Lily abriu os olhos, tonta.

O Citroen estava mergulhado na vala em que ter minava o acostamento da estrada. Berthe gritava, em choque. Nenhuma das duas parecia machucada, e não havia nem sinal do caminhão. O motorista aparente mente seguira o seu caminho, sem nem ligar para o carro que quase terminara debaixo dele.

Lily esticou o braço e desligou o motor. Checan do se Berthe tinha ficado ferida, ela a convenceu que seria mais seguro deixar o carro. Ao pisar na vala suja e empoeirada, a manga do casaco de Lily se agarrou no arame da cerca danificada pela batida. O tecido rasgou-se sem que Lily conseguisse se livrar. An gustiada, ela tirou o casaco e o deixou ali, movendo-se com dificuldade para o outro lado do veículo para ajudar Berthe.

Depois de auxiliar a pesada mulher a sair do carro, uma caminhonete antiga estacionou ao lado deles. Eram Guillermo e o filho do casal que havia visto o acidente da plantação onde estavam trabalhando. Berthe lamentou não ter visto o caminhão.

O homem ignorou o comentário e acomodou a mu lher na caminhonete com a gentileza de quem tratava uma rainha.

— Venha até a nossa casa, e depois eu levo você até a cidade — prometeu a Lily.

— Obrigada, mas eu mudei de ideia. Acho que não vou a lugar nenhum hoje.

Incrível como a proximidade da morte ajudara a recobrar o equilíbrio -reconheceu Lily uma vez de volta ao antigo convento. - Para falar a verdade, o céu nunca lhe parecera tão azul, e o sol, tão dourado.

Como pôde passar pela cabeça dela fugir de James pela segunda vez? Ainda se contraía quando se recordava de James a lhe chamar de covarde demais para lhe dar uma chance. Era verdade. Desde o início, ela ficara prevendo o fim da relação e profetizando com base nas piores expectativas. Ela não o valori zou, não valorizou o que os dois viveram juntos.

Por que havia demorado tanto para enxergar que James não tinha nada, nem um resquício do caráter do falecido pai? Ao julgar James, assombrada pela infidelidade do pai, ela não havia sido sincera com ele.

Vinte minutos depois, James voltava da reunião, encerrada mais cedo por ele, e avistou o Citroen lar gado dentro da vala e um casaco de mulher agarrado na cerca que limitava a estrada. Freando de imediato, pois instantaneamente reconheceu quem era a dona da peça de roupa, ele foi checar o Citroen e descobriu que o carro estava vazio. Por um instante, James permaneceu ali paralisado. Num estalo, ele correu de volta para o Mercedes e seguiu a toda pela estrada de terra.

Ansiosa para saudá-lo, Lily o aguardava na porta da casa. James saiu correndo do carro, a tensão bruta estampada em seu rosto, o olhar aceso de nervosis mo a mirando em choque.

— Per maravigilia! Você está aqui? Sã e salva? Quando eu vi o seu casaco ao lado do carro de Berthe, eu pensei que algo tivesse acontecido... Pensei que você estivesse num hospital... Que você estivesse fe rida...

— A gente quase foi... quase atingida por um ca minhão. Minha mãe diria que um anjo deve ter nos salvado — disse Lily, embaraçada.

James superou o estado de choque para se apro ximar e abraçá-la.

— Porca miséria... Se você soubesse no que eu cheguei a pensar!

Imediatamente, ele se afastou dela de novo. Lily o viu engolir em seco e permanecer ali de pé sem falar nada, apenas passando as mãos pelos braços dela, a examinando com preocupação intensa, como se certificando de que ela havia escapado ilesa.

— Eu também tomei um susto... Berthe simples mente entrou na estrada sem olhar...

James colocou uma das mãos por entre os cachos de cabelo dela e a encarou com olhos dourados afli tos.

— Se você tivesse morrido, eu iria querer morrer também — revelou ele, num tom de voz solene. — Se eu tivesse perdido você, bella mia, eu nunca seria eu de novo.

Lily ficou atónita com a intensidade emocional daquela declaração. Ele se preocupava com ela, James se preocupava realmente muito com ela.

— Eu acho que você já deve estar desconfiando que eu... Eu estava fugindo de você novamente...

— Si... Mas eu pedi por isso. Eu não fui sincero com você. Eu ainda estava tentando bancar o indife rente, e você, claro, precisava se sentir segura. No entanto, o meu orgulho não deixou que você visse o que eu realmente sinto por você...

James, frustrado, não conseguiu completar o que começara a dizer. Lily acompanhava cada palavra dele com uma concentração sobre-humana.

— E o que você sente por mim? — provocou ela.

— Estou tentando achar a melhor maneira de dizer — explicou James, com as mãos no rosto dela, a observando, para em seguida abaixar os olhos novamente.

Por um instante, Lily pensou que ele estava pres tes a dizer que a amava ou alguma coisa maluca as sim. Até onde a fantasia dela podia chegar? Ele se encontrava chocado por ter se deparado com a cena do acidente, por causa do filho que ela levava. Pelo menos Lily agora sabia de onde vinha a fama italiana de dramas e exageros...

— Eu suspeitei que você me escaparia de novo. Então eu terminei a reunião com o tabelião mais cedo para voltar para casa — contou James, deixando de tocá-la, para que as mãos acompanhassem a sua fala.

Frente ao olhar de reprovação dele, Lily corou de culpa.

— Eu não estava raciocinando direito e... você sabe. Eu também estava bloqueada pelo meu orgulho, mas não é justo fugir das coisas só porque não se pode lidar com elas...

— Você precisava que eu lhe desse segurança. Só isso. E eu com certeza iria sair de novo no seu encal ço, caríssima — confessou James. — E eu faria isso quantas vezes fosse necessário para ganhar a sua con fiança.

— Mesmo...? — Nesse momento, Lily começou a ver o próprio comportamento de um ponto de vista diferente. De forma subconsciente, ela o estava tes tando, torcendo para que ele fizesse o esforço de se gui-la para lhe provar que era um cara confiável. — Mas não vai acontecer de novo. Não fui justa com você.

Ele franziu o rosto para continuar.

— Eu não fui justo com você, não quis admitir o quanto você tinha se tornado importante para mim, cara.

James novamente incitava a fantasia de Lily.

— Importante...? Eu?

James mais uma fez franziu a testa.

— Eu não trato tão seriamente uma mulher desde Dorcas.

— Meu Deus, você não costuma levar as suas rela ções muito a sério.

— O papel de idiota que eu fiz com ela foi tama nho que eu nunca mais deixei uma mulher me contro lar — reconheceu ele.

Lily acariciou um dos ombros largos dele.

— Você é muito jovem. Não precisa ser tão duro com você mesmo — ela o consolou.

— Eu perdi a confiança em mim mesmo. Minha família me perdoou, mas eu fiquei profundamente envergonhado pela minha ingenuidade — admitiu James. — Eu me apaixonei por uma mulher ideali zada e não pela mulher real...

— Eu cometi o mesmo erro com Amus, quanto tinha 17 anos. — Lily se apressou em dizer.

— Eu errei demais. Se alguma coisa tivesse acon tecido com você ou com o nosso bebe, eu nunca teria me perdoado por não ter dito o que eu realmente sinto por você — afirmou James.

— Eu também — sussurrou Lily.

— Eu sou uma causa perdida desde a noite em que conheci você, cara — afirmou James. — Por que você acha que eu estava tão excitado por você? Nun ca havia me sentido daquele jeito antes.

Ruborizada e suspeitando que ele estivesse se re ferindo somente ao desejo sexual, Lily murmurou:

— Nem eu.

James a encarou com olhos dourados reluzentes e, agarrando as mãos dela num movimento repentino, disse:

— Ficar com você é maravilhoso, mas no início me irritava...

— Sentir-se bem é irritante?

James apertou com mais força as mãos dela.

— Apaixonar-se quando você não está esperando pode ser... — James procuravas as palavras certas. — Traumá tico.

— Traumático? — repetiu Lily.

— Você não sentiu a mesma coisa que eu? Claro que foi traumático — sustentou ele. — Você estava fria como uma geladeira no dia seguinte. Bastou des cobrir quem eu era para que não quisesse mais nada comigo!

— Não, eu queria... Eu me sentia do mesmo jeito. — Finalmente, Lily vagarosamente se dava conta de que ele estava falando de se apaixonar por ela. Lily piscou duas, três vezes. James a amava? Ele a amava?

— Você está dizendo que me ama? — disparou James contra ela, incrédulo.

— Um amor de matar — confirmou ela, com ênfa se, emocionada a ponto de chorar.

James a encarou com os olhos dourados perple xos.

— Mas você estava indo embora de novo... - Lily balançou a cabeça positivamente e contraiu os lábios.

— Pela segunda vez — enfatizou James. Lily acenou que sim com a cabeça de novo, o remorso lhe roubando a voz.

— Mesmo depois de eu ter pedido você em casa mento...

As lágrimas se precipitaram e desceram silencio sas pelo rosto dela.

— Mas não tem nenhum problema! — declarou James em pânico frente às lágrimas dela. — Eu não sei porque eu reclamo tanto. Eu sou louco por você. Eu sou louco pelo nosso bebê também. Eu posso perdoar tudo o que você quiser. Por favor, não chore mais, amore.

— Eu não posso evitar... Estou muito emocionada. Acho que são os meu hormônios, alguma coisa a ver com a gravidez. — Lily riu, encabulada. — Mas eu estou tão feliz!

James a agarrou com as duas mãos e a beijou, ávido, afoito, e esse foi o melhor remédio para as lágrimas dela.

— Feliz... Feliz... Feliz... — repetiu Lily, arre piada, excitada, derretida entre os braços dele.

— E eu acho que você precisa se deitar — disse James, com o olhar vibrante, a suspendendo nos braços e tomando a direção da escada, rumo ao quar to. — Eu, pelo menos, preciso...

Lily se sentiu incrivelmente quente e segura: ele a amava. Todos os temores dela foram falsos, nasci dos da própria insegurança.

— E eu posso perguntar o que fez você mudar de ideia sobre bebês? — indagou James, deitando-a na cama com todo o cuidado.

— Acho que eu tinha medo da responsabilidade. Os meus pais tiveram um casamento ruim, e eu, uma infância sofrida por isso. Eu tinha medo de fazer meu filho infeliz também.

— Eu entendo, amore. Mas se você se valorizar tanto quanto eu a valorizo, vai saber que você é sen sível e sensata demais para se comportar como seus pais.

— Uma vez grávida, eu me senti diferente — ad mitiu Lily, suavemente. — Eu me dei conta de que o bebê seria parte de nós dois, uma criatura fascinan te. Ainda estou preocupada com a minha performan ce como mãe, mas animada também.

— Você é muito perfeccionista, muito dura com você mesma. Eu nunca vou deixar você se dar mal — jurou James. — Eu fui muito impaciente com você. No tempo certo, você vai aprender a confiar em mim.

— Eu confio em você, mas eu vou vigiar você como um cão de guarda — alertou Lily, bem-humorada. — Tem muita mulher desesperada por aí.

Um sorriso se abriu no rosto dele.

— Então você vai se casar comigo?

— Eu vou pensar — brincou Lily, maravilhada por James ter se apaixonado por alguém tão comum como ela acreditava ser.

Quase sem camisa, tórax musculoso e bronzeado à mostra, James parou e resmungou:

— Se você me quer na sua cama de novo, você vai ter que se casar comigo.

Sentindo-se feliz e livre como nunca antes, Lily explodiu numa gargalhada e se deliciou com a ima gem do corpo forte e do rosto lindo dele.

— Se eu concordar em me casar com você, você me responde algo?

James deixou a camisa cair no chão.

— Então, você quer casar comigo? - Lily tirou as sandálias com os pés.

— Claro... Mas eu quero saber o quanto você me ama... — perguntou ela, envergonhada.

James a adorou com os olhos.

— O suficiente para durar por duas vidas, amore.

Lily esticou os braços para abraçá-lo. — Eu também.

Quatro semanas depois, Lily se casou como pa trão italiano.

Os preparativos para o casamento foram um perío do movimentado. Ela passou duas semanas viajando pela Itália, sendo apresentada à família de James: Dorea, a mãe elegante e amigável, Marco, o irmão de 1,80 metro, as irmãs mais velhas, os maridos e os sobrinhos.

Dorea Potter convenceu Lily a deixá-la organizar o casamento. A noiva ficou mais do que feliz por delegar a alguém tal responsabilidade, pois a cerimonia prometia se transformar num evento so cial de peso.

James e Lily se casaram em Roma. Alice e Hilary ajudaram Lily a escolher o vestido de noiva. Ela optou por um sem mangas e saia de pregas de seda tailandesa. No dia, usou o traje com uma tiara de diamantes, presente do noivo, e impressionou a todos pela elegância.

Alice foi uma das madrinhas. Hilary também se ria, mas teve de desistir uma semana antes do casa mento, porque a irmã menor, Emma, passou por uma operação de emergência. Sirius Black, amigo de in fância de James, foi padrinho dele. Num discurso, Sirius disse que desconfiara pela primeira vez que o amigo estava apaixonado quando ele passara a confe rir as horas o tempo todo e fazer ligações privadas.

— Você está tão linda que me faz perder o fôlego, bella mia — disse James a Lily, quando finalmen te teve a chance de dançar com ela no salão.

O coração de Lily acelerara ao avistar James a esperando no altar e não parara mais. Ele tinha uma expressão séria no rosto, mas o seu olhar possessivo mantinha uma intensidade embriagante. Nas últimas semanas, James tinha corrido com o trabalho para abrir espaço na sua agenda para a lua-de-mel. Quan do ele se aproximou dela para iniciar a dança, Lily ficou arrepiada com o que prometia o sorriso sensual dele.

— Eu quero ficar sozinho com você. Tanto que chega a doer — admitiu James, a fazendo corar.

Na lua-de-mel, James a levou para uma ilha no golfo de Nápoles, região onde ele nasceu e que ele considerava o seu lar. A mãe havia se mudado para Roma depois que o pai morreu.

Na primeira manhã da lua-de-mel, Lily cami nhou do quarto até a ensolarada varanda de mármore. Estava encantada com a paisagem de muradas anti gas de pedra, casas brancas, oliveiras, vinhas e o azul do mar ao fundo.

— Então a gente vai morar aqui? — perguntou Lily, se escorando no corpo de James, com a segu rança de uma mulher que sabia ser amada. — Você sempre passa a maior parte do seu tempo aqui?

James a abraçou e acariciou a barriga proeminen te dela.

— Não, mas agora que eu vou ser pai, reduzirei as minhas viagens, cara. O tempo passa mais devagar aqui. É um lugar maravilhoso para criar uma criança.

O contentamento transbordava de Lily. Virando-se para abraçá-lo, ela o encarou com o coração nos olhos.

— Eu sei que vai ser uma pergunta boba, mas você não vai acabar cansando de mim?

— Dio mio! Que conversa é essa? — inquiriu James. — Nunca! O que eu tenho com você eu nunca sonhei ter com mulher nenhuma...

— Mesmo que eu não seja uma do tipo que usa algemas de diamantes? — insistiu Lily, tentando ser mais específica.

James ficou tenso e especulou sobre o que priorizaria: a sua fama na cama ou a paz de espírito da mulher. A única peça de diamantes que ele havia comprado na vida tinha sido o pingente de um colar. A mentira foi vendida a uma revista pela mesma moça que recebera o presente.

— Tudo isso faz parte do meu passado... — Mas ao olhar para os olhos verdes ansiosos de Lily, ele suspirou e confessou a verdade.

Lily caiu na risada. Toda vez que tentava parar, ela se lembrava da expressão desconsolada dele ao revelar o que realmente acontecera.

— Mas agora que eu encontrei a mulher dos meus sonhos, eu posso realizar todas as minhas fantasias sexuais. — James retomou a iniciativa e a pegou no colo para levá-la de novo para o quarto.

— Sério?

Ele se deitou na cama com ela e a beijou repetida mente, excitando cada ponto do corpo dela.

— O que você acha, amore!

Sete meses depois, Lily deu à luz ao primeiro fi lho. O parto e a gravidez foram mais do que tranqui los. Eles batizaram o menino de Harry. Um bebê lin do, com os olhos da mãe e o cabelo negro como o pai.

Eles foram com Harry ao batizado do terceiro filho de Alice e Frank, Neville. Os dois casais se torna ram amigos próximos.

Na semana do primeiro aniversário de casamento, James e Lily deixaram Harry com a avó, Dorea, e foram passar uns dias na casa do Dordogne, um lugar especial na história dos dois.

— Você se casaria comigo de novo? — indagou Lily, na noite em que os dois lá chegaram.

— Sem pestanejar, bella mia. Eu amo você, e amo ter você e Harry na minha vida.

Lily olhou no fundo dos lindos olhos dourados e abraçou James.

— Eu também amo você — sussurrou ela, ao bei já-lo.


N/A: Pois é...acabou! Espero que vocês tenham gostado! Eu adorei cada review, cada opinião, cada palavra que vocês mes mandaram! Muuuito obrigada mesmo...