So Near, so Far


Tudo, tudo termina...

(HAS)


É o fim.

Acabou.

Acabou?

Está tudo tão silencioso aqui. Mas não quero abrir os olhos. Não quero abrir os olhos enquanto ainda a sinto em meus braços.

Não quero morrer e perder isso que eu descobri agora. Não quero perder esse sentimento, perdê-la.

Não quero.

Não vou.

Ainda que contra a vontade, Shaoran entreabriu um dos olhos, sentindo-se um pouco tonto. Sangue escorria de sua testa, inutilizando a visão de um de seus olhos, que também havia sido atingido durante a batalha, talvez perdendo para sempre sua função. Respirando fundo, a primeira coisa que notou é que ainda estava no campo de batalha, embora houvesse muita poeira ao seu redor. Sakura estava em seus braços, o corpo encolhido e apertado contra o seu; ela mal ousava a respirar.

Sua visão demorou a tomar foco, e quando o fez, uma luz forte incomodou seus olhos. Mas não era apenas o brilho da aura que se encontrava à sua frente, mas sua presença como um todo. Shaoran estreitou o único olho utilizável e balançou a cabeça. Faltava-lhe energia até mesmo para compreender o que estava acontecendo.

- Shaoran...? – a voz de Sakura soou fraca abaixo de si, e somente então Shaoran notou que talvez muitos minutos tivessem se passado desde que havia decidido abrir os olhos.

Sakura, por sua vez, parecia ter compreendido mais facilmente a situação. Sua perna esquerda estava machucada – provavelmente quebrada – e todo seu corpo doía como se tivesse saltado em queda livre sem usar um pára-quedas.

Suas orbes esmeraldinas olharam ao redor e antes que seus olhos computassem o que de fato estava acontecendo, seus instintos lhe disseram que conhecia aquela presença, e que ela tinha sido a responsável por ela e Shaoran não estarem agora mortos, ou até mesmo pior se é que isso era possível.

À frente de ambos empunhando uma espada, estava Nihel. A espada era longa e reluzente, e sua lâmina era límpida como cristal. Havia um sulco profundo em seu centro e sua empunhadura era feita de prata, com um dragão em alto relevo em seu centro. Os olhos da fera eram duas safiras incrustadas que brilhavam intensamente como se possuíssem vida própria, e embora não estivesse olhando Nihel de frente, Sakura sabia que ele estava diferente.

Sua aura era ligeiramente azulada e pulsava. Tudo nele era um intenso sinônimo de paz, e até mesmo as dores tão insuportáveis até aquele momento pareciam ter sido amenizadas somente por ele estar ali.

Shaoran também compreendeu isso. Mas enquanto despertava de seu transe, compreendeu muito mais. Compreendeu que aquela presença não era apenas humana, e que a armadura reluzente que Nihel vestia não era nada se não escamas de um dragão. Mas não escamas arrancadas e utilizadas para fazer armaduras, e sim escamas vivas. Escamas que faziam parte do corpo dele.

- Nihel? – Shaoran o chamou, ligeiramente incrédulo com a mudança que o menino havia sofrido.

Há apenas alguns dias, ele era exatamente como Shaoran: um jovem magrelo e ligeiramente alto, cabelos castanhos bagunçados... com a exceção dos olhos verdes como os de Sakura.

- Sei que demoramos para chegar aqui, - sua voz soou distante e ao mesmo tempo serena. Havia algo nela que trazia segurança, mesmo que tudo parecesse perdido naquele momento. – mas agora acho que poderemos fazer aquilo que devemos fazer.

- Demoramos...? – Sakura e Shaoran disseram em uníssono, ao que Nihel apenas os olhou de soslaio, erguendo o canto dos lábios em um sorriso repuxado. Foi possível ver seus caninos ligeiramente afiados, mas foram as pupilas verticais que fizeram Sakura espantar-se.

- Silver...?

Ele não respondeu.

A poeira havia abaixado, e tudo que havia restado da frente do castelo eram portões retorcidos e muita poeira. Toda a vida existente naquele local havia se curvado diante da força da batalha que estivera acontecendo por ali. A força devastadora de Eriol havia carregado até mesmo um carvalho tão velho quanto o tempo de lá, reduzindo-o a algumas toras queimadas e inúteis.

Um riso baixo foi ouvido e logo tornou-se uma gargalhada, até que finalmente flutuando no ar, Eriol deu as caras. Nem mesmo suas roupas haviam conseguido ser afetadas pelos ataques de Sakura e Shaoran, embora ele tivesse gasto uma boa quantidade de energia. Ainda assim, o feiticeiro não mais misterioso parecia bem para agüentar mais uma dose de batalha, mesmo que Nihel parecesse eternamente melhor do que ele.

- Então passaram pelo ritual para unirem-se de corpo e alma? – ele questionou enquanto seus pés tocavam suavemente o solo, com uma elegância incomum mesmo para ele. – Admito que tiveram coragem para fazer algo que nem mesmo eu faria. – Eriol balançou a cabeça negativamente e ajeitou os óculos sobre a ponte do nariz. – É uma pena que... isso não será o suficiente para me deter.

Ele sorriu, e havia aquele sarcasmo e desdém presentes em seu olhar. Shaoran cerrou os dentes com força, sentindo-se inútil por não poder fazer nada em um momento tão crucial como aquele. Havia passado por um árduo treinamento e ainda assim, era seu filho na frente de batalha e não ele.

- Isso é o que você diz. Mas não está em condições tão boas para se gabar. Não tendo gastado tanto poder assim. – o punho esquerdo de Nihel fechou-se com força, enquanto ele buscava manter a serenidade. Não era fácil encarar o assassino de seus próprios pais e levar isso numa boa. Além disso, ele havia levado muito mais que sua família: destruíra reinos, imperara sobre o medo deixando Nihel a mercê de suas vontades, sempre tendo que se esconder como o rebelde que fora. Mas agora que tinha forças para lutar, não se curvaria novamente.

- Você pode dizer o que quiser, mas não creio que tenha gastado pouca energia para chegar aqui tão rápido, meu jovem.

- Devo admitir sua razão.

O silêncio imperou sobre eles durante alguns minutos. Sakura e Shaoran apenas observavam tensos aqueles dois poderes que somados deveriam ser suficientemente poderosos para destruir todo aquele local, senão também o arquipélago ou até mesmo o mundo.

- O que devemos fazer? – Sakura perguntou baixinho a Shaoran enquanto continuava a encarar os dois. Eriol e Nihel mal pareciam respirar diante da tensão.

- Acho que esta não é nossa batalha. – Shaoran murmurou, embora lhe doesse admitir. – Não mais. Não nesse tempo.

Sakura compreendeu e guardou as palavras de Shaoran. Aquele não era o tempo deles. Eram apenas intrusos em um futuro incerto, onde Nihel deveria fazer de tudo para salvar todos aqueles que acreditavam nele, e também para honrar a memória de seus pais – eles – mortos naquela realidade em especial.

Os dois haviam demorado para compreender e admitir aquilo, mas era verdade. Aquela era uma realidade paralela à deles, e Nihel era fruto do relacionamento forçado que seus pais tinham estabelecido como forma de unir os reinos. Tudo se encaixava desta forma: a semelhança de Shaoran e Nihel, os olhos verdes dele, o fato de poder usar a magia do sol e da lua...

Mas a diferença é que com a vinda de Sakura e Shaoran, também estava ali o livro de Leed Clow, seu antecessor em comum.

Sakura e Shaoran sabiam que aquele livro possuía um poder infindável, e Eriol sequer tocara no livro para causar todo o estrago que havia feito até então.

- Preparado? – Eriol sorriu enquanto perguntava.

- Há muito tempo. – Nihel respondeu.

Um facho de luz atravessou os céus tomando a forma de um relâmpago e Nihel partiu para cima de Eriol, esquivando-se dos raios e esferas negras que ele mandava em sua direção. Cada golpe de Eriol parecia dilacerar ainda mais o que havia restado daquele deserto, mas não importava quão feio parecesse o ambiente, tudo podia ficar ainda mais horroroso através da magia de Eriol.

- Parece que você ficou mais rápido. – ele sorriu de canto, concentrando uma esfera negra entre as mãos. Raios arroxeados circundavam a esfera maciça de energia em suas mãos e quando Nihel estava próximo o suficiente, Eriol lançou-a em sua direção.

- Certamente. – Nihel esquivou-se, saltando na direção dele para aplicar um golpe transversal com a espada.

- Se ele continuar assim, pode ser que vença... – Sakura falou, esperançosa.

- Talvez, mas... – Shaoran mordeu ligeiramente o lábio inferior.

- Mais cuidado. – o reflexo nos óculos de Eriol revelou o perigo para Nihel: a esfera negra voltava-se por suas costas, controlada pelo báculo que Eriol usara para bloquear o golpe de sua espada.

Impedido de defender-se por conta das duas mãos ocupadas, Nihel apenas olhou ligeiramente por cima do ombro.

- NIHEL! – Sakura gritou, sentindo um aperto tomar conta de seu coração, mas então algo incrível aconteceu.

Desaparecendo diante dos olhos de todos, Nihel tornou a aparecer distante de onde encontrava-se Eriol e a esfera negra. Todos pareceram chocados diante daquela magia, e Eriol não teve tempo de esquivar a esfera, sendo atingido por ela no peito.

A força da explosão, lançou-o para trás e o cheiro de carne queimada espalhou-se por todo o local. Sakura e Shaoran observaram a cena com indignação.

- C-como... – Shaoran balbuciou.

- E-eu... não sei.

Até mesmo Eriol parecera surpreso com o que havia acontecido. Nihel estava apoiado sobre o chão com um dos joelhos e a ponta da lâmina de sua espada tocava suavemente o solo enquanto ele olhava para o feiticeiro caído no chão.

- Como conseguiu esse poder? – ele perguntou, sua voz ligeiramente pastosa pelo sangue contido em seus lábios.

- Não é você quem sabe de tudo? – Nihel rebateu enquanto se erguia. Os cabelos castanhos do jovem haviam tomado uma cor prateada, assim como sua pele. Mas havia uma série de símbolos tribais negros desenhados em seu rosto e na parte esquerda de seu corpo, descendo por baixo da roupa no pescoço.

- Apesar disso, o preço parece ter sido caro... – Eriol riu baixinho, incapaz de erguer-se pela força que o próprio golpe exercera sobre seu corpo.

- Mas valeu a pena. – ele respondeu.

Eriol sorriu.

- Acha mesmo que acabou?

Nihel ficou sério por um momento e bateu a poeira da roupa, segurando firmemente a empunhadura da espada e girando-a no ar. O barulho do vento de sua espada espalhou-se por todo o reino, destruindo universos. Como o bater de asas de uma borboleta.¹

- Não. – ao responder isso, Nihel respirou fundo, lembrando-se das condições impostas por aquele poder:

"Embora vocês tenham adquirido muito poder em pouco tempo, devem saber que essa fusão também tem suas desvantagens. Vocês ainda não estão devidamente preparados para utilizar muito de sua força, e talvez por isso mesmo não devam se esforçar demais ou estender essa luta.

Mas advirto-os essencialmente a respeito de tudo que se refere ao poder de manipular o tempo. Isso é muito perigoso! Até mesmo para vocês ou para os que estão ao seu redor.

Toda vez que o tempo é parado, vocês permanecem se movendo, embora o restante do mundo esteja num estado de 'congelamento'. Isso significa que a frequência dos seus batimentos cardíacos, que funcionava de uma determinada forma antes da parada temporal, jamais será igual outra vez.

Procurem evitar isso se necessário, mas se realmente for preciso que os poderes do tempo sejam utilizados, faça isso com consciência e apenas UMA vez! Mais do que isso levará seu corpo ao limite e não se sabe o que pode acontecer. Talvez o tempo pare para sempre... para vocês."

- Que bom. – Eriol moveu ligeiramente os dedos, sussurrando algo inaudível.

Nesse momento, uma aura arroxeada envolveu todo seu corpo e o livro surgiu flutuando acima dele.

- O livro! – Sakura exclamou, tentando levantar-se. No mesmo momento, uma dor excruciante tomou conta de sua perna e ela caiu sentada sobre o colo de Shaoran.

- Eu já te disse que essa não é nossa batalha. – Shaoran a repreendeu com seriedade, pois não importava que o mundo estivesse acabando naquele momento. Ele apenas importava-se com o fato de que sua Sakura estivesse bem. Em primeiro lugar.

- Eu sei, mas...

- Confie nele, Sakura. Ele é nosso filho. – Shaoran a olhou nos olhos com seu único olho bom, mas foi o suficiente para perceber o quão ruborizada ela estava por suas palavras.

- Chave que guarda o poder das trevas, mostre seus verdadeiros poderes sobre nós. E ofereça-os ao valente Eriol que aceitou esta missão. Liberte-se.

Uma pequena esfera arroxeada formava-se entre as mãos de Eriol conforme ele proferia aquelas palavras e o livro abriu-se, demonstrando pela primeira vez em muitos séculos o seu conteúdo.

Cartas e mais cartas começavam a flutuar no ar, cercando Eriol em uma espécie de dança ao redor de seu mestre.

- Infelizmente não esperarei para ver o fim do seu show de mágica. – Nihel empunhou a espada e começou a correr velozmente na direção de Eriol. Não tinha tempo a perder com aquilo: quanto mais cedo terminasse aquela batalha, melhor seria.

- Bosque.

Uma das cartas assumiu um aspecto luminoso, e antes que Nihel se desse conta do que estava acontecendo, seus braços e pernas haviam sido aprisionados pela força de galhos flexíveis que haviam brotado do solo.

- O-o que é isso? – o garoto esforçou-se para soltar os braços e pernas, mas parecia que quanto mais se movia, mais forte era o aperto em volta de seus membros.

- Não pode ser... – Shaoran engoliu em seco fechando o punho sobre a areia no chão.

- O que ele fez, Shaoran..? – Sakura fixou os olhos no rapaz.

- As cartas lendárias de Clow. Era isso que o livro continha. Cada uma dessas cartas possui um poder diferente, e ela somente obedecerá ao seu mestre, aquele que possuir o sangue de Clow. Isso significa que...

- É exatamente isso que está pensando, meu caro Shaoran. – Eriol sorriu, enquanto uma das cartas tomava um brilho luminoso e o envolvia em uma espécie de abraço. Era uma mulher nua, mas todo seu corpo parecia suave como uma brisa de verão. – Vento.

Ondas cortantes partiram na direção de Nihel. O turbilhão causava cortes profundos em seu corpo, e o garoto chegava a soltar gritos de dor, embora ainda tentasse se soltar. Como a voz da caverna havia lhe alertado, ainda não estava totalmente acostumado com aquele corpo.

- Você é um descendente de Clow? – Sakura questionou, observando a tortura pela qual Nihel passava. Queria tanto poder ajudá-lo...

- Não, Sakura, mas você chegou bem perto disso. – Eriol, parecendo mais renovado do que nunca, permaneceu flutuando no ar, ainda envolvido por aquela aura. – Eu sou Leed Clow. Sou sua encarnação, para ser mais exato.

- Você é Leed Clow? – Sakura arregalou os olhos. – Então por que está fazendo isso com a gente? Se somos sua família? Por quê?

Eriol fechou os olhos parecendo decepcionado.

- Será que você ainda não entendeu? – ele questionou. – Durante anos, almejei que meus filhos entendessem que o poder não era tudo o que importava, e que eles somente conseguiriam realmente fazer o uso de sua magia como um todo se estivessem unidos. Mas ao invés disso, eles escolheram lutar para decidir quem dos dois era o mais poderoso e digno de ser o verdadeiro sucessor de Leed Clow. Acham que era isso que eu queria? Ver meus filhos brigando em uma guerra sem fim que espalhou-se geração após geração?

- Mas qual é a razão disso tudo se agora nossas famílias se unificaram? – Shaoran perguntou.

- APENAS POR MAIS PODER! – Eriol bateu com força o báculo sobre o chão, e ele todo estremeceu. – Acha que não sei, Shaoran? Acha mesmo que desconheço suas ambições de possuir o livro, deixando Sakura para trás?

Sakura olhou para Shaoran por um momento, incapaz de crer naquilo que Eriol falava.

- Shaoran?

O silêncio dele chegava a lhe causar arrepios.

- Shaoran?

- É isso mesmo, querida Sakura. Ele apenas veio para este mundo atrás do livro. E todas as noites enquanto você adormecia, ele apenas pensava em como seria poderoso quando o possuísse!

- Isso não é verdade! – Shaoran exclamou. – Podia ser no início, mas...

- Mas o que? Você se tornou um idiota apaixonado? – Eriol gargalhou. – Isso te tornou fraco, Shaoran Lee.

- É verdade sim que me apaixonei, - Shaoran respondeu, ruborizando Sakura. – mas isso não me tornou mais fraco, apenas me deu forças para continuar.

A essa altura, Sakura havia se tornado um pimentão, mas era verdade que desde que descobrira e admitira seu amor por Shaoran, as batalhas, embora mais intensas, haviam se tornado muito mais fáceis por trabalharem como uma verdadeira equipe. E sempre que se sentia fraca demais para continuar, Shaoran, seu Anjo, estava lá para lhe dar apoio, forças para que não desistisse.

O mesmo acontecia com Shaoran, que sempre buscava forças em Sakura, sua flor de cerejeira, que o havia tirado da condição de lobo solitário para um homem verdadeiramente feliz apesar de todas as dificuldades.

- Oh, que bonitinho. Chega a me emocionar. – Eriol passou a mão livre pelos cabelos. – Mas agora se me dão licença, tenho que...

Quando os olhos de Eriol se voltaram para o local onde Nihel estava, encontraram apenas o vazio.

- Tem que prestar mais atenção no que faz, isso sim. – uma descarga de energia elétrica saiu das mãos de Nihel, mesclada a uma chama intensa e de cor azulada.

A explosão foi imediata, e fagulhas de chamas se espalharam por todo o local, antes de se apagarem em pleno ar. Nihel respirou fundo, tendo ciência de que a magia do tempo usada anteriormente havia desgastado muito de suas forças. Mas quando as chamas pararam de queimar, foi possível visualizar uma barreira ligeiramente esverdeada ao redor de Eriol ainda intacto atrás dela.

- Escudo. – ele murmurou, um sorriso de meia lua nos lábios. – Não pense que pode me vencer apenas porque se tornou um pouco mais poderoso, Nihel. Você pode muito bem possuir alguns truques, mas eu tenho uma magia ainda maior do que a sua, e muito mais experiência.

Nihel estreitou os olhos, suas pupilas dilatando-se verticalmente enquanto cerrava os punhos com força.

"Parece que não temos muita opção, Silver."

'Parece que não.'

"Pelo menos estaremos juntos. Me desculpe por te carregar nisso."

'Desde que Sakura e Shaoran estejam bem, estou disposto a assumir os riscos.'

"Eu sei."

Nihel ergueu a espada para o céu e um relâmpago caiu sobre ela, sendo lançado contra Eriol.

- Não percebe que nada disso vai adiantar? – o escudo refletiu o golpe, mas no momento em que a barreira se desfazia, Nihel ativou a magia do tempo.

Tudo tornou a congelar novamente, enquanto o tempo continuava para Nihel e Silver. Toda aquela batalha, todo aquele ardor terminaria com o próximo golpe. Eles corriam com tudo o que tinham, concentrando todo o poder que lhes restava na lâmina daquela espada. Todo o esforço, todo o sofrimento pelo qual todos haviam passado, tudo aquilo concentrava-se em um único poder.

Nihel apertou os olhos com força soltando um grito de ódio, de força de vontade e de desejo de vencer. Isso tudo uniu-se em uma única força e o golpe final foi aplicado, cortando Eriol em dois.

- Tempo.

Nihel abriu os olhos ao ouvir a voz de Eriol e arregalou-os.

- C-como...?

- E espada.

O sorriso nos lábios de Eriol tornou-se maior enquanto a lâmina trespassava o peito de Nihel.

- Achou mesmo que você fosse o único conhecedor da magia do tempo? Muito antes de você ter tido conhecimento daquele lugar eu já havia estado lá e obtido seu poder. Apenas ignorei o catalisador e prendi este poder em forma de carta, para utilizá-lo ao meu bel-prazer. Não é triste a maneira como suas esperanças acabaram, meu caro Nihel?

- N..não pode ser. – Nihel sentia as forças de seu corpo se esvaírem junto com o sangue que jorrava de seu peito. Apesar das fortes escamas de Silver, Eriol pegara em seu ponto fraco, a única falha de sua armadura.

'Nihel...'

Um tremor abissal subiu-lhe pelas pernas enquanto começava a tremer. Naquele momento, quando Eriol arrancou a espada, o sangue começou a descer de seu peito como uma cachoeira rubra. O jovem rapaz repousou a mão sobre a ferida enquanto sentia as vistas escurecerem. Seus lábios tremeram quando caiu de joelhos no chão.

- Nihel... – Sakura sussurrou baixinho, enquanto a cena se desenrolava diante de seus olhos.

Ela podia ouvir o coração de seu filho bater dentro dos próprios ouvidos. Podia sentir a dor dele enquanto a espada atravessava seu peito. Eles podiam não ser a mesma pessoa ou pertencer à mesma realidade, mas ainda assim ele era seu filho e essa era uma ligação forte demais para ser ignorada.

Mesmo Shaoran sentia isso enquanto via a vida se apagar dos olhos de Nihel. E não era apenas ele, mas também Silver.

Silver, que Shaoran não queria como companheiro. Silver, um pequeno filhote que havia eclodido de um ovo, e que se mostrara o mais fiel amigo que Shaoran já tivera em toda sua vida.

- Silver...

E Nihel.

- Se isso era todo o poder que vocês tinham para me deter, eu estava certo em fazer o que fiz. – Eriol murmurou lambendo o sangue da ponta da espada – Acabou para vocês.

As cartas voltaram a girar ao redor de Eriol, e uma em especial parou à frente dele, enquanto as outras caíam espalhadas sobre o chão, como se tivessem perdido seu poder ou utilidade.

- Esta é a única carta que preciso para acabar com tudo. Para trazer a esse mundo tudo o que ele merece.

- N-não.. – Nihel tentou agarrar o manto de Eriol, mas apenas recebeu uma lufada forte de ar que lançou-o na direção de Sakura e Shaoran.

- Nihel! – Sakura inclinou-se sobre ele. – Ah, Nihel, agüente firme! – as lágrimas se concentravam ao redor de seus olhos enquanto ela segurava uma das mãos de Nihel. Shaoran apanhou a outra, tentando tapar o ferimento como podia.

- Eu achei que se tivesse poder o suficiente, poderia proteger meu mundo e honrar a memória de vocês. Mas pelo menos uma vez na minha vida... – ele tossiu um pouco de sangue, sua presença se esvaindo conforme falava. – poderei dizer que estive com meus pais...

Um sorriso esboçou-se em seus lábios enquanto seus olhos se fechavam lentamente. Suavemente, o último resquício de vida no formato de uma borboleta azul repousou sobre o ombro de Nihel por alguns momentos antes de erguer vôo. Uma brisa suave carregou seus cabelos agora prateados para trás. E embora aquela fosse uma cena eternamente triste, na mente de Shaoran sempre seria marcada como a cena mais linda que vira em toda sua vida.

- Não se preocupem. Em breve desejarão ter estado no lugar dele. – Eriol segurou a carta entre os dedos, enquanto os olhava com um sorriso maligno nos lábios.

- SEU MISERÁVEL! – Shaoran berrou, erguendo-se enquanto a espada assumia forma em sua mão. Embora ferido, corria na direção dele, toda sua força de vontade convertida em coragem para enfrentá-lo.

- SHAORAN! – Sakura tentou erguer-se para pará-lo, mas a dor em sua perna impediu que fosse ao seu encontro.

- Agora já é tarde, Shaoran. – uma onda de energia repeliu-o para trás, cortando levemente seu rosto. – Escuridão.

A última luz que veriam naquele mundo saiu da carta. Ao som da palavra proferida por Eriol, tudo foi engolido por uma intensa escuridão, tão enegrecida que havia dissipado até mesmo a luz. Tudo que se via ao redor era negro, e naquele momento, Shaoran arrependeu-se intensamente de ter saído do lado de Sakura.

- S-Sakura? – ele olhou ao redor, tentando acostumar seus olhos com a escuridão. Mas nada havia ali além de mais escuridão.

- Shaoran?

- Sakura!

Nem mesmo a voz podia ser ouvida.

- SHAORAN!

Nada.

Apenas o vazio intenso e desesperador que se mesclava ao medo e ao frio que começava a entorpecer seus membros. Shaoran apertou a empunhadura da espada com força, sentindo o próprio coração bater fortemente contra o peito. Ainda podia sentir a presença de Sakura, pois a ligação que possuíam naquele momento era mais forte do que qualquer outra, mas ainda assim ela parecia estar distante demais de si. Sabia que não podia escutá-la, mas ao menos ela estava viva.

- Isso é o que vocês, meus herdeiros, merecem por suas ambições. E todos pagarão junto de vocês. Vivam eternamente nessa escuridão. A morte é um premio que vocês não merecem.

As palavras de Eriol reverberaram nos ouvidos de Sakura e Shaoran, fazendo-os relembrar como durante todos aqueles anos, haviam sido estúpidos a ponto de apenas quererem poder e mais poder. E isso lhes havia custado caro.

Sakura estava trêmula, e Nihel descansava em seus braços, mas ela não ousava a soltar o corpo do filho. Embora tivesse tentado acender uma pequena chama em suas mãos, de nada adiantou. Ela fora rapidamente engolida por aquela escuridão, que parecia ser mais forte do que qualquer outra coisa capaz de trazer algum brilho até lá.

- Ah, Nihel... – ela murmurou baixinho, abraçando-o fortemente e lhe deu um beijo saudoso na testa.

Queria ter sido capaz de fazer algo pelo filho. Sabia que mesmo não sendo a Sakura daquele tempo ou dimensão, sentia por Nihel o mesmo amor que seu outro eu devia sentir. E por isso sofria tanto por ter sido incapaz de ajudá-lo. E agora estava sozinha. Sem Shaoran, sem Silver ou Nihel. Sem ninguém.

- Sakura... – Shaoran apertou o punho com força, tentando lembrar-se dos ensinamentos de Yue.

"Quando você pensar que tudo está perdido, lembre-se que sempre existirá uma luz brilhando dentro de você. Não perca a calma ou a esperança, Shaoran, porque para tudo existe um jeito."

Ele respirou fundo, buscando essa luz que ainda podia brilhar dentro dele. Durante muito tempo não deu ouvidos a esse ensinamento de seu guardião, mas agora achava-o intensamente importante para o momento que vivia.

O mesmo ensinamento passava agora pela mente de Sakura, pois Kerberus apesar de brincalhão sempre sabia quando ter um momento sério com sua protegida.

Então, mesmo que estivessem separados pelo precipício daquela escuridão, os dois fecharam os olhos e buscaram a luz dentro de si.

Demorou um tempo para que finalmente tivessem compreendido que essa luz sempre havia estado presente neles a partir do dia em que haviam admitido o que realmente sentiam um pelo outro. A luz era a luz da lua que iluminava o lago que separava seus reinos nas noites de lua cheia. Era a luz do calor da batalha e das brigas que haviam sustentado durante anos por conta de suas famílias. Era a luz que agora saía de dentro do peito dos dois e se unia no céu, explodindo como uma aurora boreal.

- Amor. – os dois sussurraram juntos, e daquela luz surgiu uma carta que fez desaparecer daquele mundo toda a escuridão.

Eriol, desprotegido e desacreditado apenas observou como o poder daquela intensa luz brilhante dissipava todas as trevas que haviam se instalado naquele mundo.

- NÃOO! – aquela luz intensa parecia tê-lo cegado e foi em sua direção, penetrando em seu peito. Os jovens feiticeiros observaram a luz tomar conta de todo o corpo de Eriol e em seguida viram seu corpo desfalecer sobre o chão, cercado pelas cartas de que ele tanto se gabara.

Exauridos pela intensa magia que haviam utilizado, Sakura e Shaoran se entreolharam com um sorriso fraco no rosto. Lee correu até onde Sakura estava e caiu de joelhos ao lado dela e de seu filho, abraçando-os.

- Eu não posso te perder. Não mais. – ele sussurrou, as lágrimas correndo copiosamente por seu rosto. Era difícil acreditar que um homem tão forte quanto ele estivesse derramando lágrimas, mas ainda assim ele parecia estar feliz apenas por estar com ela. – Eu te amo, Sakura... – seus lábios tocaram suavemente os da jovem feticeira, que corada retribuiu o beijo dele.

- Eu também te amo, Shaoran... – ela apoiou a cabeça sobre o ombro dele. – Mas Nihel... – ela então olhou para o filho e lágrimas se concentraram em seus olhos.

Shaoran abaixou a cabeça olhando para o filho, sua cópia idêntica. Sentia-se novamente impotente por não ter sido capaz de fazer nada por ele.

- Mas será que não há nada mesmo a ser feito, jovem Shaoran? – a voz conhecida fez com que Shaoran e Sakura se sobressaltassem. Logo atrás deles, encontrava-se a imagem de Taho Mizuki, a mulher que no passado lhe vendera a essência para tratar do ferimento na perna de Sakura. – E quanto à sua magia?

- Mas eu não posso trazer alguém de volta a vida... – ele murmurou.

Ela apenas sorriu para ele, e era aquele sorriso jovial que sempre incomodara Shaoran de uma forma que ele não sabia explicar.

- Para tudo há um jeito, desde que você esteja disposto a fazer certos sacrifícios. – ela então estreitou o olhar. – Existe uma magia que você pode executar para salvá-lo, mas advirto-lhe que depois disso, perderá todo seu potencial mágico.

Shaoran arregalou os olhos. Tudo pelo que lutara durante toda sua vida seria perdido dessa forma? Mas sentia-se na obrigação de fazer isso, não apenas por Nihel ser seu filho, sangue do seu sangue, mas também por tudo o que ele havia feito por ele e por Sakura, e pelo que representava em suas vidas. Shaoran cerrou os punhos. Aquela era uma decisão muito difícil para o jovem feiticeiro, tão promissor. Mas naquele momento, já tinha certeza do que queria. E era salvá-lo.

- Eu não me importo. – Shaoran disse, resignado.

- Imaginei que não fosse se importar. Você cresceu muito, Lee. – Mizuki sorriu para ele.

- E não existe nada que eu possa fazer para ajudar? – Sakura perguntou, sentindo-se novamente inútil.

- A magia da lua é a única capaz de curar, mas não existe lua sem sol, Sakura. Shaoran precisará de um catalisador que permita que ele realize a magia nesse momento.

Compreendendo as palavras de Mizuki, Sakura segurou a mão de Shaoran.

- Mas antes, devo adverti-los de mais uma coisa: Shaoran, vocês vieram para cá para este mundo apenas porque possuíam a magia necessária para isso. A partir do momento em que não tiver mais magia alguma, não poderá voltar para casa. Ficará preso aqui para sempre.

Sakura voltou seu olhar para o jovem feiticeiro e ele sentiu o que ela queria dizer. Não queria ter que deixá-lo ali depois de tudo pelo que haviam passado. Depois de descobrir que o amava.

- Você tem que ir. – ele disse.

- Não vou sem você, Lee! – ela exclamou, abraçando-o com força.

Shaoran respirou fundo, acariciando os cabelos de Sakura e fechou os olhos, aspirando seu perfume.

- Você é uma princesa, e agora que estamos casados, será a rainha do Reino Estrela. E uma rainha tem que cumprir com as obrigações de seu reino em primeiro lugar. Sei que você sabe disso. – ele falou com tranqüilidade, embora sentisse a dor da partida, tanto quanto ela. – Daremos um jeito.

Sakura ergueu os olhos chorosos para o feiticeiro, mas sabia que o que Shaoran dizia era a mais pura verdade. E teria que cumprir com aquilo, ou seria possível que os reinos entrassem em guerra por causa da ausência dos dois ali.

- Vamos salvá-lo, depois discutiremos nosso futuro.

Shaoran concordou com ela, sabendo que o que quer que tivessem que discutir, a decisão já estava tomada pelos dois.

- Estamos prontos. – ele disse para Mizuki.

A mulher apenas acenou com a cabeça, e ordenou que os dois colocassem as mãos sobre o ferimento do peito de Nihel.

- Deixe que a energia da lua flua através de seu corpo até o ferimento dele, Shaoran. E você, Sakura, deixe sua energia fluir para o corpo de Shaoran.

Seguindo as ordens de Mizuki, os dois deixaram que a energia fluísse. Shaoran sentia um calor gostoso passar por seu corpo toda a vez que a energia de Sakura passava por ele e deixava seus dedos, fechando o ferimento de Nihel.

- Está funcionando! – Sakura exclamou, enquanto via seu filho mexer-se levemente.

Após um processo que pareceu durar toda uma eternidade, o ferimento havia se fechado, e uma luz tomou o corpo de Nihel, fazendo com que despertasse. No momento em que isso aconteceu, Shaoran desfaleceu, completamente exaurido por ter esgotado sua magia.

Ele sentiu, no momento em que Nihel despertou, que nunca mais poderia ser um mago novamente. Sentira o último resquício de magia sair pela ponta de seus dedos, mas o que importava agora é que seu filho estava vivo e a salvo.

Sorrindo, ele deixou que seu corpo atingisse o solo pedregoso, e Sakura olhou-o por cima do ombro, incapaz de fazer algo que não fosse sorrir também, desfalecendo em seguida.

- Estão exaustos. – Mizuki alertou Nihel, que já se sentava de supetão, tentando entender o que havia acontecido.

- Mas eu.. eu tenho certeza que senti a espada atravessando meu peito! – Nihel respondeu afoito, enquanto levava a mão ao local onde antes havia o ferimento. Mas nem mesmo uma cicatriz havia ficado ali.

- Graças ao amor que seus pais tem por você, está vivo. – Mizuki sorriu. – Agora aconselho que você os deixe descansar. Quando acordarem, estarão tão confusos quanto você.

- Mas... mas e Eriol? – ele olhou ao redor, mas nada viu. No local onde ele estava, não havia nada. Nem mesmo o livro de Clow.

- Não se preocupe com isso agora. Cuide de seus pais, jovem Nihel. – Mizuki ergueu-se. – Seus amigos já devem estar chegando para te ajudar. – ela sorriu, começando a caminhar dali.

- E quanto a você? Quem é? E como sabe meu nome?

Novamente, ela sorriu. E era aquele sorriso que também o incomodava.

- Sou apenas uma vendedora de remédios que passava por aqui. – e dito isso, começou a caminhar, desaparecendo em meio ao horizonte.

Poucos minutos depois, montados em cavalos velozes, os seguidores mais fiéis de Nihel chegavam até o local, contemplando toda a devastação que havia acontecido por ali. Mas por trás disso, viam o sorriso daquele que sempre fora tão duro consigo mesmo, não permitindo que nenhuma expressão além do ódio lhe tomasse o rosto.

- Nihel! – eles acenaram, gritando em uníssono.

Nihel acenou de volta, enquanto zelava pelo sono dos pais.

- Obrigado a vocês, meus pais, por tudo o que fizeram por mim. – ele sussurrou, enquanto seus homens vinham ao seu encontro para trazer a ajuda que eles necessitavam.

X

Pode-se dizer muita coisa a respeito dos contos de fadas. Mas dificilmente ouvirá dizer-se que um final feliz sempre será feliz. A Branca de Neve cansou-se de seu príncipe e ficou independente, abrindo uma mercearia. A Cinderela decidiu que ser lésbica era muito mais proveitoso do que limpar os sapatos de seu marido. A Bela Adormecida, depois de alguns anos ao lado de seu príncipe fanfarrão, decidiu que o mundo das drogas era muito mais proveitoso.

Shaoran nunca pensou que teria um final feliz. Nem mesmo quando se permitiu apaixonar-se perdidamente por Sakura pensou nisso. Por isso, no momento em que despertou e descobriu que tudo o que passara durante o campo de batalha não fora um sonho, ele não se abalou em lembrar-se de suas próprias palavras dizendo para que ela seguisse em frente.

Embora aquelas tivessem sido palavras nobres naquele momento, Shaoran se sentia tentado a pedir que Sakura ficasse ao seu lado. Mas mesmo que não possuísse mais em si o dom da magia como confirmara segundos depois de despertar e não conseguir realizar nem mesmo o mais simples dos feitiços, ainda era um príncipe, e como tal faria de tudo para que seu povo não sofresse por seu egoísmo.

Agora, enquanto via as lágrimas tornarem os olhos de Sakura tão belos quanto duas esmeraldas, ele se segurava para não abraçá-la, pois sabia que aquilo apenas tornaria a despedida ainda mais dolorosa.

- Isso não é justo, Shaoran! Não é! – ela escondeu o rosto entre as mãos, e mesmo querendo parecer forte, naquele instante Shaoran derreteu.

- Sei disso, minha flor. – ele sussurrou e a puxou para um abraço. – Mas ainda que não seja justo, foi a decisão que tomei naquele momento. Não podia deixar que nosso filho permanecesse morto por um mero capricho.

- Não se trata apenas de um capricho, você... deixou de lado sua magia. – ela engoliu o choro. – Mas entendo porque o fez e eu não teria agido de maneira diferente. Se pudesse, teria tomado seu lugar, mas fui tão inútil! – ela escondeu o rosto sobre o peito dele.

- Não diga isso, Sakura. Se não fosse sua presença ali naquele momento, eu talvez não tivesse tido forças para curá-lo! – ele apertou com força os punhos.

Já fazia alguns dias desde que a batalha havia acontecido, e embora tivesse se esforçado muito, Shaoran não mostrara indícios de que sua magia se recuperaria. Sakura até então adiara ao máximo sua partida, mas sabiam que se ela se estendesse por tempo demais, jamais iria querer ir embora. Aquele dia era o dia da cerimônia que coroaria Nihel como o novo rei daquele local, assumindo o trono que lhe era de direito e Sakura e Shaoran estariam presentes, pois mesmo que não fossem seus pais naquela dimensão, ainda assim eram seus pais e Nihel fizera questão da presença dos dois.

- Mesmo assim... – sua voz saiu rouca e ela ergueu o rostinho para Shaoran. Seus olhos estavam ligeiramente vermelhos, mas isso apenas servia para acentuar-lhe o verde com maior intensidade.

- Shh.. – ele repousou o indicador sobre os lábios dela e em seguida a própria boca. Abriu um sorriso singelo, dócil, do tipo que Sakura vira por raras vezes. – Tudo o que temos que decidir é o que fazer com o tempo que nos é dado¹. Então vamos aproveitar ao máximo, tudo bem?

Ela concordou com a cabeça, e passou a mão sobre os olhos. Ainda era tarde e faltavam algumas horas para que a cerimônia, de fato começassem, mas Sakura deveria retirar-se para começar a se arrumar, e Shaoran deveria fazer o mesmo.

- Não tiveram mais notícias a respeito de Eriol? – Shaoran questionou, erguendo-se e indo até a janela.

Sakura balançou a cabeça em negativa.

- Ele simplesmente desapareceu como se fosse poeira. Os seguidores de Nihel seguiram até o ponto mais extremo do reino e ele mesmo foi pessoalmente mas nada encontraram. É como se nunca tivesse existido.

Shaoran suspirou profundamente. Sentia-se tentado a abordar um tópico em especial, mas tinha receio do que Sakura acharia caso perguntasse. Não precisou caminhar até ela, pois a feiticeira foi até ele, agarrando-o pelo braço.

- Nada se sabe a respeito do livro também. Mas tenho o pressentimento de que o veremos logo. – Sakura respondeu.

- A respeito do que Eriol disse naquele dia...

- Não se preocupe. – ela o cortou. – Sei que você me ama agora, Shaoran-kun. E eu te amo também. – ela sorriu docemente para ele e deu-lhe um selinho leve. – Vou me arrumar, e sugiro que faça o mesmo. Temos que estar apresentáveis para a coroação do nosso filho.

- Certo. – Shaoran acompanhou Sakura com os olhos enquanto ela deixava seu quarto e voltou a olhar pela janela. – Onde você está... Eriol?

X

Nihel sentia-se nervoso com a perspectiva de assumir o novo reino. Pessoas de todos os cantos daquele continente haviam sido chamadas para a coroação daquele que outrora fora reconhecido como um dos maiores rebeldes daquela era, mas nenhum deles se interpôs quando souberam que o filho dos antigos reis agora assumiria o posto que lhe era de direito.

'Está nervoso?'

Após a fusão com Silver, Nihel estranhara um pouco o fato de não ter mais os próprios pensamentos somente para si. Fora um difícil tempo de adaptação, mas agora havia se acostumado com a idéia de sempre tê-lo em sua mente. Não era tão ruim quanto fazia parecer, pois desta forma ele tinha certeza de que nunca mais estaria sozinho novamente.

- Um pouco. – respondeu baixinho. Embora não precisasse projetar nada além de seus pensamentos, as vezes gostava de respondê-lo em voz alta como se aquilo afirmasse que não eram um só.

Quando o último botão de sua roupa estava abotoado, três batidas foram ouvidas na porta de seu quarto. Nihel voltou o olhar naquela direção e respirou fundo.

- Está aberta.

A porta abriu-se e Nihel surpreendeu-se ao ver Shaoran vestido como um verdadeiro rei. Embora o tivesse visto por retratos muitas vezes, a visão era completamente diferente quando ele era tão parecido consigo antes de sua transformação. Um garoto vestido tão elegantemente e com um porte que Nihel tinha a certeza que jamais possuiria. Seu pai tinha todas as características de um rei, desde sua altivez ao olhar duro, mas ao mesmo tempo complacente para aqueles que lhe conhecem realmente. Ainda assim, embora pouco tivessem se falado desde que o conhecera, Nihel podia detectar a tristeza em seus olhos, pois sabia que por sua culpa, seu pai jamais poderia usar magia outra vez e por isso não poderia voltar para casa com sua mãe. Abaixando o olhar, Nihel suspirou enquanto calçava as luvas. Desde que haviam saído da batalha, não tivera coragem de olhar no rosto do pai.

- E-eu.. – Nihel balbuciou, sua voz baixa demais. – Eu sinto muito.

Shaoran balançou negativamente a cabeça enquanto se aproximava do filho. Os cabelos de Nihel haviam sido cortados de modo que a semelhança entre os dois voltara a ser gritante, exceto pela cor prateada que os cabelos de Nihel possuíam agora. Repousou então a mão no ombro do filho e apertou-o com firmeza, enquanto sorria.

- Estou muito orgulhoso de você, meu filho. Não existe motivos pelos quais precise se desculpar. Um pai tem que fazer o que um pai tem que fazer, e eu jamais deixaria você morrer se tivesse a chance de te salvar. Sei que será um grande rei.

- Mas.. mas com você aqui eu não preciso assumir o trono! Você está vivo, pai!

- Não, Nihel. Esta é sua realidade, o seu mundo. É você quem precisa fazer isso, meu filho, e tenho certeza de que não me decepcionará.

Talvez fosse a coragem na voz de Shaoran, ou a certeza que ele lhe passava, Nihel nunca soube dizer. Mas com as palavras dele colocadas daquela forma, tinha certeza de que era verdade. De que seria um ótimo rei.

X

A cerimônia iniciou-se pontualmente as oito horas da noite. Pessoas de todo reino chegavam para prestigiar com louvor a coroação de Nihel, o filho dos lendários reis que haviam morrido para salvar seu povo. Com Shaoran e Sakura ao seu lado, tudo parecia perfeito e Nihel se sentia mais realizado do que nunca em saber que poderia fazer tudo por seu povo, assim como seu pai.

Durante o jantar, trocaram conversas, e várias perguntas foram feitas a respeito de como Nihel administraria seu reino. Apesar de ser muito jovem, ele parecia ter certeza do que queria, e faria de tudo para ter recursos para realizar seu trabalho.

Quando todas as pessoas haviam se fartado, Nihel levantou-se e bateu o garfo suavemente sobre a taça. Todos os olhares se voltaram em sua direção, inclusive o de seus pais, cada um sentado a um lado seu.

- Receio que esta seja a hora de nos dirigirmos para a sala do trono. Já está ficando tarde e tenho certeza que muitos de vocês ainda precisarão fazer longa viagem ao amanhecer.

Com essas palavras e guiados pelos guardas, todos se dirigiram para a sala onde a coroação aconteceria. A pedido de Nihel, Sakura e Shaoran encontravam-se ao seu lado e seria seu próprio pai o responsável por realizar sua coroação.

O silêncio instalava-se sobre a sala do trono, enquanto Shaoran tomava a espada de Nihel. Uma espada que um dia, naquela dimensão, havia sido sua, mas que agora era de seu filho. Uma espada que não mais lhe obedeceria, pois agora não possuía mais o poder da magia e não era digno dela. Por mais que lhe doesse pensar desta forma, Shaoran sempre sentiria falta do poder mágico que por anos fizera parte de sua vida. Era como ter perdido uma parte de si, o que não deixava de ser uma verdade para o jovem Shaoran.

- Ajoelhe-se, Nihel. – sua voz era austera e firme. A voz de um verdadeiro rei.

- Meu senhor. – Nihel respondeu a Shaoran, colocando-se apoiado sobre um dos joelhos. Manteve a cabeça baixa, esperando as palavras de seu pai.

- Com o poder que me foi concedido... – ele começou a murmurar. - ... passo agora a você, Nihel, descendente direto de Leed Clow, o trono do reino Estrela, que foi nascido da união do reino do Sol com o reino da Lua, através do casamento de seus pais. Com esta espada, que me foi passada através de gerações por nossa família, você defenderá nosso povo, jurando lealdade ao reino que agora é seu.

Shaoran tocou os ombros de Nihel com a espada e então o topo de sua cabeça, entregando-a ao filho quando ele lhe estendeu as mãos. Pegou então a coroa da almofada segura por Nihel e colocou-a sobre sua cabeça.

- Seja para esse reino o rei que não pude ser para o meu.

- O rei que ainda será. – Nihel corrigiu.

Shaoran não podia deixar de se orgulhar do filho que tinha. A cada gesto, cada palavra dele, parecia mais e mais determinado a defender o orgulho de seus pais e de seu reino. Aquilo bastava para Shaoran saber que não havia feito a escolha errada ao deixar seu filho assumir o trono mesmo ele sendo tão jovem quanto ele era naquele momento. Nihel já havia vivido muita coisa, tivera que amadurecer cedo com a perda precoce de seus pais, além de carregar consigo a responsabilidade de vingá-los e de recuperar o trono que era seu por direito. Muito cedo ele havia aprendido o que significava lutar para sobreviver. Somente nesse momento, Shaoran sentira como era privilegiado de sempre estar protegido atrás dos portões de seu castelo. Balançando positivamente a cabeça, olhou para o filho – agora rei.

- Levante-se, rei Nihel, e governe seu povo.

Quando Nihel ergueu-se, houve uma explosão de aplausos por parte de todas as pessoas presentes no local.

- Prometo que não os decepcionarei!

As palavras de Nihel perderam-se em meio à multidão enquanto ele era carregado por diversas pessoas para outro local. Shaoran deixou que fossem, acompanhando o filho apenas com o olhar. Sabia que essa festa ainda iria longe, mas preferiu retirar-se para os próprios aposentos, pois ainda não estava completamente recuperado da batalha, muito embora já fizesse algum tempo desde que esta havia se encerrado.

Caminhando pelos corredores daquele imenso castelo, observou os quadros de seus antecessores – inclusive o próprio quadro – e demorou-se com o olhar em Leed Clow. Pensou em quantos problemas ele havia lhes causado até o presente momento, mas também em como era agradecido a ele, pois se não fosse por isso, talvez jamais tivesse descoberto a respeito do amor incondicional que sentia por Sakura. Shaoran tocou a borda do quadro por um momento, e lembrou-se que tudo que ele queria era a união de seus filhos; agora estavam reunidos novamente. Sorrindo, caminhou na direção do próprio quarto, sua capa farfalhando a cada passo.

Não podia deixar de sentir-se triste por saber que Sakura partiria em breve, mas ainda assim feliz por ter sido capaz de viver tudo aquilo com ela. E mesmo que nunca mais pudesse vê-la depois do dia de sua partida, Shaoran tinha plena certeza de que aqueles momentos, assim como os momentos em que ouvira ela cantar sem de fato saber que Sakura era seu Anjo, jamais se apagariam de sua memória.

Ao abrir a porta de seu quarto, Shaoran caminhou até o criado mudo e abriu-o, apanhando a harpa que ganhara de Sakura alguns dias antes. Ela lhe dissera que agora que não podia mais praticar a magia, talvez devesse se dedicar mais a musica. Shaoran começava a pensar que aquilo seria uma forma de distração, pelo menos em momentos em que precisasse somente pensar nela. Sentando-se ao pé da janela, deixou que os dedos corressem pelas cordas da harpa, ouvindo o som escapar delas. Seus olhos fecharam-se e imediatamente, Shaoran deixou-se levar pelo som produzido pela harpa. Sua melodia era doce e suave como o sabor de balas de caramelo estalando no céu da boca. O sorriso de uma lua minguante o acompanhava, iluminando parcialmente em seu rosto, e fazia Shaoran lembrar-se da primeira vez em que ouvira seu Anjo cantar ao outro lado do rio que separava seus reinos. Tão próximos, mas tão distantes que Shaoran achou que jamais fosse encontrar o ser que possuía uma voz tão bela.

Perdido em seus devaneios enquanto tocava, Shaoran não notou quando uma sombra adentrou sutilmente em seu quarto, fechando a porta em seguida. Não notou os passos silenciosos em sua direção, mas sua atenção voltou-se completamente para ela quando ouviu a voz tão bela deixar seus lábios, acompanhando sua canção. Com um pequeno sorriso nos lábios, Shaoran continuou a tocar enquanto observava seu Anjo aproximar-se. Sakura podia não ter asas, mas para Shaoran a garota sempre seria a luz que havia lhe salvado de sua escuridão. E, de certa forma, Sakura também pensava o mesmo enquanto cantava junto de seu amado Shaoran. Ele era o norte que faltava em sua vida, dando-lhe um rumo e uma direção. E talvez por essa razão agora lhe doesse tanto saber que teria que deixá-lo. Preferia mil vezes abdicar o trono e viver uma vida simples e feliz ao lado dele, pois sabia que juntos nada lhes faltaria.

Ainda assim, como princesa e futura rainha, ela sabia que não podia deixar suas obrigações de lado mesmo que isso custasse sua felicidade. Essa havia sido a razão de ter se casado com Shaoran. Era uma ironia que agora essa fosse a razão de separá-los.

Quando a última nota escapou da harpa de Shaoran, o olhar de ambos se encontraram. O silêncio pingava entre eles como o início de uma tempestade, e nenhum deles parecia ser capaz de encontrar as palavras certas para aquele momento. Sakura sentia o coração martelar fortemente no peito quando aproximou-se dele, finalmente decidida sobre o que deveria fazer. As mãos anormalmente gélidas tocaram o rosto de Shaoran e o desenharam completamente com os polegares como se desta forma pudesse memorizá-lo para sempre. Ela então repousou o lábio sobre os dele em um selinho demorado e o abraçou, colando seu corpo ao de Shaoran. Seus corações batiam em sincronia, ambos podiam sentir isso, assim como haviam sentido no dia em que tinham salvado Nihel; a magia dos dois confluindo para o único objetivo que lhes era importante naquele momento.

Os lábios de Sakura roçaram o supercílio de Shaoran e desceram lentamente por seu rosto, trazendo ao garoto a sensação de impulsos elétricos correndo por todo seu corpo. Ela então pousou a boca sobre a orelha dele e sussurrou as três palavras que ele jamais esqueceria:

- Eu te quero. – não tão doces quanto um eu te amo, mas mais fortes do que uma maldição. Shaoran voltou os olhos para ela, talvez incrédulo com as palavras de sua esposa.

De certa forma, nunca tinha pensado em Sakura como tal. Nem sequer cogitara a possibilidade de levá-la para a cama em sua noite de núpcias, mas agora a oportunidade era extremamente tentadora. Ainda que contra seus desejos, ele a encarou nos olhos tocando-lhe o rosto.

- Tem certeza disso? Talvez nunca mais possamos... – ela o calou com um beijo rápido.

- Eu tenho.

Ele respirou fundo e fechou os olhos por alguns segundos, antes de tornar a olhá-la. Lentamente, aproximou o rosto do dela, seus lábios roçando sobre os de Sakura. Beijaram-se com paixão, enquanto Shaoran deixava a harpa repousada sobre o batente da janela, e um dos braços envolvia a cintura de Sakura, colando mais seus corpos. Sakura o puxou, aprofundando o beijo e os dois foram caminhando a passos trôpegos até a cama, ao tempo que ela desabotoava os botões da camisa de Shaoran. Ele a tirou com certa pressa e deitou-se sobre Sakura, vendo que os olhos dela corriam por suas cicatrizes.

- Quando foi...?

Ele balançou negativamente a cabeça, brindando-a com um de seus sorrisos mais dóceis.

- Não importa agora. Nada mais importa.

Ele desceu os lábios pelo pescoço de Sakura, baixando lentamente seu vestido enquanto a beijava ali, descendo devagar para seu ombro. Observava com deleite as curvas do corpo dela, desvendando-as a cada vez que baixava mais suas vestes. Sakura tremia levemente, mas fazia o mesmo, despindo-o com cuidado, ainda que um pouco atrapalhada. Mas Shaoran lhe dava toda a segurança que precisava sentir e a total certeza de que era aquilo o que queria para si.

- Eu te amo, Sakura... – ele sussurrou baixinho, ao pé de seu ouvido.

- Eu te amo também, meu querido Shaoran...

Suas vozes se perderam ao meio da noite, enquanto juntos descobriam um ao outro, muito além dos prazeres da carne. Descobriam-se de corpo e alma, como verdadeiros amantes e desta forma sabendo que a alma nada mais era que a extensão dos sentimentos que um possuía pelo outro.

Ao longe, a lua era a única testemunha da cumplicidade que acontecia entre os dois dentro daquele quarto. Shaoran tinha razão: nada mais importava.

X

- ATAQUE! – foi assim que despertaram na manhã seguinte. Shaoran sobressaltou-se e pulou da cama. Vestia somente uma calça larga de moletom e mantinha os olhos semi-cerrados, incomodado com a claridade que vinha de sua janela aberta.

Sakura, ainda enrolada nos lençóis, levantou a cabeça um pouco sonolenta, mas o segundo aviso de ataque foi o suficiente para despertá-la.

- ERIOL ESTÁ AQUI!

- Mas o que..? – Shaoran voltou o olhar para Sakura, vendo que a jovem já se vestia.

- Temos que ir até lá.

- Certo.

Os dois vestiram-se e Shaoran pegou um sabre que estava ao lado de sua cama, seguindo com Sakura pelos corredores. Pelo alvoroço, não foi difícil descobrirem de onde vinha o suposto ataque, mas ao chegarem lá, apenas viram Eriol flutuando sobre a janela da sala do trono, o eterno sorriso de Cheshire pregado em seus lábios.

- Olá, meus queridos, espero que tenham tido uma boa noite. – o olhar dele recaiu sobre Sakura e Shaoran e os dois desviaram o olhar, constrangidos com a situação.

- O que você quer aqui? – Nihel perguntou, sacando a espada que outrora pertencera a seu pai.

- Talvez vocês devessem escutá-lo. - uma voz conhecida pairou no ar e todos se voltaram em direção à porta para deparar-se com Mizuki, a suposta vendedora de remédios que durante todo o caminho ajudara Shaoran e Sakura em sua viagem.

- Mizuki? Por que deveríamos escutá-lo? Ele é nosso inimigo! – Sakura exclamou. Porque, de certa forma, criara uma afeição especial por Mizuki e além disso, Nihel só estava vivo graças aos conselhos dela.

- Tem certeza disso, minha cara Sakura? – Eriol ajeitou os óculos, e o reflexo deles incomodou a feiticeira. – Vocês não acham que... se eu realmente fosse inimigo de vocês não os teria matado desde o início? Eu precisava de vocês aqui, precisava que compreendessem a importância da união e do amor de vocês para que somente então pudessem, de fato, receber o meu poder. É por isso que estão aqui.

- Então foi você quem nos trouxe para cá? – Shaoran deu um passo à frente, encarando Eriol. Sua expressão não era amigável. – Por que não nos disse ao invés de causar todo esse infortúnio? Alguém podia ter morrido e muitas pessoas sofreram por conta de suas tiranias.

- Era preciso que existisse um grande vilão nessa história para que vocês pudessem crescer. Ainda não estavam preparados para tudo o que ia acontecer em suas vidas e eu jamais pretendi matar ninguém, pois acreditava no potencial de meus sucessores. Nihel foi além disso, sendo capaz de realizar um ritual e de sacrificar-se por seu povo. Ele me provou que é um rei digno e bondoso, capaz de tudo para proteger seus ideais. Isso é importante.

- Ainda assim, eu... – Shaoran desviou o olhar, cerrando os punhos com força.

- Infelizmente, o preço de nossa batalha foi alto. Eu não pretendia que sua magia fosse extinguida, mas não tiveram outra escolha e por isso Mizuki foi obrigada a intervir. Vim até aqui, Sakura, para entregar-lhe o livro que por direito é de vocês.

Eriol aproximou-se de Sakura e Shaoran estendendo o livro que outrora pertencera a Leed Clow. Sakura encarou o livro com certo ódio e pensou em recusá-lo, mas por fim segurou-o entre as mãos. Pensava que se não fosse por aquele livro, talvez nunca tivesse sido tão feliz ao lado de Shaoran, mesmo que agora estivesse tão perto de perdê-lo. Ela balançou negativamente a cabeça, procurando não pensar nisso.

- E mais uma coisa... você deve partir em breve, Sakura, ainda hoje. A ponte entre nossos mundos é muito frágil e o caminho não ficará aberto por muito mais tempo.

- Mas...!

Eriol abaixou o rosto por um momento e ajeitou os óculos sob a ponte do nariz.

- Eu sinto muito.

Sakura pensou em dizer coisas horríveis a ele. Mas o olhar dele, o sofrimento que passava através de sua expressão por tudo o que havia feito contra ela e Shaoran havia lhe tocado profundamente. E também parecia ter tocado a Shaoran, pois ele lhe apertara a mão.

- Não se preocupe com isso. Nada do que fiz neste mundo me causa arrependimento. Decerto devo lhe agradecer, pois é graças a tudo o que você fez que hoje estou aqui com a mulher que amo. E não importa o quão distantes estivermos, sempre estaremos juntos.

- Shaoran... – Sakura o encarou, as lágrimas presas em seus olhos, prestes a cair.

- Nihel. – Eriol aproximou-se do jovem. – Sei que você será um rei melhor do que eu poderia ter sido como tirano. O livro de sua família está neste castelo, você o encontrará em breve.

Nihel acenou com a cabeça.

- Não existe mesmo uma maneira de meu pai retornar com minha mãe?

- Infelizmente não. – Eriol suspirou. – Você deve partir logo, Sakura. Lhe darei tempo para que arrume suas coisas e te levarei até o portal.

Sakura sentiu um aperto em seu peito, como se o ar começasse a ser tirado de seus pulmões através de uma pequena agulha. Não queria deixar Shaoran, mas seu mundo lhe esperava.

- Eu estou pronta.

Shaoran apertou mais a mão dela. Era melhor não prolongar o sofrimento, ainda que quisesse congelar o tempo agora somente para estar com ela para sempre.

- Vamos.

As lágrimas começaram a correr dos olhos de Sakura muito antes de chegarem ao portal.

X

Ele encarou os ombros dela se movendo, lembrando-se de todas as vezes que ela havia chorado durante as competições de bruxaria que tinham entre seus reinos. Lembrou-se de como ela jurou que ficaria forte para um dia vencê-lo diante de toda aquela multidão e sorriu ao lembrar-se de que agora ela era sim muito forte, forte o suficiente para vencer qualquer desafio que se colocasse em seu caminho. E ainda que fosse forte para isso, seus ombros continuavam se movendo, a tristeza continuava cercando-a agora que teria que retornar para seu mundo sem ele.

Durante todo o percurso refletira sobre as palavras de Eriol. Mesmo que ele dissesse que não havia um jeito de retornar junto de Sakura, Shaoran tinha certeza de que seu antecessor não o deixaria na mão, pois queria ele ao lado de Sakura. Ele lhe devia isso. Shaoran precisava retornar. Por ela. Por seu reino. Por seu amor.

- Sakura.

Ele a chamou quando ela estava a ponto de entrar no portal. Já era possível ver o mundo de ambos do outro lado. Um mundo em que Shaoran talvez jamais pudesse retornar. Sakura parou e engoliu o choro como se não quisesse demonstrar fraqueza para seu amado Shaoran, mas ainda que ela tentasse, ele viu as pupilas engolirem o mar de esmeraldas que eram seus olhos. Admirava aquela beleza e tudo o que aquela noite em especial havia representado para ambos.

- Eu vou voltar.

Sakura o encarou nos olhos. E era aquela doçura que ele conhecia tão bem. A doçura de uma flor de cerejeira que fora responsável por originar o nome daquela jovem feiticeira. Ela o encarou e soube que o que ele dizia não eram apenas palavras de conforto. Shaoran não era assim. Sorrindo, ela limpou as lágrimas dos olhos com as costas da mão e meneou positivamente a cabeça.

Havia cumplicidade entre os dois. Aquela cumplicidade que só nasce depois de muita confiança e muita compreensão. Uma cumplicidade que vinha desde os tempos de rivalidade, que dava a certeza de que mesmo que estivessem distantes, ainda estavam próximos um do outro e não mais o contrário.

- Vou te esperar.

Então, adentrou no portal.

X

N/A:

Durante muito tempo, eu pensei em como seria o fim dessa fic. Achei que seria fácil terminar um trabalho que me deu tanto prazer, mas eu vi que o fim nunca é simples. Eu bati com a cara no teclado por cerca de um mês, pensando e repensando, revisando cenas, relendo partes que não achava estarem tão boas assim.

De certa forma, eu não sei como me sinto depois de tanto tempo de trabalho. Sei que por muitas vezes eu pareci deixar essa fic de lado, mas eu prometi que eu levaria esse trabalho até o fim e não deixaria meus leitores na mão.

Nesse fandom eu aprendi o que significava perseverança e compreensão, porque por muitas vezes eu realmente pensei em desistir, mas muitas pessoas me apoiaram em diversos momentos difíceis da minha vida, como quando meus pais se separaram e quando eu tive que prestar vestibular e fazer cursinho. Até quando a minha cachorra morreu, esse ano, muitas pessoas me apoiaram. E eu agradeço por isso. Muito obrigada.

Eu falhei em medicina. Eu cresci. Passei em segundo lugar na federal pra Medicina Veterinária e me descobri nesse curso. E durante meu período de latência, quando eu voltei a postar – acho que quase um ano depois – meus leitores ainda permaneceram aqui. E com isso eu também aprendi o que era fidelidade.

Então eu dedico o final a todos vocês que me apoiaram, em especial à Ju (e eu sei que ela sabe quem ela é) porque ela é bióloga e diva, e porque durante todo o tempo que eu escrevi essa fic, ela me acompanhou e sempre me mandou reviews que me incentivavam muito. Além disso, eu tinha a fic dela pra me apoiar todas as vezes. Agradeço também à Lily, minha esposa que nunca comenta nessa fic, mas que mesmo assim, por muitas vezes também me apoiou e me ajudou, não só aqui como também com a minha vida pessoal. Ela é uma pessoa extremamente querida pra mim. Extremamente importante na minha vida.

Mas todos vocês que leram e me ajudaram a passar dos cem reviews foram muito importantes pra mim. 266 reviews... eu nunca esperei alcançar um número tão alto assim. Eu nunca esperei ser tão querida assim. Nem nunca esperei que tantas pessoas assim apreciassem o que eu escrevo.

Então, deixando todo esse sentimentalismo de lado, eu agradeço mesmo, e agora vou explicar algumas coisas. Então pra quem tem mania de ler o N/A primeiro...

I

Inicialmente, eu não tinha pensado em deixar o final assim. O Eriol morreria durante a batalha e Sakura e Shaoran triunfariam retornando para o seu mundo com o livro. Mas daí veio o Nihel e toda a história que envolvia ele, e eu decidi que seria muito mais interessante se ele próprio fosse responsável por parcela da salvação do mundo que era dele. Afinal, os pais dele haviam sido mortos por aquela guerra toda. Acho que esse foi um ponto que eu deixei meio solto na história só que eu quis explorar muito mais o Shaoran e a Sakura da outra dimensão do que os reis que eles já eram. Eles simplesmente foram mortos. Uma fatalidade. É um erro comum, tendo em vista o tempo da minha fic.

Eu também não tinha pensado no Shaoran perdendo a magia, mas eu achei que essa seria uma lição importante pra ele, portanto eu escolhi deixar o final assim de forma que vocês possam pensar no que acontece a seguir.

Posso vir a fazer um epílogo, se vocês quiserem um, me deixem comentários pedindo no review que eu faço um. Tenho qualquer coisa em mente.

Não quis descrever um hentai pesado na cena do Shaoran e da Sakura, porque essa fic não é rateada para tal. Além disso, eu não a fiz com esse intuito, então sinto muito se decepcionei os hentai lovers de plantão. Mas eu não sei a idade de todos que lêem minha fic também.

Vejamos... eu farei questão de responder cada review que eu receber por esse capítulo, mesmo que demore um pouco porque estou em época de provas desde que comecei o semestre. Fora isso, acho que alcancei meus objetivos aqui.

Tenho um novo projeto em mente, acho que citei num capítulo anterior. Eu gostei tanto de trabalhar com o Shaoran que vou fazer uma fic mais centrada nele. O nome vai ser 'Dragão chinês' em homenagem à uma antiga fic da Kath Klein que eu amava demais, porque era um crossover de shaman king e CCS. Infelizmente ela nunca continuou a fanfic. Mas eu sou muito fã dela e tenho dito. Deixarei para vocês lerem se quiserem. O primeiro capítulo está escrito.

Fora isso, eu gostaria de me desculpar por todas as vezes que demorei para postar um capítulo e pelo total brochamento que era quando era um micro capitulo. Tentei compensar isso com as 30 páginas que deram nesse aqui.

Enfim, já divago demais.

Obrigada mesmo pelo apoio, gente, se não fossem vocês essa fic nem existiria.

Diendo!