Prólogo

Rodeado por convidados celebres e bajuladores, em sua festa de noivado, James Potter sentia-se como um leão em picadeiro circense. A bisavó acenou para que ele se aproximasse. A senhora era conhecida pela franqueza e James suspeitava que ela estivesse ansiosa para dar sua opinião sobre a noiva. Era um dos homens mais ricos do mundo, mas havia aprendido a dar valor à riqueza de uma pessoa genuinamente sincera.

Pequenina, Minerva Potter lançou os olhos negros e perspicazes sobre o belo bisneto, quando ele sentou ao seu lado.

- Narcisa é uma jovem muito bonita. Todos os homens presentes estão morrendo de inveja.

James ergueu o rosto arrogante e naturalmente bronzeado ao ouvir o obvio e esperou pelo comentário mordaz que viria em seguir.

- Mas que tipo de mãe ela será para seus filhos? – perguntou Minerva.

James estremeceu por dentro. Pois nem ele nem Narcisa estavam preparados para um passo tão grande assim. Na verdade, ele nunca havia pensando na noiva como uma mulher com instintos maternais.

Talvez tivessem filhos em alguns anos. Porem, se isso não acontecesse, James não hesitaria em arranjar um sucessor apropriado para herdar seu poder e fortuna entre sua extensa lista de familiares. Quando o assunto era filhos ele não tinha nem um pouco de sentimentalismos.

- Você acha que isso não tem importância e que sou ultrapassada, fora de moda – a velhinha comentou, com um toque de irritação – Mas a verdade é que Narcisa é fútil e egoísta.

Ele endureceu sua feição, teimosamente. Uma critica tão dura sobre sua futura esposa não era bem-vinda. Sabia que a noiva adorava ser o centro das atenções e que não conseguia passar por um espelho ou uma câmera sem fazer pose. Abençoada com lindos olhos cinza, Narcisa tinha uma beleza singular e passou a chamar atenção da mídia desde a adolescência. Uma das herdeiras do império eletrônico Black, tinha duas irmãs muito mais velhas já casadas com grandes magnatas e pais muito cuidadosos, Narcisa era muito mimada. Era obvio que a bisavó nunca a entenderia.

Não poderia haver duas mulheres mais diferentes. Filha de um pescador, Minerva cresceu em meio à pobreza e se aferrava aos valores simples da vida. As recusas em aceitar padrões esnobes de seus descendentes e a língua afiada faziam dela um estorvo e um constrangimento para a família. No entanto, Minerva e James tinham um forte laço afetivo, formado, inesperadamente, durante a adolescência rebelde e conturbada de James, que quase chegou à autodestruição.

- Você não diz nada, mas se perdesse todo o seu dinheiro e suas mansões, carros e aviões, amanha, acha que Narcisa continuaria ao seu lado? – perguntou Minerva, bruscamente - Pois eu acho que ela desapareceria em um passe de mágica!

Ao se levantar e sair de perto da bisavó, James quase soltou uma gargalhada, pois pensou que em uma situação dessas Narcisa seria nada mais que um estorvo, um poço de autopiedade e recriminação. Sem duvida, ela era o produto de um ambiente luxuoso e rarefeito. Será que a bisavó realmente acreditava que existiria uma mulher indiferente e incorruptível frente à fabulosa fortuna dos Potter?

Acenou para o chefe de segurança, Nemos, pedindo que garantisse sua privacidade, e foi até o terraço. Desfrutou do ar fresco enquanto refletia sobre a nuvem negra que havia alterado seu humor. Afinal, não tinha duvidas sobre seu casamento com Narcisa Black. Por que deveria? Todos a consideravam o par perfeito para ele. Ela possuía berço e era excelente anfitriã.

Ambos pertenciam ao mesmo mundo privilegiado e exclusivo e ela conhecia as regras do jogo. Não importa o que acontecesse, não haveria divórcio. Assim, o império Potter estaria protegido para a próxima geração.

Não entanto, James não esquecia que aos 19 anos, para horror das duas famílias tinha namorado e terminado com Narcisa Black. A mulher mais linda do mundo tinha pouco a oferecer. Além disso, era fria como uma geladeira na cama – e fora dela.

- Por favor, não estrague meu penteado... – Era sua fala favorita.

- Estou precisando desesperadamente do meu sono de beleza...

- Odeio transpirar...

Narcisa nunca seria uma amante entusiasmada e ar dente na cama, pensou James, resignadamente. A falta de paixão da namorada havia sido o principal motivo do término quando ele era apenas um adoles cente idealista, instigado pela bisavó a acreditar que a mulher perfeita estava esperando por ele em algum lugar. Bem, ninguém poderia culpá-lo por não ter procurado. Na verdade, James havia passado mais de uma década se relacionando com inúmeras mulhe res, incessantemente, até chegar a uma conclusão cí nica e vergonhosamente egoísta: a mulher perfeita para ele não existia. Além disso, agora via os defeitos de Narcisa como positivos, pois assegurariam que o casamento provocaria o mínimo impacto possível ao seu estilo de vida.

Estava acostumado a fazer exatamente o que que ria e quando queria.

O casamento com Narcisa não mudaria essa realida de; ela não criaria falsas expectativas em relação a ele nem faria escândalos ou cenas de ciúme. Sabia que não poderia exigir atenção, amor ou fidelidade por parte de James. Não poderia haver melhor es posa para um homem como ele, viciado em traba lho, que vivia sobre pressão e que gostava de manter aberto seu leque de opções amorosas. Narcisa estaria ocupada demais cuidando da aparência e do guarda-roupa para se sentir negligenciada pelo esposo bilionário.

Assim que voltou para a festa, Narcisa foi rapida mente até ele para implorar por mais uma sessão de fotos. Nem uma gota de impaciência se estampou em seu rosto fino e aristocrático. Apesar de detestar publicidade, estava disposto a deixar que dessa vez ela organizasse a festa de noivado ao seu modo. Aliviada por ele não ter feito nenhuma objeção, Narcisa o tomou pelo braço e começou a falar sem parar:

—Aquela velha horrorosa sentada no canto é da sua ou da minha família? — perguntou ela com um risinho cínico.

James contemplou o pequeno vão do salão, pri morosamente decorado, e fixou os olhos na pequena senhora com um sóbrio vestido preto, e sentada de forma ereta. Velha horrorosa? Minerva raramente saía da pequena ilha onde morava, Libos, e por isso poucos fora do círculo familiar a conheciam. Os olhos brilhantes e castanhos-esverdeados de James faiscaram como ouro em chamas.

- Por quê?

- Você acredita que ela me perguntou se eu sabia cozinhar?!

Narcisa revirou os olhos e fez uma expressão de zombaria, típica de uma jovem acostumada a ser tra tada como uma rainha.

— Depois me perguntou se eu ficaria esperando você voltar do trabalho! Até parece... — disse ela. —Alguém devia ter deixado a velhota em casa. Ela me deixou constrangida. Espero, sinceramente, que ela não esteja no nosso casamento.

— Se ela não estiver, eu também não vou estar.

A resposta de James foi suave como uma seda. Ele esperou alguns segundos até que a noiva com preendesse o que tinha dito. Aflita, Narcisa fitou-o com um olhar constrangido. As unhas longas se cravaram na manga da camisa de James, em verdadeiro pânico, antes que ele se afastasse dela.

- James, eu...

- Aquela senhora é a minha bisavo e merece sua profunda consideração e respeito.- alertou James, enfaticamente mas sem levantar o tom de voz.

Consternada por te-lo ofendido , Narcisa começou a oferecer milhares de desculpas.Á lista de defeitos de Narcisa, James acrescentou a grosseria e falta de sinceridade.