Disclaimer: Declaro que todos os personagens aqui descritos não pertencem a mim e sim ao CLAMP. E que a fic, classificada como T, contém cenas de violência.


Epílogo

Escrito por: Cherry_hi

Revisado por: Yoruki Hiiragizawa

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Dois anos depois…

Era uma tarde atípica de inverno aquela que fazia em Londres. Chovera a manhã inteira, fazendo com que muitos passeios a cavalo fossem cancelados e idas às compras adiadas. Mas depois do almoço, diferente dos dias cinzentos e frios que se sucediam um após o outro, o sol aparecera entre as nuvens, esquentando e emprestando cores primaveris às ruas londrinas.

- Está um belo dia lá fora. - Comentou a condessa Sakura de Lisbury, olhando pela janela ao lado da poltrona onde estava - Por que não vai dar um passeio lá fora, Fuutie? Você ficou enfurnada aqui dentro o dia inteiro.

- Mas tarde talvez. - respondeu a mocinha, distraída, ocupada em andar de um lado para o outro na sala de estudo.

- Então ao menos pare de andar pra e lá e pra cá. Está me deixando tonta e logo haverá um furo no tapete, querida! - implicou Shiefa, com um ar divertido.

Parecendo relutante, Fuutie se sentou. Mas logo, inquieta, começou a tremer uma das pernas, depois as duas e, sem conseguir se conter, levantou-se de novo. Shiefa disfarçou uma risadinha com uma tosse e controlando-se, perguntou:

- Por que você está tão ansiosa, querida?

- Eu… não estou ansiosa. Só estou… inquieta.

Tanto Sakura quanto Shiefa soltaram risadinhas ante este comentário.

- Eu acho que as duas coisas são iguais. - comentou a jovem de olhos verdes, aparentemente voltando sua atenção ao bordado que fazia.

- Não… há diferença… oras, é tudo uma questão de semântica! - ela disfarçou o embaraço com certa arrogância.

- Mas sabe… eu notei que sua… er… inquietude começou quando anunciaram que lorde Flanagan veio fazer uma visita ao nosso irmão.

A pequena Fuutie quase engasgou, tornando-se vermelha como um tomate. Tentou encontrar algo a altura para responder, mas aparentemente não encontrou porque desconversou, ligeiramente esganiçada:

- Shiefa, o que você está fazendo aqui?! Pelo Você tem sua própria casa e seu marido já voltou de viagem!

- Você esquece que meu marido trabalha bastante e às vezes é solitário ficar em nossa casa vazia. Além disso, tenho saudades suas, querida. - Shiefa respondeu, piscando de uma maneira falsamente inocente.

- Ele não se importa de você passar tantas tardes fora?

- Não… Oliver não se importa que eu fique fora de casa. Ele até prefere assim. De qualquer maneira, hoje ele virá examinar a Sakura. Então poderemos ir para casa juntos.

- Claro… - resmungou a mocinha.

- Mas não mude assunto, Fuutie. Posso saber por que a presença de lorde Flanagan a deixa tão nervosa?

- Não é nervosa! - ela respondeu, corando outra vez - Eu estou…

- Que seja! Você está… semanticamente inquieta por causa da visita desse rapaz. - ela parou para pensar um pouco - Não é esse rapaz de quem você vive falando? O que é… como é mesmo…?

- "Extremamente esnobe, enfadonho e tolo." - falou Sakura

- Isso!

- Eu não falo isso o tempo todo! - resmungou Fuutie, na defensiva, alteando a voz sem querer.

- Só umas dez vezes por dia! - riu-se Shiefa

- Pare com isso, Shiefa!

- Tudo bem… mas eu me pergunto o que ele veio fazer aqui. Acho que nunca fomos apresentados formalmente e, pelo que eu saiba, ele não faz parte do círculo de conhecidos de Shaoran.

- Deve ser por causa do beijo no baile da semana passada. - falou Sakura, com a voz propositalmente casual, mas olhando firmemente para Fuutie para analisar suas emoções.

Esta, se possível, ficou mais rubra do que antes, enquanto em seu rosto lutavam as expressões de assombro e embaraço com a mesma força para dominá-lo, deixando-se cair na cadeira.

- Co… co… como…?!

- Nós vimos tudo.

- NÓS?! Quem é "nós"?!

- Eu e Shaoran, ora mais quem!

- Mas… mas..

- Beijo, Fuutie?! - exclamou Shiefa, admirada - o Senhor Esnobe, Enfadonho e Tolo e você se beijaram? Como foi isso?

- Bem, eles estavam na estufa. Fuutie havia sumido do salão e Shaoran ficou preocupado, você sabe como ele é. Resolvemos ir procurá-la e vimos tudo pelas paredes de vidro. Shaoran queria partir para cima dele e matá-lo, mas eu o convenci a não agir precipitadamente.

- O convenceu? Como?

- Posso ter dito algo como o bebê nascer antes do tempo se eu tivesse emoções muito fortes. - Sakura respondeu, rindo.

- Meu Deus… Shaoran viu tudo… - agonizava Fuutie, finalmente sentada em uma cadeira, parecendo profundamente consternada - É por isso que de vez em quando eu o vejo olhar para mim com uma expressão meio esquisita?

- Bom… eu pedi que ele não falasse nada ou demonstrasse qualquer emoção, mas você é a irmãzinha caçula dele e ele está com dificuldades de assumir que você cresceu.

- Você acha que foi o Shaoran quem o chamou para um acerto de contas? - perguntou Shiefa, tentando manter-se séria.

Fuutie se levantou de supetão.

- Eu vou MATÁ-LO se ele fez isso!

- Acalma-se, Fuutie. Shiefa só está brincando com você. Além disso, achei que ele fosse só um esnobe…

- Pare você também, Sakura! Vocês adoram me tirar do sério! - ela reclamou, voltando a andar pra lá e pra cá - Ah, essa ansiedade está me matando. Preciso comer alguma coisa!

- Agora virou ansiedade? Não era inquietude? - provocou Sakura, voltando a prestar atenção no seu bordado.

- E a mamãe disse que era para você comer só nos horários de refeição. - completou Shiefa

- O que os olhos não vêem, coração não sente!

- Então não reclame depois quando seus vestidos ficarem muito apertados.

Fuutie não pareceu ouvir. Já ia puxar a sineta quando a porta se abriu e Wei apareceu.

- A Marquesa de Cloverfield e o jovem amo Theodore.

Precedidos por ele, Tomoyo apareceu à porta, sorrindo de mãos dadas com um bebezinho que andava ainda com passos meio incertos. Este ao olhar para Fuutie, largou a mão da mãe e correu até a moça.

- Futi! Futi! Futi!

- Theodore! Meu sobrinho postiço lindo! - ela se abaixou para pegá-lo e o envolveu num forte abraço - Meu Deus! Como você está grande! Cresceu tanto desde a semana passada! E deixe-me ver se está cheiroso…

Ela fez cosquinhas com o rosto na barriguinha do menino, que ria e gritava:

- Futi! Futi! Futiiii!

- Fuutie? - ela repetiu, olhando meio mortificada para Tomoyo - Porque vocês não ensinam Sharisse? Theo, eu sou a tia Sharisse…

- Futi! Futiiiii! - ele repetia, feliz

- Perdoe-me, querida, mas Fuutie é muito mais fácil. - desculpou-se Tomoyo, entregando suas luvas e o chapéu para Wei.

- Wei, poderia providenciar um chá para nós? - pediu Sakura ao mordomo

- Como quiser, milady.

- E capriche na bandeja de bolinhos, Wei.

- Fuutie!

O mordomo se foi, enquanto Tomoyo cumprimentava a as três moças.

- Não se levante, Sakura. Nesse estágio da gravidez qualquer movimento é um verdadeiro suplício.

- Não posso negar que agora é muito melhor ficar sentada que em pé. - ela suspirou - Mas ainda assim gosto de movimento. E tenho certeza que hoje Oliver irá me proibir de ir a bailes e eventos sociais. Terei que ficar enfurnada dentro de casa até o fim da gravidez.

- Você acabou de completar oito meses, Sakura. Logo Theodore terá um companheiro para brincar e você estará livre. - Tomoyo falou, sentando-se ao lado da amiga.

- E o Eriol? Ele veio com você?

- Ele virá mais tarde, pois foi ao banco. Está pagando as últimas partes do empréstimo. Estimamos que conseguiremos ficar quites com o banco seis meses antes do que esperávamos. - a moça contou, orgulhosa.

- Então nem preciso perguntar como estão as fazendas de vocês. - falou Shiefa

- Estamos de vento em popa. E o Eriol está determinado a comprar mais algumas terras para podermos plantar vinhas. Ele deseja começar a produzir vinho. Sei que nunca vamos poder concorrer com os vinhos franceses, mas ele está determinado a produzir o melhor espumante do país.

- Ele é bem ambicioso, mas sempre faz as coisas com tanta determinação que acho difícil que ele não tenha sucesso. - replicou Fuutie, distraidamente, embora parecesse ter qualquer coisa em seu rosto que parecesse uma pequena melancolia

- Fuutie. Eu também quero brincar com Theodore! Largue de ser egoísta e me empresta ele!

- Malvada! - ela replicou, mas passou o menino para a irmã. Ele imediatamente a abraçou, dizendo:

- Ani! Ani! Ani!

- Ah, o nome inglês dela ele aprende! - reclamou Fuutie, inconformada.

- Anne é mais fácil que Shiefa, Fuutie. - defendeu-se Tomoyo, rindo.

Antes que Fuutie pudesse retrucar, a porta novamente se abriu e Wei apareceu empurrando um carrinho que exalava um aroma delicioso de bolinhos, sanduíches e chá de hortelã. Assim que o mordomo saiu, a mocinha correu para o carrinho e pegou dois bolinhos.

- Fuutie, olhe os modos! Mamãe ficaria extremamente aborrecida…

- Mamãe não está aqui para me censurar! A dona da casa é a Sakura e ela não está falando nada! - cortou Fuutie, aborrecida, pegando mais um sanduíche e indo para um canto, amuada.

- A condessa ainda está na Escócia? - perguntou Tomoyo, servindo chá para todos

- Sim. Só voltará no mês que vem, juntamente com Fenmei, o marido e as crianças, para passarem uma temporada conosco.

- Mamãe! Mamãe! - reclamou Theodore, tentando se desvencilhar de Shiefa - Qué sandiche! Sandiche!

- Tudo bem, mas só um, certo? - ela falou, entregando um sanduíche de pepino para o filho e uma xícara de chá para Shiefa.

A porta se abriu mais uma vez e Wei apareceu novamente.

- O conde solicita a presença de Miss Lisbury na biblioteca.

Fuutie empalideceu, mas ao mesmo tempo enrubesceu. Parecia um suco de groselha mal misturado. E ficou paralisada em sua cadeira, com um bolinho na boca. Sakura suspirou e se levantou com esforço da poltrona.

- Eu a levarei até lá, Wei. Pode deixar.

Sakura foi até a mocinha e a ajudou a se levantar. Ela parecia ansiosa e temerosa ao mesmo tempo. Ela lhe sorriu, encorajando.

- Tomoyo, espero que você não se importe de me esperar com Shiefa. Daqui a pouco estou de volta.

- Claro que não.

As duas caminharam pelo corredor. Embora fossem devagar por causa de Sakura, Fuutie parecia se arrastar pelo corredor, mordendo os lábios e mexendo as mãos, inquieta.

- Não precisa ficar nervosa, Fuutie.

- Sinceramente, eu não sei o que ele veio fazer aqui.

- Não sabe? Tem certeza?

O rubor subiu novamente pelo rosto da mocinha.

- Quando ele me… beijou… achei que estava… fazendo algum tipo… de brincadeira de mau gosto. Ele vive me provocando, me tirando do sério… quando ele me beijou eu queria me livrar, queria gritar, dar um tapa na cara dele…

- Não foi assim que aconteceu, pelo o que eu me lembro. - falou Sakura, sorrindo.

- Eu… eu… congelei. Fiquei… paralisada. Queria dizer que era errado, que ele não podia… mas eu fiquei sem reação… chocada, surpresa…

- Você gostou?

Ela engoliu em seco e não respondeu.

- Isso é um sim.

- …

- Então qual é o problema?

Fuutie parou, no meio do corredor.

- Eu… não me sinto assim desde…

Ela não completou a frase, mas Sakura sabia do que ela se referia.

- Achei… que não ia me sentir assim outra vez… e tenho medo de passar de novo o que passei antes. Eu achava que não gostava tanto dele assim… até perceber que ele gostava da Tomoyo. E quando Harry… Lorde Flanagan me beijou… percebi que a implicância era porque… eu gostava dele.

- Entendo… e o que você quer fazer?

- Eu não sei.

Sakura ficou parada algum tempo, hesitante, mas por fim respirou fundo e perguntou:

- Você se lembra quando eu e Shaoran nos casamos?

- Quando vocês fugiram e deixaram toda família louca de preocupação? Lembro sim. - havia um restinho de ressentimento ali, que diminuíra com o tempo, mas que ainda resistia e que Sakura não sabia se um dia iria de fato deixar de existir. E Fuutie tinha todo o direito de senti-lo.

- Isso mesmo… bem, eu estava bem reticente em me casar… eu… havia causado muitos problemas e tinha uma mágoa tão grande quanto a sua… mas quando o momento chegou, eu me arrisquei… e agora estou casada e esperando um filho do homem que eu amo.

- O que você quer dizer? - Fuutie perguntou, de olhos arregalados.

- Estou dizendo apenas que você deve abrir seu coração e confiar. Nós não sabemos o que vai acontecer, mas se algo bom surgir, agarre a oportunidade.

Fuutie pareceu ainda um pouco impressionada e confusa, mas Sakura a empurrou delicadamente, encorajando-a a prosseguir. Um corredor depois, elas pararam em frente à biblioteca, onde Shaoran geralmente recebia seus convidados. Sakura olhou significantemente para Fuutie que, mesmo pálida, parecia resoluta. Ela abriu a porta.

- Querido, eu vim trazer a Fuutie.

Shaoran levantou-se imediatamente da poltrona onde estivera sentado e aproximou-se sorrindo para a mulher.

- Por isso demoraram tanto? Estavam fofocando no corredor?

- Que indelicado de sua parte, Shaoran. Você sabe que eu preciso andar devagar por causa do bebê.

Shaoran lançou um olhar apaixonado para Sakura, que retribuiu o olhar com a mesma intensidade. Mas, esforçando-se, desviou o olhar e sorriu para o rapaz que também se levantara e olhava para eles, em especial para a caçula da família Lisbury.

- Creio que não fomos apresentados formalmente ainda.

- Agora sou eu quem está sendo indelicado. Sakura, este é lorde Flanagan. Flanagan, esta é minha esposa, condessa Sakura de Lisbury.

O jovem se aproximou para beijar educadamente a mão de Sakura, que aproveitou para examiná-lo melhor. Tão alto como Shaoran, porém mais esguio, de cabelos loiros ligeiramente compridos e lisos. O rosto fino era pálido, com grandes olhos cinzentos plácido, embora não de uma maneira fria. Em seus lábios talvez houvesse um ar matreiro, que corroborava com a personalidade brincalhona que Fuutie descrevera, mas era quase imperceptível.

- Encantado, milady. - rapaz falou, seguro de si.

- Também me sinto encantada de conhecê-lo.

- Então, Fuutie… - Shaoran chamou atenção de todos, de repente parecendo ligeiramente aborrecido - Você deve ter ideia do porquê este jovem estar aqui e do porquê eu a chamei.

Fuutie parecia outra vez não saber se empalidecia ou enrubescia, segurando firmemente suas mãos para impedir que elas tremessem.

- Dados os… hum… acontecimentos na estufa naquele baile semana passada… é bem óbvio.

- Espera… foi você que chamou Harry… lorde Flanagan aqui?! - perguntou Fuutie, irritada… e decepcionada. sem dar tempo para o irmão responder, continuou - Eu não acredito que você fez isso! Por que você tem que forçar as coisas?

- Fuutie… - suspirou o conde, parecendo cansado.

- Foi só um beijo. Não aconteceu nada demais!

- Fuutie…!

- Por que você leva tanto as coisas a sério? Aliás, você nem deveria se intrometer na minha vida… tenho quase vinte anos já…

- Sharisse! - desta vez foi lorde Flanagan que a interrompeu, tranquilamente. - Fui eu quem tomou a iniciativa de vir até aqui.

E a mocinha finalmente se calou.

- Vim aqui pedir sua mão em casamento.

Fuutie olhou-o. Primeiro com uma descrença de quem não acredita no que ouve. Depois seu rosto foi se transformando, adquirindo uma expressão de encantamento, felicidade, enlevo… e depois de vários segundos no mais completo silêncio, ela perguntou, quase sem voz:

- Você está… falando… sério?

- Sim… mas, pelo visto… você não levou a sério o nosso beijo.

- O que… não! É que… você… você… sempre me provoca! Me tira do sério! O que você queria que eu pensasse?!

- Admito que não fui muito agradável com você… mas era porque eu achei você… encantadora desde o primeiro baile em que a vi. Sempre sorrindo, sempre alegre… mesmo quando… você passou um tempo longe dos eventos sociais, eu… pensava em você…

- Quer dizer que… você gostava de mim… esse tempo inteiro? - ela perguntou, inconscientemente se aproximando. Shaoran quis interferir, mas Sakura, adivinhando suas intenções, segurou a mão do marido bem firme.

- Sim… mas eu sou… bastante reservado… não tínhamos muitas relações em comum… e quando fomos apresentados… a primeira coisa que me veio a cabeça foi fazer uma brincadeira que, admito, foi sem graça. Me achei o pior dos homens e lembro muito bem da sua cara de desgosto. Achei que estava tudo perdido, mas se podia me aproximar de você assim, provocando, então assim fiz…

Fuutie não dizia nada. Não conseguia, mas nem precisava. Seu olhar já dizia tudo. Ele se aproximou e pegou as mãos trêmulas dela e ela o percebeu levemente trêmulo também.

- Na noite em que nos beijamos, eu percebi que eu te amava e tive… esperanças que… mesmo através de meu comportamento horrível, você talvez gostasse de mim… e também eu vi o seu irmão e a condessa. E achei, acertadamente, que ele havia visto tudo.

Ele respirou fundo, e continuou:

- Demorou uma semana para que eu reunisse coragem suficiente para pedir a sua mão, mas aqui estou eu…

- Eu já consenti, Fuutie. Mas a resposta final é sua. - falou Shaoran, mal-humorado.

Ela apenas o olhava, talvez pensando que tudo aquilo era apenas um sonho. Mas, repentinamente, ela se atirou nos braços do rapaz, quase o desequilibrando, numa explosão de lágrimas e risos.

- Sim! Eu digo sim! Eu quero me casar com você! - ela bradava, entre risos histéricos.

Lorde Flanagan pareceu se desmanchar, como se um peso fosse tirado de seus ombros e a abraçou também, abrindo um sorriso que transformava seu rosto calmo e o deixava ainda mais jovem. Shaoran suspirou, parecendo ainda mal-humorado, mas Sakura conhecia bem demais o marido e sabia que ele estava suprimindo um sorriso. Ela própria secava as lágrimas de alegria.

- Bem… está tudo decidido! - Shaoran se soltou de Sakura e foi até os dois, separando-os um pouco - anunciaremos o noivado imediatamente.

- Eu também gostaria muito de me casar o mais breve possível, milorde. - falou lorde Flanagan, sem soltar a mão de Fuutie, que tentava se controlar e secar as lágrimas com as costas da mão. Sakura lhe deu um lencinho, que ela aceitou de bom grado.

- Claro… Sakura vai ter o nosso bebê em breve e, logo em seguida, o casamento poderá se realizar. Será bom porque poderemos aproveitar que toda a família vai estar reunida.

- Toda?! - repetiu Fuutie, surpresa.

- Eu pretendia anunciar isto hoje à noite, no jantar, mas visto esses acontecimentos… recebi uma carta de Daniel e Fanrei. Eles estarão regressando à Inglaterra em breve e também passarão uma temporada conosco.

Tanto Fuutie quanto Sakura deram gritos de alegria e a moça correu para abraçar o irmão, como se ele fosse o responsável por aquela notícia.

- Eu… estou tão… feliz… como… há tempos… eu não sentia… - ela balbuciou.

- E você merece cada momento de felicidade, Fuutie. - disse o rapaz, abraçando-a de volta.

Eles se separaram e Fuutie voltou para perto do noivo, que lhe sorriu e pegou sua mão.

- Eu vou providenciar um anel de noivado digno de seu encanto, meu bem.

- Eu… nem tinha pensado nisso… nossa… na verdade… tem tanta coisa pra fazer… o enxoval, a festa… - ela parou um pouco e disse, hesitante - Talvez… eu deva começar um regime… para ficar bonita para o casamento… e para você.

O rapaz ficou sério repentinamente.

- Não.

- O quê…?

- Você não precisa fazer regime, se o caso for só para me agradar. Eu me apaixonei por você do jeito que você é e não quero que você mude em nada. Só se você sentir que quer por si mesma.

Shaoran e Sakura se entreolharam, sorrindo.

- Essa é a coisa mais linda que já me disseram. - ela falou, a ponto de chorar outra vez, olhando-o com carinho.

- Eu sei como você fica feliz comendo e quero que você seja feliz, mais do que tudo… Fuutie.

- Fuutie?! Até você vai me chamar de Fuutie?!

- Eu acho lindo… e combina com você.

Ela tentou se fingir de zangada, mas ela não resistiu e sorriu.

- Eu gosto tanto de você, Harry… eu… eu te amo…

Eles se abraçaram, parecendo ter esquecido da presença dos dois. Shaoran fechou novamente o semblante e ia outra vez interferir, mas Sakura, determinada, pegou a mão do marido e arrastou-o para fora da biblioteca.

- Sakura!

- Por favor, Shaoran. Os dois precisam ficar a sós!

- Mas eles vão se beijar! - ele falou, como se aquela fosse coisa mais desagradável do mundo.

- E quando eles se casarem, eles vão fazer amor. Ou você vai querer estar na lua-de-mel dos dois?

A cara de desagrado que ele fazia era resposta suficiente e Sakura rolou os olhos, rebocando o marido pela mão com firmeza até o escritório particular do conde. Ali a fez sentar no pequeno sofazinho, sentando-se ao seu lado.

- É só que… ela é a minha irmãzinha. Eu a vi nascer, a vi crescer… mas não queria que ela crescesse tanto… agora ela vai embora.

- Ela vai seguir a vida dela. Como todas as suas outras irmãs seguiram e você segue.

- Eu sei… mas eu não deixo de me sentir como um pai zeloso.

- Ai ai… estou com pena de nosso filho agora. Se for uma menina, vai sofrer com esse papai ciumento!

- Se ela for uma menina e for parecida com você, ela vai me dar muito trabalho. Vou ter que afugentar os inúmeros pretendentes que vão bater na nossa porta todos os dias. - o rapaz falou, rabugento. Sakura riu com vontade.

- Eu não sou tão bonita assim. Você diz isso porque é meu marido.

- Não vamos começar essa discussão outra vez. Sakura, você é linda e o nosso bebê, seja menino ou menina, vai ser tão lindo, doce, compreensivo e maravilhoso quanto você é.

Ela sorriu e encostou-se a ele, que a abraçou carinhosamente. Ela passou a mão carinhosamente na barriga, onde seu maior tesouro estava bem guardado.

- Sabe… eu estou muito feliz pela Fuutie. Finalmente ela encontrou a felicidade.

- Bem… sou obrigado a concordar… - ele falou, rabugento outra vez - Aquele rapaz foi muito franco comigo. Apesar de meus esforços para detestá-lo, simpatizei com ele.

- Shaoran, francamente! - ela riu. Depois de algum tempo, perguntou - Sabe o que eu sinto?

- Hum…?

- Como se o circulo estivesse completo.

- O que você quer dizer com isso?

- Sobre aquele dom que a… Madoushi Branca lhe deu. Ela disse que toda a sua família seria feliz para sempre, não é? Bem… quando voltamos, Shiefa aceitou se casar com Oliver. Aquele odioso homem que ameaçava Fenmei e sua família foi morto. Daniel se recuperou da doença e Fanrei teve um bebê saudável. Sua mãe pareceu finalmente despertar para a vida. Fuutie… bem, ela se recuperou do coração partido, aceitou o casamento do Eriol com Tomoyo, mas ainda lhe faltava algo… e agora finalmente parece que vai começar um período de eterna primavera na sua vida. O círculo se fechou.

Ele sorriu.

- Tem razão. Por mais que eu relute em dizer isso, o casamento de Fuutie é a peça final do quebra-cabeça. E se ela for tão feliz como todos nós somos, tudo estará perfeito.

Ficaram algum tempo em silêncio.

- Shaoran… você é feliz comigo?

A pergunta o pegou de surpresa. Ele a encarou, encontrando seu rosto sério e ligeiramente inseguro.

- Por que você pergunta isso?

- Muitas pessoas torcem o nariz para mim, por conta do meu… comportamento no passado. E sei que falam de mim pelas costas… e isso o atinge também… além disso, cometo muitos erros…

- Pare! - ele colocou um dedo sobre a boca dela - Você acha que eu me importo com o que os outros pensam ou deixam de pensar de mim? Isso nunca foi relevante antes e agora… eu quero que o mundo se exploda!

- Mas…

Ele a calou com um beijo. Ela sentiu a preocupação que sentia dar lugar a paixão e o amor que explodiam em seu peito, varrendo as incertezas e as inseguranças para longe.

- Eu te amo. E sei que você me ama. É o suficiente para mim. A cada dia que passa, é mais um dia cheio de alegria e felicidade, porque estamos juntos…

- Eu tenho tanta sorte por ter você… – ela falou, derretendo-se por ele

- Olha… eu sei que o que você passou nesses quinhentos anos foi um martírio sem fim… mas possibilitou que nós nos encontrássemos. Não estou dizendo que valeu a pena todo o sofrimento que você passou, mas…

- Valeu sim. - ela o cortou, suavemente - Todos os dias meu coração é embalado pelo seu amor e cura todas as minhas feridas. O carinho, a sua dedicação é tudo no mundo que eu tenho… mas é tudo que me vale a pena.

- Se você tinha dúvidas se me faz feliz, saiba que agora você me fez mais feliz ainda!

Ela sorriu, demonstrando tudo o que sentia no olhar.

- Bem… eu vou voltar para a biblioteca agora.

- Shaoran! Deixa sua irmã ficar mais uns minutinhos a sós. Eles devem estar fazendo o mesmo que nós.

- Eu sei… por isso mesmo que eu tenho que ir. Preciso exercer minhas funções de irmão mais velho!

- Shaoran…!

- Mas eu vou convidá-lo para o jantar. Está satisfeita, condessa?

- Sim, senhor conde! - ela respondeu, soltando uma risada gostosa.

Ele bem que tentava se fingir de sério, mas o sorriso de felicidade teimava-lhe em escapar pelos seus lábios. Ele a deixou sozinha, rindo consigo mesma. E ela não conseguia parar de rir, um riso de pura euforia...

Ela não podia desejar nada mais da vida.

Fim


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É... acabou.

Depois de seis anos, finalmente coloquei um ponto final em Sem Coração. Sabe aquele vazio que você sente depois de terminar de ler uma série de livros muita boa? Eu meio que estou me sentindo assim. Ou talvez como uma mãe se sinta quando seu filho sai de casa para fazer faculdade. Mas, apesar desse sentimento de pesar, eu também estou muito satisfeita e orgulhosa e de mim.

Nem de longe esse projeto foi tão longo como UAE, mas, em alguns momentos, foi bem mais difícil continuar. Até porque foi num momento em que eu tive que encarar talvez a etapa mais difícil da minha vida. Minha mãe morreu um pouco depois de eu começar a escrever a fic e então fiquei perdida. Sofri demais a perda dela e por outras coisas que aconteceram subsequentemente. Embora as vezes sentar de frente ao computador e escrever até dar câimbra nos dedos fosse uma espécie de anestésico para a dor, também houve muitos momentos em que, por mais que eu forçasse, não vinha nada na cabeça e os bloqueios me deixassem louca.

E muitas coisas aconteceram ao longo do caminho... terminar faculdade, Pós graduação, me mudar para São Paulo... grandes momentos da minha vida foram escritos juntos com essa fic. Por isso ela é tão especial.

Eu gostaria de fazer muitos agradecimentos. Em primeiro lugar, a minha revisora e amiga Youruki Hiiragizawa, que ficava comigo até tarde da noite pendurada no telefone discutindo soluções para os meus bloqueios, por ter revisado a fic inteira e por ser minha amiga por tantos anos. Andamos meio distantes ultimamente porque a vida acaba seguindo caminhos diferentes, mas você sempre está no meu coração. :)

Quero agradecer a minha irmã, Mimica-chan, por também ter me dado uma forcinha ao longo desses anos. Eu imprimi a fic (são mais de 400 páginas) que ela leu quando veio me visitar e acabou me dando dicas e me fazendo repensar em algumas coisas. Valeu, Minhoquinha.

E, é claro, a todos os meus leitores que me acompanharam nessa longa jornada. Foram muitos reviews de incentivo, ameaças (hehehe) e críticas. Não há nada que me deixe mais feliz que olhar na minha caixa de entrada do email um review alert (quero dizer... eu fico ainda mais feliz quando vejo que é uma review longa e cheia de elogios, :P). Vocês não tem ideia de como o feedback é importante para mim. E, de todos os leitores, citarei duas em especial: Ana Pri-chan e MeRRy-aNNe... porque, além de me encherem o saco pelo , elas também pegaram no meu pé em outras mídias e acabaram se tornando amigas minhas fora do . Obrigada, meninas. Eu espero que as ameaças e choradeiras tenha valido a pena.

E concluo me perguntando: e agora?

Bom... não tenho nenhum projeto de fic em mente. No momento, estou atuando em duas história próprias, além de tentar escrever o meu TCC do MBA. Eu tenho alguns contos bem pequenos que talvez eu publique como one shot, mas isso vai ser daqui a algum tempo. O importante é que eu não vou ficar parada, que estou em constante produção... e espero que voês torçam por mim. :)

Enfim, muito obrigada por tudo. Tudo o que escrevi não seria nada se não fossem meus leitores. E espero que um dia vocês leiam uma outra publicação minha, quem sabe comprada numa livraria. ;)

Beijos e até mais,

Cherry_hi