Capitulo XVII

Suspirando, Lilian colocou de lado o livro-caixa. Não conseguia mesmo concentrar-se nos números. Fazia quatro dias que Tiago partira em via gem e ela ainda não conseguira formular um plano capaz de convencê-lo de que o amava de verdade. Várias idéias haviam lhe ocorrido, mas a todas acabara descartando como inviáveis. De uma coisa, porém, tinha certeza. Pretendia fazer o impossível para ficar na cama dele, todas as noites, depois que o marido voltasse. Além disso, os únicos mo mentos em que ficavam realmente unidos e próximos era quando faziam amor. E disso Lilian não pretendia abrir mão, nem que precisasse seduzi-lo a todo instante. No amor como na guerra...

Levando a mão ao ventre plano e macio, pensou que até já pudesse estar carregando o filho dele. Seria maravilhoso, pensou, emocionada. Poderiam ter uma verdadeira família. Até então, Tiago nada havia descoberto a respeito da fa mília de Bonnie e tinha dito que, se nada aparecesse, falaria com o juiz do circuito, em sua próxima visita à cidade e proporia adotar a menina. Talvez nessa ocasião já tivesse encontrado um meio de convencê-lo do seu amor, e pudessem adotá-la juntos.

Levantando-se, saiu do escritório e dirigiu-se para a loja. Estava preocupada com Bonnie. A garotinha vinha sentindo muita falta de Tiago e ficara muito desapontada ao não encontrá-lo na manhã seguinte à reunião na igreja. Lilian, que também não o vira partir, precisara esforçar-se para convencer a criança de que ele não fora embora, abando nando-a, e que voltaria em poucos dias. Desde então, a me nina apegara-se ainda mais a ela, procurando-a a todo ins tante, como se tivesse medo de que Lilian também desa parecesse, de um momento para o outro.

Para alegrá-la, até estava deixando que ela trouxesse a gatinha Alice para a loja todos os dias. Apesar do animalzinho causar alguns transtornos, pulando inesperadamente sobre algum balcão, às vezes derrubando mercadorias.

Naquele instante, porém, tudo estava tranqüilo. Havia alguns fregueses fazendo compras, e Bonnie encontrava-se sentada ao lado da sra. Dobson, comendo uma fatia de bolo de chocolate que a viúva trouxera naquela manhã. Alice, a gatinha, dormia aos pés da menina.

Sorrindo diante da cena, Lilian pensou no quanto a sra. Dobson havia se apegado à criança, que lhe retribuía o afeto com igual intensidade. E desde que a velha senhora a tomara sob sua proteção, inúmeras outras pessoas da ci dade tinham passado a mostrar interesse por Bonnie, pa rando para falar com ela, e convidando-a para suas casas.

Aproximando-se de uma prateleira, Lilian pôs-se a con ferir o estoque de latas de conservas, verificando se haveria necessidade de reposição. Entretida com a tarefa, mal ouviu a porta da frente abrir-se para a entrada de Petúnia. O que a alertou para a aproximação da irmã foi o súbito silêncio que se fez ao seu redor. Todas as animadas conversas ces saram de repente, enquanto as pessoas voltavam para ob servar o encontro das duas. Lilian franziu de leve o cenho. Sem dúvida estavam todos a par da discussão que haviam travado após a reunião na igreja, na semana anterior. Imó vel ficou à espera.

— Walter e eu chegamos à conclusão de que devemos con fiar na fé que nos têm mantido a salvo do demônio — anun ciou Petúnia, à guisa de cumprimento.

As sobrancelhas bem desenhadas de Lilian se ergue ram, em ar de dúvida.

— Que bom para vocês dois — ironizou ela.

— Bem, com essa resolução, vim aqui para comunicar que estamos dispostos a aceitar seu casamento com aquele... hã... com o xerife, e até mesmo a... a criança.

Por um minuto, Lilian ficou calada, sem saber se acre ditava na sinceridade da irmã. Era um grande passo para alguém que jamais fora conhecida por sua generosidade. Na verdade, ela preferia cortar de vez relações com a irmã e principalmente com o cunhado, mas Petúnia era tudo o que lhe restava do seu próprio sangue. Assim, fazendo um esforço respondeu:

— Fico satisfeita em saber. E Tiago também ficará, na certa, quando voltar a Landing.

— Ah! — Petúnia tirou da bolsa um lencinho de rendas, que levou ao nariz, fungando delicadamente. — Nosso es timado xerife está fora da cidade? — perguntou, disfarçando a curiosidade.

— Sim — Lilian respondeu, com cautela —, foi visitar algumas das cidades vizinhas como parte da investigação do assassinato de Laurie Smith.

— Uma perda de tempo, em minha opinião.

Lilian respirou fundo, lembrando que precisava ter pa ciência com a irmã. Afinal, Petúnia fora procurá-la para uma reconciliação.

— Não concordo — falou, em tom tranqüilo. — E acho que você devia ficar satisfeita por ele levar tão a sério os seus deveres de xerife.

— Ele leva a sério porque a mãe dele era tão vagabunda como a prostituta que morreu. E que já foi tarde, se quer que eu diga a verdade.

— Cale-se! — Lilian ordenou, em voz baixa mas furiosa. — E saia já daqui! Eu devia ter imaginado, conhecendo-a como a conheço... Mas me enganou de novo, com sua história de "reconciliação". Não sei por que espero que exista algum bom sentimento em você, Petúnia.

— Não sei do que você está falando. Só estou tentando lembrar a você que seu marido sempre teve uma queda por garotas de saloon. Não se esqueça que admitiu ter ido para a cama com a tal que morreu. Eu, se fosse você, ficaria preocupada. Já pensou no que seu marido pode estar fazendo, nesse exato momento? Talvez esteja com alguma daquelas "mulheres". Como parte da investigação. Seu marido...

Uma raiva sem limites tomou conta de Lilian.

— Meu marido não é problema seu — interrompeu, afinal, encarando a irmã com as mãos nos quadris. — Escute bem o que vou dizer, Petúnia, porque só vou falar uma vez. Não quero mais saber o que pensa a respeito do que quer que seja. A única opinião que me interessa é a de Tiago. Eu o amo e sempre o amarei. Confio nele mais do que em mim mesma. E quer saber mais? Eu já o amava há sete anos, quando ele teve que partir de Landing. Só lamento não ter ido com ele. Não teríamos perdido todos esse anos. — Lilian ficou surpresa com o alívio que experimentou ao ex pressar pela primeira vez publicamente seus sentimentos. Todos os presentes estavam atentos às palavras trocadas entre ela e Petúnia.

— Você ficou louca. — Muito branca, a irmã apoiou-se no balcão.

— É a pura verdade.

— Lilian Evans, você está a um passo de tornar-se uma prostituta. Aí Tiago Potter deverá considerá-la per feita. — Petúnia recobrara-se o suficiente para continuar o combate. Mas não esperava que a reação da irmã fosse a que se seguiu:

— Chega! Cale a sua boca suja e saia da minha loja. E nunca mais ponha os pés aqui! Nem você nem ninguém da sua família. Não os quero nem como fregueses. De todo modo — acrescentou com desprezo —, você e Walter nunca pagam as suas contas. Vai ter muito tempo para se arre pender de sua maldade quando tiver que viajar até a cidade mais próxima para fazer as suas compras. E pagar por elas. Quanto ao fato de eu ser perfeita... — Lilian respirou fundo — Ah, se você soubesse a verdade... Se há alguém perfeito, esse alguém é Tiago. Eu não o mereço. Ele merece muito mais e no entanto está atado a mim. Quer saber por quê? Porque eu o amo e não vou deixar de amá-lo jamais! Agora, retire-se daqui antes que eu a ponha para fora pelos cabelos.

— Você enlouqueceu. Vou contar tudo a Walter. E reza remos por sua alma pecadora.

— Ótimo. E eu rezarei pela sua — replicou Lilian, antes que a irmã fechasse a porta atrás de si.

Quando tudo voltou à calma, ela olhou em torno e viu que todos a observavam com interesse. Devolvendo os olha res, Lilian manteve a cabeça erguida e os ombros eretos. Afinal, não tinha do que se envergonhar. Muito pelo con trário, estava orgulhosa de si mesma.

Lilian não estava bem certa da origem do ruído que a fizera acordar. Tinha a vaga impressão de ter escutado um baque, como se algo houvesse atingido uma parede la teral da casa. Ou talvez fosse alguém fechando uma porta.

Sentou-se na cama. Tiago teria retornado? Ele dissera que ficaria fora alguns dias. Até a véspera, havia transcor rido quatro.

Levantando-se pegou o robe. O tecido deste nem de leve lembrava o da camisola que usara para ir ao quarto dele, mas também não era algo que a "querida Petúnia" aprovasse. De cetim azul, apresentava punhos e gola de renda negra. Apertando a faixa que o prendia na cintura calçou os chi nelos forrados do mesmo tecido.

Do alto da escadaria, perscrutou o andar de baixo, ainda às escuras.

— Tiago? É você? — Manteve baixo o tom de voz, para não acordar Bonnie.

Somente o silêncio lhe respondeu. Esperou um pouco e tornou a chamar. Nada. Ia começar a descer quando outro barulho lhe chamou a atenção. Inclinou a cabeça para o lado, mas não conseguiu identificar-lhe a natureza. Contudo parecia ter vindo de um dos quartos, atrás dela.

Voltando-se devagar, olhou para o corredor. Todas as por tas estavam fechadas. Pela primeira vez sentiu um arrepio de medo. Haveria algum estranho na casa?

Antes que pudesse decidir entre investigar ou simples mente agarrar Bonnie e fugir para o lado de fora, ouviu outro baque, dessa vez bem mais alto, seguido do grito de sesperado de Bonnie:

— Lilian!

Disparando corredor abaixo, escancarou a porta do quar to da menina. Imediatamente, seu olhar dirigiu-se para a cama vazia.

— Bonnie!

O grito da criança soou abafado. Voltando-se na direção do som, Lilian deparou com um vulto alto carregando Bonnie para a janela aberta.

— Pare! — gritou. — Largue minha filha!

Sem um segundo de hesitação, correu para cima do ho mem, detendo-se apenas para pegar o atiçador da pequena lareira. Podia distinguir o braço dele em torno da cintura de Bonnie. O bandido já havia passado uma perna sobre o peitoril.

Levantando o atiçador, Lilian desceu-o com toda força sobre o ombro do homem, fazendo-o soltar um grunhido de dor. Sua cabeça voltou-se para ela. Instintivamente, deu um passo atrás. Havia um pano amarrado na parte inferior do rosto dele, e o chapéu estava enterrado na testa. Tudo que podia ver eram os olhos, mesmo assim sombreados pela aba do chapéu. Contudo, havia algo de terrivelmente familiar naquele olhar. Um brilho mau, sinistro.

Mas a identidade do assaltante não importava, naquele exato momento. Tinha que impedi-lo de levar a pequena Bonnie. Com a fúria da leoa ao defender um filhote, Lilian tornou a erguer o atiçador, golpeando-o várias vezes, no ombro e no braço erguido para proteger a cabeça. Para de fender-se, ele foi obrigado a largar Bonnie, que Lilian apressou-se a agarrar, empurrando-a para trás de si.

— Vá embora! — gritou para o homem. Como uma louca, continuou a agredi-lo com o pesado atiçador até que, num gesto desesperado ele conseguiu sair pela janela e, quase caindo, descer pela escada que havia encostado do lado de fora. Lilian continuou gritando, debruçada na janela, mes mo depois de o bandido ter desaparecido em meio às árvores.

Só então cedeu ao medo, pondo-se a tremer de forma incontrolável. Seus dentes batiam e as pernas se recusavam a suportá-la. Quando afinal conseguiu recuperar-se, empur rou a escada até esta desabar ao solo com um forte ruído. Fechando então a janela, voltou-se para Bonnie.

A garotinha estava toda enrodilhada num canto do quar to, soluçando apavorada. Largando o atiçador, Lilian cor reu até ela e abraçou-a bem apertado junto ao peito. Bonnie tremia feito vara verde.

— Calma, queridinha. Está tudo bem agora. Ele já foi embora.

— E-ele f-falou que ia m-me machucar — a menina falou entre soluços, agarrando-se a Vanessa.

— Já passou, doçura. Você está salva. Vai ficar comigo, ago ra. — Lilian afagou-lhe os cabelos, enxugando-lhe as lá grimas com as costas das mãos. — Vamos para o meu quar to. Você pode dormir na minha cama. Ficaremos juntas.

Como Bonnie não a soltava, Lilian pegou-a nos braços e carregou-a até seu próprio quarto. Depois de fechar e trancar a porta, acomodou a garotinha na cama, ajeitando as cobertas sobre o corpinho ainda trêmulo. Sentou-se então ao lado dela, com as costas apoiadas na cabeceira do leito. A providência seguinte foi abrir a gaveta do criado-mudo e tirar de lá uma arma. O pai a deixara capaz de cuidar de si mais do que da loja.

A pequena pistola pareceu-lhe fria e mortal de encontro à palma da mão, mas Lilian estava preparada para usá-la. Colocando o braço esquerdo atrás da cabecinha de Bonnie, fixou o olhar na porta fechada, a arma bem firme na mão. Ninguém iria fazer mal à menina. Não enquanto ela esti vesse por perto.

Inúmeras perguntas giravam-lhe na mente. Quem have ria de querer levar Bonnie, e por quê? A garotinha não oferecia risco para ninguém. Não tinha família, só conhecia poucas pessoas na cidade. Podia ter sido um engano. Mas o homem devia saber que estava raptando uma criança.

Nesse ponto, ela ficou com a respiração suspensa. Rap tando! Seria isso? Alguém teria tentado levar Bonnie como refém? Em troca de resgate?

— Lilian? — A vozinha infantil soava ainda assustada.

— Sim, meu anjo?

— Você vai atirar nele de verdade se ele voltar para me pegar?

Lilian pensou em mentir, mas decidiu-se pelo contrário.

— Com certeza.

— Que bom. — Bonnie fungou. — Tenho medo do ho mem mau.

— Eu sei, mas prometo que vou proteger você. Sempre. Por um momento, Bonnie ficou quieta. Depois tornou a falar.

— Você falou para ele largar a sua filha. E minha mamãe, agora?

— Acho que sim. — Lilian olhou para a criança com um sorriso emocionado, antes de voltar a fixar atenção na porta.

— Puxa, estou contente — disse a menina, aconchegan do-se mais a ela.

— Eu também. Tente dormir agora, doçura. Eu não vou sair daqui.

Suspirando, Bonnie relaxou pela primeira vez, enquanto Lilian lutava contra a emoção que a dominava. Era uma grande responsabilidade, mas da qual não abriria mão por nada. Reações retardadas do medo pelo qual passara e pelo que ainda estava passando a acometiam. Gostaria de sair correndo para esconder-se em algum lugar com Bonnie, mas estavam no meio da noite e não tinham para onde ir. Tentar chegar até a cidade significaria andar pelo bosque, e fora para lá que o assaltante correra. Não, era melhor ficarem dentro de casa até o dia clarear.

Uma hora antes do alvorecer, Bonnie finalmente caiu num sono exausto. Lilian, porém, não se atreveu a fechar os olhos. Sempre atenta à porta, rezou para que Tiago voltasse logo. Precisava da ajuda dele para proteger a filha de ambos.

Tiago chegou em Landing pouco depois do meio-dia. Olhando para os edifícios tão familiares, para as pessoas que acenavam e lhe enviavam saudações, ficou pensando porque estaria sendo tolo de achar que sentiria falta da cidade, quando o expulsassem de lá.

Apertando os olhos diante da forte claridade do sol, ima ginou que deveria estar partindo antes do cair da noite. E teria sorte se pudesse escapar de ser linchado. Mas não importava. Faria o que precisava ser feito. Tinha descoberto a identidade do assassino.

Mesmo agora, quase não conseguia acreditar. E a res posta era tão óbvia, depois que tudo se encaixara no lugar. Sua teoria estava correta: Laurie fora assassinada por al guém a quem conhecia muito bem; o mesmo homem que tentara matá-la sete anos antes, quando ela lhe revelara estar grávida.

Em frente à delegacia, Tiago parou e depois de desmontar, prendeu as rédeas do cavalo no gradil destinado a esse fim.

Ao entrar, encontrou Matt, andando impaciente de um lado para o outro. Ouvindo a porta ser aberta, o auxiliar virou-se de chofre.

— Xerife! Afinal o senhor voltou! Fico feliz em vê-lo.

— O que houve? — Tiago procurou ignorar o mau pres sentimento que o invadia.

— O senhor tem que ir ver Lilian, quer dizer, a sra. Potter, imediatamente.

O coração de Tiago disparou.

— Aconteceu alguma coisa com ela? Está ferida?

— Não. — Matt encarou-o. — É um fato muito estranho. Ela apareceu aqui bem cedo, pela manhã, querendo saber quando o senhor iria voltar. Então ela disse que ontem à noite alguém invadiu sua casa por uma janela do andar de cima, e tentou raptar Bonnie.

Por um instante, Tiago ficou olhando para o auxiliar. Depois, saiu correndo da delegacia, tomando a direção da loja. Matt seguia em seus calcanhares. Se alguma coisa tivesse acontecido com uma das duas, Tiago pensava... Deus, ele nem conseguia pensar a respeito.

— Thomas está por aí, interrogando as pessoas — infor mou Matt, ofegante, assim que conseguiu emparelhar com o chefe. — Perguntei se ela desejava que eu ficasse na loja, para protegê-las, mas Lilian... ah, a sra. Potter disse que se sentia a salvo na companhia de Andrew e da sra. Dobson. Mas se o senhor não tivesse chegado por volta do meio-dia, como chegou, eu ia começar a telegrafar para as cidades vizinhas, à sua procura.

Finalmente Tiago avistou a loja à sua frente. Precipi tando-se para a porta, abriu-a com força.

— Lilian! — gritou, entrando no recinto. Havia cerca de meia dúzia de fregueses lá dentro e todos voltaram-se em sua direção, curiosos. As mulheres chegaram a recuar alguns passos para lhe dar passagem. Olhando em torno, Tiago avistou Bonnie, sentada junto à sra. Dobson.

Com um gritinho entusiasmado a menina correu em sua direção.

— Tiago! Você voltou! — E jogou-se nos braços dele.

Inclinando-se, Tiago pegou-a no colo. Passando as pernas pela cintura dele. Bonnie envolveu-lhe o pescoço com os bracinhos finos.

— Como está a minha menina? — Tiago perguntou. Era tolice, mas Bonnie parecia ter crescido nos poucos dias em que estivera fora.

— Senti saudade de você.

— Eu também, Bonnie. — Gostaria de perguntar a ela o que acontecera, e se estava bem; mas não queria provo car-lhe lembranças desagradáveis. Foi então que ouviu os passos suaves, tão familiares, atrás de si. Imediatamente, voltou-se na direção do som.

Lilian aproximava-se pelo corredor esquerdo da loja. O vestido azul estava impecável, os cabelos, como sempre, bem penteados. Mas a boa aparência não o enganou nem por um minuto. Havia olheiras sob os olhos verdes e ela torcia as mãos à altura da cintura. Depois da maneira como haviam se separado, na véspera da partida dele, Tiago tinha decidido manter-se frio e distante, mas dian te do que acabara de tomar conhecimento, a decisão caía por terra.

Ajeitando Bonnie num dos braços, estendeu o outro para Vanessa, que atirou-se de encontro a ele. Tiago abraçou-a então com força.

— Sinto muito — murmurou. — Eu devia ter estado aqui.

Lilian ergueu o rosto para o marido. Lágrimas brilha vam nos lindos olhos verdes, mas havia um bravo sorriso nos lábios dela.

— Não foi culpa sua — replicou. — Como poderia adi vinhar o que ia acontecer? E, além disso, Bonnie e eu nos saímos muito bem, não foi, querida?

A garotinha assentiu com expressão solene.

— Lilian pegou uma arma.

As sobrancelhas de Tiago se ergueram, interrogativas.

— Trata-se de uma pequena pistola que meu pai me deu quando precisei trabalhar na loja até mais tarde — explicou Lilian.

— Pelo jeito, seu pai tinha mais bom senso do que eu.

— Tiago deu-se conta de que ele próprio deveria ter pensado nisso. Mas nunca lhe ocorrera que Lilian e Bonnie pu dessem correr qualquer perigo num lugar como Landing.

Com um sorriso carinhoso, dirigiu-se então à garota:

— Meu bem, importa-se de ficar um instante com a sra. Dobson? Preciso conversar com Lilian.

Bonnie concordou.

— Sabe, Tiago, estamos lendo um novo livro. E eu já li um livro inteiro, sozinha!

— Que maravilha! Quem sabe hoje à noite você possa ler para mim. — Se eu ainda estiver na cidade, pensou Tiago.

— É mesmo? — Os olhinhos de Bonnie se arregalaram.

— A história toda?

— Claro. — Com um beijo, ele colocou-a no chão.

— Então vou treinar. — Radiante, Bonnie correu para contar a novidade para a velha amiga.

Enquanto isso, olhando em torno, Tiago verificou que eram o centro das atenções gerais. Os fregueses nem ten tavam disfarçar o interesse pela cena.

— Matt — disse então para o auxiliar —, espere por mim aqui. Vou precisar de você assim que acabar de con versar com Lilian. — E, para esta, acrescentou: — Acho melhor irmos para o seu escritório. Lá você pode me contar com calma o que aconteceu.

Com um gesto de concordância, Lilian conduziu-o então para os fundos. Foi só ao chegar à cortina divisória que Tiago percebeu que ela lhe segurava com força a mão. Exa minando Lilian com atenção, reparou-lhe o tremor dos ombros e o modo tenso como mantinha erguida a cabeça. Ela devia ter ficado apavorada, na véspera, concluiu.

Angustiado, pensou no que poderia ter acontecido a ela.

Os xerifes que visitara tinham apresentado relatórios de talhados dos crimes ocorridos em suas localidades. As ga rotas de saloon assassinadas tinham sido mortas com re quintes de violência, brutalmente espancadas até a morte. Do fundo do coração, ele agradeceu a Deus Lilian ter sido poupada de tal destino. Mesmo que fosse expulso da cidade depois, jurou, ia impedir que o criminoso fizesse no vas vítimas.

Ao entrarem no pequeno escritório, Lilian largou a mão dele, apoiando-se na escrivaninha. Com pretensa calma, pôs-se então a falar:

— Acordei pouco depois da meia-noite, com a sensação de ter escutado um barulho. A princípio pensei que você pudesse ter voltado...

De repente, agarrando-a pelos ombros, Tiago puxou-a para junto de si. Antes que Lilian pudesse protestar ou dizer o que quer que fosse, a boca masculina já havia coberto a sua. Tudo o que lhe interessava naquele momento era o fato de Lilian estar viva e salva.

Devagar, roçou os lábios nos dela, num beijo delicado. Não queria assustá-la ainda mais. Lilian, porém, estendeu os braços, envolvendo-lhe o pescoço e enfiou os dedos pelos cabelos macios. Antes que Tiago sequer pensasse em apro fundar o beijo, ela tomou a iniciativa, abrindo a boca num convite, que foi imediatamente aceito. A língua masculina, exigente, invadiu o espaço aveludado e quente, provocando, saboreando-lhe a doçura. Lilian correspondeu daquele modo ardente e receptivo de que Tiago tão bem se lembrava, vindo ao seu encontro, pressionando os quadris contra os dele, murmurando palavras de encorajamento.

Tomando-lhe o rosto entre as mãos, Tiago beijou-lhe as faces, o nariz, as pálpebras trêmulas. Lilian era a parte mais preciosa de sua vida.

— Eu amo você — sussurrou, sem se importar que a declaração pudesse vir a ser usada contra ele.

— Oh, Tiago. —Apoiando a cabeça naquele ombro forte, Lilian beijou-lhe o pescoço. — Por favor, acredite quando digo que também o amo. Para sempre. Mais tarde podemos lidar com os "porquês" e os "como". Mais tarde vou descobrir um jeito de convencer você da verdade. Mas agora, só por esse momento, por favor, acredite em mim.

Era o que Tiago mais queria, mais necessitava. Mais que o próprio ar que respirava. Mas não conseguia. O pas sado deixara marcas profundas demais.

Sendo assim, limitou-se a afagar-lhe os cabelos, dizendo:

— Estou feliz por você estar bem.

— Droga, Tiago Potter, você é sem dúvida o homem mais teimoso do mundo!

— Pode ser —- ele admitiu baixinho.

Entretanto, quando Lilian tentou levantar a cabeça para fitá-lo, Tiago a impediu, pressionando-lhe a cabeça de encontro ao ombro. Não queria que ela visse as emoções expressas no seu rosto, emoções que não conseguia disfarçar. Assim como preferia não ver as emoções espelhadas, nos olhos dela.

— Conte o que aconteceu ontem à noite — pediu. Lilian abraçou-o então pela cintura, gozando o conforto e a segurança transmitidos pelo corpo másculo. Em poucas palavras explicou sobre o fato de ter ouvido novos ruídos, vindos do quarto de Bonnie, e ter corrido para lá, chegando a tempo de ver um homem tentando fugir pela janela, le vando a menina.

— Conseguiu ver o rosto dele?

— Não. Estava com um pano cobrindo a parte de baixo do rosto, e um chapéu enterrado na testa. Só pude ver os olhos e não muito bem, já que estava escuro. Eu não tinha levado uma lanterna. Mas havia nos olhos dele... — ela estremeceu.

— O quê? — insistiu Tiago. — Qualquer coisa que se recorde pode ajudar.

— Havia algo familiar neles, uma expressão que eu já conhecia. Não sei de onde. Só sei que era algo muito mau, demoníaco. — De novo, um estremecimento a sacudiu.

— Calma, está tudo bem agora. Estou aqui com você.

— Fiquei com tanto medo,Tiago. E se ele tivesse levado Bonnie? Poderia ter feito mal a ela...

Com toda certeza a teria matado, Tiago pensou. Lilian, porém, não precisava saber disso.

— Mas ele não conseguiu. E graças a você. Foi muito corajosa, Lilian.

— Não pensei nisso na hora. Tudo o que queria era salvar Bonnie. Quando vi que não ia conseguir que o miserável a largasse, peguei o atiçador da lareira e comecei a bater nele.

Tiago deixou escapar uma exclamação de surpresa. E de esperança.

— Você o agrediu? Quantas vezes o acertou?

— Não sei. Cinco ou seis vezes, talvez. Por quê?

— Acha que conseguiu machucá-lo?

— Ah, quanto a isso tenho certeza. Bati com toda a força, no ombro e no braço esquerdo. Ele até gemeu.

— Ótimo — disse Tiago, satisfeito. — Nesse caso, deve estar com marcas nesses lugares. Vou poder provar que tentou raptar Bonnie, além de tudo o mais.

Lentamente a compreensão foi penetrando na mente de Lilian. Levantando a cabeça, ela afastou-se até enxergar-lhe as feições atraentes.

— Tiago? Por acaso está querendo dizer que descobriu o assassino? E que foi ele que tentou levar Bonnie?

Ele balançou devagar a cabeça, confirmando.

— E quem é ele? — Ansiosa, Lilian esperou a resposta. De novo Tiago lhe acariciou os cabelos e depois as faces, roçando-as com as pontas dos dedos. A pele de Lilian era tão suave, tão quente... Não conseguia imaginar a vida sem ela.

— Desculpe, Lilian — falou então, dando um passo para trás e encarando-a com firmeza —, mas quero que fique na loja até que tudo esteja terminado. Aqui está em segurança.

— Segurança? Por quê? Quem é o criminoso? É o mesmo homem que tentou raptar Bonnie? — As perguntas saíram atropeladas em sua ansiedade.

Tiago respirou fundo. Era melhor que ela soubesse de uma vez. E por ele.

— Sim. O culpado de tudo, dos assassinatos, espanca mentos e da tentativa de rapto é seu cunhado, Walter Dusley.

N/A:Será q podem me perdoar por demorar tanto tempo, eu estive muito ocupada com alguns assuntos pessoai, além disso eu criei um blog e tenho me dedicado tanto a ele q esqueço de tudo, ah e qm estiver interessado lá no blog, tem vários tipos de romances, para baixar e apesar de ñ ser um romance, aqueles q estão começando agora no mundo das fanfics e ñ tiveram oportunidade de ler os livros de Harry potter, lá no blog tem os sete, então fiquem a vontade para baixar, se chama romances nine e o link está no meu perfil.

Bom sinto até vergonha depois de tanto tempo pedir reviwes, mais eu gostaria muito de saber o q acharam desse capitulo, só falta mais um e lá vamos poder ver ou ler o final da história do nosso capítulo predileto. Muitíssimos beijos!