Capítulo Final: Semelhança

-Ande querida! Você sabe como minha irmã fica quando tem que esperar – fala Inutaisho pegando a mala ao lado da cama e posta-se ao meu lado – Você está linda.

-Obrigado – respondo prendendo o brinco.

-Não demore muito – diz e sorri em seguida me dá um beijo na face

-Não vou, só falta colocar um brinco

Ele sai levando a mala. Ponho o brinco e pego o casaco, quando estava saindo do quarto o telefone toca

-Izayoi, não me faça ir até aí

-Um momentinho só – falo e corro até o telefone encostando-o na orelha – Alô?

-Izayoi? Sou eu, Daisuke

-Oi! Andou sumido hein

-Trabalhando querida. Escuta, eu estou indo pra Tókio resolver uns problemas. Será que tem como... Bom tem como você a gente se ver?

-Claro! Quando você chega?

-Vou estar no aeroporto as 09h – olho para o relógio de parede, marcava 08h40min – Certeza de que não vai ter problemas?

-Absoluta. Onde eu te encontro?

-Na saída B. Até daqui a pouco.

-Tudo bem, até mais – falo e desligo o telefone. Viro-me e vejo Inutaisho parado a meio caminho entre mim e a porta – Amor, eu...

-Você vai se encontrar com o Daisuke não é? – ele suspira descruzando os braços – Quer que eu te espere?

-Não precisa, leve os meninos na frente e divirta-se um pouco. Eu vou com meu carro

-Vou deixá-los lá e volto – ele levanta uma das mãos impedindo o começo do meu protesto – Tem algo que eu quero falar com ele

-Realmente não se importa?

-Sei que ele também é importante para você – responde ele me abraçando – Volto em uma hora.

-Você não respondeu – falo, mas ele apenas sorri e encosta os lábios aos meus levemente – Eu te amo

-Também amo você Iza. – fala soltando-me do abraço e saímos de mãos dadas

Dou um beijo em cada nos meus filhos e outro em Inutaisho. Entro na garagem e tiro o carro, dirigindo em seguida na direção do aeroporto. Já estava no fim do outono, as últimas folhas alaranjadas que perduraram, estavam sendo agora levadas pelo vento frio. Paro em frente ao aeroporto; apesar do tempo as portas automáticas abriam com frequência para dar fluxo ao grande número de pessoas.

Não levei muito tempo para encontrá-lo, os cabelos roxos junto com o 1,80m de altura ajudaram bastante. Abaixo o vidro do lado do carona e buzino. Ele se vira na direção do som e sorri ao vir em minha direção

-Oi – fala entrando no carro

-Olá. Finalmente deu as caras

-A culpa não foi minha. Estou com a agenda cheia

-Por dois anos?

-Tá eu tive umas folgas, mas acho que eu precisava de um tempo ou seria muito estranho voltar a falar com você

-Talvez. Mas para onde você vai? – ele tira um papel com o endereço do bolso do casaco e me mostra – Não é longe da minha casa

-Você mora perto da área comercial?

-Sim. Quanto tempo você acha que pode ficar?

-No máximo duas horas.

Ficamos em silêncio durante alguns minutos. Realmente ainda era estranho e um pouco constrangedor, as lembranças pareciam reaflorar. Senti meu coração acelerar com a última lembrança que me veio à mente antes de voltar a me concentrar no trânsito.

-Eu ainda amo você Izayoi – ele falou isso tão tranquilamente que podia parecer que comentava sobre o tempo frio – Se eu houvesse tido um pouco mais de tempo, você teria me amado também. Parece até coisa de filme sabe, que o destino interfere em tudo bagunçando a vida das pessoas

Não respondi. Apesar de tudo eu ainda o amava e mais do que eu havia imaginado. Mais que inferno! Porque não posso fingir que sou uma pessoa normal que ama de verdade uma pessoa de cada vez? Metade de mim ainda amava o Daisuke, mas meu cérebro dizia que era pura atração momentânea. Estaciono em frente à garagem e respiro profundamente

-Você está bem? – pergunta ele ao ver os nós dos meus dedos brancos de tanto apertar o volante

-Estou bem, só uma tontura passageira

-Melhor você tomar uma água, sei lá.

Saio do carro e entro em casa com Daisuke me acompanhando. Vou direto para a cozinha e encho um copo bem grande com água gelada

-Posso usar o telefone?

-Pode sim – respondo e bebo um grande gole, minha respiração trêmula começava a se normalizar. Ouço ruído leve. – Você tem que clicar no asterisco antes de discar o número

-NÃO! – grita ele e em seguida um disparo surdo corta o ar.

***** Narração da autora *****

Daisuke ajoelha-se, uma das mãos ajudando-o a manter o equilíbrio, a outra sobre o abdômen de onde o sangue saia inevitavelmente pelo ferimento manchando a camisa branca. Izayoi tenta aproximar-se, mas a sua frente surge a figura de Takemaru

-Paradinha aí. Não queremos mais ninguém machucado não é?

Takemaru passa por Daisuke e ao se postar nas costas de Izayoi, puxa os punhos dela para trás amarrando-os passando em seguida a amarrar seus tornozelos. Izayoi não se mexeu, sabia que antes de mexer qualquer músculo Takemaru acertaria Daisuke na cabeça e as chances dele seriam ainda menores

-Deixe-a em paz! – Takemaru volta-se para Daisuke que agora estava caído com a lateral do corpo no chão, e vai até ele parando ao seu lado

-Você não parece tão indestrutível agora – diz colocando o pé na face de Daisuke – Achei que a situação estaria meio invertida depois de 4 anos ou talvez você não amasse tanto assim a Stacy

-NÃO SE ATREVA A FALAR DELA SEU IMBECIL! – fala Daisuke e recebe um chute no rosto

-Me atrevo sim porque se não fosse por você e seus malditos sentimentos muita gente teria sido poupada

Daisuke solta um grito de dor ao sentir o chute no estômago pouco abaixo do ferimento e cospe um punhado de sangue que havia acumulado na boca. Sentia-se perdendo o controle dos sentidos, todo o corpo paria estar concentrado no ferimento que latejava insistentemente. A mão livre de Takemaru agarra seus cabelos e arrasta seu corpo já sem forças para reagir

-Olhe – fala segurando seu rosto na altura do rosto de Izayoi poucos centímetros de distância entre eles – Olhe bem para esse rosto e pense em todo o futuro que tirou dela

-Você fez tudo isso pra me encontrar e eu já estou aqui. Solte-a... – fala Daisuke por entre os dentes trincados

-É verdade, mas você esqueceu uma coisa: todos aqui devem morrer hoje. – Izayoi chorava olhando para o rosto de Daisuke, era óbvio que ele sabia o que aconteceria com ela e parecia ter muito medo disso – O que você vai fazer agora? Tentar salvá-la? Sabe que não pode assim como não pode salvar a Stacy

-Não. – fala ele e tenta se livrar da mão em sua nuca – Por favor, não! Eu faço o que você quiser! O que quiser, mas deixe-a ir

-Você? – Takemaru ri – O que eu poderia querer de você? Não passa de um trapo com os dois pés na cova – joga Daisuke contra a mesa – No fim das contas eu ganhei essa caça

Não achava que sobreviveria ao ferimento. A dor que sentia parecia ter se apossado de cada centímetro de seu corpo e impedia que sua mente clareasse; ainda pode ver o rosto de Izayoi chorando enquanto chamava por seu nome, num último suspiro sente o coração dar uma última batida fraca antes da vida se esvair do seu corpo

-Daisuke! Daisuke abre os olhos! Daisuke! – Izayoi sente as lágrimas caírem com mais força, não havia espaço em seu coração para nenhum dor a mais – Por quê? – pergunta virando-se para Takemaru que estava parado a meio caminho entre ela e Daisuke, a voz embargada estava carregada de ódio – Por que não me matou antes? Por que não me mata agora e acaba logo com isso?

-Tudo o que eu fiz até agora foi para o seu bem. Se ao menos soubesse da verdade...

-Verdade? Tudo que escutei de você durante quase 10 anos era mentira! – grita tentando se desvencilhar – Você sempre mentiu para mim! Não quero ouvir nada que venha de você! – sente seu corpo ser lançado e em menos de dois segundos suas costas e pernas latejam devido ao impacto contra o balcão.

-Você quer a verdade? A verdade é que se você não o houvesse recebido de braços abertos isso jamais teria acontecido! Você ficou tão cega que não pode ver quem era... – ele inspira profundamente e então fala com a voz mais apaziguada – Você ainda pode mudar tudo isso Izayoi. Ainda há tempo para nós dois. Você pode largar tudo isso e vir comigo ou termina tudo aqui, a escolha é toda sua.

Izayoi olha profundamente em seus olhos. Ele parecia ser sincero, mas quantas vezes ele não fizera isso a arrastando cada vez mais para uma teia de mentiras e manipulações? Mas porque queria tanto acreditar que ele falava a verdade?

-Porque não acredita em mim? Você poderia mudar tanta coisa se simplesmente decidisse que sim

-Já fui muito usada por você e sei muito bem o que faz com o que considera inútil. Como com a minha irmã – pude ver uma sombra de receio atravessar seu rosto – Você matou uma criança inocente.

-Nunca levantei um dedo contra ela – ela tenta afastar-se o máximo que podia dele – Por que não acredita em mim?

-Você queria minha resposta não é? Aqui está: eu prefiro morrer a ser usada por você novamente

-Então que assim seja – diz ele, a expressão tão dura quanto sua voz

O cabo da arma choca-se contra sua nuca; pode sentir um toque leve em seu rosto quando estava desmaiada, mas afora isso tudo não passava de pura sombra. Acorda sentindo o local da pancada dolorido. Senta-se levando uma das mãos à nuca. Estava numa cama de casal, o lençol que a cobria estava bem desorganizado. O quarto tinha o piso de madeira lustrosa, na parede da esquerda um guarda-roupa enorme, a parede da direita era uma janela enorme de vidro de correr, ao lado da porta havia uma cômoda com um abajur em cima

"Onde eu estou?" pensa Izayoi, não conhecia aquele lugar. A porta se abre e Inutaisho entra

-Você demorou a acordar – fala ele sentando ao meu lado e me abraça

- Cadê o Takemaru?

-Ele não será mais motivo de preocupação

-Como você... – ele faz uma negativa com a cabeça, Izayoi abraça-o também

-Não importa mais, já acabou – ele passa a mão pelo rosto da esposa, sabia que aquilo a preocupava – Sinto muito pelo Daisuke

Ela encosta a cabeça em seu peito. Não conseguia mais chorar ou talvez soubesse que não valia mais a pena; mesmo assim sentia aquela dor, semelhante a que sentiu quando achou ter matado o marido, atravessando-lhe o peito. Deixa-se envolver pelo luto, sentindo Inutaisho passar a mão por seus cabelos.

-E Tatsuhi? Ela sabe?

-Acabei de ligar para ela, disse que pegaria o primeiro vôo pra cá. Mas não duvido nada que 'vôo' pra ela é um jato particular.

-Ele não devia ter morrido... Isso... Isso não teria acontecido se ele não tivesse ido lá em casa

-Sei o quanto deve ser difícil para você perder alguém depois de ter perdido muitos outros

-Eu o amo

-Eu sei – fala Inutaisho e ela pode notar certa mágoa na voz dele, 'amo' não 'amava' – Izayoi eu não conseguiria viver se souber que você não é mais feliz ao meu lado. Por favor, eu sei o quanto deve ser difícil pra você, mas não deixa que o luto tome conta de você para sempre

-Tudo bem. Onde estamos?

-Na casa da minha irmã – responde como se fosse à coisa mais óbvia do mundo

Uma semana depois, Daisuke foi cremado e as cinzas guardadas num recipiente de porcelana que foi entregue a Tatsuhi, a única parente que pode comparecer ao crematório.

-Tatsuhi – chama Izayoi, a voz calma não deixava transparecer o sofrimento – Eu preciso conversar com você

-Claro – ela funga um pouco e coloca o potinho de porcelana com cuidado na bolsa de alça lateral, em seguida passa as mãos pelo rosto para enxugar as lágrimas – Importa-se de passarmos numa cafeteria? Acho que preciso de um cappuccino

-Venha eu levo você – diz ela e passa o braço pelos ombros da ruiva num gesto de conforto, guiando-a até o carro

Inutaisho havia saído alguns momentos antes, pois não demoraria até os filhos sentirem falta deles, então era melhor que ao menos um chegasse primeiro. Ao chegarem à cafeteria, sentam-se numa das mesas mais afastadas. Tatsuhi pede um cappuccino enquanto Izayoi pede apenas uma água. Depois de alguns minutos, o garçom traz as bebidas. Tatsuhi toma um gole da bebida pensando por onde começar

-Quem é Stacy? – pergunta Izayoi

-Era a noiva do Daisuke... Acho que você não sabia que Daisuke e Takemaru se conheciam

-Não sabia – responde a voz deixando transparecer a surpresa

-Não sei por que o espanto, eles tinham muitas coisas em comum. Inteligência, ambição, perspicácia e uma facilidade fora do comum pra se envolverem com problemas aparentemente sem solução. Quando estavam em Nova York, os dois tentaram entrar pro Departamento de Segurança Nacional, mas apenas o Daisuke conseguiu não entendi muito bem o porquê. Acho que ele tinha uns 20 anos

-Achei que só se podia trabalhar em departamentos desse tipo quem tivesse no mínimo 22 anos

-Ele tinha talento e em menos de seis meses cresceu mais do que alguns que trabalhavam lá há anos. Foi trabalhando lá que ele conheceu a Stacy. Bom o pai dela era senador e resolveu se candidatar a presidência, mas alguns não aceitaram isso muito bem

-Terroristas?

-Pode-se dizer que sim.

-Então ele teve que impedir qualquer atentado contra o senador – deduziu Izayoi

-Mas especificamente a filha dele, Stacy Lohana Whitney. Por sorte conseguiu impedir que a levassem e convenceu-a a ir para um local mais seguro. Com o tempo e a convivência eles se apaixonaram

-Você mentiu não é? Ela não morreu num assalto a banco

-Em parte sim, eu menti – diz Tatsuhi com um sorriso mínimo e toma mais um pouco da bebida – Ela teve que tirar dinheiro no banco, mas nessa vez ele não conseguiu impedir e a levaram. Se não me engano ela passou duas semanas, quase três, como refém. Avisaram que se o senador não desistisse ela morreria – sente um calafrio subir-lhe pela espinha – No dia anterior ao último debate na TV, o departamento começou a receber vídeos a cada duas horas. Mostravam que ela estava sendo torturada, algumas vezes com produtos químicos. Num dos últimos conseguiram descobrir onde ela estava devido a um pequeno descuido

Izayoi tentou imaginar Daisuke no meio de um departamento dando ordens a todos os que passavam, tentando achar um jeito de achar a noiva

-Um grupo foi mandado para as docas, com o Daisuke liderando. Teve um super tiroteio e demorou muito para encontrarem ela, mas quando conseguiram seu estado estava horrível. Mandaram ela direto pro hospital, mas por causa dos ferimentos ela acabou entrando em coma no início da noite. O pai dela... Ele disse que não suportaria deixá-la daquele jeito, que seria até a melhor solução para ela... Desligaram as máquinas pela manhã

Ambas ficaram em silêncio, envoltas pelo luto ou por seus próprios pensamentos, procurando uma justificativa para tudo aquilo. Izayoi viu mais algumas lágrimas caírem pelo rosto de Tatsuhi, ela e a Stacy deviam ser muito ligadas

-O que era 'caça'?

-Daisuke achou que tinha alguém por trás de tudo fora os terroristas, um cabeça sabe. Ninguém acreditou, ele se demitiu e resolveu começar a procurar por conta própria. Deve ter descoberto alguma coisa, mas eu não sei nada sobre isso.

-Entendo... Onde você vai deixar as cinzas?

-Vou levar de volta pra Nova York, perto da noiva. Acho que ele ia preferir assim

Izayoi leva-a para o aeroporto alguns minutos depois. Antes de descer do carro Tatsuhi abraça-a com delicadeza

-Foi bom passar um tempo com você de novo, apesar das circunstâncias. Eu... Bom eu soube da sua história ou de parte dela ao menos, sinto muito você ter perdido sua família – fala e afasta-se sorrindo tristemente – É como se faltasse algo em cada parte não é?

-Sim – responde simplesmente, não sabia como expressar o que sentia quando pensava na família – Mas acho que já me acostumei com a perda

-Ah. Eu vou indo antes que desistam de me esperar – diz saindo do carro e indo para a entrada do aeroporto. Depois desse momento, elas nunca chegaram a se encontrar novamente

***** Narração Tatsuhi *****

O avião em que eu fui era daqueles usados para negócios, rápidos e que demoravam pra precisar reabastecer, mas quando paravam era uma infinidade pra abastecer. Isso aí, eu tava num desses sentada olhando pela janela mínima enquanto os poucos passageiros desciam. Sinto um peso leve nos meus ombros e desvio o olhar da janela para o homem que estava parado ao meu lado

-Não vai descer? – pergunta, pelo uniforme era mais que óbvio que ele era o piloto

-Ainda tem uma escala na Califórnia?

-Se você for para lá terei que levá-la, foram às ordens que recebi.

-Obrigado. E não, eu não vou sair – digo ao ver que ele abri a boca para falar algo– Está dispensado capitão – ele tira o cap deixando os cabelos castanhos claros caírem e senta-se ao meu lado no braço do assento

-Isso é jeito de me tratar senhorita Tatsuhi? Olhe que eu termino nosso noivado – eu sorri e ele põe a mão nos meus cabelos remexendo neles devagar – Sinto muito por seu primo

-Ele e o irmão são a única família que me restou

-Eu também serei sua família meu amor – fala e beija minha testa – E o dia não está longe. Tenho que descer, mas volto assim que me livrar da burocracia

-Vou sobreviver

-Qualquer coisa, é só dar um grito que eu venho voando

-Vai roubar um avião pra entrar em outro. Não faz sentido – ele sorri e não pude evitar um pequeno sorriso. Ele levanta-se e sai

Levanto e vou até a parte da frente do avião, parando em frente ao frigobar e vejo duas aeromoças pegando o que parecia ser suco.

-Qual a bebida mais forte que há aqui?

-Provavelmente é Cosmopolitan – fala uma delas

-Importa-se se eu tomar uma taça?

-Não, relaxa. Só viemos tomar um suco antes de descer – responde a outra

Peguei a garrafa e voltei para o assento; o avião tinha os assentos bem espaçados entre si e a cada dois, sendo um em frente ao outro, havia uma mesinha onde podiam ser colocados pequenos objetos como copos e pastas. Coloquei a garrafa em cima da mesa que ficava em frente ao meu assento após encher bem uma taça. O líquido ardeu na garganta, mas não me importei e continuei tomando. Ao terminar encostei a cabeça no assento macio e fechei os olhos

-Anne eu não acredito que você deixou ela se embebedar – franzi as sobrancelhas ao ouvir a voz de Thomas, mas ela parecia estar muito longe

-Como eu ia adivinhar que ela tomaria a garrafa inteira? – a voz de uma das aeromoças também estava muito longe quase tanto como a de Thomas, eu não quero ouvi-los

-Você é um completo imprestável! – grita a voz masculina, não reconheci de quem era – Não consegue olhá-la por simples 8 horas! Ela podia até ter se matado e você não teria feito nada seu imbecil! – não gostei daquela voz, estava muito alta apesar de que parecia querer se controlar. Aconchego-me mais nas cobertas

-Não fale comigo nesse tom! Se não fosse por seu sumiço isso jamais teria acontecido! Há quanto tempo não fala com ela mesmo? Uns 6 ou 7 meses? Está tão preocupado em se isolar nesse seu mundinho que não percebe o quanto as pessoas ao seu redor precisam de você! O único imprestável que eu vejo aqui é VOCÊ!

-Thomas – chamo baixinho. Houve um silêncio momentâneo e ao abrir os olhos vejo-o abaixado ao lado da cama – Não reclama com o Takemaru. O irmão dele foi morto semana passada – ele franze as sobrancelhas e olha par ao lado

-Não contou a ela?

-Depois você chama a Stacy pra eu contar a ela?

-Ei Taty – chama o outro sentando ao meu lado na cama, levanto os olhos para vê-lo. Os cabelos negros estavam com um corte repicado e chegavam quase aos ombros, os olhos escuros me fitavam com preocupação – Se sente bem?

-Minha cabeça dói

-Isso se chama ressaca querida – diz ele sorrindo – Imbecil faça alguma coisa de útil e me deixe falar com ela. A sós.

-Só se ela quiser estúpido – os dois olham pra mim esperando uma resposta

-Thomas você pode ver como a Stacy está? Enquanto isso eu falo com ele. E você, seja mais delicado com meu futuro marido

-Estou sendo delicado – ele puxa meu cabelo para trás. Thomas se levanta meio contrariado e ouço quando ele fecha a porta – Então meu amor, o que você quer falar?

Ele encosta-se a cabeceira da cama; ponho a cabeça em seu peito e o abraço. Ele começa um cafuné na minha nuca e aconchego-me mais a ele. Era bom ter um colo familiar novamente, a pele dele estava levemente bronzeada e o perfume era o mesmo de sempre, apesar de eu não me lembrar o nome

-Takemaru, seu irmão morreu

-Eu sei... Porque fui eu quem o matei

-O que? – pergunto e me afasto o máximo possível, caindo da cama. A dor de cabeça extrapola todos os limites conhecidos

-Calma Taty!

-Não me chame assim! Você é... É um assassino! – me apoiando na palma das mãos começo a me afastar, ele se levanta e vem em minha direção – Para!

-Fique calma – fala ele e estende a mão para mim, levantei e fui andando para trás até sentir a madeira do guarda roupa nas minhas costas. Ele dá dois passos para perto, a distância entre nó sendo menos de um metro agora – Taty...

-Sai de perto de mim! – meus olhos se enchem de lágrimas, a descoberta quase havia feito com que eu esquecesse minha ressaca – Você... Eu sabia que vocês não se davam bem mas... isso.. você não podia, não devia

-Taty – ele dá outro passo à frente e segura meus braços, forçando-me a olhá-lo, com a força meu corpo foi levantado alguns centímetros sentia apenas do joelho para baixo tocando o chão – Ele ia matá-la. Eu não podia deixar.

-Matar? A Izayoi? Não faz sentido ele a amava demais para...

-Ele tentou várias vezes, você esteve lá como não viu? Eu estive tentando proteger vocês duas todo esse tempo. Vocês são importantes demais para que eu deixe que lhes machuquem. Ele usou o sobrenome de uma família inocente pra se safar quando matou a família da Izayoi, levou a menina pra usar como refém, mentiu para todos durante anos... Não achei que você seria enganada também

Ele solta meus ombros; deixo minhas costas escorregarem pela madeira e ao sentar no chão as lágrimas caem livremente. Abraço os joelhos deixando a cabeça escondida nos braços

-Descobri agora a pouco que ele também foi responsável pela captura da Stacy. Foi por causa dele que ela... – ele para por um momento e levanto os olhos para vê-lo, era mais que óbvio que ele não perdoaria tão cedo o fato de Stacy ter ficado paraplégica, ele estava com raiva, mas não achei que se preocuparia tanto com ela – Olha você pode pensar o que quiser de mim, mas tudo o que fiz teve um excelente motivo

Abaixo a cabeça novamente, o sentimento de traição crescia demais. Como ele podia ter feito isso? Ele não... Se ele realmente fez tudo o que Takemaru está acusando então ele fez o certo, mas é apenas uma justificativa para a morte. Não importa o que ele tinha feito não deixava de ser uma vida. A dor de cabeça parecia ter se concentrado em mim novamente, ou eu nela já que minhas justificativas não consolavam minha consciência, começo a massagear as têmporas.

-Toma. – fala ele sentando no chão ao meu lado, estendendo um copo que tinha, pelo que pude notar do cheiro, suco. Faço uma careta olhando para o copo, não sentia vontade alguma de tomar, mas o faço apenas por ver que ele estava realmente preocupado. Ponho o copo ao meu lado e ele me abraça – Tente dormir um pouco, vai se sentir melhor quando acordar. – ele me põe nos braços e começa a massagear a área da base do pescoço – Você ainda se encaixa direitinho nos meus braços.

Eu estava com vontade de dormir, mas não queria. Ainda tinha que falar com a Stacy sobre a morte do Daisuke. Olho com atenção tentando me distrair, em vão devo admitir; conhecia aquele quarto a anos. O armário era ao lado direito da cama, que ficava encostada a parede, havia uma janela entre estes trazendo um brilho suave e o cheiro de maresia. Será que era muito tarde?

-Não quero dormir. Arruma algo para minha dor de cabeça, por favor.

-Claro

Não sei como ele conseguiu se levantar sem me tirar dos braços, mas ele me deixou deitada na cama; pude ver a luminosidade vinda da porta quando ele a abriu e então adormeci. Acordei sentindo uma respiração quente e regular na nuca. Viro-me e vejo Thomas, os cabelos caiam sobre seu rosto, a pele havia perdido parte do bronzeado, mesmo estando de olhos fechados sabia que os olhos dele eram tão verdes quando os de Stacy.

Com cuidado, tiro o braço dele que estava sobre minha cintura e levanto sentindo a boca seca. Há quanto tempo eu não comia? Sentia meu estômago revoltar-se dentro da barriga. Saio do quarto e ao passar pelo corredor paro em frente ao espelho que havia ali. Eu não estava tão ruim assim, meus cabelos precisavam de um super tratamento para recuperar o brilho, tinha olheiras muito fundas, as roupas amassadas e minha pele estava bem mais clara que o normal. Ok, eu estava um lixo.

-Você não entende... – ouço Stacy falar; o quarto dela era o da porta do lado direito ao espelho e me aproximo da porta

-Não, você é quem não entende. – Takemaru?

-Eu... Olha pra mim. Não sou nem sombra do que fui antes.

-Não me importo com sua aparência.

-Apenas me escute ok – achei ter ouvido ela fungar – Eu não posso aceitar. Olhe eu... Eu só lhe daria preocupações, sempre iria depender de alguém e não quero que esse alguém seja você. Não quero que você pare sua vida para cuidar de mim... Você merece alguém melhor... – dessa vez tenho certeza que a ouvi aspirando o ar com força mais que o necessário

-Ei. Em primeiro lugar eu não pararia minha vida por sua causa, você é o único motivo de eu ainda estar vivo. Quando vai perceber que não há no mundo ninguém melhor para mim do que você? Não quero nenhum futuro se você não estiver nele. – ele para por uns segundos então fala de novo – Eu amo você, tudo o que eu quero e preciso tenho apenas ao seu lado não com outra mulher.

-Tatsuhi – sinto uma mão no meu ombro e ao virar-me vejo Thomas – Não fique ouvindo atrás das portas

-É sem querer – digo e ele segura minha mão me levando de volta para o quarto

-Deixa, ou eles se acertam de vez ou um dos dois vai cometer suicídio

-Então o que eu perdi? – pergunto deitando na cama dobrados, ele se deita ao meu lado

-Bom, nada demais. Desde que ele chegou a Stacy anda com os nervos a flor da pele. Tipo eles ainda se gostam, mas ela não confia mais nele

-Por que não?

-Ainda não entendi isso. Fale com ela mais tarde, talvez você ajude ela a se sentir melhor. Não parece mais sofro quando minha irmã menor fica assim

-Vou falar com ela – ele sorri e passa um braço por cima da minha cintura

Não sentia sono, mas era bom ficar deitada junto do Thomas vendo ele cochilar. Depois de um tempo, levantei e fui a cozinha tomar o café da manhã. Estava tudo pronto em cima da mesa, fazia tempo que eu não via tanta comida numa mesa. Takemaru preparou comida pra um exército de novo.

Depois que comi até me sentir completamente farta, tomei um bom banho e vesti uma roupa leve para caminhar na praia. Sai ainda sentindo preguiça, mas fazia tempo que eu não dava umas voltas. Ouvir o som da água fez bem aos meu ouvidos, acostumados demais a barulheira dos motores, estava tudo tão tranquilo

-Você vai me afogar!

-Hein? – pergunto e vou até a lateral da casa. Havia uma piscina retangular e no lado mais distante de onde eu estava Takemaru e Stacy estavam perto da borda, ela com a mão em cima de sua cabeça e empurra-o para baixo

-Você não morre, quem dera se desse pra te matar afogado – ela tira a mão da cabeça dele e nada até o lado onde eu estou – Taty pode pegar a cadeira ali, por favor? – ela aponta para o lado perto da parede e puxei a cadeira de rodas

Ela senta-se na beira da piscina usando os braços para sustentar com firmeza o tronco e a cintura. Ponho a cadeira ao lado dela e com um pouco de esforço ela senta

-Quer dar uma volta pela orla Stacy? A essa hora não tem quase ninguém – fala Takemaru, ele havia atravessado a piscina no tempo que eu fui pegar a cadeira de rodas. Foi então que vi uma coisa que não havia notado ontem a noite e não pude ver quando ele estava no outro lado da piscina. Seus olhos ao invés do negro que eu esperava... eram azuis, azuis escuros

-Da-Daisuke?

-Oi – ele para de olhar para Stacy por um momento e olha para mim

-Posso falar com você? É... É rápido

-Hum... Importa-se se...

-Não quero saber o que você faz ou deixa de fazer – diz Stacy, a voz fria e cortante, e dá a volta na casa para entrar. Ele franze as sobrancelhas e senta-se em frente a piscina, os pés balançando dentro d'água

-O que foi Taty? – ele pergunta olhando para os pés

-É você mesmo? – pergunto sentando ao lado dele, ele me olha e sorri de um jeito estranho como se perguntasse 'você é louca?' – É, é você. Mas espera... Se você está aqui quem é que...

-A resposta é fácil

É eu sabia a resposta, mesmo assim não era uma coisa fácil de aceitar. Levanto-me e vou para dentro de casa, uma boa ducha novamente e uns comprimidos para a dor de cabeça que começava resolveriam boa parte dos meus problemas

N/a: Ninguém é obrigado a ler essa parte, mas se quiserem vão entender algumas coisinhas. O tempo está em ordem decrescente, tipo começava a anos atrás e termina uns dias antes da narração de Tatsuhi

5 anos e 9 meses atrás

-Izayoi, esta é a Stacy – fala Mary apresentando as duas

-Oi – diz Izayoi

-Olá – responde Stacy sorrindo. Ela tinha a pele tão clara quanto a sua, cabelos dourados caindo em ondas até a cintura, os olhos verdes aumentavam a delicadeza que ela emanava

-Apresenta a loja a ela Stacy que eu vou abrir. Izayoi você vai ficar no lugar dela então aprenda direitinho ok – diz Mary deixando as duas a sós

-Bom, não tem muito o que fazer aqui. Você apenas organiza as prateleiras e dá sugestões as peruas que vem comprar aqui, como é uma loja de perfume você tem que conhecer pelo menos os mais famosos. A Mary cuida do caixa e das embalagens. Normalmente o movimento não é maior do que 7 clientes de vez nos horários de movimento, fora isso esse lugar é um saco e muito entediante. Conseguiu entender?

-Consegui... Ao menos, boa parte – a loira ri

-Não se preocupe, vou ficar aqui até as duas pra ajudar você a se localizar

Fora o horário das 12:00 as 14:00 era tudo tão tranquilo que chegava a ser um tédio absoluto. As garotas começaram a conversar sobre filmes e novelas até que Mary fala:

-Olha Stacy, seu namorado chegou – ela aponta com o queixo na direção de um Gallardo que acabava de estacionar

-Ele não é meu namorado – diz ela bufando e pega a bolsa atrás do balcão, saindo da loja em seguida

-Pode até não ser, mas não se pode negar que há faíscas – ela pisca matreira para Izayoi que apenas sorri levemente

Stacy entra no carro. Achava aquela situação completamente ridícula, mas já que tanta gente queria que ela largasse tudo pra se enfiar onde Judas perdeu as botas para não ser morta ela tinha que ir, sua vida valia mais que tudo. Bufa ao ver quem estava no volante

-Pra onde vamos? – pergunta colocando o cinto de segurança, sinceramente com tantas pessoas tinham que mandar uma das mais insuportáveis? Inegavelmente lindo, mas insuportável

-Um lugar bom, acho que pode ficar lá por muito tempo sem ser descoberta – ele acelera o carro

-Qual seu nome?

-Daisuke – ela vira o rosto para a janela vendo o movimento dos carros e das pessoas andando pela calçada

-Obrigado. Por ontem quero dizer. Você salvou minha vida.

-Apenas fiz o meu trabalho – responde indiferente – Pode me dar seu telefone, por favor? – ela entrega e ele joga-o pela janela entre aberta em direção ao asfalto

-Você é louco? – grita ela e ainda pode ver de relance carros e mais carros passando por onde devia estar seu telefone

-Seu celular não era seguro, podia ser rastreado com facilidade

-Ah claro e a única solução é jogá-lo janela afora

-Isso mesmo.

Ela sente o rosto esquentar devido a raiva. Como ele podia ser tão... tão... Mal conseguia encontrar palavrões o suficiente para insultá-lo.

4 anos e 6 meses atrás

-Daisuke – chama Tatsuhi entrando no quarto e suspira ao ver o café da manhã intocado sobre o criado mudo

O quarto estava com todas as janelas fechadas, a única iluminação vinha da porta e de um abajur em cima da cômoda. Daisuke estava sentado na cama, uma boneca posta cuidadosamente nos braços e mexia em seu rosto com cuidado como se pudesse quebrá-la. A boneca havia sido um presente dele a Stacy e por brincadeira começaram a dizer que era a filha deles. A brincadeira havia virado loucura e aumentava as alucinações que ele tinha deixando-o cada vez mais isolado

-Seu irmão veio te ver – diz ela e afasta-se da porta para deixar Takemaru entrar

-Nunca imaginei que veria logo você arrasado assim por causa de uma mulher – fala sentando ao lado dele . Daisuke parecia não ouvir, falava baixinho com a boneca – Vê se fica melhor, há mulheres demais no mundo inteiro pra você ficar assim por causa de uma só

Takemaru põe a mão sobre os cabelos do irmão caçula. Daisuke levanta os olhos, olhando para o irmão. Takemaru levanta-se e sai do quarto sendo seguido pelo olhar do irmão

-Daisuke eu tenho que ir trabalhar. A Yuzuki vai cuidar de você tá – Tatsuhi vai até ele e beija-lhe a testa, ele ainda olhava de modo vago para a porta e depois volta a dar atenção a boneca. Quando Tatsuhi volta, perto das 8 da noite, Yuzuki vem a seu encontro afobada, o rosto levemente corado

-O que houve?

-O Daisuke-sama, ele foi a cozinha e... – ela não espera a governanta terminar de falar e corre para a cozinha com medo de encontrar uma possível cena de suicídio

Ele levanta os olhos do livro que estava lendo, fala um 'Boa noite' e volta a se concentrar na leitura. Tatsuhi estava surpresa, ele parecia normal no sentido do possível. Estava sentado com os pés em cima da mesa, a cadeira equilibrada nos 2 pés traseiros, na mesa perto de seus pés havia um prato com um garfo sobre ele.

-Era o que eu queria falar. As seis ele foi tomar banho e desceu pedindo o jantar – diz Yuzuki baixo, mas ele tinha ouvido

-Daisuke – Tatsuhi anda até o lado dele e põe a mão em seu ombro

-Ninguém consegue mais ler nessa casa?

-Eu só queria saber se está bem

-Vou ficar melhor assim que comer minha torta de chocolate – ele afastou o corpo pra poder ver a empregada atrás de Tatsuhi – Já está pronta Yuzu...? – não conseguiu completar, a cadeira havia se desequilibrada e ele caiu de costas

-Daisuke-sama! – Yuzuki corre até ele e segura um de seus braços ajudando-o a se levantar

-Eu não sou de porcelana, acalme-se

-Desculpe. A sobremesa deve estar pronta eu vou pegar. – ela solta-o e vai até a geladeira.

Daisuke levanta-se e ajeita a cadeira, sentando-se novamente enquanto reabria o livro procurando a página em que estivera. Yuzuki traz uma torta de chocolate com três camadas e a cobertura era cheia de raspas de chocolate amargo. Ela tira uma fatia bem grossa e põe no prato que havia sobre a mesa. Daisuke começa a devorar a torta rapidamente, quando Yuzuki havia tirado um pedaço pra Tatsuhi ele havia terminado e pedia outro

-Coma mais devagar ou não vai sentir o gosto da comida – diz Yuzuki colocando outra fatia no prato – E não leia na mesa, tem convidados.

-Eu como do jeito que eu quiser porque de qualquer maneira vou sentir o gosto e a Taty é minha prima, ela não se incomoda

As duas se entreolham sorrindo. No outro dia, quando Tatsuhi estava indo a cozinha, encontra Daisuke deitado de bruços no chão da sala, usando apenas uma bermuda. Yuzuki estava sentada no sofá em frente a ele e acena para a ruiva ao vê-la sair do quarto

-Eu desisto – fala Daisuke encostando o rosto no chão – Quantas eu fiz?

-Oitenta e sete. Quer um refresco ou algo assim?

-Quero meu café da manhã

-Irei preparar – diz ela levantando-se e vai para a cozinha, Tatsuhi segue-a e senta numa cadeira – Quer seu café agora?

-Quero sim por favor – ela volta a olhar para a sala, Daisuke estava sentado completamente suado. Ele se levanta e vai em direção ao banheiro – Yuzuki eu tenho que passar uma temporada na França, pode cuidar dele sem problemas?

-Creio que sim. No momento ele quer voltar a se dar bem com o espelho, então não deve causar problemas

4 anos atrás

Tatsuhi esperava que a chuva brusca não a impedisse de ver o primo. Comunicavam-se quase sempre por telefone e ao saber que ele resolveu ir a Nemuro quase teve um ataque histérico e quis voltar para impedi-lo, mas era tarde demais, ele já havia se mudado e havia começado a trabalhar numa multinacional

-Oi amor, desculpe o atraso – diz ele sentando-se em frente a ela

-O que houve com seu cabelo? – pergunta estranhando o roxo berrante

-Pintei depois que cheguei aqui. Legal né?

-Estranho seria a melhor palavra. Anda conta tudo o que houve e nem adianta enrolar tenho até as 8 da noite

3 anos e 11 meses atrás

-Bajuladora – diz Daisuke ao telefone

-Hunf! – escuto Thomas me chamar e sigo sua voz indo até um dos quartos – Tenho que desligar. Tão me enchendo o saco aqui. Beijos, amo você, se cuida e vê se dá uma saidinha de vez em quando

-Tá, tá.

-Daisuke...

-Também amo você Taty – ela ri e desliga o telefone ao mesmo tempo em que entrava no quarto. A felicidade atravessou-lhe o peito quando viu Stacy piscar e olhar para ela. O quarto cheio dos aparelhos médicos indicavam que ela tinha sinais estáveis – Stacy! Você... Você acordou! – deixa a felicidade transformar-se em lágrimas

-Que...

-Não fale nada – diz Thomas, ele também tinha os olhos marejados – Vamos levar você a um médico, não durma de jeito nenhum

3 anos atrás

-Taty eu quero que me faça um favor – diz Stacy, ela estava sentada na cama a TV ligada a frente. A ruiva senta ao seu lado – Se quando você chegar lá, o Daisuke... Se ele estiver com outra mulher, não fale nada sobre mim

-Mas Stacy...

-Por favor! Taty você não entende. Se ele estiver feliz mesmo que seja apenas um pouco com outra mulher, não conte sobre mim. Não quero impedi-lo de ser feliz

-Claro, ele deve estar muito feliz em um hospital – diz Tatsuhi levantando-se

A surpresa da ruiva em saber que ele não tinha nenhum arranhão foi menor do que a de saber que ele estava acompanhando uma mulher. Ao entrar no quarto e vê-la com tantos ferimentos sentiu pena dela, mas no fundo sabia quem sentiria mais com essa história. Senta-se ao lado do primo e começa a mexer em seus cabelos bagunçados. Ele ficaria extremamente feliz se soubesse que Stacy estava viva. Olha novamente para a cama e depois volta a olhar para o rosto tranquilo do primo. Não podia falar nada, mesmo sem quer prometera a Stacy.

1 ano e 9 meses atrás

Daisuke estava sentado na cama do seu quarto mergulhado em lembranças. Um perfume floral o desperta para a presença feminina ao seu lado. Yuzuki havia se sentado ao seu lado olhando o frasco que ele com tanta insistência remexia

-Seu perfume já acabou?

-Até que durou muito, eu quase não usava – ele fica em silêncio por alguns segundos então fala – A Stacy me daria esse perfume do dia do nosso aniversário de um ano. Ela mesma criou, e deixou escondida dentro de uma boneca que dei a ela uns dias antes de ser seqüestrada

-Posso? – pergunta abrindo as mãos para pegar o vidro que estaria com o perfume, ele entrega-a e fica olhando enquanto ela pingava umas gotas no dedo e passava no pulso – O cheiro é muito forte

-Ela sempre disse que eu colocava muito perfume, acho que quis fazer um que eu só precisasse usar duas gotas pra sentirem meu cheiro da esquina... Yuzuki você acredita que quando uma pessoa mata, ela simplesmente pararia e sumiria como fumaça ou esperaria um tempo para cometer outro crime?

-Acho que esperaria, matar torna-se um hábito dependendo de como se comete o crime. Ainda vai querer o chá?

-Vou, mas não coloque muito açúcar – ela vai até a cômoda onde havia uma bandeja com um bule requintado e duas xícaras – Quem mandou esse bule?

-Seu irmão – responde ela e entrega-lhe uma xícara, em seguida pega a outra e senta-se na cama tomando um gole – O Sr. Takemaru mandou ontem e chegou pouco antes de você... – ela para e tem uma convulsão derrubando a xícara

-Yuzuki! – Daisuke segura a mulher nos braços, ela se debatia de forma estranha entre as convulsões.

Em poucas horas depois que chegaram ao médico chegou o diagnóstico: veneno. E não era um simples veneno; era um composto usado antigamente como forma de tortura. Se ela estivesse sozinha na casa em menos de 30 minutos o coração apresentaria falhar e a respiração teria pausas longas até que ela morresse.

-Daisuke... sama – chama ela vendo-o sentado numa poltrona perto da sua cama hospitalar

-Você me deu um belo susto

-Quanto tempo...

-Duas semanas

-Tanto...

-É muito mesmo. – ele se levanta e para ao lado da cama segurando a mão dela – Sinto muito, se não fosse minha insistência absurda isso não...

-Tudo bem. Pelo menos agora você confirmou suas suspeitas – diz ela baixinho

-Sim. Meu irmão está tentando me matar, o veneno estava na parte interna do bule e se você não tivesse bebido quem teria morrido seria eu. Pelo que eu vi, a quantidade dava para matar um cavalo

-Tenho que me lembrar de mandar lavarem a louça direito da próxima vez – ele sorri e passa a mão nos cabelos dela

-Não ache que só porque você é minha empregada que tem que trabalhar 25h por dia, fomos amigos antes de você ser minha governanta e pelo menos para mim ainda somos

-Claro que sou sua amiga – ela fala mais baixo de modo que ele quase não ouviu, ela faz uma careta

-É melhor não se esforçar demais por enquanto. Passou duas semanas dormindo, mas sei que ainda está cansada...

-Pretende se mudar? – pergunta ignorando o que ele disse

-Por enquanto sim... Você me acha parecido com o Takemaru?

-Vocês são gêmeos – ele franze as sobrancelhas – Mesmo assim tem diferença, você é mais alto, seus olhos tem uma cor diferente dos dele, o jeito de se vestir é diferente também. Mas fora esses pequenos detalhes vocês são exatamente idênticos

-Você poderia nos confundir?

-Não. Ele teria que ser um excelente ator ou não falar comigo, mas das duas maneiras ainda seria suspeito. Desistiu dos cabelos coloridos? – pergunta vendo que os cabelos dele voltaram ao tom escuro que se lembrava apesar de ainda ter alguns fios roxos

-Acho que cansei de tentar fingir ser alguém que não sou – ela sorri brevemente e aperta os dedos dele contra sua mão

-A Srta. Izayoi ligou perguntando por você, disse o que mandou: que estava trabalhando e não podia falar. Quanto tempo vai ficar fugindo dela?

-Não sei. Acho que só até conseguir pegar o Takemaru com a mão na massa, e depois eu volto a falar com ela... Acho que foi ele quem mandou a captura da Stacy

-Tem certeza?

-Não, por isso não fiz nada ainda. Mas o veneno que você tomou é o mesmo encontrado no corpo dela... Não acredito que meu próprio irmão...

-As pessoas nem sempre são como imaginamos

-É, você tá certa. Lembra dos Kyo's? Éramos vizinhos deles em Tókio

-Lembro, você era muito virado nessa época

- Tinha só 9 anos, mas enfim, sabia que um dos garotos se chamava Takemaru também?

-Claro

-Meu irmão e ele sempre brincavam de trocar de nomes

-Aonde quer chegar?

-É apenas uma teoria, mas há a possibilidade de meu irmão ter usado o sobrenome do amiguinho pra se safar de roubadas

-Achei que ele havia morrido a algum tempo, o Takemaru Kyo.

-E morreu. Não é perfeito? Ninguém pode lhe encontrar rastrear seu carro ou coisas assim porque sempre vai aparecer que a pessoa está morta

-Inteligente, bastante rústico mas inteligente. Não acha que...

-Tá certo, agora você realmente tem que ir dormir. Essa história de bules e veneno vai acabar enlouquecendo nós dois – ele tinha o rosto grave, mas os olhos estavam fixos na porta – Vá dormir ou vou ter que chamar uma enfermeira pra te sedar

-Só quero saber como está a minha casa

-Quando você estiver melhor vai saber

Eles permanecem em silêncio alguns minutos e Daisuke começa a assoviar uma canção qualquer. Depois olha para ela intrigado

-Acho que vieram terminar o serviço. Vou ter que ficar de olho em você, já sabem que você é bem informada.

-Como você...

-Tinha um sombra embaixo da porta, era quase mínima, mas dava para ver – ele senta novamente na poltrona após soltar a mão da amiga – Sinceramente, com duas semanas por que só vieram agora?

-Para não levantar suspeitas talvez

-Talvez

1 mês atrás

-Daisuke?

-Como vai Inutaisho? – pergunta reconhecendo a voz ao telefone

-Bem, queria apenas pedir que você espere um pouco não vou demorar a chegar em casa

-Como assim? Eu acabei de chegar no aeroporto

-A Izayoi não foi te buscar?

-Não, ela... – ele notou pelo silêncio de Inutaisho que ele também percebera o que ocorreu

-Tem uma senha para entrar. 1873

Daisuke desliga o telefone e corre para a área onde ficam os táxis, entrando em um que se encontrava desocupado e deu o endereço

-Se você chegar em 5 minutos dou o triplo

Quando estava no começo da rua viu o carro de Izayoi entrando pela porta que leva direto a garagem. Jogou um punhado de notas ao motorista e corre para a porta, digitando a senha em seguida, a porta se abre com um clique baixo. Atravessa o jardim a passos rápidos e repete o mesmo processo quando chega a porta

Puxa a pistola da lateral da calça com a mão esquerda e com a direita abre lentamente a porta. Viu Izayoi na cozinha bebendo alguma coisa, parecia que ia virar o líquido sobre si mesma pela maneira que segurava o copo, e Takemaru não muito longe de uma mesinha de telefone acabava de puxar uma pistola e aponta-a para as costas de Izayoi

-Não! - grita Daisuke, Takemaru vira-se e vê de relance o irmão antes de sentir o impacto

Takemaru se ajoelhou, colocando uma das mãos sobre o ferimento no abdômen enquanto a outra o ajudava a manter o equilíbrio. Izayoi tenta se aproximar dele, mas Daisuke aparece ao lado de Takemaru

- Paradinha aí. Não queremos mais ninguém machucado não é? – ela não notou quando ele chutou a arma de Takemaru para baixo do sofá, mantinha os olhos fixos no ferimento dele

Não podia deixá-la chegar perto de Takemaru, mesmo com uma arma apontada para a cabeça seu irmão não deixaria de ser perigoso. Não foi difícil voltar até a pequena mala de Takemaru que estava sobre o sofá e pegar uma corda que se encontrava dentro da mala. Amarra os pulsos dela, por garantia também os tornozelos, para que ela não resolvesse dar uma de heroína e pular em cima dele e deixa-a no que achou ser o local mais seguro da cozinha

-Deixe-a em paz! – Daisuke volta-se para o irmão, ele estava com o cabelo pintado de roxo, e usava lentes da mesma cor que usava antes, e vai até ele parando ao seu lado

-Você não parece tão indestrutível agora – diz com puro ódio colocando o pé na face dele – Achei que a situação estaria meio invertida depois de 4 anos ou talvez você não amasse tanto assim a Stacy

-NÃO SE ATREVA A FALAR DELA SEU IMBECIL! – responde e sem conter a fúria, Daisuke chuta-lhe o rosto

-Me atrevo sim porque se não fosse por você e seus malditos sentimentos muita gente teria sido poupada

A família Kyo, Stacy, alguns assassinatos aparentemente sem solução em Nova York. A lista que Daisuke fazia mentalmente era enorme, mas seu cérebro focou-se apenas em Stacy e Izayoi. Takemaru grita de dor ao sentir outro chute, mas esse fora pouco abaixo do ferimento, e cospe um punhado de sangue que havia se acumulado em sua boca. Daisuke segura Takemaru pelos cabelos e arrasta-o, sempre conseguira levar mais peso do que ele, e deixa o rosto do irmão na altura do de Izayoi

-Olhe. Olhe bem para esse rosto e pense em todo o futuro que tirou dela

-Você fez tudo isso pra me encontrar e eu já estou aqui. Solte-a... – diz Takemaru por entre dentes trincados, a dor não deixava-o pensar com clareza e o ferimento provocava uma dor insuportável o que só piorava a situação

-É verdade, mas você esqueceu uma coisa: todos aqui devem morrer hoje. – Izayoi chorava olhando para o rosto de Takemaru – O que você vai fazer agora? Tentar salvá-la? Sabe que não pode assim como não pode salvar a Stacy

-Não. – fala ele e tenta se livrar da mão em sua nuca – Por favor, não! Eu faço o que você quiser! O que quiser, mas deixe-a ir

-Você? –Daisuke ri abertamente, parecia que toda a raiva canalizada durante os anos haviam abruptamente voltado e o dava mais forças para querer que ele soubesse a verdade – O que eu poderia querer de você? Não passa de um trapo com os dois pés na cova – ele joga o corpo de Takemaru contra um dos pés da mesa – No fim das contas eu ganhei essa caça

A dor que Takemaru sentia parecia ter se apossado de cada centímetro de seu corpo e impedia que sua mente clareasse; ainda pode ver o rosto de Izayoi chorando enquanto chamava não por seu nome, mas pelo do irmão, o traidor que sempre tinha tudo o que queria. Num último suspiro sente o coração dar uma última batida fraca antes da vida se esvair do seu corpo

-Daisuke! Daisuke abre os olhos! Daisuke! – Izayoi sente as lágrimas caírem com mais força, não havia espaço em seu coração para nenhum dor a mais – Por quê? – pergunta virando-se para Daisuke que estava parado a meio caminho entre ela e o irmão, a voz embargada estava carregada de ódio – Por que não me matou antes? Por que não me mata agora e acaba logo com isso?

-Tudo o que eu fiz até agora foi para o seu bem. Se ao menos soubesse da verdade...

-Verdade? Tudo que escutei de você durante quase 10 anos era mentira! – grita tentando se desvencilhar das cordas, mas o nó era muito firme – Você sempre mentiu para mim! Não quero ouvir nada que venha de você! – sente seu corpo ser lançado e em menos de dois segundos suas costas e pernas latejam devido ao impacto contra o balcão.

-Você quer a verdade? A verdade é que se você não o houvesse recebido de braços abertos isso jamais teria acontecido! Você ficou tão cega que não pode ver quem era...

Daisuke inspira profundamente e vê que ela ainda chorava, pela pessoa errada era verdade, mas se havia uma coisa que nunca suportou foi ver o choro de uma mulher e para piorar ele havia descarregado sua raiva nela também. Então fala com a voz mais calma:

- Você ainda pode mudar tudo isso Izayoi. Ainda há tempo para nós dois. Você pode largar tudo isso e vir comigo ou termina tudo aqui, a escolha é toda sua.

Daisuke só queria que ela reconhecesse que era ele, que não era o Takemaru, que estava vivo e de pé, olhando para ela desejando apenas o seu bem enquanto ela derramava lágrimas para alguém que sinceramente não merecia

-Porque não acredita em mim? Você poderia mudar tanta coisa se simplesmente decidisse que sim – diz, quase implorando. Sabia que se ela aceitasse, haveria alguns problemas mas se era o que custava para tê-la ao seu lado já era mais do que o suficiente

-Já fui muito usada por você e sei muito bem o que faz com o que considera inútil. Como com a minha irmã – Daisuke fica receoso em dizer que a irmã dela ainda estava viva, e optou por não contar a não ser que ela aceitasse – Você matou uma criança inocente.

-Nunca levantei um dedo contra ela – ele lembra que Shinzui estava com uma amiga de confiança que adorava crianças, da última vez que fora vê-la parecia extremamente feliz – Por que não acredita em mim?

-Você queria minha resposta não é? Aqui está: eu prefiro morrer a ser usada por você novamente

-Então que assim seja – diz ele, a expressão dura como a voz não deixaram transparecer toda a mágoa que sentia

Ele atinge a base do pescoço dela com o cabo da arma. Ela desmaia no mesmo momento, ele segura-a entre os braços, passando os dedos levemente pelo rosto delicado. Sentiria muita falta dela.

-Daisuke o que você fez?

-Me livrei de um problema Inutaisho – diz levantando com Izayoi no braço e coloca-a no sofá, começando a desamarrar as cordas

-Achei que vocês eram parentes – fala parando ao lado de Izayoi e tira as cordas que haviam em seus tornozelos

-Deixou de ser quando eu tinha uns 17, quando brigamos por causa de uma garota. Chega a ser ridículo, mas eu não sabia que era a Izayoi, tinha visto ela apenas de longe e perguntei ao Takemaru se podia nos apresentar. Ele surtou.

-O que vai fazer agora?

-Voltar para a Califórnia. – diz levantando-se, olhando fixamente para o rosto de Izayoi – Quando ela acordar, diga que quem morreu fui eu e que você matou o Takemaru. Não conte nada a Tatsuhi, eu mesmo falarei com ela. Provavelmente ela vai insistir para que haja um enterro se for dê preferência a um crematório, não gostaria de ter motivos para destruir um túmulo – diz e morde o lábio com força. Porque tudo aconteceu daquela maneira? Podiam ter acontecido tantas coisas, mas parecia que tudo se resumia a morte

-Você está bem?

-Estou – ele abaixa-se e coloca a mão por baixo do sofá, procurando a arma que havia chutado para baixo do mesmo, ao encontrá-la coloca-a dentro da mala de Takemaru junto com as cordas – Pode fazer tudo o que eu disse? – Daisuke pega a mala e anda até a porta

-Posso. Mas você pode? – ele não responde, para quando chega a porta e vira-se sorrindo tristemente

-Adeus Inutaisho. Foi bom trabalhar com você, mesmo tendo me aposentado do FBI

Quando chegou a Califórnia, por volta das 9h da noite, Daisuke entra na casa em que fora criado durante boa parte da vida. Havia saído a 10 anos, mas ela parecia do mesmo jeito que se lembrava: a casa de dois andares tinha as paredes claras lembravam a da mansão em Nemuro, o jardim bem cuidado tinha algumas flores abertas apesar da hora tardia, apesar de tentar não conseguiu lembrar-se do nome das flores, não podia ver mas sabia que na lateral da casa havia uma piscina retangular . Entra na casa ouvindo o barulho da TV vindo de um dos quartos, Thomas devia estar acordado.

Vai até o quarto e dá uma leve batida na porta entrando em seguida. Thomas estava sentado em cima da cama, os cabelos castanhos estavam com uma franja que quase chegava aos olhos, mas eram curtos atrás, os olhos verdes esmeraldas fitavam Daisuke com repreensão, apesar de que havia um sorriso torto no rosto ovalado. Mas não foi nele que os olhos do rapaz estavam e sim na figura ao lado dele. Stacy parecia igualmente surpresa em vê-lo. Ela ainda tinha os cabelos dourados, mas pareciam ligeiramente mais compridos, os olhos eram tão verdes quanto o do irmão sentado ao seu lado.

-Stacy... – não conseguia sentir os músculos, parecia que seu cérebro havia parado durante o tempo que ficou olhando para ela antes de Thomas levantar-se

-Acho que vocês precisam de um tempo – fala ele e sai do quarto deixando-os a sós

-Daisuke o que você... – ela não teve tempo de completar, ele havia abraçado-a e chorava como nunca havia visto ele fazer na vida

-Ai meu Deus, eu achei que você... Eu... Desculpe-me, Stacy eu queria ter chegado antes, mas...

Stacy afastou-se dele que pareceu não entender o gesto. Tatsuhi havia afinal cumprido sua promessa e não contou nada a ele. Sentiu os olhos se encherem de lágrimas, além de perder o movimento das pernas e quase os do resto do corpo, havia perdido também a única pessoa que amara mais que a vida para uma desconhecida. Daisuke encosta a ponta dos dedos na parte inferior dos olhos dela, tirando a lágrima que acabara de ser formar, mas num gesto brusco ela dá um tapa na mão dele

-Vá embora Daisuke

-O que? – pergunta ele estranhando a voz embargada, era óbvio que ela estava magoada com algo, mas não conseguia pensar em nada. Tenta encostar a mão em seu ombro, mas ela dá outra tapa, dessa vez mais forte, em sua mão

-Vá embora Daisuke!

-Mas por que...

-Vai embora! Não vê que não sinto nada por você além de nojo? VÁ EMBORA!

-Por que isso? Por que agora você tem nojo de mim?

-Eu não amaria um homem que tem outra mulher! – Stacy vira o rosto, e deita-se na cama abraçando o travesseiro, as lágrimas caiam molhando o tecido fino

Daisuke levanta-se e como se seu cérebro estivesse em modo automático vai até seu quarto, jogando-se na cama. Parecia que um furacão havia entrado na sua cabeça e bagunçado todas as informações. Como ela sabia da Izayoi? E mais importante ainda: porque ela estava viva e não havia tentado falar com ele? E então a única resposta possível veio a sua mente. Ela devia estar com outra pessoa. Não, ou ela não falaria aquilo na breve conversa dos dois, mas quanto mais remoia os pensamentos mais o que ela devia amar outro voltava com cada vez mais força.

Se era assim então também teria que deixá-la, mas se fosse qualquer uma das outras bilhões de soluções que lhe passaram pela cabeça não desistiria dela. Faria o possível e o impossível para deixá-la feliz novamente, ao menos isso acalentaria a culpa que sentia.