Sakura Card Captor

Jagged Amber

Autora: starjade

Tradutora: Forbidden Queen

Capítulo Vinte e Cinco

Finales

Silêncio foi a única resposta que as palavras de Syaoran receberam. Elas pareciam ecoar pela sala e todos os olhos encaravam o novo líder, choque além do imaginável. Se um alfinete caísse na sala todos ouviriam, e ninguém movia um único centímetro enquanto tentava registrar os que Syaoran acabara de dizer.

Era completa loucura. Ninguém na história do clã Li havia…dito algo semelhante ao que Syaoran dissera. As pessoas não sabiam o que pensar e a maioria estava imaginando se aquele momento era real ou não.

Um ancião finalmente conseguiu sair do estado de incredulidade que havia tomado conta de todos e correu para o lado de Syaoran. O anteriormente calmo e etéreo ancião parecia chocado e irritado além do possível, mas a sua necessidade de salvar a reputação do clã transparecia no seu estado alterado. "Eu tenho certeza de que você não está falando sério, Xiao-Lang. Pára de fazer piadas! Eu tenho certeza que você sabe que esse não é o momento para brincadeiras. Você não gostaria de…repensar?" O ancião perguntou, um tom perigoso na voz. Nas entrelinhas, ele deu a entender que se Syaoran não lhe desse a resposta desejada haveriam consequências a ser pagas.

Syaoran lançou um olhar ardente ao ancião que pareceu servir como uma resposta para todos os presentes. Os anciões pareciam desnorteados, e mais de um parecia preferir morrer naquele instante à ter que viver aquele momento.

Syaoran, por outro lado, manteve os olhos âmbar erguidos e uma expressão destemida no rosto. Ele olhou a sala e começou a falar, a voz autoritária e poderosa. Semelhante aos tempos de seu pai, os espectadores finalmente começaram a relaxar ao ouvir as palavras dele. "Eu tenho certeza que todos vocês querem saber quem é Sakura Kinomoto. Ela é a minha tutora. Uma garota que me deu uma visão e me ensinou a usá-la. Ela me mostrou o que era a vida…e finalmente eu pude entender o significa ser um líder," Syaoran falou, as palavras traindo o tom frio que ele usava para proferí-las. "Não é apenas poder proteger e servir o seu clã. É entender cada pessoa nele. De onde elas vêm e seus desejos e necessidades. É…família. Copanheirismo. Amor."

Syaoran fechou os punhos e deu um novo olhar gelado para os que estavam na sala. "E se alguém tem alguma coisa para falar disso, é bom que fale agora."

As pessoas inspiraram com força pela falta de educação de Syaoran, mas ainda assim a única resposta foi o silêncio. Os ocupantes da sala permaneceram parados e completamente congelados, todos eles encarando o novo líder como se tentando decidir o que deveriam pensar. O adolescente de quase dezessete anos ficou parado em frente ao clã mais poderoso de Hong Kong e falou o que sentia ser o mais certo no momento. E isso era absolutamente chocante.

Finalmente, Syaoran fez uma reverência para a sala e para os anciões mas, antes que ele pudesse se virar para sair, um homem do fundo do ambiente gritou, "Ao novo líder do Clã Li, Li Xiao-Lang."

Syaoran se virou lentamente na direção da voz, os olhos grandes.

E em resposta, toda a sala ecoou, "Ao novo líder do Clã Li, Li Xiao-Lang!" O ambiente imediatamente inrrompeu em aplausos e os anciões ficaram parados, a raiva retorcendo suas feições. Syaoran sentiu a ameaça de um sorriso puxando os cantos de seus lábios e ergueu a mão em reconhecimento do elogio antes de se virar e sair do palco.

O novo líder do Clã Li…Li Xiao-Lang, ele pensou. Espero que você esteja orgulhoso de mim, papai. Espero que esteja orgulhoso.

X

"Cheguei!" Sakura gritou enquanto entrava em casa, as malas apertadas nas mãos. Ela ouviu passos correndo em sua direção e ela se virou para encontrar uma alegria se atirando nela.

Rindo enquanto recuperava o fôlego ela largou as malas na porta e abraçou o sobrinho. "Oi, gracinha." Sakura riu, os olhos brilhando. "Sentiu saudades?"

A criança fez que sim, os olhos grandes de felicidade. "Kura ficou longe taaaaaaanto tempo!" Ele abriu os braços para mostrar o tempo que ela ficara fora e Sakura sorriu.

"Mas eu voltei," Sakura falou baixinho e a criança sorriu novamente.

"Sakura?" Uma voz perguntou e ela se virou para ver o irmão mais velho parado na porta, seus olhos escuros sorrindo para ela.

"Touya!" Sakura gritou e correu para o irmão da mesma maneira que Tihn havia corrido para ela. Abraçando o irmão mais velho, Sakura afundou o rosto no seu ombro e sentiu o stress que sentia há tanto tempo saindo do seu corpo. Ele a abraçou de volta com a mesma força e ela sentiu lágrimas quentes de alegria enchendo seus olhos.

"É tão bom estar em casa," Sakura falou enquanto largava o irmão.

Touya sorriu. "É bom te ter em casa, Kaijuu. Como foi lá?"

Sakura olhou para baixo antes de rapidamente erguer os olhos para encarar os dele e dar um sorriso amarelo. "Foi…normal."

"Eu…eu te amo…" Ela finalmente sussurrou e virou nos calcanhares, se virando para longe dele. Então ela correu para fora do templo, correndo e correndo, ignorando os gritos dele, e correu para o carro parado na frente.

Abrindo a porta ela entrou, gritando sem ar, "Vai, vai, vai."

O carro começou a andar e ela viu, com os olhos cheios de lágrimas, Syaoran saindo do templo virando a cabeça de um lado para o outro mas sabendo, ele não podia ver…não podia a ver o deixando.

Touya olhou para ela como se soubesse o que estava acontecendo e Sakura olhou para o outro lado para tentar controlar as emoções. Abrindo as mãos, ela soltou o ar e esticou os braços para Tihn. Abraçando o sobrinho como se sua vida dependesse disso, ela olhou para Touya e perguntou, "O pai tá aqui?"

Touya fez que sim e indicou as escadas. Sakura beijou o sobrinho e se virou para subir as escadas. Touya a segurou pelo pulso antes que ela saísse e sussurrou, "Tá tudo bem agora. Você tá em casa."

Sakura olhou para o irmão mais velho. Ela havia saído para trabalhar como tutora por um programa da escola. Isso era tudo o que ele sabia e ainda assim, ao olhar nos olhos dele, Sakura achava que ele sabia muito mais. Ela mal pode acenar antes de se virar para subir as escadas deixando algumas lágrimas correrem pelo rosto.

Syaoran…seu nome ecoava pelo corpo dela como um grito em uma caverna. Fora um inferno, ter saído de Hong Kong e voltado para o Japão, mas ela havia conseguido. Era dificil ver as coisas tão familiares e constantes em sua casa…enquanto em Hong Kong não havia um único dia sem mudanças…e não havia um dia em que ela não aprendesse algo novo.

Ela havia acabado de subir as escadas e abriu a porta do quarto do pai sem fazer barulho. Ele estava deitado na cama e um raio de alegria iluminou seu rosto quando viu Sakura. Na última vez que Sakura viu o pai, ele estava adoentado e pálido no hospital. Ela havia deixado o Japão com o coração partido pela condição do pai. Depois do benfeitor misterioso, as coisas haviam começado a melhorar. Um raio de luz pareceu iluminar a sua escuridão e seu pai…seu pai parecia saudável. Em casa ele estava recuperando a cor e estava tão…tão…

"Papai…" Ela sussurrou, sua voz rompendo o silêncio pacífico que envolvia o quarto em uma atmosfera de tranqüilidade.

Seu pai se virou e, ao vê-la parada na porta, abriu os braços imediatamente e gritou, "Sakura!" Sakura correu até o pai, se deixando abraçar por seus braços. "Senti saudades, papai…" Sakura falou enquanto o pai mexia no seu cabelo.

"Também senti sua falta, filha. Não houve um dia em que eu não me lembrei de você. Mas foi uma experiência bastante educativa, não foi, Sakura?" Seu pai perguntou, sorrindo. "Ensinar em um país diferente. Você deve ter aprendido de tudo pelo tempo que ficou lá."

Sakura lhe deu um sorriso fraco. Era bem estranho ouvir alguém falar tão casualmente sobre sua viagem. Parecia ter sido muito mais para ela. "Oh, e querida! Eu descobri quem pagou pela minha cirurgia," Fujitaka falou arrumando os óculos enquanto se preparava para levantar da cama. Sakura olhou para ele curiosa.

"Quem?"

"Na verdade, foi alguém de Hong Kong, tenho quase certeza de que é alguém relacionado com a família que te recebeu lá. Um jovem chamado…Li Syaoran, eu acho. É tenho quase certeza de que é esse o nome," Fujitaka falou, um sorriso alegre no rosto. "Eu te falei porque achei uma certa ironia. Eu queria saber porque alguém fez alguém faria algo tão bom…Sakura? Você está bem?"

X

"Você tem noção do quão ESTÚPIDO você foi?" Yelan falou em voz baixa, andando de um lado para o outro no quarto. "Aquilo foi idiota e burro. Como você pode falar aquilo?"

Syaoran largou a camisa que estava segurando e silvou, "Mãe, pára."

"Não, Xiao-Lang. Haviam outras coisas que podíamos fazer para contestar a decisão dos anciões. Haviam outras opções!"

"Como por exemplo?" Syaoran gritou, a voz frustrada e irritada. "Como o quê?"

Quando apenas o silêncio respondeu, Syaoran voltou a jogar roupas caoticamente sobre a cama. "Xiao-Lang…" Sua mãe suspirou e sentou na beira da cama segurando uma mão na outra. As últimas duas semanas haviam sido as mais loucas que ela podia se lembrar. Da mudança do filho, à decisão dos anciões, à competição e Sakura indo embora…Yelan mal podia acompanhar e estava ficando mais difícil manter a cabeça no lugar…e a responsabilidade de manter a família unida.

"Mãe, por favor. Agora eu sou o líder do clã. Eu tomo as decisões que acho corretas," Syaoran falou firme enquanto ajeitava um par de meias antes de se sentar ao lado da mãe na cama.

Yelan suspirou antes de se virar para o filho. Sempre que imaginava o filho chegando a líder, ela nunca pensava em uma situação como aquela. Com tantos problemas e tanta expectativa…Seu filho parecia ter envelhecido dez anos. Ele estava tão desesperado para provar que era maduro o suficiente, que ele era capaz apesar da deficiência, que ele podia liderar o clã mais respeitado de Hong Kong.

Ela não queria que os sonhos dele fossem esmagados. Ela não queria vê-lo derrotado.

"As pessoas te veêm como um homem imaturo. Como um homem jovem e idealista, e que não percebe como abriu mão de uma ótima chance para seguir os próprios desejos egoístas. Xiao-Lang, por favor, diga que e entende," Yelan implorou, a mão se esticando para acariciar os cabelos dele como ela fazia quando ele era criança e precisa ser consolado.

"Eu não acredito nisso," Syaoran falou friamente se afastando dela. Yelan deixou a mão voltar para o colo e olhou para baixo enquanto ele continuava. "Eu acho que as pessoas me veêm como alguém que sempre está a altura do pedido e sempre faz escolhas. Que não se deixa influenciar pelo o que os outros falam e é independente. As pessoas me veêm como alguém que assume o controle dos problemas e que leva o trabalho a sério."

Yelan o encarou e se levantou, balançando a cabeça. "Eu sei que você ama a menina, Syaoran-"

Syaoran ficou de pé também e segurou o pulso da mulher mais velha para fazê-la olhar para ele. "Ela é a minha vida, mãe. E eu não vou deixá-la partir."

Ele falou com tanta certeza e naturalidade, Yelan encarou o filho em choque enquanto ele se virava e voltava a arrumar as roupas. Sentindo a cabeça leve, Yelan sussurrou, "O que você vai fazer?"

Finalmente fechando a bolsa, Syaoran a jogou sobre o ombro e se levantou. Esticando a mão para se localizar, ele piscou e balançou a cabeça como se tentando esvaziá-la.

"Eu não sei, mãe. Eu não faço a menor idéia…" Com essas últimas palavras, Syaoran saiu do quarto e desceu as escadas. Em alguns segundos, Yelan ouviu a porta abrindo e fechando e ela foi forçada a se apoiar em uma parede para se acalmar.

Quando foi que isso aconteceu, Yelan pensou. Quando eu parei de tomar as decisões pelo meu filho. Quando foi que eu parei de dizer a ele o que era certo e errado.

Quando meu filho…cresceu.

X

Sakura segurou a mão de Tomoyo enquanto elas riam feito loucas. O filme estava no volume máximo e as luzes na sala de TV de Sakura estavam apagadas com as duas amigas largadas no sofá com uma tigela de pipoca vazia entre elas.

"Ele não tem como ser mais engraçado," Tomoyo tomou fôlego, as mãos segurando a lateral do corpo. "Como eles escrevem essas coisas?"

"Eu acho que é mais a atuação do que os diálogos," Sakura respondeu, o rosto doendo de tanto rir. "Eles são incríveis!"

Tomoyo riu mais um pouco e se levantou do sofá onde estavam sentadas. "Eu vou pegar mais pipoca. Você quer alguma coisa pra beber?"

Sakura concordou, os olhos grudados na tela. Tomoyo andou até a cozinha e Sakura se esticou no sofá. Era ótima se distrair daquele jeito. Já haviam passado alguns dias desde que ele voltara ao Japão e a primeira coisa que ela fez foi procurar Tomoyo. Estranhamente, Tomoyo morava bem perto de Sakura, só há algumas quadras de distância e elas riram muito da coincidência. Tomoyo estudara em escolas particulares a vida inteira e provavelmente por isso elas nunca haviam se visto.

Sakura havia tirado um 9 pelo trabalho como tutora e deixou o pai e o irmão orgulhosos. Parecia que Yelan havia escrito um boletim muito favorável a Sakura e isso a ajudou a melhorar muito sua média. Seu pai estava ficando mais saudável e agora podia ser visto andando pela casa, às vezes andando simplesmente para andar já que ele passara tanto tempo preso a uma cama de hospital. Touya estava vivendo com a mulher e o filho em uma casa lá perto, mas ele passava tanto tempo por lá que nem parecia que ele havia se mudado.

Não havia, no entanto, um minuto em que Sakura não pensasse em Hong Kong. Yelan, Eriol e Meiling…Wei e os anciões…Yin e Sairah…o campeonato…e…

Syaoran.

"Aqui está," Tomoyo entregou um refrigerante para Sakura antes de se jogar no sofá ao lado dela comendo pipoca.

"Brigada," Sakura sorriu para ela dando um gole longo da lata. Tomoyo se virou para Sakura jogando mais uma pipoca na boca enquanto olhava para a amiga.

"O quê?" Sakura perguntou, inconscientemente limpando a boca. Tomoyo riu e balançou a cabeça. "Eu só tava tentando entender o que realmente aconteceu em Hong Kong…depois que eu fui embora, claro."

Sakura deu de ombros, desconfortável. Ela se mexeu no sofá e encarou a tela, apesar de estar bem óbvio que ela não estava prestando atenção nas cenas que passavam na TV. "Eu já te disse."

"Eu sei dos anciões e da Yin e tudo mais. Mas você nunca me falou nada do Syaoran. O que aconteceu…entre vocês. O que aconteceu depois que ele te pegou no aeroporto?" Tomoyo perguntou, curiosa.

"Nada de mais, Tomoyo…" Sakura falou estranha.

"E você está me pedindo para acreditar em você," Tomoyo falou, divertida.

Sakura brincou com a beira do sofá mantendo os olhos longe dos de Tomoyo. "Muita coisa aconteceu, Tomoyo." Sakura sussurrou, a voz embargada pelas emoções das memórias passando pela sua mente. "Tanta coisa que eu não-"

"Me conta," Tomoyo pediu. Segurando o braço de Sakura para dar-lhe confiança, ela falou, "Só me fala. Talvez eu possa te ajudar."

Sakura finalmente olhou para Tomoyo e concordou. Se ajeitando contra o braço do sofá, ela soltou o ar e deixou a mente recuperar as memórias dos dias anteriores.

Então, com um grito, Syaoran se livrou dos guarda-costas, segurou seu braço e a arrastou pela multidão que se amontoava para o próximo voô e eles podiam ouvir os gritos dos guarda-costas atrás deles, mas eles continuavam correndo e correndo.

E tudo o que Sakura podia sentir eram as mãos de Syaoran nas dela, o expressão dele quando percebeu que ela estava lá e o calor que correu pelo seu corpo e coração. Ela o amava. Ela o amava. Por Deus, ela amava Syaoran Li.

"Sakura…o que aconteceu?" Tomoyo perguntou gentilmente. Sakura fechou as mãos em punhos.

"Eu falei pra ele…dos meus sentimentos." Sakura respondeu, cuidadosa.

Você é cego, Syaoran, ela pensou, isso é algo que temos em comum.

Eu estou cega de amor por você.

Então, ela sentiu um onda de choque percorrer seu corpo quando ele beijou a testa dela, tão delicado que chegou a doer.

"Lábios," Ele falou, os cantos da boca dele se contorcendo um pouco, divertido.

Sakura não aguentava mais. Ela reuniu cada grama de coragem que tinha e respirou fundo. Ela podia fazer aquilo. Ela queria fazer aquilo. Ela ia fazer…

Ela sussurrou, a voz baixa e os olhos virados para o chão. "Se você quiser…eu vou ficar em casa. Eu vou ficar quieta. Eu vou te obedecer, ser confiável, cozinhar e limpar e fazer tudo o que você quiser que eu faça. Eu vou recolher as suas roupas e ficar fora do seu caminho." Ela ergueu os olhos, quase com medo. "Desde que eu não tenha que ir embora antes de você."

"E ele sentia a mesma coisa?" Tomoyo perguntou, seus olhos de ametista brilhando.

"Acho que sim," Sakura sussurrou.

"Então por que vocês não estão juntos? Foi a Yin? Ela se meteu entre vocês de novo?" Tomoyo se irritou.

"Não exatamente," Sakura respondeu segurando as pernas com os braços e encostando a testa nos joelhos. "Ao invés dela…responsabilidades surgiram…"

Syaoran ergueu os olhos, em choque. O ancião deu de ombros. "Nós vamos fazer um acordo," O ancião falou. Ele andou até Syaoran, as mãos dobradas dentro da manga do braço oposto, os olhos presos em Syaoran. "Se você estiver disposto a nunca mais entrar em contato com essa tutora inferior, então nós concordamos em cancelar o seu noivado com Yin."

"O QUÊ?" Syaoran gritou, e o ancião lançou um olhar que calou o garoto instantaneamente. O ancião continuou, "No entanto, não vai ser assim tão fácil. Se você escolher a sua tutora, nós vamos sim manter o seu noivado com Yin, mas você irá perder a sua posição de herdeiro do Clã Li. No momento o Clã Li não tem nenhum líder…nós estamos na posição de fazer essas exigências."

Com as palavras ainda no ar, ele desdobrou os braços e voltou a se sentar no circulo de anciões. Todos olharam para ele, expressões idênticas que mostravam a mais profunda atenção.

"Tudo depende de você."

Tomoyo acenou devagar, como se estivesse tentando entender. "E você veio pra cá…para facilitar a escolha dele. Para que ele não tivesse que desistir dos sonhos para ficar com você."

"Para que ele não desapontasse o pai. Para que ele fosse quem sempre quis ser. Eu não podia tirar isso dele, Tomoyo, eu não podia! E agora…agora…ele deve me odiar," Sakura falou, tão baixo que Tomoyo quase não ouviu.

Tomoyo se inclinou e abraçou a menina de cabelos escuros. "Não fala assim," Tomoyo disse. "Não fala isso."

"Mas é a verdade!" Sakura gritou se levantando. Seus sentimentos saíam como uma enorme cascata pois aquela fora a primeira vez que ela falava do assunto. "Você sabe de uma coisa? Syaoran pagou a cirurgia do meu pai. Ele salvou a vida do meu pai e não falou nada! Ele fez tanto por mim! Eu tinha que fazer essa coisinha para ele! Eu sou tão estúpida, porque eu tive que falar que gostava dele! Causou tantos problemas pra ele. Se eu tivesse deixado minha maldita boca fechada."

Tomoyo também se levantou e abraçou Sakura mais uma vez. "Vai dar tudo certo, Sakura. Não se preocupa, tá bom?"

Sakura concordou e as duas se sentaram no sofá mais uma vez. Sakura parou o filme e disse cansada, "Eu não estou com vontade de ver isso." Quando o DVD voltou para a TV Sakura pegou o controle remoto para desligá-la, mas alguma coisa prendeu sua atenção.

"…com as notícias do exterior, um evento fora do comum aconteceu em Hong Kong. Na cerimônia de nomeação de um clã, parece que o novo líder tinha alguns objetivos bem especiais em mente quando lhe perguntaram sobre o futuro que ele pretendia para o clã."

A cena cortou para o rosto de Syaoran, frio e desafiador e Sakura sentiu o sangue parando nas suas veias. Tudo pareceu desligar ao seu redor e seus olhos estavam focados unicamente na tela da TV, na imagem de Syaoran. Ela estava levemente consciente de Tomoyo pegar o controle para aumentar o volume, mas ela não conseguia se concentrar em nada além de Syaoran.

"Como nosso líder…qual será a sua primeira medida?" Um ancião perguntou na tela e Sakura se lembrou dele do incidente no Templo quando Syaoran teve que encarar a escolha que acabou com Sakura fugindo de volta para casa.

"Minha primeira medida? Ela pode ou não ser uma medida, mas é definitivamente uma promessa. Eu vou ficar noivo de Kinomoto Sakura. E essa é a minha primeira ação como Líder desse clã."

Noivo.

Noivo.

"Sakura, você está-" Tomoyo começou a falar mas parou. Sakura sentia frio e calor pelo corpo e não conseguia fazer nada além de olhar para frente em choque. E lentamente uma bolha de uma emoção que ela não conseguia definir se formou no seu peito e ela se levantou devagar.

"Eu tenho que ir," Sakura falou, a voz baixa. Ela virou os olhos marejados para amiga e repetiu mais alto. "Eu tenho que ir!"

"O que, Sakura-" Tomoyo tentou falar mas Sakura gritou o mais alto que podia, "Não, Tomoyo, EU TENHO QUE IR!"

Com isso, ela virou nos calcanhares e correu para porta. Tomoyo correu atrás dela, gritando, "Onde você vai? Sakura, por favor, pára e pensa, o que você vai fazer?"

Com a mão na maçaneta, Sakura parou quando entendeu a pergunta de Tomoyo. Mas ela balançou a cabeça, as mãos tremendo. "Tudo o que eu sei, Tomoyo, é que eu preciso ir ver o Syaoran. Eu tenho!"

Tomoyo e Sakura se olharam e a primeira finalmente acenou demonstrando compreensão. Com isso Sakura abriu a porta e correu para rua, correndo e correndo e ela sentiu como se não conseguisse parar…como se ela jamais fosse parar.

E foi só quando seu peito queimou e seu corpo começou a ceder que ela parou, parada no meio da rua escura tentando recuperar o fôlego. Se segurando com as mãos nos joelhos, ela lutou para respirar e para evitar que as lágrimas saíssem de seus olhos.

"…noivo de Kinomoto Sakura…"

"Syaoran," Sakura sussurrou, mas sua voz baixa pareceu ecoar no silêncio que cercava Tomoeda. "Por quê…?"

X

"Pai, eu tô saindo!" Sakura gritou da porta enquanto saía de casa. Parando no batente ela gritou, "PAIIIIIIIIIII!"

"Ok, ok, eu te ouvi," Fujitaka riu ao descer as escadas. Sakura fez uma careta. "Eu te disse, papai, você tem que descansar."

"E eu te falei que você se preocupa demais," Fujitaka abriu um sorriso para filha enquanto andava até a porta onde ela estava parada. Com uma mão na cabeça dela ele sorriu. "Você se comporta, tá bom?"

Sakura sorriu. Uma semana já havia se passado desde o incidente em que ela viu o anúncio de Syaoran na TV. Mais do que nunca, ela queria correr para Hong Kong e vê-lo, ver o amor de sua vida…Mas responsabilidades a seguravam no Japão e ela sabia que, até ela completar seus deveres, ela não poderia ir.

Mas nada a impedia de desejar todas as noites que ele estivesse ao seu lado. Seu olhar frio amolecendo um pouco quando ele dizia seu nome. Aqueles olhos âmbar cheios de anos de dor e solidão.

Sakura andava distraída ate o ponto de ônibus enquanto tentava afastar esses pensamentos, mas aquele dia estava diferente. Ela não conseguia tirar aquelas idéias da cabeça e ela achou que finalmente estava ficando louca.

O ônibus parou e ela subiu rapidamente. Ocupando um banco ao lado da janela onde apoiou a cabeça para encarar a TV colocada no canto. Nela passavam notícias aleatórias em um programa que, segundo a opinião popular, era muito chato.

De repente, alguém bateu na lateral do ônibus e as portas se abriram para que o atrasado pudesse entrar. Uma voz masculina soltou um obrigado meio forçado e o motorista fez um barulho qualquer. Sakura manteve os olhos na TV e se encolheu um pouco quando o atrasado se sentou ao seu lado.

Sakura sempre fora uma pessoa alegre e animada. Ela era o tipo de pessoa que sempre tinha um sorriso no rosto, vivendo cada dia como se fosse uma nova aventura. Desde que ela voltara de Hong Kong, ela mal conseguia reunir energia suficiente para se manter a mesma de sempre e naquele dia, com as memórias de Syaoran voltando com tudo, ela nem conseguiu olhar para pessoa que se sentou ao seu lado.

"Hey," O cara de capuz falou breve.

Sakura deu de ombros para mostrar que havia ouvido e reparou quando o rapaz se inclinou no banco. Sem se importar, Sakura encostou a cabeça no vidro enquanto o ônibus andava. Levava mais ou menos quinze minutos para chegar na escola dela e ela se manteve ocupada prestando atenção no jornal.

Mas como o destino sempre aprontava, era um reprise do show da semana anterior…o mesmo em que Syaoran fazia o discurso para o clã.

Seus dedos se fecharam e seu rosto congelou quando ela começou a ouvir as palavras que ecoavam em sua mente desde que as ouvira pela primeira vez através da TV. "Minha primeira medida? Ela pode ou não ser uma medida, mas é definitivamente uma promessa. Eu vou ficar noivo de Kinomoto Sakura. E essa é a minha primeira ação como Líder desse clã."

"Cala boca, cala boca, cala boca…" Ela sussurrou sentindo uma dor e sabendo que as pessoas ao redor estavam olhando para ela, mas Sakura não ligava.

De repente ela ouviu uma parte nova. Syaoran continuou falando depois que um ancião perguntou se ele tinha certeza. "Eu tenho certeza que todos vocês querem saber quem é Sakura Kinomoto. Ela é a minha tutora. Uma garota que me deu uma visão e me ensinou a usá-la.

Tudo pareceu parar. Choque correu pelo corpo de Sakura à medida em que ela erguia a cabeça, os olhos se enchendo de lágrimas. O quê? Ela nunca tinha ouvido aquela parte, sempre mais interessada no anúncio de Syaoran…Seu coração batia tão forte e ela sentiu o ar sendo tirado de seu pulmão.

Syaoran, não arruine seus sonhos por mim. Não vale a pena, ela pensou enquanto o Syaoran da tela continuava.

"Ela me mostrou o que era a vida…e finalmente eu pude entender o significa ser um líder,"

O Syaoran na televisão falava, mas parecia que havia um eco. Ela percebeu que o homem ao seu lado repetia as palavras ao mesmo tempo que Syaoran. Seu espanto a obrigou a tirar os olhos da TV e se virar para o homem encapuzado que falava em voz baixa e tom reservado.

"Não é apenas poder proteger e servir o seu clã." O homem repetiu com Syaoran. "É entender cada pessoa nele. De onde elas vêm e seus desejos e necessidades. É…família. Copanheirismo. Amor."

E com isso ele se virou para olhar para Sakura, o capuz caindo com o movimento. E Sakura viu a única coisa capaz de quebrar e consertar seu coração, capaz de enchê-lo de calor e fazê-lo congelar.

Um para de olhos âmbar.

Syaoran Li.

Sakura se levantou de repente, bem no meio do ônibus, de tão assustada e emocionada que ficou e não conseguia fazer nada além de encarar. E de repente seu corpo percebeu.

De repente, ela podia sentir.

De repente, ela sentiu vontade de rir e chorar ao mesmo tempo e de repente…de repente, um desejo tão forte e profundo se espalhou por ela e ela não podia respirar.

"Então…" O homem de olhos âmbar falou sem graça. "Eu ouvi dizer que Kinomoto Sakura pega esse ônibus."

Silêncio ecoou em resposta e ele brincou com a alça da mochila que carregava, ele sussurrou, "Eu ouvi dizer que ela pega esse ônibus todos os dias…"

"Syaoran…" Ela soltou o ar, finalmente conseguindo falar.

"Sakura," Ele falou e sua voz estava suave, tão cheia de emoção que Sakura teve vontade de chorar. Eles ficaram parados, olhando um para o outro, ignorando tudo o que acontecia em volta e Sakura não conseguia acreditar. Ela não conseguia acreditar que ele estava parado ali, na sua frente, olhando para ela…e ela não podia acreditar que ele estava lá.

O motorista estava gritando para eles se sentarem, mas ela não conseguia se mexer. As pessoas falavam, fofoca era sussurrada de ouvido em ouvido, mas Sakura não podia fazer nada além de se largar naqueles olhos âmbar.

"Ai meu deus, Syaoran…por que você está aqui, por que você veio?" Sakura falou, a voz falhando com as lágrimas.

As mãos de Syaoran subiram até o rosto de Sakura e envolveram as bochechas dela. Ele acariciou sua pele e parecia que ele estava memorizando os traços, gravando na memória usando a ponta dos dedos. E foi então que ele começou a falar, a voz baixa low. "Você chegou e eu te odiei pra cacete. Você falava e eu te queria longe. Você dizia coisas tão lindas que era quase como se eu pudesse ver as porcarias que você descrevia. E agora eu sei que consigo ver. Eu posso ouvir a sua beleza, eu posso sentir o seu amor, eu posso saborear as suas emoções e posso sentir o cheiro das suas lágrimas. Eu te conheço…e eu não preciso te enxergar pra isso."

Sakura não conseguia respirar. Ela ficou á parada, no ônibus, concentrada unicamente em Syaoran. Seu maxilar forte, seu cabelo bagunçado, aqueles olhos âmbar profundos. Aquelas mãos tocando seu rosto, ela sentia como se estivesse se afogando numa alegria jamais experimentada. Ele estava usando roupas largas e tinha uma bolsa jogada no ombro e ele se inclinou na direção dela, a cercando em uma esquina do ônibus.

"Só uma coisa, Sakura," Ele sussurrou, o ar que expirava acariciando o rosto dela. "Não vai embora antes de mim, merda." Os olhos dele brilharam com alegria e ela deu uma risada baixinha tocando no rosto dele. Ela o viu se inclinando em sua mão e sentiu o coração aliviado.

"Nunca," Ela respondeu, a voz embargada.

"É bom mesmo," Ele sorriu e ela riu alto. Ele ainda era o mesmo Syaoran. Ainda era o mesmo homem que havia roubado seu coração.

E com isso, ela jogou os braços no pescoço dele e o beijou com força. Com tanta vontade que tudo mais pareceu derreter e sobraram apenas eles no mundo. Sua escola passou e ela continuou a beijá-lo. O motorista já tinha desistido de falar com eles e, ao invés disso, as pessoas entravam e saíam do ônibus olhando para o estranho casal. Mas eles estavam perdidos, os dois estavam num mundo à parte, um mundo de sensações e toques, bem longe do mundo que os afastara.

Era uma vez um menino que, em um acidente de carro, perdeu a visão e se tornou uma casca vazia que ninguém conseguia ajudar.

Mas logo, uma menina iria ultrapassar essa primeira camada. Uma menina faria o que ninguém mais podia…iria passar pelo exterior duro e frio e alcançar o menino que vivia lá dentro.

Seu nome?

Sakura Kinomoto.

X

Gente, acabou :(

Que triste...eu não sei o que vou fazer nos meus momentos tediosos agora (essa fic foi uma ótima companheira).

Bem, só espero que vocês tenham gostado.

Kissu

A gente se vê quando eu decidir o que fazer agora xD