Aiya, minna...

Sim, é exatamente o que vocês estão pensando... Depois de tanto tempo, Suteki da ne (original) está finalmente concluído...

Não acreditam? Bem... não são os únicos... dêem uma olhada na reação de alguns dos personagens quando receberam o roteiro...

Sakura (abrindo o envelope do correio e vendo as páginas finais do último capítulo de sdn): Finalmente chegou! Finalmente está aqui! (lendo compulsivamente) Hoeee! Isso é sério?Ah! Por Kami-sama... Não acredito!... Oh! Ela não pode estar falando sério!... Yoru-san deve ter enlouquecido de vez!... (se assusta com o telefone e cai da cadeira) Alô! Ah! Oi, Tomoyo... Sim, eu também recebi, mas ainda não acredito... É verdade!... O que será que os leitores vão achar? Ainda mais com aquele final... Iiiih... não sei não...

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Shaoran (tomando café-da-manhã quando Wei lhe entrega um envelope com os dizeres Top Secret): O que é isso?

Wei: O mensageiro da senhorita Yoruki acabou de entregar. Acho que são as páginas finais de Suteki da ne...

Shaoran (abrindo ansiosamente o envelope): Já estava mais que na hora!(lendo o texto) Sabe há quanto tempo ela devia ter termin... (arregalando os olhos) O QUÊÊÊÊÊ! (levantando-se estrondosamente) Nunca! Eu é que não vou fazer isso! Mas não mesmo!... (saindo de casa e batendo a porta na saída)

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Eriol (tomando um chá e conversando distraidamente com sua colega de cena, Tomoyo): Apesar de ser minha filha, eu não faço idéia do que ela irá aprontar...

Tomoyo (suspirando entediada): O que quer que seja, ela bem que podia tentar se apressar, pelo menos...

Eriol (sorrindo monalisicamente): Não se apressa a perfeição, minha cara...

Tomoyo (riu suavemente): Falou o pai coruja... (observando um rapazinho de capacete parar à sua frente, colocando dois envelopes sobre a mesa)

Rapaz: Com os cumprimentos de Yoruki Hiiragizawa! (afastando-se apressado).

Tomoyo (agarrando o envelope com seu nome): Minha nossa! Minha nossa! Não consigo acreditar! Como será que ela terminou a história? (começando a ler, enquanto Eriol abre calmamente seu envelope) OH! Não! Não acredito! Qualquer coisa, menos isso!... (levantando-se e pegando o celular)... Alô, Sakura! Você já viu o que a Yoru-san fez?... É loucura!...

Eriol (encarando o conteúdo do envelope com o olhar vago ): . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .


Nota importante: Antes de começar a ler este capítulo, pegue a pipoca e o refrigerante... Desliguem os celulares e pagers... Acomodem-se devidamente em seus lugares e mantenham os braços dentro da poltrona... XD Ah! Não se esqueçam dos lenços de papel… (por Kaoru Ying Fa).
Boa Leitura!


Suteki da ne
Capítulo Vinte e Três

Shaoran pensou, não pela primeira vez aquela noite, no quanto Sakura estava encantadora com aquela roupa, quase parecendo fazer parte da decoração. Aproximou-se dela com um sorriso maroto e depositou os copos de chocolate quente sobre a mesa se sentando em seguida.

"Quase não consegui mais encontrá-la..." - comentou, vendo-a ficar com o rosto adoravelmente rosado de raiva.

"Pare de implicar comigo! Eu já falei que não estou nem um pouco parecida com uma ajudante de Papai Noel..." - reclamou, cruzando os braços e olhando para seu reflexo no espelho da parede. Shaoran vinha implicando com ela desde o início da tarde por causa do casaco vermelho que estava usando; e não ajudava muito seu cachecol ser bege, criando um contraste que lembrava as roupas promocionais daquela época.

"Você sabe que só estou brincando, não é?" - ele alcançou a mão dela, entrelaçando seus dedos. - "Mas é que você fica tão linda brava que eu não consigo me conter..." - murmurou carinhosamente, fazendo-a quase derreter.

"Eu me vingarei, você vai ver..." - ela respondeu, quando não conseguiu deter o sorriso que se apossou de seus lábios. Trocaram um longo olhar apaixonado que foi quebrado quando ela fechou os olhos ao senti-lo tocar-lhe o rosto para colocar uma mecha de cabelo atrás de sua orelha.

Quando ele afastou sua mão, ela abriu os olhos e voltou sua atenção para o interior da lanchonete, soprando distraidamente seu chocolate quente.

"Em que está pensando, minha flor?" - indagou, tomando um gole da própria bebida.

"Eu sei que 25 de dezembro é uma data em que casais costumam sair, mas não esperava encontrar tanta gente na rua..." - ela comentou, voltando-se para ele. - "Não parece estranho que as pessoas prefiram sair no frio a ficar em casa bem quentinhas?".

"Concordo que seja um pouco esquisito, mas acho que a quantidade de eventos voltados para casais, os preços especiais e essas coisas tornam a idéia atraente..." - supôs, fazendo-a sorrir e concordar.

"E o que faremos agora?" - Sakura tomou um pequeno gole do chocolate, vendo-o erguer uma sobrancelha. - "Você disse a papai que voltaríamos tarde, então presumo que tenha planejado toda a noite...".

"O que eu havia planejado, na verdade, foi por água abaixo..." - tirou do bolso da jaqueta dois ingressos para uma sessão de teatro.

"Ah, porque não avisou que tinha entradas para o teatro?" - ela indagou, vendo o título da peça: Minha Vizinha. - "Eu queria tanto assistir essa peça e hoje é a última apresentação deles aqui..." – resmungou, notando que perderam início da apresentação.

"Eu sei, mas acabei me esquecendo disso enquanto estávamos no parque de diversões..." - desculpou-se, sem jeito.

"Tudo bem..." - Sakura se inclinou levemente em direção a ele por sobre a mesa, depositando-lhe um breve beijo nos lábios. - "Só por você ter se lembrado que eu queria assistir e comprado os ingressos já me deixa bastante contente..." - suspirou pensativa. - "Mas isso não resolve nosso problema, não é?".

Encararam-se em silêncio por alguns minutos enquanto terminavam suas bebidas, sem conseguir pensar em nada.

"Que tal darmos uma volta pela galeria?" - Sakura sugeriu sem uma idéia melhor. - "Podemos ver a decoração das lojas e..." - viu-o abrir um sorrisinho de lado e começar a falar algo, mas o interrompeu. - "Se disser algo sobre me confundirem com os enfeites, vai ter...".

"Estraga prazeres..." - riu-se, notando o brilho sagaz no olhar dela. - "Mas acho que dar uma volta é uma boa idéia. Na certa, durante o passeio, pensaremos em outra coisa para fazer..." – comentou, vendo-a assentir.

CCS SDN CCS SDN CCS SDN CCS SDN CCS SDN CCS SDN CCS SDN CCS SDN

Enquanto passeava tranquilamente, o casal logo percebeu que um planejamento não era algo tão necessário para se divertir, pois as opções de entretenimento eram as mais variadas. Durante as andanças, eles assistiram a uma apresentação de parkour na área das escadarias, e através de um cenário montado, à batida de música eletrônica.

Tiraram fotos em uma cabine, após esperar algum tempo na fila; pararam para ouvir a um jovem arrasando no karaokê de uma lanchonete; rodaram por algum tempo em uma casa de jogos e dividiram várias guloseimas, enquanto conversavam sobre as coisas mais variadas.

Agora, Sakura estava parada em frente à porta de uma loja de antigüidades esperando por Shaoran, que decidira comprar um presente de última hora para sua mãe, tendo visto algo que Yelan iria gostar exposto na vitrine. A jovem observava vários casais passarem por ali com o mesmo ar despreocupado em que ela própria estivera envolvida até alguns minutos, reparava na beleza da decoração da rua, com as luzes brilhando e piscando. Desviou novamente o olhar para o interior da loja, vendo Shaoran no caixa, pagando o que comprara, e ajeitou o vestido de lã marrom que usava por baixo do casaco vendo seu reflexo no vidro. Enquanto estava empenhada na tarefa, notou um casal se aproximar e voltou seu olhar para eles, curiosamente, a princípio, mas com certa ternura depois. Não os conhecia, mas observá-los trazia a ela uma estranha sensação de permanência. Era um casal de meia idade que vinha caminhando de mãos dadas e com carinhosos sorrisos no rosto, passeando como qualquer outro casal apaixonado, conversando com vozes gentis. Assim que passaram por ela, ouviu o sininho da porta atrás de si tilintar e se voltou para encarar Shaoran, com um sorriso nos lábios e lágrimas não derramadas de emoção, que não percebera terem se formado, em seus olhos.

"O que houve?" – Shaoran se aproximou dela, preocupado, secando-lhe as lágrimas.

"Eu fiquei emocionada com uma cena inesperada..." – suspirou, tentando explicar a ele o que aconteceu apesar de lhe faltarem palavras. Por fim, desistiu da tarefa. – "Comprou o presente de sua mãe?" – mudou de assunto, vendo-o concordar. Sorriu, acariciando-lhe o rosto, tentando dissipar as marcas de preocupação.

"O que faremos agora?" – ele perguntou, segurando-a pela mão e entrelaçando seus dedos. – "Já está quase na hora que eu disse a seu pai que voltaríamos...".

"Então, talvez, devêssemos ir para casa..." – ela encolheu os ombros e voltou o olhar uma última vez para o casal de estranhos, ficando pensativa. Por que será que começara a sentir aquele leve incômodo no peito?

"Será que podemos passar em um lugar antes?" - ele indagou, interrompendo seus pensamentos e beijando-a suavemente. Sakura concordou silenciosamente. – "Em que você está pensando?".

"Eu não..." – fechou os olhos, interrompendo-se ao começar a compreender a razão de sua inquietação. – "Eu queria ter perguntado isso antes, mas acabei esquecendo..." – viu-o ficar atento e sorriu levemente. – "Não precisa ficar tão tenso, não é nada preocupante...".

"Você me assusta desse jeito...".

"Vamos conversar a caminho de aonde quer ir..." - sugeriu, pegando-o pela mão e tomando a direção da saída.

"Tudo bem. E o que você queria saber?" – passou o braço pelos ombros dela.

"Quando voltamos da estação anteontem, você comentou que gostaria de ficar lá por mais um tempo...".

"Eu me lembro..." – ele a interrompeu, sorrindo de lado. – "Qual o problema? Quer voltar para lá? Se for esse o caso, podemos pegar um trem agora mesmo e... Ai!" – recebeu um beliscão.

"Foi o que você disse depois..." – ela continuou. - "Algo sobre todo o trabalho que teremos a partir de agora, mas que vai valer a pena no final..." - ajeitou o cabelo, colocando-o atrás da orelha para poder encará-lo sem barreiras. - "Eu não entendi muito bem o que quis dizer, mas depois de pensar um pouco cheguei a uma conclusão e queria saber se estou certa...".

"E o que concluiu?" - observava-a, amorosamente.

"Que você estava pensando no que teremos de enfrentar a partir de agora..." - reparou em como ele erguia uma sobrancelha, indagando de que estava falando. - "Em como vamos ficar quando você voltar para Hong Kong..." - completou, fazendo-o parar e encará-la. - "Não era a isso que estava se referindo?".

Ele permaneceu em silêncio por um instante e olhou ao redor, como que analisando o ambiente e suspirou.

"Eu estava planejando fazer isso no Templo Tsukimine, mas..." - tirou uma caixinha branca do bolso do casaco e estendeu a ela, que o encarou com os olhos arregalados. Sakura sentiu o coração disparar e o estômago se contrair, forçando-a a dar meio passo para trás, tentando recuperar o equilíbrio que parecia prestes a desaparecer. – "Eu disse que não a deixaria escapar..." – abriu a caixinha revelando o conteúdo, fazendo-a cobrir a boca com uma das mãos.

"E-eu... eu não sei o que dizer..." – conseguiu murmurar, apesar de ainda não ter encontrado a própria voz. Ela encarava a aliança, sentindo a visão ficar levemente embaçada e piscou várias vezes para espantar as lágrimas, erguendo os olhos para mergulhar nas jóias ambarinas, que estavam inquietas.

"Eu achei que você tivesse dito que não pretendia mais sair de meus braços..." - brincou, tentando se acalmar um pouco, pois a hesitação dela em responder lhe causou um frio no estômago tal que ele se sentia como se estivesse saltando de pára-quedas.

Sou uma sonhadora
Tenho um poder oculto...

"Eu disse, não foi?" - ela sorriu, aproximando-se e acariciando-lhe gentilmente o rosto. - "E é verdade! O que eu mais quero no mundo, Shaoran, é ficar ao seu lado, mas..." - mordeu suavemente o lábio inferior, contendo as lágrimas que ameaçavam saltar de seus olhos e lhe turvavam a visão. – "Eu sei que pode parecer uma estupidez, mas eu estou tão assustada..." – admitiu, fazendo-o suspirar levemente.

Ele a pegou pela mão e, juntos, encaminharam-se até um banco próximo em que poderiam conversar melhor.

"Eu compreendo. Sério!" - ele a tranqüilizou, ainda segurando-a pelas mãos. - "É meio súbito, não é? Dá um pouco de medo..." - encarava-a fixamente. - "E você não precisa me responder agora, Sakura. Você pode ter o tempo que precisar para pensar..." – garantiu, gentilmente. – "Mas, eu quero que você saiba disso: apesar de todo medo, eu nunca tive tanta certeza do que quero para o meu futuro e o que eu quero é passar o resto de meus dias ao seu lado..." - afirmou com tanta veemência que uma lágrima escorreu pelo rosto dela, sendo interceptada, pelo toque do rapaz.

"Mas... e quanto à sua família?" – questionou, expondo uma de suas principais fontes de preocupação.

Meu mundo é feito de sonhos, amor e preocupações
Mas ainda há coisas que nem posso imaginar,
Então me volto para o céu, como as árvores,
Olhando diretamente para você.

Shaoran respirou profundamente, com seriedade e desviou o olhar para o chão. Gostaria de poder dizer que não teriam problemas, mas não poderia mentir para ela e nem para si mesmo. Os velhos com certeza considerariam sua decisão um sinal de imaturidade e irresponsabilidade. Possivelmente transformariam suas vidas em um inferno, mas nada disso importava realmente, certo? Desde que estivessem juntos...

"Não vai ser fácil! Lidar com os anciãos..." – reconheceu, com um tom levemente derrotado. – "Vai levar tempo, muito tempo, para que nos aceitem. Vão nos colocar sob constantes provações, tentarão nos enfraquecer e nos separar..." – alertou-a, buscando as jóias esmeralda. – "Mas nós podemos superá-los! Mostraremos a eles do que somos capazes, juntos, e sairemos fortalecidos de cada investida que fizerem contra nós..." – declarou com segurança e sorriu com ternura. – "Além disso, nem todos estarão contra nós! Minha mãe a adora e você não terá a menor dificuldade em conquistar minhas irmãs, também..." – disse reconfortante.

Eu quero encontrar... Eu quero que se realize...
Acreditar faz com que tudo seja possível.
Como ao cantar ou realizar milagres
Os "sentimentos" transformam tudo.
Certamente... Certamente... É surpreendente!

Sakura franziu levemente as sobrancelhas de maneira pensativa, sentindo as barreiras e a apreensão sucumbirem, pouco a pouco. Olhou para a mão em seu colo, carinhosamente mantida pela de Shaoran. Ele lhe passava tanta segurança e sempre tivera o jeito de afastar-lhe os fantasmas. Sempre! Fora inevitável se apaixonar por ele, torná-lo o centro de seu universo, seu ponto de estabilidade...

"Nós, certamente, cometeremos alguns erros no meio do caminho..." – comentou pensativamente, esboçando um sorriso. – "Mas isso fará parte do aprendizado..." – viu-o concordar com a cabeça. – "Podemos tropeçar, mas teremos que nos erguer novamente em algum momento e isso será muito mais fácil se estivermos juntos...".

"E estaremos!" – ele garantiu, mergulhando no fundo das piscinas esmeralda e vendo a hesitação que ela sentia ir desaparecendo. Sorriram um para o outro e Sakura abaixou o olhar, contendo uma risada.

"Touya surtaria com a notícia..." – comentou, olhando para o céu e suspirando. – "Mas sei que papai não se oporia. Ele sabe muito bem como é importante aproveitar cada minuto ao lado da pessoa que se ama. Além disso, ele adoraria ter você, oficialmente, na família..." – considerou, pousando o olhar novamente sobre o rapaz ao seu lado. – "Ele ficaria preocupado, afinal, ainda somos jovens e não fazemos idéia de como é a vida no mundo real, mas não nos impediria..." - fechou os olhos por um instante, acalmando seu coração.

Sou uma sonhadora
Tenho um poder oculto...

'Por que será que algumas coisas tão simples se tornam tão complicadas?' - Sakura se perguntou, abrindo os olhos e observando o tímido sorriso nos lábios de Shaoran enquanto ele a observava.

"E quanto a você?" - ele indagou, vendo-a erguer uma sobrancelha sem entender. - "Você disse como seu pai e irmão se sentiriam..." - acariciou-lhe a face. - "Mas não disse o que você está pensando... E é isso o que importa para mim."

"Eu não sei..." - interrompeu-se, mordendo o lábio inferior. - "Nós levamos tanto tempo para chegar aqui... Não foi nada fácil, então acho que não parece natural que tudo aconteça tão rápido, tão de repente..." - explicou-se, vendo-o menear suavemente a cabeça.

"Eu não concordo..." - olhou para a caixinha em sua mão. - "Se você parar para pensar, nosso relacionamento começou tão rápido. Eu ficava espantado em como nos apegamos um ao outro, pois nunca confiei em ninguém em tão pouco tempo antes..." - voltou a encará-la. - "Olhando para trás, eu tenho a sensação que, em algum momento, alguém nos colocou em câmera lenta e só agora conseguimos voltar ao nosso próprio timing..." - riu baixinho. - "Loucura, não acha?".

"Não!" - ela falou apressadamente. - "O mais estranho é que faz sentido..." – trocaram um sorriso de cumplicidade.

Shaoran olhou para o relógio e suspirou pesadamente, guardando a caixinha novamente no bolso do casaco.

"Acho melhor eu levá-la para casa, antes que seu pai comece a duvidar de minhas qualificações para ser seu namorado..." - brincou, levantando-se e estendeu a mão para auxiliá-la a se levantar, antes de se encaminharem a casa dela. Fizeram boa parte do caminho em silêncio, cada um imerso em seus próprios pensamentos.

Sakura pensou em como aquela situação era estranha; havia sido pedida em casamento e sua hesitação em responder teoricamente se assemelhava a uma recusa, mas, apesar disso, não havia um clima de estranhamento em torno deles. Era como se tudo estivesse em seu devido lugar.

"Eu espero não lhe causar muito incômodo com tudo isso..." - ele disse quando pararam em frente à casa amarela. - "Eu falei sério quando disse que você podia usar o tempo que quisesse para pensar...".

Ela sorriu apaixonadamente, aproximando-se e envolvendo-o pela cintura para descansar a cabeça em seu ombro.

"Eu te amo tanto..." - sussurrou, sentindo-o erguer seu queixo gentilmente, enquanto era abraçada pela cintura.

"Eu sei..." - Shaoran sorriu em retribuição, baixando a cabeça para provar o sabor dos lábios dela mais uma vez. Um beijo profundo e amoroso. - "É por isso que não me importo de esperar até você se sentir pronta..." - murmurou, fazendo-a se arrepiar.

"Shaoran, eu..." - começou, sendo interrompida quando ele pousou seus lábios sobre os dela novamente.

"É melhor você entrar agora. Está muito frio aqui fora..." - aconselhou, mas a manteve presa em seus braços para um ultimo beijo. - "Boa noite, meu amor...".

"Boa noite..." - sentiu-o afrouxar o abraço devagar e entrou em casa, olhando-o da porta.

CCS SDN CCS SDN CCS SDN CCS SDN CCS SDN CCS SDN CCS SDN CCS SDN

Shaoran saiu do quarto e seguiu o aroma que vinha da cozinha, com a agradável certeza que encontraria pãezinhos doces na mesa. Era, simplesmente, uma das vantagens de se ter Wei por perto.

"Bom dia, jovem Xiao Lang!" – o senhor o cumprimentou ao vê-lo entrar na cozinha. – "Não pensei que fosse acordar tão cedo uma vez que voltou para casa tarde ontem...".

"Bom dia, Wei!" – sorriu sem graça, lembrando que o mordomo ainda estava acordado, esperando seu retorno na noite anterior, apesar de ter sido dispensado. – "Não consegui continuar dormindo com esse cheiro maravilhoso se espalhando pelo apartamento..." – brincou, sentando-se à mesa.

"Então foi acordado pelo estômago..." – o senhor riu levemente, mexendo o bigode grisalho.

"Como sempre..." – Shaoran respondeu, vendo Yelan entrar na cozinha, majestosamente. – "Bom dia, mamãe...".

"Bom dia, Xiao Lang..." – respondeu com um sorriso, sentando-se em frente ao filho. – "Divertiu-se, ontem à noite?" – indagou curiosamente.

"Muito..." – respondeu com um sorriso repleto de carinho, encarando o vazio por um instante. Lembrou-se do passo gigantesco para seu futuro que dera na noite anterior e da conversa que tivera com Sakura após tê-la pedido em casamento. Falara sério quanto a dar tempo a ela para pensar; até a impedira de lhe dar uma resposta que poderia ser impensada quando estavam se despedindo, mas a verdade é que não queria ter que esperar para tê-la ao seu lado definitivamente. Sentira falta dela em seus braços quando acordara naquela manhã, como vinha sentindo desde que voltaram para o hotel na estação.

"Xiao Lang?" – foi despertado pela voz da mãe chamando por ele.

"Desculpe..." – desviou o olhar, sem-graça. – "Eu me distraí...".

"Eu percebi!" – a mulher riu, achando graça. – "E não vou nem perguntar em que... ou melhor, quem estava pensando...".

Shaoran sorriu, meneando levemente a cabeça. Imaginou o que a mãe pensaria se soubesse que propôs Sakura em casamento na noite anterior. Sabia que a mãe gostava da namorada e adoraria tê-la na família, mas aceitação não seria a primeira reação de Yelan, com certeza.

"Olhe só para isso, Wei..." - Yelan chamou a atenção do mordomo em um tom atrevido. - "É impossível manter um diálogo com esse rapaz desde que..." - interrompeu-se ao ouvir o interfone tocando.

"Quem será a essa hora?" - o homem perguntou-se, indo atender. - "Residência Li..." - escutou por um instante, respondendo de maneira tensa. - "Ah, sim! Claro! Pode deixá-lo subir...".

"Quem era, Wei?" - Yelan indagou quando ele desligou com uma expressão séria.

"Mestre Jin..." - respondeu, observando Shaoran contrair o maxilar em uma demonstração de pura tensão.

"O que ele veio fazer aqui?" - Yelan se perguntou, vendo o filho se levantar da mesa deixando um pão pela metade sobre o prato.

"Espero que ele tenha vindo para cá por causa da reunião com os Yamazato apenas..." - expirou irritado, pois Jin Li, o mais novo dos anciões do clã, era também o advogado da família e poderia estragar seus planos, com certeza.

CCS SDN CCS SDN CCS SDN CCS SDN CCS SDN CCS SDN CCS SDN CCS SDN

Sakura abriu os olhos e se espreguiçou manhosamente, vendo no relógio que eram quase 10 da manhã.

"Céus, já é assim tão tarde?" – ficou surpresa com o quanto dormiu e por não ter rolado na cama por horas pensando em que resposta daria a Shaoran, como imaginara que aconteceria. Levantou-se em um pulo alongando-se e ajeitando o quarto antes de trocar de roupa para descer. – "Será que papai já saiu?" – perguntou-se, lembrando que o pai combinara de passar o dia com a família Mizuki.

"Ah, Sakura... já acordou?" – Fujitaka a chamou quando passou em frente ao seu quarto. – "Bom dia, querida! Será que pode me ajudar a levar essas caixas para baixo?" – pediu.

"Bom dia! Eu ajudo, sim..." – pegou uma caixa do chão e começou a descer, sendo seguida pelo pai que carregava outra.

"Deixe em frente à porta do porão que eu levo para baixo mais tarde..." – o homem a instruiu. – "Obrigado, meu bem... Vamos para a cozinha que eu lhe preparo o café..." – sugeriu, indicando a direção. – "Enquanto você me conta como foram as coisas ontem...".

"Foi perfeito, papai!" – disse sorrindo com o rosto levemente rosado, mas parou fazendo uma careta. – "Embora Shaoran tenha implicado comigo a noite toda dizendo que eu parecia um enfeite de Natal..." – disse fazendo o homem rir.

"Ele disse isso?" – balançou negativamente a cabeça. – "Depois de tanto trabalho para encontrarmos aquele casaco...".

"Eu sei..." – Sakura observava com carinho o pai fritar algumas panquecas.

"Então vocês se divertiram bastante..." – o homem suspirou, servindo as panquecas e se sentando na cadeira ao lado de Sakura. – "O que fizeram exatamente?".

"Passamos a tarde toda no parque de diversões, depois fomos tomar chocolate quente em uma cafeteria na galeria. Foi quando eu descobri que Shaoran tinha entradas para a apresentação daquela peça que eu queria assistir, mas quando saímos do parque a sessão já tinha começado...".

"Que pena! Você estava realmente interessada naquela história, não é?" – deu tapinhas na mão da garota, por um instante. – "E o que fizeram então?".

"Ficamos dando voltas pela galeria e assistindo às performances de rua..." – sorriu, cortando a panqueca e começando a comer.

"Ouvi dizer que as performances de Natal são bem variadas..." – comentou, observando-a mastigar e concordar. – "Não é lá que eles montam um palco para aquela dança estranha em que ficam pulando obstáculos e se pendurando?" – quis saber, fazendo-a rir.

"Sim! Não é bem uma dança, mas um esporte ao que parece..." - explicou, vendo o pai erguer uma sobrancelha. - "Mas é muito interessante. Os praticantes têm uma flexibilidade e força fascinantes...".

"É um esporte, então. Não sabia..." - observou a filha morder mais um pedaço de panqueca. - "E ficaram só passeando até voltarem para casa?".

"Antes de virmos para casa Shaoran parou em uma loja de antigüidades para comprar uma lembrança de Natal para a Sra. Yelan." - olhou para o prato pensando se devia ou não contar ao pai sobre o pedido.

"O que houve?" - ele indagou preocupado. - "É uma nuvem que vejo se formar sobre sua cabeça?".

"É que nós também conversamos muito, sobre muitas coisas..." - fez uma pequena pausa, enquanto o pai a observava, apenas esperando que continuasse. - "Inclusive sobre como as coisas ficarão a partir de agora, com ele voltando para Hong Kong, e..." - interrompeu-se encarando o homem à sua frente.

"E...?".

"E a conversa tomou um rumo meio inesperado e chegamos a um impasse..." - resolveu que não precisava contar ao pai os mínimos detalhes. Ficaram em silêncio, e Fujitaka interpretava o significado daquilo. Sakura terminava de mastigar o último pedaço de panqueca quando seu pai se manifestou novamente.

"Impasse mesmo?" - indagou ainda pensativo.

"Bem,... sim!" - suspirou, pensando em como explicar, mas não precisou continuar.

"Então, isso significa que quanto ao assunto, vocês tinham opiniões diferentes?" - viu-a arregalar os olhos em surpresa. - "Soluções diferentes, talvez?".

"Na verdade, não..." - murmurou, observando a mesa ausentemente. - "Foi mais uma questão de sincronia..." - sorriu para si mesma.

"E como resolveram o assunto?" - viu-a encará-lo com um meio sorriso.

"Não resolvemos..." - meneou a cabeça. - "Decidimos pensar cuidadosamente para, então, tomar uma decisão...".

"É uma coisa curiosa... O processo de tomar decisões..." - viu Sakura franzir as sobrancelhas. - "Não é nada complicado, você sabia? Na verdade as decisões são tomadas no momento em que recebemos as alternativas..." - afirmou atraindo a atenção da filha. - "O que é complicado e toma tempo é aceitarmos o que escolhemos e as conseqüências disso...".

"Eu acho que não entendi..." – falou observando o esboço de um sorriso se formar nos lábios do pai.

"Se o problema for o motivo que eu estou pensando, era algo que eu já previa..." - levantou-se e passou a mão carinhosamente pelos cabelos de Sakura, mostrando-se um tanto desconfortável. - "Por isso não vou me opor ao que você escolha..." - garantiu, beijando-lhe a fronte. - "Apenas peço que pense muito bem nas conseqüências e tome as devidas providências... Agora, vou levar as caixas para baixo, limpe a louça, por favor, querida...".

"Está bem..." – Sakura respondeu, mas não se moveu; apenas permaneceu observando seu pai sair da cozinha. Sua mente estava voltada para a conversa de instantes atrás. Não era possível que tivesse entendido direito, mas acabara de receber a bênção do pai e nem sequer precisara contar a ele que foi pedida em casamento.

'Nunca imaginei que papai nos conhecesse tão bem...' – pensou ainda surpresa, pois, apesar de saber que Fujitaka não se oporia, não imaginava que ele aceitaria a idéia tão facilmente.

Entretanto, não era a aceitação em si que realmente ocupava seus pensamentos, mas o que ele lhe dissera sobre tomar decisões...

Quando Shaoran lhe pedira em casamento, recebera um grande choque. É claro que esperava receber a proposta mais cedo ou mais tarde, mas nunca poderia imaginar que isso ocorreria após menos de duas semanas de namoro.

Mas, por trás da surpresa e do receio que sentira, e ainda sentia, havia uma voz lhe sussurrando no fundo da mente e que já tinha tomado uma decisão, mesmo que só agora parasse para prestar atenção ao que dizia. E simplesmente sabia, do fundo de seu coração, que o resultado não poderia ser diferente...

CCS SDN CCS SDN CCS SDN CCS SDN CCS SDN CCS SDN CCS SDN CCS SDN

Shaoran olhou para Yelan, sentada no sofá à sua frente, pela terceira vez em menos de cinco minutos pedindo com o olhar que, por favor, interferisse na 'aula' que vinha sendo ministrada por Jin Li praticamente desde o momento em que ele chegara. Falava sobre informações minuciosamente analisadas a respeito do que tratariam com os Yamazato e era ainda mais enervante para o rapaz já ter lido tudo o que vinha sendo falado nos e-mails que recebera dos anciões dias antes.

"Sim, eu já entendi isso..." – interrompeu o homem, rolando os olhos e contando até dez, embora tivesse a impressão que poderia contar até cem e ainda não seria o suficiente.

"Vamos passar então para a nossa participação..." – o homem começou, sendo imediatamente interrompido.

"Teremos uma participação pró-ativa nas decisões da Diretoria Executiva, com rendimento de 15% dos valores líquidos da companhia e 3% serão mantidos congelados junto a alguma porcentagem, que ainda precisa ser definida, dos títulos dos Hiiragizawa..." - Shaoran precisava pará-lo e mostrar que lera e compreendera o conteúdo dos e-mails recebidos. Quem sabe assim o velho o deixaria em paz.

"É bom saber que você tem certo nível de conhecimento nos negócios..." – comentou aborrecidamente, não se deixando impressionar pela demonstração de informação mostrada pelo jovem. – "Assim não corremos riscos de ter tudo arruinado por uma atitude impensada...".

"O que você quer dizer com isso?" – o rapaz indagou com um sorriso mordaz, pensando se o homem não enlouquecera.

"Nada demais. Apenas que é preciso ser precavido e não fazer coisas estúpidas como terminar o namoro com a filha do presidente de uma empresa alguns dias antes de uma reunião..." – o ancião ergueu uma sobrancelha com um sorriso sem humor, deixando o jovem exasperado. – "Será que você imagina o quanto isso poderia ter nos custado?".

"Pouco me importa! Isso é minha vida pessoal, não tem nada a ver com...".

"Errado!" – o homem o cortou bruscamente. – "O fato de ter terminado seu relacionamento com a filha dos Yamazato nos causou horas de conversas inconvenientes referentes à revisão do contrato..." – encarava-o seriamente. – "Portanto, como você vê, tem tudo a ver com a companhia...".

"Isso é absurdo!" – Shaoran começou a realmente se irritar.

"Diga o que quiser, não vai mudar suas responsabilidades..." – falava enfático, sem alterar o tom de voz. – "Já está mais que na hora de voltar a ser você mesmo e lembrar o lugar a que pertence...".

Shaoran arregalou os olhos por um instante e não pôde evitar sorrir. Ele se lembrava de algo semelhante sendo dito por Sakura na época em que ainda namorava Akio. A maior diferença era que, quando dito por Sakura, aquilo fazia sentido aos seus ouvidos, afinal, o ancião nunca entenderia quem ele realmente era; quem ele se tornara. E, o mais importante, era que não poderia nem queria voltar a ser o mesmo Li Xiao Lang que os anciãos conheciam. Permaneceu em silêncio e meneou tranqüilamente a cabeça em sinal de desdém, deixando o homem confuso.

"O que você..." - o advogado começou, mas se interrompeu ao ouvir a campainha tocar, instantes antes de Wei abrir a porta. – "Esqueça... eu gostaria de uma xícara de chá agora..." – informou a Yelan, levantando-se e saindo da sala.

Shaoran sequer notou seus movimentos. Preocupava-o não ter ouvido o interfone tocar, pois a única pessoa que tinha permissão para subir sem ser anunciada era...

"Boa tarde!" – Sakura surgiu na porta com um sorriso, sendo seguida de perto por um Wei preocupado.

"Sakura!" – Yelan se levantou imediatamente, observando o filho que foi em direção à jovem.

"Não sabia que nos visitaria hoje..." – Shaoran comentou nervoso.

"Desculpe se estou sendo inconveniente..." – mortificou-se, sentindo culpa por não ter ligado antes de aparecer.

"Não é isso! Apenas ficamos um pouco surpresos..." – disse, abraçando-a carinhosamente. Sakura retribuiu ao abraço, estranhando a postura apreensiva dele.

"Você nunca nos incomodaria..." – Yelan reiterou, aproximando-se com um sorriso cordial, mas inquieto e pediu a Wei que lhes servisse chá.

"Aconteceu alguma coisa?" – Sakura perguntou, tocando levemente o rosto do namorado.

"Nada, não..." - esboçou um sorriso, encarando-a amorosamente.

"Preciso falar com você..." - ela revelou suavemente, fazendo-o erguer uma sobrancelha.

"Devo ficar preocupado?" - gracejou, fazendo-a abrir um sorriso. Ele se tornou subitamente tenso ao olhar por sobre o ombro da moça e Sakura estranhou essa reação dele, voltando-se para trás, deparando-se com um senhor de meia idade de cabelos negros e olhos acinzentados, que a observavam com indiferença.

"Minha nossa!" - arregalou os olhos, voltando-se para o rapaz e começando a compreender o clima estranho entre eles. - "Por que não disse que tinham visita?...".

"Florzinha, este é Jin Li..." – Yelan disse rapidamente, apresentando-o. – "Mestre Jin é um dos anciãos do clã..." – acrescentou, fazendo-a arregalar os olhos.

"E também é o advogado que vai me acompanhar na reunião com os Yamazato depois de amanhã..." – Shaoran completou, esclarecendo o que o homem estava fazendo na cidade.

Ela sorriu docemente, voltando-se para o homem e prestando uma respeitosa reverência.

"Muito boa tarde! Sou Sakura Kinomoto, peço desculpas por..." – foi secamente interrompida quando o homem se afastou e começou a falar com Yelan em chinês.

"Sinto muito por isso, minha flor..." – Shaoran sussurrou, colocando as mãos sobre os ombros dela e lançando um olhar de censura a Jin. Sentia ganas de pular no pescoço do velho e obrigá-lo a se desculpar.

"Está tudo bem!" – ofereceu a ele um sorriso apaziguador. – "Você não é responsável pela maneira que ele age...".

"Mesmo assim..." – sentia-se embaraçado. Sakura ficou em silêncio por um instante e ele notou o quanto ela estava aborrecida, mas não iria deixar que os outros percebessem.

"Eu também tenho culpa. Não devia ter aparecido sem avisar..." – comentou com um longo suspiro.

"Não. Você pode aparecer quando quiser..." – disse com sinceridade. – "Além disso, eu fico feliz por você ter vindo..." – sorriu ternamente, segurando-a pela mão.

"Shaoran, não fique aí parado e ofereça um chá a Sakura..." – Yelan os chamou, apontando para o sofá.

"Muito obrigada, Sra. Yelan, mas eu não vou ficar..." – Sakura disse aparentando bom humor. – "Sinto muito tê-los atrapalhado... Eu apenas passei aqui para dar um 'alô'..." – prestou reverência ao ancião e completou sem poder evitar um toque de sarcasmo. – "Foi um prazer conhecê-lo, Sr. Li...".

"Eu a acompanharei até lá embaixo..." – Shaoran se ofereceu.

"Não precisa..." – disse, apertando gentilmente a mão dele.

"E o que você queria conversar comigo?" – indagou, procurando uma maneira de ficar um pouco mais ao lado dela.

"Fica para a próxima..." – piscou para ele com afeto e se retirou da sala, antes que ele pudesse dizer qualquer coisa.

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Sakura ficou vagando pela cidade por quase duas horas antes de se ver parada em frente à casa de Tomoyo. Por um breve momento, hesitou antes de tocar o interfone. Foi logo atendida e, segundos depois, encontrava-se diante da porta do quarto da morena, acompanhando uma criada.

"Sakura, que surpresa vê-la aqui!" - cumprimentou-a com um forte abraço.

"Desculpe aparecer sem avisar. Foi uma decisão repentina..." - explicou enquanto era guiada pela mão até um sofá no centro do quarto.

"Fico feliz que tenha vindo, pois queria muito falar com você sobre o hatsumode..." – falava animadamente, mas interrompeu-se observando algo diferente na amiga. – "Mas... o que aconteceu?"

"Nada. Não quero falar sobre isso..." – hesitou, vendo Tomoyo erguer uma sobrancelha. – "É meio desagradável!"

"Desagra..." – a morena começara a preparar mentalmente algumas perguntas para conseguir mais informações quando arregalou os olhos. – "Você brigou com Shaoran?".

"Não! Não... que idéia!" – sorriu fracamente, suspirando pesadamente. – "Na verdade, eu conheci um dos anciãos hoje..." - explicou, vendo compreensão perpassar os olhos violáceos da amiga.

"Entendo! Pelo que Eriol me contou, eu faço idéia do que deve ter passado..." – interromperam a conversa brevemente apenas para que a criada lhes servisse chá e torta. – "E ele foi muito grosseiro com você?".

"Foi rude, sim, mas eu já esperava por isso..." – deu de ombros. – "Shaoran me avisou que a família dele se comportaria assim..." – bebeu um gole do chá e respirou profundamente sentindo parte da mágoa causada pelo comportamento do velho ser suavizada. – "Mas existe uma grande diferença entre ouvir que será tratada com grosseria e experimentar na pele tamanha falta de educação...".

"Vocês estiveram conversando sobre conhecer a família dele?" – Tomoyo indagou sem esconder o espanto. Sakura sentiu certa hesitação no tom de voz da amiga e decidiu testar sua opinião.

"Ele me convidou para ir com ele para Hong Kong..." - viu os olhos da morena se arregalarem.

"Como assim ir com ele? Para fazer uma visita ou...?" – interrompeu-se quando Sakura ergueu uma sobrancelha deixando claro qual era a resposta. – "Isso é sério, Sakura!" – sobressaltou-se, ajeitando-se desconfortavelmente sobre o sofá. – "Não acha um pouco cedo para algo dessa magnitude? Vocês estão namorando há apenas duas semanas..."

"Oficialmente, pelo menos, isso é verdade..." - riu-se levemente, vendo a expressão séria no rosto de Tomoyo.

"Não acho que seu pai permitiria isso, Sakura, por mais que ele goste de Shaoran..." – meneou a cabeça. – "Não sem vocês estarem casados, pelo menos, e é muito cedo para isso também...".

"Acho que era um pouco demais mesmo, esperar por apoio incondicional..." – murmurou com a cabeça levemente abaixada.

"Sakura, eu sei que vocês se amam, mas essas coisas levam tempo..." – argumentou docemente. – "Você não pode mergulhar de cabeça em um casamento como as princesas de contos de fadas, esperando viver feliz para sempre...".

"Eu sei disso, Tomoyo!" – Sakura ergueu-se e foi até a janela, ficando em silêncio por alguns minutos. Quando se voltou para a amiga tinha um sorriso no rosto. – "Shaoran me pediu em casamento ontem..." – revelou, deixando a outra chocada.

"E o que você respondeu?" - indagou, vendo Sakura encolher os ombros.

"Ainda não respondi..." – murmurou com a voz distante, vendo que Tomoyo ia comentar algo. – "Mas quando fui à casa dele hoje, ia dizer que aceitava...".

"Eu não acredito nisso, Sakura!" – censurou-a a morena. – "Isso é muita irresponsabilidade!".

"Não, não é!" – retrucou decidida, espantando a amiga. – "Seria, sim, irresponsável se nós pensássemos que as coisas seriam fáceis daqui em diante, mas sabemos que não vai ser assim, Tomoyo!" – meneou a cabeça. – "Nós sabemos que teremos que enfrentar vários problemas! A começar pela família dele...".

"Não vai ser muito diferente com a sua família, principalmente o Touya..." – advertiu.

"Ele pode bufar o quanto quiser, não há nada que possa fazer..." – ironizou, girando os olhos. – "Conversei com papai hoje cedo e ele disse que apoiaria a decisão que Shaoran e eu tomássemos...".

"Você está brincando!" – arregalou os olhos assombrada.

"Não. Ele já sabia que acabaríamos chegando a isso e..." – encolheu os ombros. – "Apenas disse que devemos enfrentar as conseqüências...".

"Ainda acho que isso será um erro!" – Tomoyo murmurou inquieta. – "Vocês são muito jovens para...".

"Podemos ser jovens, Tomoyo, mas não somos mais crianças!" – Sakura a interrompeu. – "Eu realmente gostaria de poder contar com seu apoio, porque você é minha melhor amiga. Eu queria que confiasse em mim..." – pediu, suspirando cansada.

"Desculpe, Sakura..." – a morena se ergueu e caminhou até a amiga, abraçando-a carinhosamente. Sakura começou a rir suavemente, meneando a cabeça.

"Não me peça desculpas..." – falou, afastando-se para encarar a amiga. – "Eu sei que reagiu desta forma porque se preocupa comigo e, além disso..." – exibiu um sorriso. – "Se eu voltasse atrás na minha decisão, significaria que não estou pronta para seguir adiante..." – abaixou levemente a cabeça. – "Na verdade, eu fiquei um pouco indecisa depois de ser destratada por aquele velhote e acabei não dando uma resposta para o Shaoran, mas eu precisava passar por isso. Precisava para entender o que vou ter que enfrentar e tomar uma decisão consciente...".

Um mundo jamais visto
Não importa o que lá me espera.
Mesmo não sendo o ideal, como os pássaros
Que viajam com o vento, não terei medo
Em direção ao amanhã

"E a que decisão você chegou?" - quis saber Tomoyo. Sakura, então, ergueu os olhos decididamente antes de responder.

"Eu vou seguir em frente!" - sorriu. - "Eu vou sem medo dos obstáculos porque sei que, não importa o que aconteça, não precisarei enfrentar nem um problema sozinha...".

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"Já cheguei!" – Sakura exclamou ao passar pela porta, mas não ouviu réplica. Seu pai ainda devia estar com os Mizuki.

Encaminhou-se para a sala, pensando em distrair-se assistindo a algum programa de televisão, mas não chegou a se aproximar do sofá, pois, ao passar ao lado do telefone, seus dedos automaticamente o seguraram, discando um número já tão conhecido. Seu cérebro se encontrava em leve entorpecência, e ela não se recuperou até ouvir a voz de Wei pronunciar sua breve saudação.

"Boa noite, Sr. Wei!" – respondeu em um meio sorriso. A voz daquele senhor transmitia gentileza mesmo através de um fio.

"Ah! Senhorita Sakura!" – conheceu-lhe a voz. – "Em que posso ajudá-la?".

"Eu gostaria de falar com Shaoran por um instante..." – pediu, um tanto hesitante.

"Creio que no momento não será possível..." – disse apologeticamente.

"Sei. Ele ainda está conversando com o Senhor Li?".

"Oh, não! Mestre Jin ficará hospedado em um hotel enquanto estiver na cidade..." – respondeu evidentemente consolado. – "É que Xiao Lang está tomando banho, mas eu posso avisá-lo que a senhorita ligou assim que ele sair...".

"Está bem..." – Sakura suspirou, pensando no que teriam de conversar e então teve uma idéia. – "Espere; o senhor poderia pedir para ele me encontrar no Templo Tsukimine em meia hora?".

"Eu o avisarei, sim." – parecia divertido com a sugestão dela.

"Obrigada, Sr. Wei!" – desligou o telefone, eufórica. Teria pouco tempo para se arrumar, mas valeria à pena. Sakura correu para o banheiro, precisava de um banho relaxante, mas não tinha tempo o suficiente. Quando saiu do banheiro, enrolada em uma toalha, Sakura se vestiu, tomando o cuidado para ficar bem agasalhada. Secou o cabelo, passou um batom suave e estava pronta para sair de casa, exatamente vinte minutos depois de ter desligado o telefone. Faltava apenas o casaco vermelho e o cachecol que usara no dia anterior.

Ao chegar ao Templo Tsukimine, estava ofegante, mas Shaoran ainda não havia aparecido, então respirou aliviada enquanto se aproximava da grande cerejeira no centro do pátio. Observou suavemente a decoração simples do templo, com suas lanternas de papel espalhadas a espera do Ano Novo. Parou sob a árvore, aspirando o suave perfume do inverno e tentando acalmar seu coração que batia descompassado. As coisas não seriam mais as mesmas depois dessa noite, mas o passo que estava tomando era apenas o primeiro e ela sentia um frio intenso no estômago que nada tinha a ver com o inverno.

"Ora, um duende de Natal perdido por aqui..." – assustou-se quando ouviu uma voz sussurrar ao seu ouvido.

"Eu não sou um duende..." – retrucou, virando-se para trás e encontrando o brilho matreiro nos olhos âmbares e não pôde evitar sorrir, sentindo parte de sua insegurança se esvair como se tivesse sido soprada pelo vento.

"Não! Mas está tão adorável quanto..." – enlaçou-a suavemente pela cintura, depositando um beijo terno nos lábios rosados. – "Desculpe o atraso. Fui pego um pouco de surpresa por seu recado. Está esperando há muito tempo?".

"Não. Acabei de chegar!" – encarou-o sorrindo delicadamente.

Shaoran pensou que talvez fosse sua imaginação, mas havia uma luz quase mágica envolvendo-a naquele momento, como se ela brilhasse por dentro.

"O que aconteceu?" – ele indagou, ouvindo-a suspirar. Ela deu um passo para trás, saindo de seu abraço e o encarou diretamente. O par de esmeraldas mostrava-se um mar de paradoxos, abrigando ao mesmo tempo determinação e hesitação, certeza e confusão, confiança e medo. Sakura respirou profundamente e abriu um sorriso amplo; sua voz não era mais que um sussurro.

"Sim!".

Quero dizer... Quero gritar...
Eu sou apenas uma pessoa neste mundo
Que como uma prece ou uma estrela
Brilha fragilmente e algum dia
Espera se tornar muito mais forte.

Shaoran a encarou, esperando por algo mais que não veio. Era aquilo, mas o que significava? Franziu o cenho, levemente confuso e a viu aumentar o sorriso, erguendo uma sobrancelha e esperando que ele entendesse o sentido do que estava sendo dito.

"Sim!" – repetiu, dessa vez com mais força, estendendo a pequena palavra o máximo que pôde, vendo a clareza se apossar aos poucos da mente do rapaz e refletir nos olhos que foram se arregalando.

"Sério?" – indagou sem conter o sorriso e se aproximando até quase tocá-la. – "Tem certeza?" – viu-a menear a cabeça confirmando e a abraçou fortemente. – "Ah, minha flor! Eu..." – interrompeu-se, extasiado. Não havia palavras suficientes no universo para que conseguissem expressar como se sentia, mas bastou que mergulhassem nos olhos um do outro para que ambos percebessem: naquele momento, palavras eram desnecessárias.

Não há limites,
As possibilidades se encontram aqui
Nestas mãos...
Encontrará o seu mundo...

Todo o resto podia ser deixado para depois, pelo menos por enquanto. Por ora, bastava sentir e saber que estariam compartilhando o que quer que fosse dali por diante.

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Sakura olhou ansiosamente para o relógio. Ficava nervosa ao pensar na notícia que daria à sua família quando Shaoran chegasse com Yelan do aeroporto, aonde foram para acompanhar o senhor Jin Li. Além de estar preocupada com o impacto do anúncio, a presença de Touya a deixava bastante aflita. Sabia que o irmão faria um escândalo. Preferiria lidar com ele depois que tudo já estivesse acertado, mas acabara concordando com Shaoran em resolver tudo de uma só vez. Pelo menos não precisava se afligir a respeito da reação do pai.

"Eles chegaram!" – disse indo apressadamente até a porta ao ver, pela janela, o carro ser estacionado na frente da casa.

"Até parece que não vê o moleque há dez anos, do jeito que está agitada..." – estranhou Touya que vinha percebendo a inquietação da irmã.

"Deixe sua irmã, Touya..." – Kaho bronqueou com um pequeno sorriso.

"Pode não ter sido uma década, como você disse, mas eles realmente não se encontraram nos últimos dias por causa de um visitante que estava na cidade a negócios..." – Fujitaka explicou suavemente. – "É natural que Sakura esteja aflita por terem passado tanto tempo separados já que Shaoran voltará para Hong Kong dentro de pouco tempo...".

"Sim. O que é outra razão para eu não entender essa decisão deles de começarem a namorar justo agora. Ainda mais depois de todo o tempo que passaram sendo só amigos..." – reclamou mal-humorado.

"Entendo como você se sente, também receio que eles sofram quando se separarem..." – o homem suspirou incomodado. – "A última coisa que quero é ver sua irmã andando pela casa parecendo uma sombra como quando eles brigaram alguns meses atrás...".

"Olá, boa tarde!" – Yelan os cumprimentou, interrompendo a conversa e adentrando a sala, seguida pelo jovem casal que vinha de mãos dadas.

"Boa tarde! É muito bom vê-los novamente!" – Fujitaka apontou para o sofá e a mesa de centro onde se encontrava organizado o chá que Sakura havia feito questão de preparar mais cedo. – "Fiquem à vontade, por favor!".

"Obrigada!" – Yelan sorriu, sentando-se e o que se seguiu foi um instante de silêncio constrangido. – "Confesso que estou curiosa para saber o motivo da reunião..." – falou por fim, fazendo os Kinomoto encará-la estranhamente.

"Desculpe, mas não é a senhora que tem algo a nos dizer?" – Touya indagou, notando o pai desviar sabiamente o olhar para Sakura e Shaoran.

"Fomos nós que planejamos esse encontro..." – Shaoran anunciou, caminhando até o meio da sala com Sakura ao seu lado. Ambos se encontravam tensos, pois imaginavam a batalha que teriam de travar. O clima da sala se tornou um reflexo de seus sentimentos, enquanto as outras pessoas presentes aguardavam silenciosamente que o rapaz continuasse, fazendo suas próprias suposições a respeito do porquê daquela reunião. – "Temos algo a dizer...".

Estava sendo mais complicado do que haviam imaginado. Por mais que ambos estivessem resolutos sobre a decisão que tomaram, não havia como encarar com tranqüilidade o fato de que estariam criando um pandemônio em suas famílias com isso.

"Vão falar logo ou continuar fazendo suspense?" – Touya, cuja mente estava repleta de pensamentos sobre o chinês tirar sua irmãzinha do seu alcance, impacientou-se.

"Gostaríamos de contar com a compreensão e o apoio de vocês, por que..." – Shaoran começou, sentindo Sakura apertar levemente sua mão, dando-lhe estímulo silenciosamente. – "Pretendemos nos casar."

"Vocês só podem estar loucos, se acham que..." – Touya rebateu explosivamente, mas foi contido por Kaho que pediu ao esposo que deixasse os dois resolverem isso com os pais. Acabou cedendo, mesmo que a contragosto.

"Imaginei que fossem anunciar algo do gênero..." – Yelan suspirou, meneando a cabeça. – "Mas acho que podem estar sendo precipitados...".

"Não estamos." – Shaoran assegurou. – "Sei que as circunstâncias atuais não nos dão muita credibilidade, mas realmente refletimos profundamente sobre o assunto, por isso pedimos a vocês que confiem em nós e nos permitam seguir adiante...".

"E se não consentirmos?" – Yelan ergueu curiosamente uma sobrancelha em sinal de desafio. Os jovens se aproximaram um pouco mais, segurando firmemente nas mãos um do outro em apoio mútuo.

"Nesse caso..." – o rapaz exibiu um pequeno sorriso de lado aceitando a provocação. – "Não teremos escolha a não ser provar a vocês que estamos falando sério...".

"E como farão isso?" – Fujitaka quis saber, olhando-os de esguelha.

"Sabemos que, normalmente, precisaríamos da autorização de nossos pais para nos casarmos, mas não nos importamos em esperar o dobro do tempo pelo resultado de uma solicitação de registro em caráter excepcional..." – explicou calmamente. Ficou satisfeito por ter passado os dias anteriores verificando os aspectos legais para o casamento.

"Talvez demore um pouco mais que isso por causa da Notificação de Casamento que precisa ser emitida pelo Consulado Chinês..." – Sakura interrompeu, atraindo a atenção dos presentes. Ela também havia pesquisado a situação.

"E caso o Consulado Chinês não autorize nosso casamento, sempre poderemos apelar ao Consulado Britânico..." – Shaoran adicionou, fazendo Yelan sorrir suavemente. – "Eu não hesitaria em usar minha dupla nacionalidade nesse caso...".

"E o que vocês farão enquanto esperam?" – Yelan inquiriu.

"Não vou sair do Japão sem estarmos casados, se é o que a senhora está querendo saber..." – declarou. – "Não saio daqui nem que todos os velhos do clã apareçam...".

"Eles estão sendo bastante razoáveis..." – Fujitaka comentou faceiro, recebendo concordância de Yelan. Ficaria mais preocupado se os dois ameaçassem fugir até conseguirem autorização para se casar.

"Eu não acredito nisso! Vocês não vão aceitar essa loucura, vão?" – Touya voltou a se manifestar. Claro que ficou surpreso pela maturidade que ambos demonstraram sobre o assunto, mas ainda assim era absurdo. – "Eles não podem se casar! Ainda são crianças, é irresponsabilidade demais!".

"Não somos mais crianças, Touya! Muito menos irresponsáveis..." – Sakura respondeu agitada. – "Somos novos. Sim, é verdade, mas passamos por muitas coisas nos últimos tempos para chegarmos até aqui e não vamos desistir depois de tudo o que já enfrentamos...".

"Como vocês têm tanta certeza de estarem preparados?" – Fujitaka indagou observando os jovens. Sakura encarou o pai. Devia ter imaginado que, só porque ele disse que aceitaria sua decisão, não significava que o faria sem contestar.

"É como o senhor disse, papai. Eu já havia tomado a decisão no momento em que Shaoran e eu abordamos o assunto, mas hesitei um pouco pensando nas conseqüências..." – Sakura explicou, fazendo Fujitaka arregalar os olhos em espanto.

"Está vendo! Você não está tão confiante assim..." – Touya a interrompeu, acreditando que a faria ver como não estava pronta para assumir tal compromisso.

"Muito pelo contrário!" – sorriu confiante ao trocar um olhar de cumplicidade com Shaoran. – "Isso foi antes. Eu não tenho mais dúvidas agora. Nós sabemos que não será fácil, mas isso não importa tanto, pois estamos decididos a vencer qualquer obstáculo..." – encarou o pai com seriedade. – "Da mesma maneira que o senhor e mamãe fizeram quando se casaram. Nossos problemas serão um pouco diferentes dos que vocês precisaram enfrentar, mas, ainda assim, teremos muitas barreiras para superar e muita gente a quem provar que estamos falando sério e vamos sair vitoriosos; independente dos desafios que coloquem em nosso caminho."

"E nós vamos conseguir!" – Shaoran garantiu.

Os adultos trocaram olhares avaliativos, imaginando o que poderia ser dito para fazê-los recuar e reconsiderar, mas a verdade é que já sabiam a resposta. Bastava olhar para o jovem casal no centro da sala e ficava evidente que não seriam acuados.

Fujitaka suspirou pesadamente e meneou a cabeça mostrando-se espantado demais para quem já imaginava o que eles estavam planejando. Sakura estranhou isso e não conseguiu evitar sua curiosidade.

"Papai, eu só estou um pouco confusa sobre uma coisa..." – Sakura começou, atraindo a atenção de todos. – "Quando estávamos conversando no dia 26, comentei ter ficado em dúvida sobre um assunto que surgiu durante o encontro de Natal, e o senhor disse já esperar por isso. Disse que aceitaria minha decisão contanto que eu arcasse com as conseqüências..." – notou uma luz de esclarecimento tomar conta do rosto do homem mais velho.

"Então era esse o assunto..." – riu suavemente, sentindo-se constrangido. – "E eu achei que estavam considerando dormir juntos antes de iniciarem um namoro à distância..." – explicou, fazendo Sakura enrubescer e desviar o olhar. A reação de Shaoran foi mais contida ao passo que ele simplesmente puxou a garota em sua direção, oferecendo-lhe proteção. Já, Touya encarava o pai, embasbacado.

"O senhor iria simplesmente permitir que eles fizessem isso?" – indagou incrédulo.

"Ora, Touya, o início de um namoro é um período de adaptação e descobrimento que o casal usa para se conhecer melhor e ter certeza que consegue conviver com os defeitos um do outro..." – expôs, encolhendo o ombro.

"Mas, como Sakura e Shaoran já passaram por isso há muito tempo, então seria apenas natural que eles fossem para a próxima etapa do namoro..." – Kaho completou, compreendendo onde o sogro queria chegar.

"Será que vocês poderiam parar de falar como se não estivéssemos aqui?" – o jovem chinês reclamou ainda segurando Sakura, que escondia o rosto contra seu peito por embaraço.

"Desculpem..." – Fujitaka suspirou, retomando o ar de seriedade. - "Acho que é melhor voltarmos ao que nos trouxe aqui, embora não haja realmente o que discutir...".

"É verdade! Vocês não nos deixaram muitas escolhas, afinal de contas..." – Yelan os observou com um sorriso conformado. – "Não vieram até aqui para nos pedir permissão, mas para anunciar a decisão que tomaram...".

"Realmente fizemos isso, não foi?" – Shaoran comentou, como se só então percebesse o fato.

"Sim. Como verdadeiros adultos..." - Yelan se ergueu, aproximando-se deles até ficarem frente a frente. – "Eu, particularmente, não posso suportar a idéia de não participar do casamento de meu único filho..." – declarou, tocando de leve o rosto do filho.

"Só nos resta aceitar ou ficar de fora observando vocês resolverem tudo sozinhos, não é?" – Touya resignou-se, vendo os jovens concordarem silenciosamente.

Todos os olhos da sala se voltaram para Fujitaka que permanecia em silêncio encarando o jovem casal do outro lado.

"É um dilema e tanto..." - o senhor suspirou, aproximando-se e encarando a filha. - "Eu nunca antes tive problemas em aceitar que você cresceu, mas fazer essa admissão, também, nunca significou que você me abandonaria..." - confessou com os olhos rasos d'água.

"Papai..." - Sakura sentiu as lágrimas se formando, embaçando-lhe a visão e um súbito soluço se formou, ficando preso em sua garganta.

"Mas, não há mais como negar, agora... Minha Menininha definitivamente se tornou adulta..." - sorriu gentilmente, acolhendo em seus braços a filha caçula: agora uma jovem mulher.

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EPÍLOGO

A porta do elevador se abriu com sua característica campainha possibilitando o acesso para a sala da assistente do presidente da Li International.

"Boa tarde, Senhor Li! Seja bem-vindo de volta!" – a mulher cumprimentou o chefe.

"Obrigado, Sra. Lao..." – passou por ela, encaminhando-se para a sua sala. – "Alguma notícia sobre as empresas de consultoria que estamos avaliando?".

"Nada da empresa Ohm, senhor, mas a secretária do presidente da LVC entrou em contato mais cedo inquirindo sobre um horário para reunião..." – avisou, depositando algumas pastas sobre a mesa. – "Como o senhor irá para o Japão no final de semana, marquei a reunião para segunda-feira às 16h...".

"Ótimo! Algo mais?" – perguntou, afrouxando levemente a gravata e encarando as pastas acumuladas à sua frente.

"Sobre isso, não. Mas acho que devo avisar-lhe: sua mãe e irmãs estão ligando para o escritório a cada cinco minutos... Ah!" – ouviu o telefone da recepção tocar. – "Deve ser a Sra. Li, novamente..." – suspirou meneando a cabeça.

"Passe a chamada aqui para o escritório, por favor..." – sorriu de lado ao ouvir a secretária sair resmungando sobre ligações pessoais durante o expediente. O homem atendeu no primeiro toque.

"Finalmente, Xiao Lang! Faz quase uma hora que estamos tentando falar com você!" – ele podia ouvir o tumulto das irmãs ao fundo e o tom de aflição na voz da mãe o deixou alerta. – "Não faz idéia do caos em que as coisas estão aqui em casa e aquela sua secretária, versão feminina dos anciões, recusou-se a chamá-lo esse tempo todo, mesmo que disséssemos ser importante...".

"Mãe, acalme-se! O que houve? Yuu está bem?" – indagou agitado.

"Ele está bem! É Sakura..." – explicou, fazendo-o empalidecer. – "Recebi uma ligação do Senhor Kinomoto. Ela entrou em trabalho de parto e foi levada para o hospital...".

"Mas ainda cedo! Só devia acontecer...".

"Daqui a duas semanas, eu sei!" – interrompeu-o nervosa. – "Mas não dá para discutirmos isso. As passagens estão reservadas para o vôo que sai daqui às 19h. Então é melhor você se apressar! Eu e suas irmãs já preparamos as malas e vamos encontrá-lo no aeroporto... Estamos levando o pequeno Yuu, também...".

"Está certo! Vou resolver tudo o que preciso aqui e sairei assim que o carro estiver pronto!" – declarou, ouvindo a mãe concordar e se despedir, mas não podia deixá-la desligar assim. – "Mãe! Como ela estava? O que o senhor Fujitaka disse?".

"A última notícia que tive foi há quinze minutos e ela estava sendo levada para a sala de cirurgia..." – disse, mas logo emendou. – "Você sabe que o bebê não virou, então ela precisará de uma cesariana, mas não se preocupe... Ela vai ficar bem! Ela é forte!".

"Sim! Ela é..." – ele respirou profundamente tentando se acalmar. Se dependesse de sua geniosa esposa, tudo ficaria bem. – "Eu só gostaria de estar lá nesse momento...".

"Eu sei, filho, mas não está. Então deve se concentrar em estar lá quando ela acordar do procedimento..." – lembrou-o suavemente. – "Agora ande logo! Vá!" – desligou ao mesmo tempo em que o Shaoran se levantava, discando um número no celular.

"Kim, prepare o carro imediatamente e me encontre na entrada!" – ordenou, abrindo a porta que separava sua sala da de sua assistente. – "Sra. Lao, cancele todos os meus compromissos do resto da semana e passe o que for inadiável para o vice-presidente..." – comandou deixando a mulher lívida enquanto encaminhava-se até o elevador e apertava o botão. – "Mantenha minha agenda livre para a próxima semana, também. Estou saindo de licença..." – anunciou, ouvindo a campainha do elevador quando este abriu as portas.

"Mas, senhor..." – a mulher tentou argumentar, mas o patrão já havia entrado e as portas se fechavam.

CCS SDN CCS SDN CCS SDN CCS SDN CCS SDN CCS SDN CCS SDN CCS SDN

Dentro do carro, Shaoran tirou a gravata e o paletó, achando aquele traje mais sufocante que o normal. Não importava o tempo que se passasse, algumas coisas não mudavam, entre elas o fato de não se acostumar à "coleira", como Sakura dizia.

Sakura...

"Por Buda..." – murmurou passando a mão nervosamente pela nuca. Que nada acontecesse a ela! Não poderia suportar isso. Não depois de tudo o que passaram e enfrentaram nos últimos doze anos.

'Doze anos!' – pensou abismado. Era tão difícil de acreditar que todo aquele tempo já havia passado.

Algumas vezes, ao olhar para trás, parecia que ainda ontem estavam em uma sala de aula no colégio em Tomoeda, mas tanta coisa aconteceu depois daquilo. Para muitas delas nem sempre conseguia olhar com simpatia mas tiveram bons momentos, também.

O início do casamento fora, por demais, conturbado como haviam previsto. Entre outras coisas porque, mesmo sem ter percebido isso na época, delimitara drasticamente a influência dos anciões sobre sua vida ao tomar tal decisão. Como represália, tivera todas as etapas de sua vida profissional dificultadas pelos velhos, tendo que cumprir todas as tarefas que lhe eram designadas sem uma única falha; não tinha sequer a desculpa de estar aprendendo. Passava tanto tempo estudando e trabalhando que não se surpreenderia de chegar a casa e descobrir que Sakura decidira voltar para Tomoeda. Ele mesmo pensou várias vezes em fugir para a segurança do sobrado amarelo, mas nunca passou disso: um pensamento... Pois, nem ele nem Sakura desistiriam!

Passaram por algumas provações e jogos de intriga que nunca teriam conseguido superar se não tivessem toda uma história anteriormente e logo entenderam como era importante que se conhecessem de coração para que o casamento desse certo. Sakura sempre foi magnífica em suas funções como esposa do líder do clã, empenhava-se em aprender tudo o que podia e em atender às expectativas, apesar de sempre ter deixando claro que não agiria de maneira contrária ao que acreditava.

Envergonhava-o um pouco o fato de as coisas terem melhorado por volta do quarto ano do casamento deles, quando os velhos vislumbraram as possibilidades de fechar negócios com uma empresa de grande impacto no cenário japonês como era o caso da Nadeshiko Inc., a multinacional do avô de Sakura. Naquela época, estava se formando e havia alcançado – por seus próprios méritos – o cargo de gerente financeiro na empresa da família. Mas nada importava mais para ele naquele momento que a gravidez de Sakura. Estava nas nuvens, maravilhado. E foi então que nasceu o Yuu.

"Papai!" – ouviu o chamado e voltou-se para o lado onde localizou a mãe, Wei e um garoto de oito anos que vinha em sua direção. – "Ainda bem que o senhor chegou. A vovó disse que eu não posso viajar sozinho de avião nem se for uma emergência!" – reclamou abraçando o pai pelas pernas.

"Desculpe ter demorado..." – acariciou de leve os cabelos do menino e, pegando-o pela mão, aproximou-se da mãe. – "Como estão os preparativos?".

"Já está tudo certo. A bagagem já foi despachada e o vôo de vocês decola dentro de 50 minutos, portanto é melhor irem para o portão de embarque..." – entregou as passagens para o filho e olhou para o neto. – "Você está com seus documentos?".

"Estão na minha mochila!" – exclamou indo até o homem que segurava sua bolsa.

"Liguei para Touya há cinco minutos e Sakura ainda estava na sala de cirurgia, mas tudo estava ocorrendo sem problemas..." – informou-o com um sorriso tranqüilizador. – "Tudo ficará bem!" – garantiu-lhe, vendo Yuu se aproximar com a bolsa nas costas e segurar na mão do pai. A mulher se abaixou até ficar na altura do garoto. – "Lembra-se do recado que pedi para dar a sua mãe?" – indagou erguendo uma sobrancelha.

"Que a senhora irá para Tomoeda no domingo para vê-la e conhecer sua nova netinha..." – repetiu seriamente as palavras da avó e suspirou ruidosamente. – "Não vou me esquecer de dizer isso a ela, Baba!" – garantiu, enchendo o peito orgulhosamente. – "E não precisa se preocupar porque eu e papai vamos cuidar da mamãe e da minha irmãzinha!" – disse, fazendo os adultos sorrirem.

"É melhor irmos, Yuu..." – Shaoran anunciou olhando o relógio do quadro de horários e então para a mãe. – "Eu vou ligar para Touya novamente antes de embarcarmos, mas se a senhora ficar sabendo qualquer coisa antes disso me ligue!" – pediu, vendo-a concordar.

"Façam uma boa viagem!" – desejou, abraçando o filho e o neto antes de vê-los se afastarem.

CCS SDN CCS SDN CCS SDN CCS SDN CCS SDN CCS SDN CCS SDN CCS SDN

Shaoran passou pela porta da ala da maternidade segurando o filho pela mão. Olhou-o de lado e sorriu gentilmente vendo-o caindo de sono, mas fazendo-se de forte por pura teimosia. Já passava das onze horas quando chegaram ao aeroporto de Tokyo e, após ligar para Touya para saber como Sakura estava e ouvir as boas novas, Shaoran percebeu que seria melhor deixar Yuu, já sonolento, na casa do cunhado antes de ir para o hospital substituir Fujitaka que permanecera junto à filha. Mas, ao comunicar o plano a Touya, recebeu uma resposta revoltada do garoto que o espantou. O menino, geralmente tão dócil, tornou-se uma fera, mostrando um gênio que o pai desconhecia nele. Depois de conversarem a respeito, concordaram em ir até o hospital, onde veriam Sakura e a bebê, e Yuu iria para casa com o avô.

Contudo, Shaoran se sentia incomodado, pois sabia que as enfermeiras não deixariam o filho ver a mãe fora do horário de visitas. Respirando profundamente e esperando que o menino não se mostrasse muito genioso, aproximou-se do balcão onde uma enfermeira estava de plantão.

"Boa noite! Eu gostaria de ver minha esposa, Sakura Li..." – informou à mulher que o olhou de soslaio.

"O horário de visitas já acabou, senhor..." – informou-lhe mecanicamente.

"Sim, eu sei disso! Mas eu vim aqui para substituir meu sogro que está com ela..." – informou, vendo-a erguer uma sobrancelha.

"Tudo bem, mas o menino não poderá entrar..." – avisou, fazendo Yuu cruzar os braços e olhá-la de cara feia. Shaoran enterneceu diante da visão. Era uma judiação fazer aquilo.

"Eu sei que é uma norma do hospital, mas será que não poderia abrir uma exceção?" – tentou apelar para o coração da mulher. – "Meu filho quase não viu a mãe nos últimos meses porque moramos em Hong Kong e ela passou os últimos três meses aqui no Japão..." – começou a explicar. – "Pegamos o primeiro vôo assim que soubemos que ela entrou em trabalho de parto e estamos vindo direto do aeroporto. Ele só quer ver a mãe para ter certeza que ela está bem...".

"Eu sinto muito, senhor, mas não podemos permitir visitas tão tarde..." – respondeu irredutível e encarou o menino. – "Escute, meu bem, sua mãe está bem, eu lhe garanto! Agora é melhor você ir descansar e voltar bem cedo amanhã para poder vê-la...".

"Papai..." – começou a fazer manha, puxando a perna da calça do homem. Shaoran se abaixou na frente do filho.

"Você ouviu a moça, filho. São as regras..." – começou, gentilmente, vendo-o fazer cara de choro.

"Está tudo bem, Srta. Sunako. Pode abrir uma exceção para eles..." – ouviram a voz de uma mulher informar enquanto parava ao lado de pai e filho.

"Mas isso não é certo, doutora!" – a enfermeira chamou-lhe a atenção. Shaoran ergueu o rosto para agradecer à médica e seus olhos se arregalaram em espanto.

"Também não é certo proibir o menino de ver a mãe..." – falou tranqüilamente, sorrindo para o menino que esfregava os olhos, cansado, mas satisfeito. – "Venham, eu os levarei até o quarto da Sra. Li!" – chamou-os, seguindo pelo corredor apesar dos murmúrios de protesto da colega.

Caminharam em silêncio por alguns instantes: a médica na frente o pai e o menino, de mãos dadas, atrás.

"Estava começando a me perguntar quando você viria..." – a mulher quebrou o silêncio, olhando brevemente para trás. – "Faz tempo, Shaoran...".

"Realmente. Muito tempo, Akio..." – ele concordou serenamente. Olhou para o filho e notou que os observava com curiosidade. – "Nunca esperaria encontrá-la aqui...".

"Também fiquei surpresa por ver sua esposa entrar na sala de emergência em trabalho de parto durante meu plantão..." – riu levemente.

"Foi você quem a atendeu?" – inquiriu. A mulher apenas concordou quietamente. – "Obrigado por ter cuidado dela!".

"Não precisa me agradecer..." – disse encarando-o ao parar em frente a uma porta. – "Aqui estamos..." – abaixou-se para falar com o menino. – "Você já sabe o que aconteceu com sua mamãe?" – perguntou, vendo-o concordar.

"Minha baba me explicou. Ela fez uma operação na barriga para ajudar minha irmãzinha a nascer..." – disse simplesmente, vendo a médica sorrir.

"É isso mesmo. Por isso eu preciso que você me prometa que, se ela estiver dormindo, não irá acordá-la e que vai tomar cuidado para não machucá-la, está bem?" – viu-o prometer. – "Então, agora podemos entrar..." – disse, abrindo a porta.

Yuu entrou em silêncio. O quarto estava fracamente iluminado: Sakura ocupava o leito no centro do cômodo e Fujitaka dormia num sofá-cama ao lado. Shaoran se encaminhou até o sofá para acordar o sogro, enquanto o menino se aproximava da cama com cuidado. Parou ao lado da mãe e, com carinho, segurou-lhe a mão, beijando-a e sussurrando palavras doces. A cena era atentamente observada pelos três adultos. Shaoran se aproximou devagar do filho para colocar uma mão no ombro dele, mas parou subitamente. O menino se assustou um pouco quando sentiu a mãe apertar sua mão e olhou rapidamente para o pai ao perceber que ela estava acordada.

"Não fui eu!" – disse apressadamente, fazendo-o sorrir.

"Está tudo bem. Eu sei que não..." – passou a mão nos cabelos do filho, parando ao lado da esposa e se inclinando para beijá-la de leve. – "Você nos assustou..." – murmurou antes de se afastar. – "Como está se sentindo?" – quis saber, acariciando-lhe o rosto.

"Bem melhor agora..." – falou fracamente e olhou para o filho sorrindo. – "Eu estava sonhando com você..." – contou, vendo-o abrir um largo sorriso. – "Já viu sua irmãzinha?" – perguntou e viu-o negar com a cabeça e arregalar os olhos, lembrando-se de algo.

"Baba disse que vem ao Japão no domingo..". – disse seriamente, fazendo a mãe sorrir. – "Ela também que conhecer minha irmãzinha...".

Sakura começou a perguntar várias coisas ao menino e ouvia ao que ele dizia mantendo um fraco sorriso no rosto.

Shaoran a observava atentamente. Estava um pouco abatida e sonolenta por causa da medicação, mas seus olhos brilhavam intensamente. Um sentimento inesperado se apossou dele naquele momento, trazendo uma leve ardência aos seus olhos. A tensão que se acumulara sobre ele, quase imperceptivelmente, esvaiu-se com um estremecimento comovido enquanto sua mente repetia sem parar que agora tudo estava bem.

Tudo havia sido tão incerto nos últimos três... não, nos últimos nove meses de suas vidas, começando com a notícia que Sakura estava grávida novamente. Ficara deslumbrado a princípio, mesmo que não fosse algo planejado, mas a realidade logo tratou de fincar suas garras em seu peito com o que isso significava. Eles já têm Yuu e moram em um país cujo controle de natalidade estabelece claramente que dar à luz um segundo filho é proibido. Por mais que façam parte de uma família influente e com condições de criar a nova criança, ainda teriam de enfrentar um processo longo e cansativo. Seriam envolvidos na complexa burocracia e acabaria sendo determinando, na melhor das hipóteses, que algum casal da família Li, sem filhos, adotasse a criança. Já vira isso acontecer com certa freqüência nos últimos anos.

Então, ao invés de compartilhar as boas novas com todos como seria de se esperar, acabaram limitando a informação a um pequeno grupo de amigos e familiares, e quando Sakura começou a ter dificuldades de esconder a barriga inventaram que Fujitaka fizera uma séria cirurgia para que ela pudesse ficar no Japão por algum tempo. Ele passara quase todos os finais de semana dos últimos três meses em Tomoeda, visitando a esposa enquanto buscava, junto a Eriol, uma maneira de ficarem com a filha em Hong Kong. Encontraram a solução perfeita há duas semanas e só precisavam garantir que a criança não nasceria em território chinês. Depois disso, tudo se resolveria tranqüilamente, embora tivesse certeza que acabariam chocando, novamente, os anciãos da família por agirem sem o conhecimento deles.

Akio olhou no relógio; suspirando, aproximou-se do leito e colocou uma mão sobre o ombro do garoto atraindo atenção de todos.

"Sei que você quer ficar perto de sua mãe, mas temos que deixá-la descansar agora, tudo bem?" – perguntou, vendo-o hesitar, mas então concordar levemente.

"Eu posso ver minha irmãzinha antes de ir embora?" – ele pediu, vendo a médica concordar.

"Yuu, filhinho..." – Sakura o chamou, estendendo-lhe a mão. – "Quero lhe pedir um favor..." – disse olhando-o ternamente. – "Quando você vir sua irmãzinha, pense em um nome bem bonito para ela, está bem?".

"Vou pensar no nome mais bonito de todos!" – garantiu orgulhoso.

"É melhor irmos..." – Fujitaka disse, dando um beijo na testa da filha. – "Eu volto amanhã...".

Shaoran viu o filho se aproximar mais da cama, todo desajeitado, com medo de machucar a mãe e entendeu o que ele queria. Pegou-o no colo e, segurando-o com cuidado, inclinou-o para que pudesse dar um beijo na mãe também.

"Vamos ver sua irmã..." – o avô o chamou, esperando ao lado da médica na porta do quarto.

"Vá lá também. Sei que está morrendo de vontade de vê-la..." – Sakura falou ao marido gentilmente. – "Prometo que não vou sair daqui..." – brincou, fazendo-o encará-la com olhos doces.

"Está bem..." – beijou-a amorosamente antes de sair, seguindo o filho e o sogro que conversavam aos sussurros.

"Vocês têm uma linda família..." – ele se assustou por não ter percebido que Akio estava ao seu lado. Ela mantinha os olhos no menino e um sorriso nos lábios.

"Não é nada fácil, mas nós temos, sim..." - esboçou um sorriso, vendo o filho se apertar contra o vidro do berçário tentando enxergar a bebezinha para a qual Fujitaka apontava.

"Eu vou tirá-la do berço para que a vejam melhor..." – ela riu, apressando os passos e entrando na sala. Shaoran parou atrás do filho, observando a médica segurar a bebê no colo com cuidado e aproximá-la do vidro. Yuu abriu um grande sorriso de deslumbramento quando a irmã abriu os olhos.

"Olha, papai! Ela está olhando para nós também..." – riu, acenando animadamente. Os adultos sorriram, e Shaoran ergueu o filho nos braços, aninhando-o gentilmente.

"Então? Já pensou em um nome para ela?" – Fujitaka perguntou enquanto a médica a colocava novamente no berço. O menino pensou um pouco e assentindo com a cabeça sussurrou algo no ouvido do pai.

"É um ótimo nome!" – exclamou dando um beijo estalado na bochecha do filho.

"Mas não conte para a mamãe!".

"Não vou contar..." – prometeu, colocando-o no chão. – "Agora é melhor você e seu avô irem para casa..." – comentou, vendo-o concordar.

"Mal posso esperar para brincar com a Yumi... Opa!..." – acabou dizendo ao avô enquanto iam embora, sob o olhar zeloso do pai.

"Yumi? Quem é essa?" – Fujitaka se fez de desentendido para não estragar o segredo do neto, fazendo-o sorrir aliviado por não ter estragado tudo antes da hora.

"Amanhã eu conto para o senhor vovô..." – respondeu em tom de segredo.

Shaoran lançou mais um olhar para a filha e pôs-se a caminho do quarto onde a esposa descansava. Sentia o cansaço da agitação do dia começar a pesar sobre seus ombros. Também precisava descansar. Entrou no quarto e fechou a porta, indo ao banheiro fazer o toalete antes de dormir. Ao voltar, viu a esposa acordada sobre a cama.

"Desculpe, não queria acordá-la..." – murmurou, aproximando-se e sentando na cama ao seu lado.

"Ainda bem que me acordou, senão acabaria dormindo naquele sofá desconfortável..." – virou-se levemente, abrindo um pouco de espaço na cama.

"Acho que não podemos..." – ele ergueu uma sobrancelha, sentindo-a puxá-lo.

"Não faz mal!..." – declarou enquanto ele se ajeitava ao seu lado, com cuidado para não machucá-la. – "E também, fiquei separada do meu marido por muito tempo para me importar..." – aconchegou-se com um suspiro. Ficaram em silêncio enquanto, aos poucos, o sono começava tomar posse deles.

"Sakura..." – ele a chamou suavemente.

"O quê?" – perguntou quase rendida ao sono, novamente.

"Adivinha..." - sussurrou ao seu ouvido, fazendo-a sorrir.

"Eu também..." – respondeu, beijando-o de leve.

Estavam, mais uma vez, completos. Uma vez mais, em casa.

FIM!

CCS SDN CCS SDN CCS SDN CCS SDN CCS SDN CCS SDN CCS SDN CCS SDN

N/A – É isso mesmo... Hoje, dia 12 de julho de 2009, SDN, finalmente, acabou... É bem verdade que a publicação atrasou em quase uma hora... MAS estou postando a fic no dia combinado.

Honestamente fiquei muito satisfeita com o resultado. Fiz um esforço descomunal para concluí-lo dentro do prazo... nem imaginam... Mas valeu a pena. Eu acho, pelo menos... o.ò
De certa forma, uma parte de mim ainda não entendeu direito que essa fic acabou, então estou meio anestesiada, mas tenho certeza que, assim que a ficha cair (ou melhor, acabarem as unidades do cartão), devo começar a soluçar e me descabelar de saudades. Será a qualquer momento agora... XDD Eu sei que vários amigos que também escrevem costumam dizer, ao terminarem uma história, que "deram à luz". Mas eu acho que é mais como se "o filho saísse de casa para morar sozinho". Hehehe...

Encerrando SDN, eu tentei contar de maneira bastante resumida um pouco das coisas pelas quais S&S passaram a partir (e por causa) do casamento. Mesmo depois de 12 anos eles ainda continuam lutando contra várias coisas que "se colocam entre eles e a felicidade", mas, na verdade, são esses momentos acres que dão um sabor todo especial aos de alegria. Que fazem com que os personagens valorizem essa felicidade. Pelo menos é nisso que eu acredito! Perdoem-me se suas crenças não permitem concordarem com isso.

Bem,... Eu, durante essa semana, bolei algumas coisas para "divulgar" esse lançamento do capítulo final, postei no blog de sdn e na comunidade, embora quase ninguém tenha visto... fiquei até meio chateada, mas acabei colocando-as no início do capítulo, só para dar um certo suspense...
Agora eu lanço aqui um desafio: Quem conseguir adivinhar o que estava escrito nos documentos que Eriol recebeu, vai ganhar um prêmio especial (ainda não sei direito o que será, mas vai ser legal!)...

Não quero me estender muito aqui nessas notas... Qualquer coisa a mais que eu tenha para dizer estarei colocando no blog e na comunidade, então vamos para os encerramentos.

Informações especiais:

*Hatsumode: é a primeira visita do ano feita aos templos xintoístas em que são feitas oferendas em troca de bênçãos e proteção para o ano que se inicia.

*Parkour: é uma forma de arte que consiste em deslocar-se usando as construções. Quem já assistiu ao clipe da Madonna, Jump, deve ter visto os malabarismos realizados nas cenas externas. Bem, é disso que estou falando.

Música do capítulo: tradução de Platina - Sakamoto Maaya (3ª abertura de CCS).

Minha Vizinha songfic de CCS,escrito pela RubbyMoon-sama. É ótimo, eu recomendo!

LVC – referência à empresa de consultoria fundada por Kyouhei Touma, do mangá Midnight Secretary, de Tomu Oomi (censurado para menores de 18 anos).

Yuu: o nome do filho mais velho de Sakura e Shaoran é uma homenagem ao protagonista masculino de Marmalade Boy (estou apaixonada por esse personagem! XD), mangá de Wataru Yoshizumi, recentemente lançado no Brasil pela Panini.

Yumi - Significa "de belos olhos" (além disso, combina com Yuu... hehe...).

Apenas por curiosidade: O fuso-horário de Hong Kong é "-1 hora" em relação ao Japão. E o tempo médio dos vôos de HK para TK (e vice-versa) é de 4 horas.

Gostaria de agradecer aos reviewers da versão original: Pequena Dama, MeRRy-aNNe, Pety, Anaisa, Rubby, Broken Lady, Mistr3ss, killera, Rô, Kaf-chan, dani-chan, Saby Li, Cris-chan, Analu, Linny, Aninha, Mari-chan, Andréia, Lan Ayath, Kath, Tammy, Nina, Rafinha, Sakurinha, Carol, Gis, Nanami, Violet, Mary, Ying Fa, Darkk Butterfly, M.-chan, Lily-chan, Eni Chang e bruninha-chan.

E a quem comentou o capítulo anterior...

Musette Fujiwara
Aninha
RubbyMoon
CeciliaBR
MeRRyaNNe

Flor Batalha
Aninha D.H.K. Li
Naty Li
Yume no Yoru
Geovana
Maríllya
Emy
Bruna cm Yamashina
natsume

Além disso, eu tenho muito que agradecer a algumas pessoas que sempre estiveram me apoiando e incentivando, nunca me deixando desistir quando as idéias pareciam me abandonar. Obrigada por todos os puxões de orelha, cutucões e cócegas nos pés quando eu precisei. Okaa-san, Fê, Rubby, Minhoquinha, NaMaria, Cherry, Tat, Mary, Rafinha, Kath, Rô.

Vou ficando por aqui!
Mil beijinhos... vejo vocês em breve com a continuação de SDNEE
(E acharam que fossem se livrar de mim, né?)

Yoru.