com a repentina palidez da moça, e disse com voz sumida:

- Eu acho... que é sua mãe.

Ela o viu arregalar os olhos, ficando mais branco do que ele já era e pegar o telefone, trêmulo também. Depois, como se tivesse saído de seu corpo e alguém o controlasse, tal qual uma marionete, ela saiu do apartamento, deixando Sakura completamente confusa.

Dois dias depois, o médico fora a sua casa, levando um ramalhete de flores roubado de uma de suas pacientes do hospital e praticamente implorou perdão, quase se ajoelhando, pelo horrível comportamento da sua mãe. E, mais tarde, Sakura comentou com ela que havia presenciado a transformação do médico bonzinho e calmo no monstro Godzilla japonês e que, por fim, ele atirara o celular pela janela do apartamento.

A Tomoyo do presente sacudiu a cabeça para afastar as lembranças traumáticas e falou, embora um tanto incerta:

- É... mas ainda assim é a sua mãe!

- Não posso pedir a ela, Tomoyo. Aliás, ela pensa que eu me mudei de novo porque parei de abrir as cartas dela... Agora ela liga para os hospital procurando por mim... de vez em quando utiliza até nomes falsos... acho que vou ter que mudar de emprego também! - ele falou, sombriamente - Será que manobrista de carro ganha bem no final do mês?

Mesmo não querendo, a morena riu. Às vezes, o rapaz inglês conseguia ser engraçado nas horas mais impróprias. Ela tomou mais um gole do seu café, enquanto o observava voltar a folhear a revista. Quando estava chegando quase no final, um papel que estivera ali dentro caiu no chão. A moça olhou e quase se engasgou: reconheceu o papel e perguntou-se o que ele faria ali dentro da revista. Mais do que depressa, abaixou-se para pegá-lo, mas Eriol foi mais rápido: Ofegante, com o rosto começando a ficar muito vermelho, Tomoyo pediu:

- Eriol, não leia! Isso é meu! Devolva, por favor!

Fazendo-se de surdo, o médico desdobrou a folhinha calmamente e leu em voz alta:

- "Tomoyo, adorei ter feito o trabalho com você. Senti que temos uma química e me perguntei se você não gostaria de ir ao cinema comigo neste fim de semana. Telefone-me para dar a resposta. Aruo" - ele levantou uma sobrancelha para a moça, que nessas alturas estava mais vermelha que um tomate - Hum... parece que alguém tem um encontro.

Rápida, ela tomou o papel da mão dele e o guardou na bolsa, resmungando:

- Você não deveria ter lido! É particular!

- Se você não quisesse que eu lesse, não teria deixado dentro da revista!

- Eu não DEIXEI dentro da revista para você ler. Deve ter entrado quando estava na minha bolsa! - resmungou, ainda muito vermelha, voltando a guardar o papel.

Hitoshi chegou trazendo os pedidos de Eriol. Quando ele voltou para o balcão, o médico começou a passar geléia na torrada perguntando, num tom falsamente desinteressado:

- E então... quem é Aruo?

Tomoyo voltou a ficar vermelha e virou a xícara de café, até beber a última gota. Em fim respondeu:

- Bom... ele é... um amigo... da faculdade. Fizemos um trabalho de normas juntos... bem... ele é um cara legal.

Houve um silêncio. A garota evitou olhar para ele, porque sabia que aquela explicação não o satisfaria. E estava certa

- E então?

- Então... o quê? - perguntou ela, fingindo inocência.

- Tipo... quem é esse cara? Ele é mesmo legal? Você gosta dele? Você vai sair com ele?

O rosto da moça estava agora constantemente vermelho, mas talvez fosse também por causa da bebida que estava em seu café. Ela fez um esforço para responder as perguntas em ordem.

- Bom... já disse que ele é da mesma turma que eu, e sim, ele mesmo muito legal... bem, eu gosto dele sim - corou ainda mais violentamente - e bem... eu creio que não... não vou sair com ele.

Eriol piscou, incrédulo:

- O quê? Você não vai?!

- ...Não.

- Mas por quê, mulher?!

Ela ficou calada por tanto tempo que ele pensou que ela não fosse responder, mas...

- É porque... bem... é que rolou um... hã... clima durante a reunião do trabalho... e provavelmente... durante o filme... ele vai querer... quero dizer, ele deixou bem claro que... ele provavelmente vai querer...

- Te abraçar? Te beijar?! - o rosto dela atingiu mais um grau de vermelhidão crônica e ele perguntou, sem entender - E isso é ruim porque...?

Ela falou tão baixinho que ele não escutou.

- Tomoyo, fala mais alto que eu não te escutei.

- É que... eu nunca... beijei - falou num sussurro. Ela sentiu a surpresa dele e sabia que ele iria comentar alguma coisa, por isso apressou-se em explicar, atropelando as palavras - Eu não quero que ele perceba... isso... por isso, não quero ir, porque se eu for, ele vai querer me beijar... enfim.

- Isso é a coisa mais ridícula que eu já ouvi, Tomoyo! - ele falou depois de alguns momentos em um silêncio aturdido.

- Não é não! - ela o enfrentou, muito vermelha - Ele vai pensar que eu devo ter algum problema, afinal, eu nunca sai com ninguém antes, por isso eu nunca beijei... vai pensar que eu sou careta, imagine... vinte anos e nenhum beijo no currículo... e existem meninas de dez anos que já beijaram... por isso, acho melhor... - parou, sabendo que estava se complicando ainda mais e resolveu mudar de tática, muito embaraçada - Pois é... que tal mudarmos de assunto? E então? Essa revista é mesmo interessante? Haveria alguma matéria aí falando sobre beijos... quero dizer, sobre comportamento humano? Ah! Nossa, que música linda começou a tocar agora! Qual será o nome dela...?

- É "Celtic Night" , da Suzanne Cianni. - falou Eriol em tom cortante, olhando-a nos olhos - Tomoyo, você não vai me dizer que não vai ao encontro só porque você nunca foi beijada?

- Mas é claro que sim! - volveu ela, chateando-se - eu não posso ir a esse encontro! Ele vai perceber que eu nunca fui beijada!

- Mas é claro que ele vai perceber! - rebateu o médico, como se aquilo fosse uma coisa boa.

- Você está ajudando muito! Agora mesmo é que eu não posso ir!

Inspirando profundamente, como se estivesse tentando arranjar paciência bem do fundo de sua alma, Eriol curvou-se para frente, entrelaçando as mãos e falando calmamente:

- Tomoyo... supondo que você não vá a esse encontro... o que acontecerá depois? Os anos se passarão e você continuará recusando-se a sair somente porque você nunca foi beijada! E você vai acabar ficando velha! - ela desviou o olhar e fitou, tristemente, a xícara de chá quente dele. Então ele falou, com suavidade. - Para mim, você está sendo boba! Olha, os homens adoram ser professores! Tenho certeza que ele ficará encantado de te ensinar a beijar. Pode crer, vai por mim.

- Hum... seguir os conselhos de um "Don Juan do século XXI"? Sei não. - ela riu um pouco, meio sem humor. Seu semblante voltou a ficar triste e ela falou - Eriol... você não entende... esse garoto... bem, eu estou gostando muito dele e eu... eu não quero estragar tudo... tem tantas meninas que dariam tudo para estarem no meu lugar... e, apesar de saber que ele está afim de mim, eu não sei realmente muita coisa sobre ele... e se ele não gostar?! E se ele disser que foi o pior beijo da vida dele? Não! Eu não posso, Eriol! Eu sei que eu estou sendo boba, mas não consigo impedir de me sentir assim...

Houve mais um momento de silêncio. Incapaz de fitar o rosto dele, ela fechou os olhos, longamente, sentindo-os arderem. Drogas! Estaria mesmo com vontade de chorar?! Sentia-se envergonhada, como uma criança tola e não como uma mulher feita de vinte anos. Às vezes, quando Eriol ouvia as inúmeras tolices que a moça falava, sonhando acordada ou mesmo na maior inocência, sobre um assunto, ele dava um suspiro de superioridade e a corrigia, dizendo no final que "era por essas e outras que ele era dez anos mais velho, portanto, ela ainda era uma criança pra ele"... e ela sabia que agora ela estava agindo como uma criança mesmo!

O tal suspiro de superioridade não demorou a vir, mas o que se seguiu foi tão fora de contexto, que, por muitos momentos, ela pensou que seus ouvidos estavam lhe pregando uma peça...

- Se é assim, então para bem de todos e felicidade geral de Aruo, eu vou te ensinar a beijar!

Os olhos violetas da moça se arregalaram quase a ponto de saltarem das órbitas. Fora tão surpreendente que ela esqueceu até de corar. Um sorriso nervoso surgiu nos cantos de sua boca e ela falou, em tom de troça:

- Ah, tá... tudo bem... bom, muito engraçado! Eu sei que eu sou boba, mas não precisa pegar pesado!

- Você pensa que eu estou brincando?! Olhe nos meus olhos e diga que se eu estou de brincadeira ou não!

Ela olhou... e ele não estava de brincadeira. O sorriso congelou, dando lugar a uma expressão de total incredulidade. Ela via seriedade no rosto dele, mas não conseguia acreditar que... como era mesmo? Ah, sim! Ele iria lhe ensinar a beijar! Falou o que veio em sua cabeça:

- Não!

- Por que não?! Vamos ser racionais, Tomoyo! - ele cruzou os braços e falou, como se fosse um professor expondo a um aluno teimoso argumentos para convencê-lo de que aquela era a melhor solução - Existem profissionais para tudo! Existe o personal trainer, aquele cara sarado que assessora senhoras ricas de vidas vazias em seus exercícios aeróbicos...

- Minha mãe tem um desses... - falou a moça, meio tolamente, como querendo defender a mãe. Eriol a ignorou.

- ...existem até pessoas que são pagas para pagar pessoas para dobrar guardanapos! Então não é nada estranho você me "contratar" para eu te ensinar a beijar! Seria algo completamente profissional, sem sentimentos envolvidos! Se você não aprender - aliás, o beijo não é algo que se aprende em uma lição só - pelo menos você vai saber qual é a sensação. E você só tem a ganhar com isso!

A garota estava confusa... realmente muito confusa. Demorou uma quantidade de tempo absurda para ela captar toda a essência do que ele acabara de falar. Só então conseguiu balbuciar:

- Mas... eu... eu... quero dizer... o que eu... bem... como eu... hã... te pagaria?

Que tolice, pensou ela, logo após ter dito a frase. Outro suspiro de superioridade da parte dele e...

- Bem... na verdade, eu estaria te pagando. - ela o olhou interrogativamente e ele esclareceu - Afinal, faz um tempão que você pede pra sua mãe para que ela traga essas revistas para mim - apontou vagamente para o periódico que jazia esquecido em cima da mesa - e eu nunca retribui o favor!

- Mas eu pensei... quero dizer, eu faço isso por que você é meu amigo... meu melhor amigo! - soltou sem querer e, percebendo o que dissera, voltara a corar. Estava falando tanta besteira naquele dia... devia ser coisa da bebida em seu café... só podia ser...

Ele sorriu... e havia certa doçura em seu olhar:

- Fico contente por saber disso Tomoyo... - a voz, o olhar dele... ela sentiu uma onda repentina de carinho que fez seu coração ameaçar disparar... mas, logo, ele havia "voltado ao normal" e então disse, prático - Essa é outra razão: sou seu amigo, então não há problema. Ouça: somos adultos e sabemos muito bem que seremos somente amigos. Não vai passar de um beijo... e olhe que há pessoas que beijam por bem menos que isso!

Mas Tomoyo ainda não estava convencida... que idéia absurda! O que Eriol estava dizendo? Iriam se beijar somente por beijar?! Era algo inconcebível para ela. Em seus devaneios, ela imaginava um primeiro beijo cheio de romantismo, talvez debaixo da chuva, talvez em uma praia ao por do sol... talvez em uma praia ao por do sol com uma garoa fina, que fazia um arco-íris multicolor encima dela e de seu eleito, enquanto diziam juras de amor...

- Terra chamando Tomoyo! Sua boba! Aposto que você já está fantasiando! - ele falou, severamente - É só um beijo! Mas, se você quiser, você nem precisa considerar como um primeiro beijo! Considere... como um ensaio!

A moça não sabia o que dizer... o que fazer... que estranha sensação. Ela pensou, pensou... e então chegou a conclusão (ou melhor, ela se convenceu) de que não seria estranho... eram amigos! Somente isso! Ele tinha razão. Precisava pensar racionalmente...

- Está bem, Eriol! Eu quero... bem, me ensine tudo o que você sabe!

Ele deu um sorrisinho maroto.

- Não vai dar para ensinar tudo... mas vou tentar te dar uma visão geral do assunto!

...Se era pra ser algo apenas racional, por que seu coração batia agora com tamanha força que chegava a doer em seu peito?!

- Venha cá. - chamou Eriol, alheio ao turbilhão que passava pelo íntimo da garota, dando um sorriso sedutor, utilizando seu sotaque, como se realmente estivesse querendo seduzir de verdade. Tomoyo olhou sem entender e ele completou - Vai ser muito melhor se nós estivermos bem perto um do outro... e é bem melhor do que beijar com uma mesa entre a gente.

A moça engoliu em seco e, hesitante, se levantou. O rapaz bateu duas vezes no espaço vazio do sofazinho em que estava sentando. Devagar, ela foi até ele. Eriol puxou-a pela mão e ela se sentou de vez. Sem perder tempo, ele passou a mão pelos ombros dela, girando-a para que ficasse com o tronco virado para o dele. Ela sentiu seu rosto esquentar e os olhos desviaram-se para o enfeite de mesa. Ele estava mesmo disposto a fazer aquilo. Ele riu da timidez dela, mas não foi um riso cínico... fora algo que poderia ser descrito como... doce.

A outra mão dele desprendeu-se da mão feminina que ainda segurava e, apenas com a ponta dos dedos, ele percorreu o caminho que começava no umbigo, passava pelo vale entre os seios e subia pelo pescoço alvo, parando no queixo delicado, que segurou com firmeza, obrigando-a a encará-la. Tomoyo, mesmo estando vestida com um casaco grosso, sentiu cada momento daquele toque provocante e um calor que jamais sentira antes pareceu incendiar seu coração, que agora batia depressa demais, os olhos presos nas orbes azuis tão próximas. A respiração dele estava morna, esquentando ainda mais seu rosto já em chamas e com uma voz que jamais usara antes com ela, ele sussurrou:

- Prometo que serei bem carinhoso com você... Tomoyo...

Sem saber por quê, a moça entrou em pânico. É tudo racional... somente racional... mas por que parte dela queria fugir dali, sair correndo do imenso poder de sedução que ele parecia ter sobre ela...? E por que parte dela queria continuar até o fim? ... Queria sentir como era beijar... ser beijada por ele. Já era maravilhoso sentir o abraço dele. Nunca levara um choque elétrico sério antes, mas imaginou que seria aquela sensação: como uma onda incontrolável, impossível de ser descrita em palavras. A boca ficara seca de repente e seu corpo começou a tremer levemente... porém, subitamente, sua mente clareou o suficiente para ela perceber o quão absurda aquela situação era: como poderia deixar que Eriol fizesse aquilo? Era seu amigo, claro, de confiança, mas... não fora assim que imaginara ser seu primeiro beijo - mesmo um beijo racional - nas poucas vezes em que se apaixonara, ficava horas e horas, naquele momento em que a divagação antecede o sono, até tarde da noite, imaginando o momento maravilhoso... mas nunca imaginara nada assim, sentada em um café, com um rapaz bem mais velho do que ela, molhado até os ossos e sendo ele seu amigo e um conquistador incorrigível! Não! Não estava certo! Tinha que parar com aquilo!

- Eriol... - começou, a voz bem mais baixa que um sussurro - Acho melhor a gente...

Não terminou de falar. Foi obrigada a calar-se quando a boca masculina tocou suavemente o seu lábio inferior. Ela arregalou os olhos por um momento, confusa, vendo, mas não enxergando os olhos dele fechados, estática, ainda com a boca entreaberta. Eriol pressionou gentilmente seus lábios contra o dela, beijando-a de fato. Bem devagar, desfez a pressão, porém, como uma doce tortura, por causa da secura da boca feminina, seus lábios colaram-se e causaram uma deliciosa sensação, parecendo a Tomoyo que toda a sua pele se tornara, de repente, cinco vezes mais sensível. Ele beijou novamente o lábio inferior com a mesma pressão, e ela, pela primeira vez em muito tempo, seguiu o seu instinto: fechou os olhos e comprimiu sua boca contra a dele. Ele se separou dela por um breve momento, apenas para entreabrir os olhos e vê-la fazendo o mesmo. Era como se, de repente, estivessem sincronizados num só pensamento, numa só pessoa. Ele sorriu brevemente para ela, sussurrando:

- É racional, Tomoyo... apenas racional... apenas sinta...

E voltou a beijá-la. Uma, duas... milhões de vezes, Tomoyo perdeu a conta... só sabia que a cada toque, seus lábios demoravam-se mais e comprimiam-se com maior força, profundamente. A mão dele, que estivera em seu queixo, rápida, foi até a cintura com um aperto súbito, unindo seus corpos bruscamente. As mãos da moça, que estiveram entrelaçadas em seu peito antes, foram esmagadas momentaneamente, e, como se tivessem vida própria, percorreram a extensão do peito e se enlaçaram no pescoço masculino, os dedos entrelaçando-se e puxando levemente os cabelos molhados dele, provocando um arrepio gostoso no rapaz. A inocência dela o excitava... até demais, por assim dizer... tão bonita, tão perfeita... quando ela quis se separar dele, afastando-se levemente, ele não deixou... voltou a comprimir seus lábios, beijando-a com mais fúria do que nunca, devorando-a, com ímpeto, vigor... o que era aquilo? Perguntou uma vozinha no fundo da cabeça dela. Por que a ferocidade? Por que aquela urgência? Por que ele não queria terminar aquela lição tão... oh... racional?

E ela percebeu, mesmo que não se desse conta disso... aquilo era paixão. Aquele beijo deixara de ser racional há muito tempo... desde que ela correspondera... e "somente" restara desejo...uma paixão que nunca achara que poderia sentir... era paixão... era...

O resto de sua sanidade foi varrida, quando, sem querer, soltara um gemido e entreabrira os lábios. Ele aproveitou, sem querer ser discreto ou cavalheiro, forçando, impondo-se... aprofundou o beijo, invadindo sua boca com a língua e, a ela, pareceu que eles avançaram mais um nível. Tudo ficou quente, escaldante, a proximidade dos corpos era quase intolerável, mas ela não o deixaria se afastar... a mão dele subiu pelas curvas delicadas e, sem pudor algum, tocou-lhe um dos ém ela sentiu um choque tão grande que interrompeu o beijo. Eles se olharam, ofegantes, mergulhando um nos olhos do outro, então, devagar, ele se aproximou e voltou a beijá-la, com carinho, com doçura, recomeçando tudo outra vez. Ele estava louco... passando dos limites! Gritou uma voz indignada no fundo da mente dela. Aquela lição já estava indo longe demais... era melhor parar... mas daqui a pouco... só mais um pouquinho... e a voz da consciência, tal qual um rádio mal sintonizado, foi sumindo, até restar somente um vazio, preenchido por sensações que nem em seus devaneios mais loucos conseguira simular... existia somente os lábios dele e aquele beijo sensacional, intenso, profundo e apaixonado...

Uma música estranha encheu o ar perto deles. Algo tão destoante que fez a garota voltar completamente a si... e ele também. Eles se separaram e pararam para ouvir. Ali perto estava tocando "I'm too sexy"! Tomoyo sempre odiara aquela música! Eriol, recentemente, ao descobrir isso e somente para provocá-la, havia colocado aquela música totalmente sem noção como toque de seu celular... Ai, pelos Céus! Era o celular! Ele pareceu perceber também, porque ele pegou o aparelho com as mãos trêmulas e atendeu, virando-se para o lado:

- Alô... Sakura?... O quê?!... Espera... espera... fica calma... repete... O quê?! Quem é que está aí, com você?!

Tomoyo sentiu o próprio celular vibrar. Atendeu antes que pudesse ver o número de destino. Estava tonta demais para esses pormenores...

- Alô?

- Daidouji?! - perguntou uma voz conhecida, embora ela não escutasse há muito tempo. A voz transparecia nervosismo - Daidouji! É Você?! A Sakura! Ela vai ter o bebê!

- O quê?! Espera! Calma! - ela não absorveu o conteúdo daquela informação, pois acabara de reconhecer aquela voz - Li! É você?! O quê? Como...?!

- A Sakura! - ele gritou ao telefone - Ela está entrando em trabalho de parto! E ela se recusa a sair daqui! Você precisa chamar alguém! O médico dela! ALGUÉM!

- A Sakura entrou em trabalho de parto?! - ela repetiu, tolamente. Finalmente, a ficha havia caído. Ela se levantou, sem perceber que Eriol levantara-se ao mesmo tempo, falando com urgência, sem dar tempo para o rapaz retrucar do outro lado da linha - Eu estou indo! Ela está no apartamento?!

- Está sim! Por favor, venha logo! A bolsa estourou e ela está com muitas dores - Sakura soltou um berro do ao fundo ele gritou - Sakura! - e a ligação cortou.

Por uns dois segundos, ela apenas olhou para o telefone, sem ação. Foi reanimada quando escutou o barulho de louça se partindo. O médico, ao seu lado, na pressa, pegara a revista de cima da mesa sem perceber que a xícara estava em cima dela... derrubando-a no chão. Mas não havia tempo para pedidos formais de desculpas. Eles deram a volta na mesinha para pegar seus casacos, que estavam sobre o encosto da cadeira onde Tomoyo estivera anteriormente sentada. Suas mãos se tocaram e, ato contínuo, eles se olharam nos olhos. Esqueceram-se de Sakura em trabalho de parto... esqueceram-se de Shaoran no Japão. O rosto dela esquentou. Havia algo no olhar dele que havia mudado... talvez fosse melhor dizer... que antes não existia... o profundo azul do olhar dele transmitia algo mais... e ela percebeu o que era, quando ele deixou seu próprio olhar relancear os lábios vermelhos e inchados dela. Era desejo! Ela sentiu-se corar, corar e corar... pensou mil coisas num segundo só... perdeu-se em seus pensamentos... mas logo se encontrou quando ouviu a voz dele, ao longe:

- Tomoyo... eu...

Ele parou. Ela percebeu que ele parecia frustrado, mas ele parecia, mais que qualquer coisa, tão confuso quanto ela estava... e perceber aquilo lhe deu uma calma e felicidade tão grandes, tão inexplicáveis, que ela soube que nada precisava ser explicado agora. Não naquele instante. Ela balançou a cabeça e falou:

- Vamos esquecer isso, por hora! Você precisa se recompor. Afinal, como você vai ajudar um bebê a achar o caminho para vir a este mundo se você está completamente desnorteado?

Ele piscou duas vezes. Então sorriu, fechou os olhos e sacudiu a cabeça. Ela tinha razão. Ela sempre tinha razão. Eles pegaram o casaco e viraram-se para a saída. Hitoshi, que vinha direção deles, com uma expressão confusa e meio aborrecida no olhar (provavelmente por causa da louça quebrada), parou onde estava. Tomoyo falou simplesmente, sorrindo de orelha a orelha:

- Sakura entrou em trabalho de parto. Deseje boa sorte para nós!

- Hã... boa sorte?!

Eles se foram. E o balconista ficou onde estava... completamente confuso... desde quando a Kinomoto estava grávida?!

"

So cradle your head in your hands.

Então coloque sua cabeça em suas mãos

And breathe, just breathe,

E respire, apenas respire,

whoa breathe just breathe

Respire, apenas respire.

Shaoran deixou o celular cair assim que Sakura soltou o berro de dor e virou-se imediatamente para ela, sentindo o pânico se avolumar dentro dele. Ela estava agachada, com a respiração pesada e rápida, igualzinha a um maratonista. Ele a sentou no chão, embora ela se retesasse ao sentir o toque dele. Com o rosto contorcido pela dor, ela pediu:

- Shaoran... vá... embora... eu não o quero... aqui... AAAAAAAAHH! - gritou de dor ao sentir outra contração

- Só se eu fosse o cara mais insensível do mundo, Sakura!

- Você já provou que tem essa insensibilidade há oito meses, agora... VÁ EMBORA! - ela falou, gemendo e fazendo um esforço sobre-humano para levantar-se. Shaoran tentou-a fazê-la ficar sentada, mas ela se retesou outra vez e gritou - ME DEIXE EM PAZ! EU NÃO QUERO SUA AJUDA!

- Mesmo que você não queira, eu vou ficar e te ajudar. Pelo amor dos céus, mulher! Você vai ter um bebê! - ele retrucou, entre aborrecido e nervoso, forçando-a a ficar quieta - Fique sentada e me diga... que roupas você quer levar para o hospital? - ela ficou calada, olhando com uma expressão que esperava que fosse desafiadora, mas que falhava miseravelmente por causa da dor que sentia. Shaoran rolou os olhos e falou, com energia - Sakura, eu sei que você está muito zangada comigo, mas, por favor, não banque a teimosa agora! Você está fazendo mal pra si mesma e para a nossa filhinha!

Diante da incontestável verdade daquelas palavras, a moça falou:

- Eu... eu deixei uma malinha... p-pronta... para uma emergência como essa... e-está dentro do meu guarda-r-roupa...

Mais que depressa, ele foi até o quarto da moça e pegou a pequena mala, dentro do local indicado. Ali, provavelmente, além de algumas roupas de dormir, estavam também mantinhas e roupinhas para o pequeno bebê.

De repente, Shaoran suspirou, profundamente. Iria ser pai! Realmente, iria ser pai! Fora tudo tão depressa e intenso que não parara para pensar nas reais conseqüências de tudo o que havia acontecido. Seu bebê não ia esperar mais. Logo carregaria uma criança que deveria amar e educar com sabedoria. Mas... como o faria? Já provara que não era um bom companheiro oito meses antes. Como se sairia com pai então? Ah! Se pelo menos a vida fosse uma história de mangá... poderia comprar um daqueles livros "como se tornar um pai exemplar em cinco minutos"...

- Ou então - murmurou para si próprio - pediria a uma fada ou algum outro ser mágico qualquer que o tempo voltasse - e suspirou.

Ouviu então um barulho qualquer e voltou a realidade. Rápido, ele regressou a sala e encontrou Sakura levantando-se penosamente, apoiando-se no sofá. Angustiado por ver a expressão de dor na face da moça, ele depositou a mala no chão e se aproximou dela, porém ela voltou a se esquivar. Ele começou a se irritar perigosamente:

- Sakura, por favor, não seja teimosa! - ele olhou nervosamente para o relógio de pulso e falou - A Daidouji está demorando muito! Não dá para esperar! Vamos! Vou levar você!

Sakura olhou-o pegar a mala do chão outra vez, como se ele fosse um alienígena. Vendo que ela não se mexia, ele pegou na mão dela, com o intuito de levá-la até a porta. Ao sentir o toque dele, ela pareceu acordar e, tal qual um animal assustado, ela retraiu-se esganiçando:

- Não me toque! Vá embora! Já disse que não quero sua ajuda!

- Mas você precisa! E eu também já disse para você parar de teimar! Nós temos que ir logo!

- Não vou a lugar nenhum com você; não vou a lugar nenhum sem a Tomoyo! - Teimou ela, choramingando como uma criança mimada. Logo em seguida, ela sentiu uma contração tão forte que soltou um grito de dor. Quando amainou um pouco. Percebeu que ele havia lhe abraçado. O coração disparou dentro do peito, sentindo o calor do corpo dele aquecê-la por completo, o perfume masculino embriagando-a... por que tinha que ser daquele jeito? Não seria mais fácil somente perdoá-lo? Pois quando estava com ele perdia qualquer controle sobre si, ficava vulnerável! E era terrível e maravilhoso ao mesmo tempo... então percebeu que ele a dirigia para a porta e a raiva sobrepujou qualquer sensação arrebatadora que estivesse sentindo e, mais uma vez, ela se soltou dele. Nem precisou olhar para o rapaz para saber que ele estava ficando cada vez mais irritado.

Ela se jogou no sofá, enterrando as unhas numa almofada, enquanto ele dizia:

- Já falei que a Daidouji está demorando demais! Você precisa ir imediatamente para o hospital! - ele tentou levantá-la, mas ela afundou ainda mais ali, como se quisesse se fundir ao objeto. Ele soltou um suspiro de exasperação - Sakura! Eu não tenho nenhuma experiência médica para poder fazer o parto do bebê, então acho melhor nós irmos logo antes que nossa filha também perca a paciência de vez!

- Não estou brincando! Será que VOCÊ não entende?! - ela abraçou-se à almofada cada vez mais, a respiração ofegante. Perdendo de vez toda a compostura e paciência, ele gritou:

- Como é que você pode estar arriscando a vida da nossa filha e a sua só para teimar comigo?!

Inegavelmente, aquilo era verdade, mas Sakura não ia dar o braço a torcer. Gritou de volta, com as lágrimas voltando aos olhos:

- Não estou teimando! Shaoran, se quer mesmo saber o que eu penso, para mim, você perdeu todo o direito de se chamar de "pai" no dia em que foi embora! - ele arregalou os olhos, chocado com o que escutara. E Sakura ainda não havia acabado - Por que você achou que voltar depois de 8 meses seria o suficiente para eu perdoá-lo?! E você só está aqui ainda porque descobriu que eu estou grávida!

Houve uma pausa rápida e então o rapaz falou, quase sem querer, com desespero na voz:

- Não é verdade, Sakura! Eu voltei e estou aqui porque eu não... eu não consigo ficar longe de você!

Longo silêncio. Eles apenas ficaram se olhando, ela perturbada com o que tivera coragem de dizer e, também, pelo que ele dissera... ele ainda sem acreditar no que ela falara. Uma contração chegou de surpresa e a fez gritar. Assustado, o rapaz lançou-se a ela, justamente na hora em que a porta abria-se de supetão e uma Meiling recém-saída do banho, com água pingando dos cabelos negros em abundância e vestindo roupas de ficar em casa, aparecia esbaforida:

- Sakura, eu ouvi gritos! O que aconteceu?! Você está ok?!

Foi só então que ela prestou atenção na cena: Sakura abraçada ao sofá, chorando um pouco e Shaoran ali, em cima dela, em posição de "leão preste a abater a presa". Ela, é claro, tirou as conclusões erradas. Assim como a amiga, ela esqueceu completamente que havia mudado de opinião em relação ao primo e estreitou os olhos, perguntando com voz sombria:

- O que você está fazendo aqui?!

Sem esperar resposta, ela correu para a cozinha e antes que eles pudesse falar ou fazer qualquer coisa, ela já estava de volta, segurando uma vassoura como se esta fosse uma lança romana e falou:

- Vá embora, Xiao Lang! A Sakura não quer você aqui!

- Espera Meiling! Você entendeu tudo errado! - e acrescentou baixinho - Para variar.

Ela escutou. Furiosa, ela soltou uma espécie de grito de guerra e partiu para cima dele. Ele correu para refugiar-se na poltrona. Meiling correu atrás dele, tentando acertá-lo, xingando-o, por vezes em japonês, por vezes em chinês. Sakura assistia aquele pega-pega emudecida, sentindo aturdimento misturado com uma vontade louca de rir. Sentiu dores outra vez e soltou uma espécie de ganido. Shaoran escutou e a olhou, preocupado. Nisso Meiling quase o acertou seriamente, berrando:

- Como você ousa vir até aqui?! Como você ousa falar com ela?! Como você ousa OLHAR para ela?!

- Você não entendeu, Meiling! A Sakur... - tentou explicar, mas teve que fazer um movimento ninja para poder se desviar da vassoura. Aproveitando-se do silêncio dele, a prima recomeçou a gritar:

- É claro que entendi tudo, Xiao Lang! Você veio aqui, pensou que seria fácil enrolar a menina, mas viu que não seria como você tramava! Aí percebeu que ela estava grávida! Agora você vai ser pai! É uma responsabilidade enorme! E você, é claro, não quer nada disso! Você... - ela arregalou os olhos por alguns instantes, chocada com os próprios devaneios - Você ia dar um sumiço nela, não ia?! Pelos céus! O que aconteceria se eu não tivesse escutado a Sakura clamar por misericórdia?! Oras, seu...

- Meiling, sua louca! O que você está dizendo? É claro que não! - outro movimento ninja - Eu só estava tentando... quero dizer, a Sakura - dessa vez, a vassoura passou tão perto que foi necessário um movimento Matrix para escapar dela. Mesmo assim, quase sua orelha esquerda foi embora. Ele berrou desesperado para a japonesa - SERÁ QUE VOCÊ PODE ME AJUDAR AQUI, SAKURA?!

A moça que estivera assistindo aquela cena com ar de incredulidade, pareceu "acordar" e falou, mesmo que aquilo fosse ajudá-lo:

- Meiling! Ele não estava tentando... hum... "dar um sumiço" em mim. É que eu entrei em trabalho de parto e ele queria me levar para o hospital a força! - outra contração. Sakura soltou um grito longo e sofrido. Quando a dor recuou, ela olhou para a chinesa e falou, meio sorrindo, meio chorando - Viu?!

Meiling atirou a vassoura para o lado imediatamente, derrubando um vaso no chão. Falou, indo até ela, com expressão preocupada:

- Temos que levar você ao hospital agora mesmo! - olhou para o primo, aborrecida, ralhando com ele - Xiao Lang, seu cachorro! Por que você não fez isso?!

- É o que eu estou tentando fazer há uns dez minutos! - falou o rapaz, indignado, como se estivesse se defendendo - Mas essa teimosa não quer ir comigo! Prefere esperar a Daidouji!

Meiling analisou a situação por alguns instantes e falou, voltando-se para Sakura:

- Querida, eu sei que você não quer ver ou falar com Xiao Lang, mas já que ele está aqui e precisamos dele, vamos com ele! - ela olhou para o primo com expressão atravessada e falou - Ao menos, para isso ele serve!

Shaoran abriu a boca para protestar, ofendidíssimo, mas resolveu que era melhor ficar quieto: pelo menos Meiling estava "trabalhando" a seu favor. Depois acertaria as contas com a chinesa.

O telefone celular de Sakura tocou. Era Tomoyo avisando que ela e Eriol estavam na portaria esperando por eles. Meiling levantou as mãos para o céu e disse:

- Vou me trocar em cinco minutos. Encontro vocês lá embaixo.

- Troque-se em dois! - resmungou Shaoran, pegando a malinha. Meiling lançou-lhe um olhar que dizia com todas as letras "você não tem o direito de mandar em mim!". Ele exclamou, exasperado - Ela está em trabalho de parto, lembra?!

- Está bem, está bem... em três minutos, estarei lá embaixo!

E ela se foi e os dois ficaram sozinhos. Ele fez menção de a tocar, mas Sakura recuou. Então, para a total surpresa da moça, o semblante dele entristeceu e ele falou, derrotado:

- Tudo bem, Sakura! Eu já entendi que você não quer que eu vá com você... e eu também entendo que você não quer a minha presença! Eu vou embora, está bem? Eu só quero lhe ajudar a descer e garantir que você fique bem... depois...

A frase ficou no ar. Sakura o olhou espantada, de repente sentindo o coração transformar-se em pedra, pesando em seu peito. Notando o aturdimento dela, ele perguntou, um tanto agressivo:

- Não é isso que você quer?! Então eu irei embora... mas somente se você descer comigo.

Ela não falou, confusa, porém mais uma contração particularmente dolorosa ajudou-a a decidir. Ele estendeu a mão e, após uma breve hesitação, ela aceitou.

'

Desceram pelo elevador em absoluto silêncio até que ela percebeu que ainda não havia largado a mão da mão dele. Quando tentou se soltar, ele intensificou o aperto. Ela o olhou atravessado, contudo ele tratou logo de se explicar, ríspido:

- Vou continuar a segurar sua mão, caso você tenha alguma contração muito forte e se desequilibre - ela relaxou ante aquela explicação impessoal... até ouvi-lo completar, baixinho - Além disso, eu preciso aproveitar o momento.

Teria começado uma discussão, se uma velhinha não tivesse entrado no elevador no oitavo andar. O resto do trajeto foi feito num silêncio amuado.

Assim que as portas se abriram no térreo, a figura preocupada de Tomoyo surgiu na frente deles, assustando a senhora que foi-se, apressada. A morena estava mais nervosa que a futura mamãe:

- Sakura... está doendo muito?! Você está fazendo as respirações?! - pegou na testa dela - Estou te achando fria... ou seria quente?! Ai, Eriol, o que você acha?!

Eriol estava sério, muito mais do que o normal e olhava para Shaoran e não para a paciente. Shaoran retribuiu o olhar, firmemente, embora se sentisse um pouco inseguro. O médico desviou o olhar e foi até a Sakura:

- É... pelo visto, não vai demorar! Precisamos ir depressa!

- A... Meiling... pediu para... esperar - ofegou Sakura

Os três minutos de Meiling transformaram-se em oito, mas ela finalmente desceu. O grupo se dirigiu então para o estacionamento, onde o carro de Tomoyo estava pronto para sair. Sakura lançava olhares para Shaoran, que ainda segurava sua mão... estava muito confusa. Lutavam dentro dela duas necessidades completamente opostas: a de querer distância dele... e a de querer estar com ele. Quando o rapaz dissera-lhe que sairia da sua vida... percebeu que a necessidade de tê-lo por perto ainda era muito forte, sentindo ainda incredulidade pelo fato de ele ter coragem de deixá-la outra vez... mas... como ele mesmo dissera... não era isso mesmo o que ela queria?!

Tomoyo abriu a porta do carro e Sakura entrou, orientada por Eriol para deitar-se no banco traseiro. Então ela voltou a sentir contrações, essas tão intensas que fechou os olhos com força, até ver bolinhas brancas estourando no escuro. Sentia que falavam com ela, mas não escutava nada direito. Sentiu vagamente Meiling levantar sua cabeça, sentar-se no banco e fazê-la deitar-se em suas pernas. Ouviu vagamente as portas se fecharem. Uma pontada extremamente dolorosa forçou-lhe a agarrar, espremer qualquer coisa que segurasse pelo caminho... no caso, uma mão que lhe foi oferecida... uma mão grande... grande demais até!

- Meiling... sua mão... está inchada? - perguntou, atropelando as palavras.

- Do que é que você está falando? - perguntou a voz aturdida de Meiling, vinda de bem longe - Será que dor de parto causa alucinação?

Sakura abriu os olhos. A primeira coisa que viu foi Meiling sentada no banco do carona, olhando-a preocupadamente. Depois viu Eriol espremido do outro lado do banco traseiro, falando muito rápido ao celular. Só então levantou os olhos, devagar e viu o rosto de Shaoran, olhando-a de um jeito muito maroto. Ele perguntou:

- Achou mesmo que ia embora, foi? Você é mais bobinha do que eu pensei! - ela armou um grito de protesto, a expressão tornando-se quase assassina, mas, antes que ela pudesse falar (ou, no caso, gritar) qualquer coisa, Shaoran exclamou - Pé na tábua, Daidouji!

A moça meteu o pé no acelerador e saiu cortando um ônibus, cujo motorista xingou a moça com termos muito impróprios para se repetir.

- Tomoyo... estamos com pressa, mas não adiantará em nada você correr tanto se é para chegarmos em pedaços ao hospital! - resmungou Eriol, tapando o bocal do celular com a mão.

A moça ficou vermelha e diminuiu a velocidade consideravelmente. Minutos depois (os quais Sakura passou discutindo com Shaoran) Eriol desligou o celular e informou:

- Tomoyo, vá para o hospital Inochi. Já pedi para que preparassem a sala de parto. E quanto a você - falou, dirigindo-se a Sakura, com o semblante levemente aborrecido - Pare de brigar com o Li e faça as suas respirações!

Mesmo amuada, Sakura obedeceu. Enquanto isso, Tomoyo dirigia o carro com o máximo de cuidado, por causa da bronca do médico, o que estava irritando profundamente Meiling. Quando o sinal fechou bem na cara deles e a mocinha teve que frear bruscamente, Sakura quase foi ao chão e Meiling explodiu:

- Por que você não passou direto?! Dava tempo!

- Mas... o sinal fechou... e aqui é um cruzamento. - respondeu Tomoyo, com a voz miudinha.

- MAS-DAVA-TEMPO! - gritou a chinesa, nervosa - Agora a gente vai ter que esperar um tempão porque o sinal tem que abrir para três pistas antes de...

A discussão das duas foi abafada pelos gritos de dor de Sakura, que sofria mais uma contração violenta. A mão, que ainda segurava a de Shaoran, ela apertou tanto, que o rapaz soltou um gemido surdo e ele acabou reclamando, mal-humorado:

- Isso doeu, Sakura. Sei que você está com raiva de mim, mas não precisa descontar quebrando os dedos da minha mão.

Ela trincou os dentes, de agonia e irritação, e retrucou:

- Se você não consegue agüentar, deixa que eu agüento por nós dois! - soltou a mão dele, como se ela estivesse suja - Agüentei tanto tempo sozinha, posso agüentar mai... mAIAIAIAIAIAIAIAIAIAI...

- Mas nós estamos num cruzamento... - gritava Tomoyo para ser ouvida, nervosa - E se eu passasse e um louco não conseguisse frear? Era adeus para mim, para você e para todo mundo!

- Escute Tomoyo... esses sinais tem um intervalo de dois segundos entre eles... - berrava de volta Meiling, zangada - mesmo que você tivesse passado com o sinal vermelho, nada ia acontecer...

- AIAIAIAIAIAIAIAI...!

- VOCÊS QUEREM PARAR DE BRIGAR, PELO AMOR DOS CÉUS?! - gritou Eriol repentinamente, tão irritado e nervoso que todo mundo se calou - Tomoyo, o sinal já se abriu há tanto tempo que está para fechar de novo! E você não pode se irritar, Sakura! Cale a boca e faça os seus exercícios! Li, ajude ficando calado e não discutindo com ela, por mais que ela provoque!

Todos fizeram o que o médico mandara. Este bufou e começou a contar as respirações de Sakura... mas foi logo interrompido quando a motorista freou outra vez em cima de um sinal (dessa vez para pedestres). Meiling preparou-se para brigar com Tomoyo de novo, porém sentiu o olhar sombrio de Eriol em sua nuca e resolveu ficar calada.

Finalmente, depois de alguma confusão e mais alguns sinais vermelhos, eles finalmente chegaram ao hospital...

Uma cadeira de rodas empurrada por uma enfermeira prestativa já estava a postos, somente esperando pela paciente. Dois auxiliares ajudaram Sakura a sair do veículo e a sentaram. Eriol saltou e foi correndo se preparar para realizar o parto. Meiling (que havia esquecido o celular na casa de Sakura) foi atrás de um orelhão para ligar para Yelan, que avisara que, talvez, ficasse alguns dias a mais no Japão... Tomoyo também se afastou para avisar os parentes da moça e também a sua própria mãe. Somente restou Shaoran, que acompanhou a cadeira de rodas, em silêncio e se sentido, inexplicavelmente, cada vez mais nervoso. Os auxiliares mediram a pressão da moça e faziam perguntas dos mais diversos tipos. Passaram pela recepção da emergência e seguiram por um largo corredor, que parecia não ter fim. Finalmente chegaram a uma bifurcação onde uma porta com os dizeres "maternidade" marcava a entrada. Bem ali, a enfermeira barrou o caminho do rapaz:

- O senhor não pode entrar aqui.

- Mas... eu sou pai da criança.. - ele tentou argumentar, mas enfermeira sacudiu a cabeça e falou.

- Eu sinto muito, mas essa é uma área onde só pessoal autorizado pode entrar... e o senhor precisaria estar utilizando roupas especiais... não se preocupe - ela deu um sorriso simpático - eu o avisarei assim que a criança nascer.

Frustrado, Shaoran não teve outra alternativa a não ser ficar e olhar Sakura se distanciar. Ela olhou por cima do ombro, lançando-lhe um olhar assustado e confuso. A porta se fechou suavemente, um pouco depois de ver a moça entrando em uma sala à direita. Ele ficou olhando naquela direção, como se pudesse, a qualquer momento, desenvolver poderes de raio-x e ver o que estaria acontecendo... sentia-se impotente, com vontade de fazer tudo, embora algo o tivesse pregado no chão...

Passou-se alguns minutos em que Shaoran ficou naquele estado "fora da realidade". Eriol, que vinha apressado pelo corredor, já todo paramentado e dando instruções a um funcionário do hospital, diminuiu o ritmo ao ver o rapaz parado ali. Seu rosto não transmitia emoção alguma, mas por dentro sentia uma profunda compaixão: Eriol nunca realmente acreditara que Li abandonara Sakura por não amá-la mais ou outro motivo parecido; havia algo mais nobre em sua atitude que, embora talvez não tenha sido a mais acertada, era o que ele achara certo fazer, num momento de desespero. E Tomoyo contara a história que Naoko protagonizara há tanto tempo atrás, reforçando a sua certeza de que estava certo. Um sorriso involuntário brotou em seus lábios quando aproximou-se o suficiente para tocar no ombro do rapaz e dizer:

- Por que você não entra comigo?

Shaoran se assustou e retrucou, meio automaticamente:

- A enfermeira disse que não posso entrar sem autorização e sem estar com as roupas especiais...

- Bom... eu, como médico da Sakura, autorizo você a entrar... e se você se trocar realmente rápido, eu posso lhe esperar.

O rosto de Shaoran iluminou-se por um segundo, mas depois voltou a ficar sombrio, falando tristemente:

- É o que eu mais quero... mas a Sakura... acho que ela não me quer lá... e tenho medo que ela tenha alguma... complicação...

Eriol soltou um longo suspiro. Esses jovens de hoje sempre gostam de fazer de uma gota um verdadeiro temporal, pensou Eriol, com seus botões (embora ele não fosse tão mais velho que o jovem chinês) e falou, com seriedade:

- Li... se você realmente gosta dela, a ama... e quer a confiança dela... então... prove que você se importa com ela. Esteja com ela agora, nesse momento em que ela muito precisa de você, embora ela pense que não... quando ela te ver, ela vai reclamar, com certeza - ele rolou os olhos - Mas no fundo ela vai perceber que você realmente quer fazer parte da vida dela...

Shaoran arregalou os olhos para o médico. Apesar da insegurança que sentia, ele vislumbrou uma pequena luz de esperança, que cresceu e tornou-se tão forte quanto um farol, que o guiava e encorajava. Bastou Eriol ver o sorriso confiante que Shaoran colocou em seu rosto para saber que ele iria entrar. Então, ele chamou uma enfermeira que passava por ali e pediu para que esta fizesse os processos de higienização básica no rapaz e o guiasse até a sala onde iria se realizar o parto da filha dele. A mocinha o guiou até uma salinha, onde ele foi instruído a colocar as roupas verdes, uma touca e luvas. Para finalizar, havia uma máscara. Mais que depressa, Shaoran voltou pelo corredor e a enfermeira abriu-lhe a porta da ala da maternidade. Apressada, ela o guiou até a sala à direita, onde ele havia visto Sakura entrar. Já pela janelinha da porta, ele pôde ver Sakura também vestida dos pés à cabeça de verde, muito suada, visivelmente fazendo muito esforço. Havia uma equipe de enfermeiros ali a postos, para qualquer tipo de emergência. Eriol estava verificando as condições de Sakura e, no exato momento em que abriu a porta, ouviu-o dizer:

- Já atingiu o ponto de dilatação máxima... vamos lá, Sakura. Vamos colocar essa criança pra fora!

No curto trajeto da porta até a cama onde Sakura estava deitada, ele sentiu uma leve hesitação, acrescida de ligeiro pânico... mas tratou logo de se refazer... precisava fazer aquilo... por si próprio... e por ela!

Ele postou-se ao lado da cabeça dela. Assim que o notou, ela lançou um olhar incrédulo, mas não pôde disfarçar o brilho que, ele percebeu com o coração acelerado, ser de alegria... porém o momento durou muito pouco e logo ela ficou na defensiva outra vez:

- O que você está fazendo aqui?

- Sakura... eu... eu não posso deixar você. Eu não quero deixar você! Nem agora... nem nunca!

Uma contração forte veio e a japonesa berrou. Shaoran buscou a mão dela e a apertou. Ela quase quebrou os dedos dele outra vez, mas ele nada disse, fazendo apenas uma careta de dor. Porém ela notou e falou, amarga:

- Eu já disse que posso agüentar por nós dois. Você... não precisa ficar aqui.

- Mas eu quero... eu vou ficar aqui! Pode quebrar todos os meus dedos, a minha mão... eu não me importo... mas vou ficar com você!

Ela sentiu as lágrimas inundarem seus olhos outra vez, tanto de emoção como de dor, pois outra contração atingia seu corpo.

- Sakura, agora é a hora que você precisa ajudar seu bebê. Faça força! Empurre! - falou Eriol, enérgico.

Ela fez força, muita força, gemendo, ganindo, desencostando da cama, empurrando a filha, que queria vir ao mundo de qualquer jeito. O momento passou e ela voltou a jogar-se contra a cama, cansada. Shaoran apertou os dedos dela delicadamente, angustiado:

- Você consegue... Sakura!

Ela o olhou de lado, piscando e lágrimas quentes rolaram pelo seu rosto. Com a voz fraca, ela perguntou:

- Shaoran... é sério... o que você faz aqui? Por que... você voltou? Hoje? Justamente hoje? - os olhos se fecharam longamente e quando ela voltou a falar, sua voz carregava muita angústia - Eu... aprendi com o tempo... a viver sem você... acostumei-me a idéia... que você não estaria mais comigo... e agora você voltou e... bagunçou a minha vida de novo... pedindo-me perdão, como se fosse fácil perdoar... eu... Naquela época, eu aceitaria estar ao seu lado, enfrentar qualquer coisa... sua mãe... conversou comigo, eu sei que havia muitos riscos envolvidos, mas... ainda assim, eu queria estar com você... eu abri todas as minhas defesas, meu coração... mas no fim, você não acreditou em mim, eu acho...

Ao olhar para o rosto dele, sentiu um terrível baque: ele estava chorando... ele apertou a mão dela com um pouco mais de força e falou, com a voz trêmula:

- Você acha mesmo que eu QUIS te deixar?! Pensa mesmo que eu, por minha livre e espontânea vontade quis deixar você arrasada, magoada... logo você, minha única fonte de consolo, a única pessoa que era realmente minha amiga e que me entendia... meu verdadeiro amor?! - ele balançou a cabeça - Eu sempre confiei em você. Tenho certeza que, se eu pedisse para ir ao fim do mundo comigo, você iria! Mas eu jamais pediria algo assim a você! Você é perfeita demais para ser suja por esse mundo mesquinho e cruel! Me odiaria até o dia em que eu morresse! Entenda Sakura... você é tudo para mim... e eu te amo mais do que tudo!

Aquele momento era tão intenso que, por um momento, ela esqueceu-se de tudo... que estava no hospital, que a sua filha estava para nascer... o que realmente importava era ele... e o que dizia. Na realidade, todo mundo na sala de parto nem ousava respirar... até Eriol esticava o pescoço, pelos lados para tentar ver o que se passava. Shaoran levantou a mão dela até seu peito e ela sentiu o coração acelerado, batendo desesperado e amargo, enquanto ele continuava:

- Para mim... eu estava fazendo a coisa certa... precisava te proteger do pior do mundo, mesmo que tivesse que... sacrificar o nosso amor... mas... - ele suspirou profundamente, como se estivesse tentando ganhar sustendo do fundo de sua alma - Você perguntou porque eu voltei não foi? Até poucos momentos atrás, eu não tinha noção do que havia feito eu pegar uma avião e retornar ao Japão... mas agora eu sei seguramente o porquê: eu fui um covarde! Por mais que minha determinação fosse te proteger do mau que eu posso te causar, não consegui! Não consegui te esquecer, tirar você, seu sorriso, sua alegria, seus olhos de dentro do meu coração! - ele se calou por um longo momento, mas ninguém teve coragem de quebrar o encanto e o silêncio. Nem mesmo Sakura. E ele concluiu - Eu voltei. Não consegui ficar longe de você, nem pelo seu próprio bem... porque minha vida não tem sentido sem você.

Ela soltou um grito. Dessa vez não foi de dor física. Ela tinha achado que Yelan a libertara do peso e agonia da separação naquela conversa... mas somente a afastara um pouco. Mas, ao escutá-lo dizer aquelas palavras, foi como sentir um estalo dentro do coração, como se aquelas palavras fossem algum tipo de código que a libertava de uma agonia, de uma amargura que se tornara sua opressora. Ela sabia, sem que lhe dissessem ou tentassem convencer... que ele falava a verdade... e ela conseguia entender...

And these mistakes you've made

Esse erros que você cometeu

You'll just make them again if you'll only try turnin' around

você vai comete-los de novo, Se você apenas tentar dar a volta.

Contudo...

Como poderia perdoá-lo a ponto de aceitá-lo de volta? Como poderia voltar a confiar outra vez nele se poderia sofrer outra vez! Ela tinha certeza que, se algo semelhante acontecesse outra vez, ela não resistiria... com certeza morreria... talvez... fosse o caso de não se deixar levar pelas palavras dele, por mais verdadeiras que fossem?

Ela soltou outro grito, mas dessa vez de dor. Ela fez força mais uma vez, sentindo que, dessa vez, a filha não iria mais esperar por nada! Lembrando-se repentinamente que estava no meio de um parto, Eriol, voltou a sua atenção à bebê e exclamou:

- Muito bem, Sakura! Já estou conseguindo ver a cabeça! Força! Força!

Ela ganiu, apertando a mão de Shaoran, que, por sua vez, apertava de volta, como se quisesse transmitir força...

- Sakura, você quer se casar comigo?

Todo mundo segurou o ar ao mesmo tempo na sala.

Ele falou algo tão fora de contexto e aparentemente sem propósito que Sakura levou algum tempo para entender o que significava aquilo, naquele momento... Ela o olhou, mal acreditando o que havia acabado de escutar... aquela frase... que sonhara tanto em escutar, por tanto tempo... finalmente, ele havia dito. Foi como se ele tivesse conseguido ler seus pensamentos. O sorriso se abriu involuntariamente... mas ela quis confirmar:

- O que foi... que você disse?!

Ele a olhou com ternura infinita, abaixando-se para ficar no nível dos olhos dela:

- Eu perguntei... se... você quer se casar comigo? - Apertou ainda mais a mão dela e então se desatou a falar, inseguro - Eu... eu sei que deveria ter pedido isso há muito tempo e... sei que esse não é o melhor momento, mas...

Parou de falar ao ver os olhos dela, brilhantes de alegria. Depois de muito tempo, aquelas eram as primeiras lágrimas de felicidade.

- Eu... não consigo acreditar!

- Mas é verdade, meu amor! Por favor, me dê a honra de ser minha esposa.

- Quer mesmo se casar comigo? Eu... - ela perguntava, como se não conseguisse acreditar ainda - eu... sua antiga... secretária?

Ele sorriu, maroto.

- Se você fosse a mulher mais pobre e mais sem importância do mundo... ainda assim eu te amaria.

- Mesmo... mesmo correndo o risco das pessoas não entenderem? E olha que meu pai e meu irmão não iriam aceitar com facilidade!

- Eu não me importo com o que o mundo pense! Eu aprendi minha lição! Eu só quero saber o que você pensa! Você e a nossa bebezinha são meu tesouro mais precioso!

Era tudo o que ela queria ouvir!

Porém um pensamento perturbador passou pela sua cabeça, varrendo seu sorriso e as estrelas em seus olhos. Com a voz entrecortada, ela falou:

- Você sabe... que me casar com você é o que eu mais quero no mundo, mas... eu... eu não posso aceitar! Não posso!

- Mas por quê?!

Quem fez a pergunta foi uma enfermeira que estava ali perto. Ao perceber que falara em voz alta, ficou vermelha como um pimentão e se afastou. Contudo, aquela era a pergunta que todos os presentes estavam se fazendo, inclusive Shaoran, que sentiu seu coração perder um compasso.

- Mas por quê?! - repetiu a pergunta, seus olhos buscando os dela.

Ela não respondeu imediatamente: uma contração violenta e longa forçou-a a voltar sua atenção para o bebê. Eriol falou, com certa rispidez e arrogância de quem sabe que tem razão:

- Sakura, agora vai você sentir uma série de contrações, rápidas e constantes, por que já está mais do que na hora desse bebê nascer. Portanto, acho melhor vocês dois se resolverem logo.

A moça se recostou ao travesseiro com força, ofegante e só então respondeu:

- Porque... eu sei que você está pedindo... pensando só na nossa filha. Eu sei que você me ama... mas... e se eu não estivesse grávida... você iria me pedir em casamento, mesmo assim?! Eu não posso saber, não tem como eu saber, por isso...

Interrompeu-se ao vê-lo levantar-se bruscamente. Ele mexeu em um dos bolsos da calça e, de lá, tirou uma caixinha de veludo. Sakura fechou os olhos, levando uma das mãos a boca. Uma auxiliar ali perto piscou (aliás, seus olhos estavam úmidos há bastante tempo) e repetia baixinho "Espero que seja um anel de noivado! TEM que ser um anel de noivado!"

Era um anel de noivado. Ouro brilhante e vivo, de aro fino com uma pedrinha rosava que cintilava mais que uma estrela. Lindo... perfeito. Ao lado dela, havia uma aliança simples masculina. Ele explicou, com suavidade:

- Eu comprei esses anéis há muito tempo... mais ou menos na época em que comprei meu apartamento - o que, aliás, fiz pensando em você - Eu pretendia me casar com você há muito, muito tempo! Mas... aconteceu tudo o que... aconteceu... - ele olhava fixamente para a pedrinha brilhante - durante todo o tempo em que estivemos separados, eu me torturei, pensando... por quê... por que não havia ficado?! Por que não te ofereci esse anel antes?! Teria sido egoísmo meu... ou queria mesmo somente o seu bem? - ele voltou a olhá-la e seus olhos brilhavam de emoção - O que realmente importa é que eu sempre quis você... sempre... e saber que você está, ou melhor estava, eu nem sei... esperando um filho meu só me dá uma certeza maior de que você é a pessoa mais perfeita da minha vida. Mas... eu não tinha idéia da gravidez... voltei porque te amo... e preciso de você.

Fez-se silêncio absoluto na sala, quebrados somente pelos gemidos de choro de umas enfermeiras mais emotivas. Todos estavam em expectativa, esperando a moça dar uma reposta. Ela estava calada, olhando, com o rosto vazio de expressão, para ele. O rapaz não sabia mais o que fazer. Sentia-se completamente vulnerável e impotente! A caixinha de jóias tremia em suas mãos... se ela dissesse não, o que faria? Aquela fora sua última cartada...

Subitamente, ela abriu um sorriso enorme, tão cheio de felicidade e amor que pareceu encher a sala de luz. Lentamente, ela falou a tão esperada resposta...

- ...Sim.

Ele fechou os olhos e respirou profundamente, sentindo-se aliviado e relaxado como não se sentia há muito tempo. A sala toda explodiu em vivas. A enfermeira que falara alto abraçou-se com outra e elas começaram a chorar. Um rapaz usava toalhinhas de papel (com as quais deveria enxugar o suor da moça) para distribuir entre as choronas. No entanto, eles não prestavam atenção em nada disso: estavam presos em uma imensa felicidade, que os fazia chorar e sorrir ao mesmo tempo, mergulhados um nos olhos do outro. Ele pegou o anel, seu anel, e, com a mão trêmula, o pôs no dedo indicador direito dela. Porém, antes que ela pudesse falar qualquer coisa que fosse, uma contração veio e ela ofegou. O médico percebeu e falou, com energia e severidade:

- Vamos nos concentrar, pessoal! Ótimo que está tudo bem, mas agora o show é do bebê! Rukawa, prepare um lençol para embrulhar a criança e você, Tanaka, prepare-se para iniciar o procedimento pós-parto.

Quem o ouvia, achava que ele estava realmente sério, porém se retirassem a máscara cirúrgica, veriam um sorrisinho divertido no seu rosto.

Sakura fez força, duplamente renovada pela felicidade. Shaoran apertava sua mão e sussurrava palavras de carinho e motivação.

- Muito bem, Sakura! - incentivava, por sua vez, Eriol, animado - Um pouco mais... aí vem a cabeça... os ombrinhos... mais força... o tronco... definitivamente, é uma menina... só mais um pouco... os pés...

Sakura reclinou-se, exausta, nos travesseiros, porém sorria satisfeita. Ergueu os olhos, ansiosa, ao escutar o choro forte da garotinha. O médico levantou-se e ergueu o bebê, para que os orgulhosos pais pudessem vê-la. Shaoran olhava embasbacado para ela, apertando muito a mão da sua futura esposa. Sakura, por sua vez, chorava de alegria (e em parte também porque o rapaz estava para quebrar os dedos dela). Uma enfermeira cortou o cordão umbilical e a chamada Rukawa levou-a para pesagem e para metragem inicial, além da limpeza.

Um pouco depois, já limpa e mais calminha, Eriol a levou num embrulhinho de lençóis verdes e entregou-a para a mãe, sorrindo e dizendo:

- Dois quilos e 750 gramas, 50 centímetros... e saudável! Parabéns! Vocês podem ficar com ela um pouquinho, mas depois ela precisa fazer alguns exames. Eu vou sair para avisar a Tomoyo e a srta. Li.

E ele se foi. Ficaram os dois, admirando...

- Ela é tão... pequenina... - falou Sakura, com a voz entrecortada, fungando, passando os dedos delicadamente pelo rostinho - Nosso... bebezinho...

- Sim... nosso bebezinho... - ele repetiu, acenando com a cabeça - Ela é tão linda... ela se parece com você!

A moça soltou uma risada divertida:

- Shaoran, ela está parecendo uma ameixa... roxinha e inchada! Mas... ela é linda de qualquer maneira...

- Sakura... você já escolheu um nome para ela?

A moça desfez um pouco o sorriso.

- Já... mas... eu... eu não sei se... você vai concordar. - ele a encorajou com o olhar e ela respirou fundo para dizer - Fenmei...

A primeira reação foi de surpresa. Depois seus rosto tornou-se um pouco sombrio, talvez pela lembrança da irmã... mas, afinal, um lento sorriso se espalhou pelo seu rosto e seu olhos brilharam de satisfação...

- É perfeito, minha querida...

Credo... esse povo um dia REALMENTE me mata... Tive que usar um abridor de latas para sair da armadura... ficou imprestável... er... terminaram de ler? Que bom que bom!

Eu não vou me estender muito porque, como vocês já devem ter reparado, eu postei dois capítulos seguidos, então vocês não querem ler muita enrolação... só vou comentar sobre quatro coisinhas...

A primeira é sobre o título do cap... "Breathe" é uma música que eu gosto muito, da Anna Nalick. Ela é meio melancólica e algumas partes dela combinam muito com esse cap e o próximo... então vocês já devem ter deduzido que os trechos de música que vocês encontraram por aí é dessa música... e vão encontrar mais trechos no cap 23 também... vocês encontram ela fácil fácil pela internet...

A segunda é: por que essa autora louca resolveu postar dois capítulos de uma vez?! Simples, meus caros colegas: eu queria muito terminar essa fic e também queria compensar vocês por tanto tempo ausente, sem dar notícias (sério: tinha gente que queria se jogar pela janela... ), além, é claro, esse meu atraso im-per-do-á-vel de uma semana...

Terceira: Quando eu penso no casal Extraterrestre, ou seja, E T (Sacaram?! Eriol + Tomoyo... ET... Extraterrestre... XDDD) sempre me vem uma música na cabeça... É a música que eu citei um pouco antes do beijo, "Celtic Night", de uma pianista chamada Suzanne Ciani. Ela é, como vocês podem ter deduzido, instrumental apenas, mas nem por isso eu queria ter deixado de fazer referência a ela... eu a amo, viajo muito quando eu a escuto... Ela é mais difícil de se encontrar por aí, mas, quem tiver interesse, pode escutar ela pelo YouTube... na barra de endereços do navegador, você digita o endereço youtube /watch?vonwiZBJjs Vai direto na página... ou então simplesmente digite as Keywords suzanne ciani celtic night...

E, por último, a quarta: Gente, eu não tenho nada contra os Personal Trainers, viu?!

Bem... por enquanto é só... as reviews eu só vou comentar no final do cap 23... QUE É O ÚLTIMO!

Muitos fanfic readers ficam em choque... O.o

Pois é... não adianta chorar, o cap 23 é o "Season Finalle" de Um Admirador Especial...

Fico por aqui (por enquanto...)

Kissus

Cherry hi