Um Eterno Amanhã

Capítulo 1:

A Discussão

Ela estava na janela, observando a noite. Em seus negros olhos, se refletia a imagem da lua, brilhante e soberana, juntamente com as estrelas, povoando a imensidão azul do céu. Seus olhos brilhavam, enquanto pegava-se deslumbrada. Nada havia de mais bonito, em sua concepção, que uma noite estrelada, adornada pela luz do luar, suave e requintada.

Mas as preocupações perturbavam sua mente, enquanto se lembrava da seriedade na voz do pai, ao dizer que teriam uma conversa, após o jantar. Queria ficar a observar o céu durante toda a noite, ao invés de ir conversar com ele. Afinal, o que poderia lhe falar, de tão importante? Será que não podia esperar o dia seguinte?

- Vossa Majestade lhe espera, senhorita. Por favor não demore. - Falou um de seus servos - Disse-me que era de extrema importância.

- Certo, fico muito grata. Pode ir, logo estarei lá. Diga-lhe que vou me demorar apenas mais alguns segundos, Miyako - Retrucou a moça, que antes observava o céu.

- Sim, senhorita. - Retrucou o outro, polidamente, se retirando.

Ela trancou a porta do quarto e puxou as cortinas, pegando seu vestido. Despiu-se, vestindo um modelo muito belo. Sentou-se diante do espelho, penteando as compridas madeixas, graciosamente. Observou sua imagem, desinteressada. Tinha olhos escuros como a noite, cabelos que lhe caiam até quase a cintura, negros e sedosos. Usava um belo vestido branco, que lhe ia até os pés. Colocou apenas um cordão dourado, enquanto perfumava-se com uma fragrância floral, sua preferida. Calçou seus sapatos de salto, cintilantes, de coloração prateada.

Saiu do quarto, descendo as escadas, elegantemente. Tinha que manter a pose, mesmo dentro de sua casa, afinal era uma princesa... Mesmo que não fosse o que desejava. Seu desejo era ser apenas uma mulher comum, sem todos aqueles criados, sem aquele castelo enorme e sem todas aquelas regras de etiqueta que eram rigorosamente seguidas e repassadas durante os séculos.

Chegou à porta do escritório de seu pai, sendo abordada por um criado, que se dirigiu a ela:

- Kikyou-sama, vossa majestade a aguarda. Acompanhe-me, por favor. - Seguiram até dentro da sala, e o homem anunciou - Com licença. Majestade, A Senhorita Kikyou está aqui.

- Certo, deixe-nos a sós, Hiroshi. - Ele falou, fazendo sinal com a mão.

- Sim, senhor. - Saiu, fazendo uma pequena reverência. A porta se fechou, e o rei levantou-se, trancando-a. Sua filha ficou surpresa: por que fechava as portas? O que haveria de ser tão importante que não poderia ser interrompido?

- Kikyou, minha filha. Você já tem dezenove anos, está na hora de saber de toda a verdade dos fatos. - Ele começou, com seriedade - Sente-se, por favor.

- Há algo de que eu não esteja sabendo? - Kikyou lhe perguntou, sentando-se na cadeira, olhando-o nos olhos.

- Não necessariamente, minha filha. É que tudo o que se ouve são boatos, e quero que saiba tudo vindo de alguém em quem confie. Eu, como representante do Reino Miko, tenho o dever de contar essa história aos meus herdeiros, e treiná-los para assumir meu lugar. Precisa conhecer a história de nosso reino, desde o início. Quero que preste atenção, e que passe essa história aos seus filhos, no futuro.

"O reino Miko surgiu há muito tempo. Há quase mil anos. Naquela época, todos eram livres para ir e vir, humanos e Youkais. A paz reinava, mesmo que houvesse pequenos conflitos. Cada qual tinha seus territórios, e saiam para outros em busca de caça.

O tempo passou, os reinos foram surgindo, como locais de proteção. Com o decorrer dos anos, vários reinos se formaram. O Reino Miko é um dos mais antigos reinos governados por humanos, como já devem ter-lhe contado. Os Youkais passaram a criar os seus reinos, do mesmo modo, começando a separar nossos territórios.

Bem, os anos passaram. Foi exatamente há cinqüenta e cinco anos que tudo isso mudou. Os Youkais e os humanos estavam em paz, até então. A Princesa do Reino "Human's Shrine" desapareceu, sem motivo aparente. Voltou um mês depois, parecia muito mal de saúde. Tinha vômitos, sentia dores, tinha febres e delírios. Foi chamado um curandeiro, que lhes disse que nada havia de errado com a moça, estava, apenas, grávida. Obviamente, eles o mataram por ter dito tamanha heresia. O condenado foi queimado diante de todos por profanar a imagem da princesa.

Vários outros foram chamados, mas poucos vinham e os mais corajosos repetiam que a menina estava grávida. Decidiram, então, interrogá-la. Esta lhes contou que foi raptada por um Youkai, com forma humana, muito bonito e poderoso. Ela declarou que ele a forçara àquilo, que a usara, por isso estava grávida. A declaração comoveu muitos e chocou ao pai da moça, que fez questão de contar o fato a todos os outros reis. Tomou frente num movimento, que daria início a uma guerra, humanos contra Youkais, para acabar com esse suposto abuso.

Nunca se soube se a moça dissera a verdade, e eu, sinceramente, não creio. Sei que a história está incompleta, afinal nem mesmo um Youkai seria louco de fazer tamanho absurdo, sabendo que estava lidando com uma princesa, e que poderia acabar em guerra. Mas minha opinião não vem ao caso nesse momento. Historicamente todos acreditaram nas palavras da humana e os movimentos continuaram.

Bem, sabe-se que a moça teve um bebê hanyou, metade humano e metade Youkai, que foi retirado de seus braços, mesmo que contra sua vontade e sacrificado, logo após seu nascimento. A princesa se suicidou, muitos dizem que de desgosto. Creio que ela amasse a criança, mesmo sendo filho de um Youkai. Minha teoria, é que ela se apaixonara pelo Youkai, e esse bebê era voluntário, mesmo que ela não admitisse. Mas essa é minha opinião, você deve formular a sua.

Voltando ao assunto principal... A guerra foi declarada. Essa é conhecida, até hoje, como "Overdrive". Foi um massacre horrível. Muitos Youkais e humanos morreram, sem exceção. Mulheres, crianças, jovens, idosos, homens, guerreiros ou não. Os reinos foram dizimados, e no fim só sobraram dois: O Reino Monoke, lutando pelo lado dos Youkais e o reino Miko, lutando pelo lado dos humanos.

Bem, a guerra durou cinco anos. Exatamente há cinqüenta anos atrás, o seu avô decidiu terminar com isso. Pediu uma trégua, um acordo, já que os dois perdiam cada vez mais guerreiros e pessoas de bem e aquilo não estava trazendo benefícios para nenhum dos lados. O Reino Monoke pediu-lhe para mostrar sua proposta, também não vendo vantagem em prosseguir com tudo isso. E a idéia de meu avô era bem simples:

Dividiríamos o território em dois domínios. Todos os humanos, que estivessem em poder dos Youkais seriam libertados e devolvidos a ele, e o mesmo seria feito com os Youkais. O domínio do Youkais seria responsabilidade do reino Monoke, e somente dele, todos os sub-reinos que lá houvessem se unificariam. Os domínios humanos, da mesma forma, seriam governados pelo Reino Miko, e tal qual o outro seria completamente unificado. O Monumento da Paz seria construído, como marco da divisão. Os territórios a leste deste, seriam de humanos, sacerdotes ou não, ou seja, propriedade do Reino Miko. Já os a oeste, seriam dos Youkais, ou seja, propriedade do Reino Monoke.

Nenhum humano poderia pisar no território de um Youkai, e nenhum Youkai poderia pisar em território humano. Se um deles fosse encontrado no território do outro ficaria a critério do rei, o destino deste. Poderia ser morto, devorado, escravizado, enjaulado, torturado ou qualquer outra coisa que o rei quisesse. Mesmo que esse fosse um nobre, até mesmo um rei ou um príncipe.

Como você deve ter podido perceber, o acordo foi assinado. O monumento foi erguido, e a guerra chegou ao fim. A paz voltou a reinar e poucos se atreveram a desobedecer às regras e todos que o fizeram foram mortos, sem exceção.

Agora, Kikyou, te chamei aqui para lhe dizer mais uma coisa, ouça com atenção, e não me interrompa, por favor! Como você já deve ter sido informada, o trono real de Miko é de minha família a gerações... Pois bem, eu o assumi quando me casei com sua mãe, terminando com o legado de meu falecido pai. Então você nasceu, Kikyou. Por fim, decidimos que você seria nossa precedente, filha. Escolhemos você já que, como já deve saber, sua irmã foi um tanto, digamos... Inusitada. Não pretendíamos que houvessem mais filhos, portanto, é você que me substituirá."

- Porque não poderia ser ela, pai? Sabe bem que eu nunca nutri qualquer desejo de ser rainha, nunca desejei ser nem mesmo princesa... Porque, então, Kaede não pode sucedê-lo? Será que decisões tomadas nunca podem ser desfeitas, não importam quais sejam as condições? - Kikyou lhe disse, sem alterar a expressão, sempre calma e fria.

- Bem, eu... - Ele hesitou por um instante, sem parecer encontrar resposta plausível para tal pergunta - Kikyou, ela é muito jovem. É irresponsável, não entende nada de administração...

- Bem, poderiam tentar ensiná-la, não é? O senhor poderia gastar algum tempo com ela, e explicar-lhe sobre as coisas. Ela só tem a mim, perdeu a mãe antes mesmo de conhecer, não tem um pai que lhe olhe nos olhos e diga que a ama. Pensa que ela não percebe sua indiferença, pai? Pensa que os olhos inocentes de uma menina, não podem ver a mágoa escondida no fundo de seus olhos? - Kikyou o interrompeu, o tom de voz sério e irônico, ao mesmo tempo.

- Ora, Kikyou. Quem botou essas idéias na sua cabeça? Eu nunca disse que não gostava de sua irmã. Pelo contrário, ela é uma boa menina. Mas isso não vem ao caso...

- Claro que vem pai! Ninguém precisa me dizer, eu vejo em seus olhos que não sente por ela o que sentiu por minha mãe ou o que parecia sentir por mim, quando eu era menina. Como pode ver, eu cresci, vejo o mundo de outra perspectiva, pai, e Kaede já está a meio caminho disto, afinal, ela tem onze anos. Mesmo que você não lhe tenha dado amor, ela o ama e o respeita como uma filha deve ser com um pai. Mas eu fui seu pai, eu fui sua mãe, eu fui sua irmã, e tudo o mais de que uma criança precisa. Kaede não é mais um bebê, pai. Ela cresceu, e o senhor devia parar pra ver isso. - Kikyou novamente interrompeu-o, com a voz tão intocável e superior quanto antes.

- Kikyou, por favor... !

- Eu ainda não terminei. - Ela prosseguiu, os olhos assumindo um brilho maligno - Quero que me diga... Por que não ama a Kaede? É por que mamãe morreu por uma doença, seqüela do parto em que ela nasceu? Ou é por que não queria mais ter filhos, e ela foi, como o senhor mesmo definiu, "inusitada"? Por que então pai?

- Olha, Kikyou, não me faça perder a paciência! Depois conversaremos sobre sua irmã, ok? Essa conversa não tem nada a ver com ela. - Ele respondeu, parecendo esforçar-se para manter a calma.

- Pois, do meu ponto de vista, tem muito a ver. Ela seria mais feliz como rainha do que eu. Eu não nasci pra isso, pai. Não é a vida que quero pra mim, compreenda. Estou tentando fazê-lo ver o erro que está cometendo me indicando pra isso. - Ela retrucou, sem modificar a expressão fria e o tom de voz, sempre controlados.

- FIQUE QUIETA, KIKYOU! - Ele retrucou, gritando, depois diminuindo o tom de voz, ainda elevado - Dá pra parar de falar na droga da sua irmã? Não sabe que eu quero que seja você? Você foi escolhida pra ser rainha, logo que nasceu, e não quero que reivindique o cargo pra dá-lo àquela menina! E ponto final, Kikyou! Quero que me diga, vai ou não comandar o Reino Miko?

- Não, pai, não de bom grado. Não agora nem desse jeito. Espero que compreenda, eu não posso tentar ser quem não sou. E eu não sou uma rainha, já lhe disse. Podem ter-me escolhido para isso, mas não é meu jeito, não é minha vida, não sou eu. Já lhe disse pra falar com Kaede, imagino que o senhor não tenha pressa pra largar suas funções... Espere mais sete anos, e ela será como eu, mas não fará quaisquer objeções. - Ela retrucou, levantando-se, devagar.

- PARE DE FALAR NA KAEDE! EU NÃO QUERO QUE ME DIGA MAIS O NOME DELA! EU NÃO QUERO AQUELA MENINA GOVERNANDO E PONTO FINAL! - Ele gritou, finalmente perdendo o controle.

- Bem, então darei a conversa como encerrada. Se não quer à Kaede, case-se novamente e tenha outro filho. Espere dezoito anos, e ele poderá governar, em nosso lugar, pois não vejo alternativa. Estarei em meus aposentos. - Ela se virou, retirando-se.

- KIKYOU! - Ele chamou, e ela se virou, lançando-lhe um olhar ameaçador, encarando-lhe os olhos - Nossa conversa ainda não terminou. Ainda a terminaremos em breve. Quero que deixe de ser insolente, e se comporte como a futura-rainha que é. Vá, mas não pense que terminamos. Ainda quero ter uma conversa muito séria sobre esse seu comportamento!

Ela se virou, retirando-se, sem mais uma palavra. Observou o lugar ricamente adornado, tristemente. Ela podia ser uma lavradora, uma serva do rei, cozinheira ou qualquer outra coisa. Mas não, era princesa e ainda por cima deveria ser a rainha. Não podia conformar-se. Tinha que viver naquele castelo, ver todas aquelas pessoas trabalhando pra lhe servir, usar sempre palavras bonitas e não podia ser ela mesma...

Seguiu até o quarto de Kaede, os pensamentos a vagar pelos lugares mais inabitados de sua mente. Bateu na porta, perguntando, com um tom de voz doce:

- Kaede-chan, posso entrar? - Não obtendo resposta, adentrou o cômodo. Olhou à sua volta, fechando a porta. Localizou Kaede, deitada na cama, a cara enfiada no travesseiro. Aproximou-se, percebendo que ela chorava - Kaede-chan... O que foi? Porque está chorando?

- Oneesan... - Ela falou, abraçando a irmã, em prantos - Eu... Eu ouvi o que papai disse... Porque ele não gosta de mim? O que eu fiz de errado? - Ela perguntou, soluçando.

- Você ouviu? – Kikyou perguntou, surpresa, sentindo-se culpada por ter insistido no assunto. Magoara a menina ao pressionar o pai e aquilo lhe doía muito – Não fique triste, querida. Ele deve estar muito nervoso, não sabe o que diz... Olha, ele a ama, eu sei que ama. Apenas não sabe admitir isso, querida... Eu sei que não é culpa sua, mas mamãe morreu por causa de uma doença que ela contraiu graças ao seu nascimento... Papai considera sua culpa, mas não é... Mamãe estava fraca, já estava adoecendo com facilidade, não resistiria muito mais... Não chore... – Ela falou, pegando a menina no colo e acariciando-lhe os cabelos.

- Ele disse... Ele disse... Que eu sou uma porcaria... Ele não... Ele não me ama... – A menina retrucou, soluçando, as lágrimas escorrendo pelos olhos.

- Não, não é isso, Kaede-chan... Não chore, vai ficar tudo bem... – Ela falou, abraçando a menina com mais força – Querida, papai está transtornado. Espere um pouco mais, eu tenho certeza de que ele a ama, mesmo que não diga isso o tempo todo...

- T-tá... – Ela falou, ainda soluçando, abraçada a irmã.

- Pare de chorar... Eu tenho uma coisa divertida pra nós fazermos! Se eu te contar um segredo, você não conta pra ninguém? – A menina fez que sim, os olhos cheios de lágrimas – Faz algum tempo, eu tenho treinado arco e flechas lá no calabouço. O lugar é um pouco assustador, no entanto... Eu penso que não terá medo. Eu sou uma ótima arqueira, treinei durante muitos anos escondida de papai. Estava pensando que você já é grande o suficiente pra treinar comigo... Quer experimentar? Eu penso que você vai gostar muito.

- Claro! Eu quero sim, Oneesan. – A menina sorriu, limpando as lágrimas que lhe escorreram pelos olhos – Mas... O papai não vai suspeitar se nós sumirmos? – A menina se mostrou apreensiva.

- Por que ele suspeitaria? – A outra retrucou - Ele nunca notou que eu sumia, e eu pratico há muitos anos... Ele não liga muito pra isso... Está mais preocupado com o reino do que conosco, o que pode ser uma vantagem ou não. – A princesa prosseguiu, sem medir palavras. Sabia que Kaede iria concordar, depois de ouvir sua conversa – Eu tenho um arco pequeno, e o alvo já está lá no meu quarto... Vou buscar as coisas e levar até o quarto de brinquedos, que fica ao lado do calabouço. Fique lá, eu já estou indo, ok? – A menina fez que sim, parecendo mais alegre.

Kikyou se retirou, feliz por animá-la. Seu sorriso lhe valeria o esforço que faria para dar aquelas aulas. Era compensado, afinal era uma alegria pra menina. E tudo o que ela queria era vê-la feliz, especialmente sabendo da tal indiferença e frieza de seu pai, não mais tão estimado. Havia algumas atitudes naquele rei que a intrigavam e irritavam, tornando-a um tanto quanto rebelde, comportamento que os convidados e empregados não podiam perceber, já que nunca levantara a voz pro pai, ou mesmo para qualquer pessoa. Seu tom sempre fora o mesmo, sua arma eram as palavras, palavras verdadeiras tinham mais efeito que qualquer grito, e talvez até mais que uma punhalada.

No tempo que levara divagando sobre a vida suas pernas a conduziram mecanicamente para o quarto. Pegara o alvo, as flechas e os arcos, e já estava bem próxima à porta do quarto de brinquedos quando tornou a lembrar seu real objetivo. Adentrou o cômodo, encontrando lá sua estimada irmã, os olhos brilhando fixos na direção do arco em suas mãos, como se visse um brinquedo novo muito bom, que lhe fora dado de presente.

- Perdão pela demora. – Kikyou falou a ela, que fez um sinal negativo com a cabeça.

- Não demorou, oneesan... Podemos ir?- A menina lhe falou, empolgada.

- Claro, vamos. – A irmã respondeu, o sorriso invadindo-lhe os lábios. Vê-la feliz era uma de suas maiores alegrias na vida, uma das poucas coisas que lhe aquecia o coração e punha um sorriso em seu rosto.

Ela levou a menina até o lugar, segurando sua mão, numa profunda introspecção sobre ela: Kaede no Miko, princesa, filha do grande rei, era uma mera boneca. Era desconsiderada pelo pai, nunca conhecera a mãe, tinha somente a sua irmã pra criá-la. Tinha, agora, onze anos, mas pensava como uma criança de uns oito. Não havia malícia nela, era criada com muitas regalias, e não se incomodava com o que havia a sua volta. Não havia nela o espírito livre, a independência, a garra, a rejeição à tamanha desigualdade e favoritismo, que havia na irmã.

Kikyou não queria ser rainha, não se considerava melhor que ninguém, era apenas uma mulher, como aquelas camponesas que trabalhavam para viver. Kaede tinha uma alma nobre, era acostumada àquele mundo, nunca conhecera a pobreza e miséria do outro mundo, portanto seria feliz governando. Mas Kikyou apenas queria ser uma médica, ou qualquer outra coisa que pudesse a ajudar a população carente do reino Miko. Nem mesmo o amor ao povo lhe dava a remota vontade de ser uma monarca, achava essa tarefa estafante e estúpida demais. Apesar de perder suas regalias, ela preferiria não viver naquele castelo, sem dúvidas.

- Muito bem, estamos aqui. – A mais velha falou, olhando pra menina – Não tenha medo, papai falou que não existem mais prisioneiros aqui há cinqüenta anos, desde que foi assinado o acordo de divisão de reinos. – soltou a menina e pendurou um alvo na parede, num pequeno prego que lá havia – Deixe eu te ensinar. Segure aqui – Ela posicionou as mãos da menina e lhe deu todas as instruções necessárias. Seguindo a orientação da tutora, ela acertou a flecha próxima ao centro - Isso, muito bom pra primeira vez. – Kikyou falou, pegando seu arco – Vou fazer uma demonstração. – Ela posicionou o arco, os olhos fixos no ponto principal. A flecha seguiu em linha reta, deixando um pequeno brilho cintilante, atingindo o centro – Eu aprimorei meus poderes de sacerdotisa. Com o tempo, os seus vão aparecer. Continue treinando.

A menina obedeceu-a e a primogênita orgulhou-se, vendo que ela tinha talento. Talvez ainda pudesse ser uma arqueira divina. Olhou pro local, percebendo como era sujo. Não era um local apropriado para um treinamento, mas ali não seriam descobertas, certamente.

- Kaede – Kikyou chamou, meia hora depois, fazendo a menina voltar-se – Precisamos ir, senão vamos nos atrasar. Venha, voltaremos todos os dias. – A menina se aproximou dela, que retirou o alvo concluindo – Fique no quarto de brinquedos. Dê mais uns cinco minutos e siga pro seu quarto. Eu vou pro meu, ok? – Esta fez que sim, feliz.

- Eu gostei muito de treinar com você, oneesan! – A menina falou, muito feliz.

A outra se limitou a sorrir, se retirando. Seguiu, esgueirando-se até seu quarto. Guardou lá todo o aparato utilizado. O esconderijo era seguro, estava bem trancado. Certificou-se de que ninguém a havia visto e deitou-se na cama, pegando um livro. Nada havia para fazer na monótona e teatral vida de princesa. Apenas comparecer aos bailes, dançar bem, cumprimentar todos, ser elegante, refinada, impecavelmente vestida e muito bem-educada. Não era vida pra ela, definitivamente...