CAPÍTULO UM

James Potter conhecia bem o efeito da diferença entre os fusos horários nos viajantes. Sabia tudo sobre os olhos vermelhos e irritados, a letargia geral e a tendência a bocejar nos momentos mais inopor tunos. Mas nunca notara deficiência na audição antes.

— Tia Hattie fez o quê?!

James olhou para a mãe, que se atirara contra ele tão logo abrira a porta.

Aquele evento por si só já era raro. Dorea Potter morava no mesmo edifício que o filho, na Quinta Ave nida em Nova York, mas levava a sério a privacidade dele. Intrometer-se na vida dos outros era falta de edu cação e Dorea Potter nunca fora acusada desse de feito na vida.

Entretanto, ali estava ela, à uma hora da tarde, ou três dá madrugada no horário de Tóquio, ao qual James ainda estava habituado, de pé no saguão de seu apartamento, com uma lista na mão.

— O advogado disse que não podia esperar até que você voltasse aos Estados Unidos para ler o testamento — explicou a mãe. — E, uma vez que tinha uma procuração sua para decidir em seu nome enquanto estivesse viajando, foi totalmente legal abrir o testamento sem você.

— Sim, mas...

James devia ter perdido mais do que a audição. Sabia que a excêntrica e devotada tia Harriet morrera na semana anterior e, embora lamentasse não ter podido compa recer ao enterro, não sabia o que tudo aquilo tinha a ver com ele.

— Ela deixou tudo para você — repetiu a mãe. Era o que ele pensara ter ouvido da primeira vez.

Tudo? Você quer dizer...

Calou-se ao imaginar o que o "tudo" de tia Hattie podia significar.

A fim de não omitir nenhum item, a mãe leu na íntegra a relação de bens que tinha à mão.

— A casa, ou seja, a pousada, com toda a mobília, in cluindo os vasos Ming, os cristais Tiffany, os esboços de Grant Wood e as perspectivas de Frank Lloyd Wright. — Após uma pausa para recobrar o fôlego, completou. — Ela também deixou-lhe três gatos, a saber: Clark Gable, Errol Flynn e Wallace Beery. — Lançou-lhe um olhar divertido por sobre os óculos. — E um cão chamado...

— Humphrey Bogart — adiantou-se James, fazendo coro com a mãe.

Recostou-se na parede e balançou a cabeça. A situação era apenas parcialmente engraçada. Dorea sorria, divertida.

— Isso mesmo. — Retomou a leitura da lista. — Um periquito...

James suspirou e inclinou-se para o lado.

— Fred Astaire.

A mãe finalizou com um gesto floreado:

— E um objeto não identificado denominado Lily Evans.

James endireitou o corpo.

O quê?

Estranhando também, a mãe recuou um passo, analisan do os caracteres com cenho franzido.

— É o último item da lista que o advogado me passou por fax — confirmou. — Lily Evans. — Voltou a sorrir. — Nunca ouvi falar de Lily Evans. O que acha que é? Um coelho? Um hamster? Uma tartaruga?

James não estava achando graça nenhuma. Sabia exatamente o que era Lily

Evans.

— O que tia Hattie tinha na cabeça ao me deixar uma mulher?


Shakespeare tinha razão. Deviam matar todos os advo gados, a começar por Herman Zupper, o fiel testamenteiro da tia Hattie.

— O que quer dizer com "saiu de férias?" — questionou James, ao ouvir da secretária que o advogado não se encon trava no escritório.

— Por um mês — detalhou a moça. — Ele e a esposa estão na Alemanha comemorando as bodas de prata. Foi por isso que ele ligou e falou com a sra. Dorea Potter antes de partir.

James grunhiu. Passou a mão pelos cabelos. Despentando-os ainda mais.

— Isso é um absurdo! — resmungou. — Por que a tia Hattiefaria uma coisa dessas?

Como se já não tivesse bastante trabalho. Era o diretor-executivo da Potter's Imports, uma das importadoras mais exclusivas que se conheciam. Lojas de griffes caríssimas dariam tudo para comercializar os itens que ele tinha em carteira. Mas o fato de deter aquele nicho não significava que ele parara de se aperfeiçoar. Pelo contrário, viajava pelo mundo todo, à procura de tesouros, fazendo negociações de milhões de dólares. Não tinha tempo para administrar uma pousadinha em Hogsmead!

— Asseguro-lhe de que tudo está em perfeitas condições — comentou a secretária, imaginando que ele estivesse tão alterado por pensar que herdara uma espelunca.

James grunhiu novamente. Sabia que a pousada da tia Hattie era um negócio lucrativo. Instalada numa mansão vitoriana, oferecia vinte aposentos, situava-se no ponto mais elevado, com vista da cidade de Hogsmead e do rio Mississipi.

Tratava-se de um estabelecimento charmoso no qual ele mesmo já se refugiara algumas vezes, quando se tornara premente a necessidade de descansar das pressões dos ne gócios. Tia Hattie, uma viúva sem filhos, sempre o acolhera de braços abertos.

Ora, tia Hattie sempre acolhera o mundo todo de braços abertos, recordou James, sombrio. Apesar de próspera, a pou sada de Hattie abrigava a maior coleção de elefantes brancos que ele já vira.

Os gatos eram apenas uma indicação da tendência de Hattie de colecionar objetos que os outros jogavam fora. Talvez devesse sentir-se feliz por ela não possuir mais que três gatos ao falecer. E um cachorro. E um periquito.

E Lily Evans.

Estava aí outro detalhe intrigante naquela história. Sem pre supusera que tia Hattie, não tendo herdeiros diretos, fosse legar todos os pertences a Lily, a quem amava como se fosse sua própria filha. Que idéia maluca fora aquela de legar Lily a ele?!

James pigarreou antes de retomar a conversa telefónica:

— E quanto ao item... Lily Evans?

— Lily Evans?

— No testamento — explicou James, sentindo-se idiota. — Tia Hattie me deixou os gatos, o cachorro, o periquito e... Lily Evans.

— Lamento, mas não estou a par dos termos exatos do documento. Só sei que avaliamos a propriedade. Posso ve rificar, se o senhor desejar.

— Não se preocupe. Eu farei isso. — James desligou, re costou-se no sofá e ficou olhando para o teto.

A mãe, felizmente, já se fora. Dorea nunca gostara de situações complicadas e ele mostrara-se mais que pertur bado diante daquela herança inesperada.

— Vemo-nos quando você estiver mais descansado, que rido — declarara ela, antes de escapulir. — Não se preocupe. Conheceu sua tia Hattie. Provavelmente ela só quis fazer uma brincadeirinha.

Uma brincadeira.

Lily Evans.

Lily Evans era a gerente da pousada. Por muito tempo, fora um dos elefantes brancos ali. Morando perto, na ado lescência passara dias olhando esperançosa para aquele ca sarão espaçoso de Hattie e seu marido, Walter, até ser con vidada a entrar e conhecer o estabelecimento. Dali a sema nas, já estava trabalhando na pousada. O casal de estala jadeiros até pagou seus estudos em nível superior, mas, após formada, ela voltou para junto deles.

Lily era ainda uma ruiva magrela de quinze anos e olhos incrivelmente verdes e arregalados quando se conheceram. Aos vinte e dois anos, ele já era um homem viajado. Brincara com ela, con versara amenidades e esquecera-se dela ao partir.

Claro que ouvira as "histórias de Lily" contadas por tia Hattie ao longo dos anos e sempre se lembrava da garota ruiva de olhos grandes que ruborizava sempre que ele olhava para ela. Mas não a vira novamente até o outono anterior, quando se refugiara novamente na pousada fugin do do compromisso de apadrinhar o casamento da ex-noiva. Alice Rule.

Quase não a reconhecera. Naturalmente, ainda tinha olhos grandes e cabelos vermelhos, mas desenvolvera curvas, seios e pernas.

Espantara-se diante das longas pernas de Lily. Nunca ligara muito para pernas. Ora, nem sequer se lembrava das pernas de sua ex-noiva!

De repente, surpreendia-se recordando as pernas de Lily Evans.

Imaginara, então, estar carente por ter sido abandonado. Teria se impressionado com qualquer mulher, pois encontra va-se sensível às mulheres. Era uma tentativa de recuperar o equilíbrio após a maneira brusca como Alice o dispensara.

Agora, concluía que ela agira bem rompendo o compro misso ao descobrir que nutria sentimentos mais profundos por Frank.

De qualquer forma, ainda era difícil conformar-se àquela situação e, com certeza, não suportaria postar-se no altar e ver a mulher que um dia amara chegar pelo corredor para se casar com outro homem.

Por isso, fugira para Hogsmead e ficara lá uma semana executando trabalhos gerais, de fiação, pintura, colocação de papel de parede, etc.

Era com o "etc." que se preocupava agora.

Teria Lily contado a tia Hattie o que acontecera na úl tima noite que ele passara na pousada?

Era importante saber isso.

Ou talvez fosse melhor não saber.

Tinha vaga lembrança daquela noite. Se fechasse os olhos, veria novamente a expressão transtornada de Lily Evans ao abrir a porta do quarto. Ele não devia ter batido. Devia ter ignorado os soluços abafados dela, em vez de bancar o bom samaritano.

Naquela noite, ele não estava em condições de oferecer consolo a ninguém, só queria consolar a si mesmo. Era a noite do casamento de Alice e Frank. Embora estivesse feliz por Alice e entendesse que ela estava se casando com o ho mem certo, não se sentia bem na posição de homem errado.

Logo após o jantar, recolhera-se ao quarto com uma garrafa do melhor uísque irlandês do falecido tio Walter, desejando que o mergulho na bebida o fizesse esquecer a realidade.

Talvez a bebida houvesse aguçado sua audição. Ou talvez as paredes fossem mais finas do que pareciam. Ou talvez sua tolerância a lágrimas estivesse baixa. Independente mente do motivo, ouvira os perturbadores soluços femininos. Aniversariante naquele dia, Lily esperara que seu noivo, Amos, a levasse a algum lugar especial para comemorarem. Vira-a andando ansiosa pelo saguão de entrada e, depois, na varanda, olhando esperançosa para o fim da rua. Teria ele deixado de aparecer?

Sem pensar, batera à porta do quarto de Lily e a vira de camisola, com o rosto coberto de lágrimas. Devia ter murmurado um consolo qualquer e se afastado. Em vez disso, compadecera-se e sugerira:

— Dizem que a miséria adora companhia. Venha tomar um trago comigo.

Lily não devia ter aceito a sugestão.

Nao se lembrava bem do que acontecera em seguida.

Havia uma vaga lembrança de sons abafados, sorrisos entristecidos e carícias. Talvez houvesse passado a mão por aqueles longos cabelos vermelhos. De fato, passara a última semana associando a Lily o aroma de xampu de canela. De fato, afagara-lhe as pernas longas e macias. Mais tarde, após brindar a ex-noivos e noivos desnaturados, as carícias o beijos tornaram-se mais ardentes e então... ela colocou as longas pernas a seu redor.

Lembrava-se de ter acordado na manhã seguinte com uma terrível dor de cabeça e o telefone celular tocando. Era Elinor, a secretária, informando que o sr. Nakamura estava viajando naquela tarde para tratarem do carregamento de mobília de madeira nobre sobre o qual haviam assinado contrato.

De ressaca, entorpecido, prometera comparecer.

Então, olhou ao redor para ver se os acontecimentos da noite tinham sido apenas um sonho. Lily não se encontrava, deviam estar já de pé, preparando o café da manhã para os hóspedes.

Poderia crer que ela nem estivera ali, não fossem os dois copos de uísque vazios sobre a mesa próxima à lareira. Só então viu a calcinha de Lily em meio aos lençóis.

Fez as malas rapidamente antes de descer. Deveria falar com Lily, mas não sabia o que dizer.

Encontrou tia Hattie na cozinha, mas nada de Lily.

— Amos telefonou — informara a tia. — Queria encon trar-se com ela agora pela manhã. Como ele não apareceu ontem, eu disse para ela ir. — Sorrindo, completara: — Ela vai lamentar não ter se despedido de você...

Ele não tivera tanta certeza.

Lily devia ter-se arrependido dos acontecimentos na noite anterior. Com certeza, correra para os braços do noivo assim que ele estalara os dedos. Melhor assim. Não teria de fazer papel de tolo desculpando-se por seu comportamento.

Mas somente por sete meses.

A ocorrência daquela noite voltava a ter importância agora.

Antes de mais nada, precisava descobrir por que tia Hat tie lhe legara a pousada. A maior responsável pelo sucesso daquele estabelecimento, Lily, o merecia mais do que nin guém. Ele, James Potter, não tinha nada a ver com aquilo.

Pensando bem, estava mais envolvido do que imaginara a princípio. Herdar um legado implicava pagar impostos. Ele tinha como arcar com as despesas, mas Lily, não. Se abrisse mão da pousada em favor de Lily, ela não se beneficiaria. Provavelmente, não teria como mantê-la em funcionamento.

Ora, talvez Lily nem quisesse aquela herança. Talvez já estivesse casada com Amos.

Prestes a se tornar pastor, o noivo de Lily era muito dedicado a seu ofício religioso e um tanto possessivo no que se referia a ela. Tinha a impressão de que ele não admitiria dividir as atenções dela com mais ninguém, depois que se casassem.

James gemeu tentando analisar a situação. Tinha certeza de que estaria raciocinando com mais lógica se não estivesse sofrendo tanto os efeitos da mudança de fuso horário. Talvez tudo fizesse mais sentido pela manhã.

Cansado demais para se levantar e ir para o quarto, aninhou-se ali mesmo no sofá, com uma almofada sob a cabeça. Seu último pensamento consciente foi para a ines perada herança.

— Tia Hattie, o que está aprontando agora? — murmurou.

James deu a si mesmo um prazo de vinte e quatro horas para ir até Hogsmead e resolver o problema da pousada, talvez colocando Lily para administrar o negócio até que surgisse alguém interessado em comprá-lo. No dia seguinte, deveria estar de volta a Nova York para a reunião com um grupo de empresários da Tailândia.

Teria preferido aguardar a volta do testamenteiro Herman Zupper, ou tratado da questão por meio do correio, telefone e fax.

Teria preferido não ter herdado nada e, assim, não ter que ir a lugar algum.

Mas era seu dever, pois tia Hattie sempre lhe demons trara afeto, consolando-o quando o fardo de administrar o império Potter tornava-se pesado demais.

Lamentava não ter podido aceitar o convite dela para passar o último Natal em Hogsmead. Ficara surpreso ao aten dê-la ao telefone naquela tarde fria de dezembro. Tia Hattie geralmente enviava-lhe telegramas quando queria comuni car algo.

— Venha, James — insistira ela.

Ele alegara estar ocupado. Muito ocupado.

Mas estivera mesmo ocupado demais para passar o Natal na pousada de tia Hattie? Não. Bem poderia ter tirado al guns dias de folga e levado a mãe para celebrarem com tia Hattie aquele que seria seu último Natal.

Recusara o convite por causa de Lily.

Teria sido constrangedor. Esquisito. Ela e Amos planeja vam casar-se em dezembro, logo após a formatura de Amos.

A julgar pelas peças que o destino vinha lhe pregando, no mínimo teria que levar Lily até o altar e entregá-la àquele tipo insensível!

Não, obrigado. Por isso, negara o último pedido da querida tia Hattie.

Agora, era tarde demais. Mas iria a Hogsmead, pois amara a tia e lhe devia isso.

E James Potter não fugia ao dever.

— Oi, James — saudou um velho grisalho numa cadeira de balanço à varanda, assim que James saltou do carro alu gado na aléia em frente da pousada. — Faz um tempão que você não aparece!

— Oi, Dumbledore. — James subiu os degraus e estendeu a mão. — Como vai?

O velho o cumprimentou com energia e recostou-se no vamente na cadeira.

— Sinto a falta de Hattie, se quer saber a verdade — declarou. Começou a balançar-se na cadeira.

— Eu imagino.

James sabia que Alvo Dumbledore devia muito a tia Hat tie. Aos oitenta anos, era um agregado da pousada, a exem plo de Lily. Muitos anos antes, ele trabalhara no rebocador que o falecido marido da tia mantinha no Mississipi, mas fora demitido por ser alcoólico. Sempre esperançoso por se recuperar, participara de vários programas sociais para se livrar do vício, sem sucesso, aparecendo de vez em quando para fazer uma refeição.

Então, no ano em que Walter morreu, Dumbledore apareceu na pousada no momento em que tia Hattie enfrentava um problema nas instalações hidráulicas e realizou todos os reparos necessários.

Grata, tia Hattie sugerira:

— Por que não fica por aqui? Há muito trabalho a ser feito.

E Dumbledore ficara. Ser necessário, realmente necessário, provocara nele uma mudança que nenhum dos programas sociais bem intencionados conseguira. Nunca mais colocara uma gota de álcool na boca. Desde o dia em que começara a trabalhar na pousada, já instalara banheiros novos em quatro cómodos e mantinha as instalações hidráulicas em perfeita ordem.

Depois, quando tia Hattie comprou uma casa no meio da encosta pensando em alugá-la por períodos mais longos, Dumbledore executou as reformas necessárias e mudou-se para o porão, como zelador. Havia pouco mais de um ano, ela lhe doara a casa. Ele jamais ficaria sem um teto.

Provavelmente por isso, refletiu James, tia Hattie não le gara mais nada a Dumbledore no testamento.

Hagrid, outro agregado da pousada, aproximava-se da va randa a passos lentos. Com uns setenta e cinco anos agora, tia Hattie encontrara-o na fila da sopa destinada a pessoas carentes e logo descobrira tratar-se de um jardineiro de sempregado. Convidado para fazer a manutenção do jardim da pousada, logo demonstrara profundo conhecimento do ofício:

— As plantas precisam de poda, mas a época certa é no outono. — Avaliou os arbustos de flores, muito crítico. — Aquelas peônias precisam de armação — declarou. — E uma treliça melhor para as parreiras.

— Pode fazer uma treliça tipo caramanchão? — pergun tara tia Hattie, animada.

Hagrid atendera ao pedido, e o caramanchão estava até hoje no mesmo lugar.

O velho jardineiro pousou o carrinho de mão cheio de casinhas com plantas e olhou James de cima a baixo.

— Como vai, Hagrid? — James estendeu a mão.

Hagrid grunhiu e apertou a mão de James, num cumpri mento mais forte do que o normal.

— Você demorou para vir.

James mostrou-se desconsolado.

— Vim o mais rápido que pude. Eu estava no Oriente quando tia Hattie faleceu. Não pude vir ao enterro.

Hagrid soltou um grunhido e Dumbledore , outro.

— Mas aqui estou — finalizou James. — Não se preocupem. Tudo vai ficar bem. Vou arranjar tudo.

Hagrid aquiesceu.

— Mas é claro que vai.

— Tenho certeza de que vai fazer o que é direito — Dumbledore assentiu satisfeito.

James ficou contente por confiarem nele.

— Claro que vou.

— Contamos com você — declarou Hagrid, finalmente.

O que estava acontecendo ali? Estariam pensando que ele venderia o estabelecimento sem levá-los em consideração?

— Vou me assegurar de que vocês fiquem bem — prometeu.

— Não estamos preocupados conosco — disparou Hagrid. — Mas com Lily.

— Vou tomar conta de Lily — prometeu James.

Aparentemente, era o que os dois anciãos esperavam ou vir, pois ficaram mais relaxados.

— Eu sabia — comentou Dumbledore .

— Bom rapaz — concordou Hagrid, e bateu-lhe às costas.

James aproveitou e indagou:

— Onde ela está?

— Na cozinha. Ela não disse que você estava vindo.

James transferiu o peso de uma perna a outra.

— Eu não telefonei. — Não explicou por quê. Mas pre cisava esclarecer uma dúvida antes de vê-la. — Ela... ela se casou?

Dumbledore ficou olhando para ele. Hagrid respondeu.

— Ainda não.

James suspirou. Não era de surpreender. Nunca depositara muita fé no tipo egoísta que Lily escolhera para marido.

— Vou falar com ela agora.

James contornou a casa rumo à porta dos fundos.

Podia ter optado pela porta da frente, mas então teria que tocar a campainha e esperar que Lily fosse abrir a porta envidraçada. Ela o veria antes que ele a visse. A vantagem seria dela.

Mas ele queria a vantagem a seu lado.

Viu-a pela janela da cozinha. Havia um balcão isolado no meio e ela estava atrás dele, arrumando flores. Lily era alta, mais de dez centímetros em relação a Alice, e tinha cabelos vermelhos brilhantes e compridos. Lembrava-se de querer passar a mão naqueles cabelos, desde a primeira vez em que a vira, quando ela não era muito mais do que uma criança. Sempre detivera-se até...

Enfiou as mãos nos bolsos. Ela o teria visto chegando se tivesse levantado o olhar. Mas estava compenetrada, arru mando flores em diversos vasos. Narcisos, cravos, sempre-vivas, ramalhetes alegres que traziam a natureza para cada quarto, conforme comentara certa vez.

Lily realizava aquela tarefa todos os dias. Não a deixara de lado nem mesmo em seu aniversário, quando o noivo a decepcionou, quando ele a convidou para tomar uma bebida em seu quarto e...

Raios! A única alternativa agora era pedir-lhe desculpas, adinitir que cometera um erro, que ambos haviam cometido um erro. Então, sendo civilizados, superariam essa questão.

Abriu a porta.

Lily ergueu o olhar, um sorriso no rosto. Assim que o identificou, ficou séria. E pálida.

James remexeu o maxilar. Respirou fundo e tentou falar num tom descontraído.

— Lily...

Ela engoliu em seco.

— James...

Ele estranhou a recepção. Estava acostumado a ver o rosto de Lily iluminar-se ao vê-lo. Estava acostumado com o brilho em seu olhar, a alegria em seu rosto. A expressão dela naquele momento era de contrariedade. Era como se da estivesse atrás de uma parede de aço. Ele não era digno nem da atitude cordial que ela reservava aos hóspedes.

James contraiu os lábios e assentiu levemente, reconhe cendo a distância que ela impusera.

— Vim assim que pude — declarou, frio. — Lamento não ter comparecido ao enterro. Estava em Hong Kong e tinha que passar no Japão antes de voltar.

— Claro.

Lily pegou um cravo e ajeitou-o no vaso, evitando encará-lo.

O relógio emitia um som leve da movimentação do pon teiro dos segundos. Um avião passou ao longe.

James tamborilou os dedos na coxa.

— Eu devia ter vindo no Natal. Não vim porque... porque...

Por sua causa. Não, não podia dizer aquilo. Respirou e tentou novamente.

— Quando estive aqui da última vez...

Parou de novo.

Devia-lhe um pedido de desculpas, com certeza. Mas ela não estava facilitando a situação. Gostaria que ela o enca rasse naquele momento, que lhe desse alguma indicação do que estava pensando.

James Potter, que alguém definira como alguém que "exa lava charme por todos os poros", naquele momento apenas transpirava de nervosismo.

— Sobre aquela noite... — recomeçou, concluindo que a aproximação direta era a melhor política. — Foi um equí voco. Um grande equívoco... convidá-la para tomar uma be bida comigo. E depois... bem, depois...

Fez uma pausa. Raios, pelo menos olhe para mim!

Ela olhou. Não foi de grande ajuda. Seu semblante estava tão inexpressivo que ele não tinha a mínima idéia do que se passava em sua cabeça.

— O que quero dizer é que... Nunca planejei que aquilo... acontecesse. — Calou-se de novo, devido ao silêncio total dela. — Foi efeito do uísque...

— Foi o que pensei. — A voz de Lily saiu sem vida, indiferente.

Ela se voltou para olhar pela janela.

— Quis falar com você na manhã seguinte, mas tia Hattie disse que você tinha ido encontrar Amos...

Ela assentiu.

— Eu compreendo.

Então, ele não arruinara a vida dela. Otimo. Sorriu in seguro e respirou bem fundo.

— Que bom.

Lily pegou dois vasos que estavam à sua frente e colo cou-os no carrinho. James desceu o olhar, esperando vê-la de short, exibindo aquelas maravilhosas pernas longas, pernas com as quais um dia ela o imobilizara.

Mal viu-lhe as pernas.

Viu só a barriga.

Lily estava grávida!

E não era início de gravidez. Ela estava enorme.

— Você vai ter um bebê!

Lily colocou os vasos no carrinho.

Ela estava grávida e...

— E Amos ainda não se casou com você?

De repente, James sentiu-se furioso. Aquele egoísta do Amos continuaria a fazer pouco caso dela sempre? Era inadmissível!

— Até que ponto vai a irresponsabilidade desse seu noivo?

Lily encarou-o.

— Por que ele se casaria comigo? Não é dele o filho que estou esperando.

— Não...? — James gaguejou, atónito. Não era filho de Amos?

Franziu o cenho, o cérebro funcionando a todo o vapor, processando a nova informação, tentando encaixar as peças do quebra-cabeça.

Ora, Lily não era uma moça leviana! Sempre lhe pare cera tão quieta, dedicada. Meiga. Gostava dela, respeitava-a, mas lamentava que a vida não lhe reservasse sorte no amor.

Compadecera-se dela naquela noite de outono e desejara confortá-la. Talvez houvesse se equivocado. Remexeu o ma xilar. Afinal, quão promíscua era aquela moça?

— Quero crer que você sabe quem é o pai da criança — replicou, em tom de censura.

Lily arregalou os olhos. Rígida, ergueu o queixo e ru borizou intensamente.

— Na verdade, sei — confirmou, indiferente. — É você.


N/A: Olá minha queridas! VOLTEI! Sentiram saudades? Só quero dizer que depois que eu deixei de postar histórias eu li todas as reviews! Só não respondi por que a minha vida estava uma loucura e quando sobrava tempo eu sentia uma preguiiiiiça! Então vou postar mais uma história que eu devorei hoje mesmo! É linda e vale total a pena de ler! Como vocês já devem ter percebido não se passa em Londres, mas acho Hogsmead nos EUA é totalmente possivel! Espero que gostem desse cap de estréia! Não vai ser NC-17 mas eu garanto que é muito gracinha!