Os diretores voaram para Nápoles para informar James sobre osdetalhes da Venstar, a sua mais recente aquisição.

A tensão era grande; não havia um só executivo da Venstar ali que não temesse perder o emprego. A im piedade que marcava o brilhantismo de James Potter era uma lenda viva no mundo dos negócios.

— Isso deve ajudar o senhor a se familiarizar com os nossos principais funcionários — disse um dos di retores, com uma risada nervosa, ao lhe passar uma cópia do boletim da empresa, ilustrado com uma fo tografia do staff principal.

James Potter examinou a página principal com olhos penetrantes e enigmáticos. Havia somente uma mulher na foto, e ela foi a primeira a lhe chamar a atenção. Era muito alta, e a postura torta e inibida destacava toda a deselegância de uma girafa-bebê magricela lutando para esconder os membros dema siados longos. Uma armação de óculos pesada enco bria o seu rosto fino e sério. Mas o que marcou mes mo James foi o visível desleixo da mulher. Cachos desordenados indicavam que o cabelo dela necessita va urgentemente de uma boa escova. Franzindo a tes ta, ele notou que faltava um botão no tailleur desali nhado, e uma das bainhas da calça mal cortada se desfazia. Quase tremeu. Epítome da elegância cool, ele era pouco tolerante com aqueles que ofendiam o seu padrão.

— Quem é essa mulher? — inquiriu.

— Mulher?

James teve que apontá-la na foto para que os su bordinados entendessem de quem ele estava falando.

— Ah, você quer dizer... Lily! — finalmente ex clamou um executivo da Venstar, — Lily é a nossa gerente financeira assistente...

— Você não costuma pensar nela como uma mu lher... O cérebro dela é uma calculadora. Uma geniazinha que não pensa em nada que não seja trabalho — proclamou um diretor, com apreço. — Ela é absolu tamente dedicada. Não tira férias há três anos...

— Isso não é saudável — cortou James, em desa provação. — Empregados estressados e cansados não trabalham bem e cometem erros. A senhorita precisa de umas férias, e de uma orientação do Recursos Hu manos para melhorar a sua aparência desleixada.

Queixos caíram. Ficou um silêncio constrangedor. Desleixada? Lily era desleixada? Ninguém havia observado Lily tempo suficiente para notar. A todos só importava o fato de ela ser um prodígio economi co.

Ainda espiando a foto para avaliar o grau de cuida do pessoal exibido pelo contingente masculino, An dreo achou motivos para continuar a repreensão.

— Eu não quero ver jeans no escritório. Boa apa rência requer disciplina e impressiona, sim. Este aqui poderia cortar o cabelo e arrumar uma camisa nova.- Ele apontou o infrator com um tom impaciente. — Apresentar-se bem não é algo supérfluo.

Quase todos os homens na sala decidiram fazer regime, cortar o cabelo e comprar um terno novo. Afinal de contas, James, com todo o seu 1,90 metros, dava o exemplo. Forte, seguro, um homem magnífi co, num terno Armani lindo, James impressionava o bastante para inspirar um jovem a imitá-lo. Peter Pettigrew, no entanto, vaidoso demais para acreditar que precisasse de um regime ou de um corte nos ca belos louros, escondeu um sorriso de satisfação. Aca bava de descobrir um jeito de promover a sua amante no lugar de Lily, sem atrair muitas críticas.

— O departamento de Recursos Humanos também precisa estabelecer novas metas. Quero ver uma me lhora muito rápida no péssimo retrospecto da Venstar em promover mulheres para cargos de chefia — con cluiu James.

Quando Peter Pettigrew, o seu superior imedia to, a chamou até o escritório dele e lhe deu a má notí cia, Lily foi traída pelo espanto:

— Marlene...Marlene vai ser a nova gerente financei ra?

Peter, casualmente, acenou que sim com a cabe ça, como se não houvesse nada demais naquilo.

Marlene McKinnon? A morena de riso frouxo, sua atual assessora, iria se tonar a sua nova chefe! Aquela bomba deixou Lily chocada. Afinal, ela vinha sen do a gerente financeira em exercício por quase três meses e esperava muito ser efetivada na função.

— Achei que deveria informar você antes do Re cursos Humanos comunicar oficialmente — comple tou Peter, num tom de quem quebrara as regras para fazer a Lily um favor.

— Mas Marlene não tem quase nenhuma qualifica ção e só trabalha há poucos meses na seção...

— Sangue novo é o que mantém a empresa afiada. — Peter franziu a testa em reprovação, e ela corou.

Jovem, esguia, de olhos verdes e cabelo ruivo ca cheado, Lily voltou à sua mesa de trabalho. Ela poderia engolir ser preterida por um candidato superior, disse a si mesma. E se não estivesse sendo uma boa perdedora? Insegura, sofrendo pela possibilidade de, como sempre, estar exigindo muito de si, Lily decidiu reconhecer que Marlene McKinnon deveria ter talentos que ela não fora capaz de perceber.

O burburinho dos colegas lhe lembrou da festa de boas-vindas a James Potter à noite, e ela conte ve um suspiro de desânimo. Nunca gostou de festas e apreciava menos ainda eventos sociais relacionados ao trabalho. No entanto, agora que havia sido descar tada para o cargo que ingenuamente presumira já ser seu, melhor comparecer à celebração para que os ou tros não pensassem que ela sentia algum ressenti mento.

Marlene estava prestes a se tornar a sua chefe. Meu Deus do céu, será que ela havia feito uma besteira tão grande a ponto de destruir uma chance certa de pro moção? Nesse caso, por que ninguém chamou sua atenção? Marlene iria se tornar sua chefe, Marlena, a relapsa, com quem Lily tivera que ser bastante dura algumas vezes devido aos longos intervalos para almoço?

Lily se afundou mais e mais no seu estado de choque, vulnerável e sensível, como tinha sido do jardim de infância até a universidade. Fracassos, por menor que fossem, acarretavam uma agonia de culpa e introspecção.

— Ele poderia ser menos avesso à imprensa, e as sim a gente acharia uma boa foto dele — sussurrou Amelia, uma das assistentes, num suspiro que fez Lily trincar os dentes. — Mas nós vamos ver se ele é tudo isso mesmo que se diz, hoje à noite...

A colega de Amelia deu uma risadinha.

— Parece que ele comprou um par de algemas de diamantes para a última namorada...

Lily não precisava nem perguntar quem era o foco do debate, pois a fama de James Potter de playboy internacional, um mulherengo prodígio nos negócios, estava muito bem documentada para uma pessoa que fazia de tudo para não ser fotografado. Os lábios grossos e delicados dela se torceram de repug nância. Presenteá-la com algemas de diamantes seria o mesmo do que saltar de um avião sem pára-quedas. Mas qual seria o homem que lhe ofereceria um brin quedo sexual qualquer? Bem, felizmente ela não era o tipo de mulher que inspirasse esse tratamento per vertido!

— Eu aposto que ele é um gato. — Amelia tinha no rosto bonito uma expressão de quem estava nas nu vens. — Mercadoria de primeira...

— Eu aposto que ele é baixinho e um pouco gordo como o falecido pai — intrometeu-se Lily, com iro nia deliberada. — A razão pela qual James Potter não gosta de publicidade é porque ele prefere os rumores a verdade.

— Talvez o coitado só não aguente mais ser perse guido pelos seus milhões — rebateu Amelia.

— Talvez ele nem perseguido seria sem os milhões — debochou Lily.

No meio da manhã, ela foi chamada para uma reu nião no Recursos Humanos. Informada pela segunda vez de que não se tornaria gerente financeira, se sen tiu agradecida, mas ainda um pouco surpresa, por Peter Pettigrew ter sido prestativo o bastante para preveni-la sobre a decepção. Quando perguntou se havia alguma reclamação sobre o trabalho dela, o diretor foi rápido em dizer:

— Você está com créditos, haja vista o que passou nos últimos meses.

Percebendo a referência implícita à morte do pai, Lily ficou branca.

— Tive foi sorte por ter o trabalho para me manter ocupada.

— Você sabia que não tira férias há anos? Ela franziu o rosto.

— Sei...

— Pediram para assegurar que você tire pelo me nos três semanas de férias a partir do fim deste mês...

— Três semanas... deferias? — balbuciou Lily, consternada.

— Também fui autorizado a lhe oferecer de seis meses a um ano de licença para algum curso que você queira fazer.

— Curso... O senhor está falando sério? — inda gou Lily, ainda mais desconcertada.

— Você fica muito tempo no escritório.

— Mas eu gosto de trabalhar...

— Tenho certeza de que você vai se livrar do es tresse e desfrutar das suas férias, daqui a duas sema nas...

Estresse? Ela estava estressando os seus colegas? Nervosa? Será que não contava com o jogo de cintura que um chefe precisa ter? Devia haver uma razão para ela não ter sido escolhida... Tinha que haver! Não lhe foi dada a escolha de tirar férias ou não, e isso a chateava. Por que agora, e não antes? Haveria a preocupação de que ela não pudesse se adaptar à nova estrutura do departamento financeiro?

Profundamente confusa pela total perda de con fiança nas próprias habilidades, Lily trabalhou du rante o seu horário de almoço e, quando, mais ou me nos às três da tarde, olhou em volta e viu todas as mesas vazias, franziu o rosto, surpresa.

— Cadê todo mundo? — perguntou a Peter Pettigrew, ao avistá-lo na porta do escritório.

— Foram se aprontar para a festa. Você deveria ir para casa também.

Levantando-se de sua cadeira, Lily apanhou a bolsa. Chegando ao térreo, se deu conta de que cho via e, na pressa, esquecera o casaco lá em cima.

Impaciente demais para esperar pelo elevador no vamente, optou pelas escadas. O andar do financeiro estava silencioso, e ela tomou a direção do pequeno armário onde pendurara o casaco, quando ouviu a voz de Peter Pettigrew vinda da sala dele.

— Lá em Nápoles, James Potter deixou mui to claro que gosta de mulheres sensuais e atraentes em volta dele — argumentava Peter, num tom de fensivo. — Ele olhou horrizado a nossa Lily Mocreia na foto do boletim e deixou claro que ela não tem o perfil para um cargo executivo. Marlene é menos qua lificada, eu sei, mas ela é muito mais apresentável...

Lily congelou. Lily... Lily Mocreia?

— Lily Evans é uma excelente funcionária — rebateu friamente uma voz que ela reconheceu como sendo de um dos diretores mais antigos, Albus Dumbledore.

— Ela tem o seu valor nos bastidores, mas nem mesmo a sua melhor amiga a chamaria de atraente ou cativante. Ela tem a personalidade de um lençol mo lhado — defendeu Peter, com uma crueldade que doeu nos ossos de Lily.

— Para ser franco, acho que a gente vai estar se colocando em risco, se igno rarmos as preferências sexuais de Potter e se, no primeiro dia dele aqui, o colocarmos frente a frente com Lily Mocreia!

Arrasada com o que acabava de escutar, mas ater rorizada com a possibilidade de ser descoberta ou vindo atrás da porta, Lily fugiu sem o seu casaco. Descobrira por que Marlene, e não ela, seria promovi da a gerente financeira da Venstar. Lily Mocreia? Enojada, Lily se manteve firme. Peter Pettigrew havia sido claro: ao contrário de Lily, Marlene era extremamente atraente e popular junto aos homens. As curvas da morena, e não a competência, influen ciaram na decisão.

Um embrulho frio de humilhação no estômago, Lily engoliu em seco e conteve as lágrimas. A Venstar merecia ser processada por tratá-la daquele jeito. Imaginou-se num tribunal, forçada a relatar os comentários depreciativos de Paeter, e comprimiu os lábios de ojeriza. Não, de maneira nenhuma proces saria a empresa e se tornaria alvo da piedade geral.

Nem a sua melhor amiga a chamaria de atraente... Lily Mocreia? Era verdade? Sem dúvida, Peter nun ca acreditaria que quando ela tinha 15 anos uma agência de modelos lhe oferecera um contrato vanta joso. O pai havia se revoltado com a mera sugestão de que a filha pudesse seguir uma carreira que ela encarava como vil. Pelos oito anos que se seguiram, Lily desfrutara secretamente da lembrança daquele dia único de rebeldia contra as ordens estritas do pai. Fora à agência escondida e deixou que eles a ma quiassem e arrumassem o seu cabelo. Assistira fasci nada aos cosméticos mágicos e às roupas elegantes a transformando numa mulher radiante de pernas atraentes.

Por que ela não repetia aquela transformação? Po deria ir à festa exibindo o seu melhor apenas para constranger Peter e aquele canalha machista, James Potter. Como podia um homem ser tão estú pido a ponto de pôr beleza na frente de cérebro nos seus negócios?

Em pé na chuva, encharcada, Lily apanhou o ce lular e telefonou para sua amiga Hilary. Hilary Ross tinha um pequeno salão de beleza e, quando pergun tada se conseguiria arrumar um horário para Lily naquela tarde, assustou-se:

— Você finalmente vai se render a umas futilidades? E Natal ou alguma coisa importante?

— Alguma coisa importante — confirmou Lily, um pouco encabulada. — Vou sair hoje à noite, e é algo muito importante.

Hilary tinha um coração do tamanho do mundo e disse para a amiga ir imediatamente. Repreendeu Lily por haver telefonado antes e imaginado que uma de suas amigas mais antigas se recusaria a aten dê-la.

— Principalmente porque você só faz isso uma vez por ano! — brincou, antes de desligar.

Lily pegou o metro que a levaria até o salão de Hilary em Hounsíow, no oeste de Londres, afastado do centro da cidade. Em pé, espremida no corredor do vagão lotado, Lily tinha os pensamentos confu sos. Era triste reconhecer que estava aliviada pelo fato do pai não estar vivo, pois ficaria desapontado com o fracasso dela no trabalho. Mas, afinal, quando havia correspondido às expectativas do pai, quando ele se orgulhara dela?, perguntou a si mesma, ressen tida e culpada.

A mente dela viajou de volta quase seis anos no tempo, para aquele verão, em que a família havia sido destruída. Tinha apenas 17 anos quando os seus pais e mais três famílias de amigos passaram as suas últimas férias juntos, na França. A amizade com Hilary Ross vinha desde a infância. A família Ross fizera parte do grupo que ia para a França todos os anos. Não havia por que suspeitar que aquele verão seria diferente do que qualquer uma das férias anteriores. Mas, naquele verão, tudo que podia dar errado, tinha dado errado. Na verdade, as férias foram desastrosas desde o início, mas ninguém tivera o sangue-frio para admitir isso, e elas duraram quase as seis semanas previstas.

Logo depois que eles chegaram, a sua então me lhor amiga, Alice, ficara tão envolvida num roman ce secreto com um francês que mal notara a existên cia de Lily pelo resto do período. Naquele verão, Lily tivera o coração partido e a auto-estima esma gada, sem que ninguém notasse.

Mas o evento que mudaria a vida de todos naque las férias fatais fora o horrível acidente de carro que resultara na morte da mãe de Lily e deixara o pai numa cadeira-de-rodas, O pai de Alice, Gerry Burnside, se embebedara e bateu com o carro lotado de amigos, arruinando a vida de todos. Lily era muito mais próxima da mãe do que do exigente e arbitrário pai. A morte repentina da mãe a devastara. O pai, professor de ciência e esportista, nunca se conforma ra com a deficiência física.

Quando jovem, Martin Evans queria ser médi co, mas não havia conseguido entrar na faculdade. Desde o momento em que Lily nascera, o pai insis tira para que a filha realizasse o seu sonho e se tornas se médica. Lily tinha sido pressionada desde criança para ser a melhor aluna da escola. Porém, o aci dente que tirara a vida do pai de Alice, dos pais de Hilary e das mães de Alice e de Jen a traumatizara, e ela tivera que admitir para o pai que não conseguiria seguir uma carreira em medicina.

A intensidade cruel do desapontamento do pai ha via sido quase mais do que á consciência de Lily podia suportar. Conviver com a amargura dele fora algo terrível. No entanto, pelos quase seis anos se guintes, ela tinha sido enfermeira e babá do pai. E não importava o quanto ela se dedicava para orgulhá-lo com as suas notas na faculdade de economia, o quanto se esforçava para cuidar dele em casa; o pai nunca a perdoou por ter dado as costas à medicina. Lily continuava mais do que consciente do que con siderava como suas limitações. Estava convencida de que a mulher corajosa que ela gostaria de ser teria se inspirado ainda mais para estudar medicina após aquele acidente, e não se sentido frágil demais para aguentar o curso.

Ao se lembrar do quanto já adorara a França, mal podia acreditar que não visitava o país onde a mãe nascera desde aquele verão trágico. Ela tivera até que inventar desculpas para não comparecer ao casamen to de Alice. Felizmente, o marido de Alice, Frank, a trazia a Londres para visitas regulares, e, as sim, Lily mantinha contato com a amiga. Mas já não era hora de ela superar a morte da mãe e visitar Alice e Frank no Duvernay, o lindo castelo da família Longbottom na Bretanha? Quantas vezes a amiga já não a havia convidado? A consciência dela doeu.

Por que não passar com Alice, na França, parte das férias compulsórias?

— Ah, não! Hoje é o dia em que você fecha mais cedo. Eu me esqueci completamente! — resmungou Lily, desapontada. Hilary a encontrou na porta do pequeno apartamento onde morava, e, juntas, atra vessaram a passagem que dava no salão de cabelerei-ro, vazio e silencioso. — Meu Deus! Por que você não me lembrou que hoje era a sua tarde de folga?

Hilary era baixa, esguia, com olhos claros enor mes e o cabelo louro espetado. Somente um ano mais nova do que Lily, ela não aparentava nem 18.

— Você só pode estar brincando? Finalmente você vai sair com alguém, e eu não vejo a hora de saber quem é o cara!

Lily ficou imóvel.

— Não tem nenhum cara. Hoje é a grande festa de recepção para o novo patrão...

— Mas você estava quase sem fôlego no telefone, e eu que pensei que você estivesse excitada...

— Excitada, não... Triste — reconheceu Lily. — Aconteceu algo terrível no trabalho. Me sinto péssi ma...

— O quê, meu Deus?

— Não peguei aquela promoção que eu estava es perando — murmurou Lily, com uma voz tremula, antes de desabafar toda a história.

Hilary ouviu e tentou não contrair o rosto. Ela abriu um armário no pequeno escritório e serviu a Lily uma dose do brandy que alguém havia lhe dado de Natal.

— Não quero isso, você sabe que eu não... — Lily tentou afastar o copo.

— Você está branca como um lençol. Você precisa de algo para reanimar. — Hilary a forçou a se sentar numa cadeira e avaliou que mudar de assunto seria a melhor política. — Então você quer deixá-los de queixo caído hoje à noite...

— Alguma chance? — Retraindo o nariz com o cheiro, Lily bebeu o brandy num gole só. Pouco familiar, o álcool bateu como fogo no seu estômago frio e vazio. No entanto, propiciou uma sensação de alívio. Ela agradecia por ter ignorado o sarcasmo do pai e comparecido ao primeiro reencontro da turma do colégio, alguns meses antes. Depois da mudança de Alice para a França, Lily havia ficado muito feliz por reencontrar Hilary e saber que a loura tam bém estava morando em Londres. Após o trágico aci dente de carro, os caminhos delas se separaram. Alice e Lily perderam contato com Hilary e com a quarta amiga do grupo da adolescência, Jen Tarbet.

— Eles vão se jogar aos seus pés, cair mortos no chão — sentenciou Hilary, determinada, tentando não pensar o pior sobre o finado pai de Lily. O pai da amiga, um bruto dominador com uma língua feri na, tinha feito um bom trabalho em podar a auto-estima da filha.

Enquanto Hilary lhe lavava os cabelos, Lily se lembrou de perguntar à amiga a respeito da irmã mais nova, Emma.

Hilary contou com alegria sobre a irmã adolescen te que adorava, antes de dizer:

— Você vai deixar eu lhe maquiar também?

— Se você não se importar...

— Claro que não. Maquiagem é o que eu amo- Hilary passou uma nova dose de Brandy para a amiga, disse que ela estava tensa demais e subiu com ela para o seu apartamento.

— Vou ter que voltar correndo para casa para me trocar — comentou Lily.

— Não vai dar tempo. Sem passar em casa, você já vai chegar atrasada. — Hilary correu até o quarto da irmã, pilhou o guarda-roupas e surgiu com um vesti do num tom glorioso de turquesa, bem justo.

— Não posso pegar emprestado uma coisa que é da sua irmã! — protestou Lily.

— Emma resolveu que esse vestido a faz parecer muito velha, e você sabe como adolescentes são...

— Não vou me sentir confortável num vestido como esse — murmurou Lily.

— Acorda, Lily — alertou Hilary. — Você é jo vem e pode usar tudo o que você quiser. Qual é o problema?

Para Lily, qualquer traje que deixasse os seus ombros e os braços finos à mostra e revelasse as for mas reduzidas dos seus tristes seios era inapropriado demais. No entanto, a amiga estava sendo tão presta tiva e positiva que ela relutava em recusar a oferta. As duas mulheres calçavam sapatos do mesmo núme ro, mas, de novo, havia uma grande distância entre os gostos de cada uma. Hilary adorava salto alto, en quanto Lily raramente os usava, uma vez que des calça já media 1,80 metro. Um par de sandálias douradas de salto foi posicionado ao lado do vestido, e Hilary a acompanhou até o banheiro para que ela to masse uma chuveirada antes que tivesse início a transformação.

Quase duas horas depois, e logo depois de Lily ter colocado as lentes de contato que costumava car regar na bolsa, mas raramente usava, Hilary retirou a toalha que cobria o espelho e pôs a amiga frente a ele.

— Você está completamente linda, e se você dis cordar eu juro que vou brigar com você!

Chocada, em silêncio, Lily encarava o seu refle xo colorido.

— Eu não pareço comigo...

— Sem querer ofender, mas isso é apenas porque você negligencia o seu cabelo, nunca pinta o rosto e não está nem aí para o que veste!

Os olhos de Lily coçavam um pouco, mas ela mal podia piscar, devido à quantidade de máscara no seu rosto. Ela engoliu em seco e disse de forma brusca:

— Obrigada. Eu não estou parecendo uma perde dora, e você não pode calcular o quanto que isso sig nifica para mim.

James Potter estava entediado. E também de muito mau humor. Ele não havia pedido uma festa. Ele não queria uma festa. Não gostava de festas surpresas e não achava que festas supresas tinham algu ma valia no mundo dos negócios. Tampouco se en tretinha com longos discursos. Tinha ainda menos tempo para bajulações e para funcionários num grau avançado de excitação, principalmente quando era óbvio que uma razoável proporção deles já havia abusado do álcool. Tendo deixado o salão com a des culpa de que tinha uma ligação importante para fazer, ele cruzava o saguão do hotel quando avistou a ruiva estonteante. Incrível ao ponto de fazê-lo parar.

O cabelo ondulado, cor de canela, caía pelos om bros dela de um jeito suave e brilhante e emoldurava um rosto oval de perfeita simetria. Os olhos eram cla ros, um verde reluzente, como o esmeraldas. O batom rosa destacava os lábios grossos e delicados. A figura dela já chamaria a atenção, pois era mais alta do que a maioria das mulheres. Cerca de 1,80 metro, James estimou com apreço. E mesmo assim, confiante o su ficiente para usar salto alto. A ruiva, com os seus ombros estreitos e brancos, curvas esguias e femini nas, longas pernas bem torneadas, se encaixaria nele à perfeição.

Com os hormônios masculinos vorazes e rápidos, James decidiu que examinava a próxima mulher com quem faria amor.

Lily observou a animação do salão repleto e per guntou-se se alguém conseguiria reconhecê-la. Com os cachos do cabelo desfeitos pela perícia de Hilary com o secador e a escova, sem óculos e com o traje emprestado, ela estava muito diferente. A quantidade de atenção masculina que atraíra desde a chegada ao hotel a fez mais do que consciente do fato.

Infelizmente, o vestido bem feminino a fazia se sentir horrivelmente exposta e constrangida. Não es tava acostumada a homens a encarando e era desde sempre envergonhada. Empinando o queixo, ela estava prestes a adentrar o salão, quando se deu um silên cio súbito. Vendo um homem se dirigir até o palco, deicidiu ficar onde se encontrava até que ele termi nasse o seu discurso.

No que o orador tomou posição, Lily riu alto diante da cena. Meu Deus, Amelia e todas as outras mulheres que fantasiaram sobre os atributos físicos do bilionário James Potter deviam estar sofren do uma grande decepção.

— Você não quer compartilhar a piada? — pediu uma voz masculina, sem pressa, ao lado de Lily.

Ela ficou dura de surpresa, pois não notara que havia um homem tão perto.

Sentiu-se desconfortável para virar o rosto e olhá-lo diretamente.

— Eu estava só pensando que um monte de gente deve estar desapontada com James Potter — disse ela, um pouco incomodada.

Desconcertado, James franziu o rosto.

— Por quê?

Algo no sotaque daquela fala arrastada disparou um pequeno arrepio pela espinha dela, o que a teria silenciado, se o humor de Lily não estivesse tão afiado.

— Corrijo. As mulheres devem estar desaponta das. Ele não é nem um pouco atraente — comentou Lily, satisfeita.

— Não? — Àquela altura, James achava que ela somente fingia não saber quem ele era. Afinal, a festa começara uma hora antes, e ele havia sido o centro das atenções desde então. Ele presumiu que ela esta va jogando com ele. Tendo sido alvo de estranhas cantadas no passado, estava curioso para ver aonde ela queria chegar.

— Não, ele é baixinho. Baixo demais. Ele ficaria mais à vontade sentado sobre um cogumelo, vestido de verde, como um duende — afirmou Lily.

James deu-se conta de que ela examinava Ivo Goyle, o homem que ele planejava colocar no comando da Venstar, depois que o negócio fosse reestruturado.

— Altura não é tudo.

— Ele também parece ter muito apego à comida — acrescentou Lily, com uma crueldade incomum.

— E definitivamente ele está ficando careca. Não me admira que ele não goste de ser fotografado.

— Você não precisa parecer uma estrela de cine ma no mundo dos negócios.— James se irritava com os comentários grosseiros dela sobre Ivo. — Ele é um cara legal...

— Não, ele não é — cortou Lily, esquentada. — James Potter é um homem muito rico, e o único motivo pelo qual as pessoas falam tanto dele é por causa do seu dinheiro ou... — Ao virar-se, cedendo ao ressentimento pelo novo patrão, ela encarou pela primeira vez o seu interlocutor, e tudo que estava prestes a dizer se apagou da sua mente.

Era raro que Lily fosse forçada a examinar um homem. Mas a espécie masculina ao lado dela havia lançado o seu cérebro em queda livre. A pele bron zeada, os traços marcantes e perfeitos da face, ele era lindo. A boca larga e firme, sobrancelhas alinhadas e escuras, cabelos pretos e elegantemente despentados. Mas foram os olhos, castanhos-esverdeados, penetrantes, qualidade acentuada pelos fartos cílios, que a capturaram.

— Ou... ? — James colidiu com o olhar esmeraldino dela e descobriu que a irritação misteriosamente eva porara. Ela o encarava de uma maneira nada relaxa da. A reação ao magnetismo sexual dele estava pa tente nas pupilas dilatadas daquela mulher, e uma sensação de satisfação o tomou.

Ela realmente não sabia quem ele era. Não estava debochando dele ou tentando lhe atrair o interesse com uma tática original. Talvez, ele estivesse se tor nando um daqueles caras que leva a si mesmo muito a sério, ponderou James, abruptamente. Decidiu que deveria se sentir desafiado, e não contrariado pela experiência rara de ser criticado. Certamente, representaria algo novo nessa noite de bajulações.

— Ou...? — Lily estava hipnotizada pela proxi midade dele e, inexplicavelmente, se sentindo sem ar.

— Você estava dizendo que as pessoas elogiam demais James Potter por causa da sua riqueza e por causa...!

— Porque a fama dele deixa todos mortos de medo — completou Lily.

— O que você tem contra James?

— Você é italiano, não é? — Tardiamente, Lily relacionou aquele sotaque delicioso com a nacionali dade dele. Delicioso? O tom enigmático da sua fala arrastada e grave era sexy ao extremo. Sem o menor aviso, os mamilos dela se enrijeceram em botões fir mes e pequenos dentro do vestido, e a sua face queimava, enquanto ela se perguntava o que lhe aconte cia.

— Sou. — James continuava a examiná-la. As cores dela eram fonte de fascinação contínua para ele: o tom canela brilhante dos cabelos, os olhos esmeraldinos, a pele, incialmente branca como leite, mas agora de um rosado suave. Fazia muito tempo desde a última vez que assistira a uma mulher corar, e esta va intrigado. — Você trabalha na Venstar?

Lily acenou positivamente com a cabeça, muito tensa.

— Você se referia a James Potter como se o conhecesse pessoalmente...

Ele era italiano, pensava Lily, desconcertada. Só podia trabalhar para Potter e ser um dos novos executivos. Nervosa, mordeu a língua para não pros seguir.

James se pegou imaginando aquela língua rosada e úmida explorando o seu corpo nu. O impulso repen tino do seu sexo excitado o desnorteou, pois há muito não agia como um adolescente, quando o autocontro le diante de uma mulher bonita era frequentemente um desafio.

— Talvez eu esteja apenas curioso para saber o que você tem contra um homem que nunca encontrou — provocou ele.

Lily ajeitou o cabelo. Por mais cautelosa que ten tasse ser, já era tarde demais, pois o álcool no seu fluxo sanguíneo lhe inflamava cada resposta com uma agressividade rara.

— Como você sabe que eu nunca o encontrei?

James levantou uma das sobrancelhas.

— Você... já o encontrou?

— Não, mas eu não preciso ficar frente a frente com ele para saber que ele é um dinossauro machista, que discrimina mulheres para se sentir mais podero so! — disparou Lily, amarga.

Continua...