Capítulo XXX – Sonos sem paz

No dia seguinte de manhã pelas dez horas, estavam na cafetaria da escola seis alunos que não tinham ido à aula que decorria na altura e que se encontravam sentados à volta de uma mesa num estado de choque tal que fazia do silêncio uma coisa normalíssima.

Vlad olhava para o pedaço de papel à sua frente com um misto de sensações. Preocupada em ver tantos sentimentos numa expressão facial ao mesmo tempo, Verona, que nunca pensara que o amigo tivesse sequer a capacidade de sentir tantas coisas ao mesmo tempo, retirou a folha de jornal da sua frente. Observou-a pela milionésima vez e deixou que Lee, a seu lado, lhe fizesse companhia. A certo ponto sentiu a ruiva estremecer e decidiu passar a folha a Velkan, que por ter Mar a seu lado praticamente em lágrimas, fez a folha deslizar até Carl. Quando estava prestes a fazer um comentário, Vlad roubou-lhe a página, arrastando-a para a sua frente de novo. Foi fácil porque Carl não a havia agarrado. Ninguém havia. O pedaço de papel dera um passeio à volta da mesa, sendo deslocado através da ponta dos dedos dos intervenientes. Havia um clima de morbidez ali incrível.

"Tem de haver uma explicação racional para isto," falou Carl, muito baixo, debruçando-se, tal como Vlad, sobre a folha. Havia um acordo unânime em como o rapaz que se apresentava no jornal era, de facto, Frank, mas sempre que havia uma oportunidade, todos davam mais uma olhadela para confirmar. A Mar era uma excepção, já que tudo o que se passara continuava a abalá-la a ponto de total incompreensão por parte daqueles que a conheciam melhor.

"Eu sempre soube que ele não era flor que se cheirasse. Se lhe ponho as mãos em cima…"

"Fazes o quê, Vlad?" perguntou Lee com uma rispidez inesperada. "Já não chega o que aconteceu ao Gabriel?"

"É por isso mesmo! Ele precisa de ser vingado!"

"Não sejas imbecil! Eu já não expliquei o que aconteceu?! O Gabriel está no hospital por ter recebido um murro! Um murro, Vlad! Achas isso normal? Achas normal um ser humano rebentar com uma fechadura com as próprias mãos?!" Lee tinha-se levantado e só se voltou a sentar porque Verona a puxou para baixo ao ver que a amiga começara a tremer.

"E o Frank é o quê, um extraterrestre?" perguntou Velkan, aproveitando o facto de Mar ter o rosto enterrado no seu pescoço para puxar a página de jornal para si e olhar para a imagem de novo.

Estranhamente, ninguém respondeu a isto. Guardaram todos o silêncio uma vez mais e este manteve-se durante largos minutos.

"Vocês não estão a pensar que ele seja um E.T. pois não?" perguntou Carl timidamente.

Lee fez um som de indignação e levantou-se de novo. "Tudo isto está a deixar-me enjoada. Até logo."

E foi-se embora.

"Temos de tentar ser realistas quanto a isto," disse Carl, alisando a folha com os dedos e tentando não engolir em seco. "Missa de um ano de falecimento… de um adolescente de nome William Adrian Harvestine… de dezassete anos em Massachussets. Temos por onde começar. Bases."

"Bases para quê?" perguntou Mar de repente e com uma certa hostilidade.

"Para descobrirmos tudo, é claro!" respondeu Vlad, também hostil, parecendo não se sensibilizar com o receio que irradiava da amiga. "Pelo menos isso! Vou descobrir quem é esse desgraçado, nem que tenha que ir a Massachussets eu próprio. Se não estás interessada, então fica de fora."

"Olha, tem calminha, sim?" disse Velkan irritadamente. "Vê lá em quem descontas as tuas frustrações."

"Pelo amor de Deus, calem-se," repreendeu Verona, quando viu que Mar tinha ficado bastante aborrecida com Vlad e que estava prestes a ripostar. Voltou-se para Vlad. "Falas a sério, quando dizes em ir a Massachussets?"

Inusualmente sério, Vlad acenou com a cabeça.

Verona esboçou um sorriso um tanto orgulhoso. "Bom, então. Agora só temos de descobrir tudo o que consigamos acerca desse tal William Harvestine e em último caso fazer uma visita à sua família para tentarmos saber o que faz o cadáver dele na Pensilvânia.


"Olá, Lee."

"Olá, Alan." Lee não parou de caminhar lestamente na direcção do seu cacifo. Tinha reparado na presença do rapaz pouco tempo antes e fingira que não o havia visto. Não estava, realmente, com vontade de se chatear com mais pessoas. Por isso é que tinha como destino o seu cacifo, para que pudesse recolher todas as suas coisas e ir para casa dormir. Não tinha cabeça para aulas.

"Como está o Van Helsing?"

Lee esperou até chegar ao pé do seu cacifo para abri-lo e morder um dedo sem que Alan visse. Que vontade de gritar tinha.

"Lee?"

"Estável," respondeu Lee muito mais alto do que o necessário para o rapaz ouvir.

"Estás zangada comigo." Não foi uma pergunta e Lee inspirou fundo, fechando os olhos para se conseguir conter. "Eu sou livre para ter os amigos que quiser, Lee."

Lee fechou o cacifo com força e fitou-o enraivecida. "Confessas, então? És amigo dela?"

"Mais ou menos."

"Mais ou menos? Como consegues?! Ela queria-te bater! Disseste que ela tinha entornado água ferver no teu ouvido!"

"É verdade," confirmou o rapaz, subindo também o tom de voz. "Não te menti. Mas também nunca te disse que ela era minha inimiga. Só que porque tu não consegues ver nada de bom nela não quer dizer que mais ninguém consiga!"

"Não acredito no que estou a ouvir…"

Com dificuldade Alan continuou a falar, mas Lee baixou a cabeça e tapou os ouvidos. Não queria ouvir mais nada, no entanto as palavras do rapaz entravam pelos seus ouvidos na mesma.

"Estás a espiar-nos para depois lhe ires contar, é?" perguntou Lee, interrompendo-o.

Ao ouvir sito Alan parou completamente. Pararam as suas palavras, pararam os seus pensamentos, mas continuou a sua pulsação que ele começou a sentir nos ouvidos. A uma expressão de surpresa deu lugar uma de desilusão quando o seu cérebro recomeçou a trabalhar e ele se deu conta do significado da acusação da rapariga.

"Ele tem razão," sussurrou. "Ele tem toda a razão e eu não queria acreditar…"

"Do que estás a falar?"

"Se soubesses desde o início que eu conhecia a Brooke, a tua opinião de mim teria sido diferente, não é?" Alan estava agora zangado. "Ter-me-ias julgado! Porque para ti, qualquer pessoa que conviva com Brooke é igual a ela. Pois enganas-te! E fica sabendo que ela pode ter muitos defeitos, mas preconceito não é um deles!"

"Eu sou preconceituosa?"

"ÉS!" gritou Alan, num verdadeiro desabafo. "Se não fosses, não terias ficado danada por saber que eu tenho algum tipo de laço com ela! Eu não te menti!"

"Mentiste, sim!" acusou ela já de lágrimas nos olhos. "E mais que uma vez! Em primeiro lugar, não me disseste que eras amigo dela quando sabias que eu a detestava!"

"Porque tinha medo da tua reacção!"

Lee ignorou a interrupção. "Mentiste quando disseste que tinhas estado nos balneários depois de uma aula quando ouviste o Vlad a conspirar contra nós! Não podia haver aulas de Educação Física nesse dia! Céus, Alan, até no teu nome me mentiste! Não existe nenhum Alan Damien nesta escola!"

Naturalmente, isto deixou Alan sem ter o que responder. No seu interior perguntou-se se Lee alguma vez iria entender as suas razões para ele ter feito o que fizera. De qualquer modo, sentia um grande peso na consciência.

"Acredita que nada que tenha feito foi com a intenção de te magoar. Lamento imenso ter-te causado transtorno."

Lee deixou-o afastar-se sem ter a mínima vontade de continuar a discussão. Mesmo quando o rapaz tinha claramente explicações para lhe dar. Estava tão frustrada com ele e com o que acontecera com Gabriel que não tinha forças para mais. Sentindo-se imensamente sozinha, decidiu tratar de arranjar uma caneta de álcool e escreveu uma mensagem na porta do seu cacifo.


"Devias estar na escola a esta hora."

Anna guiou os olhos até à pessoa que lhe falara. "E o professor também."

Estavam ambos sentados em bancos, um de cada lado da cama onde Gabriel estava, inconsciente. Tinha sido levado para lá durante a madrugada e parecia estável até então. Como Angelica dissera, ele não tivera ferimentos de pior a não ser uma curta hemorragia interna e algumas costelas partidas.

Tal situação, haviam-lhes dito, não era usual, já que a área danificada era muito pequena e não era possível que o ferimento tivesse sido provocado por, por exemplo, uma queda ou um forte embate (que era uma das poucas formas de a estrutura óssea partir-se na zona do abdómen), portanto desde o início, a causa do incidente foi alvo de curiosidade. E isso era um problema, pois ninguém estava preparado para revelar aos médicos que Gabriel tinha sido agredido por um colega. Jinette, Anna lembrava-se, tinha ficado muito perturbado ao saber, mas estranhamente, nada incrédulo.

"Ele tão cedo não acorda, Anna. Porque não vais para casa descansar?"

Anna olhou para a cara pálida de Gabriel, para o seu tronco coberto de ligaduras e por fim para a meia dúzia de fios que ligava o seu corpo a uma máquina. Depois fitou Jinette. "Eu não posso," confessou baixo. "Não consigo. Sempre que saio sequer para ir à casa de banho, não vejo a hora de voltar para aqui com medo que aconteça alguma coisa."

"Entendo. Sinto o mesmo." Jinette virou a cara e Anna teve a certeza de ele não querer mostrar-se emocionado.

"Vai ficar tudo bem," tentou a rapariga consolá-lo. "Mais alguns dias e ele já fica como novo." Anna não tinha a certeza de acreditar no que dizia mas se tudo corresse como pretendido, serviria para aliviar o homem ao pé de si.

Jinette olhou para ela e ela viu uma expressão de desalento no rosto dele impressionante. "Eu só queria que ele ficasse tão contente em ver-me quando acordar como vai ficar ao ver-te a ti.

Impressionada, Anna pegou no seu banco e foi com ele até ao pé Jinette onde se sentou de novo.

"O senhor é família. É claro que ele vai ficar contente em vê-lo."

"Ele odeia-me."

"Não..."

"Odeia sim. Sempre odiou," Anna notou, com choque, que ele estava prestes a chorar. "Ele sempre soube que eu não era pai dele. Dei-lhe a conhecer isso desde sempre. E ele era diferente quando era criança, amava-me, chamava-me de pai. Porque é que isso mudou? Que lhe fiz?"

"Quando é que ele mudou?" perguntou Anna suavemente.

Jinette encolheu os ombros, cansado. "Quando veio para Vaseria mais ou menos… não sei… Revoltou-se, acho."

"Professor Jinette," começou Anna devagar. "O Gabriel já passou a fase estúpida da adolescência. Ele não é nenhum doido para tratar um pai como trata sem razão. Você tem a certeza que… nunca lhe fez nada de grave para ele agir assim consigo?"

"É claro que fiz," murmurou o homem, parecendo tudo menos nostálgico. "Fiz a coisa mais inaceitável que um pai pode fazer a um filho e hoje arrependo-me amargamente… mas ele não sabe… " Jinette esboçou um pequeno sorriso que invocaria pena até na pessoa mais insensível. "Imagina se soubesse."

Anna não se sentia tão presa a uma conversa há muito tempo. De facto pensou que nunca estivera tão interessada num assunto na vida. Queria perguntar a quê que ele se referia mas não tinha coragem nem esperança de obter resposta.

"Professor… você tem a certeza que ele não sabe?"

O pescoço de Jinette virou-se tão rápido que Anna jurou ter ouvido um barulho esquisito com a violência do acto. "O quê?"

"É só que… acho estranho e anormal o modo como ele age consigo. É ressentimento a mais para ser sentido a não ser que haja um motivo de maior. Na minha opinião pelo menos."

Abalado, Jinette permaneceu em silêncio, matutando sobre o que ouvira. Anna conseguia percepcionar confusão e medo na cara dele.

Ouviu-se baterem à porta e ela abriu-se, revelando Angelica. Ela espreitou, fingindo timidez e esboçou um sorriso simpático.

"Bom dia."

Anna respondeu com a mesma frase e recebeu, de boa vontade, um beijo na bochecha. Angelica apertou, depois, a mão de Jinette. Pegou no relatório médico pendurado aos pés da cama de Gabriel e começou a fazer anotações consoante o que via nas máquinas ao lado do paciente.

"Como está ele?" perguntou Anna.

"Nada mal, não te preocupes." Angelica logo terminou o seu trabalho e dirigiu-se-lhes apreensiva. "Ele está fora de perigo e não vai acordar nas próximas horas, talvez só amanhã. A vossa presença não é necessária."

"Obrigada, Angelica, mas eu não posso sair daqui."

Jinette assentiu com a cabeça lentamente, dando razão à rapariga sem ter que se expressar por palavras.

Angelica suspirou, vendo que não valia a pena continuar a insistir. "Vão pelo menos comer alguma coisa. Tens de te alimentar, Anna. Já sabes como ficas se permaneceres em jejum. E não digas que não estás porque eu sei que estás."

"Pronto, está bem, está bem…"

Não foi só durante pequeno-almoço que Anna e Jinette passaram o tempo na companhia um do outro. Quando voltaram para junto de Gabriel, conversaram sobre tudo e mais alguma coisa e ainda almoçaram juntos. Com surpresa, Anna concluiu com certeza que o homem não era nada má companhia. Como professor, era normal, talvez um pouco mais rígido do que o usual, mas como indivíduo, parecia-lhe até à altura, uma pessoa bastante agradável com quem conversar. Talvez pela preocupação que sentia, Jinette estava mais calmo e aberto. Especialmente com uma pessoa que naquele momento partilhava do seu transtorno.

Na parte da tarde, houve uma segunda enchente de gente no hospital. Depois das aulas acorreram lá não só alunos mas também professores, como foi o caso de Victor. O máximo de pessoas permitidas de cada vez era três portanto Anna juntou-se aos amigos na sala de visitas, compreendendo que Jinette não quisesse de maneira nenhuma sair do quarto, por mais visitantes que Gabriel tivesse. Assim, duas pessoas de cada vez puderam entrar. A maioria acabou por não fazê-lo para não causar confusão, bastando saberem que o estado do doente era estável. Os que não deixaram passar a oportunidade de verem a tal estabilidade com os próprios olhos foram Vlad, Verona, Mar, Carl e Brooke. Enquanto os dois primeiros estavam no quarto, Anna conversava com o resto que permanecia a fazer-lhe companhia. Brooke estava num canto sozinha e estava num estado de meter pena. Tinha umas enormes olheiras que demonstravam que não tinha usufruído de muitas horas de sono e com a sua roupa e falta de maquilhagem via-se que não estivera muito interessada em parecer apresentável.

Brooke nunca estivera tão preocupada antes e tinha a certeza que era a que mantinha esse sentimento com mais intensidade. Estava convencida disso. Cada minuto passado parecia-lhe horas, mas mesmo isso não fazia com que entrasse em pânico; permanecia muito quieta no seu banco à espera que todos entrassem para ver o seu Gabriel. Ela seria a última a entrar, já sabia.

"Estás aí?"

Brooke saltou com o susto. Não se dera conta de ninguém a aproximar-se. Deu de caras com a última pessoa que esperava. Anna estava de pé à sua frente. Não só a sua presença era de admirar, mas também a bebida que ela trazia na mão direita e lhe oferecia.

"O que é isso?" perguntou uns bons dez segundos depois.

"Chocolate quente."

Confusa, Brooke fez uma autêntica careta. Pensou durante mais algum tempo e olhou para cima. "Isso engorda. E está provavelmente envenenado."

Anna rolou os olhos e bebeu um pouco do chocolate que pretendera oferecer. "Vês? Nada de veneno. Queres ou não?"

Brooke fez uma careta pior do que a anterior. "Não. Agora tem os teus germes."

Visivelmente arrependida, Anna rangeu os dentes e inspirou fundo. "Ah, bom. Tudo bem." E virou costas para ir embora. Só que nesse momento, Brooke agarrou-lhe no casaco e não a deixou.

"Como é que ele está?" perguntou a loira baixinho. "Ninguém me diz nada…"

Anna pestanejou algumas vezes e quase sacudiu a cabeça para ver se aquela interacção realmente se estava a passar. "Ele… está a recuperar. Ainda não acordou."

Brooke continuou a fitá-la em silêncio à espera que continuasse, mas Anna não o fez. Realmente não tinha muito o que dizer. Eventualmente, Brooke quebrou o contacto visual e baixou a cabeça. E baixar a cabeça era algo que Anna nunca a vira fazer. Sem controlar completamente os seus actos, Anna estendeu a sua mão direita de novo e a outra rapariga, relutante ao início, acabou por aceitar e pegar no copo de chocolate quente.

"Obrigada."

Chocada com a atitude das duas, Anna assentiu com a cabeça, em falta de palavras e logo se afastou, antes que começasse a beliscar a própria pele para provar que aquilo não se tratava de um sonho de mau gosto.

Victor ficou propositadamente para o fim. Era já o fim da tarde quando pôde ir visitar o aluno. Anna entrou com ele.

Então, uma situação no mínimo estranha tomou lugar. Depois de observar Gabriel com uma expressão completamente devastada, Victor encarou Jinette, que desde que o colega entrara não tinha desviado os olhos do filho.

"Lamento… tanto, Michael." Victor engoliu em seco, não sabendo o que mais dizer. No momento em que Jinette finalmente o fitou, Anna deu-se conta que estava ali terrivelmente a mais. A cólera que o rosto dele expunha era quase assustadora. Não disse nada e pela primeira vez desde o almoço, levantou-se para sair.

"Michael…"

Jinette levantou uma mão rapidamente, pedindo silêncio. Obteve-o. "Não conseguiria falar contigo sem acordar o meu filho neste momento. Havemos de ter a nossa conversa."

Era como se a presença de Anna tivesse sido esquecida. Depois de Jinette sair, Victor sentou-se num dos bancos ao lado de Gabriel e depois de ver o estado do rapaz outra vez, deitou a cabeça nos braços e começou a murmurar.

"O que fui eu fazer? O que é que eu fui fazer?"


"O seu comportamento, menina Aline –"

"Eline."

"…Foi terrivelmente pavoroso!"

Lee suspirou pela centésima vez, aborrecida. Estava já no gabinete do director há quase meia hora e não cessava a bronca com que o homem a castigava.

"Não só danificou material da escola sem pudor, como teve a audácia de pedir a caneta usada no crime a uma funcionária!" Lee abriu a boca para dizer alguma coisa mas acabou encolhendo os ombros e coçando a cabeça. "Não se vai explicar?"

"Eu não tinha uma caneta comigo! Que queria que fizesse?"

Salvando-a de uma explosão de indignação, bateram à porta e o director deu permissão para entrarem. Um rapaz que Lee tivera o desprazer de conhecer entrou.

"Tenho fantásticas notícias para si!"

"Acerca de quê, meu rapaz?" perguntou o homem com crescente curiosidade.

"Sobre… 'aquilo'."

O director recostou-se, visivelmente interessado, mas tentou o máximo conter a excitação. "Ele contactou-te?"

O rapaz acenou com a cabeça, orgulhoso. "Não só me contactou como está contactável naquele… contacto que lhe deixou. Em Filadélfia."

"Ele está cá? Com a… mercadoria?"

"Parte amanhã para a costa oeste e pode passar por Pittsburgh hoje se você fizer uma oferta razoável.

"Hoje?!" exclamou o director. "Credo! É a minha chance." Pegou na sua agenda e rapidamente começou a fazer apontamentos ao mesmo que se levantava. "E você, minha cara, está dispensada por agora. Vou pensar num castigo, depois mando-a chamar."

"O quê, vou para a forca sem me poder defender sequer?"

"O que tem a dizer em sua defesa?" Via-se que estava mortinho que ela se fosse embora.

"O senhor vê, a culpa é das minhas hormonas. Vejo-me neste momento imersa numa pavorosa tensão pré-menstrual, que me deixa fora de mim. Deve compreender, claro, já que também deve ter sido pela mesma razão que, no ano passado, a sua filha partiu o vidro de uma janela ao atirar um apagador. Tenho a certeza que se lembra disso."

Vermelho como um tomate, o director guardou a agenda no bolso, enquanto pensava o que dizer. "Não posso discutir isso de momento, tenho uma chamada importante a fazer. Adeus."

A porta bateu e Lee aproveitou a oportunidade para fazer algo que sempre sonhara fazer: foi-se sentar na cadeira do homem que acabara de sair e esticou a pernas em cima da secretária.

"A tentar salvar-me, 'meu rapaz'?"

Virando-se para ela, Will respondeu-lhe impassivelmente. "Não, 'minha cara', estava apenas a tratar de negócios."

"Deu para notar. Essa 'mercadoria' é o quê? O homem lá cara de narcotraficante tem."

Ele demorou a respondeu. "Banda desenhada."

"Tanto alarido por causa de banda desenhada?" Lee riu-se. "Tu também gostas?"

Will encolheu os ombros. "Não como ele, mas respeito o seu gosto de coleccionar."

Lee não queria admitir mas estava curiosa. "És coleccionador de alguma coisa?"

"Sim."

"De quê?"

Sorrindo como se de uma piada sabida apenas por ele se tratasse, Will respondeu, "Filmes de terror." Depois abanou a cabeça e saiu, rindo baixinho. Foi por isso que Lee não o ouviu, do outro lado da porta, acrescentar, "Como eu adoro a ironia…"


Pela primeira vez em quase dois dias, Anna voltou a casa. Tal só aconteceu porque Boris viu-se obrigado a trazê-la para casa ele próprio, pois mais ninguém a conseguira convencer a sair do hospital.

Já em casa, a vontade de voltar para junto de Gabriel era imensa, mas por outro lado estava satisfeita por poder tomar um longo banho e dormir durante horas a fio. Agora que Gabriel estava fora de perigo, tinha a certeza que iria conseguir adormecer.

Depois do banho, ela pode também usufruir de uma mesa farta que em nada se comparava com as sandes que comera no hospital. O único senão do fantástico jantar, foi sentir o olhar de Christine, que para seu desagrado não saía de sua casa, pregado nela.

"Coma devagar, Anna. Engolir a comida sem mastigar vai fazer-lhe mal.

Anna deitou-lhe um olhar de afronta, mas logo depois o seu rosto suavizou-se. "Estou a ficar mal habituada. É da falta de aconselhamento médico à mesa."

Christine pestanejou algumas vezes, não percebendo e Boris pousou os talheres ruidosamente, fazendo com que Anna voltasse a sua atenção ao seu prato e não se atrevesse a encontrar o seu olhar. Também não falou mais com ele durante o tempo que esteve à mesa, portanto não teve a oportunidade de perguntar porque Velkan não tinha descido para jantar. Assim, quando subiu, bateu à porta do quarto dele antes de ir para o seu. Ninguém lhe respondeu. Curiosa, abriu a porta e encontrou na mais completa escuridão e silêncio. Sabendo que o irmão estava lá, ela dirigiu-se à cama do rapaz e encontrou-o lá deitado sem qualquer cobertor a tapá-lo. Com uma sensação que algo estava mal, deitou-se ao lado dele e enroscou um braço à volta do corpo dele.

"Que se passa?"

Velkan não lhe respondeu.

"Ei, não é por eu estar em baixo, que vou deixar de reconhecer quando o meu irmão está a fingir que dorme para não se abrir com ninguém."

"Eu não quero falar, Anna."

Anna deu-lhe um beijo na face e sentiu-a muito quente. Das duas uma: ou ele estivera a gritar ou a chorar. "Tens a certeza?"

Velkan disse que sim e depois murmurou, "Amanhã. Amanhã, falaremos."

E Anna sentiu-se um pouquinho mais descansada.

No dia seguinte, Anna não falou com o irmão de manhã, pois mal acordou, vestiu-se e foi para o hospital antes que o pai se lembrasse de a proibir de faltar a mais uma dia de aulas. Assim, não pode testemunhar a ausência de Velkan na escola. E como já era de se esperar, o estado de espírito do rapaz tinha a ver com Mar, que não muito diferente dele, desatou a chorar na primeira aula quando concluiu que ele não viria. E tal como ele, também ela não abriu a boca quanto à razão do seu presente estado desesperado quando os amigos lhe fizeram perguntas.

Um pouco ao lado de tudo isso, estavam Vlad e Carl que passaram todo o dia à frente de um computador a 'pesquisar'. Em quase três horas haviam descoberto que existia dados de vinte e nove pessoas com o nome de Frank Murray em Pittsburgh e que nenhum deles aparentava ser o Frank que conheciam. A mesma pesquisa que fariam a William Harvestine, Carl preferiu deixá-la para a parte de tarde já que penetrar no sistema de dados de Massachussets, segundo o rapaz, seria mais difícil e requereria mais horas.

Surpreendendo toda a gente, Vlad afirmara de imediato que lhe faria companhia pois queria chegar ao fundo da questão o mais rapidamente possível e estar presente quando Carl o fizesse. Mesmo que tivesse de faltar a um treino de futebol. Com o peito a explodir de orgulho, Verona abraçou-o e beijou-o na bochecha. Sem pensar duas vezes, Vlad garantiu que se fosse para receber mais que um beijo na face abandonaria a equipa de vez. Verona não disse nada mas sorriu.

Anna encontrou Angelica no quarto de Gabriel quando chegou. A médica achou melhor informar-lhe logo o que se estava a passar. Gabriel tinha tido uma recaída e estava agora com uma pesada febre que lhe causava muito tremores e aparentemente, pesadelos.

Jinette, agora com uma pequena barba já visível, parecia mais preocupado do que nunca. Caminhava de um lado para o outro, com os dedos enfiados na boca e a perguntar como estava a situação de cinco em cinco minutos. Já Anna tentou não ficar tão paranóica e confiar que a mulher que a criara era tão boa médica como era mãe.

Ficaram ambos com ele durante o resto do dia e para seu desgosto, a situação do rapaz manteve-se durante a noite. E foi durante esta altura que Gabriel começou a falar baixinho coisas sem nexo, acordando a rapariga que dormia com a cabeça ao lado do braço dele.

Jinette dormia num dos pequenos sofás ao fundo do quarto. Foi por isso que não ouviu Gabriel, ainda no seu sono, chamar pelo pai vezes sem conta.


N/a: Sim, sou eu a actualizar!