Era tarde, mais especificamente por volta das três da madrugada. As ruas encontravam-se completamente despovoadas e silenciosas, sendo iluminadas apenas pelos postes que contornavam as estradas. Um edifício velho, num canto obscuro da cidade, onde ninguém tinha absoluta certeza se realmente morava ou não alguém, e uma casa abandonada, um ao lado do outro, e entre eles, um escuro beco. Nesse beco, se você tivesse coragem e se aproximasse, e aguçasse sua audição, poderia reparar na presença de dez jovens, alguns em pé, encostados na parede, outros sentados, alguns fumando.

- Entao Reita... Diga-nos, que há de tão importante? - Disse um deles, tinha porte alto, era magro, e vestia roupas compridas e escuras.

-... - estava sentado em cima de uma caixa de madeira velha, que lembrava um pequeno baú, os cotovelos apoiados em seus joelhos. Em sua mão direita, havia um cigarro quase no fim, levou-o ate seus lábios, dando-lhe um último trago, em seguida, soltando-o no chão e o amassando com a sola do sapato. Suspirou e levantou a cabeça, levando o olhar até o outro que estava em pé e lhe tinha dirigido a palavra. - Eu vou voltar pra escola.

- Pff... - Abafou um riso. - Cê só pode tá brincando, né.

- Não... O velho tá torrando a paciência, com algo relacionado a futuro, não que eu me importe com isso, mas ele tá fazendo chantagem.

- E quanto tempo cê vai ficar por lá?

- Não sei, mas acredito que não muito. Vou fazer meu pai admitir que essa foi uma idéia péssima, você vai ver, eu vou ser um demônio nessa escola.

- Contamos com você. Sabemos o quanto é bom nisso. – Riu. - Quando começam as aulas?

- Vou começar amanhã já.

- Boa sorte, vê se aparece aqui amanhã, tente não nos abandonar pelos estudos, eles não vão servir pra nada.

- Relaxa, nada aqui vai mudar.

Estava esparramado na cama, o cobertor estava metade por debaixo do corpo adormecido do loiro, enquanto a outra metade encontrava-se no chão, assim como um dos travesseiros. Entre as cortinas, uma pequena fresta de luz atravessando uma abertura entre os dois pedaços de tecido, e essa mesma iluminação alcançava o rosto de Reita, que em breve, estaria partindo para uma nova vida.

- Acorda, tá na hora. – Falou com uma voz mansa e baixa, um homem que adentrou o quarto do jovem, agora se encontrava sentado ao lado do mesmo, na beirada da cama, levou uma mão ao ombro de Reita e chacoalhou-o de leve. – Vamos, filho, eu te levo.

-...- Acordou, mas permaneceu imóvel, olhando reto. – Eu não quero ir.

O homem suspirou, levou uma das mãos ao seu rosto, respirando fundo, e apertou a ponta dos dedos contra suas têmporas, fazendo lentos movimentos circulares.

- Akira, por favor... – olhou nos olhos do filho com um ar entristecido, com uma expressão que deixava a entender que em poucos instantes iriam escorrer lágrimas por aquele rosto já envelhecido. – Pensei que já tivéssemos conversado por isso.

- Não sei por que me quer nessa droga de escola, não vai mudar nada na minha vida. – O homem abaixou a cabeça, e permaneceu quieto. -... Tá, me espera lá fora pra mim me arrumar, por favor?

- Vou estar no carro.

Levantou completamente a contragosto, seus olhos insistindo em fecharem, estavam ardendo de sono, ele havia chegado à apenas uma hora em cara. Sentia-se arrependido de ter realmente voltado para casa, podia ter ficado na rua, aí não precisaria ir pra escola agora. Bom, talvez não teria sido uma tão boa idéia, afinal, teria que ouvir seu pai chorar novamente assim que voltasse para casa.

Espreguiçou-se, selecionou uma roupa qualquer de dentro do guarda roupa e foi pro banheiro, se arrumando rápido lá dentro. Nunca foi caprichoso, nem se importava tanto com a aparência, apenas de vez em quando descoloria o cabelo, mas nada de muito diferente.

Atravessou a casa, indisposto, seus pés arrastavam no chão, seus olhos inchados insistiam em se fecharem sozinhos a cada segundo, o cabelo despenteado, enfim, estava um caos. A ultima coisa que queria na escola era uma boa impressão.

Chegou à garagem e foi até o carro adentrando-o, onde seu pai já o aguardava. Sentou no banco do passageiro e aguardou a partida.

O homem apenas olhou para o filho e sorriu, em seguida voltando à atenção para o volante.

- Obrigada.

Permaneceu imóvel. Ficou a observar todos aqueles jovens que adentravam a escola, acompanhados de colegas, conversavam animadamente. De certa forma, ficava desconfortável entrar sozinho. Bom, não pretendia passar mais de dois dias nessa escola, portanto, fazer amigos seria a ultima coisa de que iria tentar fazer.

Passou pelos corredores ainda recheados de alunos, retirou um papel do bolso em que nele, estava escrito o nome de sua sala. Atravessou o corredor inteiro e não encontrou, estava ficando irritado. As pessoas já começavam a entrar em suas respectivas salas nesse momento, enquanto ele, nem tinha achado a sua própria.

- Precisa de ajuda? – Disse um jovem, aparentemente muito mais baixo que Reita, porém não mais velho.

-... – Reita olhou feio, não estava contente com tudo aquilo, mas era melhor que encontrasse logo a sala. – Onde é essa sala? – Entregou-lhe o pequeno pedaço de papel.

- Oh! – Sorriu. – É a mesma sala que a minha, venha, me siga! – Subiu saltitante algumas escadas a cima, sendo observado por Reita que o olhava inexpressivo.

Ao contrário do mais baixo, Reita subiu as escadas tranqüilamente, até porque não queria chamar mais atenção do que já chamava, afinal, ele era o único desajeitado e sem o uniforme da escola do local, não gostava do fato de todo mundo se vestir igual.

Ao chegar em frente à porta onde o outro se encontrava, hesitou um pouco antes de por a cabeça para dentro da sala e se deparar com todos aqueles alunos, uniformizados e alegres. Não parava de se perguntar "mas o que raios eu estou fazendo aqui?".

- Bom... Essa será sua sala de hoje em diante, pelo jeito você é novo aqui não é? – Sorriu, roubando a atenção de Reita. – Nunca te vi antes.

- Ah... Sim. – Apenas respondeu antes de começar a procurar com os olhos uma mesa vazia dentro da sala.

- Me disseram que a nossa sala é a que mais tem alunos na escola inteira, mas a maioria que está aqui reclama que só tem homens. – Riu. – Tem um lugar vago ao lado do meu, porque não senta lá? Podemos tacar bolinhas de papel nos professores juntos!

-... – Reita o olhou estranho. Tacar bolinhas de papel nos outros? Mas que raios é isso, quer dizer, tinha alguma graça tal ato? Suspirou, achou melhor não causar muita confusão nos primeiros minutos na escola. – Ta, onde você ta sentado?

- Ah, me segue! – Sorriu e segurou no braço de Reita, guiando-o para o seu lugar, criando uma expressão de amargura o rosto do mesmo.

Reita jogou a mochila no chão ao lado da mesa vaga de qualquer jeito, sentou-se na cadeira e deixou sua cabeça cair em cima da mesa, contornando-a com seus braços. Seus olhos ainda ardiam de sono, não havia dormido praticamente nada. Que absurdo, teria que passar o dia inteiro preso naquela droga de escola com aquele moleque irritante. Ele tinha um astral que o irritava, tinha um sorriso doce que o fazia ter vontade de arrebentá-lo da cara dele com um soco, sem falar nessa última de ele tacar bolinhas de papel em professores, qual é a dele?

- Foi dormir tarde ontem pelo jeito, né? – Falou perto do ouvido de Reita, cutucando-o no ombro com um dedo. – Olha, eu te aconselho a dormir na segunda aula, porque o professor é um saco, ele não liga se as pessoas ficam conversando ou dormindo. Completamente o contrário do primeiro, sabe? Ele é bem brabo, e se ele não for com a sua cara ele abaixa a sua nota pelo resto do ano. – Não parou de falar, enquanto Reita permanecia ainda calado e com a cabeça baixa. – Cara, no começo do ano ele foi uma das minhas maiores vitimas, eu taquei papel higiênico molhado no pára brisas do carro dele uma vez, sem falar nos incontáveis chicletes que já coloquei nas pastas de documentos dele. Ah, não podia deixar de comentar claro das bolinhas de papel, ah, são as minhas prediletas.

- Como é que esse cara não te matou ainda? – Falou Reita, apenas girando a cabeça, deixando um único olho à mostra, falando agressivamente com o intuito de tentar calar a boca do outro.

- Bom, ele não precisa me matar porque ele abaixa minhas notas, como eu comentei com você antes. Esse cara já me deu uns cinco zeros desde o começo do ano, nenhuma nota minha com ele foi acima de sete. – Seu sorriso se perdeu. – No fundo eu me arrependo, no fim não foi a minha imagem que foi prejudicada, e sim de meus pais.

- Pais? Droga, quem liga pra eles? – Desistiu de tentar dormir e apoiou o cotovelo na mesa, colocando o queixo na mão e olhando reto. Esperou uma resposta, mas o outro ficou em silêncio, olhando para as próprias mãos, em seguida se endireitando em sua cadeira.

Perguntou para si mesmo se tinha falado algo errado. Ah, quem liga? Esse cara o estava chateando desde seu primeiro passo nesse inferno de escola, era melhor que tenha calado a boca mesmo. " Quero ir embora, quero ir embora.". Era tudo o que pensava.

Após alguns minutos, entrou um homem dentro da sala, ele usava óculos redondos e azulados, tinha o cabelo perfeitamente cortado em formato de tigela e usava um cavanhaque estranho. Seus olhos eram tão mais apertados que o normal que o deixava com uma aparência meio estrábica. Seu nome era Sasaki. Nome de velho. Sua aparência o incomodava, sua voz, mais ainda, parecia voz de travesti. Como é que um professor desses conseguia meter medo em alguém? Só ameaçando a abaixar notas mesmo, porque se for julgar pela sua aparência, não só assustaria mosca.

- Esse é o professor que eu te falei. – Sussurrou. Para o "alívio" de Reita, o efeito do comentário anterior já havia acabado. – Não o subestime pela sua aparência. Ele é capaz de muito!

- Ta brincando? Esse feio não me mete medo algum.

Disse sem se preocupar em abaixar o tom de voz, fazendo com que a pessoa em questão ouvisse o comentário. Ele imediatamente parou de falar e dirigiu seu olhar ao loiro dono da frase. Ainda em silêncio, se dirigiu até perto da mesa de Reita, olhando-o nos olhos.

- Vejo que temos um novato por aqui. – Olhou-o com reprovação. – Imagino que você não deva ter ouvido falar de mim ainda para ter soltado tal comentário tão baixo. Não deve saber também que eu posso fazer você se arrepender muito. – Virou o olhar para o pequeno garoto ao lado de Reita, que se encontrava com a postura ereta, de cabeça baixa, fitando os próprios pés em silêncio. O homem sorriu. – Peço para que retire o que acabou de dizer.

- Ce só pode ta brincando, né. – Riu. – Por acaso você pensa que é bonito?

- Me diga seu nome.

- Suzuki. – Disse ainda sorrindo. – Akira Suzuki.

O homem nada mais disse, distanciou-se de Reita, olhou para o jovem ao seu lado mais uma vez, soltando um pequeno sorriso malicioso e voltou á frente da sala, continuando sua aula. Reita não prestou atenção em uma única palavra dele, não estava nem aí para ele, suas palavras ou ameaças não o atingiram nem de longe, afinal, era acostumado com coisas bem piores na gangue. Olhou para o garoto do lado. Ele tremia, podia ver o pavor em seus olhos, isso tudo era apenas porque ele abaixou suas notas?

- Ei, você. – Disse Reita, olhando para o baixinho ao seu lado, recebendo seu olhar. Ele parecia tentar disfarçar, mas ainda dava pra notar o medo em cada movimento seu. – Qual seu nome?

- T-Takanori. – Sorriu. – Matsumoto Takanori.

- Saco, que nome enorme. Não tem um apelido não?

- Na verdade, não... – Abaixou a cabeça novamente, e continuou observando os próprios pés, analisando cada curva que fazia seus sapatos como se fossem a coisa mais interessante para fazer.

-... – Reita continuou olhando-o e pensou por uns instantes. – Ruki... – O outro o olhou curioso. – Pronto agora você tem um. Não liga pra esse cara, ele parece um doente.

Eles ficaram se olhando por alguns instantes, Ruki sentiu um alívio muito grande dentro de si, ainda mais quando Reita sorriu para ele e em seguida virou novamente em direção a sua mesa, deitando em cima da mesma novamente. Sorriu de volta, mesmo não tendo mais o olhar do outro. Mesmo que não tenha sido nada, as ultimas palavras de Reita lhe deram um ar de proteção.

Chegou em casa depois de um dia extremamente cansativo. Ele não estava acostumado com isso. Adentrou seu quarto e jogou sua mochila em um canto qualquer, se jogando em cima da cama e olhando para fora da janela. Começou a se lembrar da figura de Ruki, era estranho... A personalidade dele o irritava profundamente, mas quando ele o viu tão frágil e com medo, sentiu um ódio incalculável daquele professor.

Bufou. Não queria mais pensar nesse inferno de escola, quanto mais cedo fosse expulso, melhor. Levantou da cama e saiu do quarto, indo em direção á porta de entrada da casa, iria sair para encontrar a gangue no beco. Ao atravessar a sala, cruzou com o homem que o havia guiado até a escola nessa manhã. Este o olhou com um sorriso tímido.

- Eu comprei seu uniforme, deixei em cima da mesa do seu quarto para você usar amanhã. – Disse baixo, quase num sussurro, como se temesse seu próprio filho, mais ainda com um pequeno sorriso de satisfação.

- Pra que cê comprou essa porcaria? Você acha que eu realmente vou ficar mais que uma semana naquela droga de escola? – Falou agressivamente, arrancando o sorriso do rosto do homem, que apenas olhou para baixo, novamente entristecido.

Por um pequeno instante, ocorreu um flashback em sua mente, a expressão de Ruki ao falar de seus pais. Por algum motivo lhe bateu um ar amargo por dentro.

- Vê se me leva amanhã de novo, não to a fim de gastar meu dinheiro com metrô. – Falou num tom menos agressivo e saiu de casa. O homem permaneceu ali na sala, fitando a porta, com um pequeno ar de esperança crescendo novamente em seu peito.

O ar pesava com a umidade, parecia que iria chover em pouco tempo. Reita nunca gostou de chuva, achava o cheiro de coisas molhadas asqueroso, portanto, se apressou e correu em direção ao beco, encontrando as mesmas pessoas de sempre.

- Veja quem chegou. – Disse um dos presentes no beco. – Pensei que iria nos abandonar.

- Não seja tolo, Yoshio. – Protestou Reita. – Eu já te falei que eu não vou abandonar a gangue, muito menos por uma droga de escola. Cara, meu dia foi horrível. – Roubou um cigarro de um outro ao seu lado e se sentou no mesmo caixote de sempre.

- Esperamos que tenha sido mesmo. Quando é que vai sair de lá?

- Sei lá, hoje mesmo já consegui arranjar treta com um professor, isso pode ajudar se ele relatar para a diretora.

- Esse é o Reita que eu conheço! Mais barraqueiro que pobre em baile funk. – Yoshio bagunçou os cabelos descoloridos de Reita, o que o irritava muito. – Fez muitos amiguinhos na sua sala? - Riu.

- Pára com isso, Yoshio! – Empurrou o braço do outro. – Ah, tinha um cara me chateando lá, não parava de falar um segundo.

- Vai me dizer que bateu nele?

- Eu não, por que bateria?

- Bom, é o que você normalmente faz quando não vai com a cara de alguém. – Roubou o cigarro da mão de Reita. – Uma criança como você não deveria fumar tanto.

- Cala a boca! – Reclamou Reita, arrancando um riso do outro.

De fato, era estranho que ele não tivesse cometido nenhum tipo de agressividade contra Ruki, afinal, era de sua natureza bater em qualquer um que o irritasse. Algo naquele rapaz o incomodava de um jeito diferente, não sabia dizer como. Ele era o ódio materializado na visão de Reita, era o oposto de tudo que ele gostava. Mas a sensação que teve quando o professor o amedrontou àquela hora foi de querer proteger, algo impossível para Reita. "Tenho que me distanciar desse cara, fico pensando essas coisas sem sentido algum", falou para si mesmo. Deu uma ultima tragada em um cigarro qualquer alheio e foi para a casa. Afinal, no dia seguinte, teria aula.