CAPITULO I

Nesse preciso momento, Tiago acabava de demonstrar que era um criminoso pouco comum. Enquanto se recuperava de uma violenta surra proporcionada por outros presos que invejavam sua popularidade, tinha arriscado sua própria vida para resgatar um servidor público de um incêndio no hospital do cárcere.

Fez-se um documentário televisivo questionando sua culpabilidade, e o programa gerou um grande interesse em sua causa que lhe foi muito favorável.

Quando dezoito meses atrás Tessari tinha morrido depois de reconhecer Tiago como seu filho e de deixar-lhe todos seus bens numa tentativa de limpar sua consciência, Tiago tinha se convertido num homem extremamente rico. Nem uma só vez durante os anos de cárcere o conde tinha visitado a seu filho ou tinha tentado pôr-se em contato com ele. Ademais, Félix tinha tido que usar todos os argumentos possíveis para convencer a seu orgulhoso cliente de que não podia permitir-se recusar essa herança se queria sua liberdade.

— Obrigado por tudo que fizeste —disse Tiago com sinceridade enquanto se despedia de Félix Carrington com um firme apertão de mãos.

— Estaremos em contato.

Os repórteres lhe perguntaram o que ele mais queria ao sair do cárcere? Ele respondeu: - Um copo de vinho e uma mulher.

Um copo de vinho e uma mulher? Isso não fazia sentido. A quem tinha querido impressionar?, perguntou-se Tiago enquanto entrava na limusine que o estava esperando. Sorriu amargamente sentindo raiva por tudo que tinha tido que agüentar.

Era como se toda sua vida tivesse tido que lutar para que os demais o valorizassem.

— Por que te esforça tanto na escola? Isso não te levará a nenhum lugar...

És o filho bastardo de Margareth Potter e todo mundo vai recordar isso. Não chames muita atenção, comporta-te como os outros meninos —lhe tinha dito sua falecida mãe com ansiedade, tentando compreender a um garoto de doze anos que se preocupava com coisas que a ela nunca lhe tinham interessado.

Desde então Tiago tinha seguido seu próprio caminho, e sabia que não saborearia o Brunello Reserva, esse estupendo vinho das colinas toscanas de sua infância, até que tivesse solucionado vários problemas e se sentisse satisfeito.

Primeiro, o referente à família Evans. Ele era o único que não pertencia à família e a única pessoa prescindível, e tinham feito dele um cabeça de turco. A mudança, ele tinha arruinado a corrente de armazéns de vinhos na que se baseava a fortuna familiar. Na realidade, o processo tinha começado mais de um ano antes, e só Rochelle tinha saído ilesa. Para reconhecer os esforços que Rochelle tinha feito para consertar os danos, ele estava disposto a recompensá-la.

E ademais estava a irmã pequena de Rochelle, Lílian Evans.

Ao pensar em sua antiga noiva, Tiago sorriu com dureza e suas feições se acentuaram. Ela tinha acordado os instintos protetores de Tiago e ele tinha convencido a si mesmo de que lhe oferecer qualquer outra coisa que não fora o casamento seria um insulto. Mas quando os Evans o elegeram como bode expiatório, Lílian devia de ter estado inteirada de tudo. Por certo que ela sabia que lhe tinham preparado uma armadilha! Porque então tinha rompido seu compromisso sem dar uma explicação satisfatória no dia anterior a sua detenção? O que sentia por ela lhe tinha custado caro, e era um erro que não voltaria a cometer com nenhuma mulher. Lílian o tinha traído por completo.

Vingança? Não, não fazia falta fazer um drama. Ainda que sentia desejos de deixar que seus genes sicilianos o levassem para o prazer da vingança, Tiago era um homem sofisticado. Para assegurar-se a justiça que ansiava, cada passo que tinha dado e que daria no futuro seguiria sendo formal e ético.

Seu avô materno tinha abandonado Sicília em circunstâncias parecidas, mas Tiago era um homem mais instruído e bem mais inteligente. Mas ainda assim desejava ver sofrer as suas vítimas.

— Não deverias pensar nos Evans — Disse em italiano a morena delgada que se sentava a seu lado.

— Este é um dia muito especial... Viva o, Tiago!

Quando Tiago olhou para Marlene, um brilhante sorriso iluminou seu rosto sombrio. Agarrou a mão expressiva que ela tinha levantado para acentuar sua frustração.

—Viveremos juntos... te prometo.

—Então vamos para casa, para Itália — pediu Marlene — Agora mesmo!

—Ainda não estou preparado —confessou Tiago— Tudo bem se você tirar umas férias? Depois de ter trabalhado incansavelmente em minha causa todos estes anos, creio que tu mereces.

Ao ouvir a sugestão Marlene apertou os lábios de cor framboesa e não disse nada. Sabia reconhecer uma advertência e até onde podia chegar com Tiago sem traspassar os limites.

Afogando um suspiro, Tiago se acomodou num dos cantos da limusine. Na prisão tinha aprendido a viver sem o luxo do espaço e sem comodidades enquanto lutava contra o sistema, um sistema implacável e inflexível que não levavam a sério quem afirmavam sua inocência.

Com freqüência o tinham trancado em sua cela durante vinte e duas horas ao dia, e isso era uma tortura especialmente cruel para um homem que sempre tinha apreciado os espaços abertos do campo.

Deixou de lado esses pensamentos sombrios e sentiu um desejo irrefreável de aspirar de novo o delicado aroma das videiras que cresciam nas ladeiras empinadas de Vila Contarini. Tinha vivido ali até que tinha oito anos, jogando nos arredores, procurando trufas e recolhendo frutas para sua mãe.

Imaginou-se assim mesmo no alto de uma dessas ladeiras, observando o brilhante céu azul e o cálido sol com alegria. Então pensou atônito que nesse momento ele era o dono de Vila Contarini, um dos mais importantes vinhedos toscanos. Recordou com amargura que uma vez tinha alimentado a fantasia de levar Lílian para casa como sua noiva, a um vinhedo bem mais pequeno.

Muito cedo Tiago tinha se dado conta de que nesta vida tinha que se esforçar.

Para comprar o vinhedo tinha tido que se forjar certa reputação no mundo dos negócios e ganhar dinheiro. Mas agora podia reorganizar suas prioridades porque, ironicamente, o pai ao que tinha desprezado desde que se conheceram tinha se assegurado de que Tiago não tivesse que se esforçar mais para ganhar-se a vida.

—Mantive uma parte do pessoal... pensei que te agradaria que alguém te preparasse a comida e atendesse ao telefone quando eu não estou. - Lhe disse Marlene enquanto saíam da limusine frente a uma elegante casa, situada num dos bairros residenciais mais impressionantes de Londres.

Tiago aceitou a chave que Marlene lhe estendia e entraram na casa.

—Senhor Potter... —uma senhora de idade totalmente vestida de negro se apressou a recebê-los na espaçosa entrada. — Sou a senhora Coulter, sua governanta. Algumas pessoas o estão esperando no salão.

Tiago franziu o cenho e a senhora Coulter abriu uma porta de painéis do outro lado da entrada, pois ele nunca tinha estado na casa que pertenceu a Roberto Tessari e não sabia onde o esperavam. Ao entrar na elegante habitação se encontrou frente a três mulheres sentadas em silêncio e teve que afogar um gemido de frustração.

Rochelle Digory, a enteada loira, formosa e atrevida de Harold Evans, exibia um decote muito pronunciado e uma saia o suficientemente curta como para provocar um ataque ao coração de um homem privado de sexo.

Lesley Jennings se sentava a seu lado. Era a inteligente advogada de Carrington & Carrington, cujas visitas à prisão, altivez e humor lhe tinham provocado muitas horas aborrecedoras.

E por último, Paola Masona, uma prima longínqua e filha do famoso vinicultor, que tinha herdado o título de Roberto Tessari mas nada de seu dinheiro.

Morena, esplêndida e segura de si mesma, dirigiu-lhe um olhar que refletia a superioridade que sentia. Nascida numa família ilustre ainda que empobrecida, Paola queria unir sua classe social com o dinheiro de Tiago, fazer vinho e... outras coisas com ele.

Com um sorriso zombador em seus lábios, Rochelle se levantou.

—Muito bem. A qual escolhe, Tiago? — perguntou bruscamente

Marlene interveio e disse com desdém:

— A vocês ocorreu pensar que talvez Tiago não queira receber nenhum convidado quanto mais vários?

— Ouviste o que disse o teu chefe ao sair do tribunal? Vimos às notícias e estamos bem informadas —disse Rochelle jogando para atrás sua cabeleira loira e desafiando Marlene.

— Quer uma mulher... e aqui estamos.

Lesley Jennings riu estrondosamente e Paola lhes dirigiu um olhar aborrecedor. Nenhuma das três parecia disposta a sair e Tiago reconheceu que tinha um problema. Apesar de seu desejo sexual, Rochelle, que era dada à vida libertina, estava fora de jogo. Lesley? Não, porque Tiago ainda, tinha assuntos pendentes com a assinatura legal, e ainda que ela estivesse disposta a arriscar sua reputação relacionando-se com um homem a quem tinham considerado um criminoso, ele não ia deixar que cometesse esse erro. E Paola? Sua proporção era extraordinária, perfeita e descarada, mas era demasiado cedo para comprometer-se...

Com cada músculo de seu corpo tenso pelo esforço, Lílian meteu o tronco da arvore no carrinho de mão, mas esta se inclinou com o peso e o tronco voltou a cair ao chão. Os olhos se encheram de lágrimas de frustração e se dispôs a começar de novo. Os dias e as noites de primavera eram frios, e ela tinha que manter acesas duas chaminés para seus avôs. Só os troncos maiores e pesados duravam o suficiente para esquentar as habitações no Castelo de Ballybawn.

Desafortunadamente, a noite de insônia a tinha deixado sem forças, e ainda estava em estado de choque pela notícia da liberdade de Tiago.

Tinha passado quatro horas recordando o momento da detenção de Tiago, acusado de falsear a contabilidade e de roubar. Lílian não pôde crê-lo ao princípio, mas pouco a pouco as provas o incriminaram. Quando encontraram suas impressões digitais num documento condenatório, ela se convenceu de que era culpado, acreditava que as impressões eram uma prova irrefutável. Como poderia ter sabido que cinco anos depois se desacreditaria da veracidade dessas impressões que tinham feito um papel tão importante no processo? Lílian sacudiu a cabeça desconcertada, conseguiu levantar o tronco até a carretilha e começou a andar para o castelo. Tiago estava livre... e ela tinha uma horrível dor de cabeça. Porque não podia pensar em algo que não nele? Era realmente inocente? Isso era o que diziam os jornais. Talvez ela o tivesse julgado mal.

O homem ao que se referia a imprensa era o mesmo homem que tinha amado mais do que pensava que poderia amar a alguém, e o mesmo homem que a tinha ferido profundamente. Tinha-se envolvido com Rochelle, mas de qualquer jeito, sua irmã era tudo o que ela não era: esplêndida, sexy e irresistível para os homens. Inclusive seu próprio pai preferia Rochelle. Enquanto pensava nisso um carro parou a seu lado. Era Emmeline Vance, uma amiga de Lílian desde a infância. Tinha-se convertido em artista e tinha alugada a ala georgiana do castelo para expor suas pinturas decorativas.

— Que está fazendo com esse carrinho de mão?

— Perguntou Emme franzindo o cenho. — Não se ofereceu papai a ajudar-te com os troncos?

Lílian não queria aceitar nenhum favor que não pudesse devolver, e menos ainda um favor de que o homem se sentiria obrigado a repetir...

—Teu pai já tem bastante trabalho com a granja.

—Estaria encantado de ajudar-te. Justo no outro dia estava dizendo que se preocupava com você —lhe confessou Emme— Tem que manter a propriedade, e alem do mais teus avôs... É muita responsabilidade para uma mulher, da tua idade! Lílian sentiu muita vergonha ao pensar que lhes dava pena aos Vance, os inquilinos de seu avô. E Emme não tinha nenhum tato.

— Como vai o negócio? —perguntou para mudar de assunto.

— Muito bem. Os desenhistas de interior vão contratar-me, mas também preciso trabalhar para os clientes para ter uns ganhos decentes.

—Droga! já é a hora? Tenho uma entrevista!

Quando Emme se foi Lílian voltou a pensar em Tiago. E vinte minutos depois, depois de ter deixado o feixe de lenha na sala de estar, sua avó, disse incapaz de conter suas emoções por mais tempo:

— Que te parece tudo o que dizem os jornais de Tiago? Eu não sei o que pensar, mas não posso tirar isso da cabeça.

—Preocupa-me que não costures —contestou Viola Ou'Brien ignorando o comentário de sua neta. — Tens que aprender a usar bem a agulha, se não, como vais arrumar os lençóis rasgados que estão no armário e voltar a cozer as cadeiras do refeitório?

—Vovó... Não leu o jornal que te dei esta manhã?

—Sim, querida. Tiago está livre. Por certo que é inocente, não me surpreendeu a notícia —declarou Viola Ou'Brien com tom neutro.

Lílian se pôs tensa. Não era momento de recordar que sua avó sempre se tinha negado a crer que Tiago era culpado. Mas Viola sempre tinha sido arredia a pensar em coisas desagradáveis, inclusive teria concedido o benefício da dúvida a um ladrão preso com as mãos na massa. Também preferia ignorar o fato de que as cadeiras que acabava de mencionar tinham entregado a uma sala de leilões fazia tempo.

—Teria sido muito romântico ver-te esperando na saída do tribunal quando Tiago apareceu como um homem livre. Há vezes, que é impróprio que uma jovem seja atrevida, mas há ocasiões especiais que demasiada reticência também é descortês.

Lílian fechou os olhos com desespero, apertou os dentes e se deixou cair num cadeirão.

—Presumo que sim, mas esta não é uma delas.

Quando voltou a abrir os olhos viu que Viola Ou'Brien seguia sentada calmamente, bordando. Era uma mulher delgada de oitenta anos, que seguia penteando-se com o mesmo laço trançado de sua juventude e ainda se vestia com as mesmas prendas de vôo, como se o relógio tivesse parado em algum jantar dos anos trinta.

—Bem, acho que há alguma razão por que tenho ouvindo chorar Florrie todas as noites durante a última semana... Florrie somente chora quando há um casamento em perspectiva —disse Viola recordando-lhe a sua neta a lenda dos Ou'Brien. — Depois de quatrocentos e cinqüenta anos, poderia ter aprendido a ser mais jovial, mas suponho que um fantasma nunca pode ser feliz.

—Nunca a ouvi —disse Lílian.

— Presumo que pensas que o ruído que faz é o vento entre as árvores.

Lílian respirou profunda e lentamente e disse:

—Vovó, passaram cinco anos desde que decidi não me casar com Tiago.

- Sim, querida, eu sei. Recorda também porque então eu não ouvia a Florrie quando se supunha que ias casar em poucas semanas — Lílian apertou os dentes com força desejando ter o forças suficiente para contar a seus avôs a verdadeira razão de sua ruptura.

— Mas não posso crer que Tiago te jogue na cara tuas dúvidas passadas. Tu és a mulher que o recusou e ele não conhecerá a felicidade até que recupere teu amor e confiança.

— É impossível que Tiago e eu nos reconciliemos! — gritou Lílian com frustração.

—Compreendo, querida - murmurou Viola. — Esperar que Tiago dê o primeiro passo é muito cansativo. Por isso ter-se apresentado ontem no tribunal teria sido o mais fácil.

Ao ouvir a sua avó, Lílian se levantou de um salto. Sabia que a mulher não tinha nem idéia de quanto lhe doíam esses desejos e sugestões. Mas talvez ela tinha a culpa de ser demasiado sensível. Adorava a seus avôs pelo amor que sempre lhe tinham dado. Tinha tido um pai muito frio, Harold Evans, que nunca lhe tinha oferecido nem uma mostra de carinho.

—Ao final Tiago virá a Irlanda —prognosticou sua avó.

—Isso é muito improvável.

—Creio que não, querida. Depois de tudo, o castelo de Ballybawn praticamente lhe pertence —respondeu distraída enquanto procurava mais fio de bordar em sua cesta de linhas.

Lílian olhou a sua avó boquiaberta.

— Que foi que disseste? —perguntou convencida de que a tinha ouvido mal.

—Teu avô se zangará comigo... — os suaves olhos verdes de Viola refletiam preocupação. — Pediu-me que guardasse o segredo - durante uns segundos Lílian ficou perplexa, negando-se a aceitar essa informação. — É de má educação que uma mulher fale de negócios. Não creio que entendesse bem o que teu avô queria explicar-me. Preocupada e inquieta, Lílian Se deu conta de que sua avó empalidecia e que suas mãos tremiam. Nunca antes a tinha visto assim. —Claro que o entendeste mal —se obrigou a dizer.

Saiu da sala de estar com rapidez e, uma vez no escuro corredor, respirou profundamente. Como podia Tiago ser o proprietário da casa de seus avôs? Sua avó assim acreditava, e que seu avô tivesse rompido o costume de não comentar com sua mulher os negócios era um fato alarmante que apontava a que o impossível podia ser possível.

Depois de tudo, Lílian era consciente de que quando ainda estava noiva de Tiago, este tinha feito questão de fazer um importante empréstimo a seus avôs, que já andavam curtos de dinheiro. Lílian tinha se dedicado a reduzir custos para que o casal pudesse ao menos passar o resto de suas vidas em sua imensa e descomposta casa. Seu avô nunca lhe tinha permitido fazer-se cargo das contas, mas ela tinha presumido que a devolução do empréstimo estava em dia.

Só a idéia de que Tiago pudesse ter algum tipo de direito sobre o castelo de Ballybawn a horrorizava. Talvez seu avô tivesse outros problemas financeiros que tinha mantido em segredo. Ainda que Lílian tinha se licenciado em economia e tinha se esforçado para manter o castelo o avô, Hunt Ou'Brien seguia pensando que ela, como todas as mulheres, era vulnerável e tinha que a proteger das preocupações monetárias. Por isso, se seu avô o tinha comentado com Viola, significava que a situação era realmente séria.

Hunt Ou'Brien, desejando seguir os passos de seu pai em sua juventude. Tinha sido inventor de artefatos mecânicos, mas a tecnologia pôde com ele e decidiu converter-se num intelectual. Sempre estava na biblioteca felizmente rodeado de livros e, de fato, os livros se empilhavam no solo, nas cadeiras gastas e em sua escrivaninha, de maneira que ele, um ancião de oitenta e dois anos, preferia encostar se num canto de um velho sofá que usar uma mesa. Durante os últimos cinqüenta anos tinha estado trabalhando numa obra sobre a história de Irlanda.

Ninguém em Ballybawn tinha tido a honra de ler nem uma só palavra de seu trabalho, e Lílian duvidava que a algum editor, ele lhe concedesse esse privilégio.

— Hora de comer, querida? —perguntou-lhe Hunt Ou'Brien acima de seus óculos redondos.

Lilia recordou que numa ocasião Tiago apontou que seu avô seria um Santa Claus estupendo. Era pequeno e com uns olhos de cor azul brilhante, herança dos Ou'Brien, e seu cabelo e barba prateada lhe davam um aspecto alegre.

Era um bonachão, mas não soube superar os desafios aos que teve que se enfrentar quando herdou Ballybawn...

—Não —contestou Lílian. — Daqui a pouco farei a comida.

—Que lhe passou com Bridget? Está enferma? —perguntou distraído enquanto repassava as notas que acabava de escrever.

Fazia já mais de um ano que Bridget, a última das cozinheiras, tinha se despedido à idade de setenta e oito anos. Mas o avô de Lílian sempre tinha vivido com uma cozinheira em sua casa e, se não o tivessem chamado para comer, teria passado sem comida. Como sua avó, era incapaz de cuidar-se de si mesmo. O tempo passava implacavelmente fora dos muros do castelo enquanto seus velhos proprietários seguiam atrasados nos costumes do século anterior.

—Vovô... —Lílian tossiu para atrair a atenção do ancião.

— Vovó disse que Tiago é praticamente o proprietário do castelo.

Ao ouvi-la, Hunt Ou'Brien deixou de escrever e levantou a cabeça, observando-a com um olhar infantil de culpa.

— Eu...eu... pensava dizer-te cedo.

—Lílian se pôs a tremer e sentiu que lhe falhavam as pernas.

— Você falaste com vovó em vez de comigo? —disse incrédula.

—Tive que o fazer..., não tinha alternativa. Tinha que preparar a tua avó. A nossa idade, é melhor dar as más notícias pouco a pouco, e se finalmente temos que deixar o castelo...

— O castelo? —repetiu Lílian horrorizada.

—Temo que falhei com as duas. O homem tirou os óculos, esfregou os olhos e sacudiu a cabeça como se isso o reprovasse a si mesmo.

—Apesar de todas tuas maravilhosas idéias para manter à propriedade fora das dívidas desde os últimos quatro anos e mais um pouco, não temos nada com que devolver o empréstimo.

« Quatro anos e mais um pouco?». Lílian tirou uma pilha de livros de um cadeirão e se sentou frente a seu avô.

— Tente dar-me todos os dados — lhe pediu educadamente. — Os empréstimos se podem renegociar, talvez ainda possa resolvê-lo.

— É demasiada tarde para isso, querida. - Fui um tonto. Voltou a pôr os óculos e suspirou. — Deixei de abrir as cartas que vinham da firma legal que cuidavam dos assuntos de Tiago quando ele estava no cárcere. E depois daquele desafortunado assunto com o testamento de meu falecido irmão, não pude seguir pagando o empréstimo.

—Quem me dera se você tivesse me dito antes... — Lílian se sentiu aterrorizada ao saber que eles tinham ignorado essas cartas e, ainda que era consciente do desastre que seguiu à morte de seu tio avô Ivor, atreveu-se a fazer a pergunta que se tinha guardado durante muitos anos. — Quanto tiveste que pagar à ex mulher de Ivor para que anulasse o processo?

Seu avô fez uma careta e sussurrou uma quantidade que deixou a Lílian sem respiração. Já não tinha que perguntar por que tinha sido impossível pagar todas as dívidas.

—Não queria preocupar-vos contando-lhes o desastre que estava fazendo. - Somente aceitei o empréstimo porque acreditei que tu e Tiago iam casar.

Lílian ficou pálida e baixou olhar.

— Não me preocupei em como ia pagá-lo porque o castelo ia passar para tuas mãos e às de teu marido quando eu morresse.

Mas umas semanas depois decidiste não te casar com ele e tudo mudou.

—Sim... tudo mudou —afirmou Lílian pensando na época angustiante que seguiu à condenação de Tiago. Tinha renunciado a seu trabalho nos armazéns de vinhos de seu pai, feito as malas e voltado à Irlanda para viver com seus avôs outra vez. Mas nem a distância nem o lugar a tinha ajudado a acalmar a dor que sentia ao ter se separado do homem que amava, e o fato de começar do zero tinha sido bem mais difícil depois, de que a infidelidade de Tiago tivesse destroçado sua auto-estima.

—Ao princípio pensei que as coisas melhorariam e que seria capaz de pôr-me em dia com o empréstimo. Quando vi que não era possível, rezei para que o banco viesse em nossa ajuda.

Hunt Ou'Brien se levantou e se dirigiu a sua escrivaninha, onde abriu uma gaveta com certa dificuldade. — O banco recusou minha petição e ontem, enquanto dava um passeio, me acercou um homem e me deu este documento —disse levantando um papel dobrado. — Tenho que me enfrentar com uma ordem do tribunal. Tiago está em seu direito de recuperar o castelo. — Lílian deixou de olhar a gaveta repleta de envelopes sem abrir para observar o documento de que falava seu avô – Falei com o advogado da família. Se não aceito um acordo voluntário para saldar as dívidas, me declararão em bancarrota e isso acredito que seria pior. Perder a casa ou ficar na bancarrota? Que escolha!

Lílian se enfureceu. Como se atrevia Tiago a desalojar a dois anciãos indefesos e inofensivos a essas alturas de sua vida? Como se atrevia a intimidar e assustar a seu avô? Como se atrevia a fazer que as mãos de sua avó tremessem?

Será que já não tinha feito dano suficiente? Tinha destroçado a vida de Lílian, e ela estava disposta a viver como uma freira antes que ter que voltar a sentir a dor e a desilusão. Já não confiava nos homens. O homem a que adorava tinha se envolvido com uma mulher que a odiava, e ela tinha ficado, como costumava dizer sua avó, para vestir santos.

—Eu darei uma olhada nisto, vovô — murmurou Lílian.

— Se te faz sentir melhor, vá em frente. Mas te asseguro que nem um milagre poderia salvar-nos.

—Tu volta a teu livro.

—Espero que deixemos de passar apuros quando tenha vendido meu livro a uma editora - declarou Hunt Ou'Brien demonstrando uma ambição que sua neta não conhecia. — Quase terminei o volume oitavo. É o último.

— Parabéns! — exclamou Lílian com todo o entusiasmo de que foi capaz.

Seu avô voltou a sentar no sofá e alongou a mão para agarrar a pluma com um sorriso, esquecendo-se de todos os problemas enquanto se voltava a submergir no prazer da criação.

Lílian levou a gaveta cheia de envelopes para fora da habitação. Uma hora depois, quando só tinha revisado uma terceira parte dos documentos, sentiu-se derrotada. Os interesses e os atrasos tinham aumentado a dívida a uma quantidade exorbitante, e a falta de responsabilidade de seu avô o tinha piorado ainda mais. O empréstimo tinha protegido com o castelo, e o castelo era o único bem de seu avô. Ela não podia reunir a quantidade de dinheiro que deviam a Tiago, e já não sobrara nenhuma relíquia familiar para vender: a ambiciosa ex mulher de seu tio avô Ivor tinha se encarregado disso.

Lílian saiu da casa e se dirigiu ao lago que tinha aos pés do castelo.

Precisava de ar fresco. Começou a andar e cedo chegou ao salgueiro que se inclinava sobre a água. Tinha uma neblina que contribuía um pouco de irrealidade ao pálido reflexo das alamedas e as torres do castelo. Durante cinco anos tinha se esforçado para manter em dia todas as dívidas da casa e tinha acreditado que o estava conseguindo. Tinha sido tudo em vão?

Mas Ballybawn era bem mais do que uma responsabilidade: era o único lar que tinha tido. Sua mãe, Silvia, tinha saído de sua vida quando ela só tinha quatro anos. Antes que isso ocorresse, Lílian recordava vagamente nas horríveis cenas de fúria de seu pai que o convertia, talvez injustamente, num homem cruel e ameaçador. Quando finalmente se separaram, sua mãe deixou Inglaterra para voltar A Irlanda. Ainda que tinham passado mais de dez anos desde a última vez de que a mãe de Lílian tinha falado com seus pais,o casal de anciãos a recebeu calorosamente, ela e a sua filha. Foi no castelo onde Lílian soube o que era ser feliz, e quando Silvia se foi para não voltar, os Ou'Brien seguiram fazendo que sua neta se sentisse segura e querida.

Mas Tiago Potter nunca a tinha feito sentir-se segura nem querida.

Lílian sentiu um nó na garganta. Deixando de lado a precaução e o sentido comum, tinha-se apaixonado pelo primeiro homem atraente e sofisticado que tinha cruzado em seu caminho. Lilia não se tinha parado para pensar que não era especialmente bela nem sexy, como Rochelle ou as outras mulheres do passado de Tiago. Media algo menos de um metro sessenta e sua constituição era o que sua mordaz madrasta tinha definido uma vez como «quase assexual». Seus cavelos tinham todas as cores compreendidas entre o cobre, o tom avermelhado e o laranja, dependendo da luz.

Lílian não tinha sido uma garota popular, sua irmã lhe tinha roubado seu primeiro noivo, era uma sonhadora. Mas na idade de vinte e um anos tinha se considerado uma pessoa madura.

No entanto, reconhecia que sua falta de experiência com os homens tinha sido uma desvantagem. Tinha se sentido totalmente cativada ao ver Tiago. Esfregou os olhos e se obrigou furiosamente a deixar de pensar nele.

O compromisso tinha se rompido, e também seu coração e seus sonhos. Lílian estremeceu e levou as mãos ao rosto úmido. Sempre tinha sido demasiado sensível e demasiado confiada. A infidelidade de Tiago a tinha destroçado, mas inclusive até a seu próprio pai lhe tinha surpreendido que Tiago tivesse se interessado por ela.

— Nunca foste o tipo de Potter. Deveria ter suspeitado que vinha com segundas intenções. Se ele foi atrás de tua irmã Rochelle... Bem, é normal — tinha dito seu pai.

Frustrada, Lílian respirou profundamente e afastou de sua mente esses pensamentos dolorosos. Tudo já tinha passado. Ballybawn estava ameaçado outra vez, mas nessa ocasião a ameaça procedia de Tiago, que sempre jogava para ganhar.

Mas que era o que poderia querer Tiago de um castelo frio e incômodo perdido na Irlanda? Os atrativos da cidade de Dublin ficavam muito longe. E não era verdade que Tiago era multimilionário graças ao dinheiro que lhe tinha deixado seu pai? Lílian se sentiu aliviada ao pensar que Tiago era tão rica que o fato de vender um castelo em ruínas não o enriqueceria em nada.

Apesar disso, sabia que só tinha uma opção: devia voar para Londres para ver Tiago em pessoa, já que só ele podia parar o processo legal. Mas, como podia enfrentar-se com ele e menos ainda nessas condições tão degradantes? Lílian tremeu ao pensar nisso, mas sabia que tinha que encontrar a força necessária para fazê-lo porque, como ocorria com outros muitos assuntos de Ballybawn, ela era a única pessoa disponível para fazer-se cargo.

N/A: Aí esta o primeiro capitulo, eu sei q tem partes q talvez ñ dê para entender, mais pense em um quebra-cabeça q vai se montando quando os próximos capitulo vão saindo, mais para q ñ pense q eu sou maluca vou adiantando q Lílian e Rochelle ñ são irmã de sangue, por isso sobrenomes diferentes, mais isso eu explico mais tarde e please ñ julgue o meu Ti, ta, vamos dizer q ele tem...seus motivos...

Respondendo:

Anggie:olá, q bom te encontrar por aqui novamente, espero q vc goste da fic e continue

Morgana bauer: pois é, eu amo os livros dela, espero q vc goste

Raquel Cullen: Olá. Ai está, postei o mais rápido possível, espero q vc curta a

Liv stock: aí está, espero q vc goste. Bjs.

Aí está pessoal primeiro capitulo, espero q gostem e deixem reviews, please!