Capítulo 10

"Fica Comigo"

Eu ainda xingava baixo, alisando frenéticamente com uma das mãos o local onde tinha batido a outra. Eu normalmente tinha essa tendência a socar as coisas quando estava irritado... Frustado... Ou profundamente aborrecido.

Porque? Porque ela tinha que ir embora? Porque eu não era homem o sufiente para encarar de frente o que sentia e obrigá-la a ficar comigo?

Não... Eu não podia fazer isso. Sango desde o começo deixara claro o quanto era diferente de nós. Seu nível de vida era outro e ela sempre se sentira obrigada conviver com uma situação pela qual não pedira. Por Deus, aonde estava com a cabeça quando lhe fez aquela proposta? Tudo bem, estava preocupado com Sura, mas acabou envolvendo em sua triste história alguém que não tinha nada a ver com ela.

E ao mesmo tempo, acabou envolvendo-se a tal ponto com essa jovem linda e estranha, que agora entrava em desespero com a simples possibilidade de nunca mais vê-la.

- Estou pronta. _ a sua doce voz alcançou meus ouvidos com uma faca cortando o meu coração. Ao me virar, vi que suas coisas arrumadas em duas malas. Uma estava próxima de seus pés, já que os braços ela usava para sustentar Taichi. A outra era puxada por uma Sura de olhos inchados.

- Bom, acho que... _ eu gaguejei. Porque era tão fraco? _ ... Acho que podemos ir.

- Sim. _ ela disse, com seriedade.

Foi sua última palavra até chegarmos ao local de onde os comboios partiriam. Sango permaneceu quieta por todo o caminho e isso me deixava profundamente nervoso. Eu não queria perdê-la. Ela era de extrema importância para mim e agora eu a via partir sem fazer nada para impedir. Mas eu não podia me meter mais. Já tinha interferido muito em sua vida para ter direito a mais qualquer coisa.

Na hora de deixar Sango na estação, o clima estava muito pesado. Sura chorava muito abraçada à Sango.

- Querida, nós temos que ir. _ eu tentava ponderar.

- Não! _ ela teimava _ Eu não quero que ela vá embora.

Sango sorriu de leve. Minha nossa, como eu amava aquele sorriso. Senti um novo aperto no peito ao perceber que talvez fosse a última vez que eu o visse.

- Sura... _ ela tirou o medalhão que costumava usar no pescoço, entregando-o a minha filha _ ... Toma.

- Mas... _ Sura passou o braço nos olhos para secar as lágrimas _ ... Mas isso foi a sua mamãe que te deu, Sango!

- Eu sei. _ Sango respondeu, nivelando sua altura a dela _ E é por isso que eu quero que fique com você. Para que você se lembre que não importa o quanto estamos distantes uma da outra, eu vou sempre pensar em você e sempre estarei aqui _ colocou a mão no peito dela _ bem pertinho do seu coração, meu amor.

- Sango! _ Sura lançou-se nos braços dela, chorando com ainda mais vontade _ Eu também não vou te esquecer. Eu amo você!

Sango também começou a chorar.

- Eu também te amo. Muito.

Aquilo era demais para mim. Eu tinha que fazer alguma coisa.

- Sango... _ senti seu nome escapar entre meus lábios.

- Sim? _ ela levantou-se depressa, olhando-me com olhos ansiosos.

Para minha frustação, as palavras não vieram.

- Boa... Boa viagem. "Seu burro!" _ eu me xinguei, mentalmente. O seu rosto voltou a ficar sério.

- Obrigada.


Quando chegamos no sítio, Sura ainda estava chateada comigo então ela saltou da carroça e correu para o novo celeiro. Eu suspirei, tão aborrecido comigo mesmo quanto ela.

Entrando para dentro de casa, eu continuava me censurando por ter sido tão imbecil ao ponto de nem ao menos dizer a ela o que eu sentia.

- "E se ela não me quisesse?" _ eu tentava me justificar _"Não suportaria perder outra vez a mulher da minha vida..." _ de repente, estaquei na cozinha _ E o que é que aconteceu? _ me censurei, em voz alta _ Você a perdeu do mesmo jeito, imbecil!

Indo diretamente ao meu quarto, me joguei na cama, tacando longe todas as almofadas.

- Burro! Burro! Burro! _ eu repetia infinitas vezes _ Miroke, você é um imbecil!

Eu sentia as lágrimas em meus olhos. Não... Não podia ser verdade. Ela não tinha realmente partido e me deixado aqui para sofrer sozinho. Tinha que ter uma explicação.

Foi nessa hora que, ao me virar de bruços na cama, pude ver no chão, próximo a escrivaninha, um pequeno papel cor de rosa, onde havia uma mensagem deixada na delicada letra de Sango que tantas vezes eu vira ser escrita durante as aulas de Sura:

O COMBOIO PARA KYOTO PARTE AMANHÃ, MAS EU NÃO QUERO IR.

PEÇA-ME PARA FICAR.

COM AMOR, SANGO.

Senti as lágrimas voltando aos meus olhos, mas agora eram de felicidade. Sango não queria ir. Por isso estava tão séria. Por isso pareceu ansiosa quando eu a chamara, ficando séria de novo quando lhe desejei boa viagem.

Ela não queria ir. Queria ficar com ele e Sura. Queria que ele a impedisse e ele fora lento demais para perceber. Escrevera o bilhete por esse motivo. Com certeza o colocara perto do livro que sabia que ele pegaria e que Sura provavelmente o tinha derrubado ao pegar o livro com pressa a seu pedido.

Sango me amava... Amava talvez tanto quanto eu mesmo a amava.

De repente cheio de coragem, voltei a correr pela casa, procurando por Sura. Ela agora estava na sala, sentada em uma das poltronas. Ela ainda chorava sobre os joelhos próximos ao rosto, abraçando as pernas.

- Sura! _ eu chamei, e ela virou os olhos vermelhos para mim _ Eu vou sair. Não abra a porta para ninguém, está bem?

- Onde o senhor vai? _ ela questionou, com voz fraquinha.

- Vou trazer a Sango de volta. _ eu disse antes de sair em busca do meu cavalo mais veloz. Ainda pude vislumbrar um sorriso se formando no rosto dela.


Na carroça onde eu estava, havia mais duas senhoras que conversavam a respeito da viagem. Eu não compreendia suas palavras. Não me interessavam nem um pouco. Taichi dormia profundamente sobre a manta dobrada no banco, bem ao meu lado. Pelo menos eu sei que ele sempre estaria comigo. Muito diferente do... Meus olhos voltaram a se encher.

Os minutos se arrastavam e a conversa das mulheres continuava. E eu continuava não dando a mínima atenção até que uma delas disse algo que me incomodou:

- Graças a Deus estou saindo desse fim de mundo!

Virei-me para ela bruscamente.

- Não deveria falar assim. _ eu ralhei _ Esse lugar é lindo. Os campos são férteis e há muitas flores e animais. E as pessoas são muito boas... _ eu a analisei _ ... Bom, pelo menos a maioria delas.

- É um lugar esquecido por Deus. _ a mulher teimou _ Fica longe de tudo. Se você ficar doente, você morre sem atendimento. Sem contar nesse monte de matas cheias de animais selvagens. Só mesmo sendo louco para ficar aqui.

- Ou estar profundamente apaixonado. _ a outra senhora soltou, me observando.

Eu decidi não continuar com aquela conversa sem sentido. Virando-me para fora da tenda da carroça, podia vislumbrar os requísios do lugar onde eu fora mais feliz. Foi quando algo me chamou a atenção. Um som distante, mas de uma familiaridade sem tamanho. O som que sempre enchia meu peito de calor e alegria. A voz de Miroke.

- Sango! _ eu pude ouvir novamente, agora com mais nitidez. Não era ilusão. Ele estava MESMO ali.

Enfiando a cabeça para fora, eu comecei a procurar frenéticamente até vislumbrar o cavalo negro que se aproximava em alta velocidade do comboio.

- Pare! _ eu gritei, sem pensar _ Pare a carroça!

- Que isso, está louca minha filha? _ a senhora rabugenta ralhou. Eu a ignorei.

- Por favor, pare a carroça! _ voltei a gritar e o condutor puxou as rédeas. O veículo estava parado.

- Eu mereço, viu! _ a mulher reclamou. A outra riu.

Miroke completou a distância em poucos instantes, parando o cavalo bem ao lado da carroça.

- Graças aos céus! _ ele exclamou, ofegante _ Eu pensei que não fosse chegar a tempo.

- Você é louco? _ eu ralhei, embora estivesse radiante em vê-lo ali _ Vir nessa velocidade em cima de um cavalo. Poderia ter caído! _ a lembrança de meu antigo marido morto me assomou. Não suportaria ver Miroke da mesma maneira.

- Eu faria tudo de novo... Por você. _ seus olhos fixaram os meus. De repente, éramos a atração da viagem. Senti o rosto voltar a esquentar.

- Mi-Miroke...

- Sango... Por favor não vá.

- Miroke... _ a emoção me invadia. Era verdade, não era? Ele estava realmente me pedindo, não estava? _ Miroke, eu...

- Ô, mocinha... _ a voz irritante da mulher veio aos meus ouvidos _ ... É pra hoje ou tá difícil? Eu quero chegar em Kyoto antes de anoitecer.

- Tenha calma, minha amiga. _ a senhora mais gentil falou _ Não vê que tem algo maior acontecendo aqui?

A mulher ranzinza bufou, cruzando os braços e virando o rosto.

- E-Eu... Eu não sei. _ eu voltei a olhar para ele _ Miroke, você... Você realmente quer isso?

Ele desceu do cavalo, subindo no primeiro degrau da carroça. Ele ficou em um nível um pouco mais baixo, segurando minhas mãos com firmeza.

- Sim. Por favor. _ ele dizia _ Sango, fique conosco... Fica comigo. _ ele completou, seus olhos fixos nos meus _ Eu amo você.

Não tenho palavras para descrever a emoção que senti. Não pude conter meu sorriso. Soltando as minhas mãos das dele, eu as coloquei eu seu rosto, querendo puxá-lo para cima.

- Eu também amo você. _ eu confessei, emocionada.

Percebendo a minha intenção, Miroke subiu o próximo degrau que já era o chão da carroça, ficando em sua altura normal. Nossos lábios se encontraram, cheios de paixão.

Não sei por quanto tempo ficamos daquele jeito. Só sei que logo que ele me beijou, abraçou meu corpo com força ao seu, como se para intensificar o que queria passar com a boca. Também tenho uma vaga lembrança de assobios e aplausos a nossa volta.

Quando nos separamos, ainda sorríamos um para o outro indiferentes ao que acontecia em volta. Dando-me um selinho leve, Miroke pegou minhas malas, atrelando-as ao cavalo. Depois me ajudou a subir com Taichi no animal, fazendo questão de prender o meu braço livre a sua cintura. Ainda havia aplausos quando saímos cavalgando de volta para casa.


Como fomos mais devagar de volta para casa por causa do bebê, o sol já estava se pondo quando chegamos no sítio. Sura havia arranjado uma ocupação enquanto esperava por nós. Estava pintando uma das paredes do celeiro. Vi que um imenso sorriso se abriu em seu rosto ao nos ver e ela pareceu dizer algo que, pela minha leitura labial parecia ser "Mamãe", antes de vir correndo em nossa direção.

Senti a felicidade me invadir. Minha família estava completa.

Entregando Taichi a Miroke, eu me abaixei para abraçar Sura quando ela me alcançou.

- Estou tão feliz! _ ela exclamou, me abraçando muito forte.

- Eu também. _ comentei.

- Você não vai mais embora? _ ela perguntou, os olhos em busca dos meus.

- Não. Não vou mais.

- Que bom. _ ela sorriu e começou a querer tirar o medalhão, talvez na intenção de me devolver.

- Não, isso é seu. _ eu a impedi.

- De verdade? _ ela sorriu mais ainda _ Obrigada, mamãe! _ ela voltou a me abraçar.

Meus olhos se encheram de lágrimas. Eu sabia que Miroke estava sorrindo atrás de mim.

- De nada, minha querida. _ eu respondi _ Pode levar o Taichi para dentro? Acho que está louco pelo bercinho dele. _ Miroke tinha feito para mim de presente de natal, quando eu ainda estava grávida.

- Claro que sim. Vem Taichi. _ ela o pegou com cuidado, indo para dentro.

Eu os observei desaparecer de vista, levantando-me.

Senti os braços de Miroke em volta do meu corpo. Seus lábios próximos ao meu ouvido.

- Então... Agora você é realmente a senhora Houshi...

Senti as bochechas esquentarem.

- Pelo que parece...

- Você... Está arrependida? _ ele perguntou inseguro.

Eu virei meu corpo para ele, incrédula.

- Miroke, eu salto de uma carruagem por sua causa e você ainda tem dúvidas?

Ele riu.

- É... Tem razão.

E tomou meus lábios outra vez. Ficamos sozinhos por mais alguns minutos até eu ouvir o choro de Taichi. Miroke riu, a boca ainda na minha.

- Acho que o bebê está com fome, mamãe. _ ele comentou, ainda rindo.

- É... Acho que sim.

Dei-lhe mais um toque rápido antes de me separar dele para ir atender meu filho. Mas não nos separamos totalmente. Ainda tínhamos as mãos unidas enquanto entrávamos em casa.

FIM


Acabou...

E aí? Gostaram? Eu particularmente amei esse filme e me emociono todas as vezes que o assisto. Para quem ainda não viu, ele sempre passa na Sessão Viva do canal a cabo VIVA. Quando menos se espera, lá está ele passando de novo.

Vale muito a pena.

Espero que tenham gostado da história e que sigam comigo nos próximos trabalhos.

Um super beijo a todos